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Gustavo Bertoche - É preciso lançar pontes. -

Amigos do Café Brasil, tenho visto recentemente uma grande reação à sugestão de uma professora chamada Ana Caroline Campagnolo, eleita deputada estadual em SC, a que os alunos gravem as aulas de seus mestres.

O contexto dessa sugestão é a acusação de estudantes a professores que sustentam posições político-partidárias em classe – e que, em alguns casos, chegam até a intimidar os alunos que pensam de modo diferente.

Honestamente, não compreendo a reação à proposta da professora deputada.

Amigos, acredito que um mestre não deveria lecionar senão o estado da questão do objeto da lição – seja nas disciplinas científicas, seja nas humanidades. Reconheço que isso é trabalhoso: é preciso, ao preparar cada aula, percorrer a bibliografia atualizada sobre o assunto, o que leva tempo. Felizmente, hoje em dia temos acesso fácil a periódicos do mundo inteiro nos quais podemos encontrar artigos de qualidade para nos subsidiar na preparação de nossa matéria.

“Ah, mas e a questão política? A educação também é política! As aulas devem ser políticas!”

Claro que sim! Toda a educação é política; afinal, ela ocorre dentro da pólis e visa à formação da civilização em cada educando. Ou seja: ensinar matemática, língua portuguesa, química ou filosofia é desenvolver a civilização em cada estudante por meio de um esforço que somente ocorre no interior de uma pólis. A educação emancipa o ser humano. Ela sempre é uma atividade política.

Mas afirmar a natureza política da educação não é o mesmo que sustentar que ela deva ser partidária. A educação não deve ter partido; ou melhor: o partido da educação deve ser a civilização, o que inclui todos os partidos políticos.

Nesse sentido, o mestre que defende um partido – de direita ou de esquerda, tanto faz – em sala de aula não age politicamente; pelo contrário, rebaixa-se à condição de propagandista, de proselitista, de panfletário.

Por exemplo: como um professor de humanidades deveria abordar 1964? Como golpe, revolução, contra-revolução? Ora, há bibliografia acadêmica a defender cada uma dessas perspectivas. Em vez de simplesmente ensinar, como verdade inconteste, a sua posição preferida, o mestre deveria expor as três posições, com os seus respectivos argumentos favoráveis e contrários, e apontar as referências para o aprofundamento do estudo. Ao fim, cada aluno poderia chegar a uma conclusão independente. Isso é estimular a razão comunicativa; é contribuir para a reconstrução da civilização em cada jovem; é tornar verdadeiramente política uma aula. E por que não possibilitar a gravação de uma aula com esse teor?

De fato, há três razões pelas quais defendo o direito de qualquer aluno registrar o conteúdo de uma aula:

(1) Um mestre não deveria afirmar, em suas aulas, nada que não possa subscrever publicamente. Se algum conteúdo de sua aula não é pedagógico, então esse conteúdo deveria ser eliminado, pois o tempo em classe é escasso e valioso. E se o discurso do professor é, de algum modo, inadequado para ser gravado, então simplesmente não deve ser dito.

(2) Uma aula, por sua própria natureza acadêmica, não é privada em absoluto. Ela é – ou deveria ser – a exposição do estado de um problema científico (seja das ciências naturais, seja das ciências humanas). Portanto, como toda a ciência, uma aula deve ser potencialmente publicizada para toda a comunidade.

(3) Ademais, a formação de um professor é um esforço de toda a sociedade – que lhe custeou ou financiou a universidade (que nunca é “gratuita”), que lhe concedeu bolsas e auxílios, que eventualmente lhe paga o salário. O fruto de seu trabalho, portanto, pertence também à própria sociedade. E como pagar essa dívida? Trabalhando de graça? Não: possibilitando a publicização de seu trabalho.

Haveria, contudo, uma razão legítima para a recusa do mestre em se deixar gravar? Sim: caso vivêssemos em estado de exceção, em que o estudo de determinados autores ou a discussão acadêmica de certas idéias pudesse causar perseguição política. Todavia, a despeito do que alguns sustentam, eu não vejo, atualmente, isso acontecendo em nosso país. Tenhamos o senso das proporções: a demissão (justa ou injusta) de um professor que faz campanha política em classe não é equivalente à prisão de um professor por causa do tema de sua pesquisa científica.

Enfim, amigos: as razões que considero legítimas para a gravação do trabalho de um mestre em classe talvez não sejam exatamente aquelas da professora Ana Caroline Campagnolo. Mas, do mesmo modo que ela, considero injusta a reação à sua sugestão, que, para mim, nada mais é do que a confirmação de um direito efetivo de todos os estudantes.

* * *

A propósito: sou professor no ensino médio desde 2001 e no ensino superior desde 2013. Meus alunos são testemunhas: não somente autorizo, mas encorajo a gravação de todas as minhas aulas. Afinal, o que eu deveria temer?

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