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Luciano Pires -

Bom dia, boa tarde, boa noite, bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o podcast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. No episódio de hoje temos Maurício Nunes, músico, escritor, ator, jornalista, viajante e mais um milhão de coisas, entre elas, a página Toca do Lobo no Facebook. Um papo sobre cultura pop, os caminhos da fama, Mamonas Assassinas e, claro, a vida fascinante e criativa de Wall Disney, tema do seu oitavo livro. Cara, é um papo rock and roll. Então, mais um LíderCast, sempre começando eu contando como que a figura que está comigo chegou até aqui, um belo dia estou navegando ali no meu Facebook, e entra um post que eu não vou me lembrar que post foi, mas era um post muito provocativo, interessante, de um lugar chamado Toca do Lobo, aí eu olhei, o negócio falando de cinema, acho que era ou música, eu falei, que post legal, deixa eu ver o que é isso. Aí fui entrar na página do cara, era um negócio interessante, os temas legais, uma opinião muito parecida com a minha, eu falei, quanta coisa legal, comecei a seguir. E aí notei uma coisa interessante, cara, o cara tinha lá na página do Facebook, acho que um terço dos seguidores que eu tenho na minha página, mas o engajamento dele é brutal, o cara bota um bom dia, tem não sei quantos retuites, todo mundo comentando, eu falei, cara, o que que está acontecendo aqui, aí comecei a seguir e fui vendo que tinha um conteúdo muito interessante e um belo dia eu acho que eu assisti um papo dele com o pessoal da Panela Produtora no Quinto Elemento, falei, eles têm o contato dele, me dá o contato aqui, deixa eu dar um alô para ele e pronto, estamos em pleno intervalo entre natal e ano novo depois de muita conversa, vai, vem, vai, vem, conseguimos chegar. Eu começo o programa com três perguntas, que são as únicas que você não pode errar, o resto você pode chutar à vontade, essas três não, é o seu nome, a sua idade e o que que você faz.

Maurício: Meu nome é Maurício, eu tenho 51 anos de idade, e eu faço… puta que pariu, o que que eu faço é foda, bom, vamos dizer que eu sou um multimídia na multimérdia, eu faço… escrevo, componho…

Luciano Pires: Quando perguntavam para mim isso antigamente, ainda faço hoje, o cara, ah o que que você faz? A resposta, você tem tempo?

Maurício Nunes: Boa, pode ser isso aí, quantas horas tem o podcast.

Luciano Pires: Nasceu onde, Maurício?

Maurício Nunes: Então, eu nasci em São Paulo, mas nunca morei em São Paulo, eu moro em Guarulhos desde o meu nascimento, ou seja, então só nasci em São Paulo por um acidente, mas eu vivo em Guarulhos que é a famosa ilha de Lost, por mais que você tenta fugir daquele lugar, você não sai, cada vez que eu tento sair dali me puxam de volta, falo, puta que pariu.

Luciano Pires: O que que acontece lá?

Maurício Nunes: Não sei, cara, é a ilha de Lost.

Luciano Pires: Como é que Guarulhos gera Mamonas Assassinas por exemplo?

Maurício Nunes: Você tem ali, por exemplo, são dois milhões de habitantes e parece uma província, cara, porque assim, todo mundo se conhece, parece uma cidadezinha de interior e não é interior, são dois milhões, então assim, e é um interiorzão.

Luciano Pires: Se ela ficasse a 60 quilômetros de São Paulo, ela seria um barato, seria uma Jundiaí, seria uma Sorocaba, tem personalidade, se mantém, mas tem uma distância…

Maurício Nunes: Exato, e o engraçado, cara, é você tipo, porra, você gostar do lugar, porque assim, eu vejo que nada flui, nada acontece, é meio difícil ficar ali.

Luciano Pires: Você tem irmãos?

Maurício Nunes: Tenho uma irmã só.

Luciano Pires: Uma irmã?

Maurício Nunes: É, uma irmã.

Luciano Pires: O que que o seu pai, a sua mãe fazem ou faziam?

Maurício Nunes: A minha mãe dona de casa, o meu pai morreu muito jovem, o meu pai trabalhava no mercado de feiras e eventos, estandes e tal, essas coisas, ele fazia isso, trabalhava com isso, mas ele morreu jovem, então minha família, na verdade, artista digamos assim, alguém ligado, voltado para a literatura, música, ninguém, eu sou o único ET assim.

Luciano Pires: Qual era o teu apelido quando você era criança?

Maurício Nunes: Quando eu era criança? Boa pergunta, eu tinha um, cara, mas não era muita gente que me chamava não, mas era Liliu, porque a gente tinha um priminho, hoje já deve ter os seus 30 anos, sei lá, ou mais, ele não sabia falar Maurício, então o cara falava Iiu, e aí ficou Liliu, e aí muita gente chamou de Liliu, mas eu não nunca tive muito apelido não, eu acho que apelido veio mais tarde, por exemplo, o Lobo veio, o Lobo ficou, mas o Lobo veio já devia ter aí já uns 30, 30 e poucos anos, aí pegou.

Luciano Pires: O que que o Liliu queria ser quando crescesse?

Maurício Nunes: Cara, feliz. Mas agora falando sério, eu queria ser… quando eu era criança, velho, meu sonho era ser o Didi, não o Renato Aragão, deixo bem claro aqui, era o Didi, cara, eu queria ser humorista, eu queria ser, eu queria fazer graça, eu gostava, cara, eu sempre brinco, eu falo que meus dois primeiros heróis assim da infância foi o Didi, não o Renato Aragão, que deixe bem claro aqui, não o doutor Renato, o Didi, e o Trinity, do Terence Hill, que eu até sigo esse sujeito até hoje, admiro porque eu falo, cara, eram os meus dois ídolos de infância, então se era engraçado, porque os moleques da minha geração, enfim, queriam ser jogador de futebol, queriam ser policial, eu não conhecia ninguém que queria ser o Didi, só eu queria ser o Didi, entendeu? E o Trinity idem, porque eu achava, cara, era a figura do herói assim, era o meu herói Marvel.

Luciano Pires: Era a coisa completamente escrachada, meu nome é Trinity, ele é o Butt Spencer.

Maurício Nunes: Vulgo Mario Sérgio Cortella.

Luciano Pires: Fazendo… a moçada… prepare-se aí porque o que vai rolar de referência aqui, a maioria de quem está ouvindo a gente não vai ter, e não é por culpa sua, não, se você for muito jovem isso passou batido.

Maurício Nunes: Partiu e vai no YouTube.

Luciano Pires: Isso aí, mas ele está se referindo a um… é um filme de faroeste italiano completamente escrachado onde no meio de um universo de faroeste do homem macho, aquela coisa toda dos americanos, John Wayne, aquela coisa toda, de repente surge um faroeste italiano com dois personagens, o Trinity absolutamente caricato, um loiro de olho claro, pele ultra bronzeada…

Maurício Nunes: Bronzeada, meio suja até, o cara vivia no meio do deserto, então assim, as roupas sujas, a cara suja.

Luciano Pires: E ele tem a habilidade com a arma, tudo, e aí é só pastelão, mas é um escracho só, e foi surpreendente, aquilo fez um sucesso brutal.

Maurício Nunes: É que legal é que assim, ele é uma visão muito próxima, cara, do Clint Eastwood, dos filmes do Sérgio Leone e tal, que é do outsider, isso que eu gostava dele, eu sempre gostei desse lado do outsider, o cara tipo solitário, que tipo anda meio… vai na contramão da sociedade em que ele vive, então o Clint era isso, nos filmes do Leone, na trilogia dos dólares… perdão, o Clint e o Trinity, mas isso com esse jeito divertido, engraçado, ele era bom de briga, então o legal era isso, era um herói justo, extremamente justo, bom de briga, falava pouco, porque ele quase não falava no filme, era quase que um Chaplin assim, era uma mistura… aí uma boa definição, uma mistura do Chaplin com o Homem Sem Nome lá do Clint Eastwood, então você junta as duas coisas e fala, cara, é o Trinity, deu ele.

Luciano Pires: Para vocês terem uma ideia o filme abre… ele… vem um cavalo andando no deserto puxando uma maca, e ele não está em cima do cavalo, ele está sentado na maca dormindo e o revólver dele vem sendo arrastado na areia, cara.

Maurício Nunes: E uma ótima referência para a galera também, e a trilha sonora desse filme Ênio Morricone.

Luciano Pires: Já falou tudo, não é, cara?

Maurício Nunes: Sensacional, sensacional.

Luciano Pires: Mas sei lá como nós fomos para no Trinity, mas a festa vai ser…

Maurício Nunes: Foi o meu herói.

Luciano Pires: Mas você queria ser o Trinity ou queria ser o…

Maurício Nunes: O Didi Mocó.

Luciano Pires: …O Didi. Mas você não tinha nenhuma expectativa, eu vou crescer para ser…

Maurício Nunes: Não, nunca tive.

Luciano Pires: Engenheiro, alguma coisa assim, nada disso?

Maurício Nunes: Não, talvez seja um grande erro da minha parte, mas nunca tive, velho, nunca tive pretensões.

Luciano Pires: E não teve pressão da família também?

Maurício Nunes: Ah claro, sempre teve.

Luciano Pires: Vai estudar, vai fazer. Você foi fazer alguma faculdade, alguma coisa assim?

Maurício Nunes: Não, eu não tenho nada, cara, não tenho diploma nenhum, eu entrei na faculdade, entrei muito cedo, porque eu terminei… entrei cedo na primeira série, eu fiz a primeira série do primário lá, eu fiz com seis anos de idade, então eu terminei o colegial muito jovem, eu tinha 16 anos, então entrei na faculdade muito novinho, e eu errei o curso assim, eu errei…

Luciano Pires: Que curso você fez?

Maurício Nunes: Eu fiz administração, não durei nada, cara, foi seis meses aí eu saí, fui embora, aí eu trabalhava em uma empresa, tipo, grande e tal, e estava bem, eu falei, ah não quero estudar, eu quero seguir aqui, e aí se os caras da empresa quiserem de repente que eu faça uma faculdade, eu faço, mas caso contrário eu vou seguir outro rumo, só que assim, eu sempre fui… eu já tinha banda, já fazia teatro desde garoto, então assim eu sempre tive essa visão, e aí é lógico que é ruim, crianças não façam isso, o tio está aqui dando a dica para vocês, façam uma faculdade, por favor, façam, mas eu acabei optando infelizmente em não fazer nenhuma.

Luciano Pires: Você é contemporâneo dos Mamonas?

Maurício Nunes: Eu sou amigo dos Mamonas, o Dinho era um dos meus melhores amigos, amigo pessoal.

Luciano Pires: Você viu aquilo sendo construído?

Maurício Nunes: Eu vi construir porque a minha banda chamava-se Pena Máxima, os nossos shows, a primeira banda que eu tive de repertório próprio, quem abria os nossos shows era o Utopia, então tipo a gente que meio que abriu o palco para os caras, então eles abriam os shows para a gente, a gente era muito amigo, inclusive, era engraçado porque, eu sempre falava isso, o Dinho, ele teve… quando ele não era famoso, eu posso te falar abertamente porque onde quer que ele esteja, ele sabe que eu estou falando e vai entender porque a gente era amigo, quando ele não era famoso, ele tinha um lance muito vaidoso assim, ele era um cara difícil de lidar, então teve vezes, por exemplo, que a gente fez show, e lógico que eram duas bandas desconhecidas assim, mas a gente tinha o nosso público, em Guarulhos tinha, e aí a gente fez o show e eles abriram para a gente, e ele teve uma briga enorme assim com a galera porque ele queria ganhar mais do que a gente, e era uma merreca, era tipo assim 200 reais, ah eu quero ganhar 150, eu falei, cara, mas você está abrindo o show, não tem sentido você ganhar mais do que a gente, não, mas eu quero, não sei o que. Então, ele tinha essa vibe, e aí foi muito engraçado porque eles já estavam começando a gravar o disco do Utopia, LPzão mesmo, e aí teve um show que a gente fez o Street Bar, em Guarulhos, acho que nem existe mais, era atrás do Polishop ali, e a gente fez o show e tal, e aí rolou essa treta. E os caras da minha banda eram muito bunda mole assim, todos eles, e aí rolou um puta pau, eu e Dinho, todo mundo, bate boca feio mesmo, e aí eu sei que o cara, o dono do bar, o dono do lugar lá, sei lá, esses mafiosos do cacete, o cara tirou um revólver, juro por Deus, no meio da coisa, para de brigar vocês dois, eu vou dar tiro aqui, porra. Aí nós… molecada, tudo garotada, ficamos tudo quieto, com medo do cara, ouvindo, aí o Dinho falou, seguinte, amanhã a gente se encontra no estacionamento do Polishop e nós vamos resolver essa porra. Tipo Trinity. Eu falei, beleza, então nós vamos. Cara, os caras da minha banda, um bando de bunda mole, ninguém foi, me deixaram na mão assim e ficaram com medo, e eu fui. Aí quando eu cheguei lá estava ele, o Bento e o Júlio, e o Júlio eu já conhecia também de longa data, porque ele trabalhou com a minha irmã em uma escola e tal. E aí os caras viram que eu estava ali, falaram, porra velho, você veio sozinho. Eu falei, sozinho. Cadê os caras da sua banda? Ah, ninguém veio. Aí acabamos ficando mais brother ainda, amigo. Passou um tempo ele me deu o disco, o LP do Utopia, que até está na casa de um grande amigo, que era o baixista da banda, que era o Heitor, Heitor se você está ouvindo isso, devolva esse disco, cara, eu já te cobrei, eu peço para ele, ele só me dá balão. É um LP que ele me deu autografado, que hoje deve valer muita grana, porque é o LP do Utopia. E aí passou os anos, passou anos, quando eles começaram a vingar mesmo de Mamonas, porque a primeira fitinha demo eu lembro que eu ouvi no carro do Júlio, na frente da escola de inglês lá que eles trabalhavam, estava eu, o Júlio, o Dinho, e um amigo nosso, e eles tocaram na fitinha cassete, eles tinham gravado era a do português, aquela Robocop Gay e a do baião, porra, velho, quando você ouvia a do português, na hora assim… fala, velho, isso vai bombar, vai explodir, mas eles não tinham muita fé que a coisa ia vingar assim do jeito que vingou. E aí eu lembro que quando estourou, cara, foi muito foda porque a gente acabou, muito foda, porque o cara fica famoso do jeito que ficou, você perde total o contato, não tinha celular, não tinha… você não tem mais contato com os caras, os caras desapareceram, fui reencontrar o Dinho depois de uns quatro meses já de fama, ele já bombando, eu trabalhava na inint 14:43 eu estava em Porto Alegre em um hotel lá hospedado, e eles iam fazer show em Porto Alegre e ficaram no mesmo hotel, e aí foi do caralho quando eu vi que eles estavam, aquela gritaria, aquele monte de gente gritando para os caras e tal, e eu estava em um bar à noite e aí eles passaram e tal, aí eu… aí o Dinho parou ali, ficamos conversando e tal, essa foi uma vez. E a última vez foi no Lua Nua, no bar Lua Nua, onde a gente tocou muitas vezes, que foi assim a última apresentação deles lá, porque acho que eles morreram, se não me falha a memória, dois meses depois, foi muito rápido, eu lembro até que a banda que tocava lá era a banda Take 1, a banda da casa, era o nome, e o Dinho muito generoso, eu estava no camarim com ele e tal, ele levou a gente lá, a gente ficou tudo batendo papo, quando a banda acabou, eles iam abrir para os Mamonas, a banda estava tocando, e eu nunca vou esquecer isso, cara, ele tocou aquela música, não lembro o nome, mas vou cantar aqui, aquela do Cidade Negra, eu sei que ela nunca mais apareceu, contou essa música, eu nunca esqueci isso, ficou na minha cabeça essa música, porque eu achei o cara, isso que eu ia dizer, ele era um cara meio arrogante antes da fama e com a fama foi o inverso, ele ficou um cara muito gente boa, muito gente boa, sabe, solicito, humilde para caralho, bacana, tanto que pô, estava lá um monte de gente atrás do cara, também o cara subiu para tocar com a banda da casa, porque ele já tinha tocado com esses caras várias vezes e reconheceu, sabe? Então assim, puta judiação, velho.

