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“Sabemos que ninguém jamais toma o poder com a intenção de largá-lo. O poder não é um meio, é um fim em si. Não se estabelece uma ditadura com o fito de salvaguardar uma revolução; faz-se a revolução para estabelecer a ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder.“

George Orwell

Recentemente me perguntaram quais os livros que mais influenciaram meu gosto pela leitura. Não precisei pensar muito para responder: Capitães da Areia, de Jorge Amado, foi o que despertou meu interesse pela leitura; mais tarde, 1984, de George Orwell, exerceu e exerce ainda hoje grande impacto em minha forma de pensar e enxergar o mundo.

Assim, não é difícil entender a razão pela qual o livro de Orwell, um dos maiores sucessos da literatura universal, traduzido em 65 países, veio à minha memória tantas vezes nas últimas semanas, marcadas por episódios como a derrubada de estátuas de Cristóvão Colombo e dos generais confederados Edward Lee e Jefferson Davis em vários estados dos Estados Unidos e em Bristol, na Inglaterra, onde a estátua de Edward Colston foi arrancada de seu pedestal e jogada em um rio. Colston foi alto funcionário da Royal African Company no final do século XVII, empresa que enviou centenas de milhares de pessoas da África Ocidental à escravidão na América do Norte e Caribe. Também ocorreram ameaças de destruição de outras estátuas noutras partes do mundo, em consequência do assassinato de George Floyd, um negro norte-americano, por policiais brancos no estado de Minneapolis. O fato desencadeou inúmeras manifestações contra o racismo, que se espalharam para outros países.

Em 1984, escrito em 1948 – o título é resultante de um jogo com os dois últimos algarismos do ano em que o texto foi concluído – Orwell, um ex-comunista arrependido, pretende fazer uma crítica ao totalitarismo representado pela concentração absoluta do poder pelo Grande Irmão, o líder supremo que, por meio da teletela, tudo ouve e tudo vê, mas que não é visto por ninguém.

O protagonista do romance é Winston Smith, funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, que trabalha como revisor da história, com a função de reescrever notícias do passado para adequá-las ao presente, perpetuando um regime político em que o controle social é exercido pela desinformação e vigilância constantes. Em seu trabalho, Smith alterava os registros históricos todas as vezes que estes não fossem do interesse do Grande Irmão. Dessa forma, fatos eram modificados, livros eram incinerados, nomes eram eliminados e substituídos por outros num processo de revisionismo que teve vários exemplos no mundo real, sendo talvez o mais conhecido o da Rússia dos tempos de Stalin.

Embora imaginasse estar descrevendo um futuro extremamente remoto, quase tudo que foi descrito por Orwell tornou-se realidade em muito menos tempo do que ele supunha. Em 1984, a BBC produziu um documentário a esse respeito, reproduzido no Brasil pela Rede Manchete. De lá para cá, com a espantosa evolução da tecnologia, as possibilidades de controle da informação se expandiram muito mais, dando origem, de tempos em tempos, a diferentes tipos de tentativas de revisar o passado, descontextualizando os acontecimentos e desconsiderando as transformações da história. Tais tentativas costumam deixar – independentemente dos fatos que lhes dão origem – um saldo negativo e perigoso, no qual uma palavra se sobressai: intolerância.

 

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Referências bibliográficas

AMADO, Jorge. Capitães da Areia. Rio de Janeiro: Record, 1993.

ORWELL, George. 1984. Tradução de Heloisa Jahn e Alexandre Hubner. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

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