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Luciano Pires -

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite, bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o podcast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. No episódio de hoje trago Rossandro Klinjey, que é palestrante, escritor e psicólogo clínico, Rossandro é autor de vários livros, sendo o mais recente As Cinco Faces do Perdão, Help: Me Eduque e Eu Escolho Ser Feliz, é consultor da Rede Globo em temas relacionados a comportamento, educação e família, além de colunista da rádio CBN, foi professor universitário por mais de 10 anos, quando passou a se dedicar a atividade de palestrante no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Nossa conversa trata de comportamento, educação, da vida em sociedade em tempos caóticos, um baita papo.

Muito bem, mais um LíderCast, como sempre eu começo contando como é que esse convidado veio parar aqui, isso aqui é um caso antigo, eu acompanho os vídeos dele, acompanho as palestras dele, até porque a gente como palestrante profissional trabalha com alguns bancos de palestrantes como colegas, ele nunca me viu, eu nunca vi ele no palco, a gente não se cruzou, mas eu acompanho o trabalho dele há bastante tempo, ele estava no gatilho aqui para chamar, uma hora dessas eu chamo, e essa semana passada, ou na outra semana anterior, o Sandro Magal me deu a dica, Luciano, tive com ele, fui chamar, pronto, aqui estamos. Então, seja muito bem-vindo, o programa começa com três perguntas, que são as únicas que você não pode chutar, o resto chuta à vontade, que essas três tem que ser na lata, seu nome, sua idade e o que que você faz.

Rossandro Klinjey: Eu sou Rossandro Klinjey Irineu Barros, eu tenho 51 anos, eu sou palestrante, como você também, escritor, eu sou empresário e também faço… trabalho com essa coisa da construção do conhecimento humano na área da psicologia, sou psicólogo, acho que a minha base de tudo o que eu falo é através da ciência do comportamento humano.

Luciano Pires: Você está parecendo eu, cara, quando perguntam o que que você faz, eu respondo às vezes, você tem tempo?

Rossandro Klinjey: Eu acho que quem vem meio assim com compromisso de… quem pelo menos tem um sentimento assim de tenho que entregar para a vida, sente que não dá para entregar em um canto só, que a gente é meio que… o ser humano, ele é por natureza formado a partir de várias variáveis que vai lá da genética, educação familiar, o lugar onde você nasceu, sua cultura, os inputs que foram te dando e que você foi recebendo e dizendo que não ao longo da vida, e depois, em algum momento, você faz assim, eu tenho que entregar isso aí, e da mesma forma que eu recebi vários inputs, eu quero entregar também com muitos auto inputs, saindo por vários lugares, faz palestra e faz vídeo e por aí vai, tentando entregar o melhor para a vida.

Luciano Pires: Aí vai acontecendo aquela coisa maravilhosa da vida, que a gente vai envelhecendo, e de repente, a tua expectativa daquilo que você recebe de volta com essa entrega vai mudando com o tempo, então você começa para buscar dinheiro, vou entregar meu conhecimento para buscar dinheiro e isso vai mudando com o tempo, cara, chega um momento que você fala, muito mais importante do que o dinheiro, o dinheiro tem que vir, eu não vivo por ele, mas não vivo sem ele, mas de repente aquele e-mail que o cara te manda, cara, você falou um negócio que eu precisava ouvir, meu, ouvi uma palestra tua que mudou a minha percepção. E você olha para aquilo e fala, puta merda, isso significa que eu toquei no coração, toquei na alma da pessoa, e de alguma forma eu influenciei, não têm dinheiro no mundo que pague isso. E quanto mais velho a gente vai ficando, mais bobo nós ficamos e aí fica assim.

Rossandro Klinjey: Então, sabe que uma vez eu estava… quando eu estou dando uma palestra, eu presto muito atenção, a gente que está dando palestra a gente fica vendo tudo, a gente presta atenção a cada movimento de uma plateia, pode ter 3 mil pessoas. E eu sempre faço o seguinte, eu tenho que em 15 minutos, deixar o cerimonial parado, eu quero que eles entendam que não é só para quem está aqui sentado, é para todo mundo que está aqui. E sempre acontece isso e é muito legal, porque depois vem a parte de autógrafos e fila, mas aconteceu um evento assim particularmente, e a primeira vez que aconteceu, eu sou bem chorão, eu choro assistindo Procurando Nemo, propaganda da Coca-Cola de natal, eu já estou ali com os olhos marejados, eu sou emotivo, bem assumidamente, sem nenhum problema com relação a isso, e aí os seguranças do evento estavam lá, e veio a fila, atendi todo o público, depois veio o pessoal que estava trabalhando também para a foto, aí veio quatro seguranças enormes assim, olha, a gente está tão tocado com o que você falou, mexeu tanto comigo, e a gente queria retribuir isso de algum modo, e aí a gente combinou de fazer uma coisa por você, você se incomoda? Porque é como se fosse uma retribuição da gente do que a gente recebeu de você. Claro, o que que vocês querem fazer? A gente quer te escoltar até o carro. E aí eles saíram me escoltando até o estacionamento, mas assim, eu estava entre o de feliz, achando engraçado aquela situação, eu parecendo um chefe de estado saindo com quatro caras de terno preto, sabe. Mas assim, eu achei um gesto bonito de que você está falando, Luciano, que a gente começa, obviamente o dinheiro mexe muito, ainda mais quando a gente, quero consumir, eu quero… aí depois você começa a ver, caramba, quantas palestras a gente faz de graça por causa do propósito, ainda hoje eu faço isso, de repente é um projeto, já aconteceu de eu chegar em um canto, quando eu cheguei no aeroporto, que a pessoa foi me pegar, não, eu tenho esse projeto aqui, aí eu lhe trouxe porque a gente está fazendo esse evento para arrecadar fundos, explicou o projeto, eu liguei para o pessoal, devolve, porque isso aqui tem que vir mesmo, é para ajudar, porque de fato você começa a ter, digamos, eu chamo Bitcoins espirituais, é como se fosse assim, um outro tipo de salário, que eu não sei exatamente quando eu vou usar, porque eu não acho que eu vou usar depois, na verdade, eu acho que tem um depois, obviamente, mas eu acho que esse Bitcoin espiritual, que é essa doação para além do financeiro, ela a gente já vive a experiência dela no momento da gratidão que a gente tem pelo o que provocou no outro.

Luciano Pires: E eu tenho a convicção de que cria-se, você cria… eu não sei bem o termo para português, mas você cria um good will, sabe, uma espécie de good will, que é um bem querer das pessoas com relação a você, que acaba facilitando a tua vida de alguma forma, cara, eu acredito muito em energia, sabe, que energia passa, e esse good will vai te ajudar. Então, você nunca perde, eu brinco com o pessoal que faz negócio comigo, quem faz negócio comigo não perde, porque a questão é grana, a gente se vira com a grana, mas a questão é se manter o good will.

Rossandro Klinjey: Tem uma frase, eu sou uma pessoa que tem uma visão muito transcendente do sagrado, e tem uma frase do Chico Xavier que diz muito o que você está falando aí, que é assim, o bem que você faz em qualquer lugar, é seu advogado em toda parte. É mais ou menos assim, você vai plantando, eu vou lembrar de uma cena, que você falou disso assim, quando eu dava aula na universidade, hoje eu dou assim mais pontualmente na Unicamp, na PUC do Rio Grande do Sul, mas eu tinha aula mesmo, eu dava aula, eu passei 19 anos dando aula, e aí uma vez eu fui chegando na época que não tinha ainda PowerPoint na sala, usava aquele pincel, cheguei para pegar no setor que entregava pincel, e a moça estava dizendo não a todos os professores, aí quando todo mundo saiu, ela olhou para mim, o senhor quer o que? Não, eu ia pedir pincel, mas você está dizendo que não tem. Não, mas para o senhor tem. Eu disse, não, mas todo mundo estava pedindo. Não, é porque só tem um. Mas por que você não deu ao primeiro? Porque são um bando de arrogante que maltrata a gente aqui, olha para a gente como se fosse bicho, e o senhor é uma pessoa atenciosa, sabe o nome. Aí você veja, é uma pequena demonstração desse good will que você falou aí, que essa corrente do bem, ela vai voltando para você, e não necessariamente o Hem que eu faço a Luciano, vai ser Luciano que vai me devolver. Então assim, é muito o que você vai plantando, e essa energia vai voltando para você, as pessoas, elas têm essa visão de networking muito achando que tem que ter tudo muito objetivo, na oferta e na procura e que tem que dar resultado, e tem resultados que eles vêm no momento que você necessita, que eu acho que eles são os melhores, você plantou ali, no momento que você precisa aquilo brota.

Luciano Pires: Exatamente isso, tem gente que dá nome para isso, fala como é que é, o segredo, aquelas coisas, e tem gente que fala, bicho, eu construa uma rede de pessoas que lhe querem bem, acabou, está feito aí. Tem uma frase, não vou lembrar o nome dele agora, eu já usei no programa aqui, eu gosto de usar ela, eu esqueci o nome dele agora, que ele diz o seguinte, quem lhe teme na sua presença, lhe odeia na sua ausência, entendeu? Então, se você não tiver criado essa relação de boa vontade, de good will, na primeira chance vão te puxar o tapete, se puderem te estragar a vida, vão te estragar, entendeu? Então, para que isso, cara?

Rossandro Klinjey: Sabe o que eu descobri conversando com… eu sou uma pessoa que conversa com todas essas pessoas, eu acho que… a não ser que eu esteja muito cansado, e acontece de eu estar no voo cansado, eu vou dormir, mas de repente, eu sei que é uma pessoa que eu nunca vou ver e muita gente olha e me conhece, aí quer desabafar, psicólogo, público, as pessoas aproveitam para fazer terapia em todo canto. E uma vez eu estava conversando com um garçom que tinha conseguido visitar a família depois de muito tempo, juntou um dinheirinho, pegou uma passagem aérea e foi visitar a família, ele me contando, sabe quando a gente está no restaurante, que tem aquele cara que trata você mal, que lhe humilha, a gente vai lá no prato, pega o prato dele, cospe e entrega. E eu lembrei de uma cena, é uma cena de um filme, que inclusive a personagem é a Whooppi Goldberg que faz, que é de um livro de uma autora chamada Tony Morrison, que foi a primeira mulher negra que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, eu acho que é A Cor Púrpura, ela é uma escrava, a Whooppi Goldberg faz…

Luciano Pires: Sim, Spielberg.

Rossandro Klinjey: Exato, ela está lá naquela situação, aí o cara, traga uma limonada. Aí ela, pois não, senhor. Aí vai lá, cospe bem muito, mexe a limonada e entrega. E quando a gente estava falando antes de energia, Luciano, às vezes a pessoa não cospe literalmente na saliva, mas a energia daquela maldade que você deixou, daquela humilhação, da sua prepotência, vai criando uma ambiência e às vezes essas pessoas terminam se comunicando, se juntam, e quando você vê vem uma avalanche de caos na sua vida, e eu vejo pessoas perguntando, o que foi que eu fiz?

Luciano Pires: Você viu o vídeo do Lima Duarte falando do leite?

Rossandro Klinjey: Não.

Luciano Pires: Tem um vídeo do Lima que é uma delícia, que ele explica porque que o leite faz mal para a gente, fala, cara, a humanidade cresceu tomando leite, e nunca foi problema, ele falou, por que que hoje é um problema? Ele falou, porque durante séculos, séculos a vaca produziu leite para o bezerro, e ela produziu leite para o bezerro e o homem pegava o leite e tomava o leite que ela fez para o bezerro, hoje a vaca produz o leite, nego mete uma maquininha lá, tira o leite, e o leite não é mais para o bezerro, não tem mais amor de mãe para filho no leite da vaca. E agora você toma o leite sem amor, por isso que ele faz mal. É muito legal isso aí. Cara, você nasceu aonde?

Rossandro Klinjey: Campina Grande, na Paraíba, a terra que é conhecida como a terra do São João do mundo, para muita gente, é internacionalmente conhecida como um polo de tecnologia, a gente tem a segunda maior base de publicação de artigos científicos do Brasil, saiu inclusive essa semana assim, o índice de cidade de desenvolvimento tecnológico, Campina é a terceira cidade, está acima de São Paulo e de Campinas para você ter uma ideia, muita gente não sabe disso, nos anos 60, houve um presidente do CNPq, que era de Campina Grande, e todo mundo queria faculdade de medicina e de direito, e ele disse não, mas o mundo será tecnológico, ele criou em Campina Grande engenharia civil, mecânica, elétrica, de minas, e nos anos 60, não tinha professor, ele trouxe da Índia e do Paquistão e do Iran, pessoas com pós doutorado nos anos 60. Que até moram lá hoje, essas pessoas moram, virou lá, tem bahai, tem muçulmano, isso foi criando uma cidade de cosmopolita em um lugar pequeno, é uma cidade de médio porte, 400 mil habitantes, mas esse lugar em que você é permeado de muita cultura, então isso impacta qualquer pessoa que mora lá. Hoje, ela é também conhecida como a terra da Juliette, mas também a terra da Elba Ramalho, a terra de muita gente boa, do jogador Hulk, mas é uma terra de pessoas que têm o conhecimento como o lugar da transformação, então nascer em Campina Grande foi um privilégio nesse sentido.

Luciano Pires: Você tem irmãos?

Rossandro Klinjey: Tenho quatro irmãos, tem um irmão mais velho e tenho dois mais novos.

Luciano Pires: O que que o seu pai, sua mãe fazem, faziam?

Rossandro Klinjey: Faziam, ambos não estão mais por aqui, meu pai trabalhava com meu avô que tinha uma indústria de fabricação de máquinas de fribrar inint 15:08 e algodão, meu avô era um autodidata, se fosse um homem que morasse no Vale do Silício, era multimilionário, porque ele criava coisas, mas aqui não é um país que ajude as pessoas que empreendem, aqui a gente trabalha mesmo para poder dar certo, mas é um inventor. Mas meu pai, ele foi uma pessoa que durante a sua juventude usou muito álcool, e isso terminou repercutindo, e ele com menos de 50 anos morre como repercussão desse álcool. Minha mãe, ela faleceu também cedo por consequência de lúpus, faz mais ou menos uns oito anos que ela morreu, com 67 anos, bem atípico, porque os mais dos meus pais morreram com mais de 90 anos, então escolhas que eles fizeram, minha mãe fumava muito, meu pai bebia muito, então essas escolhas deles impactaram a saúde deles. No entanto, o que eles contribuíram na minha vida, especialmente a minha mãe foi muito transformador.