Luciano Pires: Você tentou estudar o sucesso deles, cara, para entender qual é a virada de chave que transforma um Utopia em Mamonas?

Maurício Nunes: Cara, não dá para entender porque assim, é óbvio que os caras eram muito além da conta, mas assim, o sucesso é uma coisa inexplicável, a gente tem gente aí fazendo sucesso às vezes que você fala, demorou, mas o cara mereceu, ou de repente foi rápido, mas o cara é talentoso, e tem umas coisas que você fala, Jesus Cristo, como que essa porra fez sucesso assim? Porque é muito ruim mesmo. E eles não, eles tinham muita qualidade, eram excelentes músicos, cara, o Samuel, bicho, que era o baixista, e o Bento, cara, eles eram muito fudidos, mas assim muito, o Sérgão na batera, beleza, era um bom batera, mas não era um puta batera, mas era bom, óbvio, e o Júlio compunha, estava ali porque fazia músicas, mas evidentemente que não era um tecladista, não era um puta músico, o Dinho o showman. Mas assim, cara, eles tinham esse lance de ser muito, mas muito foda tocando música, eu lembro que eles tocavam, para você ter uma ideia, quando tinha a Utopia, os caras tocavam YYZ do Rush, cara…

Luciano Pires: Não, a cozinha…

Maurício Nunes: Fudida.

Luciano Pires: A guitarra e o baixo dos discos deles é um negócio impressionante.

Maurício Nunes: Não, era sensacional, e aí eu acho que teve uma sacada muito grande também, muito boa, vale reconhecer obviamente, do Bonadio, cara, porque o Bonadio apostou nos caras, o Bonadio hoje tudo bem, é um cara grande, poderoso e todo mundo baba, não sei o que, sonha, mas cara, o Bonadio na época dos Mamonas, ele mesmo reconhece isso, ele tinha um estúdio na Cantareira e não era ninguém, não era um cara conhecido, e ralou, velho, é um cara que merece muito chegar onde ele chegou, porque assim, porra meu, é difícil você pegar uma banda, ir atrás, sabe, totalmente, falar, não, vai vingar. E o cara foi, tomou não para caramba, e continuou. Então assim, eu acho que é o que a gente estava falando antes, é o acaso mesmo de você falar, juntou talento, o preparo e a sorte de cair na mão do Bonadio e muitas portas se abrirem, por um destino mesmo de sorte.

Luciano Pires: O momento era único, acho que se pintasse uma banda como a deles hoje, não rolaria.

Maurício Nunes: Ah não rolaria, hoje impossível.

Luciano Pires: Eles iam ser cancelados na primeira música.

Maurício Nunes: Na verdade, o disco todo se você parar para pensar, nenhuma música rolaria, zero, iam chamar de feminista, iam chamar de racista, iam chamar de xenófobo, cara, ia ser tudo, eles iam ser tudo, então assim hoje em dia é muito difícil vingar, mas mesmo se a gente não vivesse essa época chatíssima que a gente está vivendo, eu ouso aqui arriscar dizer que eu acho que um segundo disco dos Mamonas, mesmo naquela época, não teria o mesmo impacto do primeiro e talvez um terceiro nem rolasse, fosse uma coisa meio, ah beleza, a piada funcionou uma época, mas já deu, até porque o público ia crescer, ia desencanar, diferente de você pegar por exemplo o Charlie Brown Jr, que veio depois, em uma sequência, também do Bonadio, mas assim, porra, é do caralho, porque os caras sabiam conversar com a galera, o Chorão tinha praticamente a nossa idade, acho que hoje um pouco mais velho, mas o cara tinha uma linguagem para a molecada de 15, 16 anos que é absolutamente incrível, o cara um puta compositor.

Luciano Pires: E tinha um nicho muito bem definido, e o do Mamonas não tinha um nicho definido, o Mamonas é o seguinte, a vovozinha adorava, a molecada adorava, era do Faustão, era a banda do Faustão.

Maurício Nunes: Eu lembro quando eu encontrei com eles lá em Porto Alegre, lá no hotel, foi engraçado que a gente estava conversando, nós falamos sobre isso, porque o Dinho estava na capa da Bis, ele estava de Jim Morrison, os caras puseram ele. E curiosamente eu estava com a revista, óbvio, não tinha internet, só para lembrar a galera aí, então a gente via as informações assim, eu tinha comprado a revista. E a gente estava conversando sobre isso, eu falei, cara, você já parou para pensar, eu lembro até hoje que eu falei para ele assim, você já parou para pensar, bicho, que se a gente sair na rua aqui agora, todo mundo te conhece, todo mundo? Ele falou, puta, velho, às vezes é assustador. Aí o Júlio contou uma história que foi até interessante, que eles tinham comprado, acho que os dois, o Dinho comprou uma, e o Júlio também, uma Mitsubishi Eclipse, que era o carro do momento, e ele falou que uma vez ele estava na Dutra e um carro dando um puta farol para ele e tal, e atrás e atrás e ele chutando pé, com medo, e o cara atrás, atrás, atrás, e ele entrou em Guarulhos, quando ele entrou ali, o carro tal, atrás, meu, parou no farol, ele falou, fudeu, porque você tem a Quarto Centenário ali não dá para passar, cruzamento perigoso, quando ele parou, os caras desceram, ele falou, meu, me deu muito medo, cara, achei que era assalto, qualquer coisa, cara, pediram autógrafo, não era nem foto porque não tinha a onda do celular, selfie, autógrafo, mas o cara falou, para você ver que perigo, bicho, o cara está me seguindo praticamente desde a Vila Maria até Guarulhos para pegar um autógrafo, então assim, é assustador.

Luciano Pires: E era um outro mundo, era um outro mundo, se a gente voltar 20 anos no tempo aí, era outro planeta, cara, completamente diferente, a velocidade com que as coisas mudaram… e foi meio que imperceptível, não teve um momento assim que você fala, a partir dali… não, foi uma virada meio, quando a gente percebeu, nós estávamos conversando pelo celular, o que era ficção científica… ontem eu montei um texto…

Maurício Nunes: Os Jetsons se tornaram os Flintstones.

Luciano Pires: Tudo aquilo que eu vi no Perdidos no Espaço, no Guerra nas Estrelas lá em 75, o que eu vi na Voyager, no Star Trek está no bolso da molecada hoje, o moleque tira do bolso e…

Maurício Nunes: Ah, eu lembro dos Jetsons, quando a gente via eles falando ali pela televisão, e você falava, meu Deus, ou então as esteiras, você vai em um aeroporto de qualquer parte do mundo, dificilmente você não vai ver uma esteira, então assim, essas videochamadas, lembro que a primeira que eu vi, meu cunhado estava acho que na Disney, faz muito tempo, com as filhas, e aí ele mandou para a gente, não sei o que, a mensagem, o primeiro contato que eu tive com uma vídeo conferência assim era muito sinistro, eu falei, o cara está lá e a gente está batendo papo, é muito louco isso, cara. É o que você falou, foi imperceptível, quando a gente foi ver a gente já estava na sala dos Jetsons, deixamos de ser Flintstones.

Luciano Pires: Mas você lá então, você está lá contemporâneo dos meninos, e focando em uma banda, é isso? O teu negócio, você ia ser uma estrela do rock, o que que era?

Maurício Nunes: Essa época sim, porque eu estava me dedicando muito a isso, então eu fazia o teatro paralelo, tinha peças boas em São Paulo até dirigidas por mim, boas, era legal para cacete, mas eu gostava mesmo era da música, era o que eu mais gostava, e eu tinha uma música na época que eu tinha gravado, chamava-se Piu-Piu, que hoje eu seria cancelado, por isso que eu nunca lancei, mas na época era muito foda, e o Dinho queria gravar essa música, porque eu gravei com o Roger do Ultraje, música é minha e a gente gravou junto, e aí estava no disco, e o Dinho adorava essa música porque era uma sacanagem com o Piu-Piu, com o passarinho, e era engraçada, e hoje, tanto que eu tenho um amigo que ele é desenhista e tal, e ele quis fazer, uma época ele quis fazer um desenho animado com a música, vamos fazer um clipe animado, e ele me mandou. Eu falei, velho, nem fudendo, você vai ser preso hoje, porque assim, não pode falar nada, cara. Ele falou, não, mas é uma piada. Eu falei, tente explicar para as pessoas que eu estou fazendo uma piada com um passarinho que nem sequer existe, então assim ferrou, então assim, era muito difícil isso aí. Só que o lance da música, cara, é o que a gente também já conversou algumas vezes, é foda porque o lance da sorte, ele é muito imperativo, bicho, não tem jeito, você pode ter aí os caras, a gente comentou agora pouco sobre o Cartola, cara, você pode ter o maior talento do mundo, você pode ser um monstro, como a gente vê vários, você vê vários artistas assim, às vezes as pessoas falam assim, ah não surge ninguém bom. Não surge ninguém bom? Meu amigo, o que mais tem é gente boa, você tem músicos aí extraordinários, letristas fantásticos e tal, bicho, é difícil, você tem que ter muita sorte. O Bruce Springsteen recentemente na entrevista do Howard Stein lá falou isso, eu falo, quando um cara como Bruce Springsteen, que é simplesmente Deus, o cara atingiu o ápice do ápice, tanto que o catálogo dele foi vendido agora, você viu, o mais caro da história, meio bilhão de dólares, o cara vendeu todo o catálogo dele, ultrapassou Beatles, ultrapassou Michael Jackson, aí você fala, bicho, ele fala todo hora, o cara tem humildade de dizer, meu, eu trabalhei muito, eu ralei, mas eu tive muita sorte, muita sorte, eu sempre era o cara certo, na hora certa, sabe, as coisas pintavam. E às vezes você pode ter muito talento, e não ser o cara na hora certa, como a gente está comentando, você pode não ser o cara na época certa, hoje ficou claro isso, você pode ser um cara talentoso e falar, bicho…

Luciano Pires: Se tivesse nascido dez anos na frente ou dez atrás, faria toda diferença.

Maurício Nunes: É, tem uma música do Erasmo que é ótima, aquela estou dez anos atrasado, eu estou dez anos atrasado, aí quando eu conheci ele, tive o prazer de conhecer o Erasmo, eu até brinquei, que eu falei isso para ele, que eu falei, tem uma música sua que eu tenho muita vontade de gravar, aí eu falei, aí ele falou, bicho, mas a gente está sempre atrasado. Aí eu falei, cara, eu estou muito, porque eu falei, se eu tivesse nascido um pouco antes e enfrentado a década de 80, onde o rock estava bombando, eu falei, não, mas eu fui pegar justo a época do É o Tchan, a época dos pagodes em alta, eu falei, cara, era muito difícil, bicho, muito, o funil assim…

Luciano Pires: Criou-se uma barreira ali.

Maurício Nunes: Barreira.

Luciano Pires: O pessoal comenta comigo, como eu tenho muita música nos meus podcasts, faço um garimpo muito louco, os caras perguntam, eu falo, cara, nunca se fez tanta música boa no Brasil como se faz hoje em dia, mas essa música não toca, ela não é a música que… ela não está no rodeio, não está na novela, não está na mídia, então ela não tem espaço. Aí você vê caras fabulosos que não vão vingar nunca.

Maurício Nunes: Que não conseguem. Eu gravei um disco, sabe, são músicas que eu realmente gosto muito mesmo assim, bem diferente do que eu fazia com a banda, não tem nada de humor, é uma outra história, e aí eu convidei algumas pessoas, o Fábio Assunção cantou comigo uma das faixas, o Carlini, guitarrista lendário, foi tocar uma com a gente, uma das faixas, e ele foi sensacional, porque o Carlini, ele é um gênio de frases, para mim ele é o rei das frases, ele tem frases excelentes para todos os momentos assim, ele é muito bom, tanto que uma vez ele me mandou uma que eu nunca esqueci, ele falou que ele tinha nascido, ele falou, porra cara, eu nasci no país errado, cara… porque o Carlini, se ele tivesse morado fora, ele seria puta que pariu, o Slasher, ele falou assim, eu nasci no país errado, para você ter uma ideia, eu acho que a cegonha estava me levando para a Inglaterra, mas ela parou para dar uma mijadinha e acabou me esquecendo e foi embora.

Luciano Pires: E ele ficou aqui.

Maurício Nunes: Ficou aqui. E quando ele foi gravar a gente, ele ouviu assim, e a gente está falando simplesmente do cara que… o único solo brasileiro na lista dos 100 maiores solos da história da Rolling Stone é dele, do Ovelha Negra, então ele virou e falou assim, ele falou, cara, essa música é muito boa, velho, é muito boa, mas eu lamento, nunca vai fazer sucesso, porque é boa. Ele falou, não vai, porque é boa. Ele falou, Mauríção, você tem que fazer umas coisas pior, faz umas músicas mais ruins, cara, isso vinga. Porque às vezes dá essa dor na galera de perceber que é difícil mesmo, porque gera um desinteresse total hoje, não é choradeira de quem, ah o cara está chorando… não, caguei para isso, o que eu estou dizendo é que hoje é muito difícil mesmo, mesmo com Spotify, com tudo.

