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Luciano Pires -

Luciano Pires: A gente… não sei se foi pelo Instagram…

Bruno Scartozzone: Pelo LinkedIn.

Luciano Pires: Pelo LinkedIn, e ele falou uma palavra mágica lá, a hora que ele estava conversando ali, ele mandou uma mensagem qualquer, Luciano, curto você… trabalho com storytelling, quando ele falou isso, eu, cara, eu falei, isso aí é a minha praia, a vida inteira trabalhei com isso. Eu falei, que legal, gostei dessa tua ideia aí, vamos trocar uma ideia a hora que puder, aí ficamos ensaiando, de repente estamos presentes aqui, então vamos em frente. O LíderCast começa com três perguntas que são fundamentais, essas você não pode errar, o resto você chuta à vontade, que é o seu nome, a sua idade e o que que você faz.

Bruno Scartozzone: Meu nome é Bruno, tenho 42 anos e sou um especialista em storytelling.

Luciano Pires: Especialista em storytelling, um contador de história.

Bruno Scartozzone: Basicamente isso.

Luciano Pires: É, que legal, cara. Deixa eu te contar porque que eu tenho essa fascinação, nos anos 90, eu fanaticamente era leitor de uma revista chamada Fast Company, que existe até hoje, e a Fast Company, ela sempre… ela funcionou assim cinco anos a frente do mercado, e uma vez eu li nela um artigo falando sobre digital storytelling, e eles apresentaram um cara lá chamado Dana Atiley, era o nome dele, e esse cara é considerado o pai do digital storytelling no mundo, e eles escreviam como é que funcionava. Então, o cara descreve a primeira vez que ele viu, ele foi em um evento, e o Dana entrou, e tinha uma tela de televisão, imagina, uma tela plana em 1990 e alguma coisa, era uma tela plana grandona, onde tinha a imagem se uma fogueira, aquela fogueira estava assim e ficava o filme barulhinho da fogueira no fundo. E ele entra, senta em uma cadeira, pega o microfone e começa a contar uma história para a plateia, e ali o cara vai explicando como é que ele aproveitou a digitalização que começava naquela época para enriquecer a experiência, então ele fez, montou seminário, o cara fez o diabo, então tinha… e eu sonhava, cara, em ir para os Estados Unidos e em um seminário do Dana Atiley, mas ele morreu no ano 2000, acabou morrendo, não continuou, mas eu guardei essa história e passei a adotar para mim uma porrada de coisas ligadas com o mundo do storytelling. Isso é o storytelling…

Bruno Scartozzone: Eu diria que você cria cenas na cabeça das pessoas.

Luciano Pires: Exatamente, e o áudio para fazer isso é uma coisa fabulosa, porque eu nunca sei que cena que a pessoa criou, eu estou descrevendo para ela uma situação, e o Zé imagina de um jeito, o Paulo do outro, a Maria de outro, e aí dá a riqueza do… eu costumo dizer que é isso que faz com que o ouvinte do podcast se sinta proprietário do programa, coisa que o vídeo não tem, quando você assiste um vídeo no YouTube está tudo resolvido no vídeo lá, no podcast não, cara, eu só te dei uma… eu descrevi e a tua cabeça que vai montar, tanto que eu brinco no Café Brasil, eu falo, o programa é feito por quatro pessoas, eu, Lala, Ciça e você, é na tua cabeça, que é uma tela, que eu vou jogar tinta e você que vai pintar ali. Então, essa introdução aqui é para explicar para você porque que você me atraiu com essa história do storytelling. Você nasceu onde?

Bruno Scartozzone: Eu nasci aqui em São Paulo mesmo.

Luciano Pires: Paulista mesmo, da gema?

Bruno Scartozzone: Paulistano.

Luciano Pires: Mas você não mora aqui hoje?

Bruno Scartozzone: Não, eu moro em Brasília, faz 10 anos que eu moro em Brasília.

Luciano Pires: Você tem irmãos?

Bruno Scartozzone: Não, sou filho único mimado.

Luciano Pires: Filho único dos mimados. O que que o seu pai e a sua mãe faziam?

Bruno Scartozzone: Meu pai era geólogo, já faleceu, e minha mãe dona de casa.

Luciano Pires: Então, não tinha ninguém voltado para o storytelling?

Bruno Scartozzone: Mais ou menos, meu pai sempre foi um fã de cinema, muito fã, tanto que as primeiras coisas que eu lembro com ele e as últimas também, é a gente vendo filme juntos, e com sete anos de idade ele me levou pela primeira vez no cinema para ver um filme…

Luciano Pires: Que filme?

Bruno Scartozzone: Então, era um filme horrível, que foi o live action do He-Man.

Luciano Pires: Live action do He-Man.

Bruno Scartozzone: Pois é, eu tinha sete anos, acho que era 1987, e dizem que até os 15 anos a gente tende a gostar de qualquer porcaria, e eu lembro de ter saído do cinema decepcionado, para ver o nível de ruim que era esse filme. Mas ainda bem que um ano depois meu pai me levou de novo no cinema, e aí sim foi uma experiência que mudou a minha vida, eu fui ver Império do Sol do Steven Spielberg, que é um filme, gente, vejam bem, nenhuma criança de oito anos deveria assistir esse filme, é um filme pesado sobre a segunda guerra, que envolve uma criança se perder dos pais, enfim…

Luciano Pires: Christian Bale criancinha.

Bruno Scartozzone: Exatamente, que depois virou o Batman. Mas aquele filme mudou minha vida, porque eu fiquei umas três noites sem dormir, foi traumático por um lado, mas ao mesmo tempo me deixou encantado por aquela mídia. E aí eu virei um cara que gostou muito de cinema, essa experiência fez com que eu me tornasse aquele cara que, sabe, vai na locadora e fica pegando os filmes antigos, quer dizer, isso nem existe mais hoje em dia, mas eu era aquele cara que ia na locadora e pegava os filmes antigos, que começava a tentar entender a história do cinema e tal. E aí eu fui estudar um negócio também que não tinha nada a ver com isso, me formei em administração pública…

Luciano Pires: Como era o teu apelido quando você era criança?

Bruno Scartozzone: Sempre aumentativos ou diminutivos do meu nome, Brunão, Bruninho, nunca tive um apelido.

Luciano Pires: O que que o Bruninho queria ser quando crescesse, antes de mergulhar nisso que você faz hoje?

Bruno Scartozzone: Eu falava que eu queria ser experimentador da fábrica de Coca-Cola, tipo um sommelier de Coca-Cola. E eu sou apaixonado por Coca até hoje.

Luciano Pires: Mas aí você cresceu, foi estudar, para que caminho você foi?

Bruno Scartozzone: Eu fui fazer administração pública, aí eu cuidei trainee de multinacional, aí enfim, essa é uma história legal de contar até, eu estava há um ano e meio na empresa e tal, eu tinha sacado que não era o que eu queria fazer da vida, mas enfim, quando você tem vinte e poucos anos, você, sei lá, você continua fazendo…

Luciano Pires: Topa qualquer parada.

Bruno Scartozzone: Topa qualquer parada. E um dia eu fui convidado para uma reunião com meu chefe, eu estava super desanimado, o que que eu pensei? Bom, estou desanimado, fui convidado para uma reunião, vou ser mandado embora obviamente, alguém percebeu que eu estou desanimado. Só que eu chego lá e o meu chefe na época fala assim, Bruno, gosto muito do seu trabalho, e tal, na verdade, eu quero te promover, só que você vai precisar mudar de cidade. E eu não queria nem continuar lá, e muito menos mudar de cidade na época. E aí eu pensei rápido, e falei assim, não, na verdade, eu quero me demitir. E o meu chefe pulou na cadeira assim, falou, como assim, estou te dando uma promoção e tal. Eu falei, não, não, eu vou me demitir. Me demiti. Não sabia o que fazer da vida e aí…

Luciano Pires: Só sabia que você não queria ficar lá.

Bruno Scartozzone: Só sabia que eu não queria ficar lá. E uma amiga que trabalhava em uma agência de publicidade, sabia que eu estava procurando emprego, ela me liga e fala assim, olha, tem uma vaga aqui, você não quer tentar? Daí eu falei, você está doida, eu não tenho ideia do que acontece em uma agência de publicidade. Então, ela falou, não, você é um cara criativo e tal, acho que você tem o perfil, vem aí, você não está fazendo nada, não custa nada. E eu fui, passei por três entrevistas e no final falaram, você começa semana que vem. E foi assim que eu comecei a entrar nesse mundo da comunicação.

Luciano Pires: Mas a função era o que?

Bruno Scartozzone: Eu fazia planejamento.

Luciano Pires: Planejamento?