Luciano Pires: A tua mãe trabalhava com alguma coisa?

Rossandro Klinjey: Minha mãe era jornalista, ela tinha programa de TV, programa de rádio, fazia o editorial do jornal e ainda era secretária do superintendente do Diários Associados da minha cidade, nos anos 60, 70, então era assim muito multimídia naquela época. E era também um estresse, porque ela ganhava mais do que o meu pai e naquela época, se hoje já é uma coisa difícil de administrar, naquela época…

Luciano Pires: Nos anos 60, ela era jornalista nos anos 60?

Rossandro Klinjey: É.

Luciano Pires: Diários Associados?

Rossandro Klinjey: Diários Associados lá.

Luciano Pires: Para quem está nos escutando aqui, você que nasceu ontem, ou que mora em Nárnia, nos anos 60, Diários Associados era a Rede Globo dos anos 60.

Rossandro Klinjey: Quem dominava, que era um paraibano, Assis Chateaubriand.

Luciano Pires: Os grandes jornais da época lá. Você… teu apelido quando você era criança?

Rossandro Klinjey: Minha mãe me chamava de Dindo, acho que nunca contei isso para ninguém, vai pegar logo esse.

Luciano Pires: É bom, porque tem um porquê essa pergunta.

Rossandro Klinjey: É Rossandro, Rossandrinho, aí Dindo, foi diminuindo.

Luciano Pires: O que que o Dindo queria ser quando crescesse?

Rossandro Klinjey: Cara, o Dindo quando era pequeno queria sobreviver, porque nós tínhamos privação alimentar e tinha um pai alcoólatra, e minha mãe não deixava ele bater na gente, a ideia era o seguinte, você pode bater em mim, mas se bater em um filho meu, aí você morre. E ele sabia que ela matava mesmo ele, então. E ver isso não é uma coisa agradável, então naquele momento o Dindo queria sobreviver, o Dindo queria ir para o guarda-roupa para não ouvir aqueles barulhos, e Dindo não entendia, porque eram duas pessoas que ele amava, e ao mesmo tempo aquele sentimento era muito doloroso.

Luciano Pires: Seus irmãos são mais velhos ou mais novos que você?

Rossandro Klinjey: Eu tenho um irmão mais velho, que é irmão de pai e de mãe, depois meus pais se separaram, minha mãe com 26 anos separou de meu pai, eles se casaram com 16, 17, que era uma coisa muito comum no passado, mas muita imaturidade, mas ousaram fazer uma família e tenho muita gratidão a ambos, meu pai hoje é uma pessoa muito apaziguada no meu coração em termos de amor, de perdão, de compreensão, de tudo o que aconteceu, pelas coisas que ele fez. Então, em um primeiro momento era sobreviver a esse ambiente que era difícil, que era caótico. Depois minha mãe se separa, e ela se separa com 26 anos, em 77, então um preconceito enorme, ela termina sendo expulsa de casa pela mãe, que não aceita uma filha divorciada.

Luciano Pires: Com dois filhos já?

Rossandro Klinjey: Com dois filhos, e aí eu fico morando com meus avós maternos, meu irmão vai morar com meus avós paternos e minha avó vai morar na Bahia, em Feira de Santana, e a família é dissolvida, até o meu cachorro eu perco, pai, mãe, irmão, de repente eu estou na casa dos meus avós.

Luciano Pires: Que idade você tinha?

Rossandro Klinjey: Tinha seis, foi bem hostil, e aí você vai morar com dois idosos que dormem seis da noite, que apagam a luz, então. Mas mesmo assim, meu avô era um ser humano amoroso, era um poeta que lia Kalil Gibran para mim, eu sempre estava lendo, tudo o que acontecia, eu não deixava de registrar a dor de cada evento, mas eu também não deixava de ver o que estava sendo trazido para a vida, para a minha vida, meu avô doce, minha avó era uma pessoa difícil, mas foi ela que me ensinou a amar o natal, por exemplo, adoro o natal. Então, eu sempre conseguia ver das pessoas as duas coisas que todo mundo tem, as limitações e aquilo que cada um vai entregar.

Luciano Pires: Eu pergunto essa história do apelido, da criança, do pai e da mãe, tudo, porque eu gosto de entender quais foram as influências, então você falou, meu pai trabalhava com meu avô em uma indústria, minha mãe era jornalista, letras aqui, indústria lá, como é que vai dar um cara, como é que vai dar um acadêmico? Aí bota o avô na jogada, opa, entrou o avô, o avô já trouxe o lado da literatura e tudo mais.

Rossandro Klinjey: Meu avô trouxe a literatura, ele gostava de poesia, fazia poesias, então esse ambiente em que… ele era caminhoneiro, meu avô, então assim, mas era um homem muito doce, meu avô era uma pessoa que todo mundo na rua chamava de vovô, ele era muito acolhedor e minha avó era o oposto do meu avô, era como se fosse Gandhi casado com Perpétua, de Tieta do Agreste, entende? Era bem engraçado, porque minha avó era hostilizada por todo mundo e meu avô amado por todo mundo. E uma vez eu perguntei para o meu avô, como é que você casou com vó? Porque ela era difícil, minha avó materna era muito difícil. Ele foi e mostrou uma foto dela com 16 anos, eu também caía nessa, era linda. Ele era muito bonito, ele era um homem bonito, e ela era muito bonita também, e aí eu disse, e o senhor? Ele disse, olha, o que você imaginar que eu tentei para ver se essa relação melhorava, eu desisti, e aí a minha percepção é a seguinte, meu filho, ele dizia assim, eu vou carregar essa cruz até o fim, eu não vou largar no meio do caminho, não. E ficaram juntos até… ele morreu com 94 anos, acho que um ano e meio depois ela também morreu com 94 anos, ele tinha um ano de diferença, ela era professora primária, tinha uma letra linda minha avó.

Luciano Pires: Deixa eu aproveitar o embalo que você deu aqui, o programa aqui é o seguinte, de vez em quando a gente dá uma desviada, desvia e depois a gente volta para o caminho aqui, você falou um negócio aqui que me remeteu para uma coisa que aconteceu comigo recentemente aqui, que acho que vale a pena a gente trocar uma ideia. Outro dia eu estava trabalhando, apareceu uma foto colorizada do Charles Chaplin, é uma foto maravilhosa, é uma foto que bateram de frente para ele, ele está olhando para a câmera, sem maquiagem nenhuma, ele como… não como o personagem, o vagabundo, mas ele como Charles Chaplin, com 27 anos de idade, já tinha feito 50 filmes até então, estava começando a explodir, a foto é linda porque tem uma expressão no olho, e pouquíssima gente viu isso, eu peguei aquela foto e publiquei no meu Facebook, aqui, Charles Chaplin aos 27 anos, já tinha feito 50 filmes, é fascinante mergulhar nesse olhar dele, esse era o meu post. Meu, a área de comentários virou uma loucura porque entraram várias pessoas acusando-o de pedófilo, esse pedófilo, porque é um pedófilo, e muita gente, pedófilo, pedófilo, por que pedófilo? Porque você vai ver a história dele, porque ele casou duas ou três vezes com garotas de 15, 16 ou 17 anos.

Luciano Pires: Que era comum naquela época.

Rossandro Klinjey: Pedófilo, e quebrou o pau, virou uma loucura a área de comentários, onde o artista que… eu não consigo botar nos dedos de uma mão do Lula, da mão esquerda do Lula quatro nomes que tenham impactado o cinema ou o mundo pelo cinema, como o Chaplin fez, quem que eu consigo botar lá? É o Chaplin e quem mais? Eu não consigo, quem mais causou o impacto que ele causou aí. E tudo isso você desconsidera porque o cara é um pedófilo. Eu olhei para aquilo e falei, mas cara, espera um pouquinho, aí fiz um segundo post, por favor, eu fui inspirado pelo post do Chaplin, e eu queria que você que está me lendo, me dissesse com que idade seu avô e sua avó se casaram, aí o pessoal começou a vir e a maioria, assim de longe, 16, 17, 15, 14, 13 anos de idade, porque em 1916, 1914, isso era muito normal, você acabou de falar, meu avô e minha avó, 17 e 16 anos, e no entanto os caras com o olhar se hoje, com o pensamento de hoje, olham para 100 anos atrás e acusam o cara de ser pedófilo, porque ele tinha 24 e casou com uma menina de 15, como se fosse uma coisa normal. E não era cara, você não pode analisar a história da humanidade com os valores de hoje.

Rossandro Klinjey: Sempre que você faz esse retrocesso no olhar, você tem que considerar as variáveis que faziam parte disso, não a ponto de escusar o que era escusável até nos dias passados, esse não parece ser o caso, mas por exemplo, às vezes você faz um olhar sobre o passado de coisas que realmente são deploráveis, por exemplo, embora na época da escravidão as pessoas achavam natural, era deplorável isso, então a gente pode sempre olhar para o passado com um sentimento de muito desprezo por quem acreditava ou quem viveu ou era conivente, ou quem silenciava, ou quem silenciava diante disso. Mas em um caso como esse realmente era um padrão, meu pai casou, meu pai tinha 17, minha mãe 16, eles tinham uma idade próxima, mas era muito comum se casar com pessoas… as pessoas não tinham essa visão do cuidado com a infância, do trabalho infantil, de olhar para preservar e amadurecer mais, entrar em uma jornada que a gente sabe que é desafiadora de um relacionamento a dois. Então assim, acho que é importante a gente sempre considerar isso e outra coisa também é o fato de que, sim, acontece… eu por exemplo, eu fiz uma homenagem a Pelé quando ele faleceu, e também muita gente entrou assim, ah abandonou o filho. E eu sempre digo assim, cara, é muito fácil a gente pegar qualquer ser humano na sua humanidade e perceber que falhou, eu não concordo com o que ele fez, mas isso não tira o mérito do que ele construiu como trajetória de ser humano, ter sido um atleta negro em um país ainda muito racista que conseguiu um espaço muito significativo, então assim, a gente tem que às vezes pensar que… Freud dizia uma coisa muito interessante, sabe, quando João fala de Pedro, João fala mais de João do que de Pedro. Quando eu sou incapaz de enxergar a grandeza do outro porque eu só olho a sombra, eu entrei em contato com essa sombra por causa da minha, então assim eu não vou desconsiderar que ele abandonou uma filha ou filho, sei lá, não lembro exatamente se era um menino ou uma menina, é um erro enquanto pai, mas isso não deixa de… eu não posso invalidar, eu posso fazer um comentário no post, eu acho assim, olha, eu respeito Charles Chaplin, mas eu acho que ele ter casado, aí você vai lá e argumenta, mas você sabe que era muito comum no passado? Ou então, a pessoa chegar no post lá com Pelé e dizer assim, realmente fez uma grande contribuição, um grande esportista, mas lamentavelmente como ser humano, nesse ponto, porque é um ponto específico, ele não falhou como ser humano totalmente, nesse ponto específico, eu acho que ele falhou, eu concordo, eu acho que você está certo, ele falhou nisso aqui, e de fato, eu estou falando aqui da personagem pública que fez a gente ter tantas alegrias no Brasil.

Luciano Pires: E que é admirável, isso é admirável.

Rossandro Klinjey: É porque se a gente for… sabe aquela cena da mulher adúltera? Cara, todo mundo tem um telhado de vidro, se for nessa coisa, ninguém merece um post de elogio no mundo porque vai ter sempre uma sombra para acusar.

Luciano Pires: E quanto mais genial a pessoa for, eu tenho uma tese que… não incomoda, mas é o seguinte, quando você é gênio em alguma coisa, você usa os recursos do seu cérebro na genialidade, e você acaba deixando aberta algumas áreas, então o cara é um pintor genial, mas é um pedófilo, o outro é um cientista maravilhoso, mas bate na mulher, o outro é um escritor maravilhoso, bebe que nem um gambá e morre de bebida na frente, a outra é uma poetisa maravilhosa que se suicida por não suportar a vida, então é desbalanceado, o gênio não dá para você ser um tenho equilibrado.

Rossandro Klinjey: É raro, a gente teria aí biografias muito raras em que a gente apontaria pessoas que teve uma contribuição passando do normal para a genialidade, seja na música clássica, na filosofia, que não foi uma pessoa que não foi desprovida do que a gente chamaria hoje de inteligência emocional, ela tinha um QI muito avançado e até isso por si só já é uma coisa angustiante, porque se você tiver conversando com alguém que tem uma capacidade de análise acima da média, que não é nem um gênio, acima da média, essa pessoa é incômoda, porque ela vai dizer coisas que você não vai entender ou vai dizer coisas que você vai discordar, mas ela está antecipando cenários que quando acontece, você acha que ela desejou, ela apenas previu. Então, se você pegar profetas, por que que os profetas eram odiados na Judéia, no antigo testamento e tal? Porque eles diziam o que ninguém queria ouvir, e faziam previsões e eles eram muito duros.

Luciano Pires: Sócrates morreu assim, morreu por causa disso.

Rossandro Klinjey: Morreu também do mesmo jeito. Aí você fala alguma coisa assim, quando eu hiperdimensiono um aspecto cognitivo, e aí uma coisa que eu falo muito para as pessoas, inclusive nas escolas é, se eu hiperdimensiono os aspectos cognitivos do comportamento humano, eu hipertrofio os aspectos emocionais, e a gente, por exemplo, uma pessoa que altamente mudou a história humana e da tecnologia como Steve Jobs, mas que trabalhava com ele odiava, porque ele era uma pessoa hoje completamente tóxica, ele ia ser chamado de um líder altamente tóxico, então assim, é uma pena porque vai que de repente essa própria toxidade se voltou contra o organismo dele depois, ele adoece com um fígado, no pâncreas. Mas de fato, quando a gente vai analisar uma pessoa, a gente… eu acho que eu sempre tenho que analisar uma pessoa baseado assim, como é que eu gostaria que me vissem, eu gostaria que me vissem só nos meus aspectos da queda ou queria que me vissem integralmente, eu gostaria que me vissem só aquele ponto que eu também falho, ou que é, por exemplo, a política do cancelamento é pegar um comentário seu, um post e que tirado de um contexto, e hoje no mundo da internet não tem mais contexto, você tem que estar sempre pensando podem tirar essas minhas falas do contexto, e aí pegar você e cancelar. E aí tem, obviamente, a turba das pessoas que tem uma vida muitas vezes infeliz e que aproveita aquele momento para jogar todo o ressentimento que tem com a vida, que são as pessoas que amam odiar, e aí a internet também deu voz a todo mundo, é uma coisa boa, democrática, por um lado, mas sem sombra de dúvidas, deu voz à muita loucura.