Luciano Pires: Mas é uma coisa interessante porque quando começou a surgir o streaming, quando surgiu o Spotify, essa coisa toda, você lembra, eu faço um paralelo muito interessante com o… você lembra o Glauber Rocha dizendo, atenção, vulgo, Glauber Rocha, dizendo uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. O que que tinha acontecido? Começaram a surgir as pequenas câmeras de cinema, então 8mm, o Super 8, e aí o cinema até então era uma coisa muito restrita, porque era uma grande câmera pesada, você não conseguia… de repente surge as câmeras pequenas, e passa a ser fácil você filmar, e aí nasce essa ideia, uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Só que não vingou, se fosse assim, cara, teria vingado, teria aparecido milhões de Spielbergs, e o Spielberg veio nessa praia, mas o cara é um só.  Por que o que que acontece, cara? A questão não é a câmera na mão, é a ideia na cabeça, então não basta ter… quando veio a tecnologia e veio essa mudança toda quando surgiu o streaming, a gente falou, agora qualquer um pode gravar música na sua casa, qualquer um pode gravar um vídeo, qualquer um pode botar no ar, acabou, cara, não precisa da MTV.

Maurício Nunes: Só que ficou muita gente, então assim, ficou mais difícil.

Luciano Pires: Então, aí o que que aconteceu? Era tanta gente que o funil ficou muito pior e plateia perdeu completamente a referência, então não se tem mais a referência do belo, aliás, o Belo não é o cantor, o belo que eu digo é o da beleza mesmo.

Maurício Nunes: Facilitou e por outro lado acabou dificultando mais.

Luciano Pires: Então, você pega um cara que tem uma referência musical dos anos 70, ele não consegue engolir nada hoje em dia, não dá, é muito complicado.

Maurício Nunes: Às vezes você consegue assim, você pode… eu não tenho problemas com isso, de admirar alguém que eu não sou fã da música, então por exemplo, às vezes eu vejo os caras falarem mal da Anitta, um exemplo, ah porque é uma merda, que é isso, que é aquilo, eu falei, cara, eu não ouço as músicas, não faz o meu estilo obviamente, mas eu não desmereço a menina, eu falo assim, eu acho que ela tem sim talento para cacete para ela estar onde ela está, evidentemente que ela tem, quando você vê as apresentações dela fora, quando ela foi lá no Jimmy Fallow, os caras falam, cara, a mina foi lá tocar com banda, uma garota que faz música pop fazer ao vivo com banda ali, cara, é de tirar o chapéu, porque ela não está ali dublando, fazendo um playbackzinho. Tem um vídeo muito interessante também no YouTube que o Boccelli teve no Brasil, e ele convidou ela para cantar, o Boccelli convidou ela para cantar…

Luciano Pires: Não foi a Simoni… Simoni não, a Sandy?

Maurício Nunes: Não, foi a Anitta… não, deve ter cantado com a Sandy também, mas esse show específico ele chamou a Anitta para cantar somewhere over the rainbow, cara, o vídeo é muito… pode procurar no YouTube porque está lá, é hilário velho, a mina entra sem brincadeira, ela toma uma vaia assim, cara, mas gigantesca, meu, a mulher não baixou a cabeça, seguiu em frente, orquestra começou, meu irmão, quando essa mina começa a cantar, para alguém pensar que eu estou mentindo ou inventando, não sei o que, assistam, está lá no YouTube. Cara, as pessoas têm que aprender a reconhecer o talento do outro, não importa que você não gosta do cara, não importa, cara, eu acho o Bono Vox um dos caras mais idiotas que a música já produziu, acho esse cara um perfeito panaca, mas ele é bom, eu vou dizer que o U2 é ruim? Eu adoro o U2, acho o cara um puta compositor, um grande cantor, entendeu? Então, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Então assim, quando ela começa a cantar, eu juro, cara, eu nunca vi isso assim, a galera vaiou, a menina não deu a mínima, catou o microfone, ergueu a cabeça, cara, quando essa mulher começou a cantar aquela galera fez assim…. meu, a menina driblou todo mundo, ganhou a plateia, aí eu falei assim, porra, bicho, não dá para você desmerecer a pessoa, você pode não gostar, mas falar que a mulher não sabe cantar. Se você falar que o Pabllo Vittar não sabe cantar, eu vou falar para você, porra, que bom, é sinal que você tem ouvido, você sabe, você percebeu, é uma coisa meio óbvia, agora falar que aquela menina não sabe cantar, eu falo, Jesus, gente, para, você pode não gostar, como eu estou dizendo, eu também não gosto das músicas, não é a minha onda…

Luciano Pires: E hoje em dia está tudo embolado isso, você não separa mais o artista da persona, como você entrou aqui, você viu lá embaixo de cara, você dá de cara com Chico Buarque na parede, o Chico, adoro o Chico, mas não gosto dele.

Maurício Nunes: Sabe por que, cara? Porque eu acho que antigamente quando a gente só conhecia os caras através das revistas, das entrevistas e tal, porra, tinha assim uma certa magia naquilo, entendeu? O cara não era seu amigo, você não tinha intimidade com ele, ele era um ídolo, hoje o cara tem Instagram, o cara posta foto dele… sabe? Tomando café, o cara virou íntimo seu.

Luciano Pires: Mas nada como a intimidade para destruir, você fica perto da pessoa muito tempo, fala, ela é humana também, tem opiniões, fala bobagem, e aí você acaba destruindo aquela áurea que antigamente existia, porque você não tinha acesso.

Maurício Nunes: Não, e mesmo nas entrevistas, eu acho assim, sempre teve os caras enfim, porque a questão não é você, ah eu não gosto da opinião, não, a questão não é ter opinião, não ter opinião, porque essa galera sempre teve, sempre falou, o problema é que hoje está ficando muito claro a hipocrisia dos caras, você vê o quanto que esse cara é sujo, o quanto que o cara é mau caráter, então assim aí vem o problema, você virar e falar, sei lá, o Bono Vox fica toda hora fazendo discursinho, toda hora fazendo não sei o que, aí a empresa dele é processada, a ONG dele lá foi processada por assédio, aí você fala assim mas ele não é o cara legal, ele não é o santo? O cara fica pregando virtudes o dia inteiro. Então assim, isso é chato, diferente por exemplo, você pega, volto a citar ele, você pega o Bruce Springsteen, ah mas ele é de esquerda, ah mas ele é não sei o que, cara, foda-se, o interessante é que o cara tem a mentalidade dele, todo mundo tem direito de ser direita, esquerda, centro, porra nenhuma, cada um tem o direito de ser, desde que o cara não se intrometa na vida dos outros, no país dos outros e na política dos outros. Então, por exemplo, o Bono Vox faz um show na Alemanha, acho que tem até na HBO, se não me engano, um desses canais aí tem um show dele na Alemanha, porra, velho, começa um puta show, legal para caramba, terceira música, o cara para para falar do Bolsonaro, cara, qual é o sentido? Sabe assim, eu estive na Alemanha agora, fiquei 20 dias lá, tem gente na Alemanha que nunca ouviu falar do Bolsonaro e não quer nem saber quem ele é, porque não tem interesse, fala, cara, eu não estou interessado em saber quem é o presidente do Brasil. Então assim, qual é o sentido de o cara parar um show para fazer um discurso na Alemanha…

Luciano Pires: Para dizer como é que você tem que viver a sua vida. Qual é o sentido de uma indústria de perfumes dizer para você como é que você tem que viver a sua vida? Qual é o sentido de um marketing de um banco ter que dizer para você que você tem que viver a vida assim e assado?

Maurício Nunes: Ou pior, ou de repente o marketing de uma televisão, ao invés de falar das coisas que a televisão que ele está lançando tem, não, ele fica falando de como você tem que viver. Eu não quero saber, eu quero saber o que que tem na porra dessa televisão, porque eu quero comprar essa televisão, você pode me dizer o que que ela tem? Então assim, isso que eu quero saber. O Bruce eu tive a oportunidade de conhecê-lo aqui, que eu sou muito, muito fã, e porra, para mim foi uma honra.

Luciano Pires: Você conheceu ele pessoalmente?

Maurício Nunes: Conheci aqui, conheci pessoalmente, puta cara, e ele tinha dado uma entrevista dias antes para aquele acho que é Álvaro… é um cara que ele trabalhava acho que no Fantástico, um cara que sempre entrevista os gringos, as personalidades, as celebridades. E eu lembro que estava naquela… acho que era a Dilma que estava no poder, e estava aquela história de vai cair, não vai cair. Eu lembro que o cara perguntou para ele, você que é um cara de esquerda, o que que você acha? Cara, a resposta dele para mim foi a melhor e a que todo artista devia dar, eu não costumo dar opiniões sobre um país que eu desconheço. Puta, acabou, velho, matou, não interessa se ele é de esquerda ou direita, eu não moro no Brasil, eu não sei o que está acontecendo, mas por que que as pessoas têm medo de assumir a sua própria ignorância, falar, cara, eu não sei o que está acontecendo hoje na Alemanha, eu não sei… mas tem que tirar a Ângela… velho, se eles acham que tem que tirar é problema deles, eu não faço a menor ideia. E teve um outro cara que entrevistou o Bon Jovi, que também é um cara conhecidamente de esquerda, e ele falou, o cara ficou… acho que foi o Bial, ficou cutucando, cutucando ele para falar de política, ele sempre se esquiva, com razão, aí o cara ficou cutucando, cutucando, ele falou, cara, eu sou um artista, eu trabalho com todos os públicos, e eu canto para todo tipo de pessoa, ele falou, eu não quero entrar nessa seara, essas opiniões, elas são muito pessoais, eu tenho a minha e eu guardo para mim. Que lindo, ele não é obrigado a falar, você não é obrigado a ir lá e falar, não, eu acho que a esquerda e saber de tudo, sabe, o cara vai falar, não, porque está lá a guerra da Ucrânia, o cara vai lá dar uma opinião, fala, cara, você mora lá, você realmente sabe o que está acontecendo? O cara não sabe nada, mas quer ir lá falar.

Luciano Pires: Mas é irresistível, eu quero mostrar para você que eu sou virtuoso, cara, que eu sou do bem, que eu…

Maurício Nunes: Eu sou tipo o espermicida, o rapper espermicida, que eu sou legal para caramba, eu sou anticapitalismo, mas é o seguinte, eu moro em uma mansão com empregados, eu tenho ternos de fino corte.

Luciano Pires: E o que que você tem a ver com isso? Por que que o cara de esquerda não pode ter, por que que o comunista não pode ter um iPhone?

Maurício Nunes: É óbvio que ele pode, qualquer pessoa pode ter, desde que você não seja hipócrita de falar contra isso, o problema é esse, é o cara ficar pregando virtudes, pregando coisas, porra velho, você também faz, bicho, então você não pode ficar falando, você pode fazer a crítica se você for grande o suficiente para falar, eu vivo sem isso.

Luciano Pires: Mas aí vamos lá, a banda, o cenário do rock, o cenário da banda, anos 90 devia ser, não é? Não rola?

Maurício Nunes: Não rolou e assim, acho que a única vez que eu tive uma sorte… eu consegui bastante coisa, cara, por exemplo, sei lá vai, a gente fez todos os programas, fiz Hebe, fiz Ratinho, fiz Jô uma caralhada de vezes, mas o Jô eu cheguei a fazer acho que seis vezes, mas eu fazia sempre por entrevistas, e aí em duas delas ele pediu a banda, que eu achei muito bacana, generoso da parte dele, sempre foi um cara generoso, traz a banda. Aí eu fazia a entrevista tipo dois blocos, e no terceiro bloco que era a música, rolava com a banda. Mas assim, era muito estranho, porque não vingava, não vingava, a única vez que eu tive uma oportunidade, digamos assim, de vingar, e aí eu não aceitei, foi a única vez, porque esse papo do cara falar não, mas se o cara pedir para você fazer isso, você faria, isso aqui? Eu falei, cara, eu faria tudo, se eu sou artista, eu estou lá e o cara fala, eu não vou ficar discutindo com o produtor, se ele me deu uma oportunidade, vamos embora, vamos ver. Agora é lógico quando muda inteiro, que foi o seguinte, o Arnaldo Saccomani tinha visto a gente no programa do Ratinho, olha isso, cara, que eu tinha uma música que chamava Cascalho e tal, que era bem política já naquela época, e aí ele, porra, gostei desse cara, não sei o que, meu, dá para a gente se encontrar e tal, mas eu queria ver um ensaio da banda. Aí a gente marcou na Teodoro Sampaio, ele foi, ele e um assessor, o Saccomani, para quem não sabe foi o cara que fez Mamonas, fez muita gente, muita gente, um puta produtor, bem-conceituado assim no Brasil.

Luciano Pires: Para você que não sabe quem é ainda, é aquele que usava o chapeuzinho e estava sempre de bom humor, julgando naquele programa de talento…

Maurício Nunes: No The Voice do SBT.

Luciano Pires: Não era… talento, não lembro como é que era lá, mas ele era o mal-humorado lá.

Maurício Nunes: Aí ele foi lá assistir a gente, ele era meio diretão assim, um cara muito direto, aí ele assistiu a banda e falou, bicho, vamos lá fora que eu quero trocar uma ideia com você, mano. Falei, beleza. Aí saí lá, ele falou, seguinte, meu, essa banda aí não vai dar em nada, velho. Na lata assim. Eu falei, mas como assim? Muito rock and roll, velho, rock and roll já era, não vai dar em nada, mas é o seguinte, eu gosto do jeito que você escreve, eu gosto das tuas letras, eu acho que você escreve muito bem e você é um cara performático, tipo, você foi lá, eu vi você nos programas, todos os programas você levanta a galera, você agita e tal, eu tenho uma proposta aí. Eu falei, vamos lá. Vamos fazer um Gabriel Pensador. Eu falei, mas eu não curto rap. Não, mas esquece, mano, você não tem que curtir, você quer fazer, quer acontecer ou não quer acontecer, cara? É assim que tem que ser, velho. Eu falei, tudo bem, mas como é que eu faço com a banda, não dá para fazer uma parada então meio Beast Boys, Rooney Mc, os caras vêm. Não, mano, sem a banda. Aí eu, puta, idiota para cacete, pensei, não, velho, desculpa, mas não vou largar os caras, os caras estão comigo aí há um tempão. Aí ele, meu, você está errado, porque não vai dar em nada isso, confia no que eu estou falando. E aí você teimoso, não, vai dar sim, vai dar, eu tenho fé. Não aceitei a ideia e voltei lá para o estúdio e tal, cara, passou uns três meses assim, a banda acabou porque os caras cada um foi seguir sua vida, porque viram que não ia dar em nada, e você se olhando no espelho se sentindo um perfeito idiota, eu falo, puta, eu preocupado com os caras e os caras hoje um foi seguir faculdade, outro foi seguir para ser empresário, outro foi seguir não sei o que, e eu nada, me ferrei. Aí depois de muito tempo assim, acho que mais ou menos um ano, sei lá, eu encontrei o Saccomani em um evento, não sei o que, fui falar com ele, ele lembrou, eu falei, porra meu, será que não rola agora? Aí ele, bicho, o trem passou. É foda, e é isso aí, cara, então assim… mas eu sendo bem honesto, cara, eu não sei também se eu faria um bom trabalho, porque não é minha onda, eu ia fazer uma coisa que não era eu.

