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Henrique Szklo - Iscas Criativas -

Fiz este alerta no título por um motivo muito simples: para um radical não existe nada mais ofensivo do que a lógica. E como eu adoro a lógica, o risco deste artigo ofender as pessoas é imenso. Principalmente, porque costumo utilizar o pensamento lógico para questionar as crenças mais caras e profundas do ser humano. Veja bem, eu disse questionar e não atacar. Mas isso não muda nada. Para os cabeçudos, a simples proposta de questionamento já merece uma saraivada de balas. Não faço isso por sacanagem. Até porque vivo questionando as minhas próprias crenças o tempo todo. Tá bom, de vez em quando é por sacanagem mesmo…

Os inimigos da lógica costumam ser “radicais islâmicos” em suas escolhas. Incapazes de vislumbrarem o meio termo, enxergam apenas os opostos. Se morar no deserto não está bom, o melhor é nos mudarmos para o Polo Norte. Por isso, estou cada vez mais convicto de que é perda de tempo argumentar com quem está mais preocupado em estar certo do que em ter bom senso.

A estrutura de pensamento que sustenta a zona de conforto de um sujeito emperrado é formada eminentemente por certezas inquestionáveis. E quanto mais inquestionável, maior o conforto. São temas que estão cristalizados e guardados nos locais mais profundos da mente, justamente para se evitar que sejam manipulados. Por isso, quando você propõe uma reflexão sobre estes assuntos, a reação instintiva dos intransigentes é o ódio. Mexendo neste vespeiro, você estará inconscientemente dizendo ao xiita que pretende tirá-lo de sua zona de conforto. E isso não se faz com um cidadão de bem que paga suas contas, deixa a velhinha passar à sua frente na fila e cumprimenta o porteiro.

É mais ou menos como chutar o banquinho debaixo de uma pessoa sentada nele. A raiva é natural e compreensível. Porém, Deus nos deu (sic) a capacidade de raciocinar e não funcionar como bestas automatizadas, ou seja, somos os tais seres ditos inteligentes. Isso posto, você pode reagir de duas maneiras: partir para cima do agressor ou, antes, perguntar por que ele fez aquilo, por que chutou seu banquinho sem avisar. Quem sabe, ele viu um escorpião chegando na sua bunda e, sem tempo para avisá-lo, resolveu tomar uma medida mais drástica? Quem sabe? Pode ter sido por maldade mesmo, mas sempre existe a possibilidade de não ser exatamente aquilo que parece ser. E reconhecer e considerar a existência de várias possibilidades diferentes diante de um mesmo evento chama-se “reflexão”.

O pensamento lógico é um chute no banquinho dos desafetos da reflexão. Sentaram ali e não querem saber mais de nada. Dane-se o mundo. E, pasmem, a maioria prefere correr o risco de ser picado pelo escorpião do que pensar se aquele é o melhor momento e lugar para se sentar. Os impermeáveis à lógica vão dizer que aquilo não é um escorpião, ou que é um escorpião sem veneno, ou que escorpião não pica, e a maior desculpa de todas: eu vi na internet que picada de escorpião previne o câncer (É verdade, você não vai ter câncer. Vai morrer antes com a picada). Alguns chegam ao cúmulo de, inclusive, responder aos argumentos desviando o assunto proposto: “Você chutou meu banquinho porque o comunismo…”. Ou seja, a intransigência é capaz de ir bem longe atrás de justificativas as mais estapafúrdias para se negar o bom senso.

Não quero dizer com isso que o cabeça dura não respeita a lógica, claro que respeita. Mas uma lógica seletiva, aquela que confirma suas crenças. Porque a que não respeita é considerada blasfêmia.

O teimoso vocacional não percebe que questionamento sério não é uma ameaça e sim uma oportunidade de crescimento. A dúvida é nossa amiga e não braço direito do diabo. Quando refletimos honestamente diante de um questionamento, podemos mudar de opinião, claro, mas podemos também concluir que estávamos certos desde sempre, confirmando nossas crenças e fortalecendo nossa visão de mundo com argumentos mais sólidos e confiáveis.

Reconheço que pensar com a própria cabeça dá muito trabalho, cansa e na maioria das vezes machuca. Sem contar o número de inimigos que você ganha no Facebook. Mesmo assim não troco por nada o prazer de ser capaz de fazer minhas próprias escolhas e, é claro, assumir as consequências.

Ou não.

Publicado originalmente no meu blog UOL

 

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