Luciano Pires: Está insuportável, a área de comentários de rede social é um negócio…

Rossandro Klinjey: Uma vez eu estava conversando com João Carlos Paes Leme, ele tem a Play 9 hoje, a Play 9, que é uma grande empresa de comunicação, ele, Rossandro, antigamente quando as pessoas queriam fazer um comentário contra, por exemplo, Galvão Bueno, qualquer pessoa da Globo, eles ligavam para o SAC, e esculhambava, só que a gente não passava isso para o… não chegava, só que hoje em dia você tem sua rede social, você publica uma foto lá, quando você vê tem trocentas pessoas metendo o pau em você, e isso afeta a saúde mental.

Luciano Pires: Passa pela cabeça que nós teríamos um Machado de Assis nos dias de hoje, cara?

Rossandro Klinjey: Difícil.

Luciano Pires: Que o cara vem e ele escreve, e naquela época você não tinha o retorno que nós temos hoje em dia, então, como é que eu podia me manifestar sobre uma poesia de Carlos Drummond de Andrade? Cara, eu ia escrever uma carta para ele, provavelmente eu ia mandar lá para o Diário de Minas, um jornal, e esperar que chegasse nele, esse cara não sofria o impacto que nós sofremos hoje em dia, tanto que eu digo, a minha geração de escritores, ela sofre um tipo de pressão que nenhum dos grandes escritores teve.

Rossandro Klinjey: Escrevia, a obra… às vezes o impacto que ela provocava, até o positivo também não era tão visto assim.

Luciano Pires: Quem?

Rossandro Klinjey: Até o impacto positivo também não era tão visto porque você não tinha um contato tão grande com o seu leitor, a não ser que fosse um vizinho, um amigo e tal. Isso tem um problema que é o seguinte, Luciano, de fato, termina ficando muito tóxica a relação, a vantagem, que eu sempre gosto de olhar esses aspectos, é eu também tenho a oportunidade de me corrigir mais rápido, por exemplo, se eu estou comentando um equivoco e eu estou em uma rede social, a reação de um público, porque quando eu faço um post que de repente vem uma galera com comentário desfavorável ao post, eu olho e vejo a primeira coisa, estatisticamente, então aqui tem, sei lá, quatro mil comentários nesse post que eu fiz, e tem cinco pessoas aloprando aqui, isso é irrelevante estatisticamente, ou então tem uma crítica mais…

Luciano Pires: Isso porque você não é o diretor de marketing da Rossandro, se você fosse, para tudo, por causa dos 5, cara, são só 5, bicho, não importa, para tudo.

Rossandro Klinjey: São 5 e eu respondo, sabe, vou lá, porque o que acontece muito também é assim, às vezes eu coloco uma fotografia ou uma frase e tem um texto embaixo, as pessoas não leem o texto, elas começam a atacar a frase, aí eu faço o comentário, você já leu o texto? Porque elas estão atacando uma coisa que no texto eu já tinha concordado com ela, leia o texto.

Luciano Pires: Você imagina que faço uma chamada de um podcast, publico e os caras vê, eu falo, bicho, você ouviu o podcast? Você assistiu o vídeo? Por favor, eu fiz uma chamada para algo, você vá, leia, assista o algo e depois você vem e comenta. Não adianta, não adianta.

Rossandro Klinjey: Não, porque as pessoas querem lacrar, tem uma necessidade, e isso eu acho, uma coisa para a gente refletir, que movimento tem em mim que tenho a necessidade de atacar o outro assim, pessoas que eu não conheço, aquela vontade de… então, por que que essa necessidade está em mim, do que que ela fala? Eu quero ter uma visibilidade vicária, ou seja, por tabela naquele post, eu quero ter uma atenção que eu talvez não tenha na vida, não é o lugar para você construir autoestima, lacrando.

Luciano Pires: Você sabe que eu vi uma pesquisa há um tempo atrás que o cara fez uma… eles fizeram uma experiência onde eles examinaram a reação que a pessoa tinha diante de uma determinada plateia, e aí uma plateia era de gente que era evidentemente, intelectualmente inferior a pessoa que estava falando, e aí pegava uma plateia que era evidentemente superior intelectualmente a quem estava falando, a reação de quem estava falando quando pega uma plateia intelectualmente superior é de atacar diretamente, porque no ataque, ela consegue tentar se colocar em um nível de igualdade, então ela bate, ela fala mal, para se igualar ao outro, nunca é para… quando vê que é intelectualmente menor, tranquilo, vou na boa, não xingo, não brigo, mas se houver uma ideia de que esse cara é um pouco a mais que eu, eu ataco, que é para tentar nivelá-lo a mim.

Rossandro Klinjey: Aí é ego, é a sensação de eu vou te diminuir para ver se a gente fica do mesmo tamanho.

Luciano Pires: Isso aí. Deixa eu voltar lá atrás, voltamos no nosso desvio aqui. Você então, como é que era mesmo o apelido?

Rossandro Klinjey: Dindo.

Luciano Pires: O Dindo queria sobreviver.

Rossandro Klinjey: Depois que passou essa fase…

Luciano Pires: Aí se resolve o que, queria ser o que na vida?

Rossandro Klinjey: Cara, então, eu tenho déficit de atenção e hiperatividade, e isso representou que eu tinha uma dificuldade enorme de estudar, quando minha mãe separou, que fui morar com meus avós, minha avó, ela batia em mim todos os dias para estudar, então se eu já não gostava de estudar, eu passei a odiar estudar profundamente, tinha uma relação péssima com a escola, para mim era um lugar de tortura, porque com déficit de atenção e hiperatividade não é, porque nem tinha diagnóstico para isso, nem tinha remédio para isso. Então, a visão que as pessoas tinham dele, era inviável como uma pessoa que vai aprender. Então, eu comecei a acreditar que eu não aprenderia mesmo nada e comecei a imaginar profissões que eu pudesse sobreviver sem leitura, então eu imaginava que eu seria gari, aí uma vez eu queria ser padre, mas padre tem que ler na missa, eu já era letrado, mas era uma catequese tão grande que eu era inviável como aluno, que eu acreditava que eu tinha que escolher uma profissão desprovida do saber. E aí depois de um tempo minha mãe volta da Bahia, quando eu tinha 12 anos e a gente vai recomeçar a nossa vida, meu irmão vai lá e diz, volta, que a gente não está mais aguentando, eu estou vivendo em uma casa, Rossandro em outra, volte, e ela volta para enfrentar todas as dores, todos os traumas dessa mãe que abandona a relação completamente difícil.

Luciano Pires: Ela volta como, qual foi o gatilho?

Rossandro Klinjey: Ela voltou porque a gente pediu para ela voltar, aí ela consegue um emprego na prefeitura de Campina Grande, porque ela fazia um trabalho lá, ela fazia a micareta de Feira de Santana, ela trabalhava na Secretaria de Cultura, ela volta para a Campina Grande, vai trabalhar na secretaria de educação de Campina, salário baixo, que infelizmente, jornalista nem é essas pessoas que ganham muito hoje, imagina no passado. Aí ela volta a fazer jornalismo.

Luciano Pires: Seu pai estava vivo?

Rossandro Klinjey: Estava vivo, já tinha casado novamente, tinha dois filhos, a gente não tinha contato com esses dois irmãos. E aí nesse processo todo minha mãe chega e ela olha para mim e diz assim, você vai dar certo, você vai dar certo, sabe por que eu coloquei o seu nome como Rossandro Klinjey? Não. Porque eu sonhei quando eu estava grávida de você, que você seria uma pessoa que daria palestra no mundo todo. Aí eu dizia, você é louca. Não, não sou louca, você vai ser essa pessoa. Não vou, não gosto de estudar. Não, você vai ser essa pessoa, porque eu vi. Ela tinha uma capacidade realmente espiritual, de visão muito interessante dela, e eu não compreendia isso, e ela dizia assim, agora você vai fazer do seu jeito, porque um dia ela chegou perto de mim e percebeu realmente que eu não gostava de estudar, ela chegou assim, meu filho, olha, eu percebi que você não gosta de estudar. Eu disse, não, mãe, não é que eu não goste, eu odeio, é diferente. Pois é, eu percebi que você não gosta de estudar, e eu não sei se você sabe, meu filho, mas você já percebeu que a gente é pobre? Claro, não tenho a menor dúvida disso. Então, você tem sonhos? Tenho. Ah então senta aí, me conta teus sonhos. Ela mudou de assunto, como tu fez aqui, esse giro, aí eu comecei a contar tudo o que eu queria. O que que você queria ter, meu filho? O que que você queria vivenciar como experiência? Aí eu comecei com as minhas listas de adolescente, queria um All Star vermelho, eu queria um relógio Cássio de pulseiras coloridas, eu queria um dia comprar um Escort Hobby, lembra?

Luciano Pires: Lembro.

Rossandro Klinjey: Eu queria um Escort XR3 vermelho, nossa Ferrari, conversível, e ela olhando, olhando para mim, sorrindo, eu queria viajar o mundo, queria casar com uma mulher linda. Aí ela fez, meu filho, quem vai te dar tudo isso que você está sonhando? Porque eu não tenho dinheiro para você, eu já deixei claro para você aqui que a herança que eu vou deixar para você é conhecimento e Deus, eu vou deixar para você e para o seu irmão, Deus e o conhecimento. Então, ela fazia um esforço absurdo assim para pagar a escola para a gente particular, porque ela não tinha condição, mas ela negociava, e bolsa, e aquela coisa toda, ela fazia coisas incríveis assim para dar conta, tem uma cena bem interessante, Luciano, foi assim, aí voltando antes, eu tinha cinco anos, eu tinha asma, meu pai estava viajando, ela chegou no hospital, uma amiga disse, olha, tem um hospital aqui que tem um tratamento inédito que cura asma, leva teu filho lá, ela levou, a amiga disse assim, mas ele é tudo particular. Aí ela assim, me empresta uma roupa sua, e deixa seu motorista me deixar lá? Ela chegou no carro com o motorista dessa amiga, com a roupa dessa amiga, e tinha que dar um calção, lembra, um cheque para poder ser internada, disse, meu marido é um homem rico, está viajando, então ele vai pagar, o senhor pode ficar tranquilo. Tem certeza? Tenho. Aí olhou minha mãe em um carrão, um Opala na época, o motorista esperando, a mulher rica mesmo, aí realmente, me internou, toda vez ela me visitava, passei 14 dias internado, ela me visitava, e aí cadê o dinheiro? Não se preocupe, meu marido vai vir, ele está chegando, ele está em São Paulo. Meu pai estava em uma cidade no interior da Paraíba. E aí quando foi no décimo quarto dia, eu estava realmente curado da asma, um tratamento bem interessante, minha mãe chegou lá, foi me pegar. Doutor, ele está curado? Tá, não têm mais não. Então, o senhor pode me prender, porque eu não tenho dinheiro nenhum, eu sou pobre, eu menti para o senhor. Essa é uma irresponsável, não sei o que, só que ele não fez nada, ele ficou gritando e ela me pegando no colo feliz que eu estava curado. Ela olhou para ele, disse, um dia eu lhe pago essa conta, não vai ser hoje, mas eu lhe pago. E como foi que ela se tornou jornalista? Antigamente não tinha um curso, ela foi publicar um artigo em homenagem ao meu avô, chamado Pai de Ouro, quando ela chegou lá, fez um artigo, queria pagar para botar essa homenagem ao meu pai, o superintendente do Diários Associados viu e disse, quem é essa mulher? Ela estava com, acho que… eu tinha cinco anos, ela estava com 16, 21 anos, aí você quer trabalhar comigo?

Luciano Pires: Pelo texto dela, pela qualidade do texto.

Rossandro Klinjey: Eu quero que você escreva para o jornal e quero que você seja minha secretária. Ela começou a escrever, então ela era aquela jornalista que começou como… espontaneamente ali pelo talento dela. E aí esse hospital, o nome era Samic, precisou fazer uma campanha publicitária, aí o cara disse, tem um hospital aqui, Samic, fazer uma campanha publicitária, eu preciso pagar essa campanha, não vai ser o hospital não, eu quero que o senhor me deixe pagar, porque aconteceu isso. Aí contou a história todinha que eu tinha tido asma e que eu tinha sido curado, que ela não tinha pagado essa conta, aí ela foi, eu tenho a foto disso, eu fui o garoto propaganda dessa campanha. Aí ela preparou tudo, levou, porque ela também atendia publicidade, chegou lá, apresentou para o diretor do hospital, ele não reconheceu ela. Ah, essa criança está linda, que foto linda, perfeito, quanto é que ficou a campanha? Você não vai pagar nada. Como não vou pagar nada, é muito caro. Associados, jornal, TV, não, o senhor não vai pagar nada, o senhor lembra que há três anos atrás veio uma mãe aqui, que tratou uma criança, que foi embora sem pagar? Lembro. Sou eu, estou pagando hoje. Aí eu fui o garoto propaganda, minha mãe pagou com… ela passou acho que uns dois anos pagando do salário dela uma campanha publicitária de jornal, de TV e de rádio, para pagar esse homem.

Luciano Pires: Parece história de palestrantes.

Rossandro Klinjey: Então assim, essa coisa assim dessa pessoa que via, acho que essa coisa assim, quando ela olhou para mim com todo mundo dizendo que eu não ia dar para nada, que ela escutava muito isso, e ela disse assim, você vai ser uma pessoa legal, porque eu sou sua mãe, a minha palavra é que importa, eu sempre digo assim, quando alguém que te ama empresta para você um olhar de uma fé que você não tem em você mesmo, o poder que isso tem.

