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Luciano Pires -

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo, com gente que faz acontecer. No programa de hoje, temos Fernanda Sabino, que construiu uma carreira na área de TI. É mãe do Pedro, apaixonada por tecnologia, inovação, corrida e vinho. Fundou uma confraria de vinhos feminina, woman and wine, e o for she, onde fala para mulheres sobre liderança, autoconhecimento, tecnologia e espiritualidade. Uma conversa sobre mulheres do mercado de trabalho, sobre amadurecimento, e sobre liderança. Muito bem, mais um LíderCast. Eu sempre começo o programa contando como é que o meu convidado, minha convidada chegou até aqui. Essa história aqui é longa. Um belo dia, uma galáxia far away, long time ago, entrou um comentário para o Café Brasil, de alguém que estava em Sorocaba dirigindo no carro. Mandou um comentário superlegal, e quis o destino que um dia ela viesse aqui assistir o programa, né? Veio ver o programa, assistiu à gravação, tudo. E depois a gente manteve um contato esporádico aí, até que outro dia ela aparece com um livro. Estou montando um livro, estou aparecendo em um livro. Aí eu fui dar uma olhada e falei, “pô, a carreira dela é em cima de TI, uma mulher de TI”. Essas coisas são sempre interessantes. Mas, eu sei que você tem um monte de interesse, falei, cara, vamos gravar lá, deixa eu ver essa história, como é que uma mulher constrói a carreira na área de TI. Não sei se eu estou certo, mas, esse foi o grande gancho, né? Então, eu vou começar com aquelas três perguntas que você já sabe. Como você… para mulheres, eu deixo em aberto uma. Se você não quiser responder, não precisa, tá? Seu nome, sua idade e o que que você faz?

Fernanda Sabino: Fernanda Sabino, 42 anos. O que que eu faço? Eu trabalho na área de tecnologia, inovação. E tenho alguns projetos aí relacionados a liderança feminina. Uau.

Luciano Pires: O bicho vai pegar aqui. Você nasceu onde?

Fernanda Sabino: Sorocaba, Luciano.

Luciano Pires: Porrrta, porrrco, Ferrrrnanda, orrrrrgulho.

Fernanda Sabino: Leite quente, dói o dente da gente.

Luciano Pires: Terra boa Sorocaba. Quantos irmãos?

Fernanda Sabino: Nós somos em quatro no total.

Luciano Pires: Quatro.

Fernanda Sabino: É uma bagunça, viu?

Luciano Pires: Eu imagino. Você está onde? No meio?

Fernanda Sabino: Eu sou a mais velha. Eu sou a única mulher.

Luciano Pires: Seus pais fazem o que?

Fernanda Sabino: Minha mãe é dona de casa. Meu pai agora já se aposentou, mas, ele trabalhou na área têxtil, a carreira toda dele foi na área têxtil. Então, eu nasci em Sorocaba, e cresci no Paraná. Pé vermelho quase.

Luciano Pires: Aonde, no Paraná aonde?

Fernanda Sabino: Apucarana.

Luciano Pires: Apucarana. De Sorocaba para Apucarana, por causa da área têxtil, isso?

Fernanda Sabino: Por causa da área têxtil. Foi abrir uma fábrica lá na época assim. Mas, eu nasci em Sorocaba, e fui para Apucarana. Eu morei quase sete anos lá.

Luciano Pires: Sete anos. Você saiu de lá antes dos chineses destruírem a área têxtil?

Fernanda Sabino: Sai antes.

Luciano Pires: Então você pegou a época boa lá. Qual que era o seu apelido quando você era criança?

Fernanda Sabino: Deixa eu pensar. Foi tanta coisa. Fê. Mas no interior tem uma coisa, isso é verdade. Aqui em São Paulo, é Fê. No interior, é Fer. No Rio, e no Nordeste, é Nanda, ou Nandinha. Muda assim.

Luciano Pires: No interior é Fer, é verdade. E o que que a Fer queria ser quando crescesse?

Fernanda Sabino: Luciano, eu acho que eu sempre quis, nunca imaginei TI exatamente. Mas, meus primos falam que eu sempre queria ser a chefinha de tudo, sabe assim? Vamos brincar… nós somos em 14 netos, aquelas famílias enormes. Eu sou uma das mais velhas. Segunda neta, a primeira mulher, mais velha.

Luciano Pires: Cada natal hein.

Fernanda Sabino: Não, minha avó cuidava de 10, sem babá. Você tem noção? É linha de produção tudo assim. Então, acho que eu nunca exatamente sonhei assim em ser. Às vezes eu falava brincando, “vou ser dona de uma fábrica de computador”. Lembro de ter falado já isso. Gostava de coisas de escritório, gostava assim de ensinar. Mas, e foi uma construção na verdade assim, até chegar nos 40, mas assim, foi uma construção. Eu sabia o que eu não queria ser. Então, no interior, embora Sorocaba seja perto, minha família vem de uma família muito de imigrantes italianos, do interior, os caipiras do interior paulista, sabe? Então eu fui preparada para ser a dona de casa. Então eu lembro muito disso. Quando eu voltei do Paraná para Sorocaba, era a minha família toda de metalúrgicos mesmo, grande maioria de chão de fábrica, né? Meu pai, do lado dele, meu pai tinha feito faculdade, mas a minha mãe não. Então, era muito de, “você vai fazer magistério, ou você vai trabalhar, por exemplo, em um comércio, como caixa de mercado, ou chão de fábrica”. A indústria têxtil era muito forte na época, em Sorocaba tinha muita. Aí a minha família toda trabalhou em chão de fábrica lá, inclusive a minha mãe em produção. Então, era me colocado essas opções. Então eu fiz curso de crochê, de tricô, fui auxiliar de catequista, diz 12 anos de catecismo.

Luciano Pires: 12?

Fernanda Sabino: 12.

Luciano Pires: Cara, 12 dá para tocar piano clássico.

Fernanda Sabino: Você não está entendendo Luciano.

Luciano Pires: Dá para fazer Medicina uma vez e meia.

Fernanda Sabino: Fui até a crisma, e assim, algumas vezes algumas coisas não faziam sentido para mim, mas, eu fazia tudo. Fiz até curso de pintura em guardanapo, datilografia. Então, eu fui me formando nisso, e tinha uma inquietude, mas por que que eu tenho que ser isso? Eu não sabia exatamente, não tinha tão claro o que eu queria ser. Mas, eu não gostava das coisas domésticas. Eu sempre falava assim, “me manda um ler livro, mas, não me manda limpar a casa”. Porque antigamente, tinha aquela coisa, aquela cultura nas famílias, de que as mulheres tinham que ajudar. Tem que ajudar na limpeza da casa, os homens eram poupados. Você tem que ajudar sua avó. E uma coisa não que não cabia era, porque que meu valor, tinha uma competição entre as vizinhas, a calçada mais limpa, a panela mais limpa, mais bem ariada. Então, tem que lavar e colocar no muro para secar. Isso eu falei, “gente, mas não estou entendendo, não faz sentido para mim. E eu era meio que rebelde né? Eu não era a boa neta, aquela que ajudava a avó, que ficava cuidando de casa limpando vidro. Eu fugi disso. Mas, eu fiz o primeiro ano do magistério, porque me foi colocado. Nós éramos bastante simples, depois meu pai e minha mãe se separaram em determinado momento. Meu pai foi viver a vida dele, e nós ficamos morando na casa da minha avó. Então, a vida era muito simples, caiu bastante assim a questão de qualidade de vida, do que tinha de conforto no sentido. E então, para eu fazer faculdade, não era uma opção. A gente não tem grana, nenhuma mulher até então da minha família tinha feito faculdade, você vai fazer magistério, para você ter uma carreira, uma profissão, e é isso, nisso que você vai trabalhar. Então, eu fiz primeiro ano do segundo grau, na época magistério. Aí eu dei aula, do ano todo.

Luciano Pires: Você se formou em magistério?

Fernanda Sabino: Não. Eu fiz só o primeiro ano, e já peguei meio que um estágio. Eu peguei uma escolinha pequena, então, era dela para material, para pré e berçário assim, como assistente, depois assumi uma turma. Eu falei, “não é isso que eu quero. Eu gosto de criança, mas, não é isso que eu quero”. Aí eu falei, “eu vou dar um jeito”, eu já trabalhava, comecei a trabalhar com 12 anos, e voltei a fazer o colegial normal, que a gente chamava na época, e vou dar um jeito de pagar a faculdade.

Luciano Pires: Você trabalhava em que, com 12 anos?

Fernanda Sabino: Eu fui, trabalhei em venda, em lojas de calçados no shopping. Sabe essas de final de ano que contratavam? Minha mãe trabalhava no comércio na época, e olha, a gente está precisando de gente aqui para cuidar de estoque, final de ano, e para ajudar na loja, temporário.

Luciano Pires: Com 12 anos?

Fernanda Sabino: 12 anos.

Luciano Pires: Se fizesse isso hoje, sua mãe ia presa. Você ia ser levada pelo…

Fernanda Sabino: É… é.

Luciano Pires: Você se arrepende de ter trabalhado com 12 anos?

Fernanda Sabino: Não, não mesmo.

Luciano Pires: Se pudesse voltar, faria de novo?

Fernanda Sabino: Faria, faria.

Luciano Pires: Por que?

Fernanda Sabino: Porque acho que deu uma base emocional… primeiro Luciano, eu acho que tem a questão de necessidade. Eu não tinha, 2 semanas na época de trabalho, vivendo de comissão, eu ganhei R$ 1 mil reais. E eu podia, eu vi que poxa, eu posso ter coisas, fazer coisas com dinheiro, que eu não faço. E uma preparação emocional que hoje, quando eu paro, e o livro, quando eu estava escrevendo o livro, me veio muito essa consciência desse repertorio de vida que a gente traz, que a gente carrega, né? E tudo que eu aprendi vendendo sapato naquela época, faz a profissional que eu sou hoje. Então assim, não me arrependo. Eu acho que é diferente talvez assim, você trabalhar quando você tem a questão da necessidade, tem um peso maior do que digamos assim, você fazer alguma coisa por hobby, ou por diversão. Mas, foi divertido. Então, foi onde eu comecei a me relacionar, gente, vender sapato não é fácil Luciano, porque tem uns chulés da vida, aquela coisa do dia a dia. Mas assim, eu comecei nisso, e fui, fiz muita coisa assim, até chegar realmente meu estágio mesmo numa grande empresa, aconteceu já quando eu estava com quase 18 anos, 17 para 18 anos.

Luciano Pires: Sem faculdade ainda, sem nada?

Fernanda Sabino: Sem faculdade, porque eu fiz, tinha loja, eu comecei a trabalhar no comércio, na loja de calçados. Por um determinado momento eu passei por papelaria, fiquei 4 anos trabalhando no shopping assim, papelaria, coisas em lojas pequenas. Depois eu fui, passei pela parte de dar aula também nesse período, nesse 1 ano, de dar aula para maternal, para crianças. E aí eu, chegou determinado momento quando eu entrei na faculdade, logo no primeiro ano eu consegui um estágio.

Luciano Pires: Faculdade de que?

Fernanda Sabino: Comércio Exterior. Na verdade, era Administração com Ênfase em Comércio Exterior.

Luciano Pires: Então, como é que pinta isso, como é que aparece isso?

Fernanda Sabino: Como é que foi a faculdade…

Luciano Pires: Você viu alguém, alguém te recomendou, como é que foi?

Fernanda Sabino: Não, foi assim, saí do magistério e fui fazer colégio normal. Quais são os cursos que tem, que faz mais ou menos sentido com o que eu posso pagar?

Luciano Pires: Entendi.

Fernanda Sabino: E aí, eu sempre gostei muito de línguas, sempre tive facilidade com idiomas. Eu falei, poxa, não tinha tantas opções de cursos na época. Era Administração, Direito, Psicologia, Contabilidade, essas coisas assim. Falei, números eu não quero. Era Administração… Comércio Exterior, acho que pode me dar uma flexibilidade, eu posso ter viagens no decorrer da carreira, era mais ou menos isso que me fez escolher. Nunca foi assim, qual é seu propósito de vida? O que você quer ser quando crescer? Ninguém perguntou.