Luciano Pires: Mas era isso que eu estava pensando aqui, vai te tirar completamente da tua praia, você é um cara do rock, se bem que…

Maurício Nunes: É o que o Gabriel fazia, uns rock and roll, então acho que por isso que ele…

Luciano Pires: Se bem que tem uma dessas duplas sertanejas aí, um dos meninos é um guitarrista de rock de mão cheíssima.

Maurício Nunes: Ah, acho que eu sei quem é.

Luciano Pires: Mas rockeiro daqueles de babar, cara.

Maurício Nunes: Edson e Hudson.

Luciano Pires: Edson e Hudson, e o cara como rockeiro não acontece nada, como dupla sertaneja o cara vai e arrebenta. Aí ele leva o rock para dentro do trabalho dele lá.

Maurício Nunes: Mas você quer que eu te fale a real, eu não sigo sertanejo, não acompanho, não sou fã, mas eu acho que se ele tivesse feito uma proposta dessa assim, vamos fazer uma outra parada, um sertanejo, eu acho que eu… primeiro eu teria topado porque aí dava para enfiar a banda, e segundo eu acho que está mais próximo do rock, entendeu? Porque o country é o primo caipira do rock, então assim dava para fazer. E eu até vejo às vezes assim nesse mercado, eu falo, cara, podia entrar uma banda sertaneja com uma pegada… porque por exemplo, eu não custo sertanejo em si, eu realmente não gosto, sertanejo não, esse pop que eles tocam, sertanejo raizão eu gosto e muito, aí tipo, sei lá, eu penso… algumas vezes eu fui para Nashville, e aí comecei a ficar muito… eu já gostava de country, mas quando você está no lugar ali, você vai em um show, vai em outro, você fala, cara, esses caras são muito bons, são muito bons, e são bandas de rock, você vê os caras tocando ali é uma banda de rock and roll, entendeu? Então assim, eu até encarava, era até o negócio de falar… hoje mesmo, se um cara falar assim, quer pegar essas músicas, vamos transformar isso aí em um negócio? Topava amanhã, topo, vambora, porque eu acho que tem mercado. Agora o rap, nada contra óbvio, é que não é a minha praia, eu realmente não gosto, eu não gosto.

Luciano Pires: Mas quando você mistura Aerosmith com Rund MC dá um treco…

Maurício Nunes: Não, tem muita coisa, é que o Rund MC sempre colocou guitarra assim, sempre… tanto que eu não sou fã de rap, mas por exemplo, eu tenho todos os alguns do Beast Boys, é rap, mas é uma outra pegada, é um rap rock and roll mesmo, é quase o que o Red Hot Chilli Peppers fazia no finzinho dos 80, entendeu? No Modern Mill, que é aquelas paradas. Então, eu falei, isso eu gosto, entendeu? Isso eu acho legal, acho que tem que ter guitarra, eu sou um apaixonado por guitarra, então eu vou falar, dá para enfiar uma guitarra nessa porra? O Gabriel tem uma música muito boa que é aquela Até Quando? Eu gosto da música, eu falo, cara, é uma paulada, porque entra umas puta guitarra pesada, então eu falei, isso até dava. O que eu não sou muito fã é tipo, sei lá, rap, o atual assim que os caras fazem, eu admiro, acho legal, as pessoas gostam, mas não é a minha onda, eu realmente não gosto.

Luciano Pires: Quando você cai na real ali que não vai rolar, não vai ser com música, não vai ser com banda, não vai ser no rock, como é que é, um dia você acorda de manhã e fala, vou ter que arrumar um jeito de ganhar minha vida, como é que foi?

Maurício Nunes: Um dia você acorda e fala: é hoje, eu vou me matar, aí você decide. Aí você vê um livro do Marco Aurélio e fala, não, acho que o estoicismo é uma boa para eu começar a seguir, começar a aceitar as paradas.

Luciano Pires: Como é que foi esse momento em que a chave… que cai assim, que você falou, caceta, definitivamente não dá?

Maurício Nunes: Demorou, demorou, demorou, velho, demorou, quando caiu, puta, demorou muito para falar a verdade eu acho que eu estava aí com uns 40, 40 e pouco, demorou muito. Ainda bem que tipo, não tenho filhos, então não tenho uma responsabilidade tão grande com relação a isso, a responsabilidade é com relação a mim, sou só eu, então não me preocupou, mas demorou, velho, deveria ter caído antes. Mas é que aquela questão, você vai batalhando, você vai acreditando, o bom é que eu nunca parei de fazer outras coisas, então assim, eu sempre me sustentei, graças ao bom Deus, nunca fui um mendigo da vida, de falar, meu Deus, me ajuda que eu estou morrendo de fome, não, eu sempre tive trabalho, sempre tive emprego, empregos que eu gostava, empregos que eu não gostava, que eu detestava, mas eu fazia, então assim, porra, mas a frustração de não rolar, eu não vou mentir, ela é muito triste, ela vai te acompanhar até o último dia da sua vida, isso é óbvio, porque às vezes os caras falam assim, porra, você é um cara que escreve bem para caralho, seus livros são ótimos, não sei o que, mas não era isso que você queria… cara, se eu te falar, você não vai acreditar, eu nunca pensei em escrever na minha vida assim, nunca, nunca, se eu falar para você, ah quando eu era garoto eu pensei, quando eu era adolescente eu pensei, nunca, nunca, então assim, foi um acaso, foi um acaso, porque o lance mesmo, se descesse uma fada azul e falasse, Maurício, você tem um único desejo, um único, qual é? Era a música, sem nenhuma dúvida, música, quero que aconteça isso, independente de todas as outras coisas, você já fez cinema, você já fez teatro, você já fez livro, você já fez rádio, é sério que é só? Sim, música, segunda opção? Música. Terceira opção? Aí pode ser outra coisa, mas tudo bem, pelo menos a primeira e a segunda têm que ser a música.

Luciano Pires: Você vive com uma frustração?

Maurício Nunes: É óbvio, 24 horas por dia sem medo de falar isso, é lógico que eu vivo, mas não inveja, não bronca, como eu acabei de falar da Anitta, que eu elogiei, então assim, eu não tenho nada de bronca, porque tem gente que é rancoroso, não é o frustrado, é o rancoroso, que tudo ele critica, tudo ele fala…

Luciano Pires: Mas você não passou para trás esse negócio da sua vida, a música ficou no passado, ela está presente?

Maurício Nunes: Está presente, mas assim ficou no passado no sentido de… aí eu precisaria de uma análise, porque eu não tenho vontade de fazer, então por exemplo, se alguém me chama para uma banda, uma coisa, eu não vou mais, então geralmente a gente está em festas e aí a galera está cantando e aí me chama para cantar, eu nunca vou assim, porque para mim, é muito estranho isso, já não dá mais prazer, se tornou dor, se eu subo em um palco para cantar, por melhor que seja, me dói.

Luciano Pires: Eu entendo perfeitamente o que você está dizendo.

Maurício Nunes: Me dói, não me dá uma alegria.

Luciano Pires: Você está ouvindo o LíderCast, que faz parte do ecossistema Café Brasil, que você conhece acessando mundocafebrasil.com, são conteúdos originais distribuídos sob forma de podcasts, vídeos, palestras, e-books e com direito a grupos de discussão no Telegram. Torne-se um assinante do Café Brasil Premium, através do site ou pelos aplicativos para IOS e Android, você prática uma espécie de MLA, master life administration, recebendo conteúdo pertinente de aplicação prática e imediata, que agrega valor ao seu tempo de vida, repetindo, mundocafebrasil.com.

Luciano Pires: Eu sou cartunista, cara, eu nasci como cartunista, cresci pensando em ser um grande cartunista, vim para São Paulo para estudar para me tornar um cartunista, ganhei concurso de cartoon, publiquei, fiz o diabo como cartunista, e aí a vida me levou para outro caminho, virei diretor de marketing de indústria.

Maurício Nunes: E você também tem essa…

Luciano Pires: Então, e aí eu segurei aquilo comigo, ficou guardado em uma gaveta, e um dia eu descobri que o que eu estava fazendo era usar os elementos, os atributos que o cartunista precisa em outro lugar, então eu era um diretor de marketing cartunista, o resultado do meu trabalho na era um desenho ou um cartoon, mas o que eu usava para fazer era todo, então o olhar, a irreverência, a forma como você conecta duas ideias descabidas e faz uma terceira, a velocidade de raciocínio, a possibilidade infinita de olhar para aquela garrafa, ela vai falar comigo, e ela fala, o cartunista tem isso. Então, um dia eu descobri que eu estava usando, falei, legal, os atributos estão aqui, o resultado não está sendo um desenho, mas está aqui. E aí o meu trabalho no podcast passou a ser igual, quando eu comecei a escrever, igual, eu falei, cara, então eu continuo me expressando, o veículo não é um pedaço de papel com nanquim, é um podcast, mas o atributo, aí isso me sossegou um pouco. E hoje eu pego, me dá vontade… cara, vou desenhar, dói. Faz um cartoon para mim? Cara, não estou a fim, dói. Mas é um prazer, quando eu sento para fazer direito…

Maurício Nunes: Porque quer, lógico.

Luciano Pires: Com tudo não mão, com equipamento, cara, é um tesão, a descoberta de olhar para um papel e falar, eu não sei o que vai sair no final, mas isso é um tesão, que eu faço escrevendo.

Maurício Nunes: Mas eu acho que os elementos que você falou, por exemplo, que acabaram te ajudando e muito para você exercer outras funções próximas, eu acho que isso para música, isso também me ajudou muito, por exemplo, quando eu falei que o escrever foi um acaso, por quê? Porque eu escrevia letras, então assim, escrevia letras e escrevia peças, para partir daí para escrever jornalismo, para escrever coisa que é a minha função, que é a minha área, eu falei, porra, foi um passo tranquilo, digamos assim, porque inint 48:22 e o lance do ritmo, porque às vezes a pessoa, por exemplo, o cara lê um livro, o cara fala, cara, eu adoro porque os teus livros a gente devora e não cansa. Eu falei, porque é ritmo, velho.

Luciano Pires: Os caras falam isso, eu falo, eu não escrevo livro, eu escrevo cinema.

Maurício Nunes: Exato.

Luciano Pires: O que que você faz? Cinema, eu não estou escrevendo um livro, cinema, porque eu vou fazer um jeito… você quando tiver, você vai viver o que eu estou falando ali, você vai ouvir o barulho, você vai sentir. E aí eu abuso mesmo, cara, tem pausas, tem coisas que se você pegar, mandar para um especialista em texto, a não se usa isso, você não pode usar três pontos de exclamação no final, você não pode usar reticências. Eu falo, cara, isso para mim é a minha vírgula, é aqui que vem a…

Maurício Nunes: Você sabe que acho que o único lance bom de não ter feito uma faculdade e isso, cara…

Luciano Pires: Foi não te bitolar.

Maurício Nunes: E isso Woody Allen falou na autobiografia recente dele sobre isso, e que ele também não tem nenhuma faculdade, o próprio Walt Disney, que ele fala que também não tem nenhuma faculdade, enfim, vários, o Bruce não tem, ia listar aqui, a gente ia ficar a tarde inteira falando de quantos não tem. E uma coisa interessante que o cara fala, você não pegou nenhum cacoete, que infelizmente pega, e você não segue regras, porque você criou as regras, então você fala, igual você disse de escrever, eu idem, às vezes a pessoa vai lá e fala, eu vou fazer a revisão do seu texto, como aconteceu. Cara, aí o cara começa a revisão, eu juro, eu corto no meio do caminho, eu falo assim, cara, na boa, não quero, deixa assim. Mas não pode. Eu falo, cara, você já imaginou se uma pessoa pegasse o texto do Saramago, prêmio Nobel de Literatura e falasse para ele assim, cara, na boa, não se faz parágrafo de 19 páginas. Ele faz. Cara, não dá para fazer esse texto sem colocar a vírgula aqui que tem… fala isso para o Saramago, Saramago não põe e tinha que pôr.

Luciano Pires: Sabe o que eu falo para o cara? O seguinte, deixa eu ver seu texto, se você escrever melhor do que eu, eu deixo você… pode revisar meu texto, mas você tem que escrever melhor que eu. Eu acabei de fazer um prefácio…

Maurício Nunes: E a essência está ali, você…

Luciano Pires: Um cara me pediu um prefácio para um livro aí, puta honra, cara, fiz o prefácio e mandei o prefácio, e cometi o desatino de dizer para o cara, cara, eu escrevi muito rápido aqui, dá uma revisada nele para mim, deve ter alguma vírgula errada, alguma bobagem. E o cara entregou na mão do revisor. E aí eu só vi o livro pronto, cara, quando eu comecei a ler, não fui eu que escrevi isso, o que que é isso, cara? Parei na metade, joguei em um canto o livro e não quero mais saber daquilo lá, mas alguém meteu a mão no meu trabalho e o cara é pior que eu.

Maurício Nunes: E eu acho que você não tem… é isso que eu estou te falando, acho que a arte como um todo, ela não tem regras, cara, esse é o problema, não tem regras, se você falar, cara, não tem. Se você pegar, por exemplo, um escritor que eu sou apaixonado, que é o Charles Bukowski, eu tenho todos os livros, tanto os lançados aqui e os gringos, porque é realmente um escritor que eu gosto muito, cara, se você for olhar a estrutura de texto do Bukowski, meu, qualquer revisor ia ter um infarte, porque assim… e aí você fala, como é que você vai dizer que o cara, o maior poeta contemporâneo dos Estados Unidos assim disparado, tipo, cara, e aí você fala assim, como é que você vai dizer que o Bukowski não sabia escrever? É isso então? Então, ele escrevia errado? E como é que você explica, então, o tamanho de público imenso que ele teve, inclusive, de artistas? Bono Vox mesmo, que a gente acabou de votar aqui, já declarou inúmeras vezes que é o escritor favorito dele, John Bon Jovi idem, o escritor favorito dele, entre outros caras. Então, você fala assim, bicho, acho que você tem… a arte, ela não… quando o cara fala assim, fulano tem que fazer um diploma… tem que estudar, ter um diploma, é igual no cinema, o cara fala, não, o cara foi lá, estudou cinema. Eu falei, bicho, os maiores gênios do cinema que eu conheço, poucos terminaram sequer o colegial. Então, você fala assim, não tem a ver, é feeling.

Luciano Pires: É que os caras confundem as coisas, aqui eu vou usar um… vou fazer um paralelo com o futebol, você pega um cara que nem o Neymar, que tem um talento nato, o cara tem o talento, não tem jeito, ele tem um talento nato, mas ele é um mosquitinho, ele é um pernilongo, ele é fininho, ele é magrinho, ele é tudo inho, ele vai entrar em campo, ele não vai conseguir performar, cara, os caras vão quebrar ele em dois segundos, então você precisa dar a ele alguns guidelines, ele vai ter que aumentar a massa muscular, ele tem que melhorar a inteligência do jogo e tudo, mas ele não vai… o cara não vai dizer para ele, cara, é assim que se dribla, porque está no cara. O que eu quero dizer é o seguinte, quando você chega lá na frente de um… na hora de um show do Bruce Springsteen, você vai ver aquele show maravilhoso, cara, atrás daquilo, para que aquilo aconteça tem que ter uma ordenação filha da puta, tem que ter, tem matemática, tem engenharia, tem inint 52:52.