Luciano Pires: Tem um vídeo que circula nas redes aí, sabe quem é o Harry Styles, hoje é o cara, tem um vídeo dele molequinho, com 15 anos de idade, ele está naquele programa de Ídolos lá, não me lembro como é que era, um programa dos Estados Unidos e tem lá o Simon, que é o jurado principal lá, e ele vai entrevistar, esse trechinho está bem lá, e ele vem, o que que você faz? Ah, eu trabalho em uma padaria, sei lá, eu sirvo pão, qualquer coisa assim. E o que que você quer ser? Eu quero ser um grande artista, eu vou ser um grande cantor. Por quê? Porque minha mãe disse para mim que eu ganho muito bem. E aí o Simon vira para ele e fala assim, mães normalmente não acertam. E aí corta para a cena dele dentro de um estádio, o mundo inteiro, o moleque cantando, que é esse lance, de alguém, uma palavra certa, na hora certa pode mudar a vida das pessoas, se essa palavra vier de alguém que você respeita.

Rossandro Klinjey: Você sabe que tem uma pesquisa feita pela universidade de Harvard, é uma pesquisa dessas que é um livro chamado As 10 Experiências Psicológicas Mais Marcantes da História Humana, que o nome é Mente Cérebro, e é uma escritora americana que vai atrás de grandes experiências feitas depois da Segunda Guerra Mundial, para entender nazismo, e nessa a experiência foi feita assim, a universidade de Harvard aplicou um teste em uma escola pública americana, comum, que esse teste localizava as crianças deficitárias mesmo, mas eles disseram não, essas crianças são melhores, elas são…

Luciano Pires: O teste apontava crianças…

Rossandro Klinjey: Que eram deficitárias cognitivamente. Mas o que que eles diziam, essas crianças, elas são melhores para os pais e para os professores. Não, eles são os que tiram nota baixa. Não, eles são bons, é porque vocês não estão sabendo agir com eles. O verdadeiro objetivo dessa pesquisa era, e se eu disser para esses pais e para esses professores e professoras, que esses meninos são bons, eles vão mudar o olhar? E se eles mudarem o olhar e a atitude, isso vai repercutir nessas crianças? No ano seguinte, essas crianças estavam entre as 100 melhores alunas da escola, 25 anos depois, foi acompanhado, se tornaram os mais bem-sucedidos profissionais. Em algum momento é como se alguém dissesse assim, não olhe com descrença para essas pessoas, que elas precisam do seu empréstimo de fé para que elas construam sua própria identidade. Então, é óbvio que quando uma mãe, quando um pai faz isso, muda uma trajetória, quando um professor faz isso também muda uma trajetória.

Luciano Pires: Eu tenho uma palestra minha que eu faço, que eu faço um exercício com a plateia que é uma delícia, eu estou falando exatamente dessa coisa, sabe? De você impactar a vida dos outros, e eu falo, cara, vamos ver, vamos fazer um desafio para vocês, pensem aí, vocês aí longo da carreira de vocês, se você estudou, se você se formou em uma universidade e tudo mais, você teve ao longo da sua vida, sei lá, 100, 200 professores, você consegue me dar o nome assim de cara de 5 quer foram os que mais impacto causaram na tua vida? 5, eu não sei, mas três eu acho que eu consigo. A plateia fica… muito bem, agora me diz, escolhe aí, fulano, quem é? Ah, o professor Osvaldo, professor de matemática. Legal, por que que ele ficou gravado na tua história para o resto da vida? Nunca é, ninguém diz que é porque ele dava aula de matemática com uma competência maravilhosa, nunca é, esse cara impactou porque ele me tratou de um jeito, ele mostrou para mim que ele se importava comigo, ele era meu professor de geografia, e entrou na história da minha vida porque ele se importava comigo, a geografia deixa de lado, não importa, era por essa postura de, como é que é? Vou usar o Avatar, ele chegava e falava, I see you, era exatamente isso, eu vejo você, você importa para mim, importa tanto que eu estou de alguma forma te orientando aqui. E nunca era a competência técnica.

Rossandro Klinjey: Isso não é um líder servidor? Não é um nome assim, que as pessoas sempre acham que é uma coisa bem simplista, eu vou botar o tapete para o outro passar, não é isso, eu vou… e a gente em uma sociedade que a atenção é comodities emocional mais cara que existe, a gente está aqui, por exemplo, em um momento único, a gente está aqui olhando um para o outro, sem um celular por perto, distraindo, isso é uma coisa tão rara de acontecer, e por isso a gente está podendo dialogar, conversar, puxar passado, histórias que eu nunca nem contei, e isso é uma coisa muito importante, mas quando você fez essa experiência, você falou disso, e eu já tive a oportunidade de agradecer publicamente, e sempre que posso, faço isso a dois professores que marcaram minha vida, foi a professora de OSPB, Suzana, que hoje é professora de geografia em João Pessoa, e meu professor de psiquiatria…

Luciano Pires: Atenção, você que vive em Nárnia, e que nasceu anteontem, OSPB é organização social e política brasileira.

Rossandro Klinjey: Que substituiu moral e cívica.

Luciano Pires: Que hoje é… quando você fala esse nome aí, os progressistas conseguiram, não, que absurdo, e para nós isso foi de uma importância fundamental.

Rossandro Klinjey: Foi, e ela era uma pessoa incrível, Suzana, e depois Edmundo Gaudêncio, que ainda é hoje, uma pessoa que marcou gerações de psicólogos e médicos e médicas na minha cidade, que é uma pessoa incrível, que é um ser humano de uma cultura, e que dava uma aula que ninguém piscava o olho, e que você queria levar para casa para contar aquela história, e era amigo da minha mãe, inclusive, por causa dele, eu fiz psicologia, porque quando eu estava fazendo vestibular, ele foi na casa da minha mãe tomar um vinho lá no natal, e eu comecei a falar com ele sobre o tema e coloquei psicologia, ele veio a ser meu professor, a esposa desse fez mestrado comigo depois, a Mércia. Então assim, de fato teve um monte de professor que foram lá, cumpriram o papel deles, pedagogicamente, alguns nem isso, eram medíocres e que ensinaram a mim o que não ser como professor, ter esse método. Mas tem essas pessoas que marcaram, e eu acho que… olha que interessante, porque o professor que chegou na minha vida, os medianos, os medíocres e os bons, eles vão mostrar para mim caminhos, e eu vou escolher se eu vou ser mediano, medíocre ou bom, porque em toda relação, seja com pai, com mãe, com parente, com professor, vai ter essas pessoas, quem é que eu vou escolher imitar e depois me assenhorar do meu próprio método?

Luciano Pires: Ou escolher que você não quer ser igual. Você tem o exemplo do teu pai, você falou, cara, eu não vou, eu vou ter uma vida saudável, não vou beber, porque eu vi, meu pai mostrou para mim aquilo que ele não… sabe um negócio interessante que você está colocando aí, cara, que é o seguinte, você está contando uma história de Campina Grande, no interior da Paraíba, nós estamos aqui na cidade de São Paulo, na grande São Paulo, onde as coisas acontecem, as coisas não acontecem fora de São Paulo, é aqui que o mundo acontece, cara, quem vai mudar a tua vida não é o Harry Styles, não é ele, o Harry Styles nem sabe que você existe, e dane-se, quem vai mudar tua vida, como é o nome do professor que você falou aí?

Rossandro Klinjey: Edmundo Gaudêncio.

Luciano Pires: É o Edmundo Gaudêncio, que é um professor de Campina Grande na Paraíba, que ele está do teu lado, ele está aí pertinho de você, e essas pessoas que são fundamentais para determinar o caminho na vida da gente, não é o cara que está lá em São Paulo, não é o Harry Styles, ele está do teu lado, ele está na tua cidade, é o teu vizinho, e esse senso da comunidade, de que as coisas mudem, cara, um cara que muda o mundo, você pega um sujeito com a capacidade… pegar o que você citou aí, o Steve Jobs, que muda o mundo, esse cara foi formado em uma pequena cidade com um professor ali do lado dele, esses são os caras que tem esse valor e que podem fazer, e a gente teima a achar que não, é o influencer do YouTube, a influencer do Instagram diz que eu tenho que comer cúrcuma, então eu vou comer cúrcuma, cara, esse povo está longe de você, é perto que está…

Rossandro Klinjey: É um mundo glocal, global e local, e eu acho que eu aprendo no local a manifestar no global, eu aprendo a base, é interessante que quando eu comecei a fazer palestra, mas você mora em São Paulo? Não, eu… hoje eu moro aqui também, eu moro em Campinas e moro em São Paulo. Mas você mora em São Paulo? Não, não, sou de Campina Grande. Mas você estudou em São Paulo? Não, eu estudei em Campina Grande. Mas você fez o mestrado, doutorado em São Paulo? Não, foi em Campina Grande. Há uma estranheza. Eu lembro que eu fiz uma palestra aqui para um setor da economia, estavam os 10 maiores empresários desse setor da economia. Foi em um puta de um hotel aqui em Campos dos Jordão, e quando me apresentaram, a mulher foi ler o meu currículo, não sei o que, todo mundo olhando para mim, Rossandro Klinjey, minha mãe estava certa, botou um nome comercial, ele é da Paraíba… o pessoal fez opa, o presidente do setor fez assim na cadeira, eu olhei aquela cara de constrangimento, foi bem interessante esse dia. Aí eu fiz a palestra e abri para perguntas, aí ele disse, eu posso ser franco? Pode. Cara, quando disseram que você era da Paraíba, eu pensei, vai dar merda essa palestra, mas quem é você, eu não lhe conhecia, que incrível, você ficou chateado com o que eu falei? Não, porque na minha cota, a sua fala é uma fala de ignorância, no sentido de ignorar, o senhor sabe, quando eu faço palestras fora, que eu volto para o Brasil, que eu pego em um avião um americano que está vindo a primeira vez para o Brasil, o senhor já pegou um voo a primeira vez com um americano vindo? Já. Eles não acham que vão pousar em Guarulhos no meio da floresta amazônica e que vai passar um jacaré do Pantanal no meio da pista, eles trazem água porque acham que aqui não tem água potável? Tem. O senhor não acha ridículo? Acho. Pronto, é o mesmo que eu estou achando do seu comentário, porque o senhor não sabe de onde eu vim. Aí quando eu falo que é Campina Grande, uma cidade que é referência, tem a terceira maior concentração de doutores e pós doutores do Brasil, as pessoas não acreditam, porque a vantagem de nascer em um centro menor, é que eu sei quem são vocês e sei quem sou eu, vocês só sabem quem são vocês. Então, no fundo quando você vem de um lugar que as pessoas acham que lá não tem nada, você consegue dimensionar todo mundo e admirar todo mundo e ver a grandeza de todo mundo, eu não tenho a menor pretensão de desreconhecer a grandeza de São Paulo e o que ela representa.

Luciano Pires: E você tem uma vantagem maravilhosa, porque quando você chega lá e fala assim, eu sou o Rossandro da Paraíba, você joga a expectativa lá embaixo, e aí os caras… chega lá e fala, eu sou o doutor Rossandro de São Paulo, formado em Harvard, não sei o que, a expectativa vai lá para cima, aí você faz a palestra, só isso? Você acha que ele entregou…

Rossandro Klinjey: No começo era assim, agora que eu sou conhecido o pessoal já fica esperando com a expectativa alta. Mas eu acho que foi importante isso, e a minha mãe, ela me ajudou também nisso, porque ela dizia assim, olha, quando acontecer isso que eu vejo que vai acontecer, você não pode perder a humildade, porque é feio, é feio ser arrogante, é feio, então tenha cuidado, tenha cuidado, porque eu também lhe conheço, sei do filho que eu tenho, sei das suas fragilidades emocionais, não vá lá ser exibido, sabe, então deixe as coisas fluírem. Ela não estava aqui para ver tudo isso acontecer, ela não conseguiu ver aqui pessoalmente tudo isso acontecer, mas é interessante porque assim, toda vez que acontece, eu penso, mas mãe, tu estava certa, caramba, e eu aqui…

Luciano Pires: Então, mas tinha um garotinho ouvindo ela falar ali?

Rossandro Klinjey: Tinha.

Luciano Pires: Que idade você tinha?

Rossandro Klinjey: Quando ela começou a falar isso para mim, que ela voltou, eu estava com 12 anos.

Luciano Pires: Você está ouvindo o LíderCast, que faz parte do ecossistema Café Brasil, que você conhece acessando mundocafebrasil.com, são conteúdos originais distribuídos sob forma de podcasts, vídeos, palestras, e-books e com direito a grupos de discussão no Telegram. Torne-se um assinante do Café Brasil Premium, através do site ou pelos aplicativos para IOS e Android, você prática uma espécie de MLA, master life administration, recebendo conteúdo pertinente de aplicação prática e imediata, que agrega valor ao seu tempo de vida, repetindo, mundocafebrasil.com.

Luciano Pires: Você era um garotinho de 12 anos que apanhava da avó, apanhou do pai, sei lá, se apanhou da mãe também, ou seja, você tinha lá, você sabia o teu lugar, você sabia o teu lugar, você sabia que se você começasse com birra lá, você ia tomar uma porrada.

Rossandro Klinjey: Não, minha mãe e meu pai nunca me bateram, nem meu avô, só minha avó mesmo.

Luciano Pires: Mas eu estou dando um exemplo, você sabia que você tinha um limite ali, não adianta começar com frescura, com mimimi que você ia tomar uma porrada lá. Hoje em dia, cara, você pega um moleque de 12 anos que se acha e que já quer que seja tudo no colo dele, que tem um pai e a mãe helicópteros, que o protegeram e continuam o protegendo de tudo o que acontece, um diálogo desse, cara, fica quase que impossível, uma mãe chegar para um moleque de 12 anos e ter um diálogo desse, primeiro tirar a atenção dele do celular ou do youtuber que ele está ouvindo, segundo falar para ele, bicho, baixa a tua bola, cara, vai devagar, você não vai ser tão legal como todo mundo diz que é, o mundo lá fora não vai puxar seu saco como você acha que vai ser, tem uma mudança de relação que tem a ver com essas gerações e tudo mais, quando você pega essa molecada hoje em dia, que eu acabei de fazer um programa aqui, fiz uma live outro dia, botei uma coisa sobre os pais helicópteros, essa super proteção cria uma geração de crianças que acham que o mundo… eu vou trabalhar e lá fora o meu chefe vai me tratar que nem mamãe me tratava aqui em casa, e quando descobre que não é assim, desmonta. Como é que você vê isso hoje, cara? Isso não é a razão de grande parte dos problemas que nós estamos enfrentando, cara?