Luciano Pires: Até porque com 18 anos, você não ia saber nem o que responder ali, né?

Fernanda Sabino: Entendeu? Então, o que cabia no meu orçamento, e eu pensei, o que pode me dar, mesmo que eu não goste exatamente, mas, que pode me dar, abrir portas no mercado, me dar um retorno financeiro relativamente rápido, e em outro momento eu vou estudar alguma coisa que realmente faz sentido para mim. Esse foi meu racional. E eu passei na Universidade de Sorocaba, comecei lá, e já no primeiro ano tive a oportunidade de fazer estágio em uma multinacional americana que ficava em Itu. E era uma multinacional muito pequena, de 200 pessoas Brasil, entrei para ser estagiaria da assistente da secretaria executiva do CEO. E aí dentro dessa empresa, surgiu uma oportunidade para estagiar na área de exportação América do Sul, e eu fui cuidar e assumi a área toda praticamente. Mesmo como estagiária, assinava documento normal, fazia de tudo. E essa empresa tinha na época um grande CEO, que as vezes eu ainda tenho algum contato com ele pelo Linkedin, que é o Marcelo Lomelino, muito humano, muito realmente ligado as pessoas, um grande líder, grande inspiração, que me abriu várias portas dentro da empresa. Mas a empresa, chegou determinado momento que ela fechou, decidiu fechar a operação no Brasil, foi quando nesse meio do caminho, uma empresa de software estava chegando no Brasil, recém-chegada alemã. Pode falar as marcas aqui?

Luciano Pires: Pode.

Fernanda Sabino: SAP, tinha chegado no Brasil, e estava com uma consultoria parceira, formando gente para desenvolver um software de Comércio Exterior, que integrasse um SAP. Porque eles não tinham interesse na época em desenvolver essa solução. E aí a consultoria também começando essa divisão de software muito recentemente no Brasil, pegou uma molecada estagiaria, que já atuava na área de processo. Olha, vem para cá, vocês querem desenvolver um software? O que que a gente vai fazer? Vem aqui, escreve o que que você faz no dia a dia, regra de negócio, que a gente, o restante a gente toca. E assim foi.

Luciano Pires: Quer dizer, você não foi por ser TI. Você foi por ser uma usuária que conhecia o processo, para ajudar o pessoal de TI a desenvolver. E aí você se aproximou desse mundo.

Fernanda Sabino: Exato, foi assim, meio que caí de paraquedas nesse mundo. Nem sabia o que era tecnologia, não sabia o que era SAP.

Luciano Pires: Que ano isso?

Fernanda Sabino: 2001.

Luciano Pires: 2001. Aí você chega lá, aquele monte de nerds, aquele povo estranho, eu chamo de [clingos], porque é um povo estranho, que fala uma língua que a gente não entende, que tem um calendário que não é igual ao nosso. O calendário dos [clingos] é diferente do mundo. Uma semana, é um mês na terra. Então, tem tribos de [clingos], uma briga com a outra. Então, você caiu naquele meio em volta, cara, como que foi, como que é?

Fernanda Sabino: Eu caí, na verdade, acho que nem era tanto assim, os técnicos não era tão nerds assim, como era. Mas, foi tudo meio na brincadeira para a gente, sabe Luciano? Sabe quando você é novo, com 21 anos, eu participei de um projeto, de coisas que eu não tinha nem noção do que eu estava fazendo, sendo bem sincera. Então, nós chegamos lá, uma molecada nova, com sangue no olho, o que que você quer? Importação ou exportação? Vamos par ou ímpar aí, sabe assim? Eu trabalho com exportação, então fico com isso. E a gente se dedicou, a gente mergulhou de cabeça, de ir atrás realmente de conhecer. A gente começou a tomar gosto, porque a hora que a gente começava a escrever as regras de negócio, e documentação que nós fazíamos na máquina de datilografar com carbono, e via o sistema fazendo, e você não precisava ficar corrigindo, refazendo o trabalho, começou a me encantar aquilo ali.

Luciano Pires: É uma transição que você viveu, tem uma moçadinha ouvindo a gente aqui, gente, carbono era uma folha com uma tinta que sujava o dedo da gente.

Fernanda Sabino: É bem isso.

Luciano Pires: Cara, eu estou brincando, mas cara, hoje a gente tromba com uma moçada, quando você fala um negócio, do que que você está falando né? Eu estou falando um negócio que era a vida da gente, a vida da gente era feita assim. Quanto carbono eu usei na vida.

Fernanda Sabino: Não, e esses formulários para exportação, certificado de origem, essas coisas, uma vírgula, um ponto final errado, tinha que refazer tudo. Então você imagina, as cargas todas, os containers, era um saco infernal refazer aquilo. Então, a hora que criei um sistema que falei nossa, isso que eu estou escrevendo faz isso? Uau. Então, eu comecei a de verdade, a me encantar pela tecnologia. Então, eu comecei nas áreas de negócios. Eu fui estudar TI depois. E logo de cara, eu acho que a consultoria para os profissionais de TI, a consultoria em si, prepara muito a gente para a vida. Porque você é estagiário, te vendem como júnior. Se você é júnior, te vendem como pleno. Vai alocando você em cliente, você vai aprendendo na raça. Só que são grandes operações. Então assim, eu já comecei a trabalhar em grandes industrias nisso.

Luciano Pires: E outra, você acaba entrando no intestino da empresa, né? Que quando você é um fornecedor, você chega até o departamento de compras, e dali você não vai adiante. Então, você conhece um pouco da empresa. Como consultor, você vai para dentro dela. E aí você passa a ter quase que as responsabilidades de que tem na empresa, e não tem os benefícios de que tem lá dentro. Você está lá no meio, você está vivendo o jogo político, você é o elemento estranho que chegou lá para causar, para fazer marola. Quando está todo mundo tranquilo, lá vem ela fazer marola. A vida de consultor é um negócio meio complicado. Eu optei por não. Quando pintou, quando eu estava decidindo o que fazer, eu falei não cara, consultoria, fiz uma ou duas vezes, falei não, não quero. Eu quero estar em outra, eu quero ter liberdade.

Fernanda Sabino: Mas eu acho que naquela época a gente não tinha nem noção sabe Luciano, falta de maturidade profissional mesmo nessa questão. Então, o que eu sofria muito na época? Bem, eu tinha idade normalmente dos filhos das pessoas que eu ia implementar o sistema. Quando você traz essas soluções grandes, está atrelada normalmente a o que? A redução de head count as vezes, em muitas das empresas, né? Aquele boom todo. De 99 até sei lá, 2010 mais ou menos, 2009, foram as grandes implementações dos ERPs no Brasil. Então, foi muita movimentação. E aí eu tinha muito essa questão, por ser nova, então a consultoria chega para fazer uma revisão de processo, para automatizar a sua vida. Então as pessoas seguram informação, quem é você para vir mexer no meu queijo aqui? E você menina, imagina, você me ensinar a trabalhar? Eu faço isso há 20 anos. Quem é você? Então foi uma questão de inteligência emocional mesmo de trabalhar, e de uma maturidade, que eu não tinha na época. Que foi forçado.

Luciano Pires: Que é o tipo da coisa que a escola jamais de prepararia para esse problema. Vou fazer um paralelo aqui, paralelo que tem tudo a ver com esse momento aqui. Paulo Gudes assumindo o Ministério da Economia em Brasília, com uma equipe de economistas de primeira linha, e com todas as ideias mirabolantes para resolver a economia. Até ele descobrir que tinha um jogo político ali, que não era uma questão de um mais um dá dois. Não é isso cara. Nesse caso, um mais um tem que dar dois vírgula três, ou um vírgula oito. Como assim? E ele teve que apender na porrada que cara, a dificuldade não era o desenvolvimento. Técnica eles tinham. Para implementar isso, ia ter que convencer um monte de deputado, que não estava nem interessado com as habilidades técnicas que ele tinha. Que é mais ou menos o problema que você enfrenta lá. TI, planilha eu faço, a máquina eu faço ela fazer o que eu quiser. Agora, como é que nós vamos implantar esse negócio?

Fernanda Sabino: E é muito do que a gente vive hoje Luciano. Hoje, praticamente tem milhões de ferramentas. E cada dia, cada hora, surge alguma coisa nova. Eu tenho estudado mais sobre o que? Gente. É isso que eu tenho feito, até pela posição hoje que eu ocupo, eu tenho que saber coordenar, orquestrar as pessoas. E nessa divisão que existe para quem é de tecnologia, tem essa questão da TI raiz, a TI que cuida do core da operação, versus o digital. Porque existe um conflito de geração muito grande, que para quem é CEO, responsável pela área de tecnologia, poxa, tem que cuidar da operação, do dia a dia, contas a pagar, receber, o link que cai, os devices, o hardware todo, versus a galera que está criando o produto todo digital aqui. Só que um precisa do outro, um não existe sem o outro. O digital só escala se você souber, tiver toda a parte estrutural, bem estruturada. Então, é pessoas, você acaba se esbarrando em pessoas. O técnico sempre vai existir, você tem que ter… mas onde hoje eu me aprofundo, não é tão no técnico. É como é que eu cuido dessas pessoas, dessa equipe.

Luciano Pires: A maturidade te leva naturalmente para isso. Quando você vai ficando mais velho, você vai descobrindo que cara, com 25 anos de idade, 30 anos, eu quero mais é sair na porrada, eu topo qualquer parada, eu viro a noite, eu mordo, eu vou para cima, eu vou derrubar o que for. Aos 45, 50, você já começa a olhar a falar, cara, não faz sentido essa loucura toda. Acho que dá para fazer isso mais light. Mas, para fazer mais light, não é uma questão só de eu ir para cima, eu vou ter que convencer as pessoas, tem todo um trabalho em volta, é psicologia mesmo, sabe? Economia comportamental, a gente vê que todas as áreas, elas vão buscar alguma… tem uma área humana que acaba que entrando, e hoje em dia nós estamos nessa revolução. Se você não trouxer esse componente humano para dentro, você vai ter uma belíssima maquina, que as pessoas usam mal, ou acabam não usando.

Fernanda Sabino: É isso mesmo.

Luciano Pires: Aí tem uma arte.

Fernanda Sabino: Então, acho que esse é o grande desafio, um dos grandes desafios que a gente vive.

Luciano Pires: Mas aí voe cursou, você fez o curso?

Fernanda Sabino: Eu fiz, eu demorei para me formar Luciano. Porque o meu estágio aqui em São Paulo, então o que que eu fiz, quando eu comecei a fazer estágio aqui, eu comecei a viajar de fretado, e fazia faculdade lá, último ano de faculdade. Então…

Luciano Pires: Lá em Sorocaba?

Fernanda Sabino: Lá em Sorocaba.

Luciano Pires: E trabalhava aqui?

Fernanda Sabino: E trabalhava aqui. Então acordava as 4 da manhã lá, pegava o fretado 5:20 mais ou menos, 7 horas da manhã eu estava aqui em São Paulo. Voltava, já descia lá na estrada tipo 15 para as 7. As aulas começavam as 7, no meio da Raposo, e ia para a faculdade. E foi assim o último ano. Só que, o que que acontece, começo contrato é não, vai ser só São Paulo, você não vai viajar para clientes. E aí meu querido, vende, vende, vende, aparece um cliente em BH, um cliente no Sul, resumo, demorei quase 9 anos para me formar.