Bruno Scartozzone: É, planejamento, para quem não é do mundo da publicidade, digamos assim que é o lado racional da criação, é a área que lida com pesquisa, com dados e tenta transformar isso em alguma coisa, em um caminho criativo, para aí sim o pessoal da criação fazer peças, escrever textos, escrever roteiros, sei lá, slogans, jingles etc e tal. Então, eu entrei como esse cara que fazia o meio campo entre os negócios e a criação, gostei muito do que eu fazia, aí sim eu tive essa impressão que assim, legal, me achei, e o Steve Jobs falava que quando você olha para trás, você vê como os pontos se conectam. E aí assim, eu realmente sempre fiz isso quando criança, eu gostava de… como é que eu vou dizer? Eu gostava de fazer revistinhas, mas eu perdia mais tempo fazendo as propagandas de empresas imaginárias, do que fazendo o conteúdo da revista. Eu curtia essa coisa, e aí depois de uns anos trabalhando em agência, eu fui percebendo que aquelas campanhas, eventos, conteúdos, enfim, tudo o que a gente fazia que tinha uma história por trás, que tinha algum tipo de contexto, por algum motivo funcionava melhor. E aí eu fui resgatar esse meu interesse pelo cinema, e um dia eu pensei assim, bom, eu vou estudar esse negócio, eu vou estudar como é que os roteiristas escrevem um filme para ver se dá para trazer isso aqui para o meu mundo da comunicação, e foi assim que eu comecei a me embrenhar nesse mundo do storytelling.

Luciano Pires: Mas você olhou nisso como uma ferramenta para o teu trabalho ou você teve uma intenção de, cara, vou mergulhar nesse mundo para me transformar em um mentor, em um professor, isso vai ser uma carreira, como é que você viu isso?

Bruno Scartozzone: Não, em um primeiro momento eu acho que era só uma ferramenta mesmo, mas só para contextualizar, esse primeiro momento foi ali em torno de 2006, mais ou menos, era um assunto ainda muito incipiente no Brasil e fora do Brasil, talvez tenha sido mais ou menos a época ali que você leu o artigo da Fast Company, não, até antes.

Luciano Pires: Não, o meu artigo foi nos anos 90, cara, isso foi em 96, 97.

Bruno Scartozzone: Então, mas quase não se falava disso. E aí eu tive uma primeira experiência que foi muito legal, que foi fazer uma peça de teatro para uma… em um evento interno de uma empresa, então era um evento interno para 300 pessoas, ali para a média e alta gerência, mais ou menos, e o cliente abordou a gente mais ou menos assim, olha, eu sei que chegar lá e ficar fazendo um monte de apresentação de PowerPoint é chato, você consegue transformar tudo isso aqui em uma peça, em alguma coisa que seja mais entretenimento do que informacional? E eu peguei esse desafio, a gente escreveu uma peça do zero, a gente contratou atores, obviamente eu não fui diretor de cena, porque eu não entendo nada disso, mas a gente contratou um diretor de cena também, e aí a peça foi encenada e foi um baita sucesso. Inclusive, aconteceu um fenômeno muito interessante assim, o cliente queria que a peça fosse toda entrecortada por momentos chatos, então assim, acontecia a cena da peça, pausava, aí vinha uma apresentação de PowerPoint, depois a peça continuava e assim ia. Durante a peça era um silêncio absoluto, todo mundo querendo saber o que ia acontecer, chegava lá o cara do PowerPoint, as pessoas iam tomar café, iam no banheiro, iam fofocar, sei lá. E quando eu vi isso acontecendo, eu pensei assim, entendi, a peça é como se fosse a novela…

Luciano Pires: O coisa é o comercial.

Bruno Scartozzone: O coisa é o comercial. Então, esse primeiro projeto me acendeu uma luz, eu falei assim, isso é muito legal, na verdade, eu estou sendo um roteirista, um escritor aqui, eu estou fazendo um outro tipo de trabalho. E aí eu comecei a focar cada vez mais nisso, como eu fui um dos pioneiros assim, nessa época tinham, sei lá, três, quatro pessoas falando desse assunto no Brasil, e aí eu acho que o caminho de me tornar um especialista nisso e fazer minha vida nisso foi sendo natural, exatamente.

Luciano Pires: Deixa eu fazer, vamos fazer uma volta aqui para aproveitar esse gancho que você me deu. Você lembra quando teve a Copa do Mundo na África no Sul? Da bola, a Jabulani, os caras botaram uma bola de futebol tecnologicamente evoluída, e aí a turma começou a reclamar, o goleiro, essa merda dá volta no ar, ela vira, ela quica no chão, é uma merda, os caras começaram a reclamar, todo mundo reclamava da bola, é um balão, você chuta ela vai para cima, é um horror a bola. Foram fazer uma entrevista com o Rivelino, Rivelino, o que que você achou da Jabulani? O Rivelino falou, cara, eu ponho onde eu quero, eu boto ela onde eu quiser. Essa foi a resposta dele. Ele falou, cara, bola é bola, cara, o negócio é a habilidade para você lidar com ela. Por que que eu estou usando esse exemplo aí? Você falou um negócio que é meio que um paradigma de mercado, a hora do PowerPoint é chato, o PowerPoint já morreu, tem cara que proibiu, isso está proibido, o PowerPoint, como se o martelo fosse o culpado pela batida que deu no teu dedo, cara, eu sou palestrante há 30 anos, a minha palestra de maior sucesso é O Meu Everest, cara, são duas horas de PowerPoint e termina e o pessoal não viu que passou, cara, eu seguro a turma lá na maior com duas horas de PowerPoint, o problema não é o PowerPoint, aquela é só a ferramenta, se o cara que vai usar é ruim, aí não tem o que fazer, então quando você pega um cara bom que sabe lidar com aquilo, cara, o PowerPoint é um instrumento maravilhoso, mas acabou se criando um paradigma, as pessoas não sabem usar, não sabem contar uma história, bota esses PowerPoint horroroso na parede e conta uma história terrível, aquilo é muito ruim, de cada dez caras que você vê, tem um bom e nove ruim, ou seja, o mercado passa a dizer que o problema é o PowerPoint, é a ferramenta, não é o processo.

Bruno Scartozzone: Exatamente, agora sabe qual é o maior problema? É que assim, alguém, por exemplo, vamos supor que você está trabalhando em uma empresa e o seu chefe bate na sua porta e fala assim, Luciano, tem uma apresentação para daqui a três dias. Como é que 99% das pessoas agem? Elas abrem o computador, aí tem lá aquele retângulo branco na frente delas, e elas saem copiando e colando e fazendo um monte de bullet points ali e tal, enfim, embelezando o raio do PowerPoint da melhor maneira possível. Aí as pessoas gastam 80% do tempo com isso, quando falta 20% do tempo para o dia D, aí que elas vão pensar o principal, que é assim, mas o que que eu vou falar? Uma apresentação é um monte de coisas, é a sua presença física, é o seu olhar, é o seu gestual, é o seu tom de voz, são as ideias que você escolhe falar, é o jeito que você escolhe falar, e é também o seu apoio visual, que é o PowerPoint, que é uma ferramenta, é uma ferramenta incrível, eu também sempre uso PowerPoint em aula, em palestra e tal. Agora as pessoas não podem começar pela ferramenta, ninguém começa a construir uma casa martelando coisas, as pessoas começam a construir uma casa pelo projeto. Agora, se a gente for pensar bem, por que que as pessoas gastam tanto tempo no PowerPoint? Porque no  fundo, as pessoas sentem um certo desconforto de falar em público, tem pesquisas que mostram que o segundo maior medo das pessoas é falar em público, para você isso é uma coisa normal, você faz há muito tempo, para mim, eu também aprendi a fazer há muito tempo, mas é desconfortável para a maioria das pessoas, e aí no fundo o sonho inconsciente, eu acho que de quem fala em público, quem faz isso não profissionalmente, é que talvez as pessoas adorariam se esconder atrás do PowerPoint, se possível o público só olharia para a tela e nem veria ninguém. Hoje em dia eu treino muita gente para fazer isso, eu e meu sócio a gente acabou de treinar, por exemplo, duas pessoas para falarem no SXSW, no evento lá de inovação em Austin, foi muito legal. E a gente começa o nosso processo justamente com essa pergunta, onde você quer chegar? Depois, o que que você quer falar? E aí o PowerPoint é só a última coisa, não a primeira.

Luciano Pires: É a tradução daquilo. E eu acho que o pessoal usa o PowerPoint como uma muleta, sabe? É porque com aquele PowerPoint as coisas se materializam, você vai materializando aquilo tudo, e trabalhar com o não material, que é as ideias na cabeça é desconfortável, cara, é um negócio meio complicado, é exatamente como um roteiro de cinema, cara, agora eu preciso ter um momento de introspecção, agora eu preciso ter um momento de indignação, qual é o clima, que clima vai ser criado aqui? É a mesma coisa, estou contando uma história e estou carregando você comigo, como é que eu pego na sua mão e te emociono?