Rossandro Klinjey: É uma das variáveis chaves, inclusive, por causa disso eu abri uma empresa para isso, chamada Educa, que justamente oferece para as escolas e para as famílias, o desenvolvimento da educação socioemocional e da jornada da parentalidade, então parte do que eu vivi na minha infância, da minha experiência clínica no consultório, de ser um especialista em comportamento humano, me fez perceber que nós tivemos um ponto de inflexão na forma de educar os filhos, e não só eu, vários pesquisadores percebem que no momento em que a gente sai das pequenas cidades ou da rua em que nasceu, vai para os grandes centros, a mulher vai para o mercado de trabalho porque descobre a liberdade financeira tão importante, e o respeito que ainda precisa cada vez mais ser afirmada, as crianças, elas perdem esse entorno completo, que quem educava a gente? Era a avó, era a tia, era a vizinha, o irmão mais velho, a irmã mais velha, ou seja, como diz aquele ditado africano, precisa a tribo inteira para educar uma criança, a gente perdeu essa tribo, fomos para condomínios, edifícios, ficamos isolados, os pais trabalhando para caramba, e trabalhando com culpa, achando que tinha que voltar para casa trazendo presentes para suprir essa falta, essa culpa naturalmente usada por crianças, que qualquer criança quer tirar vantagem de tudo, então eu quero presente, eu quero o tênis, eu quero não sei o que, você tem pagar porque você não está aqui, eu não pedi para nascer, aquele discurso todo. E aí se começou a também ter essa sensação, outra sensação que foi tomada, foi a seguinte, imagina, o Rossandrinho lá, fazer assim, porra, eu queria ter o meu All Star vermelho e não comprei, mas meu filho vai ter tudo, e vai ter a Ri-Happy inteira, ele vai ter a Centauro toda, sabe? Então assim, no momento em que você faz isso, mesmo que seja movido por boas intenções, tipo assim, eu tive privações, não sei se você usou, Luciano, roupa dos outros quando você era pequeno.

Luciano Pires: Eu não, porque eu era primogênito, a minha irmã sim.

Rossandro Klinjey: Usou. O que que a gente descobre quando a gente é pobre? Pobre não troca de roupa, a roupa que troca de pobre, ela vai passando de um para outro, e a gente está aqui para contar a história. O que que acontece? No momento em que eu digo assim, meus filhos não vão ter as privações materiais que eu tenho. Ok, se você tem um padrão de vida melhor, não têm porque ter roupa usada se você pode dar nova, tem problema nenhum em relação a isso, mas meus filhos vão ter tudo o que eu não tive, e tenta compensar a tua infância de privação para uma infância de excesso, ou você teve um pai muito duro, uma mãe muito dura, e você vai, para compensar, ser extremamente afetuoso, você sai do extremo, a gente sai de uma sociedade da repressão para a sociedade da perversão, a sociedade de não pode nada para a sociedade de pode tudo. E isso gerou uma descompensação muito grande na sociedade.

Luciano Pires: Só para a gente pegar, você falou que teve uma inflexão, dá para achar um momento no tempo?

Rossandro Klinjey: Começar nos anos 50, antigamente eu usava PowerPoint nas palestras, então eu usava umas fotografias que era mostrando como eram as fotos de família no passado, era sempre o pai e a mãe no meio, e todo mundo ao redor, a partir dos anos 50, especialmente dos anos 60, a criança fica no centro e os pais ficam ao redor, começa o que Lya Luft chamava de infantocracia, a criança no centro e para o ego da criança aquilo é muito destrutivo, porque ela acha que ela é o… porque quando a criança nasce, ela acha que é o centro do universo, que a gente chama de egocentrismo infantil, e ela para amadurecer tem que sair dessa posição egocêntrica para entender que tem mais gente no mundo, o que as pessoas fazem hoje é reforçar e manter a pessoa na posição egocêntrica. A criança domina a casa, tem filhos que escolhem a marca do carro, que gritam o pai e a mãe, que desrespeitam, eu já vi cenas em aeroporto, em avião, que você fica revoltado.

Luciano Pires: Cara, eu fui almoçar outro dia, bicho, estava em um restaurante e entrou uma família, sete pessoas, não, mais, nove pessoas, eram sete adultos, entre avô, avó, adulto já se seus 30, 40, 70 anos de idade, e uma menina, uma menina devia ter seis anos de idade. Cara, parecia a santa ceia, Jesus Cristo com todo mundo em volta pagando pedágio para ele, tudo era a menina, os adultos não conversavam, eu olhei para aquilo, eu falei, que horror, cara.

Rossandro Klinjey: Destruindo a criança.

Luciano Pires: Passa uns dias, eu recebi visita em casa de um casal de amigos do meu filho, ele e ela novinhos, com dois filhos pequenos, bem pequenininhos, um menino de um ano, um ano e pouco e uma menina de três. Cara, não teve visita, a visita era correr atrás das duas crianças, porque elas iam destruir a casa, não tinha conversa, não tinha papo, a mãe não podia fazer nada, porque as crianças estavam em cima da mãe, e elas dominaram aquilo tudo, e eu olhei para aquilo e falei, cara, mas é assim hoje em dia? Eu se eu era moleque, eu fizesse isso, meu pai me dava um peteleco, e eu ia me recolher com meus primos quietinho lá para brincar, eu não ia dominar. E hoje, cara, tomaram conta.

 

Rossandro Klinjey: Eu digo que minha mãe era aquela mãe bluetooth, ela olhava e eu já recebia todo o comando, opa, pare, que é melhor você parar.

Luciano Pires: Pelo olhar.

Rossandro Klinjey: E na verdade é aquela coisa de muito até de um erro até da visão da psicologia e o conceito de trauma, não, não faça isso, que vai traumatizar a criança. E aí foi criando os cristaizinhos de aboemia, que qualquer coisinha quebra. E hoje sim, são, se tornaram, por que o que acontece? No momento em que eu não crio o meu filho para o mundo e quero que o mundo se adapte ao meu filho, eu fico criando uma bolha, um dia essa bolha quebra, porque o mundo vai chegar e vai quebrar e trincar esse vidro, você morre, no mínimo você vai embora do cenário, e essa pessoa não desenvolveu capacidade nenhuma de enfrentar o mundo. Aí o que que acontece? Acabou o namoro, vou me cortar, estou com tédio, vou me cortar, porque eu não sei lidar com o tédio, com o fim do namoro, com eu não posso comprar teu tênis, eu não vou trocar meu celular.

Luciano Pires: Meu chefe me deu um feedback dizendo que eu fiz um trabalho merda, e eu entendo que eu sou um merda, meu chefe me chamou de merda, mãe, chama um advogado, porque eu vou… é assim. Eu fiz uma… eu te falei que a gente lançou um podcast, o Café Com Leite, você tem que ouvir, cara, você vai ter que entrar nesse jogo. E no material de apresentação dele, eu sempre abro com uma foto difusa de alguém no fundo, e eu leio uma frase, e esse alguém é o Walt Disney, e essa frase é uma resposta que o Disney deu aos críticos que diziam para ele que ele dava muita ênfase para vilões no filme, ele falou, cara, teus filmes são sensacionais, mas bicho, a melhor coisa do filme é o vilão, tem muito vilão, os vilões têm… não pode ser assim. E ele falou o seguinte, ele falou, cara, o mundo está repleto do mal, evitar que as crianças vejam o mal só vai desprepará-las para atacar o mal, eu tenho que mostrar que o mal existe, e mostrar que é possível derrotá-lo, a função do vilão no meu filme é mostrar… não é esconder o mal, mas é mostrar que é possível derrotá-lo. Que é exatamente o que você está falando, quer dizer, de eu protejo o meu filho de todos os vilões, a hora que o vilão aparece, ele não tem repertório nem para…

Rossandro Klinjey: Nem para dar nome a própria dor, o que que a gente tem hoje como epidemia de suicídio infanto-juvenil? É o seguinte, eu sou despreparado para lidar com a dor, não existem vilões no mundo, porque tudo é para mim, eu sou o senhor da casa, igual gato que acha que você está lá, mas a casa é dele.

Luciano Pires: Você é o pet dele.

Rossandro Klinjey: É o pet dele. E aí quando a dor chega, eu não sei dar nome a essa dor, eu não sei lidar com essa dor, porque nomear assim, eu não sei gerenciar a emoção que é complexa, em algum momento de maior fragilidade, eu chego à conclusão infeliz, como eu não sei lidar com essa dor, mas eu não sei suportar essa dor, só me resta uma alternativa, destruir aquele que sente essa dor.

Luciano Pires: Destruir?

Rossandro Klinjey: Aquele que sente essa dor, aí eu me mato, porque eu…

Luciano Pires: Não é nem destruir aquele que provoca essa dor?

Rossandro Klinjey: Não, é o que sente, porque como eu descobri de forma infeliz, muito tarde, que eu não controlo o mundo me machucar, porque os meus pais achavam que podiam controlar o mundo me machucar, demite essa professora, olha a nota que deu para o nosso filho, eu vou tirar da escola se você não demitir a professora, o professor, grupo de WhatsApp de pais de escola, é a nova fogueira medieval, meu amigo. Você já imaginou, Luciano, que a gente fazia o seguinte, imagine que você vai fazer um projeto arquitetônico, você contrata um escritório de arquitetura e chega lá para a secretária do cara, e me dá o telefone dos outros clientes dele. Para que? Porque eu vou criar um grupo de WhatsApp dos clientes, porque eu vou discutir os projetos. Gente, vocês acham que essa concretagem é a correta, esse é o pé direito correto, essa é a fiação, esse porcelanato não está exagerado? Vocês acham que é isso? Ou então, você vai fazer uma cirurgia neurológica, que é lá no Einstein, ou no Sírio, e aí você pega o nome dos outros pacientes para discutir, você acha que tem que ser anestésico geral, esse é o campo cirúrgico correto, esse… estou desconfiado, acho que esse cara não, não, está errado. Ninguém faz um grupo de WhatsApp para discutir nenhuma profissão, mas para professor fazem isso, como se pedagogia não fosse uma ciência, pedagogia não é só uma ciência, é a ciência que forma todas as outras ciências, Steve Jobs passou por professoras primárias, então você fica atacando aquelas pessoas que estão ali cuidando do seu filho, e de 50, 40, 20, mal você dá conta do seu. Então, há uma [cautecidade] na relação das famílias com a escola, inclusive, a gente olha muito para esse lugar, no Educa, que é entender o seguinte, a gente não pode colocar a escola e família como antagônica, mas como parceiras da mais bonita jornada humana, que é de formar seres humanos. Então, é preciso que a escola também olhe para a família e entenda, não adianta mais acusar e apontar dedos, mas estender a mão para ajudar essas pessoas, porque eles estão perdidos, mas não é má intenção, estão perdidos mesmo.

Luciano Pires: Mas então, não era assim nos anos 60, cara? Não era assim nos anos 60 e 70, de você ter essa coisa da… estava muito claro a importância da escola, da família, a família… ai de mim se agisse mal com o professor, eu ia me acertar em casa com o meu pai e a minha mãe, cara, eles iam me quebrar no meio, porque eu desrespeitei a professora. E a professora ia chamá-los para conversar com eles, então a professora, ela exaltava minha família, meu pai, meu pai, ela queria que no dia da criança tivesse todo mundo lá, então tinha uma ligação, uma conexão de auto respeito entre família e escola, e isso meio que se quebrou.

Rossandro Klinjey: Mas sabe por quê? Porque na verdade, o desrespeito que essa criança e esse adolescente tem com essa professora, ele já tem com os pais, ele reproduz. Uma criança que desrespeita um professor, ele com certeza não respeita os pais, então como esses pais perderam o lugar de autoridade, não tem mais adulto na sala em muitas casas, tem uma criança desposta mandando em todo mundo, como esses pais não têm mais autoridade sobre essas crianças, eles chegam na escola achando que professor tem que ser gritado como o pai e a mãe é gritado. E aí como a escola também é um business, é um negócio que tem que pagar as contas, se o pai começar a dizer, eu vou tirar meu filho daqui, tem escola que termina cedendo, e nisso foi se cedendo a um ponto, que hoje está todo mundo adoecido, os pais estão adoecido, os professores estão entre os profissionais que mais têm burnout no mercado hoje de trabalho, porque eles são acusados, tem que trabalhar para caramba em várias escolas para poder ter um salário decente. Então, a gente está… inclusive violência, que a gente está hoje aqui um dia depois de um momento tão trágico, que uma pessoa entra em uma escola com um machado, ou seja, é algo que aponta uma falência, uma falência que não é só dá família, que não é uma acusação contra a escola, existe um contexto inteiro, a gente chamaria na filosofia, de o zeitgeist, o espírito do tempo está adoecido. E não tem uma solução fácil, não tem uma variável a ser analisada, mas há uma urgência, porque a gente tem uma epidemia de suicídio infanto-juvenil, a gente tem ataque as escolas, famílias desesperadas, a pandemia só explicitou e jogou isso lá para a potência de mil, há, como a gente estava nos bastidores conversando, um adoecimento psico-coletivo como quarta onda dessa pandemia, que é prevista sempre depois que pandemias acontecem, uma onda que também depois é revertida em uma profunda busca de vida, que vem ali os anos 40, depois da Segunda Guerra Mundial vem os anos 60, então na sequência vem uma busca de muitas mudanças e vida. Mas a gente está ainda no meio dessa emanação de um caos psicológico, de um caos de cultura muito nefasto, a sensação que se tem hoje é de que a gente vive uma tempestade perfeita para o caos, porque por exemplo, quando uma pessoa, ela acha que pode chegar em uma escola e fazer isso, ela não vê mais nenhuma retenção para os impulsos mais primitivos.

Luciano Pires: Então, deixa eu… eu evitei de falar nesse assunto de ontem, todo mundo escreveu, eu falei, eu não vou escrever, eu vou ficar quieto na minha aqui, porque na minha concepção isso foi uma explosão de loucura de um cara, que é algo absolutamente imprevisível, não tem como impedir, não tem como segurar porque isso é uma expressão de loucura, esse cara podia pegar uma machadinha e estar dentro de um avião e atacar os passageiros, em qualquer lugar, quer dizer, eu não vejo isso como uma manifestação de algo que está presente na sociedade, eu vejo uma loucura e contra a loucura é difícil.

Rossandro Klinjey: Eu sei, existe a maldade humana que está… por exemplo, tem o índice de criminalidade europeu, na Dinamarca, que é uma democracia altamente sofisticada, tem alguém que vai matar e que não tem a ver, porque é louco, porque é um transtorno, é a maldade humana inata que vai acontecer. Mas esse caso, ele se soma a outros e recentes, colocando a gente, a gente já está entre os dez países do mundo que têm mais mortes em escola.

