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Perfeccionismo só é defeito quando mal utilizado

Perfeccionismo só é defeito quando mal utilizado

Henrique Szklo - Iscas Criativas -

Ao ser questionada sobre quais são seus defeitos, muita gente coloca, envergonhadamente, o perfeccionismo como um dos mais tóxicos, como está na moda dizer. Muitos, inclusive, culpam este presumido defeito por não conseguirem realizar trabalhos criativos. Lamento dizer, mas isso não passa de uma desculpa maltrapilha para não se desafiarem, para não seguirem um caminho arriscado. Um alvará de liberdade para justificar sua pouca determinação e coragem. E também um medinho de decepcionarem-se consigo mesmas ou de serem objeto de crítica de outros. Em resumo, usam o pretenso perfeccionismo como escudo. O genuíno perfeccionista não estanca diante de uma dificuldade. Ao contrário, acredita que parte do mundo perfeito que anseia depende, em alguma medida, de sua colaboração direta.

Não se engane: criatividade, dentre tantas outras atividades, depende, sim, do perfeccionismo para chegar a níveis elevados de excelência. Não é defeito, ao contrário, é condição indispensável e insubstituível. Criativo que não se preocupa obsessivamente com a qualidade final de seu trabalho vai ser apenas um cidadão esforçado obediente e subserviente ao senso comum.

Quando o perfeccionismo é virtude

O que talvez colabore com este engano seja a concepção equivocada de como funciona o processo criativo. O perfeccionismo deve ser utilizado como fim e não como meio. A busca pela impossível perfeição só pode ser considerada uma virtude quando miramos o resultado final, generosamente abrindo mão de seu apoio durante todo o resto de geração de novas ideias.

Estratégia para vencer

O pensamento estruturado é o segredo do processo criativo. Para facilitar a explicação, pensemos nele como um jogo. Estratégia, planejamento e regras são elementares para resultados além do senso comum. Temos uma missão final: matar o vilão, como ocorre em alguns games. É evidente que não podemos dar início ao jogo preocupados com um o evento que somente enfrentaremos após superarmos uma numerosa e trabalhosa quantidade de fases e dificuldades progressivas, para então nos engajarmos na batalha final.

Não adianta, sequer, pensar na fase seguinte da que estamos. Para sermos bem sucedidos, devemos botar todo o nosso foco e energia na ultrapassagem de desafios imediatos, esquecendo por momentos de nosso propósito final. A diferença é que, nos games, não temos como subverter esta regra, mas no processo criativo sim. Vejo muita gente preocupada em encontrar a ideia genial ainda no início do processo. Atropelam as fases e se perdem. E aí game over. É nesse momento que confundem o perfeccionismo com a falta de perspectiva de avanço. Por isso não dá certo. Ou, se por acaso der, acontecerá uma em um milhão de vezes.  Tal comportamento bloqueia o fluxo de ideias, que no início do processo deve ser torrencial, quase diluviano. Sem julgamento, sem preocupações, sem se importar se aquelas ideias chegarão lá ou não. Perfeccionismo zero.

Encerrada esta fase, só então partiremos para a próxima. Conforme formos avançando no processo, nosso nível de julgamento deve crescer proporcionalmente. Até que chegue o momento crucial de enfrentar o chefão. E aí sim, tentaremos alcançar o patamar que sonhamos quando iniciamos o processo. É o que eu chamo de Julgamento Progressivo. Os não familiarizados com o processo insistem no mesmo padrão de julgamento em toda a jornada, inviabilizando praticamente qualquer possibilidade de novas (e melhores) ideias surgirem. Ou seja, diminuem consideravelmente a possibilidade de vencer esta partida. Mas atenção: mesmo na última fase, o perfeccionismo deve ser associado à excelência criativa e não a nosso conforto psicológico, dois conceitos diametralmente opostos.