Bruno Scartozzone: Exatamente, você falou a palavra chave, Luciano, emocionar. Eu sempre falo para os meus alunos que tudo o que um diretor de cinema ou um roteirista, ou um escritor, tudo o que ele quer que aconteça com o público é… ele quer emocionar o público o tempo todo, cada cena, cada diálogo, cada trilha sonora é colocada lá com esse objetivo. E tem vários estudos da neurociência, psicologia que mostram que emoção é igual a atenção e memória, as pessoas prestam atenção em coisas que emocionam, e as pessoas gravam coisas que emocionam, e aí uma loucura você ver, por exemplo, empresas fazendo discursos ou para dentro, ou para fora, tanto faz, mas que não causam nenhum sentimento nas pessoas, porque aí ninguém vai se lembrar e ninguém vai prestar atenção.

Luciano Pires: Eu tenho uma palestra minha que chama-se A Fórmula da Inovação, onde eu falo a respeito dessa coisa de você inovar, lá no final, eu boto uma pergunta, o pessoal pergunta, Luciano, como é que você faz para fazer uma palestra que a pessoa queira assistir, um livro que ela queira ler, um podcast que ela queira ouvir? E eu falo assim, cara, eu uso céus. Como assim céus? Céus, céus. Mas esse céu? Não é o céu lá em cima, é um céu fui eu que inventei, eu quero saber céus é C de criativo, E de excepcional, U de único e S de sensorial, quando eu passo por esse filtro aí, eu acabo falando, cara, aqui tem que entrar uma piada, aqui eu preciso de um exemplo do dia a dia, aqui eu preciso de uma coisa que… algo que motivou as pessoas, algo que abalou todo mundo, e essas coisas vão construindo, quando eu termino o cara fala, meu, o cara, não me deixou parar quieto um segundo, quando eu dei um risada, quando eu fui ver eu estava preocupado porque eu ri de uma coisa que eu pensei que era uma piada, teve um nó no meio do caminho, e aquela piada virou uma coisa muito séria, só que eu estava rindo, enquanto eu estava desarmado o cara entrou e enfiou a mão no meu coração e acertou lá. Então, é alguma jogada que a gente tem para incutir essa coisa da emoção no dia a dia. Como é que você transformou isso em um produto, cara, o teu conhecimento em storytelling virou um produto?

Bruno Scartozzone: Nossa, ótima pergunta, na verdade, são vários produtos, bom, o primeiro produto que eu consegui transformar aí ao longo dessa jornada, foi ser um roteirista especializado em emoção, que é uma coisa que muita gente fazia de forma intuitiva na publicidade, eu não posso falar que a publicidade não usava storytelling antes de mim, claro que usava, mas era de uma maneira intuitiva, você pegava algumas pessoas ali, que eram muito geniais e que sacavam isso, por exemplo, Washington Olivetto é um grande storyteller…

Luciano Pires: Primeiro sutiã.

Bruno Scartozzone: Eu sempre brinco com os meus alunos que a estrutura do primeiro sutiã, na verdade, é a mesma estrutura do Harry Potter, o primeiro sutiã é sobre uma pessoa jovem lutando contra as dores do crescimento, a mesma estrutura do Harry Potter, a mesma história, só que você troca ali a varinha pelo sutiã. Então…

Luciano Pires: Ontem eu publiquei um post com aquele os garotos do bombom garoto, você lembra dessa propaganda?

Bruno Scartozzone: Lembro, lembro.

Luciano Pires: Cara, ontem eu peguei, olhei, é absolutamente genial, é um tesão a propaganda, é a criançada novinha começando a se despertar sexualmente com aquelas mulheres maravilhosas, meninas lindas que passam ali, e é de um tempo que não existe mais, aquilo hoje em dia seria… o Olivetto seria taxado de pedófilo para cima, mas aí quando você olha para aquilo, você fala, é absolutamente genial, quem nunca, quem de nós não viveu uma situação como aquela, que ele descreveu ali, você se vê ali.

Bruno Scartozzone: É, e no primeiro sutiã também, se você assistir hoje, seria uma propaganda atacada tanto pela direita, quanto pela esquerda, pela direita porque tem uma sensualização ali de uma criança, pedofilia, um problema, e pela esquerda também porque no final, a cena que mostra que a menina se transformou em uma mulher, é quando ela é meio assediada na rua, então enfim, mas os tempos são outros. Então, a primeira coisa que eu comecei a fazer foi me tornar um roteirista que pensa de uma maneira estruturada nesse tipo de coisa, aí eu comecei a ser convidado, Bruno, vem aqui dar uma palestra para a gente sobre isso, faz um curso, não sei o que, e foi aí que eu me tornei professor, que é uma coisa que eu nunca tinha imaginado fazer na vida, e hoje é uma parte importante da minha vida, eu passo, sei lá, pelo menos um terço do meu tempo dando aula, fazendo palestra e sou apaixonado por isso e é muito legal. E mais recentemente, o que que aconteceu? Eu comecei a perceber que o interesse em relação ao storytelling foi se expandindo muito, então o que dez anos atrás era só um interesse do mundo do marketing, da publicidade etc, agora, por exemplo, outras áreas de empresas começam a se interessar por isso também, então eu comecei a ser chamado pela área, sei lá, de finanças, de logística, áreas muito mais técnicas, médicos começaram a me contratar porque eles queriam aprender a se comunicar de uma maneira mais interessante, envolvente, menos técnica. E aí nasceu uma empresa que eu tenho com o meu sócio, Paulo Ferreira, o nome da empresa é Story Talks, e é uma empresa fundada por um especialista em storytelling, que sou eu, e um preparador de palestrantes do Ted, que é o Paulo Ferreira, enfim, ele já tinha essa carreira, o que a gente fez foi juntar essas coisas, técnicas Ted com técnicas de storytelling, e hoje a gente além de fazer todas essas coisas, cursos, roteiro etc, a gente também faz muita mentoria, então executivos que precisam falar de um jeito mais interessante ou passar seu conteúdo de um jeito mais envolvente, a gente trabalha muito com esse tipo de cliente também.

Luciano Pires: Em todo lugar isso cabe, quando você vê o Lula inventando uma história de uma caneta que ele vai assinar o treco usando uma caneta que no fim a caneta não é aquela, o que que ele está fazendo lá, cara? Aquilo é puro storytelling, eu vou te contar uma historinha para você ficar e aí as pessoas entendem, quando vem o Paulo Guedes e faz aqueles exemplos dele contando a história da formiga da bunda vermelha e tudo mais, aquilo é um tremendo do storytelling, ele conta uma história para chegar em um ponto. E aí quando você pega um técnico e o cara vem no ponto direto, o cara aqui não tem graça nenhuma, além das pessoas não entenderem… quando o Lula fala de picanha, isso é storytelling, ele transforma toda a proposta dele, não sei se tem, se não tem, não me importa, quando ele transforma aquilo em picanha, aquilo automaticamente ganhou todo mundo, todo mundo entende o que está acontecendo, entende o que ele está falando, mesmo que seja uma picanha metafórica, não importa, o fato da picanha existir materializa todo um conceito que o cara está querendo passar.

Bruno Scartozzone: O ponto é que o público consegue enxergar a picanha, eu sempre dou esse exemplo em aula também, por exemplo, se você pegar um cara tipo Ciro Gomes, Ciro Gomes é um cara que fala difícil, você precisa ter um mestrado em economia para entender o que que ele está falando, aí você pergunta para o Ciro Gomes, Ciro, o que que você quer para o seu governo? E ele provavelmente vai responder eu quero que o Brasil cresça 5% do PIB. Para a gente já é difícil imaginar 5% do PIB, é uma coisa abstrata demais, imagina para o povão, imagina para o brasileiro médio. Quando você pergunta isso para o Lula, ele te responde, eu só quero que o pobre volte a comer picanha e tomar cerveja no final de semana, isso é uma cena, e uma cena é muito mais poderosa, porque você enxerga, ela se materializa na sua cabeça.

Luciano Pires: E quando o Ciro tenta usar fica ridículo, porque o apelo do Ciro é assim, eu vou tirar teu nome do SPC, entendeu? Mas o risco de você simplificar dessa forma é exatamente perder todas as nuances, cara, espera aí, do que que eu estou falando? É possível tirar o nome de todo mundo do SPC? Não, é impossível, mas a intenção está colocada lá, meu paizão, esse cara vai me proteger, então eles vão apelar e daí para dar um pulo para o populismo é uma festa, fica muito fácil.