Luciano Pires: Deixa eu terminar esse raciocínio meu, para mim, onde é que essa coisa pega? O problema todo está nesse cara ter conseguido entrar tranquilamente em uma escola, armado com uma machadinha, atacar as crianças e ninguém reagir ao cara. Outro dia teve um lance, eu não sei se você viu, acho que foi há duas semanas atrás, que o menino foi e esfaqueou uma professora. E o vídeo mostra o momento em que ele esfaqueia a professora, ele está em uma sala de aula, ele vai lá e ele ataca a professora, e começa a atacar as crianças, e toda a garotada da sala vai embora, sai todo mundo correndo e todo mundo foge dele, não se reuniram três ou quatro moleques para pegar aquele moleque e parar ele na hora, todo mundo foge.

Rossandro Klinjey: Mas igual um assalto na Paulista, veja só, você está lá na Paulista com um monte de adulto, alguém vai, puxa teu celular e sai correndo, o pessoal vai atrás do ladrão?

Luciano Pires: Não, não vai, mas é…

Rossandro Klinjey: Porque entenda, em um momento como esse em que você está lá em uma sala de aula, em um momento que você está lá aprendendo, de repente chega um aluno e mata, a reação instintiva dos outros é primeiro de sobrevivência.

Luciano Pires: Se fosse em Israel?

Rossandro Klinjey: Israel é um estado que vive sob ameaça.

Luciano Pires: Então, esse é o ponto que eu quero colocar a você, quer dizer, entendendo que existe a possibilidade dessa agressão acontecer, as pessoas que estão lá são treinadas de alguma forma para se contrapor à uma ameaça como essa. O que me parece é que a gente simplesmente abriu mão da direção defensiva, eu uso um exemplo interessante, que eu falo nas palestras, que eu falo o seguinte, cara, quando eu estive nos Estados Unidos o que me chamou muito atenção na cidade, nos Estados Unidos, é que quando tem um acidente de trânsito ali na esquina, não é uma batidinha, é uma puta porrada, não tem pequenos acidentes, tem uma porrada gigante e você fala, como é que os caras conseguiram bater desse jeito nessa esquina aqui, qual é o lance? Na cabeça do americano jamais outro carro vai passar o farol vermelho, eles não têm nenhuma proteção contra isso, o brasileiro não, o brasileiro sabe que vai acontecer, então ele está preparado para isso, ele tem um calço, ele está preparado, vai dar merda, eu já sei que vai dar, então eu me preparo para isso. Em um caso como esse que aconteceu parece que a gente abriu mão, ninguém vai atacar, não vai ter um louco.

Rossandro Klinjey: Agora vai mudar isso.

Luciano Pires: Mas muda durante uma semana, depois volta.

Rossandro Klinjey: Infelizmente eu não acho que isso vai ser um caso isolado, independente se esse caso não é um caso isolado da loucura do indivíduo,  de um transtorno emocional que ele tenha, ou se existe outras conexões, independente, a gente sabe que existe uma deep web louca de pessoas que estão se reunindo, pensando e planejando o mal, em que as pessoas ganham visibilidade, quanto mais mostram vontade de fazer esse mal, executam e viram heróis para esse público, a gente sabe que existe isso sim. Obviamente que Israel… porque assim, quando a gente compara países, a gente comete… é difícil fazer esse comparativo…

Luciano Pires: Você entendeu? Eu usei Israel porque foi o que veio à minha cabeça aqui.

Rossandro Klinjey: Eu sei, mas assim, só para a gente reforçar o raciocínio, que eu acho que nós dois estamos certos, não acho que aqui é uma discordância, assim, como Israel, ele começa como um estado que é criado artificialmente, embora tivesse direito histórico aquele território, depois enfrenta a guerra dos seis dias, ele é cercado de países hostis do ponto de vista teológico, religioso, então ele sabe que para sobreviver precisa estar naquele clima, do mesmo jeito que a gente no sinal passa, mas cuidado porque no Brasil ninguém respeita, você fez uma comparação interessante nesse sentido, e nos Estados Unidos não, porque realmente as pessoas obedecem muito lá. Acontece que a gente não tinha, como os americanos têm, essa cultura de gente que entra na escola e mata pessoas, e mesmo lá com as pessoas preparadas assim, mata-se muito mais, o que prova que não necessariamente há… você imaginar, eu vou preparar os meus filhos para ir para escola, e toda escola, para imaginar que a gente… teve professores que fecharam as portas e que evitaram mais mortes, então as pessoas, elas reagiram, mas em um primeiro momento nós somos tomados por um impacto do instinto de sobrevivência, ainda mais que se tratava de crianças pequenas, então ali não tinha nem como se protegerem, os professores que protegeram, e realmente é inusitado, ninguém… o que que está acontecendo com muitas escolas hoje? Eu tenho certeza, os diretores estão ensandecidos com pais pedindo detector de metais, só que, gente, às vezes vai ser o próprio aluno que vai fazer isso.

Luciano Pires: É, e o detector de metal ia impedir o cara de entrar com a machadinha? Não, cara, para impedir tinha que ter um policial junto do detector de metal.

Rossandro Klinjey: Imagina se a gente vai ter um policial, ou seja, é algo muito maior, é uma mudança de cultura, é realmente, por exemplo, uma valorização por uma coisa… o Brasil, o que que é mais difícil para mim quando eu estou fazendo palestra fora do Brasil? Explicar para um americano, para um europeu, por que que vocês não se tornam uma sociedade altamente relevante? Por serem um país democrático, com mais de 200 milhões de habitantes, com recursos naturais, então não é uma resposta fácil, obviamente, mas existe uma variável chave que explica isso, a gente quer reformar tudo aqui, reforma tributária que é bem-vinda, qualquer reforma que possa melhorar o ambiente de negócio, mas enquanto a gente não encarar que sem uma educação de qualidade a gente continua patinando enquanto um grande player global, continuará. Então assim, se professor é motivo de piada, se professor é motivo de chacota pelos pais, se professor é considerado serviçal de filho, a escola não tem relevância, e a mudança de uma sociedade para que ela se torne relevante e ela cresça, e se torne, de fato, desenvolvida em um conceito mais amplo, é que a grande transformação é pela educação.

Luciano Pires: Tinha que tratar a escola como se tratam os bancos.

Rossandro Klinjey: Se trata os bancos.

Luciano Pires: Se escola fosse como a gente trata banco, seria tudo diferente.

Rossandro Klinjey: Toda essa importância… por exemplo, a gente tem no Brasil, existem escolas públicas de altíssima qualidade, é provado em várias cidades do Brasil que é possível ter uma escola pública de altíssima qualidade, não é porque é a escola pública, é porque não há um interesse em coletivizar experiências como Sobral, e vários lugares que estão dando certo para caramba. E escolas privadas que têm um alto padrão de ensino, de educação, e entrega pessoas formadas para o mundo global, e é por causa dessas escolas públicas e privadas de altíssima qualidade, que a gente continua ainda mantendo uma elite pensante, que chega na universidade, continua contribuindo. Agora imagine se a gente colocasse isso em 50 anos na potência de 10, a gente se tornaria…

Luciano Pires: Você evidentemente foi, tem contato com escolas assim, foi estudar o que acontece, eu acho que eu já sei a resposta, mas vou provocar você aqui. Quando você encontra uma escola, não vou citar Campina Grande porque está do teu lado ali, mas você vai lá para Picos e encontra uma escola municipal ali, uma escola que não é privada que tem uma qualidade excepcional, e você vai investigar o que acontece naquela escola, o que que você encontra lá que explica porque essa escola tem a qualidade excepcional?

Rossandro Klinjey: Quando é uma escola isolada, que acontece, no mesmo município, mesmo salário, mesma realidade, mas uma escola isoladamente conseguiu um resultado, há um compromisso dos educadores que estão ali, há como se fosse um pacto entre as pessoas, tipo, ah a gente queria mais estrutura, a gente queria melhores salários, mas as crianças não tem culpa disso, então vamos dar o nosso melhor, só que a gente não pode contar apenas com isso para a educação funcionar, porque obviamente, a gente sabe que tem pessoas que são bem intencionadas, e que não obstante uma dificuldade muito grande, vão entregar o que tem de melhor, a gente tem que potencializar isso, entregando uma estrutura e incentivando que os melhores possam ir para as escolas. O que está acontecendo hoje, por exemplo, no mundo ocidental em que a gente está vendo uma pendência de poder para a Ásia, com a China como novo player aí juntando com a Rússia, criando uma tensão na geopolítica global, com declínio relativo dos Estados Unidos? É que eles estão dando uma ênfase na educação, que hoje nem os Estados Unidos estão dando mais. Os Estados Unidos ainda é um país relevante do ponto de vista educacional? É, por causa das universidades que atraem a elite do mundo, não é a elite americana que estuda lá, é a elite do mundo que vai para Harvard, Stamford, Yale, da UCLA, então tem lá os filhos dos executivos chineses, europeus estão por lá.

Luciano Pires: E os asiáticos fazem um estrago naquelas universidades, que é uma coisa, eles detonam, estragam no bom sentido, estão sempre em primeiro lugar, disciplina.

Rossandro Klinjey: Tomam as vagas. O que que acontece? Se eu não valorizo a educação, se eu não potencializo, hoje por exemplo, os americanos querem, como é que eu faço para atrair um jovem que acabou de sair de Harvard para dar aula na escola pública? Se ele não é valorizado, se para muitas vezes, para muitas pessoas infelizmente a pedagogia é como se fosse a última opção, e não o desejo. Então, se eu não tornar a escola atraente, se eu não der condições para que aquela experiência que uma escola conseguiu o município inteiro consiga, que é o que, por exemplo, em alguns municípios já se conseguiu porque criando políticas que foi sendo consolidadas e que não sofreu solução de continuidade, apesar de alternância de poder entre partidos, mas porque todo mundo meio que pactuou, não, não independe quem vai entrar aqui nesse município, continua, como aconteceu em Gramado, eu faço muita palestra lá e o pessoal me fala, começaram aqui os prefeitos, independente de quem ganhar, deixar claro que Gramado é uma cidade turística, que tinha que manter essa arquitetura, que você tinha que construir isso desse jeito, então se alguém for construir um hotel aqui novo, tem que construir, mas no estilo da arquitetura da cidade, e aí você, a mesma coisa por exemplo, foi mantido um padrão mínimo.

Luciano Pires: Um plano diretor que independe de quem está na direção.

Rossandro Klinjey: A gente tem obviamente aqui…

Luciano Pires: A Coreia fez isso, tem um plano de 25 anos, não importa quem é o líder, o plano está aqui.

Rossandro Klinjey: A gente sabe que o Brasil a gente não tem política de estado, tem política de quatro anos de mandato, um é para reeleição e a outra é para ver se eu consigo me manter no poder, e claro que isso mostra o estado das coisas que a gente está. Óbvio que quando a gente tem uma escola que as pessoas têm um sentimento de vocação e fazem o melhor delas e ao mesmo tempo eu ofereço uma estrutura para incentivar que essas pessoas possam coletivizar essa experiência e chegar a mais pessoas, a gente vê a transformação, eu sou uma pessoa que só estou onde estou por causa da escolha que a minha família fez, em sendo uma família pobre, apostar na educação como uma herança que mudou a minha trajetória de vida financeira totalmente. Então, obviamente que eu quero, pela minha fala, pela minha experiência, inclusive com essa empresa socioemocional Educa que a gente leva para as escolas, levar isso também para potencializar e globalizar essa experiência de potencializar, por exemplo, esse olhar da mãe que olhou para o filho e disse, você vai ser alguém, um professor que diz, você vai ser alguém.

Luciano Pires: Deixa eu pegar um gancho bom que você está me dando aí, que é muito tentador quando você… essa fala que você teve aí, a gente jogar essa responsabilidade no colo do presidente, só prefeito, do delegado, ou seja, o estado tem que fazer, o estado tem que suprir, como ele não faz, deixa assim que vai dar merda.

Rossandro Klinjey: Aí todo mundo abre a mão e…

Luciano Pires: E a gente joga… sempre aponta e joga lá em cima, mas tem um outro lado aí que é o lado da mãe que falou com o filho e o professor que se dedicou, quer dizer, tem uma coisa individual que começa conosco aqui na própria sociedade, de novo eu vou recorrer, tenho uma palestra sobre meritocracia, que chama O quanto você vale? E eu uso um exemplo lá no meio do caminho que eu faço uma comparação entre um salário do Neymar e o salário de uma professora que entrou, apareceu em todas as mídias porque ela apareceu em um… estava tendo uma reunião do conselho de educação, ela vai, sobe no palco, pega e mostra o holerite dela, e fala, está aqui, ganho 1200 reais por mês e o Neymar ganhava… então eu boto os dois ali e falo assim, cara, Neymar ganha milhões por jogo, essa professora ganha 1200 reais por mês. De quem é a culpa, vamos reclamar para quem, qual é o bispo que você reclama? Quem é que faz o Neymar valer tanto? Cara, sou eu que pago o maior pau para o Neymar, eu compro a camiseta dele, eu vou ligar a televisão, eu vou dar audiência, se o Neymar for artista de cinema, eu vou comprar o ingresso do filme, eu é que faço esse cara valer milhões, e eu também sou o cara que não dou a menor bola para essa professora, dane-se ela, entendeu? Ela para mim e só uma professorinha, o Neymar é o Neymar, um artista é um artista, então é a própria sociedade que define o valor dessas pessoas. E aí eu não consigo aumentar o salário da professora, porque está definido que ela vale aquilo, o preço dela está definido por nós sociedade, não foi o governo que definiu isso.