A turma do funil

Outra forma de ver é pensar em um funil, uma imagem muito utilizada hoje na comunicação digital. Começamos com uma abundante quantidade de ideias e, conforme o processo for avançando, vamos depurando as soluções, utilizando técnicas específicas até chegarmos a uma ou algumas poucas ideias que apresentem potencial de sucesso. Sim, potencial. Como sempre digo, no mundo das ideias não existe certeza, apenas esperança. De qualquer maneira, só conseguiremos potencializar nossa capacidade criativa respeitando e preservando a estruturação do pensamento. Não precisa ser essa, que é a minha visão pessoal, mas qualquer uma que organize sua cabeça em prol de um melhor desempenho criativo.

Uma utopia necessária

Chamo o tal do perfeccionismo, a que muitos atribuem seu fracasso, de Utopia Criativa. O que é uma utopia, senão um desejo que jamais se concretizará, mas que, como propósito, serve como impulsionador, ou seja, nos ajuda a manter um movimento de avanço. Nos faz ir além de nossa própria vontade. A Utopia Criativa é o desejo de ser genial em cada ideia que tivermos para resolver problemas relevantes. Mas seremos geniais? Provavelmente não. Por isso é uma utopia. Seremos perfeitos? Não. Mas a busca pela perfeição é talvez nossa maior aliada na construção de ideias e soluções relevantes.

A Utopia Criativa – ou o perfeccionismo – tem de servir como motivação e não como obrigação. Isso é muito importante entender. Digo sempre que temos de ser prepotentes no objetivo mas humildes na jornada. Até porque para se alcançar a chamada big idea, não podemos nos enganar, achando que basta um lapso da tal genialidade para sermos bem sucedidos. Qualquer um, até os autênticos gênios, precisa se esforçar, estudar, pesquisar, tentar, errar, tentar de novo até que consiga (ou não) chegar ao olimpo.

A luta contra o inconsciente

Sem o desejo de alcançar a perfeição, nos satisfaremos com ideias menos efetivas e criativas. Existem forças descomunais em nosso cérebro que lutam contra o novo, o diferente, o não conhecido, componentes obrigatórios em uma ideia de primeira. Estas forças nos fazem desistir antes do tempo, usando o medo como instrumento. Temos medo de sair do padrão, de ofender o lugar comum, de corrermos o risco de sermos ridicularizados, de ofender de alguma forma nosso grupo social. É o que eu chamo de Disruptofobia.

Quando não sabemos gerir nosso pensamento, nos deixamos levar por sentimentos que não são motivados por julgamento de valor e sim por atavismo. O inconsciente trabalha a favor da zona de conforto, por isso sentimos um incômodo desestimulante e, ingenuamente, desistimos da ideia, acreditando que o tal desconforto é sinal inequívoco de que a ideia não deve prestar. Pode acreditar: todo grande criativo é perfeccionista. E sabe que uma ideia nova jamais nos oferecerá tranquilidade, certeza e até mesmo lógica. Na verdade, precisamos aprender a enganar nosso inconsciente para atingirmos a subversão, a quebra de padrão, a alta criatividade.

Aprenda a fazer Gestão do Pensamento

Criar não é tão difícil como se pensa mas não deixa de ser um processo delicado, cheio de nuances e mudanças de padrão mental para se chegar ao objetivo. Deixar a cabeça pensando livremente, sem algum tipo de orientação, irá dificultar, retardar e, por muitas vezes, inviabilizar a possibilidade de se chegar o mais próximo possível da chamada perfeição. É preciso utilizar a Gestão de Pensamento, que descreverei algum dia em outro artigo.

Vou dizer mais: quem não é verdadeiramente perfeccionista não merece respeito profissional. Em qualquer atividade, criativa ou não. Não está preocupado com o que faz nem com o resultado de seu próprio trabalho. Desrespeita seu empregador, seu cliente e, principalmente, a si mesmo. Então, se eu posso dar um conselho, seja perfeccionista. E apague de uma vez por todas essa bela característica de sua lista de defeitos.

 

Artigo postado originalmente no meu blog em março de 2020

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