Bruno Scartozzone: É, aí é uma discussão mais complexa, o storytelling na política especificamente, eu acho que ele é uma ferramenta muito eficaz, poderosa, mas que você pode usar para coisas muito ruins, storytelling pode ser muito ruim para a democracia.

Luciano Pires: Hitler está aí para mostrar.

Bruno Scartozzone: Exatamente, e eu acho que as últimas eleições são um bom exemplo disso, no fundo você tinha dois candidatos contando a mesma história, e que história era essa? Olha, o outro lado ali, o meu adversário é o diabo absoluto, e assim, quando você tem o diabo do outro lado vale tudo, o que é um pouco de corrupção contra o diabo? Não é nada. O que é, sei lá, o que é falar bobagem se do outro lado tem o diabo? Não é nada.

Luciano Pires: O que é tirar tua liberdade de expressão se é para ganhar do diabo? Estou topando.

Bruno Scartozzone: Exatamente, contra o diabo ou contra Hitler vale qualquer coisa. Agora essa uma narrativa eficiente para ganhar voto, porém muito danosa para a democracia, porque a democracia pressupõe que existem lados, que eles são legítimos, que eles precisam chegar em um meio termo e tal, e é assim que a coisa funciona.

Luciano Pires: Eu não consigo ver hoje em dia alguém que aspira um cargo de liderança em uma empresa sem dominar o mínimo de técnicas de storytelling, e saber como contar uma história, saber como… e aí tem mil exemplos, o exemplo que eu gosto muito é o John Kennedy, 1960… quando foi? 2 ou 3, acho que foi 2, quando os Estados Unidos estavam na pior, os russos tinham botado os mísseis lá em Cuba, os Estados Unidos tinham tentado fazer a invasão da Baía dos Porcos em Cuba, deu tudo errado, a Rússia estava crescendo, estava uma merda a situação, o negócio estava bem ruim, o Kennedy vai para o púlpito, chega lá e fala o seguinte, nós somos foda, os Estados Unidos é do cacete e nós vamos botar o homem na lua antes do final desse século. Então, o que que ele faz? Ele cria uma história, ele conta uma história, deixando claramente qual era o objetivo, ele botou uma data no objetivo, ele contou para todo mundo que só nós podemos fazer isso porque nós somos melhores que qualquer um, e a gente vai provar para o mundo que nós somos bons, e aquilo vira a história dos Estados Unidos, a pessoa olha para aquilo e fala… e de repente os negos vão e em 1969, eles botam um homem na lua. E detalhe, nós vamos colocar um homem na lua e vamos trazê-lo de volta em segurança, então aquilo é uma história que é ultra bem contada, onde um cara sozinho, ele consegue carregar toda uma nação, aquilo trouxe de volta o orgulho para os caras. Então, esse é o poder da contação de histórias.

Bruno Scartozzone: Ah sim, grandes líderes normalmente são bons storytellers, e se não são, tentam ser. Esse tem sido muito o nosso trabalho nos últimos anos, treinar grandes executivos. E aí tem uma coisa engraçada que assim, nossos maiores clientes normalmente são executivos ou de empresas ou de origem germânica ou oriental, que são culturas que têm menos esse tipo de coisa.

Luciano Pires: Menos emoção.

Bruno Scartozzone: Menos emoção, exatamente, aí vem um executivo suíço, por exemplo, assumir um cargo no Brasil, e ele percebe que para se comunicar com o funcionário brasileiro, ele precisa aprender esse negócio, senão, não funciona. Então, tem sido muito legal. Agora, cá entre nós, foi incrível colocar um homem na lua em 69, porque eu fui no museu lá em Washington, museu aeroespacial, e eu vi o módulo lunar ali ao vivo, não é uma réplica e tal, mas meu é um negócio de metal e papel crepom, sabe? Com um computador que era…

Luciano Pires: É que você é novinho, eu estou com 66, então eu acompanhei isso enquanto acontecia, on time, então eu vi tudo acontecendo, projeto Mercury, projeto Gemini, depois o projeto Apollo, e lá no museu que você foi, o aeroespacial, estão as três cápsulas alinhadas, então primeiro você tem o Mercury, depois você tem o Apollo e depois você tem o… desculpa, o Mercury, o Gemini e o Apollo, o Mercury era uma cápsula de um cara, e a hora que você olha ali, ela está aberta, você olha para dentro dela assim, você vê aquilo lá e fala, eu não posso acreditar que um cara teve a coragem de sentar dentro desse treco, veio um nego, acendeu um foguete na bunda dele, mandou esse… esse cara não tinha a menor ideia se ele ia voltar ou não. Mas aquilo construiu uma história de superação que é um negócio inigualável, e a gente foi vendo aquilo, e até o preço pago foi muito baixo, quando você lembra de quantas mortes aconteceram, quantos acidentes aconteceram, considerando que hoje em dia desaparece um avião em 2014, ninguém sabe onde foi parar o avião, com a tecnologia que nós temos na mão, aquilo realmente era… mas aquilo contamina todo mundo, os caras viraram heróis, os astronautas eram os heróis, aquilo era a jornada do herói, aquela coisa toda, eles estavam na frente… toda criança dos anos 60, 70 queria ser astronauta, então era uma coisa genial.

Bruno Scartozzone: E agora que ser youtuber, pelas pesquisas.

Luciano Pires: Exatamente, para fazer o que? Para contar história.

Bruno Scartozzone: É verdade.

Luciano Pires: Mas então, mas vamos chegar nessa… então tem toda uma construção, e eu queria esgotar um pouco mais essa coisa do cinema com você, porque nós somos uma geração, a geração Disney, eu diria assim, a geração Disney, que é a geração que cresceu aprendendo a contar uma história com começo, meio e fim, então a história do Disney é isso, eram filmes que tinham começo, meio e fim, tinham um vilão claro, você sabia quem era o vilão, ele era maldoso, ele manifestava aquela maldade dele até na figura do vilão, então, cara, e as coisas mais sensacionais do Disney são os vilões da história toda lá. Então, a gente aprendeu, a gente cresceu a vida inteira assim, lá no começo dos anos 2000 chega um treco chamado internet, traz dentro dela um negócio chamado hiper link, onde a história não anda mais para frente, ela anda para um lado, para o outro, para cima, para baixo, você está correndo aqui, clica no link, ela te joga para outra página, e de repente a tua história virou uma outra coisa, em outro lugar, então começa a ficar muito complicado porque não tem mais uma linearidade, agora é totalmente não linear, tem uma confusão tremenda.

Bruno Scartozzone: O vilão não é mais vilão também.

Luciano Pires: Eu sei lá, no final das contas virou tudo, e quebrou de forma muito forte essa questão, bom, basta ver o Oscar aí, cara, o filme que ganhou o Oscar é uma doideira, completamente louco, são metaversos, funcionando tudo ao mesmo tempo, cara, não dá para entender aquela merda, é muito complicado aquilo, para quem como eu fui treinado com Disney. Você já começa a tua atuação em um mundo de internet, quando você começou, já era, já estava nessa realidade, eu sou de 1980, então eu sou da última geração que… eu sou da única geração que viveu essa transição… eu sou da última geração que viveu essa transição do mundo offline para o mundo online, então eu peguei um pouco das duas coisas, minha infância foi Disney e minha adolescência foi internet. Ru acho que sim, você tem razão, o mundo do storytelling ficou mais complexo, mais diverso, e aquele tipo de história dos anos 70, 80, até 60 que eram mais maniqueístas, o bem contra o mal, isso… não vou dizer que isso se perdeu, mas assim, eu acho que o público também foi se cansando daquela fórmula e foi pedindo coisas mais complexas. Hoje em dia o vilão é vilão em um dia, depois ele vira anti-herói, depois não sei o que, hoje em dia, inclusive, se o vilão não tem uma motivação real e humana, as pessoas reclamam. Tanto é que, por exemplo, nos vingadores tem muita gente que se identifica com o Thanos, no Star Wars tem muita gente que se identifica com o Darth Vader. E antigamente existia essa preferência por contar história de uma maneira linear, cronológica, e hoje outras… como que eu vou dizer? Tem outros tipos de… não é nem de estruturas, estruturas, a gente pode usar essa palavra, tem outros tipos de estruturas que são cada vez mais comuns, essas coisas dos flashbacks, vai para a frente, vai para atrás, começa do meio, depois… enfim, tem um monte de teorias sobre isso que eu acho que não interessa muito o ouvinte médio, mas o que eu te diria de uma maneira geral é que assim, na essência as histórias ainda são a mesma coisa, a gente pode ter internet, pode ter Inteligência artificial, pode ter a… não vou falar palavrão aqui, mas pode ter um monte de coisa, mas as histórias são sempre a mesma coisa.

Luciano Pires: A Jornada do Herói está ali.