Luciano Pires: Cara, só dá uma pausa, a nossa troca de ideias aqui. DE novo, atenção você pentelho, que vai me reclamar como já teve uma semana passada reclamando, dizendo que eu falo muito nas entrevistas. Isso aqui não é entrevista, isso aqui é um bate-papo, isso aqui é uma conversa. E quando você me acende uma luzinha, eu vou lançar alguma coisa que ajuda bastante nessa construção. Eu fiz um trabalho de integração de treinees para uma baita empresa, grande, dessas multi que estão aí grandonas. E os caras me chamaram lá, estou com 18 treinees aqui, a gente quer fazer um trabalho de integração com eles, queremos fechar com você um pacote de 1 ano. Então, uma vez a cada um mês, dois meses, eu ia lá, sentava com a molecada, fazia todo um trabalho de treinamento, com os 18. E a gente foi rolando, e eu notando que tinha alguma coisa estranha acontecendo ali. Porque cara, quando você pega um treinee o que que é, vem alguém verdinho, que é o cara que está passando por todas as áreas da empresa, e que aí você sabe que você vai poder conversar com ele tranquilamente. E a molecada toda apavorada, com celular na mão. E eu conversando com os caras, mas, essa molecada não está tranquila. Aí um dia eu estava em um evento, e o pessoal do RH sentado junto, eu falei, “mocada, deixa eu fazer uma pesquisa com vocês. Vou desenhar uma pizza aqui na parede, percentual, e cara, me diga como é que vocês gastam o tempo de voes aqui dentro? Quanto tempo é efetivamente trabalhando mesmo, executando tarefas, quanto tempo é conhecendo, quanto tempo é estudando?”. E deu que 88% do tempo da molecada, era trabalhando. Não era função de treinee. Eles já estavam assumindo responsabilidade com tudo nas costas, então, não tinha tempo de fazer nada. Eles já não eram mais treinees, só não eram funcionários carteira assinada. E aí eu chamei o pessoal de RH, gente, não faz sentido, eles já estão trabalhando. Tem cara que não vem na reunião aqui, porque o chefe não deixou sair, porque ele já assumiu responsabilidades. Que é o que você está alando aí. Quer dizer, olha, me contrataram para fazer quatro, chegaram mais dez, bicho, agora é quatorze, e vamos embora.

Fernanda Sabino: É, e vai, vende, vende, vende. E foi muito legal Luciano assim, porque eu tinha andado de avião uma vez na minha vida. Conhecia aqui o interior, o Paraná que eu tinha morado, Rio que eu tenho a minha família lá, não conhecia mais nada do Brasil. Não sabia nem o que era ficar em hotel bom, não tinha noção assim. Então, eu comecei a… então chegava segunda-feira, arruma a mala que você vai para BH. E eram grandes industrias, os clientes assim, projetos enormes, milionários. Eu não tinha noção, pegava e ia, ia, ia. E tomei gosto. Só que o que que aconteceu, né? Fui, comecei a fazer carreira, fiquei quase 4 anos nessa consultoria. Chegou uma hora que eu estava já coordenando a área de suporte, e eu precisava do diploma da faculdade, para ser promovida para gerente. Então, de repente, eu me vi com 24 anos, atingindo uma posição que eu imaginei atingir aos 30, porque não tinha perspectiva, não tinha, já era o máximo que eu imaginei chegar na minha vida. E eu falei, opa, e o que que eu vou ser agora? Já estou aqui. Aí eu falei, não, está na hora de dar um passo para trás, voltar para Sorocaba, terminar a faculdade, meio que proforma mesmo, sabe, para ter o papel, porque a experiência e vivencia de 4 anos em grandes industrias aqui do Brasil, e multinacionais, eu já tinha. Só que eu precisava do papel. Porque é aquela coisa do mercado, exigir, não era tanto só pelo conhecimento. E foi o que eu fiz. Então, já tinha morado, eu acho que até nesse período de consultoria, eu aprendi muitas coisas. Questão de ficar longe da família, porque você vai para projeto fora, nem sempre o flyback é semanal. Depende da margem que colocaram no projeto. Então, você fica muito… perdi muitas datas comemorativas. Só que eu estava na ânsia de fazer a minha carreira, de me construir, de estudar.

Luciano Pires: Você estava solteira?

Fernanda Sabino: Estava solteira.

Luciano Pires: É tudo mais fácil.

Fernanda Sabino: Tudo muito mais fácil. Mas, tem uma coisa que também você perde a referência. As vezes assim, eu acordava, que hotel que eu estou? Que lugar que eu estou? Tamanho stress. E era implementação que nós vivemos no passado, de implementação de ERP, você pegou acho que na Dana, de virar madrugada, dormir embaixo da mesa, uma, duas horinhas ali, o pessoal traz massagista, traz magico para tentar minimizar o stress, porque não sabe o que fazer.

Luciano Pires: A Dana fez um negócio mundial, eu não vou me lembrar se foi com a IBM, ou se foi com a Oracle. Eu acho que foi IBM. Era um negócio assim, bilionário, que era uma implementação de um ERP a nível global na empresa, que foi um negócio assim, era um movimento brutal, e que no meio do caminho os caras descobrem que não vai dar certo. Depois de alguns muitos milhões aplicados, horas de trabalho, processo mudado tudo, os caras falam para, desiste, não vai dar certo, volta atrás. Foi um trauma que eu acho que muita gente passou, muita empresa passou.

Fernanda Sabino: Muita. E sabe onde muitas empresas eu vi passando Luciano, quando essas empresas globais contratam as consultorias lá fora, ou trazem para implementar Brasil, porque pega a parte de localização Brasil dos impostos, que não sai sem ser feito realmente por quem conhece, por consultorias daqui. Eu vi muitas, milhões serem perdidos, jogados no lixo mesmo, porque não conseguiam fazer rodar. Então, foi isso. E aí eu decidi voltar para Sorocaba, para terminar faculdade. Até porque eu sempre fui muito caxias, eu sempre gostei muito de estudar. E era uma questão de honra para mim, ter a faculdade, sabe assim, era um sonho na vida mesmo assim. E eu voltei. E na época, eu estava namorando, nada muito sério, mas, o que aconteceu? Segundo mês de estagio, quando o estagiário não tinha direito a nada, eu engravidei. Tinha terminado o namoro, já não estava mais junto, tinha acabado de dar dois passos para trás, voltei a morar na casa da minha avó, voltei para o interior, voltei para a vida do interior, aquela dinâmica já que minha vida tinha uma outra rotina, trabalhando lá, estagiaria ali perto, e aí eu engravidei.

Luciano Pires: Você voltou a ser estagiaria?

Fernanda Sabino: Voltei para ser estagiaria. Voltei, porque foi o que eu arrumei na época, não tinha… agora, o mercado em Sorocaba está mais aberto, mas tem ainda, interior tem essa coisa provinciana, de que o que vem de São Paulo é melhor. Então as posições mais de liderança, algumas coisas mais estratégicas, eram muito para quem vinha de São Paulo, que vinha de fora. Então, era muita mão de obra local, operacional na verdade, que acontecia na época. E o que eu arrumei realmente foi esse estágio. Fui fazer, voltei para trabalhar na área comercial de uma multinacional alemã na época. E foi onde eu fiquei. E para a minha sorte, eu tinha uma chefe, uma gerente da área, era uma mulher, e super me acolheu com a gravidez. Mas, eu trabalhei assim…

Luciano Pires: Era TI?

Fernanda Sabino: Não, eu trabalhei na área comercial.

Luciano Pires: Então você saiu do TI, e foi para a área comercial?

Fernanda Sabino: E fui para a área comercial.

Luciano Pires: Deixa eu voltar no seu TI ali atrás, no seu TI jovenzinha. Você entrou em um ambiente que era masculino. Era, é uma pergunta, era?

Fernanda Sabino: Ainda é. Mas, era, sim.

Luciano Pires: Já é menos, mas naquela época era muito masculino.

Fernanda Sabino: Muito mais.

Luciano Pires: E você entra jovenzinha, sem o diploma, você não era uma cientista de dados formada na USP, era só uma menina, no meio daquele ambiente de ogro. Como é que é isso? Como é que é entrar naquele ambiente? Era normal, na sua vida era normal, você estava acostumada? Tinha muito homem na sua família, os moleques te enchiam de porrada? Você já cresceu no meio da molecada?

Fernanda Sabino: Cresci. Mas, a gente está brincando, mas é verdade isso. Porque nunca me intimidou o ambiente masculino, porque eu cresci na rua com a molecada. Cresci, era uma turma de rua, nós éramos em 10, 12. 4 meninas só, o restante eram os meninos. E as mães das minhas amigas, principalmente da igreja, já me olhavam meio torto, porque eu era a filha da desquitada, porque tinha o preconceito da desquitada na época. Já não gostavam muito que as filhas ficassem comigo. Então, eu ficava com a molecada, soltando pipa. Eu gostava disso, soltar pipa, subir em arvore, essas coisas. Então quando eu entrei na TI, nunca me intimidou trabalhar com muitos homens, e eu também nunca me orientei para essa questão de ah, ele ganha mais ou menos, como que é, de oportunidades. O que eu buscava, existiam em algumas pouquíssimas mulheres na área, que me inspiravam, e que eu achava o máximo. Então, eu queria estar preparada. O que que eu preciso saber? Eu sempre fui muito curiosa. O que que eu preciso aprender? E eu ia me preparar. E as oportunidades na medida que elas vinham, e vieram, e também não tinha muito mi mi mi não. É isso é isso, porrada, porrada. Às vezes não por ser mulher, mas porque as vezes é assim o mercado, e minha careira foi toda em indústria. Então, é um ambiente mais rustico, mais bruto mesmo. Então, não me intimidei. Mas, acho que toda essa bagagem. O que aconteceu recentemente, que eu percebi, que eu sentia falta, de sentir falta de algo que você não sabe o que é, foi quando eu entrei para o grupo das mulheres CEO do Brasil. Então, quando a primeira reunião que eu tive com aquele mundo… nós somos mais de 200 mulheres hoje no grupo, que quando, a primeira reunião que eu participei, que tinham mais de 40 online, você vê todas aquelas mulheres falando de tecnologia.

Luciano Pires: Todas elas sofrendo de solidão empresarial, e descobriram que a dor era igual para todas elas, e tinha uma turma dividindo a…

Fernanda Sabino: E aí eu me emocionei bastante assim, sabe? Falei uou, porque são eventos, tudo que eu participo, todos que eu participo, eu sou muito minoria, né? E existe uma… que a gente aprende a conviver obviamente, mas, quando você está em um grupo de mulheres ali, que você sente meio que acolhida ali, sabe? Poxa, eu tenho mais aqui, pode ser diferente, eu nem sabia que podia ser diferente assim, realmente é uma coisa, eu senti falta de uma coisa que eu não sabia que existia, porque eu nunca tive essa vivencia.

Luciano Pires: Você ao longo da sua carreira, você… vou dar uma volta. Você sentiu em algum momento que você estava produzindo igual aos homens, e ganhando menos que eles por ser mulher?

Fernanda Sabino: Eu, aconteceu, mas eu não tinha essa noção, entendeu? Eu ficava assim, hoje em dia eu tenho, eu entendo que seja por isso, mas, houveram situações que eu realmente, nossa, mas nós entramos juntos, a oportunidade aqui, ali, eu procuro me preparar. Mas, nunca foi nessa parte de inveja. Eu olhava para mim, o que que eu preciso aprender ainda? O que que eu não estou pronta talvez para… Hoje, quando eu passo por algumas situações, quando eu relembro, eu falo não, realmente, eu acho que foi questão de oportunidade, ou realmente por eu ser mulher. Mas, eu não ficava comparando, não deixei isso me orientar na época, até talvez por não ter noção mesmo, sabe? Mas, que existe, existe, é fato. Hoje quando eu relembro algumas situações, eu falo, realmente foi porque eu era mulher. E é muito normal, você conversa com as mulheres, todas, muitas de nós, e nós fomos, as vezes acontece bastante ainda, de ser calada durante uma reunião executiva, de não ter espaço para você. Para que a gente consigamos trazer a nossa voz, a gente tem que se atropelar, tem que ser buta, no sentido de ser mais agressiva, trazer essa agressividade, né?

Luciano Pires: O seu lado ogro tem que entrar em cena.