Maurício Nunes: E para isso você ter os caras.

Luciano Pires: Tudo montado, e aí essa coisa toda pronta permite a ele chegar lá e desenvolver a arte dele na boa. Então, essa arte dele não foi contaminada por aquilo. Ou até outro dia eu dei uma entrevista, o cara perguntou para mim, não, mas estão você sistematiza a tua criação? Eu falei, não, cara, o que eu coloco são os limites até onde eu posso ir. Então, se eu sei que eu tenho um limite técnico para alguma coisa, eu não vou passar dele, entendeu? É para isso que serve o guideline, não é para dizer para mim, meu… os caras estão tentando fazer agora, censure isso, não diga isso, não diga aquilo. Não, isso não, isso aí eu estou podando minha criatividade. Agora se você disser para mim o seguinte, olha, o bloco tem 12 minutos, você está me orientando, eu não posso fazer alguma coisa de 20 porque não vai caber nos 12, então esses guidelines devem até acontecer, facilitam a gente.

Maurício Nunes: Para isso que eles existem.

Luciano Pires: Você entrou aqui, veio visitar o meu estúdio, o que que é isso aqui, cara? Eu criei um ambiente que para mim, a hora que eu entro na porta e entro aqui dentro, meu cérebro já entrou em modo de produção a milhão, sabendo tudo que tem aqui, tudo isso facilita a minha vida. Se eu tivesse aqui uma sala vazia e eu chegasse com você, vamos gravar, vamos, vamos montar os dois tripés, vamos montar a iluminação, vamos montar não sei o que, cara, não ia rolar, entendeu? Porque a gente ia perder um tempo tão grande calibrando tudo, ia falar não, eu tenho que entrar em um lugar que eu…

Maurício Nunes: A gente ia conversar durante a montagem.

Luciano Pires: Esse lugar tem que estar pronto para mim, então esses guidelines você tem que ter, e para isso tem que ter disciplina, não tem como, Anitta é disciplinadíssima, graças a disciplina dela, ela consegue ir lá e falar inglês bem e falar espanhol bem, tem uma dedicação ali.

Maurício Nunes: Exato, cantar bem, que também treinou, estudou.

Luciano Pires: Isso não significa que o teu poder criativo vai ter que ser todo podado.

Maurício Nunes: Igual quando você citou minutos atrás aí do Glauber, que você falou, poxa, uma câmera na mão, uma ideia na cabeça, você tem um exemplo em Hollywood mesmo, você tem um exemplo assim bem interessante que é o famoso filme A Bruxa de Blair, cara, foi o filme mais barato da história e com o maior rendimento do mundo, o filme ganhou em termos de proporção, óbvio, que o cara falou, não, você é louco, Star Wars teve… mas eu estou falando em proporção, em proporção o que Star Wars, por exemplo, leva de público e ganha grana, com o que se gasta, a proporção é infinitamente menor do que aconteceu com Bruxa de Blair, que foi um filme de 60 dólares, os caras não gastaram porra nenhuma, bicho, o filme rendeu milhões, muito absurdo. E paralelo também o mercado do pornô, se você pegar, por exemplo, o pornô quando era feito em 35 mm, ia para cinema etc e tal, cara, até que o sujeito chamado John Stagliano catou uma câmera de vídeo e começou a filmar, fazer os famosos gonzo, porra, cara, o cara destruiu a indústria pornográfica do mundo, destruiu, ele criou uma dele, ele indústria dele que é o que virou, indústria do home vídeo, que se tornou a indústria mais rica dos Estados Unidos e tal, mas a indústria pornô que existia antes do famoso clássico, na verdade, que é o Garganta Profunda e tal, que talvez as pessoas nem imaginem isso, que esses filmes levavam a galera no cinema, não era assim cinema do Largo São Francisco, que vai, não, eram casais, eram filmes considerados filmes normais como qualquer outro filme, Garganta Profunda você pega no Google, se você for caçar aí, você vai ver, as filas eram gigantescas para assistir o filme. E aí o cara…

Luciano Pires: Emanuelle.

Maurício Nunes: E um cara sozinho… pera lá, velho, eu tenho uma ideia. E com uma câmera ele mudou essa porra toda.

Luciano Pires: Quando a tecnologia vai deixando barato o preço da entrada, a entrada fica muito barata, entendeu? Não digo a entrada do cinema, quero entrar no negócio, cara, eu tenho que ter um estúdio, 100 mil dólares, não, bicho, basta ter um celular, uma iluminação decente, uma boa ideia, você… esse é o custo de entrada hoje.

Maurício Nunes: E a sorte, que nego vai ficar puto, mas é que existe, cara, não tem jeito, você tem que contar com tudo isso, você pode ser um gênio e ninguém te viu, como a gente falou, você pega… pega o Vincent Van Gogh, você conhece alguém que produziu tanto quanto Van Gogh? Não, ele produziu muito. Alguém tão infiltrado quanto ele? Não, porque ele conhecia todos os caras daquela época, até porque o Theo era merchan, eles tinham esse acordo, então o Theo que acabava meio que financiando o Van Gogh para fazer os contatos para ele. Cara, os caras tiveram planejamento, tiveram tudo, não rolou, não vingou, o cara se deu um tiro no peito porque o cara nunca vendeu nada. Hoje, ironicamente, você vai em todos os grandes museus do mundo, tem obras do Van Gogh, e o quadro mais caro do mundo recentemente vendido é do Van Gogh. Aí você fala, puta que pariu, o cara deve estar muito puto, se existe uma outra vida, esse cara deve estar muito bravo, que é igual quando o cara fala do Woody Allen, o cara fala se ele gostaria de ter… você gostaria de deixar um legado? Ele falou, cara, eu gostaria de continuar morando em uma cobertura, legado que se dane, eu quero viver 100 anos aqui vivo e o legado você deixa para lá, eu não estou preocupado com legado não.

Luciano Pires: Eu fiz um post essa semana mostrando, apresentando para o pessoal um violonista clássico espanhol, não vou me lembrar o nome dele aqui agora, não vou me lembrar, que foi o cara… ele compôs uma melodia maravilhosa, e no meio da melodia tem os acordes que fazem… que a Nokia pega, os caras escolhem aquilo deliberadamente, este vai ser o nosso toque da Nokia. E lá no post eu dou uma informação que os caras fizeram um levantamento em 2009, disse que aquilo era tocado 200 mil vezes por segundo, 20 mil vezes por segundo, era dois bilhões de vezes por dia era o toque da Nokia, que virou um dos trechos de melodias mais famosos da história da humanidade e esse cara morreu 80 anos atrás, e ninguém sabe quem o cara é.

Maurício Nunes: Isso que eu estou te falando, é muito triste, de você falar, puta que pariu, o cara podia ter ficado…

Luciano Pires: Falando em referências, então, você escreveu alguns livros, você optou por editar por tua conta, cara, é muito parecido comigo, bicho, eu não tenho saco para aguentar um mané dando ordem para coisas que eu não vou…

Maurício Nunes: Não é nem ordem, que você até comentou sobre a qualidade do cara…

Luciano Pires: É ordem, cara, escreve assim, escreve assado, faz isso, faz aquilo, já teve cara que tentou desmontar meu livro inteirinho, falei, não, desculpa, não. E aí você recentemente disse para mim que ia lançar um livro, você estava trabalhando em uma biografia, não sei o que, eu falei, ah que legal, ele me manda o livro, e eu estou achando que vou receber um livrinho, chega um livro capa dura, todo colorido, cara, todo ilustrado dentro dele, um negócio assim que fala, cara, meu, isso aqui é um trabalho de gente grande feito por esse maluco aqui, pela editora dele, absolutamente independente, é um livro que provavelmente não vai estar no aeroporto colocado em pé no aeroporto, mas cara, é uma obra que quando você pega na mão, fala, bicho, isso aqui é um trabalho muito sério, uma qualidade brutal, não li ainda, só dei uma folheada nele, mas já saquei só pela abertura dele, que ele abre aqui com um texto da… como é o nome dela?

Maurício Nunes: Key Marlins.

Luciano Pires: Key Marlins, que é a amiga pessoal…

Maurício Nunes: Amiga pessoal do Walt Disney, ela é a curadora do museu, curadora e fundadora do museu Disney.

Luciano Pires: Então cara, e eu estou entendendo que você é um cara intenso, você pega um projeto e vai até o fim, você fez isso com alguns livros, um deles o do Play Center, que é uma história maluca, que você foi e detonou, esse livro não existe mais, já está em… como é essa coisa da… você conseguiu encontrar no livro aquilo que você não conseguiu obter na música?

Maurício Nunes: De certa forma sim, de certa forma sim, a satisfação pessoal, e assim, você falou a coisa certa, intenso, então assim, eu sou um workaholic, eu sou meio doente com relação a isso, então assim, cara, eu trabalho muito, muito, eu sou muito obcecado, então assim, eu precisava ter algo, entendeu? Então, a música, por exemplo, eu sempre produzi todos os álbuns sozinho, eu não sou músico, evidentemente, você estava falando agora até do exemplo do Bruce, eu a mesma coisa, eu preciso de outras pessoas, então eu sempre tive ao meu lado grandes músicos, grandes guitarristas, grandes baixistas, grandes produtores, porque eu falei, eu não sou um produtor técnico, eu não vou saber, eu preciso de um cara para mexer no equipamento. Então assim, então eu sempre fiz um bom trabalho com relação a isso por ser uma pessoa realmente assim tipo, muito, muito focada, quando eu quero algo, você viu quando eu te falei desse do Disney, já era um trabalho que eu estava fazendo, para você ter uma ideia, essa pesquisa do Disney eu já venho fazendo há 15 anos, sedento para lançar e nunca lancei, porque eu falei, não, só o dia que eu achar que está perfeito, eu lanço, falar, agora está lindo, você vai fazer. O do Play Center foi o único trabalho dos meus livros, eu tenho oito livros, o único trabalho que foi diferente disso tudo, porque não foi um projeto meu, eu fui convidado para fazer, então assim, se eu falar para você, ele tem a mesma paixão do que os outros livros, eu vou estar mentindo, não tem, porque não foi um projeto meu, não foi uma ideia minha, foi uma coisa que eu fui convidado e aí acabei fazendo e pela minha editora, foi um acordo em comum com o Play Center porque ele percebeu obviamente o que você mesmo notou aqui, e graças a Deus todas as entrevistas que eu faço todo mundo elogia isso, o próprio saudoso já Jô Soares sempre que eu fui no programa, ele sempre enalteceu isso, ele sempre falava, cara, a qualidade… ele falando, a qualidade dos seus trabalhos é impressionante, é realmente impressionante, ele falou, eu tiro o meu chapéu. Porque eu sempre me preocupei muito e é o que você disse, se eu fosse fazer em uma outra editora, ia ser aquilo lá, o cara ia fazer do jeito que ele quer, e eu ia ter que abaixar a cabeça e aceitar, entendeu? E eu falo, não, eu acho que o leitor merece muito mais do que isso. Então, do Play Center quando me convidaram, o próprio dono do parque, o Marcelo Guteles, eu topei, fiz a pesquisa intensa, que é o livro oficial do parque, então fiz a pesquisa intensa aí de anos, levou mais ou menos aí uns três anos de estudo com coisa que ele mandou, entrevistando gente, até fazer o livro, o livro realmente esgotou, e é um livro caro para se produzir, não é um livro barato, então eu não tenho nenhum interesse em fazer, porque eu tenho outras coisas para fazer, então lógico, sou uma editora pequena, eu tenho que mirar em outros projetos, então eu vou falar, se eu fizer de novo do Play Center, eu não lanço do Walt Disney, eu não lanço outros, então foi uma opção minha. Então, eu brinco que eu falo que os livros da Zelig, eles são para raros, entendeu? Tipo assim, porque o cara tem aquelas mil cópias, acabou, acabou, não tem mais, então eu vejo hoje a moçada desesperada, nego vendeu aí esses dias, o cara vendeu no Mercado Livre, 600 paus o livro, eu falei, cara, eu queria ter mais desse livro, eu ia ganhar dinheiro, eu não ganhei um tostão com esse livro, eu ia ganhar dinheiro com esse livro, porque ele é um livro caro e a gente vendeu a preço barato, então ou seja, o rendimento para mim em termos de… autor foi zero, como autor eu não ganhei nada, zero, zero, foi um trabalho gratuito, zero, porque eu achei que era legal no sentido de pô, vai dar uma visibilidade e tal, é bacana, eu vou topar, mas pela editora mesmo, míseros, porque ele é um livro… o custo dele é muito alto, então você fala, por exemplo, quando você… só para as pessoas entenderem, quando você tem uma editora, então você vai vender, por exemplo, para uma livraria, como é que funcionam as livrarias no Brasil? Geralmente você tem o preço de capa, que é o preço que você consumidor paga, então o livro custou 50 reais, é o preço que você vai pagar, a livraria fica com 50 a 55% desse valor, então para você já vai 20, 25 reais na sorte, aí você paga de custo 20, 22, você fala, cara, eu ganhei 3 reais em cada livro.

Luciano Pires: O autor ganha 4, 5, 6%. Quando você faz um excelente acordo com uma livraria, você ganha 8, 10% do preço de capa.

Maurício Nunes: Exato. Então assim, em termos de satisfação pessoal, isso é legal, gosto muito do que eu faço. Em termos financeiros, não, eu não vivo de escrever livros, se não eu morreria de fome, porque você não ganha, a não ser que você acerta no ângulo, sei lá, vira um Paulo Coelho da vida, você acertou um livro, ou a autora do Harry Potter, você acertou e vai vender milhões, aí sim, fora isso é muito difícil, cara, você ganhar dinheiro com livro, mesmo esses caras famosos, tipo, sei lá, esses que dão muitas palestras, ganha mais já palestra do que no livro.

Luciano Pires: Sim, sim, se você pegar o Veríssimo…

Maurício Nunes: O filho, não é? O filho, o Luís.

Luciano Pires: O filho, ele é um cara conhecido, ele já tem um público gigantesco, mas ele quando lança um livro, cara, se o livro dele for um puta de um sucesso, vai vender 12 mil, 20 mil.

Maurício Nunes: Você está chutando alto ainda, acho que é menos que isso.

Luciano Pires: E a gente… eventualmente aparece a Bruna Surfistinha, lança o Doce Veneno do Escorpião, e é um best seller de 350 mil.

Maurício Nunes: Foi mais, um milhão de livros.

Luciano Pires: Isso é um unicórnio.