Rossandro Klinjey: O que está em jogo aqui não é o fato de que a gente está tendo a pretensão de que a professora vai ganhar o que o Neymar ganha porque seria inviável em termos de econômico, mas é que eu não preciso pagar somente isso, vou dar um exemplo para você, você chega nos Estados Unidos, a diferença de um salário de um médico para um enfermeiro não é tão absurda como aqui, aqui é absurdo, é tipo, no mínimo 15 vezes, dependendo da situação, ou mais do que isso, então se trata, não é… acho que às vezes o problema é o seguinte, quando a gente olha essas divergências, a gente quer atacar quem ganha muito e não aumentar quem ganha pouco, e é muito mais fácil eu jogar você, a professora contra o Neymar, do que dizer, não, veja o seguinte, Neymar não tem culpa de ganhar isso aí, é uma sociedade do espetáculo, que valoriza o espetáculo e que acha que alguém que banca o espetáculo, eu quero pagar você, seja… eu fui ver o Coldplay, eu fiz um cálculo com meu sobrinho lá, ele levou 256 milhões aqui nesses shows, mas eu quero ver o Coldplay, eu paguei para ver o Coldplay, eu acho legal usar aquelas pulseiras, cantar, eu fui ver Marisa Monte, eu quis ficar perto do palco para ver a grandeza daquela mulher, entendeu? A arte é uma coisa que é meio complicada a gente até precificar. Agora, não significa que eu tenha que pagar mil e pouco para um professor, eu tenho que… o que seria um salário digno? Não vou dizer aqui, eu não sou da área, mas vamos imaginar, o que seria digno para essa professora trabalhar apenas em uma escola?

Luciano Pires: E não dar aulas se preocupando com a conta que vai vencer.

Rossandro Klinjey: Ela vai dar aulas somente para aquela escola, então ela vai realmente, aquela hora parada, que é chamada, hora parada, é o professor em casa trabalhando, que ela vai sentar, ela conhece Joãozinho, Maria, Pedro, ela sabe que a aula tem que ser voltada para eles, porque ela só dá aula naquele lugar, porque ela não sai de 30 em 30, de uma escola atrás da outra, sem tempo de educar o próprio filho, para poder ter um salário minimamente digno para comer, não vai funcionar, então não está nada contra Neymar ganhar muito, eu quero é que ela ganhe bem, para que ela seja uma professora capaz, para que ela eduque uma geração de pessoas boas, porque eu quero que o meu filho seja também bem educado, porque não adianta eu pagar uma escola muito cara para o meu filho, ele ser bem educado, e a filha da pessoa que mora na comunidade pobre não ter educação, e quando meu filho for passando com o telefone na rua, ele puxar e nesse assalto, brincando, mata meu filho. Então, não adianta eu garantir que eu estou em um condomínio fechado, com o meu filho em uma escola de alto padrão, porque ele vai passar na rua deste e vai encontrar esse filho dessa pessoa que não tem essa educação, e vai chegar lá…

Luciano Pires: O cara da machadinha.

Rossandro Klinjey: Então, existe um contexto todo que a gente tem que… a gente tem que obviamente…

Luciano Pires: O meu ponto é o seguinte, não é que a professora tem que ganhar igual o Neymar, não, não penso, mas é que a mesma sociedade que endeusa o Neymar, sem perceber…

Rossandro Klinjey: Sem perceber paga pouco a ela.

Luciano Pires: Vira para ela e fala, espera um pouquinho, essa mulher… não vou nem falar de salário, olha a importância que essa mulher tem, você está botando o teu filho durante X horas por dia na frente dessa mulher, e ela vai educá-los, vem cá, cara, quem é que é mais importante para o teu filho, é o Neymar ou é essa professora? Cara, mas é evidente que é a professora, por que que você não valoriza, então?

Rossandro Klinjey: É a sociedade, a gente tem aí uma sociedade que não valoriza, a gente tem políticas de estado que ainda não se aprimoraram o quanto deveriam para poder realmente a gente mudar, eu acho que tem culpados em todos os lugares, e a gente fica muito mais no apontar de dedos para se desculpar da minha parte, ninguém faz a parte de ninguém e todo mundo está pagando um preço alto. Então, a gente tem que enquanto coletividade cobrar políticas de estado mais voltadas para uma educação mais eficiente, enquanto pais fazer o que a gente deixou de fazer para educar filhos decentes, que respeitem você, e ao respeitar você, respeitem os professores, porque sabe o que é mais trágico, esse filhozinho mimado que você dá comida, que humilha o porteiro do condomínio, e que humilha a professora, é está criaturinha que vai te botar em um asilo sem nada, que não vai trocar uma fralda quando você precisar, porque você ensinou a ele que pessoas frágeis tem que ser descartadas ou tratadas como subservientes. Lembro que uma vez eu estava dando aula, aí uma aluna chegou, professor, vou casar com fulano, e a gente gosta muito do senhor, a gente quer que o senhor vá para o casamento, e como a gente sabe que o senhor gosta muito, o senhor diz o que pensa quando a gente pergunta, eu estou aqui só eu, professor, o que que o senhor acha desse casamento? E eu odeio essa pergunta porque eu digo, sabe assim, eu tenho o compromisso de dizer, eu digo, você quer que eu seja sincero mesmo? Você se acha a menina mais bonita da universidade, ele se acha o cara mais bonito da universidade. E tem um problema? Não, não tenho problema nenhum com relação a isso, mas é porque vocês são duas deidades querendo culto, então tem dois altares, quem é que vai ser o servo nessa relação? Então, há uma imaturidade de vocês dois, eu brinquei assim comigo, é o casamento de João mimado com Maria que se acha, é um caos. Seis meses depois estavam separados com processo na delegacia da mulher por agressão, porque eram dois egos querendo culto, e casamento é um lugar que para dar certo, você tem que entrar para servir e não para ser servido. Então essa pessoa depois, ela vai ser seu filho adulto, você vai envelhecer, e aqueles filhos que tem aquele sentimento de eu vou poder cuidar do meu pai e retribuir um pouquinho do que ele me deu, não, que isso, agora você está frágil…

Luciano Pires: Você é descartável, é um leão velho na floresta.

Rossandro Klinjey: No máximo eu te coloco ali em quartinho lá em casa no final ou te coloco em um asilo. Então assim, você está criando alguém que vai se voltar contra você, se você não criar bem, tudo o que você faz em um filho, é um plantio para colher depois, se você está plantando indiferença e desrespeito, você vai colher indiferença e desrespeito, se você está plantando respeito… eu lembro que uma vez eu encontrei um cara aqui em Congonhas, era um aluno meu de um MBA de gestão, e ele filho de um cara muito rico, e a relação com o pai muito tensa, porque a maior parte das empresas são empresas familiares, e as relações entre filhos e pais são tensas de modo geral, hoje têm programas da Fundação Dom Cabral que ajudam muito nisso, enfim, e aí encontrei com ele, já não estava mais dando aula, e aí, como é que você está, estou bem, e aí, como é que está o seu pai? O senhor sabe, professor, a minha relação com o meu pai sempre foi horrível, meu pai continuou sendo aquele homem bruto, um completo idiota, você veja, professor, eu tenho formação em universidade pública, eu tenho MBA na FGV, na Dom Cabral, fiz mestrado em business em Harvard, eu falo dois idiomas além do português, e meu pai não me deixa chegar e contribuir com todo o potencial que eu tenho. Eu fiz, quantos anos você tem? Ele disse, eu tenho 30, o que que você tem? Você tem uma banca de revista na Paulista? Não. Tem uma empresa? Não. Quem pagou teu mestrado em Harvard? Meu pai. Ah, o completo idiota que pagou para você o mestrado em Harvard e teus cursos todos? É. Então, vamos lá, teu pai com 30 anos, ele tinha o que? Ele tinha uma empresa. Herdou? Não, construiu do nada. E ele tinha que formação? Ele tinha a oitava série. Então, olha o que você está me dizendo, você está me dizendo o seguinte, que você tem um mestrado em Harvard, e não tem absolutamente nada e teu pai com 30 anos, na oitava série já era um homem rico, do nada ele fez uma empresa, e você está me dizendo que ele é o completo idiota, você tem certeza que ele é o completo idiota? Eu vou te dizer uma coisa, a coisa mais importante que o seu pai tem para deixar para você não é a empresa, que com o seu ego, você quebra em seis meses, é essa capacidade de sem estrutura nenhuma se tornar um grande empreendedor, e sua prepotência não está fazendo com que você receba essa que é a maior herança que ele tem para te dar. Não estou discutindo o fato que ele realmente pode ser uma pessoa bruta, difícil, talvez ele tenha vestido uma armadura para vencer e não conseguiu tirar, colou nele, ele está lá no ataque ainda, mas você não está percebendo que a maior herança é isso, é essa criatura, e isso não se ensina em Harvard, então volta para lá com humildade.

Luciano Pires: Você quer piorar essa história toda, cara, bota dentro desse caldeirão que você está citando aí, essa loucura toda dos influencers com seguidores babando ovo, e eu tenho um milhão me seguindo, eu tenho isso e aquilo, a minha vida é maravilhosa, veja como eu sou bom, veja como eu sou lindo, veja como eu viajo, veja como eu sou rico, cria-se um universo mentiroso, é um metaverso, já é um metaverso que é uma fantasia que aqueles que olham agora, eu estava lendo uma notícia ontem, que dizia que o Brasil já tem hoje…

Rossandro Klinjey: Mais influencer do que…

Luciano Pires: Do que médico, cara, do que dentista, do que… é influencer, o que você quer ser? Vou ser influencer. Cara, espera aí, alguém vai ter que fazer as coisas, além de influenciar, alguém tem que fazer as coisas. Meu Deus do céu.

Rossandro Klinjey: É, mas você sabe que esse processo, Luciano, de influencer, dessa coisa toda que as pessoas fazem, eu tenho uma rede social, tenho aí mais de 1.200.000 pessoas no Instagram, no YouTube tem quase um milhão e tal, mas eu não sou uma personalidade… não sou uma pessoa pública, eu sou uma personalidade pública, então quem me segue não vai lá ver se eu estou comendo camarão, se eu estou em Dubai, não, quem vai na minha rede social vai ter conteúdo de desenvolvimento humano, eu não vou estar usando lá a minha vida pessoal para dizer, olha, olha o que eu tenho, não vou fazer isso que eu…

Luciano Pires: Eu me recuso terminantemente, cara.

Rossandro Klinjey: Mas vou te contar uma história que passou comigo, eu estava vindo no voo de Manaus para São Paulo, são quatro horas de viagem, meio caminho para Miami, Manaus fica a quatro horas de Miami e quatro horas de São Paulo, eu estava vindo de Manaus para cá, e aí do meu lado, na cadeira ao lado, estava na cadeira 1C, na cadeira 1D estava um grande influencer de produtividade, estava todo mundo dormindo de madrugada, ele acorda, vai no banheiro, lava o rosto, tira a almofadinha do pescoço, tira a máscara, liga o laptop dele da Apple, o MacAir dele, e começa a gravar um story, olha aqui, gente, quatro da manhã, Manaus Guarulhos, eu estou trabalhando, porque eu sou produtivo, agora os derrotados do avião, tudo dormindo, quer vencer? Faça como eu, quer ter meu carro? Faça como eu. Depois fechou o laptop e foi dormir. Quando chegou, não tinha wi-fi no avião antigamente, quando ele chegou, ele foi e postou, aí você imagina que eu estou lá estudando para um concurso, sigo você, porque você me estimula a ser uma pessoa que é produtiva, mas eu estou com um filho que passou a noite com febre, passei a noite acordada, acordo de manhã para estudar para o concurso, estou morto, acabado, eu olho esse teu post, cara, eu me sinto uma bosta, como assim o cara está quatro da manhã estudando no avião? Está nada, estava dormindo. A gente tem que ter capacidade de curadoria, enquanto o mundo não cria um filtro sobre a mentira e a verdade, que nós criemos os nossos próprios filtros, a gente tem que saber selecionar o que entra na nossa vida, e o que passa no filtro da nossa rede, para de curtir palhaço.

Luciano Pires: Eu diria que se alguém me perguntar qual é o atributo mais importante desses dias aqui, é o filtro, essa capacidade de você filtrar, porque isso vai valorizar o teu tempo de vida, isso vai apontar quem são as pessoas que vão influenciar tua vida, e se você não tiver filtro, cara, você está ferrado, você vai pegar esses mentirosos aí, esse monte de gente aí, vamos voltar para o começo da nossa conversa aqui, esses moleques de vinte e poucos anos de idade a fim de ganhar dinheiro, eles não estão preocupados em mudar a vida das pessoas, eles querem é ganhar grana, e vão topar qualquer parada para fazer você entrar nesse negócio de… ah, tenho um milhão de seguidores, cima cúrcuma.

Rossandro Klinjey: Sabe uma coisa complicada, eu estava em uma escola ontem Alphaville contando assim, gente, quando eu era criança, aí eu vou longe agora, Luciano, prepara, quando eu era criança, a criança que eu conhecia era Nica Costa, lembra de Nica Costa, que ela andava de costas porque ela tinha vergonha. E eu acho que a Simoni, depois a Sandy e o Júnior, mas o resto das crianças era tudo filho de alguém que até podia, mas não era rico. Hoje não, hoje tem um monte de gente que está morando em Orlando, aluga uma mansão, anda de Ferrari, tem um canal de 3 milhões de pessoas, está cortando iPhone e todo mundo vendo, e ele ganhando nisso. Então assim, aí você pega uma pessoa que está estudando na escola, e assim, por que que eu vou estudar, se esse cara só com um canal no YouTube… por isso que todo mundo quer ser influencer, porque parece que… mas é a mesma, por isso que eu sempre digo para as pessoas, gente, essa é a mesma estatística do Neymar, usar o Neymar, para cada um milhão de crianças que estão jogando em várzeas, em teremos baldios nesse país, um vai virar Neymar. Então, a estatística não é favorável a apostar no influencer, estude, meu amigo, o plano A de todo mundo é conhecimento, até porque se você virar uma pessoa de sucesso na rede social, com conhecimento a potência disso é muito maior.

Luciano Pires: Sim, e a gente teve um exemplo recente aí, você lembra do caso do luva de pedreiro, exatamente por não ter conhecimento, ele foi incapaz de administrar a carreira dele, cara, sobe que nem uma loucura… bom, eu não vou entrar no assunto aqui…

Rossandro Klinjey: Vão cortar o vídeo, o áudio e vão cancelar a gente.

