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Luciano Pires -

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite, bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. Hoje trazemos a Cris Nascimento e o Murilo Macedo, um casal de brasileiros que se conheceram na Austrália quando estavam passando alguns meses por lá e não mais voltaram para o Brasil, juntos criaram na cidade de Sydney, o KeenTown Project, com a intenção de servir comida com um toque humano, criamos o KeenTown para alimentar a alma das pessoas e fazer com que seja mais do que apenas comida, como brasileiros adoramos ter pessoas por perto e sempre dizemos, esqueçam seus celulares e fiquem imersos em torno da mesa, é o que diz a Cris. Uma conversa gostosa sobre brasileiros que decidem fazer suas vidas muito longe de seu país natal, mas que carregam na alma a brasilidade e assim fazem acontecer.

Muito bem, mais um LíderCast, eu sempre começo contando como é que o meu convidado chegou aqui, nesse caso é um casal convidado, estava eu um belo dia fazendo uma daquelas lives nossas, quando entraram os dois diretamente da Austrália, dois brasileiros aqui, foi muito legal, eles entraram na live com a gente, trocaram uma ideia, porque contaram o que estavam fazendo lá, acabou virando meio que uma entrevista para a turma toda assistindo, que legal, os dois lá na Austrália com aquela loucura… quanto tempo é, qual é a diferença de time daqui?

Cris Nascimento: 13, 14 horas, depende do horário de verão.

Luciano Pires: Estava 13, 14 horas de diferença e foi um barato, batemos um papão, eu falei, bom, o dia que vocês vierem para o Brasil, dá um alô para a gente sentar aqui que deve ter muita história para contar, deu certo.

Cris Nascimento: Deu certo, estamos aqui.

Luciano Pires: Vou começar com aquelas velhas perguntas que vocês sabem como é que são, as três que não pode chutar e o resto chuta à vontade, evidentemente que eu começo pelas damas, então, seu nome, sua idade e o que que você faz.

Cris Nascimento: Bom, acho que nome tomara que dê tempo porque o meu nome é bem comprido, meu nome completo é Maria de Fátima Cristina de Oliveira Nascimento, mas todo mundo me chama de Cris para facilitar.

Luciano Pires: Cris, muito melhor.

Cris Nascimento: Que é um nomão, eu tenho 36 anos e eu sou uma cozinheira de formação, de profissão, sou formada aqui no Brasil. Hoje, na verdade, eu sou mais além de cozinheira eu sou uma empreendedora, uma sonhadora e faço um pouco de tudo também na minha empresa lá na Austrália.

Luciano Pires: É cozinheira ou é chef?

Cris Nascimento: Então, tem uma polêmica aí, eu falo que a gente se forma lavador de louça na faculdade, na verdade, você se forma como um gastrólogo quando faz a faculdade de gastronomia aqui no Brasil, mas lá na Austrália qualquer cozinheiro é chamado de chef, o que eu não concordo muito porque eu acho que existe uma certa hierarquia na cozinha, e quando todo mundo é chef, ninguém é chef, então acontece que assim, hoje eu sou a chef do meu próprio negócio, então eu me considero uma chef de cozinha, mas já trabalhei em muita cozinha por aí sendo cozinheira mesmo.

Luciano Pires: Então, é uma chef.

Murilo Macedo: Sou uma chef, hoje eu posso falar que sou… é um cargo, mas é…

Luciano Pires: Ontem, eu gravei um LíderCast com um chef, e hoje temos uma chef aqui. Agora você, seu nome, sua idade e o que que você faz?

Murilo Macedo: Meu nome é Murilo Fernandes Rodrigues de Macedo, também é longo…

Luciano Pires: Começou perdendo no nome, já perdeu no nome.

Murilo Macedo: Imagina a combinação de filhos.

Cris Nascimento: Por isso que ninguém mudou, ninguém mudou nome porque não tem como.

Murilo Macedo: Eu tenho 38 anos, fiz agora dia 7 de setembro, e o que que eu faço? Bom, de uns três anos para cá eu virei empreendedor no nosso negócio juntos, mas como formação, eu me formei em administração de empresas, eu fiz logística empresarial no Brasil, eu trabalhava em uma multinacional, e fui para a Austrália, aí lá na Austrália…

Luciano Pires: Quem foi primeiro para a Austrália?

Cris Nascimento: Por coincidência a gente se conheceu na Austrália.

Luciano Pires: Mas quem foi primeiro?

Cris Nascimento: Ele chegou tipo 15 dias antes, por coincidência a gente chegou na mesma época na Austrália.

Luciano Pires: Então, eu vou pela hierarquia, já que ele chegou antes, eu vou começar por ele lá. Nasceu onde, Murilo?

Murilo Macedo: Eu nasci em Santo André, São Paulo.

Luciano Pires: Do ABC mesmo?

Murilo Macedo: Do ABC.

Luciano Pires: E a Cris nasceu aonde?

Cris Nascimento: Eu nasci em Mogi das Cruzes, mas minha família sempre morou em Itaquaquecetuba, grande São Paulo.

Luciano Pires: Fala de novo o nome.

Cris Nascimento: Itaquaquecetuba.

Luciano Pires: É porque é difícil, tem gringo ouvindo a gente… os gringos falam Paranapiacaba, Itaquaquecetuba, é impossível para ele, então Itaquaquecetuba, isso aí.

Cris Nascimento: Itaqua para os íntimos.

Luciano Pires: Mas aí você nasceu aqui no ABC…

Murilo Macedo: Morei a vida toda no ABC, mesma casa, foram 24 anos, e aí dos 24 para frente aí Austrália.

Luciano Pires: Você estudou para fazer o que?

Murilo Macedo: Então, eu estudei administração de empresas…

Luciano Pires: Se formou?

Murilo Macedo: Me formei em administração de empresas, fiz a faculdade, e eu fiz uma pós em logística empresarial, também focando no trabalho que eu tinha na época, trabalhava na parte de engenharia industrial, mas com melhoria contínua, eficiência de produção.

Cris Nascimento: E onde que você trabalhava?

Murilo Macedo: Pode falar aqui?

Luciano Pires: Claro, aqui não tem jabá, podemos.

Murilo Macedo: Trabalhava na Pirelli em Santo André, trabalhei 5 anos lá, aprendi muito, muito grato a eles, mas…

Luciano Pires: 5 anos, você saiu com 24, você entrou lá com 19 anos.

Murilo Macedo: Entrei como estagiário, saí com… não, com 25, quando eu fui para a Austrália foi de 25 para 26, eu entrei na Pirelli foi 2007…

Luciano Pires: E você saiu da Pirelli para ir embora para a Austrália?

