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Uma certa caixa preta

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Chiquinho Rodrigues -

O Renato era contato do Estúdio Bandeirantes. Gostava de João Gilberto e flertava um pouco com o violão. Umas das músicas preferidas dele era “Tim Tim Por Tim Tim” do álbum Amoroso do João.

Um dia eu estava ensinando-o a tocar essa música, quando do nada ele me conta que naquela noite ia com a família voltar pra Fortaleza, sua terra natal. Sua esposa não aguentava mais a insegurança aqui de São Paulo.

Meu único argumento foi ele esperar mais uma semana, pois o Brasil ia estrear na Copa (era o ano de 1982), a produtora ia alugar um telão e fazer uma festa bem legal.

Ele disse que não podia esperar. Era um voo noturno que oferecia um bom desconto e ele já havia comprado as passagens. Dei meu disco Amoroso do João de presente pra ele, nos abraçamos, desejei boa viagem e ele partiu.

No dia seguinte quando voltei ao estúdio, vi a Beth que trabalhava com a gente chorando e fiquei sabendo que esse voo tinha se espatifado contra um morro antes de chegar a Fortaleza.

Meses depois no Jornal Nacional mostraram o áudio original da caixa preta e a desorientação dos pilotos que não sabiam que estavam voando tão baixo. Era a primeira vez que eu tinha ouvido falar em caixa preta e fiquei me perguntando qual a sensação, qual a reação da primeira pessoa que abre a caixa e dá o Play. Maluco,  né?

O tempo passou e anos mais tarde recebo a ligação de uma tal de Regina me fazendo um convite pra eu programar as músicas de bordo dos vôos da Vasp.

Você sentava na poltrona e ao lado de um dos braços existia um orifício pra se colocar um fone vagabundo que eles forneciam. Daí você escolhia um dos canais… Rock, MPB, Jazz, Clássico ou Instrumental e dormia.

Topei fazer, sim. Escolher as músicas, organizar, gravar. Tudo isso era fácil e prazeroso pra mim. A complicação começou quando eu soube que tudo isso era gravado em 4 canais, em fita de ¼ de polegada, em rotação três e três quartos, ficava dentro de um troço chamado slot e era enrolada de maneira infinita como as fitas de secretárias eletrônicas!

Pra entender tudo isso eu tive que ir até o centro de manutenção da Vasp pra conversar com um americano chamado Peter que era o chefe por lá.

Era o típico técnico americano. Devia ter uns cinqüenta anos, falava com um forte sotaque inglês, era alto, magro, parecia mórmon e tinha um par de olhos frios e inexpressivos.

Sabe… Quando você entra em uma oficina mecânica, pode até como eu, não entender nada de carro, mas reconhece sem muito esforço um virabrequim, um radiador, uma junta homocinética… sei lá.

Mas quem não é do ramo e entra em um lugar desses, se perde completamente e não sabe o que é o que e pra que serve aquilo!

O Peter me levou para uma bancada onde entre outras coisas estavam os slots. Explicou-me seu funcionamento, como eu deveria enrolar a fita e os cuidados com a tensão nesse processo. Nessa bancada havia outros equipamentos de gravação para manutenção. E entre eles a famosa caixa preta (que é laranja).

Falamos um pouquinho da parte técnica dela e eu disse que a primeira vez em que tinha ouvido falar de caixa preta tinha sido naquele acidente de Fortaleza em 1982. Contei do meu amigo Renato, do disco Amoroso e do meu arrependimento em não ter insistido para que ele não viajasse naquela noite.

Então Peter me contou que tinha sido ele a pessoa que tinha aberto e ouvido pela primeira vez o conteúdo dessa caixa. E que logo nos primeiros segundos de gravação ele havia reconhecido a voz de um grande amigo seu que havia se aposentado e estava naquele dia fazendo seu último voo como profissional pela companhia.

Olhei para os seus olhos e vi que estavam marejados. E só nessa hora, desde que havia entrado naquele estranho lugar, é que percebi que estava diante de um ser humano

 

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