Luciano Pires: Meu caro, deixa só a gente ir para o final aqui, a gente já estourou de certa forma o nosso tempo, eu tento manter na uma hora e vinte, alguma coisa assim, mas quando o papo é bom a gente vai embora e aqui dava para ir até amanhã de manhã. Eu na verdade, quando eu chamei você para a gente trocar uma ideia, eu tinha uma ideia da gente conversar um pouco sobre essa quarta onda da pandemia que você citou aí, que é essa doença, essa psicose que tomou conta da sociedade e que deixa a gente… eu tenho uma amiga, uma conhecida que saiu do mercado de trabalho há cinco anos atrás, e voltou agora, voltou para o mercado, ela falando comigo, falou, eu não reconheço nada do que eu encontrei aqui agora, porque eu parei há cinco anos, agora eu voltei, está todo mundo louco, cara, eu entrei aqui, é o meu WhatsApp bombando, eu não tenho tempo de fazer as coisas, todo mundo perguntando para mim, eu tenho que entregar tudo em cinco segundos, as pessoas não me respondem, eu tento marcar reunião ninguém dá bola, eu mando projeto, não me devolvem, cara, isso virou uma loucura, isso aqui é um hospício, não é o lugar que eu trabalhava, eu não estou falando 50 anos, 5 anos atrás, aconteceu alguma coisa em 5 anos, e uma  parte importante disso, tudo o que a gente conversou até agora, que entrou uma geração nova, a geração Z, aquela coisa, mas também teve a chegada da pandemia, que deu uma bagunçada geral aí. Como é que você tem… você estudou isso, você tem…

Rossandro Klinjey: Eu digo a você que esse é um tema que vai ser estudado nos próximos 30 anos, o que a gente faz é, o que que aconteceu após a gripe espanhola? Um momento como esse, inclusive depois da queda da bolsa de Nova York, a grande depressão, e aí vem a Primeira Guerra Mundial, que estava junto no momento. Então, esse movimento de isolamento social que uma pandemia provoca gera uma dopicica muito grande, as famílias tiveram que conviver, porque a maior parte dos filhos são terceirizados para a sociedade, para a escola de inglês, para o shopping, para o telefone, e o desespero dos pais nessa pandemia era o meu filho está em casa, eu tive amigos que eu achei que descobriu que tinha filhos na pandemia, porque faziam comentários, eles comem demais, toda criança come, eu era faminto quando eu era guri. Mas se você…

Luciano Pires: Ou descobriu que tinha uns monstrinhos, tem uns monstros em casa.

Rossandro Klinjey: Tinha uns monstrinhos em casa, que bom, dá até para corrigir. Mas então, se você está descobrindo agora é porque você não observa o seu filho. A gente também foi para casa e primeiro foi impactante ir para casa, mas a gente foi para um lugar conhecido, apesar da gente ter ido para um lugar que a gente vivia pouco, que a gente vivia mais fora, mas era um lugar conhecido, depois de um tempo a nossa resiliência foi criando uma adaptação. Só que a gente desaprendeu uma coisa muito importante, convívio social, porque é complexo estar no ambiente de trabalho, é um monte de gente, um monte de educação familiar que vem de várias regiões do Brasil, pensando diferente e você tem que aí ter um objetivo comum, isso por si só já é um grande desafio diário para a manutenção e a construção de uma cultura de empresa, por exemplo. Só que quando a gente vai para o home office, a gente desaprende esse convívio social, de repente a gente é jogado de volta para o convívio social tendo meio que desaprendido esse traquejo do convívio, e ainda volta muita gente separado, enlutado, desestruturado, junta-se a isso uma sociedade que cria algo novo, que se chama as redes sociais, que durante a pandemia foram extremamente acessadas como válvula de escape, em um mundo que se criou bolhas na comunicação, isso eu não estou falando nem de política não, é muito maior, bolhas para tudo, então eu só curto quem eu gosto, e aí o algoritmo da rede vai me entregar só aquele conteúdo, de modo que faz com que eu pense que todo mundo pensa como eu, aí quando eu volto para o trabalho não é bem isso, tem um monte de gente que é divergente, que discorda, que concorda, ou seja, a gente está destreinado, a gente viveu uma pandemia, enlutado, conflito, esses ambientes de crise econômica e política se repetem, como a gente está tendo agora, a cada 70 anos, foi o que aconteceu na Alemanha em 39, está acontecendo aqui agora no Brasil e no mundo, cria um sentimento de vazio existencial, há uma queda de poder de consumo da classe média, há uma nova onda de super ricos na área de biotech, sempre que há uma mudança tecnológica muito grande, algumas pessoas pegam essa onda e vão, a classe média perde poder relativo de consumo nos Estados Unidos e na Europa, você sabe, os anos 80 lá, a classe média não tem o poder que tem hoje de consumo. E nesse momento os populistas de esquerda e direita aparecem dizendo, não, eu resolvo, porque é muito complicado tudo isso que eu estou falando com você aqui para explicar para o cidadão comum, é melhor dizer, a culpa é da direita, a culpa é da esquerda, a culpa é dos líderes, a culpa é da internet, não, a terra é plana, a terra é redonda. Aí é tão fácil a gente somente acusar o outro, do que entender a complexidade do que está acontecendo, porque na verdade, a verdade é complexa, multifacetada e a mentira é simples e só tem uma porta, por isso que é tão fácil acreditar em mentiras. E a gente está aqui dividido politicamente, famílias brigadas, intrigadas em nome de pessoas que nem sabem que a gente respira, não é nem Lula, nem Bolsonaro, nem direita, nem esquerda, sabe que eu e você existe, então se eu for brigar com parente meu por causa disso, é a maior bobagem do mundo, mas as pessoas brigaram, se intrigaram, deixaram de falar. Então veja, eu estou sem minha rede de apoio, porque eu briguei por causa da política, eu vim de uma pandemia, estou enlutado, existe uma crise econômica, ainda chegou o chatGPT 4 inteligência artificial dizendo que vai acabar com tudo, ou seja, e haja saúde mental, então se você não se cuidar, eu digo assim, o maior investimento que alguém pode fazer na vida é em saúde mental, para suportar esse mundo que já está e que, infelizmente, não adianta eu mentir, você sabe disso, Luciano, não tem previsão de que vai melhorar no curto prazo.

Luciano Pires: E se você fizer uma análise, outro dia eu tive essa discussão, essa conversa em uma live que eu fiz aqui com o meu pessoal, dizendo o seguinte aqui, eu usei como exemplo aqui, eu vim para cá para essa casinha que você conheceu aqui em 2014, e na época eu deixei de pensar em comprar essa casinha aqui por 380 mil reais, hoje eu não compro essa casinha aqui por menos de 1,5 milhão de reais, entendeu? É absolutamente impossível, em 2014 até dava para pensar no assunto, hoje é impossível eu fazer. E se você fizer uma análise assim, cara, tente comprar um carro popular hoje, cara, um carro um pouquinho melhor, um HB20 é 90 pau, cara.

Rossandro Klinjey: É absurdo, o poder de consumo…

Luciano Pires: Vamos fazer uma viagem? Vamos para Manaus? Quanto custa a passagem? Então, tudo está mais difícil, então mesmo com a gente tendo uma posição hoje… eu tenho muito mais conforto do que os meus pais tiveram quando tinham a minha idade, eu tenho muito mais acesso, eu tenho tudo muito mais, porém é tudo muito mais difícil do que era lá atrás. Então, independente do mundo ficar pior ou não, mesmo com o mundo tendo melhorado, está tudo muito mais difícil de fazer, muito mais complicado.

Rossandro Klinjey: É, e nesse movimento aí a gente tem que entender que há também uma sociedade que apela para a loucura que eu tenho que ter tudo o que o desejo de consumo tem que estar, eu acho que uma das coisas desse filtro é o minimalismo, você, por exemplo, hoje você disse assim, Rossandro, eu gosto de trabalhar só aqui, eu consigo produzir tudo sozinho, já percebeu que isso traz uma paz de espírito? Não que a gente vai se isolar do mundo, tem coisa que você demanda para outro, mas às vezes a gente consegue perceber que a gente consegue fazer muita coisa que a gente estava delegando para os outros. E é uma escolha, uma escolha de eu posso ter menos e ser feliz, você disse, Rossandro, estou morando aqui perto do estúdio, vendi os carros, qualidade de vida vir a pé para cá? É qualidade de vida, é uma escolha, você já não está mais naquela época, não, mas eu tenho que ter o status de chegar de carro aqui, não, eu quero vir a pé, cara, curtindo o amanhecer de um dia. Então, às vezes mesmo em um mundo louco como esse, que como eu digo para você, ainda não tem previsão de melhorar no curto prazo, eu posso fazer uma escolha pessoal de ter mais saúde mental, porque se não eu vou ficar sempre responsabilizando todas as variáveis externas não dando conta da minha capacidade interna de controle de…

Luciano Pires: Isso é Victor Frankel na veia.

Rossandro Klinjey: É isso aí, ele sai de Auschwitz com isso, podem tirar tudo da gente, menos a liberdade de escolher. Então, eu tenho a liberdade de escolher me deixar contaminar totalmente pelo mundo, ou diminuir, porque eu não posso zerar, o impacto que esse mundo faz na minha vida. E de cada um de nós vai fazendo uma escolha individual, a gente vai criando uma onda coletiva de melhoramento da saúde coletiva do mundo, porque ou eu enlouqueço como todo mundo, ou eu, espera aí, não dá para comprar todo esse pacote de loucura que está acontecendo aí.

Luciano Pires: Deixa eu fazer uma conexão com um negócio que você falou lá atrás, que eu acho que é importante aqui, quando você fala que os pais vão na escola brigar com o professor, que o professor deu nota baixa, não sei o que, aí o diretor da escola, como aquilo é um business, vai lá no professor e fala, meu, dá menos, baixa o tom, ele está baixando a régua de todo mundo.

Rossandro Klinjey: É o pacto, eu chamo de pacto da mediocridade.

Luciano Pires: Exatamente, e aí todo mundo, ninguém mais se… as pessoas que se incomodam deixam de se expressar, e aí, cara, está dando merda, deixa, dane-se, eu vou me doer com isso? De jeito nenhum.

Rossandro Klinjey: Aí sabe qual é o maior problema do mundo hoje em dia? Não é a umidade relativa do ar, é a mediocridade relativa do ar.

Luciano Pires: Exatamente. Cara, o meu trabalho chama-se despocotizar o Brasil, começou em 2004 quando eu lancei um livro chamado Brasileiros Pocotó, e o Pocotó era da música da eguinha pocotó, eu lancei um livro que eu dizia, cara, vai dar merda, porque se isso é a música brasileira hoje em dia, se essa mediocrização está virando norma, nós vamos ter no futuro uma geração destruída porque vai dar merda, e eu vou brigar para despocotizar o Brasil, comecei lá em 2004 e de lá para cá eu venho fazendo isso. E é exatamente isso, cara, construir o repertório para você ter a chance de poder na hora de fazer a escolha, cara, eu não vou escolher o que todo mundo escolhe, porque todo mundo está escolhendo, eu vou escolher aquilo que é importante para mim, vou me incomodar, vou perder amigo, eu vou ser o chato da turma, entendeu? Quando uma pessoa sair e vier falar comigo, eu não vou conseguir falar dessa bobajada toda, o cara vim falar de uma cantora que eu não tenho a menor ideia de quem seja, eu não tenho nem repertório para discutir essa bobajada toda, eu estou em outro nível, não porque eu sou melhor que eles, é porque eu fiz uma escolha, Big Brother Brasil não, Victor Frankel, tá bom? Por quê? Porque acho que tem mais coisas para eu crescer ali. E aí você começa a refinar com quem você anda, você refina o ambiente em volta de você, você refina a sociedade, e começa a elevar a barra, o problema é que a barra baixou.

Rossandro Klinjey: Baixou muito, cara. Eu digo que tem uma música que foi profética.

Luciano Pires: Qual?

Rossandro Klinjey: Vai descendo na boquinha da garrafa, e até hoje, bicho, só desce, desce mais, desce mais um pouquinho, e não está mais descendo de devagarinho, está despencando.

Luciano Pires: Meu caro, a gente podia ir aqui embora por horas e horas, que papo legal, que papo gostoso. Quem quiser te conhecer, quem quiser acompanhar teu trabalho, saber como é que é, te acha aonde?

Rossandro Klinjey: Rossandro Klinjey, só tem esse, minha mãe foi bem original.

Luciano Pires: Soletra o Klinjey aí.

Rossandro Klinjey: K L I N J E Y, Rossandro Klinjey, está no LinkedIn, no Facebook, no Instagram, no YouTube, tem livros, tem a Educa, que é a empresa de educação socioemocional, Educa.porRossandroKlinjey, você acha também lá no YouTube, no Instagram, se quiser levar para a sua escola, para a sua família.

Luciano Pires: Repete para mim, Educa…

Rossandro Klinjey: Educa.porRossandroKlinjey, está lá no Instagram, e tem lá o WhatsApp da empresa para que as pessoas possam levar educação socioemocional para a família e para a escola, tenho cursos na Hotmart, um curso que eu tenho já tem mais de 10 mil alunos, que é aprendendo a se amar e parar de se sabotar, e um outro curso é aprendendo a perdoar-se e perdoar, são duas coisas que eu percebi muito assim, que perdão e auto amor são essenciais para construir todo o resto, essa coisa de disciplina, potência, acontecer, sucesso, sem essas duas coisas aqui não acontecem, então eu digo, eu vou falar um pouco disso e criar uma trilha de um ano de construção dessas potências do perdão e do auto amor, e tem sido interessante, impactado a vida das pessoas.

Luciano Pires: Muito bom. Você que está ouvindo a gente aqui, olha para o teu dedo indicador aí, e pensa que esse dedo, ele pode levar você para um vídeo de influencer de cabelo com colorido comendo uma barata durante 15 minutos, ou pode levar você para um vídeo do Rossandro Klinjey, ensinando você um jeito diferente de olhar a vida e de tornar as coisas muito melhores, é o mesmo dedo, o que tem de diferença de um para o outro? Tem uma escolha no meio do caminho, e essa escolha é tua, cara, você vai definir onde é que esse dedo vai bater e talvez isso defina para que lado a tua vida vai andar. De novo, o filtro, onde é que você vai botar o teu tempo, onde é que você vai investir teu tempo, vamos investir naquilo que presta e parar de… como é que é? Tem uma camiseta que eu mandei fazer chamada Don’t Make Stupid People Famous, para de transformar gente estúpida em influencer, cara, vamos conversar com quem tem conteúdo. Grande papo, cara, obrigado pela visita aí, vamos falar mais vezes.

Rossandro Klinjey: Vamos sim, vamos sim.

Luciano Pires: Grande abraço.

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast, a transcrição deste programa você encontra no LíderCast.com.br.

Voz masculina: Você ouviu LíderCast com Luciano Pires, mais uma isca intelectual do Café Brasil, acompanhe os programas pelo portalcafebrasil.com.br.