Murilo Macedo: Na verdade, eu saí da Pirelli por um monte de coisa, eu quis meio que dar uma virada assim na minha vida, eu brinco, a Cris fala, eu tinha uma vida fácil, entre aspas, porque já estava ali meio seguindo do trilho da vida, normal…

Luciano Pires: Sim, você estava enxergando uma aposentadoria na própria Pirelli, 30 anos depois, e isso te incomodava.

Murilo Macedo: Porque a Pirelli era perto de casa, então assim, dez minutos de carro, menos até, dependendo do trânsito, morava com os meus pais, na época eu tinha uma namorada…

Cris Nascimento: Que não era eu.

Murilo Macedo: Que não era a Cris. E aí já vinha aquela pressãozinha assim, não só por ela, mas acho que todo o entorno da vida normal…

Luciano Pires: O que que o seu pai e a sua mãe faziam, fazem ou faziam?

Murilo Macedo: Meu pai, meu pai e minha mãe, os dois têm uma lotérica cada um hoje em dia…

Luciano Pires: Cada um? Duas lotéricas, uma da sua mãe e uma do seu pai?

Murilo Macedo: Isso.

Luciano Pires: Baita competição.

Murilo Macedo: Nós estamos espalhados pelo ABC inteiro, porque meu pai tem uma em São Caetano e a minha mãe tem uma em São Bernardo, mas já há muito, vai fazer 30 anos a da minha mãe, e do meu pai…

Luciano Pires: Os dois são empreendedores, você nasceu e cresceu em um lar empreendedor.

Murilo Macedo: E mudei como eles, porque meu pai trabalhou 17 anos na Volkswagen em São Bernardo, até quando virou Autolatina, depois ele saiu. E a minha mãe também trabalhou na Volkswagen.

Luciano Pires: Seu pai sair de lá, ontem eu estava conversando com um amigo meu falando sobre o negócio da inteligência artificial que está chegando, que vai debandar um monte de emprego e não sei o que, aí eu dei o exemplo para ele, eu falei, cara, o tempo que eu trabalhava na Dana, lá atrás, a Volkswagen tinha 70 mil funcionários, 80 mil, 60 mil, e é um negócio assim absolutamente monstruoso a Volkswagen, se você for na Volkswagen hoje, eu não sei quantos tem, mas deve ter 15 mil, 12 mil, 15 mil hoje, para onde foram os 50 mil, o que que aconteceu com 50 mil, 60 mil? Porque desintegrou a empresa, ela murchou, não deixou de vender, deve vender mais do que vendia naquela época, aumentou a produtividade dela, melhorou a qualidade dos carros, mas reduziu barbaramente, para onde foram? Morreram os 50 mil que perderam o emprego? Não, virou dono de lotérica e cada um se espalhou e criou-se uma nova leva de empregos em outros lugares, tem cara trabalhando com celular, que não existia na época, então do mesmo jeito que ela chega, é a destruição criativa de Schumpeter, vai destruir uma porrada de coisa, mas também vai nascer um monte de oportunidades novas aí que quem estiver esperto pega lá. Mas então tua casa era de empreendedores, e a Cris?

Cris Nascimento: Bom, meu pai já falecido, ele faleceu eu tinha 4 anos de idade, ele era Policial Militar, e a minha mãe era dona de casa, e assim, meu pai faleceu aos 45 anos, ele teve um infarto fulminante…

Luciano Pires: Puta merda, infarto, achei que era trocando tiro com bandido.

Cris Nascimento: Não, não, foi um infarto fulminante dormindo, a minha mãe foi acordar ele um dia, ele tinha falecido, eu tinha 4, meu irmão 9, e meu irmão mais velho 17, foi assim uma loucura, porque assim, por isso que eu admiro muito a minha mãe por ser uma mulher extremamente forte, por ter segurado essa barra com três filhos menores de idade e acabou que meu tinha um terreno assim no centro da nossa cidade, e aí eu não me lembro se isso começou ele ainda era vivo, mas eles alugaram esse terreno e hoje a minha mãe desde então vive de renda desse prédio que se construiu nesse lugar.

Luciano Pires: Quem construiu o prédio? Não foram vocês.

Cris Nascimento: Não, não, sempre alugou, mas assim, já teve assim muita dor de cabeça, porque foi inúmeras coisas, mas foi um bingo, na época que os bingos fecharam, então assim, foi uma loucura quando era um bingo, ficou preso na justiça, porque no bingo tinha a máquina de caça níquel, aí ficou lacrado alguns anos esse prédio, e a minha mãe pelo meu pai ser militar, ela recebeu uma pensão também.

Luciano Pires: E aluguel nada? A coisa presa lá…

Cris Nascimento: Enquanto estava lacrado não e ela assim, meu irmão mais velho trabalhando, ajudando ela, mas foi assim, acho que ficou lacrado, olha, eu lembro que eu saí do Brasil, um pouquinho antes do Brasil, foi quando lacrou e parou de pagar aluguel assim, que eles continuaram pagando aluguel um tempo, mas aí depois pararam, aí eu estava na Austrália quando conseguiu assim, a justiça conseguiu, deslacrou e aí tirou as coisas lá de dentro para ela poder de novo alugar e conseguir sobreviver, ter essa renda extra.

Luciano Pires: Hoje está alugado?

Cris Nascimento: Hoje está alugado, está bem, hoje é uma farmácia.

Luciano Pires: Você foi estudar o que?

Cris Nascimento: Eu estudei… eu sempre quis ser jornalista e eu acabei fazendo gastronomia, porque…

Luciano Pires: Food for stomach, food for… comida para o estômago, comida para o intelecto, se bem que para o intelecto hoje, jornalismo o que não tem mesmo é comida, só tem…

Cris Nascimento: Ainda bem que eu fui fazer gastronomia.

Luciano Pires: Você com 36 anos, jornalista, você podia estar hoje na GloboNews falando merda que é uma maravilha.

Cris Nascimento: Eu falo que foi assim, ainda bem, porque eu quando tinha 15, 16 anos, eu sempre queria fazer jornalismo, e aí fui, eu sempre gostei de viajar, e aí eu fui viajar, e aí eu fui fazer o meu primeiro intercâmbio, eu já falava inglês, já tinha feito inglês, e aí eu fui para os Estados Unidos trabalhar em um parque de diversões por sete meses, e aí eu voltei, eu falei assim, eu vou fazer gastronomia.

Luciano Pires: Você não foi para a Disney, não foi Disney o parque?

