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TRIVIUM: CAPITULO 2 – DIMENSÕES LÓGICA E PSICOLÓGICA DA LINGUAGEM (parte 8)

Alexandre Gomes -

 

Eu prometo que esse segundo capítulo vai acabar! Acho que terá umas 12 partes…

Mas vamos lá! De volta à diversão.

É claro que a linguagem tem aspectos LÓGICOS e PSICOLÓGICOS, veja só:

  1. A DIMENSÃO LÓGICA: a palavra é vista sob seu conteúdo de PENSAMENTO. Em RETÓRICA, chamamos essa visão de DENOTAÇÃO da PALAVRA;
  2. A DIMENSÃO PSICOLÓGICA: a palavra é vista sob seu conteúdo EMOCIONAL. O que classificamos, de acordo com a RETÓRICA, de CONOTAÇÃO da PALAVRA.

Perceba, casa e lar são duas palavras que demonstram facilmente essa diferença entre lógico e psicológico. Em uma representação gráfica, você veria assim:

Casa:  A_________B

Lar: A___________B______X

Ora, Lar é algo muito mais significativo, pois envolve sentimentos e memórias pessoais que a palavra Casa não traz.

Pois bem! Então, de que serve mesmo entender que lar tem mais emoção que casa? Afinal, são sinônimos, certo? Em uma redação, ou texto, eu (e você também) alterno os termos para não ser repetitivo e tals… fomos assim ensinados pela professora de Redação, oras!

Então…

Não é para ser sempre assim. O que foi apresentado a você é apenas UMA PARTE das lições de RETÓRICA.

Quando o texto a ser produzido é um documento legal, técnico, científico, ou até FILOSÓFICO (há quem ache que Filosofia é algo abstrato e subjetivo – e isso é um ERRO COLOSSAL). A repetição de termos e palavras é desejável para estes tipos de texto! Uma vez que o objetivo de tais escritos é SER CLARO E PRECISO, evitando interpretações diferentes e ambiguidades por conta de palavras semelhantes, mas diferentes.

Seguindo nesse pensamento, digo: as PALAVRAS ABSTRATAS são normalmente mais claras e mais precisas que as palavras concretas. Pois conceitos ABSTRATOS (fantasmas e essências, por exemplo) são mais uniformes na MENTE do LEITOR do que um conhecimento sensível – lembra do cão que você imaginou segurar em suas mãos, umas lições atrás? Pois é… eu tenho certeza que a raça do cão que você imaginou não era a mesma que eu imaginei.

Porém, se você estiver escrevendo uma história, poema – ou um texto literário qualquer -, então a situação se INVERTE. Palavras CONCRETAS são MELHORES que as ABSTRATAS, pois elas são mais comuns e RICAS EM IMAGENS na mente do leitor.

Note que a DIMENSÃO PSICOLÓGICA das palavras está no conteúdo EMOCIONAL que a linguagem tem. Veja dois exemplos disso:

  1. Mulheres são orientadas a reagir a ataques violentos gritando “Fogo!” e não “Socorro!”, pois uma mulher pedindo socorro pode ser entendido por quem ouve como uma briga de casal – e ninguém quer se meter nisso.
  2. Se um amigo seu vai pisar em uma poça d´água (ou cocô de cachorro), você pode dizer “Cuidado!” – e provavelmente irá vê-lo pisar na bosta, ou molhar o pé mesmo assim. Mas se você disser: “olha o dinheiro!” apontando para o chão, com certeza evitará o incômodo.

Entendeu que usamos a força emocional das palavras para ATRAIR A ATENÇÃO?

Pois é… é exatamente com essas emoções que o Marketing trabalha todos os dias.

Outro fator PSICOLÓGICO da LINGUAGEM é o som. Um dos vários encantos (e prova de habilidade de quem escreve) de um poema é o USO DO SOM CORRETO das palavras. Por isso os poetas usam palavras incomuns. Não é apenas por conta da técnica métrica do poema, ou frescura do poeta. É para fixar a emoção pretendida na mente/alma do leitor.

Agora vamos treinar o INGLÊS e espiar o USO DO SOM em um poema: Silver, de Walter de la Mare.

Slowly, silently, now the moon

                Walks the night in her silver shoons

                (…)

                One by one the casements catch

Her beams beneath the silvery thatch…”

Uma tradução porca seria assim:

Calmamente, silenciosamente, agora a lua

                Caminha pela noite em seus calçados prata

                (…)

                Um por um os caixilhos se encaixam

                Seus raios abaixo da argêntea palha…”

Outro exemplo de como o SOM ou a ESCOLHA DE PALAVRAS podem facilmente alterar a impressão que se tem do orador é o seu estilo de discurso.

Perceba, se eu digo: “o céu é azul” – não chamarei muito a sua atenção. Agora, se eu digo: “o domo abobado do céu é cerúleo”; você possivelmente vai me achar um babaca arrogante… quer dizer, vai achar que eu sou mais arrogante ainda.

O que importa mesmo é o seguinte: a escolha de uma forma adequada de discurso (ou se preferir, jeito de falar) irá chamar mais atenção que outra forma. Um bom orador sabe que impressão causar e como chamar a atenção para o que diz – ou o que querem que pensem que está sendo dito.

Alguns políticos entendem isso muito bem o poder da retórica. Um truque bacana que prende a atenção quase de maneira inconsciente é a pronúncia diferente de uma palavra. Ciro Gomes e Leonel Brizola não pronunciam a palavra “interesse(s)” como eu e você. Eles diziam “interesse(s)”. Não acredita em mim? Então escute!

Ciro: aos 40-42’’ (segundos): https://www.youtube.com/watch?v=co7fSxLg5o0

Brizola: (ele fala umas duas vezes em menos de 10’’ (segundos): https://www.youtube.com/watch?v=FNiqSgFtbSA

P.S. : o pior foi caçar um vídeo com o Ciro falando abobrinha até encontrar ele falando a palavra.

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