Fernanda Sabino: Tem. E é na verdade, algo que para todas as mulheres, grande parte das mulheres executivas, que estão em alguma posição de executiva, tiveram que meio que a gente fala de calar um pouco do feminino, para ganhar o seu espaço. De trazer essa energia, essa coisa de característica masculina, do realizar, para conseguir espaço, lugar de voz para falar, para trazer, para se posicionar realmente. Então, eu acho que está em um momento bastante oportuno para nós mulheres assim. Mas também, eu não gosto dessas polaridades todas, então, eu acho que é junto, não tem que ser competição.

Luciano Pires: Isso aí para perder o foco, é 2 segundos, e acaba virando ferramenta ideológica aí, que não vai levar a lugar nenhum.

Fernanda Sabino: Exato.

Luciano Pires: Mas, você volta lá para Sorocaba, e de repente a sua vida vira de ponta cabeça. Agora você não é mais uma executiva, você é uma estagiária, gravida, solteira, morando na casa da avó, em Sorocaba. Virou de ponta cabeça, né?

Fernanda Sabino: Muito.

Luciano Pires: E aí, qual era a perspectiva que você tinha em frente? Eu entendi, eu vou lá para tirar meu certificado, e aí eu volto para São Paulo, para arrumar um baita cargo em uma grande empresa, era isso?

Fernanda Sabino: Isso, é, eu sempre quis essa experiência internacional. Até então, eu não conhecia nada, nenhum país fora do Brasil. Não conhecia nada, nada. Eu sempre quis uma carreira internacional, ter essa vivencia toda. E aí quando eu engravidei, eu falei, acabou. E agora, o que eu faço com essa criança? E tem uma coisa nesse momento Luciano, eu nunca na minha vida, meu sonho de vida foi casar e ter filhos. Eu queria ser mãe, em algum momento, mas, o meu objetivo de vida, era ser executiva. Eu tenho que ser uma executiva. A minha vida, a minha carreira então, que acabou até sendo uma fuga, hoje eu entendo algumas coisas, mas, então eu nunca me vi casando jovem, sabe, com 20 e poucos anos, e com filho. E eu não queria ser dona de casa, eu queria fugir daquilo tudo que tinham me imposto.

Luciano Pires: Aquilo tudo que tinham te preparado lá atrás, você…

Fernanda Sabino: Eu falei não, eu não posso ser assim. Eu quero trabalhar, quero ser independente. Então, e aí eu falei, é o que é, a gente tem essa situação, o que que eu vou fazer? Então, uma preocupação que eu tive muito nesse momento da gravidez, minha gravidez foi bastante conturbada assim. Nesse momento da gravidez foi muito assim, de eu não me anular. Porque eu via na minha família, algumas mulheres muito próximas, que agora é mãe, é mãe, não é mais nada, esquece. Não é mais mulher, não tem mais prazer, não se relaciona mais. Vive em função do filho. Então, eu não fiz isso. Então, eu voltei a trabalhar, o Pedro tinha 2 meses. Até porque, eu não tinha benefícios, estagiário era aquela coisa, trabalhou ganhou, não trabalhou não ganhou. Ponto. E porque eu sentia falta de mim assim, da minha vida mesmo, sabe? A maternidade é linda, ótimo, também não é esse conto de fadas que se vende por aí. E aí eu falei, não, deixa eu me resgatar, eu não posso ficar em uma zona de conforto, e me acomodar. E aí foi o que eu fiz, eu acabei depois morando junto com o pai do Pedro, a gente foi morar juntos, nós ficamos 4 anos depois morando juntos. Acho que foi uma bela tentativa, vários aprendizados, mas, em determinado momento a gente chegou a conclusão que não estava bem. Eu me vi na época com 28, 29 anos, morando no interior. Estava em Americana, fui lá para Americana. Tinha levado ele trabalhar comigo, uma vida que não era a que eu tinha sonhado. Extremamente infeliz. E aí a gente se decidiu separar, e aí eu fui resgatar. Fui fazer MBA, fui comprar minha casa, aí eu quis o diploma da FGV, vou fazer FGV, que eu queria fazer FGV.

Luciano Pires: Mas você estava trabalhando?

Fernanda Sabino: Estava trabalhando.

Luciano Pires: Era executiva de novo.

Fernanda Sabino: Estava. O que que eu fiz na verdade, nesse momento. Terminei a faculdade, tive o Pedro. Eu meio que tinha combinado entre aspas, com um ex-diretor, um ex-chefe meu, ele falou assim, “olha, eu estou saindo dessa empresa, vou abrir uma consultoria, você vai terminar a sua faculdade. Quando você voltar, você me liga, que eu te coloco em algum projeto, e está tudo bem”. Então, meio que existia esse pré-combinado. Me formei, peguei o diploma, cheguei a ser efetivada, tudo mais, na área comercial, nessa empresa. Eu falei, não, é em TI que eu me encontrei, eu quero trabalhar nisso. E fui. Assim que eu me formei, já liguei para ele, olha, eu tenho um projeto aqui no Rio. O Pedro tinha 1 ano e pouco, mais ou menos. Você vem? 1 ano aqui, eu falei vou. E é flyback semanal em um primeiro momento. Então, as vezes minha mãe ia, ficava comigo. Eu trabalhando, minha mãe no hotel com o Pedro. Às vezes eles ficavam aqui, minha mãe, minha avó me apoiando. Tive essa rede de apoio da minha família, para que eu pudesse continuar estudando, para continuar trabalhando.

Luciano Pires: Como que você fez com escola do seu ilho? Toda uma dinâmica.

Fernanda Sabino: Era bebezinho. Na verdade, o Pedro está morando comigo em São Paulo faz 3 anos só. Mas, foi uma preparação, uma construção. Então, esse ano, nesse período…

Luciano Pires: Que idade ele está?

Fernanda Sabino: 17.

Luciano Pires: Tá.

Fernanda Sabino: Então, nesse período, ele estava com 1 ano e pouquinho, 1 ano e meio, quase 2 anos. Fiquei nessa consultoria, foi um projeto bem crítico, mas bem importante, com apoio da minha mãe e da minha avó nessa, vai para lá, para cá, vamos juntos, volta. E depois surgiu uma oportunidade na Camargo, de montar o centro de serviços em Americana. E aí eu fui, a Camargo estava dando preferência para contratar família. E o pai do Pedro, ele é de TI também. Falei, então contrata todo mundo, e vamos todo mundo juntos, a gente vai para Americana. E fomos. E aí o casamento acabou, já não estava muito bem, trabalhando juntos, aquela coisa toda. E nesse período, aconteceu uma coisa bastante interessante. Eu morei na Argentina, surgiu um projeto da Camargo, de fazer uma fusão. Eles tinham comprado uma fábrica lá, tem que fazer uma fusão aqui, vai o time de projeto, vai ser todo realizado na Argentina. Poxa, nunca tinha ido no país. Primeiro país internacional, aquela coisa. E agora? E vem aquele conflito, maternidade, a vida, o casamento que já não estava bem, aquela coisa toda. Mas eu fui. Eu fui, o projeto durou quase 7 meses. Eu ficava, as vezes eu voltava a cada 15 dias, as vezes cada semana, as vezes 1 vez por mês, na época de implantação realmente do projeto. Foi uma experiência incrível para mim, para a minha carreira. Mas, uma coisa, eu muito nova. Quando eu morei lá, eu estava com 27, 28 anos. Eu muito nova, e o julgamento Luciano, as mulheres da minha família, amigas, desciam a lenha de verdade assim. “Como você deixa seu filho para trabalhar? Como que você faz isso? Como que você…”. Toda a culpa do mundo, porque eu estava priorizando a minha carreira naquele momento. E era um conflito muito grande, que eu converso hoje, eu tenho vários grupos de mulheres, eu mentoro algumas, que existe real. Porque era o sonho da minha vida de estudar, o esforço, uma construção disso tudo, de trabalho. E aí de repente, claro que o filho é uma coisa extremamente importante. Mas assim, até onde esse conflito, até onde eu carrego a culpa, até onde também é por ele? E foi realmente o que me permitiu ter minha carreira, de me separar mais tranquila, de ter uma vida, minha independência, de reconstruir, de começar a minha vida com o Pedro nesse sentido.

Luciano Pires: Mas você viveu esse conflito?

Fernanda Sabino: Muito.

Luciano Pires: Viveu. Estou aqui, ele está lá.

Fernanda Sabino: Não, muito. E aquela fase engraçadinha, os 2 anos e meio, 3, 4 anos de idade da criança.

Luciano Pires: Bateu em você já imaginar que em algum momento, lá na frente, você vai olhar para trás e falar, cara, aqueles momentos que eu podia ter ficado com ele, eu não estava. Eu estava trabalhando, eu estava… Tudo bem, não estou julgando a sua escolha de jeito nenhum. Pelo contrário, cada um cada um. Ou eu estou no seu sapato, ou eu não posso te julgar. Mas, chegar lá na frente, você olhar para trás. Que a gente vai ficando velho, vai ficando bobo. Você fala, pô, começa a dar valor para coisas que você não dava. Cara, aos 30 anos, eu queria coisas que hoje eu não quero nem ver. Você não tem medo disso aparecer uma hora e falar, cara, eu tomei a decisão que não foi melhor para essa figura que eu amo tanto aqui. Ele podia ter aproveitado mais a mãe, aproveitou menos.

Fernanda Sabino: Eu tenho tido essas reflexões Luciano, porque o Pedro daqui a pouco vai para a faculdade, ou vai fazer intercâmbio, não sei o que que vai ser. Então, eu brinco, a gente está nos últimos anos, meses, morando realmente juntos, com essa proximidade. Eu acho que em alguns momentos eu até quis trazer essa culpa assim para mim, mas uma coisa que eu tenho muito claro, não me arrependo. Acho que talvez alguns momentos que eu tenha perdido assim, pesa as vezes. Mas eu deixo muito mais leve, porque tem a questão da necessidade, Luciano. Se eu não tivesse trabalhado, feito as escolhas que eu fiz, o Pedro não teria a formação que ele tem, ele não teria conquistado as coisas que eu conquistei, porque a minha família é muito simples, não tinha ninguém para me dar. Eu estava separada, você entendeu? Ninguém ia chegar e me dar a minha casa, ninguém ia chegar e pagar a escola do Pedro, ia pagar os cursos, as viagens. Nada. Então, tudo são escolhas. Em alguns momentos, tudo com o Pedro nessa formação dele, foi tudo muito conversado. Eu tenho um irmão, que tem idade… um pouco mais novo que o Pedro. Minha mãe foi mãe com 48 anos, então… E a minha mãe sempre foi uma mãe presente, porque ela está em outro momento da vida, né? E o Pedro me cobrava isso em algum momento. Por que que é diferente e a sua vida com a dos meus amigos, as mães dos meus amigos? Eu falava olha meu filho, nossa situação é essa. Você quer escola pública? Não quer. Você quer… ele ama a Argentina até hoje. Você quer ir para a Argentina todo ano? Então é isso. Senão, não tem. E é muito interessante, porque hoje quando a gente está indo para Sorocaba, a gente vai conversando muito, e ele falou um dia assim, aleatório. “Mamãe, a nossa história é bonita, né?”. Eu falei assim, “por que você está me dizendo isso?”. “Porque você lembra, você separou do meu pai. Aí nós compramos a nossa primeira casa, e não tinha nada né mãe? Era o colchão, a TV e a geladeira. E depois, a gente foi juntando dinheiro, dinheiro, fazendo isso, e agora a gente tem um outro apartamento né mãe?”.

Luciano Pires: E ele trata como a gente. A gente.