Cris Nascimento: Não, eu fui para o Six Flags, que é uma rede grande lá também, eu operava a montanha russa, os brinquedos lá, eu tinha 18 anos, e aí eu voltei, nisso, na verdade, eu comecei a cozinhar em casa assim, não cozinhava nada até então, e aí eu comecei a cozinhar em casa, aí eu falei assim, legal, eu gosto de comer, gosto de cozinhar, aí me enfiei, fui para o Senac em Campos do Jordão…

Luciano Pires: Fez a escola de…

Cris Nascimento: Fiz a escola de gastronomia lá.

Luciano Pires: Que é o the best no Brasil, não sei é o the best hoje…

Cris Nascimento: Naquela época era, porque tinha o hotel escola no Senac, eu fui estagiária lá no hotel escola em 2008, e aí logo depois… bom, posso falar já logo depois…

Luciano Pires: Pode, eu corto, se você pular demais eu corto.

Cris Nascimento: Quando veio a crise de 2008, vários restaurantes aqui em São Paulo fechando também, aquela crise toda, aí umas amigas minhas falaram assim, por que você não vai trabalhar em um navio de cruzeiros? E eu falei assim, ah eu gosto de viajar, não tenho dinheiro, tá aí, vou aí. E aí eu fui trabalhar em um navio da Royal Caribbean na Europa por sete, oito meses.

Luciano Pires: Como…

Cris Nascimento: Como cozinheira, foi meu primeiro trabalho como cozinheira, e aí já foi em um navio, aquela loucura, sete dias por semana trabalhando ali sem folga, e foi uma grande escola para mim também.

Luciano Pires: Deve ser um negócio puxadíssimo, porque você não tem nem para onde fugir.

Cris Nascimento: Não, não tem para onde fugir.

Luciano Pires: Estou de saco cheio, vou dar uma volta no parque. Não tem parque, é ali.

Cris Nascimento: E assim…

Murilo Macedo: Não dá nem para falar que vou embora…

Cris Nascimento: Então, foi o meu primeiro emprego, então eu falo que isso deu uma grande base assim…

Luciano Pires: Você sabe que eu tenho um monte de ouvinte embarcado, um monte, inclusive, eu preciso até retomar isso, vários mandaram para mim mensagens, e eu fui guardando, eu falei, qualquer dia eu vou fazer um programa dedicado a eles, então eu guardei, devia ter usado, está tudo lá guardado, eu vou ver se eu acho, o pessoal, eu estou embarcado em tal lugar, eu estou em navio tal. Ontem nós fizemos uma live com ouvintes assinantes do premium e um deles está dentro de um navio, entrou na live embarcado, estou aqui, estou a 12 milhas da costa da Bahia, estou indo para não sei aonde. Tem muita gente embarcado.

Cris Nascimento: Eu quando eu trabalhei, eu atravessei o Oceano Atlântico, porque eu peguei o navio no Brasil e fui até o Marrocos, e aí depois eu fiz ali o Mediterrâneo alguns meses, é uma loucura, é uma loucura, mas acho que é aquele assim, é sofrido, foi sofrido, mas eu acho que me deu uma resiliência assim na profissão, que é uma profissão, a cozinha, ela é bastante dura, e assim…

Luciano Pires: Natural, a cozinha em terra já é uma dureza.

Cris Nascimento: A cozinha em terra já é uma dureza.

Luciano Pires: Em um navio, com gente falando todo tipo de idioma…

Cris Nascimento: Não, assim, era jamaicano, indiano, filipino, e eram 70 homens e 5 mulheres no navio que eu trabalhei mais ou menos, na cozinha. Então, eu tinha 21 anos, acabado de me formar e fui assim literalmente descascar batata em um navio, mas foi incrível, conheci muitos lugares, pude sair alguns dias ali do navio, mas é bem duro, é duro, mas eu acho que criou uma casca necessária para aguentar os anos de profissão.

Luciano Pires: Qual foi o momento que bate na tua cabeça, vou embora do Brasil, primeiro a ideia, vou embora do Brasil, segundo, como é que aparece a Austrália na tua vida?

Murilo Macedo: Assim, eu não estava, na verdade, fugindo do Brasil, era mais do meu dia a dia ali, da minha rotina…

Luciano Pires: Você podia ter ido para Minas Gerais, qualquer lugar.

Murilo Macedo: Quando eu estava na faculdade, teve um amigo meu que foi para a Inglaterra, e aí ele voltou nove meses depois falando, eu fui para lá, fiquei na casa de um senhor, eu dirigia trator, ajudava ele a reformar os negócios lá. Eu falei, legal, acho que eu posso embarcar nessa também, aí eu me formei, quando eu me formei eu estava bem no trabalho, aí fica aquele negócio, vou ou não vou, carreira, aí eu falei, não, embarquei na pós-graduação, foram dois anos, pós-graduação em função do trabalho que eu fazia, do meu emprego, não me arrependo, mas hoje eu mudaria umas coisinhas. Aí quando eu terminei a pós-graduação, bom, agora vou largar tudo, nada vai me segurar, eu vou, aí fiquei pesquisando entre Irlanda e Austrália, porque na época, e acho que até hoje talvez, são os únicos dois países que você pode como estudante trabalhar legalmente, muitos outros países você vai como estudante ou qualquer outro visto, em teoria você não pode trabalhar.

Luciano Pires: Esse foi o fator decisor?

Murilo Macedo: Foi, era Irlanda e Austrália, aí o clima pesou mais, porque Austrália é um país enorme…

Luciano Pires: Eu tenho uma curiosidade, cara, porque se perguntarem para mim, fala um nome de um país que fica na puta que pariu, eu falo, Austrália, tem mais algum? Tem mais alguns, mas Austrália, é longe, é fora de mão, é fora de rota, é tudo complicado, é do outro lado do mundo. Era o lugar que eu não escolheria para ir morar, por outro lado, os inputs que eu recebo de quem foi, é sempre que é legal, país legal e tudo mais, mas eu fiquei curioso, o que que leva alguém a ir para o outro lado do mundo, sabe, eu fui para o outro lado do mundo. Tá certo, lá se fala inglês, embora aquele inglês lá, eu não sei se aquilo é inglês, porque entender aqueles caras é complicado, mas se fala inglês, então você já está perto da… e é um país com a levada ocidental, você não foi para o oriente, que é muita loucura. Mas isso tudo pesou?

Murilo Macedo: Sim, pesou, e aí nessa decisão entre Irlanda e Austrália, eu falei, Austrália, o clima, apesar da Austrália… a Austrália é praticamente do tamanho do Brasil, então você tem de deserto, praia, neve, então eu falei, dá para se encontrar fácil lá.

Luciano Pires: Que ano era?

