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O domínio da língua não se esgota na leitura e na escrita proficiente. A língua é composta por muitas linguagens que se inscrevem em diferentes regiões hermenêuticas. Ao transitar por um texto escrito numa região hermenêutica desconhecida, um leitor se encontra numa situação de analfabetismo simbólico – ele não interpreta corretamente o texto porque desconhece os complexos nos quais os seus símbolos se relacionam. Esse leitor está como que diante de um texto escrito noutra língua, uma língua ignorada. Todavia – e aí está o problema –, ao ler o texto que escapa ao seu horizonte simbólico, ele acredita compreender o que está escrito, porque sabe o significado ordinário das palavras que ali estão. O exercício intelectual mais difícil é o reconhecimento da própria ignorância: se eu conheço todas as palavras de um texto, como chegarei à conclusão de que a ordem em que elas são dispostas pode fazer emergir um nível hermenêutico de cuja existência não suspeito, um nível hermenêutico que eventualmente conferirá às palavras lidas um significado completamente diferente – e mesmo invertido?

* * *

Tenho certeza: a perda da participação do brasileiro comum nas diversas regiões hermenêuticas da língua é conseqüência do abandono da nossa literatura e da nossa poesia.

Temos bons escritores e poetas? Sim. Mas temos os leitores correspondentes? – Quantos romances brasileiros lançados recentemente você leu? Quantos livros dos nossos poetas vivos você comprou neste ano?

Não duvidemos: a morte da nossa literatura e da nossa poesia é o augúrio da insuficiência civilizacional brasileira.

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