Bruno Scartozzone: Basicamente é isso, cara, toda história é sempre sobre um personagem vencendo obstáculos para alcançar um desejo, é basicamente isso, e nessa jornada toda ele vai se transformar de alguma maneira, e a moral da história vai estar nessa transformação, se acontece de frente para trás, de trás para frente, se tem hiper link, se não tem, no fundo é a mesma coisa, e é engraçado até que quando começou assim no começo dos anos 2000 ali, tem vários artigos que falavam assim, o storytelling mudou, nunca mais teremos uma história do mesmo tipo, e é meio bobagem, porque o cérebro humano foi desenvolvido para contar histórias e receber histórias dessa maneira, se a gente for pensar bem do ponto de vista evolutivo, nossa espécie passou a maior parte do tempo, esmagadora maior parte do tempo, contando histórias como a única maneira de transmitir conhecimento.

Luciano Pires: Sem escrita, sem registro nenhum, era oralmente.

Bruno Scartozzone: Exatamente, a gente sentava lá em volta da fogueira ou dentro da caverna, e como é que eu passava o conhecimento de uma geração para outra? Contando histórias. Quando nossos ancestrais iam lá na parede das cavernas e pintavam, pintura rupestre, eles pintavam o que? Cenas, caçadores caçando bichos etc. O que que você nunca vai ver em uma pintura rupestre? Bullet points, essa comunicação mais racional, mais abstrata, claro é muito importante também, a ciência se desenvolveu através dela e tal, mas não é assim o nosso processo natural de pensar, e não é, não são três, quatro décadas de internet que vai fazer com que o nosso cérebro mude. Eu até brinco com os meus alunos, eu falo assim, talvez daqui a cinco mil anos o cérebro humano mude o jeito, agora não.

Luciano Pires: Você tem 30 anos de internet brigando contra mil anos de igreja. Você pega a Bíblia, o que que a Bíblia é? A não ser uma sequência de histórias com começo, meio e fim, isso está muito entranhado na gente ainda.

[INSERIR]

Luciano Pires: Você sentiu mudar a tua estrutura, a forma como você treina esse pessoal, o cara que sobe em um palco hoje, eu costumo chamar de… houve uma tedelização do mercado, quando apareceu o Ted todo mundo olhou para aquilo e falou, finalmente, agora ao invés de eu ficar duas horas ouvindo esse chato me enchendo o saco, vem um cara aqui, é 15 minutos, se for chato, é rápido, já vem o segundo, já vem o próximo, aquela coisa apressada, com um tipo de approach muito diferente daquilo que eu faço, eu vou construir, eu sou muito mais Zé Vasconcelos do que esses caras de standup novo, que o cara de standup é punch, punch, punch, é uma atrás da outra, eu sou um cara da construção da história, então olha, é o começo, meio, clímax, final. De repente, o Ted vem e fala o seguinte, você tem 15 minutos, cara, para dar o recado, é um tema, esquece os outros quatro ou cinco, vai nele e bate ali. Isso de certa forma acabou contaminando o mercado como um todo, a ponto de eu receber contrações onde o cara fala, não, cara, eu não quero nem saber, 30 minutos, mas você tem 30 minutos, eu tenho uma palestra fantástica aqui de uma hora e meia, de jeito nenhum, eu não quero nem saber o que você tem aí, não me interessa nem saber se você segura ou não a plateia durante… é 30 minutos, porque na cabeça do cara não cabe mais do que isso, passando disso vai ficar chato. E você sabe que é conversa, um bate papo como esse aqui fica chato, se nós dois fomos chatos, se a gente for bom nós ficamos quatro horas aqui, e a turma fica seguindo lá. Então, eu acho que houve uma certa tedelização do mercado. Isso aí, evidentemente você tem um sócio que treina para o Ted, mas isso impactou em você, na forma do cara tem que ser mais conciso, eu vou ter que diminuir, eu vou ter que empacotar as coisas de uma forma muito mais agressiva, como é que foi?

Bruno Scartozzone: Impactou, eu acho que o mercado de uma forma geral começou a demandar histórias mais curtas, mas eu nem acho que tem a ver exatamente com… não acho que é culpa do Ted, acho que o Ted já é o resultado de uma outra coisa, e essa outra coisa, a melhor maneira de explicar é com uma frase de um economista chamado Herbert Simon, que venceu prêmio Nobel e tal, mais ou menos 50 anos atrás, o Herbert Simon disse basicamente que a informação consome a atenção das pessoas, então um mundo muito rico de informação significa um mundo muito pobre de atenção. Esse é o resultado da internet, quer dizer, diferente dos anos 80, onde eu nasci, e onde acho que você teve a sua adolescência ali, mais ou menos, não é isso?

Luciano Pires: Não, minha adolescência foi nos 70, no 80 eu já estava pai, já era adulto pai.

Bruno Scartozzone: Mas enfim, diferente desse mundo offline, onde você tinha muito tempo para ser impactado pelas coisas e tal…

Luciano Pires: Usa um exemplo que talvez a moçada ainda pegue aqui, você se dirigia até uma locadora e ficava lá escolhendo em um número absolutamente limitado de… você pegava a caixinha, ia ver o que tinha, então tinha todo um processo que demandava um tempo até você ter em mãos o filme que você iria assistir, e não tinha essa história de começo a ver e largo, não, eu estou pagando, cara, eu vou ver. Hoje em dia quantos filmes você tem começado na Netflix, que você largou?

Bruno Scartozzone: Ah, muitos, muitos. Não, se você esquecesse de devolver a fita, você pagava uma multa milionária.

Luciano Pires: E tinha que rebobinar, devolva rebobinada.

Bruno Scartozzone: Exatamente, mas naquela época que tinha relativamente pouca informação circulando, diferente de hoje, as pessoas tinham muito tempo para pensar, para pensar na vida, para buscar outras coisas, hoje em dia, se a gente pensar bem, o nosso cérebro está sendo ocupado por informação o tempo todo, por exemplo, você está esperando uma consulta médica lá no consultório, você não está fazendo nada, você está no celular respondendo e-mail, respondendo WhatsApp, vendo notícia, jogando joguinho, o nosso cérebro está sendo ocupado o tempo todo por…

Luciano Pires: Cara, você entra no elevador, bicho, você entra no elevador tem uma telinha ali em cima te dando informação no elevador.

Bruno Scartozzone: Exatamente, não tem mais tempo livre. E o Ted, na minha opinião, é um resultado dessas coisas, em um mundo onde as pessoas olham para o celular de cinco em cinco minutos, para uma palestra de uma hora conseguir pegar a atenção das pessoas, tem que ser uma palestra muito incrível. E eu tenho certeza que a sua é, porque você é um comunicador há muitos anos, você deve ter o jeito de fazer isso, mas para a maioria das pessoas, principalmente para as pessoas mais técnicas, é difícil fazer isso. Agora, em 15 minutos dá para você compactar muita informação e muita emoção. Então, o Ted é um resultado desse mundo maluco que a gente vive, mas que na verdade, não é só o Ted, então por exemplo, o Twitter lá, que você tem, agora nem sei quantos caracteres mais tem, porque mudou tudo…

Luciano Pires: Se tiver o blue e pagar por ele, você pode botar o texto inteiro lá.

Bruno Scartozzone: É, mas enfim, o Twitter raiz.

Luciano Pires: Sim, mas o conceito está aí, o conceito do post no Facebook, que passou de um… vira textão, textão eu não quero, não leio textão.

Bruno Scartozzone: Exatamente. Então, o mundo foi demandando coisas, conteúdos mais curtos e mais impactantes. Você tem uma perda de profundidade nesse processo…

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar, como é que você combina essas coisas para não ficar supérfluo e raso?

Bruno Scartozzone: É, eu acho que assim, você tem uma perda de profundidade, mas por outro lado você tem um ganho em impacto. Agora o que eu sempre falo para os nossos mentorados e tal, que alguns deles até fazem, inclusive, palestras no Ted, é que assim, o final de uma palestra não tem que ser o fim daquele assunto, tem que ser um começo de um novo momento, e aí entra a história do hiper link, um final de uma palestra de 15, 18 minutos, você tem que dar ali um hiper link para a pessoa continuar o assunto de alguma outra maneira.

Luciano Pires: Deixar o eu quero mais.