Maurício Nunes: Um unicórnio, coincidentemente eu dei entrevista para ele semana passada, foi para o ar no dia do natal…

Luciano Pires: Para ele quem?

Maurício Nunes: O Marcelo Duarte, o dono da inint 01:05:44 ele que escreveu, na verdade, ele é o ghost writer dela, então foi ele que fez e tal, ali foi uma puta sacada, porque é um livro pequeno, fininho, simples, e não tem nada do que as pessoas imaginavam que ia ter, nada, então as pessoas falam assim, eu quero ver putaria, dançou, não tem. Então, se falar, mas vingou porque eu acho que eles trabalham muito bem, cara, o marketing, muito bem, foi uma jogada de gênio mesmo ali, que eu acho que a mão do Marcelo ali foi muito importante para você falar, foi uma jogada de gênio, porque fez a galera ficar toda interessada naquilo. Eu não sei se hoje com todas essas facilidades que tem, os podcasts, enfim, os blogs, não sei se hoje teria esse mesmo affair porque parece que as pessoas buscam mais isso, o cara vai lá hoje, ele olha na internet…

Luciano Pires: Está mudando muito o mercado, está mudando muito o mercado.

Maurício Nunes: Pergunta toda hora, por que que você não faz um livro digital? Cara, porque não ia ter o acabamento que eu quero.

Luciano Pires: Além disso, não acontece nada com o livro digital, porque ele não vingou, ele não existe.

Maurício Nunes: Eu acho que ele vinga mais na pirataria do que outra coisa.

Luciano Pires: Nem sei se vinga, cara.

Maurício Nunes: Na pirataria vinga, muita gente lê livro… você pega o Kindle, por exemplo, a maioria eu acredito, dos livros que estão lá são que a galera baixa, porque você vai comprar, tudo bem que o valor, ele é menor, evidente…

Luciano Pires: É ridículo, o menor é ridículo. Ele não vingou porque ele não cumpriu o que ele prometia.  Quando chegou no Brasil, eu falei, cara, o que que vai acontecer? Um livro desse aqui, esse livro aqui é um livro para ser vendido a 120 reais na ponta…

Maurício Nunes: Eu vendo a menos.

Luciano Pires: Eu imagino, com capa dura e tudo mais.

Maurício Nunes: 80 pau.

Luciano Pires: Então, mas você fez direto, vamos lançar o e-book disso aqui, cara, o e-book, então não vai ter capa dura, não vai ter papel, não vai ter impressão, então espera um pouquinho, então você tem que tirar 70% do custo. E não foi isso que aconteceu.

Maurício Nunes: Não, não só o custo, por exemplo, do Play Center tem gente que pede, eu falei, cara, o livro inteiro tem fotografias, inteiro, ele é todo com fotografias, eu falei, eu vou tirar, tudo bem, não desmerecendo o meu trabalho e o texto em si, eu estou tirando a cereja do bolo, cara, eu estou tirando as fotografias que as pessoas querem, é um livro de registro, é um coffee table book, cara.

Luciano Pires: É, você tinha que tirar o custo industrial dessa história toda. Então, quando chegou o e-book você falou, bom, se eu tirar o custo industrial, o que vai acontecer? Vamos voltar naquele teu raciocínio lá, se 55% do custo fica no canal de distribuição e não existe um livro físico para ser distribuído, evidentemente alguma coisa em torno de 35 a 40% devia cair do custo, essa é uma parte, se 18% do custo é o custo industrial, tinha que cair também, 35 com 18 já deu 53.

Maurício Nunes: Mas não cai, porque o livro não custa metade do valor, por exemplo, e tem livro que está lançando, a galera paga até mais caro, porque você vai ler primeiro que os outros. O cara paga, eu falo, meu, você é louco, pagar 70 pau em um livro… em um e-book. E outra também, vamos ser honestos, não sei se é porque a gente já está enfim, bem mais velho, mas porra, cara, não dá para você dispensar o livro, cara, o livro eu acho que é o todo, é o conjunto da obra, entendeu?

Luciano Pires: Tem um lance físico.

Maurício Nunes: Tem. Eu adoro o Kindle, eu tenho o Kindle, mas eu falei, poxa, cara, mas o livro é outra história.

Luciano Pires: São dois produtos completamente diferentes, para viajar o Kindle é o demônio, mas cara, pegar na mão, folhear, sentir o prazer de virar uma página, dobrar a beiradinha da página…

Maurício Nunes: E o acabamento.

Luciano Pires: …Pegar uma caneta, rabiscar, eu faço isso, eu rabisco todo o livro, não tem como, isso aqui não tem como.

Maurício Nunes: E o acabamento, você coloca, por exemplo, você pega… hoje por exemplo, eu acho, por isso que eu faço com essa qualidade, com esse padrão, porque eu acho que a diferença está nisso, você pega, por exemplo, a Dark Side Books, que é uma editora de terror e tal, cara, todos os livros, dá vontade de ter todos porque assim, todos têm esse acabamento, todos saem em capa dura, todos têm essa ilustração, todos têm não sei o que, porque aí você quer um livro especial até para você deixar, sei lá, de enfeite, sabe? O cara comprou, falou, eu já li, mas ele é um livro tão bonito…

Luciano Pires: E tem outra coisa, isso que está na minha mão pertence a mim, eu tenho um senso de pertencimento, eu pego ele, está comigo. Um pendrive com um livro dentro não é de ninguém, cara, não pertence a ninguém, isso aqui eu carrego comigo, eu pago com gosto, cara, chegou para mim, então tem um senso de me pertencer que um byte não é de ninguém.

Maurício Nunes: E é um pouco um pedaço do autor que você tem mesmo, e assim, ainda mais no nosso caso que eu falo, é um pedaço e o coração, porque eu fiz tudo, diferente de um editor que você fala, o cara escreveu o texto e aí você tem uma indústria… esse aqui você fala, cara, isso foi feito por um único… sabe o autor que você está lendo, o cara que escreveu isso aqui? Ele fez tudo isso, tudo o que você está vendo foi o cara que produziu, então assim, porra, é artesanal, então é bonito o negócio.

Luciano Pires: Vamos voltar para o cinema?

Maurício Nunes: Claro.

Luciano Pires: Quando você pega um filme do Chaplin, quando você pega um filme do Woody Allen, quando você pega um Buster Keaton, quando você pega esses caras, bicho, o que tem ali no filme do Chaplin, tem o Chaplin do começo ao fim.

Maurício Nunes: A digital do cara está ali.

Luciano Pires: O Chaplin vai até a distribuição, ele é dono da distribuidora, a música que ele bota lá, entendeu? Então, tem a alma do cara lá dentro. E aí o que acontece com isso? Dura 150 anos e você continua dando risada daquele filme, porque ele tem… o Woody Allen a mesma coisa, o cara está inteirinho ali.

Maurício Nunes: Ou o próprio Disney que a gente está falando, foi só sair…

Luciano Pires: Então, isso que eu queria chegar nele, por que Disney, cara, como é que você chegou no Disney aí? Em todo esse universo de cinema, por que que bate no Disney?

Maurício Nunes: Porque primeiro uma paixão infantil assim, desde criança eu fui criado com o Walt Disney, então tipo, eu sempre fui apaixonado pelos clássicos, pela história dele, tanto que eu até comento com o Marcelo, eu falei isso, o Duarte e tal, eu nunca esqueci que o meu pai me deu um livro, um livro de 75. Então, eu tinha quatro anos de idade, então foi um dos meus primeiros livros, digamos assim, e é do aniversário do Mickey e tal, e aí tem uns trechinhos ali que meu pai lia para a gente e tal, e que falava sobre o Walt Disney, pouquinho assim, tipo três paginazinhas falando da história do cara. E eu não sei porque desde o começo me encantei com aquela história assim, gostei, falei, que legal esse senhorzinho, esse tiozinho que conta histórias para nós. E aí a gente acabou crescendo com aquilo, crescendo e tal, e com aquele sonho de um dia quem sabe conhecer a Disneylândia, porque hoje, que nem eu estava falando, não é tão difícil, lógico que é difícil porque custa caro, mas você pode parcelar em 10 vezes, a viagem não é tão difícil quanto era antes. Cara, a gente está falando aqui da década de 70, 80, só ia para Disney cara muito rico, bicho, era só magnata mesmo, então assim a gente nem sonhava em ir, então falava,  já pensou como deve ser esse lugar, e eu fui já mais velho, graças a Deus já trabalhava, já tinha meu dinheiro, e fui com 26, 27 anos por aí, foi a primeira vez que eu fui, e quando eu cheguei lá, cara, e eu vi exatamente a foto do livro, que é a foto do jardim ali da entrada, porra, foi uma puta emoção assim, primeiro porque foi a primeira vez que eu fui para fora, nunca tinha saído do Brasil, a primeira vez.

Luciano Pires: Orlando ou Califórnia?

Maurício Nunes: A primeira foi de Orlando, depois que eu fui para a da Califórnia, que é a principal mesmo e é a que estava no livro, no livro não era a de Orlando, no livro era a da Califórnia, mas é a mesma coisa, o jardim é parecido e tal, e aí deu aquela emoção de você falar, puta cara, eu entrei dentro de um sonho, eu literalmente estou dentro de um sonho, uma coisa que eu sonhei há anos e anos. E aí eu comecei a me dedicar muito, muito para a arte em si da, como você falou que é cartunista e tal, eu sempre fui muito apaixonado pela arte da animação, do desenho mesmo, porque eu acho aquilo fantástico, para mim é uma coisa de outro mundo aquilo, eu falava, cara, como que os caras fizeram isso? Se você pensar, por exemplo, você pega os clássicos Disney, você fala, bicho, os caras fizeram tudo isso aqui com lápis… meu, lápis, tinta e mais nada, então você fala assim…

Luciano Pires: No acetato, cara, pintando quadro a quadro.

Maurício Nunes: Nada, quando eu vejo, por exemplo, fazendo a pesquisa, eu li muitos e muitos, muitos, muitos livros, cara, foram anos estudando e lendo, e aí todos sempre falam daquela cena da baleia, do monstro, do Pinóquio de 1940, que é considerada até hoje por todos os animadores do mundo assim, tipo, a maior obra prima da animação, ninguém bate aquilo, porque o cara fez aquilo na mão, bicho, é na mão aquela baleia saltando, e aquele monte de água espalhando no meio de um oceano e o barco… você fala, dá para você imaginar que os caras fizeram isso na mão assim com um lapisinho. Então, tudo isso, cara, me encantou, então eu fui estudar muito esse tipo de coisa e queria saber quem era o maestro, então eu falei, porra cara, a orquestra é fantástica, eu quero saber quem…

Luciano Pires: Da cabeça de alguém saiu isso.

Maurício Nunes: Quem é o maestro, quem é o cara coordenando isso, e era aquele tiozinho que me contava história quando eu era criança. Eu falei, esse cara é sensacional, preciso saber mais sobre ele. E aí eu comecei a estudar muito sobre ele, sobre a vida do cara, eu quero saber quem é esse cara, onde esse cara nasceu, como esse cara chegou onde ele chegou, o que que ele errou, o que que ele acertou, e aí foi crescendo, crescendo essa paixão, e um dia, por volta aí, sei lá, devia ter meus 30 e poucos anos, eu falei, porra cara, um dia eu quero escrever um livro, eu não tinha escrito nenhum livro ainda, para você ter uma ideia, nenhum, eu falei, um dia eu quero escrever um livro sobre esse cara. E ele foi ser o meu oitavo livro, ou seja, então eu esperei muito para escrever, porque eu falei, não, cara, eu preciso conhecer muito esse cara, eu tenho que saber a história real desse cara e o principal, eu preciso ter condições para fazer o que eu sempre sonhava, que era o que, eu preciso seguir a trilha desse cara, eu quero saber aonde ele nasceu, então eu fui na casa dele em Chicago, eu entrei na casa, eu fui ver aonde esse cara nasceu, quero saber onde esse cara cresceu, foi em Marceline, vamos para essa cidade, eu quero ver essa cidade, qual é a fazenda que ele morava, ah Fazenda Disney, fica em Marceline, eu quero ir lá nessa fazenda, eu quero conhecer cada canto, cada parque, ele tem um apartamento dele dentro da Disney, sabia disso? Sabia, eu quero conhecer, como eu faço para entrar, como eu faço para ir no estúdio, ninguém entra naquele estúdio porque o estúdio não é público, foda-se, eu quero entrar nesse estúdio, e aí fui conhecendo pessoas que foram me abrindo portas para eu conseguir entrar no estúdio, conhecer onde a magia é feita, sabe, falar, é aqui que os caras criaram isso tudo, é aqui que eles fazem até hoje isso tudo, então assim, quando eu vi que estava pronto, eu falei, bom, agora eu conheço bastante desse cara, agora eu acho que eu posso escrever um livro e contar essa história dele, porém contando do jeito que a gente falou aqui antes, do jeito musical, cara, entendeu? Eu não quero fazer uma opera sobre o Wall Disney, eu quero fazer blues, cara, eu quero um blues de três minutos sobre o Wall Disney, que o cara vai falar, meu deus, esse cara é sensacional.

Luciano Pires: E com momentos para você improvisar, tem o momento de improvisação.

Maurício Nunes: Claro que tem, tem o momento de improvisação, tem o momento de emoção, BB King, igual está na camisa aí. Eu falei, porra cara, eu quero fazer um livro assim. E aí eu acho que graças a Deus eu atingi essa semana, eu dei uma entrevista para a Bruna Torlaike, eu sou apaixonado assim, a gente é muito amigo, a gente se tornou muito amigo.

Luciano Pires: Já esteve sentada aí.

Maurício Nunes: Ah, a Bruna é demais, Bruna, beijão, se você estiver ouvindo aí, porque ela vai ouvir, eu vou mandar para ela, e a gente é muito amigo assim, e ela é uma querida, cara, e é uma mulher, esteve aqui, então eu não preciso falar nada, você sabe, de uma inteligência acima da média, da média, da média, e eu sempre falo, se tem alguém nesse Brasil hoje que entende de livros é a Bruna Torlaike, que eu falo que a mulher devora livros assim, e aí na entrevista quando ela falou, eu falei, bicho, esse foi o maior elogio que eu ganhei até hoje na vida, ela falou, cara, na boa, foi um dos melhores livros que eu li, e juro, Mau, ela falou, eu li todos os seus livros, é o seu melhor livro disparado, ela falou, cara, está muito bem escrito, a história muito bem contada, a narrativa toda, ela falou, e você conseguiu condensar uma história gigantesca desse cara, porra, em um livro relativamente pequeno, um livro de 300 páginas, então você fala assim, você contou toda a história sem deixar nada de fora. Porque todos os livros que eu lia dele e foram muitos, tem livro de 900 páginas, eu lia porque eu estava estudando, mas assim quem vai ter saco para ler isso, cara? É muita coisa, sabe, muito detalhezinho.

Luciano Pires: Por que que esse livro deve ser lido?