Fernanda Sabino: É. Porque eu fui colocando, “tem que mobiliar a casa”. Quando eu me separei Luciano, eu estava emocionalmente destruída, nova, foi muito complexa a minha separação. Financeiramente, totalmente quebrada. Não sabia como recomeçar a minha vida. E com filho com uma criança. Emocionalmente distante, tirando a minha mãe e a minha avó, que são sensacionais, o restante, meu pai longe. Não tinha alguém para, vem aqui eu te dou colo. A minha avó, tinha primeiro ano primário, me dava todo o amor do mundo. Mas, aquela sustentação financeira de se der errado aqui, para onde eu corro, não tinha. Era correr para banco e pagar juros. Era basicamente isso. Então, o Pedro foi muito assim. Vamos comprar uma casa? Filho, a gente agora vai fazer a cozinha. Não vamos comer fora, vamos segurar, vamos fazer mais dentro de casa. Vamos, sabe? Então foi tudo… não mãe, vamos sim. Então, o Pedro não é aquela criança que gosta das coisas boas. Ele gosta, mas, é tudo bem conversado. Ele sabe o valor das coisas. E esses momentos que nós compartilhamos, construiu assim uma relação única com ele, e ele sabe, tem essa consciência sabe, disso. Então, ele está acostumado. Eu fui preparando ele para ser uma criança, um jovem independente, mesmo enquanto eu viajei, na verdade, praticamente 14 anos todos os dias, Sorocaba/São Paulo, de carro, fretado, acordando 4, 4 e meia da manhã. Hoje eu nem sei como eu aguentei, hoje é o tipo de coisa que eu já não faria mais. Virar finais de semana trabalhando como eu trabalhava, e madrugadas e madrugadas também não. Área de tecnologia exige esporadicamente? Exige. Mas não é aquela coisa tão agressiva como era a minha carreira em tudo. Então, a questão de família, de relacionamento para mim tem uma outra prioridade. Hoje, eu quero esse tempo de qualidade, eu quero começar a desacelerar, de verdade. Mas, não me arrependo das escolhas que eu fiz não. E o Pedro hoje, quando eu olho, ele super se vira, sabe? Ele é aquele jovem que se vira, que cozinha, ele gosta de cozinhar, ele cozinha melhor que eu. Ele se vira na casa. As atividades em casa, são divididas. Porque, para que a minha vida funcione hoje, eu preciso que ele também faça funcionar. Então, foi muito assim, nesse momento de reconstrução. O Marcelo também sempre me apoiou bastante, no sentido de quando eu comecei a ficar em São Paulo a gente dividia. Fica um tempo na sua casa. E o Pedro em ritmo de estudar pelo Skype, casar, fazer funcionar. Sem ser da maneira tradicional, mas, funcionou. Qualquer coisa vai para a terapia depois, para ver o que que acontece. Mas, eu não me arrependo Luciano, eu não me arrependo não.

Luciano Pires: E aí você se torna executiva de novo, volta para um cargo de executiva, em uma grande empresa, é isso?

Fernanda Sabino: Volto. Eu voltei, não tinha sido na verdade assim, executiva quando eu voltei. Estava ainda em um papel de gestão mesmo, não era de executiva exatamente assim.

Luciano Pires: Na área comercial?

Fernanda Sabino: Na área de TI, quando eu voltei.

Luciano Pires: Então, você fez uma passagem pela área comercial, vem para São Paulo, isso?

Fernanda Sabino: Vim para São Paulo, fui ser consultora. Fui para a Camargo ser consultora, assumi esse projeto ainda na Argentina como consultora.

Luciano Pires: Tudo em TI? Já era TI?

Fernanda Sabino: Tudo em TI, tudo em tecnologia, em diferentes linhas, diferentes soluções. E aí em 2015, voltei, comecei, assumi a primeira posição América Latina. E aí era…

Luciano Pires: Que empresa é?

Fernanda Sabino: Na Smiths Group. Smiths tem a John Crane, que é a mais conhecida, parte de engenharia, tem a Medical Detection, enfim, é uma empresa britânica, um dos maiores grupos britânicos. E eu cuidava do [México] para baixo, montando toda a operação de TI, aquela coisa assim. Então, eram duas semanas no Brasil, duas semanas fora do Brasil. Tive a oportunidade de conhecer vários países, mas, o Pedro estudando, aquela loucura, com a minha mãe, minha avó me apoiando, babá, dando um jeito de fazer as coisas funcionarem. Então, foi quando eu voltei, que profissionalmente foi um grande aprendizado de fazer, de liderar equipes, embora de países perto, mas de culturas totalmente diferentes.

Luciano Pires: Sim, com todo a competitividade que tem entre os países, porque a empresa que eu trabalhei, tinha operações também na América do Sul inteirinha. E com a Argentina era um inferno, porque o simples fato de ser brasileiro, já tinha um baita problema na Argentina. Agora, chegar lá para tomar conta de uma operação, para dizer como é que os caras tinham que fazer, era um horror. E eu era homem. Imagino chegar uma moça lá.

Fernanda Sabino: É, assim, México, as reuniões superpesadas, e as pessoas se xingando. Um país que me marcou muito, foi a Costa Rica, o pura vida deles, que tudo… e nós tínhamos outro problema com a equipe em Costa Rica. Que eles não discutiam nada, tudo estava bom. Então, aquelas discussões boas que trazem mudança, trazem inovação para a empresa, não aconteciam. A gente teve que começar a contratar gente de fora para montar as equipes, para começar a reorganizar as coisas. Então foi assim, eu fui conciliando, e aí eu fiquei com um espanhol muito bom nessa época. Mas meu inglês estava lastimável. Aquela coisa de 15 anos de escola de inglês no Brasil, e eu estava já com 30 e poucos anos, não lembro exatamente agora. E aí eu sempre quis fazer intercambio, não conhecia nada dos Estados Unidos até então, aí o Marcelo falou assim, “olha, você precisa melhorar seu inglês. Esse inglês seu está horrível”. “Marcelo, imagina, como é que eu vou deixar o Pedro?”. “Fernanda, dá um jeito. Vai dar uma semana, o Pedro não vai nem lembrar mais, que a mãe dele está aqui. E vai”. Eu fui, fiquei um mês, peguei umas férias, mais uns dias. Nós tínhamos uma filial que ficava em Dublin Ohio, então eu fui para Columbus Ohio, fiquei na faculdade lá estudando. Depois eu ia trabalhar, e tive toda a experiência ali. E foi muito doido, porque interior dos Estados Unidos, preconceito… latina.

Luciano Pires: Eu fiquei em Indiana, Richmond Indiana, que é pertinho de Toledo Ohio. Richmond Indiana, Toledo Ohio, passei por Columbus, Dayton, toda aquela região lá, conheci bastante lá. A sede da empresa era lá.

Fernanda Sabino: Então, e ali eu fui realmente, escolhi esse lugar porque era peto de uma de nossas filiais, e o time de TI que me suportava. E aí foi assim, eu fiquei surpresa. Porque até então, uma passagem importante antes disso. Quando eu entrei lá na Smiths, foi a minha primeira, primeiro lugar que eu conheci dos Estados Unidos, foi Chicago. Então, reunião de executivos, Américas, Chicago. A única mulher era eu, com inglês meia boca, indo sozinha. E quando eu me vi, eu lembro muito bem assim, avião pousando em Chicago, eu chorei Luciano, chorei de soluçar de emoção, sabe? Por chegar, por estar ali, pelas coisas, me veio muito a aminha avó, as escolhas que eu tinha feito, tudo assim, foi uma realização assim muito única, muito especial assim, sabe? Eu lembro dessa cena claramente. E aí meu acabei indo muito a Chicago a trabalho, porque o head quarter era lá. E aí, eu vou chegar em Ohio, vai ser a mesma coisa. Aí o preconceito porque eu era latina, em várias coisas, enfim. Mas, foi uma grande experiência. E realmente, conciliar maternidade com isso, foi um desafio, mas depois o Pedro tranquilo, eu já viaja bastante, já estava acostumado. Então, foi aquela coisa, mas, por que que é importante trazer? Porque as vezes, eu muito com as mulheres é isso, eu não vou por causa do meu filho. E as vezes é uma insegurança nossa, que não tem nada a ver com filho, marido, o que for. A gente acaba deixando na verdade de fazer algumas coisas importantes para a gente nesse sentido. E tem muitas, muitas que abriram mão, e sem julgamento gente, acho que cada um escolhe, tem que ser feliz no caminho com as suas escolhas. Mas, eu vejo muitas mulheres, que abriram mão de tudo. E aí o filho vai viver a vida, e tem aquela síndrome do nicho vazio. Como é que eu faço? E frustrada, porque largou a carreira. Quem sou eu agora? E começam a buscar se reencontrar. Então, não tem receita exatamente.

Luciano Pires: Isso acontece no grupo de vocês lá direto.

Fernanda Sabino: Acontece. Acontece. Acontece assim, várias discussões. O que eu falo mesmo, as provocações assim que eu faço, o trabalho que eu faço muito assim com as mulheres, é de se olharem. Porque existe, independente da sociedade, do que é a sociedade, isso aquilo, isso é mas questão que é tu com tu. Sabe assim, é a questão de auto responsabilidade, sabe? Como é que você se prepara, como é que você faz as suas escolhas? E existe uma insegurança, e tem dados disso, das mulheres não se arriscarem tanto quanto os homens. Existe uma questão emocional de… o Linkedin publicou até recentemente uma pesquisa, de as mulheres se aplicam para as vagas, quando o verdinho… você tem esse perfil, acima de 90%. Os homens não, tem 50, menos, eles se aplicam, se arriscam e vão. Então assim, como é que eu ajudo esses momentos que eu vivi, esses conflitos que eu vivi, que ainda vivo. Tem vários momentos, que várias questões acontecem, que você vai, você fala, vou. Enfrento isso e vou. Muitas mulheres param ali. Então, como é que eu ajudo essas mulheres a desempacar sabe assim, vai. Você se olhar, você assumir a reponsabilidade pelas suas escolhas, você se priorizar. Porque é muito interessante, eu tenho, o primeiro projeto que eu fiz com as mulheres, foi a confraria de vinhos, woman wine. E depois, foi um hobby, porque eu comecei a estudar sobre vinho, curiosa.

Luciano Pires: Aquela época, foi quando… como que é o nome?

Fernanda Sabino: Woman wine.

Luciano Pires: Mulheres de vinho.

Fernanda Sabino: Isso. Então, que a proposta é, compartilhar a cultura do vinho com as mulheres. Porque na época, eu estudava por curiosidade, fiz vários cursos, morei na Argentina. Então, eu não tinha mulher para beber vinho comigo. E eu percebi que elas se sentiam desconfortáveis com os ambientes onde tinham, porque tinha muito homem. Como trabalhar com homem para mim não era problema, então, eu ia. Então, vou criar uma confraria de mulheres. E criei há 7 anos atrás, eu criei a woman wine, que foi o primeiro. Depois de um ano fazendo os encontros, tudo mais, que eu percebi que as mulheres não se priorizam. Isso é com elas, é delas isso. Então, eu não posso marcar encontro as quartas por exemplo, porque tem futebol do marido, elas não vão. Eu descobri que eu tenho que vender o convite antes, porque eu tomei um monte de prejuízo, eu e o dono de restaurante. Porque se eu deixo para cobrar depois, ou no dia, chega na hora ela fala, “nossa, mas eu passei o dia inteiro trabalhando, longe de casa, meu marido, meu filho. Agora, eu vou me reunir com mulher para beber vinho, para saber, um momento para mim?”, né? E elas não vão, porque vem a culpa. Aí comecei a notar esses comportamentos assim, depois de um, dois anos desse primeiro projeto. E eu vivendo a minha vida, as minhas questões todas, e crescendo, amadurecendo, quebrando a cara na vida também, um monte de coisa. Em determinado momento, e a pandemia trouxe isso muito forte, muito à tona, porque até então eu fui muito [orientada] na minha carreira. Workholic total Luciano, vou, sangue no olho, trabalho, trabalho, esquece. Tinha Pedro, Marcelo, sofreram muito, trabalho é trabalho, primeiro. Não tinha outra coisa. Estudo e trabalho eram as minhas prioridades. Aí eu achava, quando eu for uma grande executiva, C level e capa da Forbes, aí eu faço uma coisa para as mulheres. Mas, a felicidade está lá. Chegou, quando eu assumi a primeira posição assim, eu falei, ué, cadê a felicidade? E aí ficou claro para mim, como foi uma fuga ser workholic. Então, eu vou olhar para as caixinhas emocionais todas, vou começar a abrir, e aí que eu comecei uma grande transformação na minha vida. Foi em 2017, de começar a buscar centro budista, meditar, começar quem sou eu agora com quase… crise dos 40, né? E me descontruí muito assim, de não ser, de não ter uma posição executiva muito orientada pelo meu ego só, sabe? Pela minha vaidade. Mas, hoje a consciência que eu tenho, é ok, a posição que eu tenho é privilegiada, me abre muitas portas. Então, é uma ferramenta para que eu possa me realizar. Porque hoje eu tenho claro qual é o meu proposito mesmo. Mas, eu aprendi quebrando a cara, vivendo. E eu comecei a ver que os conflitos que eu tinha, eram comuns para as outras mulheres. E eu tinha as ferramentas para passar para superar aquilo, e as outras não tem. Então, organicamente, aí eu comecei a perceber que por onde eu passava, eu criava os grupos genuínos de mulheres. E já estava mentorando gente, sem saber o que era mentoria. Aí eu comecei a me preparar, estudar realente sobre isso. Estudar mais profundamente sobre o feminino, sobre o masculino, sobre esses acolhimentos todos, e levar isso para a empresa. Então hoje, eu cuido muito de gente. E nesse meio todo de transformação digital, tudo mais, você fala de cultura, você fala, não tem como isolar as coisas. Então, é o bastante no momento.