Bruno Scartozzone: Deixar o eu quero mais, exatamente, exatamente, porque aí se for interessante para ela, ela vai buscar mais, ela vai entrar em contato com você, ela vai, sei lá, entrar no site, doar um dinheiro lá para a sua organização, para sua ONG, enfim, ou ela vai comprar o seu produto, depende muito do que você precisa, mas eu acho que o segredo está aí. Agora tem coisas boas, tem coisas ruins nesse movimento, mas é um movimento meio irreversível, esse é o problema, o conteúdo longo, virou um conteúdo de nicho, exceto as séries, as séries têm…

Luciano Pires: É que a série, na verdade, é uma costura de conteúdos curtos, e até ia comentar com você, se eu não me engano, no livro, no Calda Longa, do Chris Henderson, aquele livro, eu acho que foi nele, mas não tenho certeza, cara, já não sei mais se foi, estou até achando que não foi, eu sei que era um livro qualquer que eu li, preciso até procurar isso aí, que no meio do livro o cara fez uma comparação dos roteiros das séries ao longo do tempo, então as séries dos anos 70, 80, 90 até chegar hoje em dia, e ele bota um gráfico mostrando como é que os caras construíam a chamada da atenção das pessoas, cara, é um treco assim, é uma doideira, porque ele fala, olha como era linear e tranquilo nos anos 70, você contava uma história que um dia chegaria no final da história. E ele fala, olha hoje em dia, em três segundos você já tem que dar o Hulk na pessoa, começou, nos primeiros… você não pode perder o comecinho, porque vai acontecer alguma coisa de muito Impacto ali, e no final dela, o cara tem que deixar, você não pode dormir, terminou aquele episódio, você fala, como é que eu vou dormir sem ver como é que continua? Vou ver de novo. Game of Thrones, cara, o final de cada episódio de Game of Thrones era uma loucura, eu não posso dormir, eu tenho que ver, e deu tão certo, que cara, acho que o cinema mais rico do mundo hoje está nas séries, não está mais em Hollywood.

Bruno Scartozzone: E tem uma outra coisa também, a série, as séries normalmente duram, sei lá, uma hora, 40 minutos, e tem essas séries de 20 minutos, isso se encaixa muito mais no nosso dia fragmentado, 20 minutos é o almoço ali do meu home office, eu sento ali no sofá, como um negócio, assisto uma série e volto para trabalhar, 40 minutos ainda dá também e tal, agora 2 horas, eu sou pai recente, com uma criança de um ano e meio, é muito difícil eu ter duas horas livres, duas horas seguidas.

Luciano Pires: Você vai ter com eles talvez mais tarde um pouco, mas também de novo, essa molecada também está consumindo em uma velocidade brutal coisas que eu nunca pensei que eu veria, outro dia eu vi a criançada vendo, um youtuber, alguma coisa, eu não me lembro se era um gamer ou um youtuber, alguma coisa assim, mas tinha os bichinhos ultra coloridos, sempre falo, isso aqui não é por acaso, esse nível de cor que eu estou vendo aqui não é por acaso, que esse negócio é para hipnotizar a molecada mesmo, e os bichos não falam, eles só gemem, não tem diálogo ali, é só alguma reação, aí o pessoal, isso é para criança pequena, eu falei, bom, está legal, mas eu falei, está estranho, porque você está transformando a criança em um zumbi, ela está virando um zumbi ali, não tem…

Luciano Pires: A criança tem que ouvir diálogo para…

Bruno Scartozzone: Para ir fazendo. Mas alguém descobriu que essa coisa aí prende, aí você entrega a tela para o garoto, ele para de te encher o saco, me dá um tempo aí, me dá… e aí aquilo que poderia ser um instrumento de… rico, a riqueza que você tem hoje em um tablet é uma coisa que a gente nem sonhava, você nos anos 80, eu nos anos 70, eu nem sonhava em ter uma ferramenta como essa na mão, mas ela pode virar tranquilamente um instrumento de alienação da realidade, se o garoto pensar que a vida é o Instagram, que a vida é o está explícito no Instagram, ou que aqueles vídeos, que o youtuber está te contando uma história, é complicado. Esse seu trabalho de contação de história, ele tem também um componente, como é que eu vou dizer? Um componente didático, que quando eu aprendo a contar uma história, eu aprendo a me defender.

Bruno Scartozzone: Sim, sem dúvidas.

Luciano Pires: Então, se eu vou lá te procurar, me ensina a contar uma história, na verdade, eu estou aprendendo o bastidor, e quando vier um mané me contar uma história, eu ouço aquilo e falo, olha a técnica do cara, ele fez assim, agora vai fazer aquilo, agora aquilo, esse desgraçado está querendo que eu me conduza na direção tal. É isso?

Bruno Scartozzone: Também tem esse lado, sem dúvida. Eu sempre brinco com os meus alunos que assim, olha, depois que você passar pela minha aula, você nunca mais vai ver um filme da Netflix do mesmo jeito, porque você vai aprender qual é a técnica por trás. Muita gente acha que assim, o cinema, os roteiristas e tal, são um bando de artista, maconheiro e tal, que faz lá com… tem uma viagem que faz qualquer coisa, tem um pouco desse lado, não vou negar, mas tem muita técnica ali por trás, quando a gente leva isso para o lado da mídia, que é bem mais pantanoso do que do entretenimento, obviamente também, enfim, é uma técnica que pode ser usada para o bem e para o mal, e aí eu acho que é muito importante que as pessoas tenham essa noção, como é que eu vou dizer, tenham até essa noção ética mesmo assim, de que você pode usar isso de várias maneiras, e você pode usar esse conhecimento sim para se defender. Eu até acho que isso deveria ser matéria nas escolas, sabe? Como é que você se defende da mídia?

Luciano Pires: Chama-se alfabetização para a mídia, eles chamam mídia literacy em inglês.

Bruno Scartozzone: Isso aí, como é que você se defende de manipulações? Eu não vou negar, você pode usar o storytelling para manipular um monte de gente para o mal? Claro que pode. Hitler está aí para provar. Então, acho muito importante que as pessoas tenham essa consciência. E para mim, quando eu penso nas coisas que eu divulgo em redes sociais, até sei lá, às vezes eu coloco umas palestras minhas no YouTube etc, é um pouco por esse lado também, eu acho que quanto mais gente souber da técnica, é mais fácil você separar aquela história que é para valer, é verdadeira, e aquela história que está ali para te prejudicar.

Luciano Pires: Você assistiu o especial do Chris Rock? Agora na Netflix.

Bruno Scartozzone: Vi, é maravilhoso, maravilhoso.

Luciano Pires: Você viu que ele fala lá as maneiras que tem, o que que interessa no mundo hoje, ele falou, coisa número 1, o que que é a coisa mais valiosa no mundo hoje é atenttion, atenção, e aí ele conta lá mais ou menos o que que os caras fazem para chamar a tua atenção. Que, na verdade, cara, é uma matéria prima, é um material que sempre teve o valor, mas quando a internet chegou e trouxe aquela história do teu [ibon] o que que eu preciso fazer, eu tenho que botar um treco no ar que você… tem que ter muita gente olhando, eu tenho que ter muita gente ouvindo, quantos downloads tem, quanto clicks tem, o que que é isso? É gente olhando. Que é a tal da audiência, que sempre foi assim, mas agora chegou em um ponto tal em que as pessoas passam a desenhar o trabalho delas como um clickbait, eu vou fazer a capinha do meu vídeo de forma que obrigue você a clicar naquilo, não me importa se você se interessa pelo assunto ou não, mas aquilo é tão chamativo, tem uma palavra tão chamativa que eu tenho que clicar. E aí eu mostro para você que eu tive dois milhões de views ali sem necessariamente ter a ver com o conteúdo que está lá dentro. Quer dizer, você não acha que isso é um perigo, cara, que isso de certa forma banaliza, sabe, as pessoas começam a comprar livro pela capa, e não mais pelo que tem dentro do livro?

Bruno Scartozzone: Bom, eu acho que as pessoas sempre compraram livro pela capa, isso é um pouco do ser humano. O que eu vou falar é meio perigoso, mas eu acho assim, mas de uma maneira geral, eu acho que a nossa sociedade anda mais burra mesmo. Essa é uma pergunta de um milhão de dólares, que se eu tivesse as respostas eu estaria milionário, mas eu acho que a gente tem perdido um pouco a profundidade, a gente tem perdido o bom senso, a gente tem perdido uma série de coisas.