Murilo Macedo: Estava decidindo em 2011, aí eu fui em 2012. Então, chegando, a minha chegada na Austrália era para ser assim, bom, eu quero fazer tudo aquilo que eu não fazia no Brasil, eu falei, eu quero vir para passar perrengue, a minha ideia assim, é como experiência de vida, ter aquele challenge, como eu falei antes, eu já estava ali no trilho da vida, então eu queria mudar isso, então eu falei, eu quero trabalhar de pedreiro, quero lavar prato, conhecer gente assim de diversas nacionalidades, culturas…

Luciano Pires: Você queria se incomodar, aí encontrou a Cris?

Murilo Macedo: Demorou um pouco até.

Cris Nascimento: A gente chegou quase um ano depois.

Luciano Pires: Mas legal, você estava com 25?

Murilo Macedo: 25 para 26.

Luciano Pires: Você foi com grana?

Murilo Macedo: Eu fui para passar um mês sem, sem trabalhar, que eu queria conhecer, e depois eu falei, eu me viro, eu arrumo qualquer coisa lá, eu era para ficar sete meses meu visto, então era para ter essa experiência.

Luciano Pires: Você tinha conversado com alguém que foi para lá, você tinha feito uma pesquisa, você sabia?

Murilo Macedo: Não, tinha uma irmã de um amigo meu que tinha ido para lá, mas não fiz nenhum tipo de… não tive nenhum tipo de conversa com ela, nada.

Luciano Pires: Não pegou uma empresa de intercâmbio que já garante tudo?

Murilo Macedo: Eu conversei com algumas empresas de intercâmbio, então eles davam mais ou menos um guia, eles te ajudam a aplicar o visto, o que é importante, porque tem algumas coisinhas que o pessoal às vezes pula e tem visto negado e não sabe porque. Então, como estudante, eu fui… eu já falava inglês aqui no Brasil também, então é uma coisa assim, isso é uma dica para quem vai para fora, vai com inglês porque depois o pessoal reclama, não consegui emprego, não sei o que, parece ser muito básico, mas muita gente vai sem.

Luciano Pires: Faz toda a diferença.

Murilo Macedo: Então, eu cheguei, eu falei, vou… fiquei um mês sem trabalhar, aí um amigo meu italiano que trabalhava em um restaurante falou, quer trabalhar em um restaurante? Eu falei, tá bom, vou trabalhar em um restaurante, ao mesmo tempo que eu comecei a trabalhar em um restaurante, eu fui trabalhar de técnico de futebol para crianças de 6 a 16 anos. Tinha um amigo meu que era amigo de um cara que era técnico…

Luciano Pires: Qual era o teu currículo? Eu sou brasileiro, Ronaldo, Romário, Zico…

Murilo Macedo: Ronaldinho Gaúcho, então assim, o currículo era assim, eu sou brasileiro…

Luciano Pires: Nos anos 90 eu estava nos Estados Unidos, passei uns períodos morando lá, inclusive fiquei um mês, não fiquei muito tempo, um mês que eu fiquei lá em uma cidadezinha chamada Richmond, lá em Indiana, pequenininha, tem vários Richmond’s, essa era pequenininha lá. E tinha esse lance, final de semana os caras me convidavam, futebol, vamos jogar bola. E a hora que eu chegava, chegou o brasileiro, chegou o brasileiro, achando que era o Pelé entrando em campo, eu ruim de bola nunca… mas a moral que os caras tinham… depois meu filho foi para lá e meu filho joga bem bola, e aí no time da escola foi o que fez ele se enturmar, cara, enturmou na escola quando botaram uma bola no pé dele, aí a molecada viu ele jogando, moleque… mas o futebol é uma… quando eu fui para o Everest, cara, eu estou lá no Nepal, meio da montanha, não tem nada em volta e vou conversar com o inint 24:50 e falo, cara, eu sou do Brasil, e aí eles, Ronaldo, Romário, inint 24:58 no Himalaia, futebol do Brasil, abre porta para todo lugar.

Cris Nascimento: A gente não tem nem ideia, quando a gente vai para fora que a gente entende o poder do futebol brasileiro.

Luciano Pires: Você foi ser técnico, então.

Murilo Macedo: Eu fui ser técnico de futebol, trabalhando em um restaurante, como técnico de futebol, e de manhã eu estudava inglês para negócios. Aí passou dois meses mais ou menos, como eu falei, eu queria passar essa dificuldade, esse perrengue, eu queria trabalhar do que quer que fosse, porém eu não queria, até brinco, gravatinha, calça social e sapato, mas lá dentro, depois de dois meses, não sei se o ego acaba batendo um pouco, aí eu comecei a procurar algum trabalho normal, vamos dizer assim, aí acabei caindo em uma empresa de pesquisa de mercado, fui trabalhar com pesquisa de mercado.

Luciano Pires: De gravatinha, camisa social.

Murilo Macedo: Me vi na Georgia Street, que é a Avenida Paulista lá de Sydney, no prédio exatamente na avenida principal, três anos e meio, aí passou um tempo, até nós já estávamos juntos, eu falava, meu, eu estou fazendo tudo aquilo que eu corri do Brasil, que eu estava correndo, e aí foi uma segunda etapa onde eu falei, não, eu trabalhei dois meses só assim como técnico de futebol e restaurante. Aí eu tive uma chamada, não foi isso que eu vim fazer. Mas até chegar nesses três anos e meio, nós nos conhecemos, eu cheguei lá em 2012, junho de 2012 e nós nos conhecemos em maio de 2013, então a gente já estava junto já há um tempo, tinha o suporte um do outro, eu já acompanhava ela na vida louca de restaurante.

Luciano Pires: Então, dá uma pausa aqui, vamos ver como é que a Cris chega lá. Como é que você chega lá, Cris?

Cris Nascimento: Lembra do navio, eu estava no navio, Mediterrâneo, e aí eu conheci uma brasileira que já tinha morado na Austrália, e aí ela me falou assim, nossa, porque quando você trabalha em cozinha de navio, não sei hoje em dia, mas naquela época, 2009, eu ganhava 614 dólares por mês, era muito pouco comparado ao trabalho de sete dias por semana, e ela virou para mim e falou assim, vai para a Austrália, a Austrália é muito bom para quem é chef de cozinha, cozinheiro e tal, e aí eu fiquei com aquilo na cabeça, aí eu fui para São Paulo, aí logo depois que eu desembarquei, eu fui para São Paulo, aí eu fui estudar MBA em gastronomia, fui fazer uma parte administrativa de gastronomia que eu falei…

Luciano Pires: Aqui na cidade de São Paulo?

Cris Nascimento: Aqui em São Paulo, na Anhembi Morumbi, que é o Senac e o Anhembi Morumbi são pau a pau nessa área. E aí fui estudar MBA em gastronomia, porque eu falei assim, esse negócio de cozinha é difícil, se eu quiser para dar uma evoluída, eu preciso estudar, e aí eu sempre gostei de viajar e tudo mais, eu tinha trabalhado no hotel Grand Hyatt por um tempo, e aí eu saí, quando eu saí do Hyatt eu comecei a procurar trabalho na área e não tinha nada…

Luciano Pires: O Chef de ontem é do Hyatt, viu?