Luciano Pires: E a pandemia mostrou que se você isolar, é um desastre, né? A pandemia nos isolou, né? Até fiz uma live essa semana, comentando. Os caras falam, cara, nós temos na mão todos os instrumentos de comunicação, como nunca houve na história da humanidade. Eu tiro um aparelho do meu bolso, e falo com uma pessoa na China, por imagem. Isso é ficção científica, isso na minha época, era ficção científica. Está tudo na mão da gente. Aí vem uma pandemia e fala legal, fica em casa.

Fernanda Sabino: Bem isso.

Luciano Pires: Não vê mais gente, não toca nas pessoas. E aí a turma entra em parafuso, né? Porque descobre que essas ferramentas todas são fantásticas, mas, elas não ocupam o espaço sabe, de a gente estar aqui conversando. Aliás, uma coisa interessante, por isso que eu faço questão, o LíderCast sempre foi, ou você está sentado na minha frente batendo em mim, trombando um no outro, ou não tem gravação, ou não grava o programa, não faço programa. Porque eu tenho essa tese, se não tiver olho no olho, sentindo a vibração, tudo, não passa pelo microfone. Vira live, vira aquela coisa da Live. Que pode ser muito legal, mas, perde um lado fundamental que está ali. E acho que a gente acabou descobrindo isso agora. Quer dizer, tecnologicamente está um deslumbre, está maravilhoso, a gente pode fazer quase qualquer coisa com a tecnologia, mas, à custa de ter abandonado todo um lado humano. Que dizer, a gente está tentando recuperar. Eu lancei esse ano aqui, um PodCast infantil, o Café com Leite. E a ideia do Café com Leite, foi recuperar, tanto que a gente começou com Sócrates, Platão, Aristóteles, para criança. Cara, mas por que isso? Por que não falar da Galinha Pintadinha? Falei cara, porque isso tem que ser recuperado, nós temos que trazer. Até porque essas discussões que nós estamos tendo hoje, já foram feitas há 2 mil anos, 3 mil anos, os caras já resolveram o problema. E a gente perdeu isso tudo, abandonou isso tudo, em troca de um pragmatismo, né? Toma um celular novo, está resolvido a sua vida. Não está cara, não está.

Fernanda Sabino: Não está. Então que estrutura emocional que a gente está… queria eu estar ouvindo Sócrates, mais nova, não esperar chegar…

Luciano Pires: Quando criança, né?

Fernanda Sabino: Quando criança, exato. Porque a filosofia traz, é uma ferramenta de autoconhecimento também, conhecimento arquétipo, um monte de coisa. Então, eu trouxe essa consciência, de poxa, que líder eu estou sendo na minha vida? Se eu não trabalhar isso em mim, e for um ser humano melhor, eu não vou conseguir liderar, ser chefe.

Luciano Pires: Mas isso foi aos 40, né?

Fernanda Sabino: Começou aos 37, demorou.

Luciano Pires: Essa turma que está com você nesse grupo, como chama o grupo mesmo? Das mulheres CEO, como que é?

Fernanda Sabino: Mulheres CEO Brasil.

Luciano Pires: Todas da área de TI?

Fernanda Sabino: Chief Information Officer.

Luciano Pires: Tá. E tem uma faixa de idade ali, tudo 30 e alguma coisa?

Fernanda Sabino: Acho que a grande maioria, até mais de 40, 45 mais. E agora está chegando…

Luciano Pires: Mulheres experientes, tá.

Fernanda Sabino: Foram as mulheres que abriram as portas do mercado, as primeiras mulheres de TI do Brasil. Eu já sou mais a geração nova, estou no meio, então a gente está preparando, tem vários programas para preparar realmente outras mulheres para o mercado.

Luciano Pires: Então, mas o que que é esse grupo? É uma entidade, é uma ONG, é uma associação?

Fernanda Sabino: Agora, nós nos tornamos…

Luciano Pires: É um movimento, o que que é isso?

Fernanda Sabino: Começou na verdade como um encontro de amigas, um grupo de amigas, que foi tomando corpo, corpo, e fez 1 ano agora recentemente, que nos tornamos uma associação. Então, a gente…

Luciano Pires: CNPJ agora.

Fernanda Sabino: Agora tem CNPJ, e a gente tem se estruturado. Então, são várias trilhas para as mulheres. Então, para quem ainda não é C Level, que está na fase de gestão e precisa se preparar, tem a trilha de mentoria, tem a parte de transição de carreira. Então, tem apoios, uma ajuda a outra, divulgação de vaga, acolhimento.

Luciano Pires: Vamos lá, para entrar tem que ser mulher primeiro?

Fernanda Sabino: Mulher, trabalhar na área de tecnologia.

Luciano Pires: Mulheres, na área de tecnologia.

Fernanda Sabino: E nós temos feito bastante parcerias com grandes empresas de tecnologia. Microsoft, tudo mais, por que? Para desenvolver Luciano, não adianta, hoje, eu quero contratar mais mulheres, por exemplo. Mas, eu não tenho tantas mulheres em TI.

Luciano Pires: Então, esse é um tema que eu estava guardando, quando a gente fosse trombar com feminismo, eu ia botar uns temas, esse é um dos temas, que é muito recorrente, e tem uma reclamação. Não tem mulheres na política, porque o ambiente político é masculino, e não deixa as mulheres entrar. Não tem mulheres em TI, porque o ambiente de TI é masculino, e não deixam as mulheres entrar. E pelo pouco que eu vi, quando eu comecei a pesquisar o assunto, não é uma questão de não ter porque não deixam. Não tem, porque não querem.

Fernanda Sabino: Não tem preparadas.

Luciano Pires: E porque também não querem. Tanto que o cara, está aberto o esquema para política. Cadê as mulheres? Não se candidatam. Então os caras olham aquilo, fala cara, não quero nem chegar perto desse ambiente. O que tem tudo a ver com o fato do ser mulher. E eu não estou nem tratando como bom ou ruim. O fato de ser mulher, te leva para escolher onde você quer estar, de acordo com o que você é. Isso não está errado. Se eu sou mulher, eu não quero estar em um lugar bruto, não me interessa. Eu sou homem, quero jogar bola, eu estou em um lugar bruto, eu me sinto bem ali. Mulher não se sente bem ali, o que é absolutamente natural. Forçar para botar uma mulher lá dentro, além de eu força-la, eu estrago o ambiente dos caras que estão lá. Isso é uma discussão meio maluca. Mas, eu trombei com essa história de que cara, espera um pouquinho, tem muito de escolha. Não é porque impediram de entrar. Elas não foram, as vagas estão abertas. Elas não se candidataram, porque aquilo não as atraiu, e não atraiu não é porque elas são ruins. É porque cara, não é para mi isso.

Fernanda Sabino: Não, é a forma que é colocada mesmo Luciano. Até porque, quando você fala em tecnologia, você já pensa em programação hardware. Só que é um mundo tão abrangente, agora dessa forma toda que a gente está vivendo, de digitalização das coisas, abriu muito mais a ainda o leque de opções dentro da área de TI. Eu não vim de programação, eu fui depois, eu vim de negócios, e com o tempo eu fui me formando, fazendo cursos mais técnicos, tudo mais. Mas, é trabalhar muito educação. Então, por isso tem as academias de mostrar quais são as tecnologias, quais são as áreas, como é que a gente prepara.

Luciano Pires: Era esse o ponto que eu queria chegar. Você tem uma rotulagem, tem um padrão que o pessoal lá de fora fala, bom, como eu brinquei aqui no começo. É um nerd, gordo, maluco, aquela caricatura que se faz, né? Mas, não é assim, isso não é a realidade. Só que não ser realidade, você só vai sentir quando tiver lá dentro. E se não olhar de fora, eu não vou nem entrar. Então, desmistificar essa coisa, mostrar que gente, tem espaço para todo mundo aqui. A carreira pode acontecer de forma, eu diria que esse é o grande desafio, né? É você mostrar que cara, esse não é um terreno de ogro.

Fernanda Sabino: Exato, porque dentro da TI, você vai dando zoom, você vai fechando, por exemplo, mulher programadora. Mais difícil ainda. Tem, mas raridade. Então, muitas empresas tem as vagas em aberto, querem contratar, e de 10 currículos que eu recebo, 2, 3 são de mulheres. Aí você entra na validação técnica. O que acontece também, que eu acho que isso que a gente precisa também olhar. No sentido de por exemplo, a mulher se candidatou. Tem a questão técnica. Você percebe que ela está insegura, mas, ela conhece sobre o tema. Teste de inglês, básico, isso eu já vivi várias vezes em entrevista. O cara, “fala inglês?”. “Falo”. “Vamos conversar agora?”. “Vamos”. Não sai. A mulher, você pergunta, “você fala inglês?”. “Não, não falo, estou estudando, leitura”. “Vamos conversar um pouquinho, vamos tentar?”. E sai a conversa. Esse é quando eu falo do desempaca da mulher, de dar esse apoio, aquele empurrãozinho, que as vezes você não fala na mentoria, não faço nada demais. Eu só faço com que ela se encontre consigo, se sinta mais segura, para dar esse passo adiante. E acontece muito. E acontece dentro das empresas, quando você quer dar uma promoção, vai promover alguma mulher, tem todo o potencial, ela fala, “mas eu? Será que eu estou realmente preparada?”. Vem uma insegurança absurda. E aí por isso, que paralelo a isso, eu tenho for she, que deu boom durante a pandemia, que é onde eu falo…

Luciano Pires: For she?

Fernanda Sabino: For she.

Luciano Pires: Para ela?

Fernanda Sabino: É, mas na verdade é para todo mundo, né?

Luciano Pires: Que na verdade seria for her, seria ideal. Mas, for she.

Fernanda Sabino: For she. Onde eu trago esses assuntos, falo de tecnologia, falo de liderança feminina, de autoconhecimento.

Luciano Pires: Espera aí. O que que é isso? Um outro grupo?

Fernanda Sabino: É um outro grupo.

Luciano Pires: Igual um woman wine.

Fernanda Sabino: Eu tenho vários Luciano, eu vou criando coisas assim. Fico inventando, depois não dou conta de cuidar de tudo.

Luciano Pires: Junta as moças no for she.

Fernanda Sabino: E junto as mulheres no for she, onde eu falo mais não do técnico em si, mas, eu falo sobre comportamento feminino, sobre vida corporativa, sobre liderança, liderança feminina.

Luciano Pires: Aí para qual tipo você tem?