Luciano Pires: Você não acha que isso é por causa de uma desensibilização, cara? Eu me tornei insensível à uma porrada de coisa. Vamos usar cinema de novo. Eu sou da geração que assistiu Star Wars no lançamento, no auge dos meus 20 e pouquinhos anos, e de repente em uma tela gigantesca entra uma nave espacial de um tamanho como eu nunca vi na minha vida, com uma trilha sonora como eu nunca tinha escutado na minha vida, perseguindo uma nave menor, dando tiro de canhão, e aquilo vira uma loucura, aquilo vira minha vida de ponta a cabeça. Eu sofri impactos, eu estava na estreia de Carrie, A Estranha, em uma sessão da meia noite, e a última cena do filme, vou dar spoiler, porque todo mundo já viu, a menina está lá na tumba, sai uma mão da tumba e pega a menina, cara, é um susto que nunca mais na minha vida eu vou esquecer daquilo, por quê? Porque era tudo novidade, nunca ninguém tinha visto aquilo que eu estava vendo ali, era a primeira vez. E hoje em dia, cara, todo mundo já viu tanto isso que eu estou dessensibilizado, cara, se for para me mostrar um filme de morto vivo, de zumbi, cara, eu vou querer ver qual é o nível de crueldade que você tem para arrancar a cabeça do zumbi, eu quero saber em quantos pedaços a cabeça dele vai explodir, porque cara, matar zumbi, eu já vi tantos, que eu não estou mais sensível para isso. Eu já sei a hora que o gato vai pular, sabe, que eu vou tomar um susto lá, então se a gente foi exposto à tanta coisa que nós ficamos meio que insensíveis, é como aquela história do médico do pronto socorro, o cara já viu tanta merda, que ele não fica mais sensível por aquilo.

Bruno Scartozzone: Então, você assistiu The Last of Us?

Luciano Pires: Todinho.

Bruno Scartozzone: Eu não vi o último episódio ainda, mas eu joguei o jogo e tal, eu sei qual que é a história, você reparou que tem muito pouco zumbi? Quer dizer, tecnicamente nem é zumbi, mas enfim, tem muito pouco monstro ali, eu acho que talvez a resposta esteja aí. E é uma série que está sendo muito bem falada, muita gente gostou, talvez pelo menos no mundo do entretenimento, a gente faça uma volta ao básico.

Luciano Pires: Pode ser, se você não viu o último capítulo ainda, e não é spoiler.

Bruno Scartozzone: Não, eu joguei o jogo, então eu sei como é.

Luciano Pires: A coisa mais fabulosa do último capítulo, cara, é a interação do Joel com a Ellie como pai e filha, tem um amor dos dois ali que no último capítulo aquilo vira um treco que é arrepiante, a maneira como ele olha para ela e a maneira como ela olha para ele no capítulo, é muito mais foda do que o zumbis e tudo mais que está lá.

Bruno Scartozzone: Exato. E eu acho que assim, The Last of Us foi um divisor de águas nos vídeos games, porque… não vou dizer que foi o primeiro jogo, mas assim foi um dos primeiros jogos a trazer uma história com profundidade emocional incrível, tem a parte de dar tiro e matar zumbi? Tem, tem bastante, mas não é só isso, você termina o jogo chorando basicamente, a cena da girafa para mim no jogo é uma das melhores cenas do…

Luciano Pires: Está no último capítulo.

Bruno Scartozzone: Eu imaginei que ia estar. Aquilo tem um impacto profundo, talvez a resposta para isso que você está falando, e eu concordo com tudo o que você está falando, seja um back to basics, porque esses grandes temas, pai e filha, família, poder, enfim, esses grandes temas da humanidade sempre vão ter a atenção das pessoas, e aí tem uma outra a coisa interessante que é o seguinte, se a gente olhar bem, essas filmes hollywoodianos cheios de efeitos especiais, os efeitos especiais são bacanas, não vou negar, ajuda a chamar atenção, é tudo interessante e tal, mas o que realmente conecta as histórias? Não são os efeitos especiais, são aquelas coisas básicas que tem ali por trás.

Luciano Pires: É a angústia do homem aranha querendo sair da adolescência, não saber direito como lidar com aquele poder, é a angústia do… como é o nome daquele lá, o que tem as garras na mão?

Bruno Scartozzone: Wolverine.

Luciano Pires: É a angústia desesperada do Wolverine, cara, querendo acabar, querendo morrer, porque ele não aguenta mais aquela vida dele.

Bruno Scartozzone: Exatamente, eu sempre dou um exemplo que é do Poderoso Chefão, todo mundo acha que O Poderoso Chefão é um filme sobre máfia, e é claro que de uma certa forma é um filme sobre máfia, máfia é um assunto exótico, máfia tem um certo glamour, máfia consegue o interesse imediato das pessoas.

Luciano Pires: Propicia o uso da violência, que você pode usar à vontade.

Bruno Scartozzone: Exatamente, mas não é isso que nos conecta aquele filme, porque no fundo é um filme sobre família, sobre poder, no fundo, no fundo é um filme sobre um cara jovem que tem que decidir entre continuar na tradição da família ou tomar um outro caminho para a vida dele, é basicamente a história de qualquer pessoa que vem de uma família de médicos ou de advogados, O Poderoso Chefão é sobre isso, talvez o que Hollywood tenha exagerado aí seja colocar muito peso nos efeitos especiais, no sangue, no zumbi, na nave, e deixar de olhar para esse lado mais… esse lado que interessa 100% das pessoas, que é a vida acontecendo, são os grandes temas da vida. Eu sempre dou um exemplo que assim, quando amigos se encontram no bar para conversar, as pessoas sempre falam sobre alguns momentos da vida muito específicos, alguém nasceu, alguém morreu, peguei alguém, tomei um pé na bunda, realizei um sonho, perdi tudo, esses são os grandes temas da vida, talvez o entretenimento tenha perdido um pouco dessa conexão, mas é isso que importa em uma história.

Luciano Pires: Ou eles acharam que o efeito especial supriria isso, é tão espetaculoso… eu senti uma… em mim bateu pesado, cara, quando eu fui assistir o primeiro Vingadores no cinema, eu saí de lá horrorizado, eu falei, que merda, cara, é tiro, porrada e bomba o filme inteiro, não sobrou nada nessa merda, tiro, porrada e bomba, que sobrou 10 minutos de filme, no um, nem fui ver os outros. E quando eu falo isso, o pessoal… não, não fui, cara…

Bruno Scartozzone: Mas os outros são melhores, são muito melhores.

Luciano Pires: É, eu não fui ver, eu falei, eu não aguento, é muito tiro, porrada e bomba para pouco estímulo assim, mas tudo bem, isso é a minha idade, sou eu, é outra história aqui. Vem cá, como é que… o que que você sugere, então, hoje em dia para as pessoas, quando você… eu entendo que algumas te procuram com um problema, tenho que me apresentar em público, não sei, me ajuda aí, e tem outros que não vão com problema, não é necessariamente me apresentar em público, mas é me comunicar com as pessoas, você está lidando com um processo que é uma coisa fundamental, não dá para… eu não consigo ver ninguém subindo na carreira sem dominar o mínimo das técnicas de comunicação. Você consegue ver uma técnica brasileira para isso, você falou um negócio bem interessante lá atrás, que é o suíço chegando aqui e vendo que ele tem que se comunicar com brasileiro, que é um público diferente, tem uma técnica diferente, tem um jeito diferente de ser, você deve ter estudado lá fora, você foi ver os roteiristas lá fora, o público brasileiro aqui é uma outra pegada, você consegue ver um jeito brasileiro de…

Bruno Scartozzone: Um jeito brasileiro de contar histórias?

Luciano Pires: Ou é tudo igual? Pode ser que seja tudo igual, cara.

Bruno Scartozzone: Não, eu acho que não, assim, existem algumas nuances culturais, isso sem dúvida existe, por exemplo, o jeito americano de contar histórias, é um jeito muito, Hollywood principalmente, é um jeito muito exagerado, tudo é muito óbvio, tudo é muito didático. O jeito europeu é um jeito mais contido, é um jeito, enfim, o cinema europeu é completamente diferente do cinema americano.

Luciano Pires: O asiático, então.

Bruno Scartozzone: Se a gente vai lá para o Japão, pega mangá, anime, todas aquelas coisas, o foco da história está muito mais na evolução do personagem, do que na evolução da trama, então assim várias tramas vão acontecendo em paralelo, tem um monte de coisa acontecendo, mas o que importa não é o começo, o meio e o fim da trama, é muito mais o começo, meio e fim do personagem. Eu sinceramente nunca pensei assim em um jeito brasileiro de contar histórias, talvez pela influência cultural que os Estados Unidos tenha na gente, a gente acabe copiando muito isso, mas eu acho que talvez tenha alguns traços da cultura brasileira que influenciam um pouco assim, então por exemplo, essa coisa da malandragem brasileira talvez faça com que esse maniqueísmo entre o herói e o vilão no Brasil seja muito mais fluído, digamos assim, a gente vê no cinema brasileiro vários exemplos de heróis tortos, estou pegando aqui o Capitão Nascimento, por exemplo…

Luciano Pires: Sim, que nasce para ser bandido e vira herói.

Bruno Scartozzone: Que nasce para ser bandido e vira herói, mas ele é um herói, mas ao mesmo tempo ele usa drogas, enfim. Talvez tenha um poucos…

Luciano Pires: De humanidade, cara, tem um humanidade.