Cris Nascimento: Ah, do Hyatt, que legal, talvez eu até conheça ele.

Luciano Pires: Não, ele é recente lá, não está há tanto tempo lá, mas é chef do restaurante japonês do Hyatt Rio de Janeiro.

Cris Nascimento: Que legal, eu trabalhei aqui em São Paulo, ainda estava para abrir o do Rio de Janeiro, e aí eu trabalhei nos banquetes, aqui na área de eventos do Hyatt, e aí eu acabei quando saí do Hyatt para me dedicar mais a pós-graduação, comecei a procurar emprego na área e não aparecia nada assim, aparecia para ganhar 800 reais.

Luciano Pires: Que ano era?

Cris Nascimento: Isso 2011, aparecia nada, nada, nada, eu falei assim, imagina, 800 reais é meu aluguel para morar aqui, então como que eu vou ganhar isso.

Luciano Pires: Que a diferença, você no navio, você ganhava 680 dólares, mas você tinha casa, comida tudo lá, aquilo era o dinheiro teu, guardado.

Cris Nascimento: E era um salário baixo, mas assim…

Luciano Pires: Nem se quisesse gastar, não tinha balada para ir…

Cris Nascimento: Tem os bares ali da tripulação, mas…

Murilo Macedo: Tem um pão e circo para a turma.

Cris Nascimento: É, tem um pão e circo, mas aí a gente… e aí eu estava nessa busca, aí eu comecei a dar aula de inglês, porque como eu já falava inglês, eu falei assim, quer saber, eu vou me virar com uma outra coisa, que eu preciso pagar as contas, e aí eu fui dar aula de inglês e de português para estrangeiro, não tinha assim nenhuma formação, mas eu tinha uma cara de pau ali para me virar. Só que daí já batia essa coisa do viajar, eu sempre gostei de viajar, de ver coisas novas mesmo, e aí tinha pensado aquela coisa da Austrália, mas primeiramente eu queria voltar para os Estados Unidos, porque eu gostava dos Estados Unidos, eu gostava da cultura, mas as agências naquela época falavam assim, não, os Estados Unidos está quebrado, está muito difícil migrar para lá, por que que você não pensa na Austrália? E aí começou essa ideia da Austrália, todas as agências sempre falavam da Austrália, estavam vendendo muito a Austrália naquele ano, que era 2011, 2012…

Luciano Pires: Sua amiga já tinha dado uns insights legais.

Cris Nascimento: E ela acabou voltando para lá, aí eu falei assim, quer saber, vou tentar, vou para um ano, e aí eu fui parar na Austrália estudando, como eu já falava inglês, eu não fui estudando inglês, eu fui estudando… como era… a gente tinha que ser estudante, naquela época a gente não tinha o entendimento que tinha outras formas de ir, mas naquela época eu fui estudando um curso técnico de administração, e aí eu cheguei lá estudando e aí logo realmente assim é uma área realmente boa para cozinheiros, e aí eu desde então sempre trabalhei com gastronomia.

Luciano Pires: Você foi com o visto de sete meses também?

Cris Nascimento: Eu fui com o visto de um ano e aí naquela época era assim, não existiam grupos de Facebook, hoje em dia tem muito conhecimento, tem muita agência falando sobre isso, mas aí eu fui renovando, vou ficar mais um ano, e aí a gente foi vendo que existiam outras possibilidades de ficar na Austrália, e foi quando… aí eu comecei a trabalhar em um restaurante brasileiro, em um café brasileiro bem popular lá em Sydney, e aí eles me patrocinaram para eu ficar na Austrália, eles me deram um visto de trabalho, e aí foi através desse visto que hoje a gente tem a nossa cidadania.

Luciano Pires: Legal. Mata uma curiosidade minha aqui, volta no navio lá, a tripulação, quer dizer, quem trabalha na cozinha é considerado tripulação, é tripulação?

Cris Nascimento: Sim, é.

Luciano Pires: A tripulação pode interagir com o pessoal que está… os passageiros e tudo mais ou essa interação é… você falou, o bar é o bar da tripulação, não é o bar dos passageiros, isso é necessariamente assim, tem uma instrução, não quero… na hora de lazer, tudo, você não vai na piscina deles, nada?

Cris Nascimento: Existem alguns, no navio naquela época… existe uma hierarquia ali, porque existem dois tipos de tripulação, a tripulação técnica, que são os marinheiros mesmo ali que fazem o negócio rodar, e a tripulação do entretenimento, que são os cozinheiros, os garçons, de entretenimento mesmo, artistas e tal. Então assim, dentro dessa tripulação do entretenimento também existe uma certa hierarquia, então por exemplo, o cozinheiro ele está lá embaixo junto assim, eu falo que o pessoal da lavanderia, que geralmente são um pessoal da Indonésia, de países bem subdesenvolvidos, depois vem os faxineiros, depois os cozinheiros, somos ali bem os ratos de porão do navio, e aí vai subindo para o pessoal, os bartenders, os garçons, e até irem os…

Luciano Pires: Bateu no iceberg, afundou, os cozinheiros vão tudo embora, não dá nem tempo de chegar lá em cima.

Cris Nascimento: Não, não, as nossas cabines são até debaixo do mar, era naquela época. E aí assim, por exemplo, nós cozinheiros não podíamos ter essa interação, porém o pessoal do entretenimento podia, e já tinha a liberdade de usar uma piscina, por exemplo. A gente… o navio, porque assim, como você trabalha muito, sete dias por semana, eu falo que no navio você não tem folga, você tem horas de folga, você não tem dias de folga, você tem horas de folga, eles tentam promover, ainda mais eu trabalhei em uma companhia americana, eles tentam promover algumas atividades para você não ficar louco.

Luciano Pires: Saúde mental, senão você enlouquece.

Cris Nascimento: É, então eles tem umas… fecham a piscina para a tripulação, às vezes acontece isso, festa na piscina para a tripulação, promovem alguns eventos temáticos, principalmente as independências dos países, então tem o Jamaican day, no navio que eu trabalhei tinha muito jamaicano por ser uma… a Royal Caribbean é uma bandeira que é muito forte na América Central, então tem muito jamaicano, hondurenho que trabalha nessa companhia, então eles tentam promover alguns eventos para a tripulação.

Luciano Pires: E aí como que vocês se conhecem? Você foi comer lá no restaurante dela?

