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Sugestão de leituras

 

  Para o recesso da passagem de ano

                                                             

 

“A leitura é uma fonte inesgotável de prazer,

mas, por incrível que pareça, a quase

totalidade não sente esta sede.”

Carlos Drummond de Andrade

 

Não é segredo para ninguém que o hábito da leitura é cada vez menos cultivado pelos jovens, mais interessados em outros hábitos que eles consideram bem mais estimulantes, entre os quais se destacam, por larga margem, os games (jogos de computador). 

Nem por isso, deixo passar a oportunidade de recomendar a leitura de alguns livros para o início de ano, aproveitando o recesso escolar. Dois dos livros comentados a seguir são manifestamente de economia. O terceiro, porém, verdadeiro best seller, é a biografia da garota que foi baleada pelo Talibã. Incluo-o nessa pequena lista, pois a leitura do livro permite compreender uma característica do mundo contemporâneo que tem repercussões em diversos campos, incluindo o econômico, que é o exílio decorrente do terrorismo global.

O primeiro dos três livros tem tudo a ver com dois acontecimentos que ocuparam as manchetes em 2013: as manifestações populares no Brasil e aparalisação parcial dos serviços públicos federais nos Estados em razão da falta de acordo entre republicanos e democratas em aprovar o orçamento para 2014.

As manifestações populares ocorridas em várias partes do País no mês de junho, iniciadas com o protesto liderado pelo Movimento Passe Livre contra o aumento das tarifas dos transportes, foram consideradas uma espécie de redespertar da cidadania, assim como havia acontecido com as “diretas já” e com os “caras pintadas”, no episódio que culminou com o impeachment de Fernando Collor. É claro que manifestações episódicas como essas não indicam sequer um razoável grau de cidadania por parte da sociedade brasileira. Para tal, é necessário um conjunto de ações permanentes e regulares, a exemplo do que pode ser observado em países cujas populações possuem não apenas maior nível de educação, mas também maior consciência da importância de sua participação no acompanhamento da conduta das autoridades, em especial na gestão dos recursos públicos. Um dos elementos fundamentais para isso é o conhecimento do processo orçamentário, ou seja, de como ocorre a arrecadação dos recursos públicos, as formas de decidir a utilização desses recursos e, por fim, o acompanhamento das despesas efetuadas com esses recursos.

É exatamente essa a proposta do Prof. Odilon Guedes, ex-vereador na Câmara Municipal de São Paulo, com o livro Orçamento Público e Cidadania. O primeiro dos quatro capítulos do livro focaliza a importância do orçamento para a cidadania. Nele, o autor faz uma viagem pela história mundial, com escalas em acontecimentos de ampla repercussão e que são relacionados a questões orçamentárias, tais como a assinatura da Magna Carta em 1215, pelo rei João da Inglaterra, conhecido como João Sem Terra, e a Inconfidência Mineira, em 1789. Nos outros três capítulos, o autor aborda respectivamente o processo orçamentário municipal, a execução orçamentária e a transparência do orçamento. Mesmo possuindo um caráter mais técnico e de não se constituírem numa leitura tão fluida e agradável como o capitulo inicial, são essenciais para a boa compreensão do processo orçamentário e do papel desempenhado por todos aqueles que estão, direta ou indiretamente, com ele envolvidos.

O segundo deles é o último livro de Joseph Stiglitz, El precio de la desigualdad, ainda não lançado no Brasil, que tem o instigante subtítulo El 1% de la población tiene lo que el 99% necesita. Nele, Stiglitz mostra como é elevada a concentração da renda e da riqueza e afirma que as melhores moradias, a melhor educação, os melhores médicos e o melhor nível de vida são desfrutados por uma parcela mínima da população. Porém, alerta, há algo que o dinheiro não pode comprar: a compreensão de que o destino desse 1% está indissociavelmente ligado a como vivem os outros 99% da população. Ao longo do livro, Stiglitz aponta as terríveis consequências da enorme desigualdade que ainda prevalece no mundo, entre as quais: altos índices de criminalidade; graves problemas sanitários; baixo nível de educação, de coesão social e de esperança de vida. Revela preocupação ante a constatação de que as causas dessa desigualdade permanecem indefinidas, que o nível da desigualdade está crescendo rapidamente e procura examinar os efeitos desse fenômeno na economia. Nesse exame, Stiglitz mostra como os mercados por si só não são eficientes nem estáveis para estimular o aumento da competitividade das nações menos desenvolvidas e que acabam favorecendo a acumulação da riqueza nas mãos de poucos. Graças ao domínio das políticas inspiradas no livre mercado nos Estados Unidos e em outros países nos últimos 30 anos, essa tendência agravou-se até atingir o ponto em que se encontra nos dias de hoje. Vale destacar, nesse aspecto, a análise feita pelo autor no sentido de mostrar que a desigualdade não é um privilégio de países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, atingindo também sociedades de nações desenvolvidas, como a dos Estados Unidos, onde, aliás, ela vem se tornando cada vez mais acentuada. Stiglitz faz uma importante advertência: ao longo da história, este tipo de situação já ocorreu outras vezes, e a minoria privilegiada só conseguiu entendê-la… quando já era tarde demais. Por todas essas razões, trata-se de uma leitura que desperta grandes reflexões, E são feitas por alguém que tem um currículo invejável: professor, atualmente, da Universidade de Columbia, Stiglitz foi laureado com o Prêmio Nobel de Economia de 2001, além de ter sido assessor econômico do presidente Bill Clinton e economista-chefe e vice-presidente sênior do Banco Mundial.

Minha última recomendação é Eu sou Malala, cujo subtítulo é A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã. Sua leitura permite conhecer não apenas a biografia de uma menina que se tornou um símbolo internacional da luta em prol da educação universal – em especial das mulheres – mas também a história recente do Paquistão, um país pouco conhecido pela esmagadora maioria dos brasileiros, e os graves problemas existentes naquela região que compreende também os vizinhos Afeganistão, Índia e Bangladesh.

Num mundo cada vez mais marcado pelo processo de globalização, ter algum conhecimento do que ocorre em regiões que podem nos parecer remotas significa a possibilidade de entender determinados acontecimentos que decorrem de realidades e culturas muito diferentes daquelas predominantes no mundo ocidental. Essas são algumas das coisas que se podem obter ao longo das cinco partes em que o livro está dividido, bem como de três de seus relevantes complementos: o Glossário, com a explicação de expressões paquistanesas que aparecem ao longo do livro; os Acontecimentos importantes no Paquistão e no Swat, com a síntese dos acontecimentos narrados no livro; e, por fim, Sobre o Fundo Malala, criado com a aspiração “de investir esforços para dar poder às comunidades locais, no sentido de que elas desenvolvam soluções inovadoras, construídas a partir das abordagens tradicionais, e que forneçam não apenas alfabetização básica, mas ferramentas, ideias e redes que possam ajudar as meninas a encontrar suas vozes e criar uma comunidade melhor”.

Com estas recomendações, desejo a todos os amigos internautas um excelente ano de 2014!!!

Iscas para ir mais fundo no assunto 

Referências bibliográficas 

GUEDES, Odilon. Orçamento público e cidadania. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2012.

STIGLITZ, Joseph. El precio de la desigualdad. Bogotá: Taurus, 2012.

 

YOUZAFSAI, Malala com LAMB, Christina. Eu sou Malala. Tradução de Caroline Chang, Denise Bottmann, George Schlesinger e Luciano Vieira Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

 

Referência webgráfica

 

Malala Fund.http://www.malalafund.org/

 

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