Maurício Nunes: Cara, eu acho assim, por dois motivos, primeiro, se você é fã do Wall Disney você tem que ser livro, é meio óbvio assim, você é fã? Leia, conheça a história do cara. E segundo porque, cara, você tem que entender a história de um homem que foi simplesmente um dos maiores nomes do século passado, do século 20, e você fala assim, e esse tipo de homem, esse tipo de gente, não se faz mais, não se fabrica mais esse tipo de gente, você fala assim, não existe mais, você pegar os grandes nomes de hoje, por exemplo, você pegar os grandes nomes do século 21, seja, na indústria, seja no entretenimento, seja qualquer outra coisa, cara, não tem mais essa essência, talvez por inúmeras influências que talvez o Wall Disney na época dele não tinha e hoje a gente tem, mas você fala, não tem a mesma essência.

Luciano Pires: Você viu a coleção que eu tenho de livros sobre aventura e tudo mais, porque eu sou fascinado por esses aventureiros do século 19, principalmente século 19, pegar os caras que se enfiavam dentro do navio e se embrenhavam no meio do gelo sem saber se iam voltar para casa, o cara que ia subir o Everest lá com botina de couro, com botininha de couro. Então, tem histórias ali que você lê aquilo e fala, cara, um ser humano de hoje não sobreviveria ao que esse cara sobreviveu.

Maurício Nunes: Jamais.

Luciano Pires: Tem histórias que são assim do Ártico que você fala é impossível alguém sobreviver a isso, o que que esses caras tinham? Tinham alguma coisa ali que tem a ver com essa…

Maurício Nunes: E também a poluição do ambiente.

Luciano Pires: Era tudo muito agressivo, era tudo difícil. O Disney, não é que ele dominou uma técnica e fez muito bem, ele teve que inventar uma técnica, ele bateu em um negócio e falou, cara, isso aqui não existe.

Maurício Nunes: Não uma, ele inventou várias.

Luciano Pires: Que nem o Spielberg fez a sequência, cara, vem cá, não dá para fazer esse dinossauro, ah não dá, eu vou fazer. Ou o George Lucas, não tem como filmar isso, bom, se não tem, eu invento. E o cara vai, e ele tem que criar um caminho para ele poder mostrar. E o Disney fez isso, cara, de cima para baixo.

Maurício Nunes: Um monte de vezes, um monte de vezes assim, tanto que quando eu dei uma entrevista em um podcast, o cara me perguntou, acho que o cara estava fazendo a comparação do Elon Musk, que ele falou, mas um nome grande que a gente tem é o Elon Musk, o Disney, por exemplo, não era tão louco quanto o cara, não arriscava. Eu falei, você está doido, o Disney arriscava muito mais do que ele, porque os caras, pô, ele tira dinheiro de uma, põe na outra e pode quebrar. Eu falei, cara, mas o Disney fez isso inúmeras vezes, ele já era um cara rico, quase perdeu tudo e teve que penhorar a casa em que ele morava para fazer projetos que ele fazia, então assim, interessante é que ele sempre foi também um self made man, igual a gente cara, ele acredita naquela coisa e ele faz sozinho, não importa se alguém vai entrar com ele, não vai entrar, ele pôs na cabeça e falou, não, eu vou fazer, então assim, poxa, eu quero agora começar a colocar desenho, cara, precisa ter som sincronizado, eu vou fazer o Mickey assoviar, meu, ninguém faz isso, velho, não inventa moda, não existe isso, ninguém vai… não, mas eu quero. O cara vai e faz. Ele conseguiu. Agora eu quero fazer colorido, estranho mas tem que ter desenho… por que que não tem colorido? Você é louco, Disney, não tem sentido você querer colorir um desenho. Aí o cara vai e faz. Agora eu quero fazer um longa metragem. Meu, ninguém fica assistindo um desenho por mais de quatro minutos, ninguém vai ficar uma hora no cinema para ver um desenho animado. O cara vai e faz.  Então assim, e vai indo, e você fala assim, bicho, o cara era muito, muito além do tempo dele, então por mais que você não goste, eu vejo muita gente falar assim, na própria Toca, ah eu não gosto do Disney…

Luciano Pires: Esse capitalista, esse porco capitalista.

Maurício Nunes: Não é nem isso, o cara associa muito a figura do Disney à figura do Mickey, então ele fala assim, ah não, eu não gosto do Mickey, eu não tenho a menor vontade… cara, esquece o Mickey, o Mickey no meu livro, eu falo ele em 15 páginas, 20 páginas, acabou, depois já vai para outro assunto, então assim, esqueça isso, o Mickey foi uma das realizações, talvez obviamente a mais importante da vida dele, mas não é o resumo da vida do Wall Disney, o Wall Disney não se resume a Mickey Mouse, então assim, é mais um motivo para você ler, de repente você vai descobrir histórias desse cara, vai descobrir a vida desse cara, você vai falar, porra velho, esse cara foi fantástico, tanto que quando eu falo do Chaplin, que muitos livros não citam essa relação dos dois, eu mesmo fui descobrir isso depois de muitos anos assim lendo, e o Chaplin eu tive a oportunidade, até te falei, eu fui para inint 01:21:26 eu fui para a casa dele, fui conhecer o museu lá oficial dele, conheci pessoas ligadas ali, então assim, porra, você vai batendo e fala, caramba, cara, eu não sabia disso, você vai lendo livros, outras biografias que tem, então eles tinham uma ligação muito grande, você para para pensar, você fala, bicho, já imaginou esses dois homens, você fala assim…

Luciano Pires: Esses dois caras sentados jantando, vamos trocar uma ideia aí.

Maurício Nunes: Então, você fala… e mais interessante é que o Wall Disney era muito fã dele, porque o Disney é mais jovem, então o Wall Disney era muito fã, e o Wall Disney, como sempre foi um grande ator, ele era um bom ator, ele imitava o Chaplin quando era garoto, e ele ganhou vários concursos imitando o Chaplin, então ele era muito fã do Chaplin, e quando se conheceram, cara, foi o inverso, porque o Chaplin acabou tendo uma admiração imensa por ele e principalmente pelo Mickey, tanto que quando lançou Tempos Modernos, a exigência do Chaplin foi que todos os cinemas tinham que passar antes um curta do Mickey, ou então não liberava o filme. Então assim, tinha… quando ele fundou a United Pictures, a United Arts, que é a produtora lá de Hollywood do Chaplin, começaram a distribuir os desenhos do Wall Disney, então assim, eles tinham uma ligação muito grande, e o Chaplin sempre aliviou muito a coisa para o Wall Disney, quando teve a primeira treta que ele não queria mais ficar no estúdio, queria sair porque eles queriam tentar outros caminhos e aí tinha uma multa violenta e tal, vai o Chaplin, o dono, meu, relaxa, é o Wall Disney, está tudo certo, nunca vou querer tirar a grana desse cara, entendeu? A Branca de Neve quando ninguém acreditava nele, todo mundo dizendo que ia ser um fiasco, que ia ser uma merda, e que não sei o que, o Chaplin foi lá falar, faz, faz, que vai vingar, não esquenta a cabeça, você é o cara. Foi um coach, tipo, o Chaplin foi praticamente o coach do Wall Disney, um dos. Então porra, tem uma ligação muito grande e é o que você bem comentou, cara, você imagina esses dois homens juntos, você fala assim, bicho, esses caras viveram a mesma época, foram contemporâneos, dois gênios, você fala assim, é muito difícil hoje você encontrar gente nessa pegada, difícil, cara, não estou dizendo que é impossível, mas é muito, muito difícil.

Luciano Pires: E até porque eram gênios de mão na massa, não é um gênio só o coordenador, eu sou da grana, fiz minha grana toda com um escritório de advocacia, hoje eu sou milionário e agora vou me aventurar comprando uma televisão e eu sou o dono da televisão. Não é isso, cara, esses caras… está no sangue.

Maurício Nunes: Sabiam tudo, então você bem citou, eles sabiam tudo, então, por exemplo, o Chaplin praticamente, era até mais nesse sentido por quê? O Chaplin escrevia o roteiro, compunha a música, fazia a produção, era o ator principal, dirigia e depois distribuía, então assim, porra, fazia tudo. E o Disney a mesma coisa, ele só não desenhava mais, desenhar ele parou muito cedo porque ele nunca foi um grande desenhista, a praia dele nunca foi… ele desenhava, mas ele não era um puta desenhista, então assim tipo, quando ele viu que outras pessoas faziam aquilo também e poderia facilitar muito mais o trabalho dele. Mas ele era a cabeça por trás de tudo, absolutamente tudo, nada saía dali sem ter a digital impressa do Wall Disney ali, falar, é assim, entendeu? Tanto que o que saiu depois, quando já não tinha ele, alguns projetos que ele não meteu a mão, deu merda. Então, você fala assim, ih…

Luciano Pires: Ele era o mais louco da turma, não é, cara? Era o mais doido da turma. Eu me lembro que eu vi um documentário, ele contando… como é que chama, tem aquela… aquela montanha russa escura na Disney, tem uma montanha russa que você vai no escuro.

Maurício Nunes: Mas você está falando da de agora?

Luciano Pires: Não, na época que ele fez…

Maurício Nunes: Na época que ele fez só tinha uma, que era aquela Motor… como é que é o nome?

Luciano Pires: Não, mas tinha uma que era toda coberta, cara…

Maurício Nunes: É a única tem, é que é uma montanha, esqueci o nome agora.

Luciano Pires: É uma montanha…

Maurício Nunes: Que é uma montanha na Suíça, que ele pediu para lá.

Luciano Pires: Ele foi buscar, o cara falou, quero fazer. É impossível fazer. Não, vamos fazer. E ele monta um treco que era impossível, mas ele era o louco principal.

Maurício Nunes: É, na verdade, ele estava na Suíça, eles estavam viajando, ele e a Lilian, e ele mandou um cartão postal, é que eu esqueci o nome da montanha, ele mandou o cartão postal para o técnico lá dele de coisa e falou assim, cara, produzam isso, que já era a Weed, que era a empresa que ele tinha feito para o parque, para criar o parque, uma outra empresa. E aí ele falou, meu, quero que façam isso. E foi exatamente isso, cara, mas não vai… isso é impossível. Cara, os caras inventaram… tanto que foi a primeira desse sistema de trilho, de velocidade das cordinhas e tal, foi a primeira, foi lá. Então assim, muita coisa foi criada exatamente ali dentro da Disney, por exemplo, quando você pega os mecatrônicos, hoje é uma coisa comum, você vai em todos os parques, você tem lá, sei lá, os bonecos, Star Wars mesmo você vai lá está o Darth Vader, está lá o coisa. Cara, ele inventou essa parada, primeiro…

Luciano Pires: O Hall dos Presidentes.

Maurício Nunes: Primeiro foi com o… de parque foi o TicTicRoom, que é aquela dos pássaros que ele comprou um com a Lilian, eles estavam viajando, ele viu um daqueles lá e aí resolveu desmontar, depois tentou montar, porque ele trabalhava muito com miniaturas, ele colecionava miniaturas, ele trabalhava muito com isso, ele montou, desmontou, levou para os caras, ele falou, cara, a gente tem que fazer isso aqui, só que eu quero falando. E aí vai os técnicos dele, os famosos imagineers para fazer a parada. Mas o que falou, por exemplo, o Hall dos Presidentes, foi o Abraham Lincoln que ele criou, que foi para a feira mundial, na verdade foi um projeto que a Disney foi contratada para fazer para a feira mundial, então eles tinham lá alguns… eles estavam fazendo para… como é que fala? Para a Ford, que tinha lá de carro, depois ele estava fazendo… não sei se foi a Ford agora, eu sei que foi uma dessas de carro, depois ele estava fazendo, também fez para a Unicef, que eles fizeram o It’s Small World, e aí Chicago, Illinois, terra dele e tal, ele vendeu a ideia e falou, meu, vocês não querem entrar e tal, estou pensando em fazer um discurso do Abraham Lincoln, que era também de lá, conterrâneo dele. E aí os caras, mas como é que você vai fazer isso? É impossível. Cara, os caras criaram a porra de um robô, meu, os caras criaram, as primeiras… era cinco minutos o discurso, e começou na feira, depois foi para a Disney, porque foi um sucesso na feira levaram para a Disney, mas as pessoas que iam assistir, cara, os caras ficaram impressionados, porque a maioria não acreditava que era um boneco, é um ator, todo mundo pensava que era um ator, mas caraca, como é que um ator vai fazer, de cinco em cinco minutos o cara está aí, é o mesmo cara, puta pique que esse cara tem, e era a porra de um robô. Então assim, depois dali começou a surgir vários, então você fala, é muito a frente, meu, o cara estava muito a frente da galera assim, mas muitos anos luz na frente.

Luciano Pires: E focado em uma indústria de entretenimento, cara, que quando você olha e fala, meu, na ponta da caneta isso não é primeira necessidade, eu tenho que comer, eu tenho que me vestir, eu tenho que morar, e ele transformou isso aí em uma… não sei se não é a maior indústria do mundo hoje.

Maurício Nunes: Não, hoje é a maior.

Luciano Pires: Entretenimento de longe.

Maurício Nunes: Hoje ela é a maior até pelo conglomerado, hoje é a maior porque hoje o cara tem… você tem a Disney, você tem a Marvel, você tem as empresas George Lucas, você tem a Pixar, é tudo dos caras, então assim, hoje eles são imbatíveis.

Luciano Pires: E os games, cara, a indústria de games que é um negócio gigantesco.

Maurício Nunes: Naquela época já era grande obviamente, mas você não tinha… era só Disney mesmo, que aliás, ano que vem completa 100 anos, o primeiro centenário da Disney, o primeiro centenário.

Luciano Pires: Vai ser o centenário? Mas que festa.

Maurício Nunes: É, eles já estão bolando, os parques todos vai ter, eu não sei o que que eles vão fazer ainda nessa questão de animação e tal, porque eles têm o canal, você tem o Disney+ e tal, mas está bem caidão, as animações despencaram.

Luciano Pires: Mas cara, o mundo está mudando, e você vê, agora acabaram de trocar lá o CEO…

Maurício Nunes: Na verdade, voltou o antigo, voltou o Aiger.

Luciano Pires: Para ver se recupera as cagadas que foram feitas lá. Mas independente disso tudo aí, quando a gente pega essa história toda desse cara aqui e traz para um negócio que você mencionou lá atrás, que era uma coisa que me preocupa um monte, que gente como ele não tem mais, então já usei isso várias vezes nos podcasts aqui, se você volta 20 anos atrás ou 30 anos atrás, e eu vou te dar nome de empresas, você me devolve o nome do cara, eu falo para você assim, Tam, você vai Comandante Rolim, eu falo Cofap, você vai Brian Kasinski, então sempre tem uma figura que é um visionário que compra uma parada, ele compra uma briga, chega uma hora que a coisa para na mesa dele, ele fala, quem decide sou eu, sai da frente e eu vou fazer acontecer. E esse tipo de gente parece que não tem mais hoje, quando aparece um Elon Musk vira essa loucura que estão vivendo no mundo, que é o cara chegar e falar, quem manda aqui sou eu, eu quero, tira fora. Então, isso foi substituído pelos comitês, tem um comitê, tem 30 diretores, para você tomar uma decisão, o jurídico tem que aprovar, porque a velhinha de Nova York está de olho. Cara, vamos voltar para a conversa inicial que nós estamos tendo aqui, que a gente sentou lá atrás?