Murilo Macedo: Na verdade assim, até eu tenho amiga irlandesa, ela fala para a gente não divulgar onde nós nos conhecemos, foi em um pub irlandês, mas aquele bem fim de festa.

Cris Nascimento: Aquele bem caído assim no meio da cidade.

Murilo Macedo: Era um domingo à noite.

Luciano Pires: Pub irlandês, só esse nome já deve ter um teor alcoólico assim, só o nome, o nome já tem alto teor alcoólico.

Cris Nascimento: E esse é daqueles bem assim, bem…

Murilo Macedo: Que funcionava 24 horas por dia, sete dias por semana.

Luciano Pires: O que que você estava fazendo lá?

Cris Nascimento: Eu tive um namorado antes do Murilo que eu fui muito apaixonada lá, e aí ele terminou comigo, eu estava muito desiludida, aí eu fui para uma aventura na Ásia, no sudeste asiático por dois meses, eu fui mochilar, eu fui atravessar a Ásia ali, Laos, Tailândia, Camboja, Vietnã de ônibus, sozinha.

Luciano Pires: Sozinha?

Cris Nascimento: Sozinha.

Luciano Pires: Tem uma série lá da Netflix que é assustadora, aquela da serpente lá que pegava os mochileiros sozinhos na Ásia.

Cris Nascimento: Hoje em dia eu falo assim, nossa, como eu tive coragem, e aí eu estava em uma fase muito assim, livre, leve, solta, eu estava muito desbravadora desse mundo, e aí eu tinha acabado de voltar, tinha três dias que eu tinha voltado dessa viagem, e eu estava assim, esqueci lá o meu ex, tudo, e aí fui sair um domingo com os amigos, e aí a gente… na verdade, tem uma história até engraçada, porque esse meu ex-namorado estudava na mesma escola que o Murilo, então a gente já esteve em festas assim na casa de pessoas onde eu estava com o meu ex-namorado, o Murilo estava e a gente nunca se encontrou, o amigo dele lembra de mim, eu lembro do amigo dele, mas a gente não se cruzou assim.

Murilo Macedo: Festa assim de 20 pessoas.

Cris Nascimento: É, de 20 pessoas, de eu estar na foto das amigas dele assim, e aí a gente teve uma outra ocasião também que a gente estava na mesma roda, não nos conhecemos, e a gente quando a gente estava nesse pub eu lembrava de um amigo dele, e aí eu falei assim, aí eu cheguei, conversando com o amigo dele, eu lembro de você e tal, e aí no final acabou que a gente ficou conversando horas e horas e ficamos até 5 horas da manhã nesse pub aí.

Luciano Pires: O álcool é uma beleza, o álcool é…

Murilo Macedo: E era o último drink, na verdade, acho que era o quarto que eu estava indo, porque eu tinha saído à tarde com esse amigo, fomos até um outro bairro, nós fomos em um bar superlegal que ele conheceu lá, ele falou, vamos tomar mais uma ali, lá na cidade, aí fomos nesse outro pub, não, agora vamos tomar a última nesse bar, não eu tenho que trabalhar amanhã, aí ele não, agora eu prometo, é a última, aí nós fomos nesse último, era quase meia noite de domingo.

Luciano Pires: Era para encontrar a Cris.

Murilo Macedo: Era para encontrar a Cris, e eu falando, tenho que trabalhar, saí do…

Luciano Pires: Na Austrália se bebe como se bebe no Brasil que é numa boa, se você sair na rua com uma garrafa de cerveja ninguém estranha?

Murilo Macedo: Dentro dos lugares o pessoal abusa, gosta de beber, mas eles têm um controle bem rígido assim de álcool, tanto para consumo, quanto para servir, quem trabalha na área de hospitality que a gente chama, no Brasil é hospitalidade, bares, restaurantes ou baladas assim, se você vai trabalhar em algum lugar que serve álcool, você tem que tirar um certificado de responsabilidade para poder servir álcool. Então, você faz um curso…

Luciano Pires: Você tem uma documentação para isso?

Murilo Macedo: Tem uma carteirinha.

Luciano Pires: Cara, que coisa, tem um amigo meu, eu estava conversando com ele outro dia, ele foi para o Chile, chegou ele com a acho que a namorada, a mulher, acho que é mulher dele, chegaram no Chile, desceram no avião, pararam no hotel, deram entrada no hotel, que legal, saíram, foram em uma lojinha que tinha lá, pegaram duas cervejas, botaram o pé na calçada com a cerveja na mão, ele falou, dei dois passos, cara, a polícia veio, me pegou, e eu não fui preso porque o cara ficou com pena de mim, era para eu ter sido preso e pago 900 reais de multa, porque é proibido você… aí ele falou, eu comecei a olhar e descobri que tem restaurantes que não podem servir bebida alcoólica e para servir tem que ter… o Brasil é uma maravilha, esculhambação que é isso aqui.

Cris Nascimento: E se o garçom, o bartender notar que você estar alcoolizado, ele se recusa.

Luciano Pires: Não serve mais.

Murilo Macedo: Ele pode recusar e pode, inclusive, te tirar do estabelecimento.

Luciano Pires: Porque se não sobra para ele.

Cris Nascimento: E se acontece um acidente de trânsito assim por álcool e a pessoa estava alcoolizada e ela estava no seu estabelecimento, você pode ter muitos problemas por isso.

Luciano Pires: Se a pessoa for menor então, aí o cara vai para a cadeia.

Murilo Macedo: Fecha o estabelecimento.

Cris Nascimento: Os restaurantes têm até que pedir um táxi se a pessoa está extremamente alcoolizada, eles têm a obrigação de chamar um transporte, um táxi, alguma coisa para essa pessoa sair em segurança, digamos assim, não sair pegando um carro ou coisa do tipo.

Murilo Macedo: Beber na rua assim também…

Luciano Pires: Bom, aí se conheceram os dois, que legal…

Cris Nascimento: Ele tinha uma namorada, lembra, a namorada ainda tinha.

Luciano Pires: Você ainda estava com a namorada?

Murilo Macedo: Não, mas ela ficou no Brasil, então…

Luciano Pires: Puta merda, você largou a namorada no Brasil e você na Austrália.

Murilo Macedo: Aí foi um término meio…

Luciano Pires: 2011 ainda não tinha facilidade de conversar por vídeo, era mensagem.

Cris Nascimento: Era mais difícil.

Murilo Macedo: Já tinha terminado, mas não tinha terminado oficialmente, cara a cara. Então, depois…

Cris Nascimento: Eu sempre zoo ele com isso, mas ele terminou com a namorada.

Luciano Pires: Resolveram vamos juntar os dois aqui, a gente racha o aluguel, racha a despesa.