Bruno Scartozzone: De humanidade, talvez tenha um pouco desse lado. Eu acho que assim, os tipos de histórias que a gente escolhe contar uma refletem um pouco a nossa realidade, o cinema brasileiro conta muita história sobre pobreza…

Luciano Pires: Sim, assim como argentino conta história de ditadura, todo filme argentino é sobre ditadura.

Bruno Scartozzone: Exatamente, todo é sobre ditadura. E não sei se isso é bom ou ruim, mas é um jeito, eu acho que… eu até acho que o cinema brasileiro poderia se aventurar por outros temas, porque ninguém mais aguenta filme só sobre… eu acho que dá para variar. Então, nesse sentido sim, agora no sentido de uma estrutura brasileira de contar histórias, sinceramente nunca parei para pensar muito nisso, mas eu vou pensar.

Luciano Pires: É porque se tem uma literatura, cara, se há uma literatura que você consegue sacar que tem coisas ali que tem nuances, a de haver também nessa contação de história, eu não sei se isso é importante para o mundo globalizado como tem hoje em dia. Mas pegando ainda esse lance do cinema, cara, eu fiquei fascinado com o cinema coreano, porque esses caras vêm com roteiros onde não tem concessão nenhuma, cara, então, quando você está vendo Hollywood, você fala bom, já entendi o caminho, agora vai acontecer isso, agora vai acontecer aquilo, agora é a hora do susto, agora o mocinho se arrepende. Cara, o coreano vem e de repente ele quebra tudo, ele mata o mocinho, ele mata a mulher, não sobra nada em pé, você fala, cara, que loucura, e é uma experiência fascinante. A gente… você precisa um pouco que extrapolar o exagero interpretativo deles, eles são todos exagerados, mas ele tem um lance lá de não ter compromisso com o linear que é uma coisa impressionante, eu não sei se você concorda com essa…

Bruno Scartozzone: Concordo, concordo, Parasita é um pouco assim, você nunca sabe exatamente o que esperar daquele filme, eu acho que tem outros exemplos bons também, eu não estou lembrado…

Luciano Pires: Eu Vi o Diabo.

Bruno Scartozzone: Eu Vi o Diabo eu não vi.

Luciano Pires: É impressionante, cara.

Bruno Scartozzone: Old Boy tem um pouco disso também, enfim, eu acho que o cinema coreano é um dos cinemas com mais frescor no mundo hoje em dia.

Luciano Pires: Tomara que Hollywood não pegue aquilo e empacote.

Bruno Scartozzone: Pois é.

Luciano Pires: Está virando papo de cinema.

Bruno Scartozzone: Mas aí que é bom.

Luciano Pires: Mas vamos lá, vamos partir para o nosso caminho aqui, você traduziu um livro, não é?

Bruno Scartozzone: Traduzi um livro.

Luciano Pires: Que livro que é?

Bruno Scartozzone: Chama Story telling… puts, eu nem sei falar o nome inteiro do livro, porque é um nome gigantesco, mas é basicamente storytelling, como o Papa Francisco, Steve Jobs e acho Churchill contam histórias, alguma coisa assim. É um livro do Carmene Galo, que é um cara… um dos maiores especialistas nisso lá nos Estados Unidos, e é um livro bem americano mesmo de storytelling no sentido de que assim, ele te dá um pouquinho de técnica e case, case, case, case. Então é um livro muito legal para quem quer usar storytelling em discursos, ele fala muito de discurso, ele dá exemplo de política, ele dá exemplos de liderança empresarial, ele dá exemplo até de liderança religiosa. E aí ele faz meio que um raio-x ali desses vários cases e vai tirando ensinamentos muito interessantes, se você digitar na Amazon storytelling, é o livro da capa vermelha.

Luciano Pires: Espera aí, ele está aqui do lado, deixa eu pegar ele aqui, espera aí, vou pegar ele aqui, está aqui na mão, Carmene Galo, autor do best seller, Ted Falar, Convencer e Emocionar, chama-se, Story telling, aprenda a contar histórias com Steve Jobs, Papa Francisco, Churchill e outras lendas da liderança. O livro da alta books.

Bruno Scartozzone: Exatamente, aí você entende porque que eu não sei o título do livro de cabeça.

Luciano Pires: Sim, sim, mas o que que deu na tua cabeça de traduzir um livro desse aqui, cara? Que é um trabalho insano, tradução, não tinha, não tem referência, existem livros legais em português, tem coisa aqui?

Bruno Scartozzone: Boa pergunta, na verdade, não foi da minha cabeça, eu fui convidado para isso, a editora queria alguém que entendesse do tema para traduzir, foi minha primeira e única experiência com tradução, foi muito interessante, mas é uma coisa que eu não sei se eu faria de novo, porque dá um trabalho do cão, traduzir um livro, para quem não imagina, traduzir um livro é quase que escrever um livro de novo, porque você pensa assim, tá bom, eu sei falar inglês, então eu consigo traduzir, mas cada parágrafo você precisa repensar o parágrafo, porque as línguas tem estruturas completamente diferentes. Eu estou para lançar um livro em breve, em algum momento, da minha autoria, mas têm outros livros sim em português, em português a literatura sobre o assunto é um pouquinho mais limitada, tem sobre storytelling ligado a poucos assuntos, já em inglês, se vocês digitarem storytelling em uma Amazon, por exemplo, vocês vão encontrar storytelling ligado a basicamente tudo o que vocês quiserem, tem assim até storytelling para finanças, storytelling para, sei lá, para medicina, sei lá o que, então a literatura em inglês é bem mais completa do que em português, obviamente, mas tem opções boas.

Luciano Pires: Quem quiser encontrar você para te contratar, para trabalhar com você, como é que faz, vai aonde?

Bruno Scartozzone: Bom, eu estou em praticamente todas as redes aí, com o @brunoscarto, scarto é a primeira metade do meu sobrenome, Scartozzone, é um sobrenome meio complicado, porque tem dois Zs, um S mudo, então eu resolvi.

Luciano Pires: Soletra, Bruno Scarto, S é S mudo?

Bruno Scartozzone: S C A R T O.

Luciano Pires: brunoscarto tudo junto? @brunoscarto.

Bruno Scartozzone: Tudo junto. Na maioria das vezes eu uso esse nome. Tem o meu site, que é brunoscarto.com.br, e tem o site da minha empresa, que é storytalks.com.br.

Luciano Pires: E vocês estão em Brasília, mas atendem online para o mundo inteiro?

Bruno Scartozzone: Não, eu estou em Brasília, meu sócio fica em São Paulo e…

Luciano Pires: Ah, ele está aqui em São Paulo?

Bruno Scartozzone: Ele está aqui em São Paulo e a gente fica na… quer dizer, eu fico na ponte aérea, porque a gente trabalha muito mais em São Paulo do que em outros lugares.

Luciano Pires: Eu vou querer chamar ele aí para a gente fazer um papo sobre Ted.

Bruno Scartozzone: Chama, chama, e ele tem uma voz de radialista, você vai gostar.

Luciano Pires: Cara, excelente, adorei aqui, ganhei o livro de presente, vou curti-lo aqui pode saber, mas essa tua escolha que você fez aí de mergulhar nesse mundo do storytelling é fascinante, eu abri o programa falando que te chamei porque essa coisa me fascina, continuo fascinado, acho que eu vou viver fascinado porque a cada dia que passa isso aqui me parece que é mais necessário como ferramenta para… o cara que tem um bom storytelling ele não precisa ter o treinamento, a habilidade, ele convence as pessoas a ir na direção que ele precisa, então isso aí como ferramenta de sucesso é fundamental.

Bruno Scartozzone: Ah sim, e eu vou contar um segredo aqui para os seus ouvintes, eu entrei aqui no estúdio do Café Brasil, e é um lugar super lúdico, tem storytelling em todos os lugares, você entra e dá de cara com o Homem Aranha pendurado na parede, eu achei incrível.

Luciano Pires: E em tamanho natural.

Bruno Scartozzone: E aí eu preciso te dizer uma coisa, eu falei que eu sou seu fã, te ouço aí há se lá, mais de uma década, e é engraçado que assim, a imagem que eu tinha de você era de um cara muito mais sério, e eu cheguei aqui, o estúdio não tem nada de sério, um lugar superinteressante. Então, dá para ver que você gosta do assunto mesmo.

Luciano Pires: Mas é aquela história, o que você vai ver aqui fora é cultura pop para todo lado, mas é o pop legal, sabe, é o pop que tem conteúdo, então você vê, eu combino Billie Holiday com Batman lá embaixo, são signos da cultura da gente que merecem ser louvados. Cara, grande abraço, grande papo, valeu, vamos ter mais contato aí.

Bruno Scartozzone: Vamos sim.

Luciano Pires: Um abraço.