Fernanda Sabino: Não precisa ser necessariamente TI. Nas mulheres CEOs, é um grupo que eu faço parte, não lidero esse grupo, faço parte deles de mentoria, e do marketing, e eu sou uma das associadas, e a gente faz todo esse movimento com grandes patrocinadores, grandes parcerias, que a gente tem desenvolvido. O for she, eu criei justamente, que a medida que eu fui vendo aos meus processos, inseguranças, minhas vulnerabilidades, assim, eu fui convidada para participar de uma live, e falar sobre liderança feminina. E o pessoal, poxa, legal a sua visão, porque é inclusão do nosso feminino, não é de as mulheres… não. Está preparada, não está, com capacidade técnica, porque eu acho que a gente tem capacidade igual, enfim. E aí deu um boom, e as pessoas começaram a me procurar. “o que que você lê?”. “Eu ouço Café Brasil”, e comecei a compartilhar conteúdo, e falei, bem, o que que eu posso contribuir? Pandemia, estava em casa, aquela coisa toda, bem, eu tenho um bom networking, tenho uma boa rede de contatos. Mas, querem falar de liderança? Poxa, liderança começa com autoconhecimento, você precisa saber quem você é. Como que você vai liderar alguém, se você não sabe quem você é? E quando você fala, não sei se você já fez reflexão de grandes pessoas na sua vida, de grandes líderes, não são necessariamente grandes executivos. Eu tenho também grandes mentores, executivos. Mas, a grande líder da minha vida, foi minha avó. Tinha primeiro ano primário, entendeu? Poxa, eu vou começar a convidar essas pessoas que fazem parte da minha vida, que eu me inspiro, para falar. E fiz uma sucessão de lives em 2020, com muita gente, muita gente executivos, não executivos, pessoas que fazem a diferença na minha vida. E assim começou a tomar uma proporção sabe, bastante interessante. E a medida que eu vou vivendo, eu sou inquieta. Eu estou em retiro espiritual, estou com Murilo Gun terça-feira na Flower, conversando sobre consciência, sobre várias coisas, e estou estudando alguma coisa mais técnica no outro. Estou em seminário de isso, daquilo, e eu começo a compartilhar. E tem muitas mulheres que me procuram para falar, querem fazer mentoria, muita coisa acontece ao redor disso, na questão de a preparação das mulheres como ser humano, não a parte técnica aí, mas, é um projeto pessoal. Entendeu?

Luciano Pires: Você está preparando o seu legado, né?

Fernanda Sabino: É o meu legado.

Luciano Pires: Está preparando o seu legado. Qual é a dificuldade que você encontra? Em alguns momentos, eu vejo você repetir, insegurança, insegurança. Que parece que é uma coisa que é comum. O fato de ser mulher, nesta nossa sociedade, e de novo, não estou falando de machismo, nada. Eu estou falando, a sociedade se organizou de tal forma, que por ser mulher, você encontra alguns desafios ali, que podem dar uma insegurança. Por exemplo, eu chego em Chicago, e vou para uma reunião para falar inglês, e só eu sou a mulher da sala. Entrei em um lugar que só tem eu de mulher. É igual eu entrar em um lugar que só tem eu de homem. Só mulher, e eu de homem. Imediatamente você fala, opa, estou no mínimo um pouquinho deslocado. Ninguém vai me comer, ninguém vai me bater, ninguém vai me xingar, ninguém vai cuspir em mim. É um ambiente legal, está gostoso aqui, mas, não é minha praia, só estou eu de homem. E no mundo profissional, embora as mulheres tenham ocupado um espaço gigantesco, eu não sei se já teve estar pau a pau, se não tiver mais. Acho que se eu pegar o volume de gente empregadas no Brasil hoje, e for dividir, deve estar pau a pau, ou deve ter mais mulher que homem.

Fernanda Sabino: Pode ser.

Luciano Pires: A essa altura.

Fernanda Sabino: Não sei. Mas aí é quando você começa a dar o zoom para cargo de liderança, essas coisas, aí começa a ficar mais restrito.

Luciano Pires: Aí dá as diferenças, né?

Fernanda Sabino: Sim.

Luciano Pires: Então, esse ponto que você colocou aí, a insegurança é um primeiro ponto. Quer dizer, ela tem capacidade, ela tem conhecimento, ela sabe das coisas, mas, ela fica insegura. Esse é o principal, esse é o ponto?

Fernanda Sabino: Tem uma frase que eu falo muito no for she Luciano, que é o se permitir. Um convite que eu faço para as mulheres se permitirem a se olhem, a ter um tempo consigo, sabe? A errar, estudar. Porque é tão condicionado a questão do, “não, estou casada, eu tenho que viver para o meu filho, para a minha família só. Eu não posso num sábado a tarde participar de um retiro, eu não posso.eu estou fazendo um MBA, eu não posso ter uma vez por mês um encontro para beber vinhos”. Então, vem tanta culpa, mas eu acho que tem a questão do ambiente todo, mas é uma cobrança que a mulher se faz. Você entendeu? E que a outra mulher cobra ela também. Eu estava conversando ontem isso com a minha chefe. Até falei assim, é muito interessante esse movimento. Nesses momentos todos da minha carreira, eu fui muito julgada por outras mulheres. Quem mais me julgou, quem mais estava ali, eram as outras mulheres, onde eu esperava empatia e colo. Por isso, a minha provocação dentro do for she, para que esse movimento de que nós nos apoiemos cada vez mais, que já é meio caminho andado, só depende da gente, da gente se ajudar mais, da gente abrir portas. De não cobrar tanto, nós não cobramos muito. Por isso que eu falo, é tu com tu. É a mulher com mulher, sabe? Sou eu, comigo. É claro que o ambiente, como eu fui formada, influencia muito. Mas assim, isso acontece muito. Então, eu vou tirar férias, vou viajar. Nessa, vem uma culpa. Se eu sou mãe, você parece que com a maternidade, vem uma bagagem de culpa que você não pode fazer mais nada, você só pode ser mãe. E se você olhar para o lado, assim, é um absurdo. Então, eu tenho algumas experiências na maternidade, com o processo de gravidez, que eu não achei encantador. Eu tive a minha experiência. Nossa, hoje eu falo, não tem problema nenhum. Mas, verbalizar isso em uma roda de mulheres, é um absurdo. Como que você não gostou de engravidar, da sua barriga? Gente, eu amo meu filho incondicionalmente. Mas, eu não gostei do processo de produzir meu filho, foi muito estranho. Então, são coisas assim, que vem uma fantasia que se vende, que se rotula muito. E aí a mulher, “mas o que que eu vou falar? Imagina, eu vou falar que eu não gostei de ficar grávida? O que que vão pensar de mim?”, sabe? Então, é isso que eu falo.

Luciano Pires: Tem algumas mulheres que defendem não ter filhos. E outro dia explodiu uma bomba na internet, eu me lembro de um horror, porque uma delas se atreveu a dizer, “cara, eu não tenho filhos, eu não quero ter filhos, eu não gosto da ideia de ter filhos”. E aí o mundo caiu em cima dela, porque onde já se viu uma mulher, porque essa coisa é sagrada. Dá até para entender, né? Se as mulheres resolverem não ter filhos, acaba a humanidade. Então, dá para entender como que funciona. Mas, o fato de você não poder nem, cara, para mim não deu certo, para mim não funcionou. Eu vim trabalhar aqui, não gostei. A outra veio, gostou. Cara, cada um, cada um. É tu com tu.

Fernanda Sabino: É tu com tu. Agora, eu estou em um momento Luciano, nos últimos 2, 3 anos assim, de dar o passo inverso, de reconexão com o meu feminino, sabe? Porque…

Luciano Pires: Cara, eu tenho um medo disso.

Fernanda Sabino: Não, estou falando assim, porque o que acontece, eu reconheço que em vários momentos da minha vida, da minha carreira, nessa fase workholic, do realizar, o trabalhar, é uma característica do masculino. E eu matei a minha vulnerabilidade, eu matei as minhas emoções, porque é lá que eu quero chegar. Me destruindo por dentro, meu lado mulher, meu lado feminino. E nesses processos todos, as minhas buscas de reconexão comigo, eu falei poxa, por que que eu não posso? Cadê o cuidar feminino, o acolher, a criatividade do cuidar, que é da mulher? Então, eu tenho aplicado isso, me descontruído muito, me reconstruído na verdade, me olhando, até para ser uma lida melhor sabe? Com as pessoas, eu não preciso ser agressiva sempre, não tenho que entrar no embate.

Luciano Pires: Mas vamos lá, de novo. Como essa coisa é bastante inteligível né? Se a gente voltar na história, lá atrás, o homem é o ogro protetor, contra a mulher que é vulnerável, está cuidando dos filhos. Quando o inimigo ataca a vila, não é a mulher que vai brigar com eles, só na Netflix. Na Netflix as mulheres batem em todo mundo, a mulher voa, é aquela coisa. Mas, na vida real quando os unos atacavam, quem ia defender lá na frente, eram os homens. Iam lá perder cabeça, aquela coisa toda. Então historicamente é assim, o macho sempre foi o protetor, e a gente tem isso no DNA da gente. Quando você traz para o seu ambiente de trabalho, não é muito diferente. Se eu tiver algum trabalho que seja uma coisa que exige muito, bota um homem para fazer. Bota esse cavalo para fazer, não põe uma moça, porque ela é vulnerável. Então, essa história da vulnerabilidade existe na sociedade, não adianta querer brigar contra ela, que nem a Netflix faz, que bota uma mulher de 50 quilos batendo em um homem de 200. Fica forçado essa coisa toda. Então, eu entendo quando a gente vem para o ambiente de trabalho, como é que a mulher faz isso que você fez, que eu vou esconder a vulnerabilidade, eu não posso deixar que a vulnerabilidade apareça, porque eu sou a fodona. Sou eu que vou tomar a decisão, eu vou para cima, e sai da minha frente.

Fernanda Sabino: É, você vai para o lado da agressividade.

Luciano Pires: Qualquer coisinha que você der uma tremidinha lá, opa, era é vulnerável. Se você levar isso para o estudo da liderança, é muito parecido. Como é que eu posso querer eu ser líder, mostrando que eu tenho vulnerabilidade? Pô, o cara é vulnerável, o cara está inseguro, ele não tem resposta. Diante desse momento aqui, ele não consegue dar uma resposta, logo, ele não merece estar onde ele está. Agora cara, você é mulher, você carrega em si o peso da vulnerabilidade. Como é que faz para anular uma coisa dessa? Isso não se anula, né?