Murilo Macedo: No começo a gente até ficou separado um tempo, mas como o aluguel lá é caro…

Cris Nascimento: Aí eu disse, vou morar aí na tua casa, vamos economizar.

Luciano Pires: Deixa eu especular um negócio com vocês antes da gente chegar na pandemia, aquelas coisas todas lá. Cara, sair do país é complicado, porque você deixa pai, deixa mãe, deixa irmãos, não é só o fato de vou me aventurar, tem toda uma carga emocional gigante, porque quem fica sofre, pai e mãe, cara, pelo amor de Deus, é um sofrimento atroz ali. E quando você sai daqui para ir para os Estados Unidos, meu, nove horas de voo, estamos aqui. Meu, para a Austrália, bicho, três dias voando, sei lá como é essa merda, isso nunca pesou? Porque eu vi que você saía, se mandava e vamos lá. Como é que vocês tratavam dessa questão da família que fica para trás?

Murilo Macedo: No começo tem aquele espírito meio de aventura, então a minha mãe até hoje fala me zuando assim, eram só sete meses…

Luciano Pires: É o que eu falo, isso é curtição, vou dar uma volta, isso é curtição, agora estou fixando residência e minha vida será aqui a oito mil milhas de vocês, sei lá que distância que é, é uma decisão bem complicada.

Murilo Macedo: É que para a gente acabou mudando já estando lá, como nós não fomos… nosso tipo de… não foi uma migração, nós fomos para entrar, então ao longo do tempo foi mudando…

Luciano Pires: Quando vocês se encontraram os dois, não era plano ficar lá?

Murilo Macedo: Não.

Luciano Pires: Não havia um plano de estar lá, aliás, estar não, de se estabelecer lá?

Murilo Macedo: Até brinco que eu estava tentando pegar o visto de trabalho na empresa, naquela empresa de pesquisa de mercado, e a Cris, como ela estava naquela pegada que tinha voltado da Ásia, tudo, ela até falou, não, eu quero viajar, a gente ficou combinando de viajar o mundo, tudo. Aí eu falei, tá bom, quando eu falei aquele ego que bateu de trabalhar em escritório, depois que eu me toquei, eu falei, não vim aqui para isso. Então, a gente estava um pouco nesse período. Então, essa estadia na Austrália, ela foi mudando um pouco a nossa cabeça sobre se fixar lá.

Cris Nascimento: E ela foi aos poucos também, foi gradual essa…

Murilo Macedo: Os pais realmente ficaram naquela ilusão de que a gente ia voltar logo, só que a vida lá é bem diferente assim, então você começa a tomar gosto por certas coisas que, infelizmente, pelo menos na época, não tinha aqui no Brasil.

Luciano Pires: Tipo, me dá um exemplo aí, o que que conquista um brasileiro em um país que teoricamente… eu viajei um bocado já, já tive experiências lá fora, tudo, conversei, já vi como é que funciona lá fora, e em lugar algum, não conseguia achar em lugar algum essa coisa do abraço do brasileiro, ninguém abraça como o brasileiro, o abraço lá fora é pontudo, tem canto quadrado, aqui o abraço é redondinho, tem toda uma coisa aqui de um acolhimento que lá fora a gente não vê, por isso que eu sempre imaginei, falo, mudar para um lugar que seja frio é complicado, e o frio não é temperatura, o frio do calor humano, como é que é na Austrália, a Austrália também tem ponta, o abraço é pontudo?

Cris Nascimento: É, ele é pontudo assim, eu falo que ele falta uma energia, eu falo assim, a Austrália, ela é um país lindo, um país que tem muitas praias, onde a gente mora, ela tem um clima realmente bem parecido com o Brasil, então  esses pontos que hoje a gente… lógico que assim, você tem segurança, acho que o número 1 é a segurança, de não ter portão na nossa casa, a gente mora em uma casa que não tem portão, então assim, acho que essa é a primeira… e não moramos em um condomínio, moramos em uma rua normal. Porém é engraçado, Luciano, porque assim, mesmo estando há 11 anos lá na Austrália, a gente nunca falou que ficaria para sempre na Austrália, e eu acho que talvez um pouco por conta desse abraço pontudo, sabe assim, apesar que assim, a gente tem muitos conhecidos, muitos amigos brasileiros lá que assim são, eles são irredutíveis assim, eu nunca mais vou voltar para o Brasil. Hoje, depois de 11 anos, voltando, que nem a gente está agora de férias depois de seis anos que a gente não vinha para o Brasil, claro que mexe muito você ver a sua família envelhecendo, e ainda mais pós Covid, que graças a Deus a nossa família está bem, não perdemos ninguém por conta da pandemia. Então, eu acho que assim, já tem um tempo que a gente conversa sobre a possibilidade de um retorno para o Brasil, um retorno muito bem pensado, claro, e essa viagem, ela serviu um pouquinho como um termômetro. Claro que hoje em dia é mais fácil falar de um retorno tendo um passaporte australiano de segurança, backup que a gente fala.

Luciano Pires: Vocês têm a cidadania já australiana?

Cris Nascimento: É, a gente só falta nossa cerimônia.

Luciano Pires: Tem um green card lá também?

Cris Nascimento: É, hoje a gente tem um green card, na verdade, e que a gente foi por essa jornada aí do restaurante e tudo, e a gente pegou o green card, aí depois que você tem o green card, você tem todos os direitos que um australiano, só não tem o dever de votar, então a gente já tem o green card aí desde dois mil e…

Luciano Pires: Mas se quiser votar pode?

Cris Nascimento: Não, com o green card… você precisa ser cidadão para votar.

Luciano Pires: Nem que queira você pode votar, nem com o green card na mão?

Cris Nascimento: Não. Então assim, mas você tem acesso à saúde pública, você tem acesso à educação pública, você tem todos os direitos, só não tem o dever da votação.

Luciano Pires: Quer dizer, você não pode nem ser político lá?

Cris Nascimento: Não, com green card não…

Luciano Pires: Nem pode ser votado.

Cris Nascimento: Não, não, não. E aí agora com a cidadania, então depois de quatro anos na Austrália e um ano de residência, que seria nosso green card, agora a gente pôde aplicar nossa cidadania, a gente demorou um pouquinho, mas a gente aplicou esse ano, a gente tem que fazer uma prova de conhecimentos da Austrália, a gente tem que estudar ali um pouquinho, entender algumas coisas, e fazer uma entrevista na imigração, nós fizemos, a gente está nesse processo, já foi tudo aprovado, agora tem que fazer, eu brinco que é a nossa colação de grau australiana, que é pegar ali certificado, formalizar.

Luciano Pires: Com juramento e tudo mais?

Cris Nascimento: É.

Luciano Pires: Aí vocês são cidadãos, aí você pode votar, pode fazer tudo?