Maurício Nunes: Claro.

Luciano Pires: Você pega uma música da Beyoncé e ela tem 35 compositores, cara. Meu, o Chaplin era um, Cartola era um.

Maurício Nunes: Robert Johnson era um.

Luciano Pires: Esse cara produziu um treco que é imortal, o que que tem, como é que você consegue fazer uma produção dessa com esse… e eu acho que uma coisa que se perde, isso é uma teoria minha, que eu ilustro assim, quando você chega no Louvre em Paris e dá de cara com a Monalisa, que está na parede lá, cara, é um quadro de uma mulher sorrindo, e quadro de mulher sorrindo tem milhões no mundo.

Maurício Nunes: Inclusive no Louvre, o que mais tem, e pelada ainda.

Luciano Pires: Mas você para na frente daquele negócio e você fica hipnotizado por aquilo, o que que tem ali? Eu tenho uma tese que é a seguinte, o artista quando pinta aquilo, ele transfere a energia dele para aquela pintura e essa energia para o resto da vida, ela vai capturar você, entendeu? Então, você vai bater o olho naquilo e falar, algo existe aqui. Eu vivi uma experiência interessante, por que que quando eu fui assistir Caubi Peixoto cantando Bastidores em um show aqui em São Paulo, eu chorei que nem um destrambelhado, e eu já vi um monte de gente cantar Bastidores e eu não choro, por que com o Caubi eu chorei? Por que que a Monalisa me prende, por que que eu olho o filme do Chaplin e eu não consigo me desgrudar daquilo?

Maurício Nunes: Por que você chora quando toca uma música, por exemplo, pode ser do Bruce ou de qualquer cara, você não entende a letra e você chora, te toca?

Luciano Pires: O que que vem?

Maurício Nunes: Você fala, cara, não sei o que ele está falando, mas é tão lindo.

Luciano Pires: Para mim há alguma coisa do artista passa ali, ele transfere aquilo para lá. Quando você põe 12 caras fazendo, 12 caras criando, um se dissipa, cara, não tem a digital de ninguém ali, sabe? Eles tentaram fazer a digital da empresa, vai ter a digital da empresa, mas cara, não é a mesma coisa. Então, acho que isso se perde, isso tem a ver com o aventureiro que vai lá se matar no fim do mundo.

Maurício Nunes: É, eu acho que… a gente teve agora nos 30 anos da Disney lá em Paris, e assim, a primeira vez que eu fui na Disneylândia de Paris, cara, eu achei o show do castelo, das projeções mapeadas e tal, eu sempre comentei com um monte de gente, eu falei, cara, para mim foi o show mais bonito que eu já fui, já fui em todos os parques e esse para mim foi o mais bonito, por quê? Primeiro eles tinham… isso foi há uns 10 anos atrás, eu falei, primeiro porque eles mantiveram a figura do Wall Disney e do Roy Disney no show, que é uma coisa não muito comum, antigamente era mais, hoje não é muito comum, tanto que no show dos 50 anos agora do Magic Kingdom, eu não cheguei a assistir, eu não estive lá, mas as pessoas que foram e eu vi depois também pela internet, tiveram que mudar o show agora recentemente porque não tinha a imagem deles, então eu falei, caralho, não tem a imagem do que Roy Disney, do cara que fez o parque, não tem a imagem dele? Não tinha. Aí beleza, esse aí eu elogiei, que eu falei, tem o Peter Pan, tem o Pinocchio, ah que legal as músicas, fiquei emocionado. Aí eu fui no de 30 anos, falei, de 30 anos agora vai ser foda. Cara, aí eles gravaram umas músicas novas lá, porque eles fizeram agora, a tecnologia está sempre avançada, os caras fizeram o primeiro show com drones, então você tem o castelo e uns drones coordenados, a coisa mais linda do mundo, então eles fazem a figura do Mickey, um monte de drone. Até aí ok, é lindo, é muito técnico, é igual você está falando da Beyoncé, cara, tem muita gente envolvida e tal, mas não tem o principal, em nenhum momento cai uma lágrima do seu olho, você está vendo tudo aquilo e não emociona. Aí a minha namorada que também é bastante sensível, trabalha também com muita coisa, falou, sabe o que falta, cara? Emoção. Ela falou, não tem, você pode reparar que a música… eles gravaram no Aber Road com uma puta orquestra, cara, a música é chata para caralho, chata, você não vê a hora de acabar a música, você fala assim, não vai acabar essa música? Porque é chata. Aí acaba a música, entra a música do Frozen, a Let it Go, que é uma puta música e tem alma, aquela cantora, que é a menina do Rent e tal, que hoje está bombando, aquela mulher é espetacular, você vê aquela mulher no teatro, você fala assim, meu, ela está ao vivo todos os dias no teatro, é a voz dela e é só no andar de cima. E aí essa música tem, porque ela tem… como é que fala? Ela tem dinâmica, ela começa, ela conta a história, depois já sobe para caramba a voz, é lindo.

Luciano Pires: Tem um swing, eu acabei de gravar um programa sobre samba, e a gente estava comentando lá, e a gente começa, eles vão mostrando os instrumentos, e logo no começo do programa, ele começa, olha, lá vem o surdo, que vai… ele vai mimetizar o teu coração, tum tum, tum tum, tum tum, e agora vem aqui o reco reco, tchec tchec tchec. E aí eu viro para o cara e falo, tudo bem, até agora eu estou gostando, mas isso aí uma máquina faz, se eu botar em uma máquina, ela faz o surdo fazer tum dum. Ele falou, faz, cara, mas vão ser todas as batidas iguais, não tem swing…

Maurício Nunes: E detalhe, a máquina não tem coração, ele tem.

Luciano Pires: Não tem swing, não tem a jogada, não tem esse lance todo de conforme eu estou aqui animado ou não, o meu tum tum muda, e essa coisa toda que passa…

Maurício Nunes: Mas eu acho que é o lance, então, é o lance da emoção mesmo, porque se você for parar para pensar, você fala assim, bom, beleza, tanto a música do Frozen lá, está tocando em playback, óbvio, a original, quanto a música que eles fizeram da orquestra, gravada no Aber Road, então assim, porra velho, tem muita mão de gente fudida, de engenheiros, tecnicamente é impecável. Por que que uma tem uma puta emoção e a outra não? Exatamente, porque uma tem alma, é igual você pegar as animações de antigamente, eu até comentei com você e indico para a galera aí, a Netflix lançou o Pinocchio do Guillermo del Toro, que é simplesmente assim, para mim o melhor filme do ano disparado assim, disparado, e a animação em stop motion é a melhor da história, sem sombra de dúvida assim, batendo em várias outras que eu sou apaixonado. Por quê? Cara, tem alma, é muito sensível, é muito forte, cara, é denso o negócio, de você falar assim, meu tem história… aí você pega a mesma história, evidentemente por uma outra visão, lançaram na Disney lá com o Tom Hanks tentaram fazer um remake do Pinocchio de 1940, que é a maior obra prima da Disney, cara, é um fiasco, é ruim do começo ao fim, tudo é ruim, tudo é ruim, o elenco é ruim, o roteiro é ruim, ah mas tem o Tom Hanks, o Tom Hanks também, vamos com calma, entendeu? Ele é um puta ator, ele é, mas ele já fez muita asneira também, já fez muita coisa ruim, você pega aquele A Viagem, Jesus, o que que é aquilo? Você pega ele fazendo o Robert Langdon lá da série do Dan Brown, cara, não é para o Tom Hanks aquilo, alguém tinha que chegar e falar, amigão, não vai rolar, não é para você, você é muito bom ator, mas tem coisas que… é tipo você pegar o Stallone e mandar ele fazer, de repente, um personagem do Woody Allen ou vice-versa, o Woody Allen para fazer Rambo 6, Rambo 7, não tem cara, por mais que são bons atores na coisa que fazem, você tem que ter um feeling, então você fala assim, puta, não é, ali não vingou. Então, você percebe a diferença, fala, o do Guilhermo, ele levou anos, acho que 10 ou 12 anos para fazer o filme, e você tem que tem a digital dele em tudo, tem um diretor, tem um homem ali por trás.

Luciano Pires: Mas a tecnologia está a serviço da história, e acho que aí que é o grande lance do Disney, cara, toda a tecnologia estava a serviço de contar uma história.

Maurício Nunes: Não o inverso.

Luciano Pires: Isso, a história… sabe o que que é o inverso? Vingadores, isso é o inverso, você entra no cinema, cara, e você mede o sucesso do filme pela quantidade de porrada, tiro, porrada e bomba que tem lá.

Maurício Nunes: É um vídeo game gigante.

Luciano Pires: Quando termina fala, caralho…

Maurício Nunes: Eu acho esses filmes da Marvel assim, com todo o respeito a quem gosta, cara, para mim é um vídeo game onde você não joga, você assiste, é um vídeo game que você está assistindo ali.

Luciano Pires: Aí você pega o Batman e entrega para o Nolan.

Maurício Nunes: Aí é conversa de gente grande.

Luciano Pires: Vira referência filosófica, passa a fazer filosofia com o próprio Batman. Enquanto os Batmans eram caricaturas, brincadeirinha.

Maurício Nunes: Mesmo o do Tim Burton, que foi o primeiro, que foi o que inaugurou tudo isso, mas tudo bem, puxou para o lado da caricatura, do cartoon, do quadrinho, mas era a proposta.

Luciano Pires: Ficou sombrio e tudo mais, quando você bota o Nolan, tem filosofia, cara.

Maurício Nunes: Acabou, é outra história. Tanto que você pega o vilão do Heath Ledger, o Coringa, por mais que é um personagem de quadrinho, um personagem caricato com aquela máscara, cara, ele é verossímil, você fala, qual é a dificuldade de existir um cara assim, poderia existir perfeitamente um sujeito desse, um terrorista dessa proporção, entendeu? Ele não é caricato como era o do Jackson Nicholson, então assim…

Luciano Pires: Ai meu caro, dá para a gente ficar aqui muitas horas trocando uma ideia aqui, falando, mas eu sou da tese de que podcast tem que durar uma hora e meia se não enche o saco de todo mundo, e eu prefiro que a gente volte aqui para continuar essa conversa em outra.

Maurício Nunes: Ninguém aguenta.

Luciano Pires: Vem cá, o livro então, se eu quiser o livro hoje, como é que eu consigo?

Maurício Nunes: Editora Zelig, www.editorazelig.com.br.

Luciano Pires: E se você puder achar o filme Zelig, assista, porque…

Maurício Nunes: É homenagem a ele mesmo, a minha editora é uma homenagem ao Woody Allen.

Luciano Pires: É o Woody de raiz, brabo, bom para cacete.

Maurício Nunes: É a minha paixão, apesar de eu não ter tido tanta sorte quando eu o conheci, ele não foi tão bacana quanto foi o Bruce, quanto foi…

Luciano Pires: Ah, você contou uma história uma vez, ele foi meio escroto, não é?

Maurício Nunes: Foi, mas tudo bem, mas eu entendi porque assim, cara, ele é um velhinho, bicho, ele é muito velhinho, então eu entendi, ele tem 87 anos, ele é fragilzinho, ele é um vovô, então assim, ele não foi nada simpático, mas também não foi grosseiro, mas não foi nada simpático, nada, tipo, e assim era um lugar tipo, porra, que ele poderia muito bem estar falando, que eu não estava incomodando ele, não é um cara que você pega no aeroporto ou pega em algum lugar para encher o saco, não, cara, era um show de jazz dele, acabou o show de jazz, ele desmontou o instrumental, saiu, eu era o primeiro ali da… que é um show reservado, são poucas pessoas, 60, 70 pessoas, eu fui falar, fui dar o livro, fui dar o Sexo e Cinema, que eu dediquei para ele, aí fui dar o livro, ele, não, me segue aí, me segue, vem cá, aí eu fui lá, tipo, ele entrou em uma porta, fechou a porta, tchau, tipo, nunca mais saiu, eu ia ficar até hoje esperando. Aí tinha um pessoal, obviamente estava lá e tal, o cara falou, meu, fica tranquilo, ele é assim com todo mundo, não pensa que foi pessoal. Eu falei, não, nem ligo para isso aí, eu estou de boa, fico chateado, porque eu falei, ele podia pelo menos pegar o livro e joga fora, foda-se, entra no camarim lá, joga no lixo, lava a mão, porque ele é todo… passa álcool, passa coisa, que ele é todo assustado com isso. Mas eu continuo amando de paixão, acho ele disparado o maior diretor ainda na atualidade, dos grandes diretores vivos, para mim ele ainda é o meu favorito, porque você tem outros aí, você citou o Chaplin, tem o Kubrick, tem muita gente aí que eu admiro, mas ele é… só que assim, lógico que triste a gente fica, falei, porra, Woody Allen, você podia pelo menos ser mais bonzinho.

Luciano Pires: Então, vamos lá, o nome do livro é A Árvore dos Sonhos, a vida e obra de Wall Disney, pela Editora Zelig, Zelig Editora. Deve ter poucos, então, corra para comprar, porque a hora que acabar, ele já falou que não faz mais.

Maurício Nunes: É, saiu agora, não, não vai ter mais, por exemplo, saiu agora, então se é recente é óbvio que a gente ainda tem livro, mas assim, cara, eu acredito que, sei lá, daqui a uns três meses já era. E assim, provavelmente a gente também não vai fazer outro, porque é caro, o custo e bem alto, então assim, não dá para fazer, entendeu? Aliás, eu devo livro, só para finalizar e agradecer, esse livro foi feito pela Benfeitoria, aqueles crowdfund e tal, e eu devo para a galera da Toca do Lobo, foram os seguidores ali da Toca, eles que bancaram esse livro.

Luciano Pires: Então, a recomendação também é você entrar no Facebook, a Toca do Lobo no Facebook, tem uns posts lá que são muito legais, uma baita de uma… sempre tem uma provocação, tem uma crítica legal ali e vale a pena seguir, cara, é um dos poucos que eu sigo lá, e que dá prazer a gente ver.

Maurício Nunes: Me sinto honrado.

Luciano Pires: Meu caro, faltou um mundo de coisa aqui, mas já deu…

Maurício Nunes: Nós temos que fazer a parte 2.

Luciano Pires: Nós temos que almoçar, a gente falando aí, grande prazer tê-lo aqui, viu? Um abraço.

Maurício Nunes: Boa, valeu, tchau tchau.

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast, a transcrição deste programa você encontra no LíderCast.com.br.