Fernanda Sabino: Não se anula, mas assim, voe chora sozinho, e vai para a agressividade na empresa, né? Traz muita agressividade. Às vezes é importante. Então acho que a questão do equilíbrio é, que momento que eu uso… porque chega um momento Luciano, de eu precisar demitir pessoas que não estavam performando, homens mais velhos do que eu, muito mais velhos, que não aceitou. Você menina, não aceito que você me demita. Quem é você? Vai você ligar o servidor. Eu já ouvi muito. Então, neste momento, aí você tem que vir, pegar, saber que ferramenta que você vai usar. Mas, assim, a gente destrói, por isso que tem muitas assim, acho que muito o que pega na empresa. As mulheres, muitas mulheres que chegaram em posição executiva, foi importante e preciso usar da agressividade, tudo mais. Então, existe muita competição. É meio que o masculino da mulher ali, brigando com o masculino do homem. E cria aquele ambiente de conflito desgastante, que sabe, que é o grande ponto, que eu acho que é como é que a gente recobra isso, como é que a gente conquista como mulher, sabe? Porque a gente precisa, na vida, na sociedade, nas empresas, dessas características que eu falo assim, do feminino. Dessa criatividade, dessa vulnerabilidade. É claro, saber se posicionar, que ferramenta que eu vou usar em determinado momento, determinada reunião. Mas, eu tive que trazer isso para a minha via. Por que? Porque ficou muito pesada a vida, entendeu? Assim, vou dar um exemplo para você. Eu sempre assim, a minha via emocional, da minha vida familiar, eu sempre separei a minha vida profissional, do pessoal, nesse processo bulshit, esse processo somos quem somos, e ponto. Então, Linkedin eu já tenho mais seguidores. Então a minha vida lá era blindada, no Linkedin, porque tem muito C Level, tem muita gente, tem muitas pessoas da minha equipe. Eu sou uma pessoa extremamente sarrista, brincalhona, eu sou atrapalhada para caramba, a gente se fala bastante assim. E nesse processo, eu falei gente, eu sou eu. Eu sou, mas, tem hora que eu estou brincando com a minha família eu brinco muito no Instagram. Meu Instagram é fechado. Nesse momento do for she, que surgiu, da live e tal, eu precisei no dia abrir meu Instagram, um monte de gente começou a me seguir, e eu estava incomodada, porque eu não queria abrir a minha vida pessoal para as pessoas. E já nesse processo de entender esse momento que eu estava vivendo. Aí falei, gente, eu sou eu. E é isso, esta é a Fernanda. Queira ou não, goste ou não, essa sou eu. E aí eu comecei a me expor esse sentido de, falei cara, eu tenho formado equipe sabe Luciano, sensacionais nos últimos anos, pelas empresas que eu passei. Sensacionais. Trazendo a minha vulnerabilidade, tratando o ser humano de verdade, sabe? E foi muito doido, porque eu tinha publicado um artigo no Linkedin, na mesma semana, eu publiquei um Tik Tok treinando com o meu personal, sabe assim. O artigo super viralizou, e eu estava fazendo Tik Tok. Isso me faz menos profissional, mais profissional, mais inteligente, menos inteligente? E essa sou eu. Tem hora que você vai me ver alguma coisa no Instagram meditando na montanha, tem hora que eu vou estar em um big de um evento de premiação de inovação, fora do país. E não me faz, entendeu? Então, essa transição é que eu converso muito com os líderes, inclusive com compadres, com amigos de outras empresas, porque está pesado para o pessoal. É burnout, o Covid trouxe essa outra consciência para a gente. Não dá mais para sufocar e falar, a minha vida pessoal do profissional. Gente, somos seres humanos. Ponto. Como você lida isso, isso existe, como lidar com isso, com as equipes, mas, é se expor, é ser quem você é. Ponto. Existe, obviamente, a cultura da empresa, questão de código de ética, essas coisas.

Luciano Pires: Claro, você está dentro de um ambiente. E você se comportar como alguém totalmente transparente, verdadeira, etc. e tal, em um ambiente que não é assim, um ambiente que não presa por isso, você vai dançar em dois minutos. Tem um monte de hienas em volta, esperando você piscar para ir lá atacar.

Fernanda Sabino: Exato. Mas, não precisa ser aquela coisa pesada que a gente trazia, sabe? De matar quem realmente a gente é. Porque cara, tem um monte de gente somatizando, tem um monte de coisa de stress. E quando você vê, eu fiz dentro do for she, tem um dos projetos que eu faço, que é o immersion day. O que que eu faço? Eu pego a mulherada, levo tudo para um retiro de um dia só. Então, trago essa questão de meditação, nós vamos falar sobre liderança feminina, trago um vinho, e falo sobre criatividade, sobre várias coisas. É um dia que eu falo para elas se permitirem. E esse evento, último evento que eu fiz, eu levei muita mulher executiva, de grande parte de tecnologia, mas, de empresa, para falar sobre o que a gente está falando, em um ambiente seguro. Onde porque falar de liderança feminina para mim, pode ter assim pouquíssimas empresas que estão levando realmente a sério. Tem programas estruturais. Não é ter cota lá, e ter que contratar. Ok, você abriu as portas ali, deu oportunidade. Mas, o que de verdade você está fazendo para apoiar na formação de outras mulheres, no preparo para que a gente tenha, resolva realmente a questão, nesse acolhimento do ambiente seguro, de trazer os homens para a conversa, sem polarizar a situação, sabe? Para os dois lados. Que tem vários homens que me procuram também com outras questões, que tem vivido em questão desse momento. E foi muito emocionante, porque no fundo, a imersão para mim é o projeto mais lindo de tudo que eu participo, porque você vai na fonte. Você vê, está todo mundo precisando da mesma coisa, sabe? Está todo mundo, o executivo fodástico lá, pica das galáxias, está cansado de ser executivo. É um peso que você carrega, uma cobrança sem tamanho. Então assim, acho que tem aos resultados, tem as empresas que a gente precisa fazer, mas tem que trazer esse olhar, porque senão a gente vai adoecer cada vez mais.

Luciano Pires: Vai equilibrando, no final das contas, é o equilíbrio. E aquela coisa que eu falei para você lá atrás, você não percebe isso aos 30 anos de idade, aos 25. Aos 25, você se atira com tudo. Lá na frente é que vai começar a aparecer, cara, isso é pesado, como é que eu fazia isso? Como é que eu aceitava acordar 4 horas da manhã, me enfiar em um ônibus, ficar 3 horas na estrada, depois mais 3 horas para voltar. 6 horas do meu dia indo e voltando, jamais faria isso hoje em dia. Porque hoje, você preza coisa que naquela época para você tinha de sobra, tinha tempo de sobra. Hoje, eu não tenho mais. Então, entender onde que está esse equilíbrio é complicado, ainda mais em um momento de demanda como nós temos agora. Você está sendo demandada a tomar decisões, em fração de segundos. Vou pensar. Que pensar cara, você está louco? Quando terminar de pensar, já atropelaram você, alguém já ocupou o seu espaço, não dá mais para pensar. E isso tem um custo. Ou eu viro uma vaquinha de presépio que vou tomar decisões de rótulos que outros criaram. Eu aproveito que todo mundo já fez, decido o que todo mundo decide, ou vai me custar muito caro, eu conseguir estar preparado para tomar decisões, com a pressão que nós temos hoje em dia. Então, está muito complicado. E tem mais um agravante ainda, que a gente aprendeu isso com a pandemia. Eu costumei dizer que a pandemia chegou para, ela veio para… tem o lado sanitário da pandemia. A pandemia chega como uma doença que vai matar pessoas. Para mim, ela tinha uma cota, quando ela matou aquela cota, a tendência dela é parar, é terminar. Mas, tem um outro lado dela, que não é o lado sanitário, é o lado de destruir certezas e reputações. E ela veio, está destruindo de montão. Então, o jornalista que eu seguia durante muito tempo, eu não quero nem ver a cara desse canalha cara. Percebi que o cara é um tremendo de um canalha. Os caras estavam me enganando. O médico com quem eu me trato há 30 anos, eu descobri que o cara é um cagão, porque o cara sempre falou uma coisa, de repente parou de falar. E não quer admitir, porque ele não quer ficar mal com a comunidade dele. De outro lado, tem um outro médico que está há 40 anos, que está sendo destruído, porque se atreveu a botar uma dúvida em algo que todo mundo entendeu como certeza. E nessa bagunça inteira, estou lá no meio jogado. E aí cara, acredito em você, ou no seu antípoda que fala igual você, e que estão pau a pau os dois? Você falou A, ele falou B, e eu estou aqui ouvindo. Para mim, os dois estão certos, em quem que eu acredito? E nesse ambiente eu tenho que tomar uma decisão. Eu tenho que descobrir o que que eu vou fazer da minha vida, onde é que eu vou botar meu tempo, meu dinheiro, meu esforço todo. Cara, tem que enlouquecer, e é o que nós estamos vendo agora. Um monte de gente que está em parafuso.

Fernanda Sabino: E sabe Luciano, a gente, eu tenho pensado nisso agora. A gente aprende a viver no caos, a gente se acostuma. Então, por exemplo, hoje quando eu falo, nossa. Hoje eu acordo ei lá, 6 e meia, 7 horas para o trabalho. Falo nossa gente, eu durmo 2 horas a mais, 3 horas a mais do que eu dormia antes. Como eu aguentei tanto tempo? Eu vou para Sorocaba uma vez ao mês, nossa gente, não chega, não é possível. Mas, eu nunca trabalhei tão perto de casa. Eu trabalho hoje em dia igual você, 1 quilometro e meio. E aí olha só, primeira semana, eu saindo da empresa, em 4 minutos eu estava em casa. Eu faço um círculo, eu saio da empresa, falei, não dá mais para ouvir PodCast, porque eu criei toda a dinâmica de aproveitar o tempo para estudar, ouvir PodCast, isso, aquilo, não dá mais. E agora? O que que eu faço agora da minha vida, chegando mais cedo em casa, sabe esse tipo de coisa assim? Falei, nossa, como a gente se adapta ao caos. Ao ouvir PodCast, ao estudar nesse meio. Foi um momento para aproveitar o meu tempo no transito. E agora eu estou tendo que me readequar em várias outras coisas. Mas, você começa a repensar, nossa, como a gente acostuma a viver no caos. Vai se adaptando nessa situação toda.

Luciano Pires: A sua relação com o tempo muda.

Fernanda Sabino: Muito.

Luciano Pires: Vem livro aí? Vem outro livro?

Fernanda Sabino: Vem, na verdade…

Luciano Pires: Porque o primeiro, você participou de uma coletânea. E agora?

Fernanda Sabino: Agora, na verdade…

Luciano Pires: Vem o for she? Vai sair o for she?

Fernanda Sabino: Eu tenho vontades né? A máquina de escrever está lá. Eu tenho vontade sim de escrever um livro sozinha. Eu tenho alguns rascunhos na verdade, porque eu escrevo muito, né, sobre várias coisas. Esses processos todos, eu tenho tomado nota, porque é um exercício para mim. Eu não posso abrir exatamente, mas, eu estou coordenando, vem um livro novo, né? A Editora Líder, que tem essas séries mulheres, que lança mulheres na TI, mulheres no varejo, mulheres, ela me convidou para coordenar um novo projeto. Então, a gente está trabalhando nisso. Acho que no começo do próximo ano a gente divulga. Vai ser um projeto bem lindo. E eu estou trabalhando nessa questão do meu. Acho que não agora, estou com bastante coisa. Escrever dá trabalho, né Luciano?

Luciano Pires: Dá, mas no fim das contas é gostoso. É só você não querer ganhar dinheiro com ele, daí é legal. Se você quiser ganhar dinheiro, você enlouquece. Quem quiser te achar, vamos lá.

Fernanda Sabino: Nossa agora vai uma lista. Fernanda Sabino no Linkedin. fe.sabino no Instagram, e no for she, @forshe_, também no Instagram. Mas, no meu pessoal, leva para todos os outros projetos, enfim.

Luciano Pires: Tá bom. Bom, grande papo, acho que você não para de inventar moda, e esse é o grande lance. Já vem lá desde o vinho. Então, o que que é, uma compulsão por unir pessoas que tenham alguma coisa em comum, e aí que nasce as grandes… olha, pode não surgir nenhuma atividade. Mas, o fato de você se ancorar em alguém, que tem um problema parecido com o seu, cara, estou me encontrando, estou conversando. O problema que eu coloquei para ela, ela tem igual a mim. Ela está entendendo o que eu estou falando. Cara, isso pode salvar vidas.

Fernanda Sabino: Pode salvar vidas.

Luciano Pires: Cara, bem legal, parabéns pela…

Fernanda Sabino: Obrigada também.

Luciano Pires: Continua no TI?

Fernanda Sabino: Seguimos no TI. Eu sou apaixonada pelo TI. Eu sou apaixonada.

Luciano Pires: Vai fundo. Você, no meio dos [clingons].

Fernanda Sabino: Agora eu entrei em uma empresa japonesa. Uau, TI, empresa japonesa. Para você ver, empresa japonesa, eu estou na posição de tecnologia.

Luciano Pires: Sim, que legal.

Fernanda Sabino: Muito bacana.

Luciano Pires: Obrigada pela visita. Vamos lá, qualquer coisa a gente vai se falando aí. Quero ver o livro novo. E depois vou conversar com você naquele grupo, que eu preciso botar o Café com Leite lá, para a mulherada ver.

Fernanda Sabino: Vamos sim.

Luciano Pires: Tá bom.