Cris Nascimento: Aí você pode fazer tudo.

Luciano Pires: Virou um australiano?

Cris Nascimento: Aí vira um australiano. Hoje assim, nós tendo o green card, sendo residentes, se os nossos filhos nascerem em qualquer lugar do mundo, eles já são australianos.

Luciano Pires: Ah é? Não precisa nascer na Austrália?

Cris Nascimento: Não, porque a gente… por sermos residentes, mas aí agora com a cidadania também não vai importar.

Luciano Pires: Vocês vão manter dupla cidadania, vão manter?

Cris Nascimento: Sim, sim, sim. E aí agora… por isso assim, hoje, claro essa viagem para o Brasil foi um pouquinho de termômetro, vamos ver o que que está acontecendo.

Murilo Macedo: Se os abraços ainda estão quentes.

Luciano Pires: Você está ouvindo o LíderCast, que faz parte do ecossistema Café Brasil, que você conhece acessando mundocafebrasil.com, são conteúdos originais distribuídos sob forma de PodCasts, vídeos, palestras, e-books e com direito a grupos de discussão no Telegram. Torne-se um assinante do Café Brasil Premium, através do site ou pelos aplicativos para IOS e Android, você pratica uma espécie de MLA, master life administration, recebendo conteúdo pertinente de aplicação prática e, que agrega valor ao seu tempo de vida, repetindo, mundocafebrasil.com.

Luciano Pires: Antes de chegar nessa vinda para o Brasil, me conta um pouco de lá, eu tenho um amigo meu, um grande amigo meu, o Sydney que mudou para os Estados Unidos, foi morar lá e ele tinha a esposa e duas filhas pequenas, e ele mudou para lá, primeiro ele chegou sozinho, arrumou a casa, ficou na casa sozinho, aí a esposa dele foi e as filhas ficaram aqui, e eles ficaram morando lá um período ali. E ele falou que eles foram recebidos de uma forma muito fria, a vizinhança muito fria os recebeu, quando as meninas chegaram, falou, cara, virou de ponta a cabeça, porque a hora que as meninas chegaram e o pessoal enxergou a gente como uma família estável, pai, mãe e filhos, aquilo abriu, todo mundo virou amigo da gente, a gente foi aceito pela comunidade na hora que as crianças apareceram. Vocês não têm filhos?

Cris Nascimento: Ainda não.

Luciano Pires: Esse processo de ser aceito pela comunidade lá, de ser um imigrante e tudo mais tem uma separação, tem um…

Cris Nascimento: Acho que em Sydney, que a gente está em Sydney também que é uma cidade muito cosmopolita.

Murilo Macedo: Sydney, Melbourne, Brisbane, Camberra, que são as principais, Perth, que são as principais cidades, uma cidade que tem uma aceitação relativamente boa. Agora se você vai mais para dentro da Austrália…

Luciano Pires: Onde mora o crocodilo dundee.

Murilo Macedo: Você vai encontrar uma resistência maior. Porém, o governo australiano, ele faz um incentivo para os imigrantes novos irem para essas cidades menores, porque é onde eles estão precisando de mão de obra mais. Então assim, tem essas duas coisas, você pode ter uma rejeição um pouco maior, porém eles precisam.

Luciano Pires: E as levas de imigrantes que chegam lá, tem blocos que vem de onde, tem muito brasileiro… vocês até falaram para mim aquele dia na conversa, quando vocês chegaram lá tinha 10 mil brasileiros, hoje tem 130 mil, como é que era?

Cris Nascimento: Tem um grupo lá do Facebook que assim, eu na verdade, a gente entrou tinha 3 mil pessoas e hoje em dia tem mais de 130 mil pessoas, chama Brasileiros em Sydney, e é assim, brasileiro, a gente acompanhou assim uma explosão de imigração, hoje acho…

Murilo Macedo: Explosão de imigração e mudança de perfil de imigrantes.

Cris Nascimento: De estudantes assim, porque hoje a Austrália tem essa educação, a educação é um negócio na Austrália, é um business, é uma renda para a Austrália…

Murilo Macedo: Eu acho que é o terceiro inint 51:17 essa área de serviço, educação, tanto superior…

Luciano Pires: Molecada do mundo inteiro que vai lá para estudar.

Cris Nascimento: E os brasileiros…

Luciano Pires: A primeira leva de brasileiro que foi eram os bicho grilo, mochileiro e surfista que foram para aquele fim de mundo lá, depois começou a ir estudante…

Cris Nascimento: É, para acho que o inglês, e aí veio a família… agora começou muitos estudantes para fazer pós-graduação, para fazer mestrado, doutorado, já com família, porque assim, se você vai como estudante, principalmente nessas…

Murilo Macedo: Estudante de inglês e curso técnico tem algumas diferenças quando você vai para um curso universitário ou pós-graduação.

Cris Nascimento: É, porque se você vai para um curso universitário…

Luciano Pires: O imigrante não é um problema então para eles? Aquilo está tão no fim do mundo que não chega um barco com 100 imigrantes que vieram do fim da África lá, tudo fudido, isso não acontece lá.

Cris Nascimento: É diferente. Até mesmo o chinês, que nem a gente falou, tem muito chinês que chega lá, mas já chega em um ensino universitário, vai muito nepalense, nepalense acho que é número 1 ou 2 de estudantes também, tem muito nepalense, pessoal do Nepal.

Luciano Pires: É mesmo é?

Murilo Macedo: É, eu acho que assim, é inglês, claro, Austrália foi colônia, então inglês, irlandês, nepalense, indiano, chinês…

Cris Nascimento: E brasileiro.

Murilo Macedo: O brasileiro está mais abaixo assim.

Cris Nascimento: Mas tem bastante, tem bastante.

Luciano Pires: Quer dizer, vocês não sentiram algum tipo de preconceito, alguma coisa assim pelo fato de ser… ser brasileiro na França é um pavor, é horrível, os caras tratam a gente a pontapé lá.

Cris Nascimento: Hoje você sabe quem tem uma coisa espalhada pelos muros aí de Sydney, que tem às vezes a foto ali de um indiano ou de um asiático e fala assim, I’m Australian, então assim, para mostrar que o australiano, ele não é mais aquele… o loirinho, de olho azulzinho ou aborígene também, que é o nativo australiano. O australiano hoje é… não digo como o Brasil ainda, porque ainda está em processo de mistura, o Brasil já está mais misturado, a Austrália ainda está se misturando, mas você já tem os australianos asiáticos, os brasileiros…

Luciano Pires: Eu publiquei uma isca, cara, foi essa semana aqui, mostrando uma raca, a raca lá dos maoris, da Nova Zelândia. E aí eu explicava o seguinte, a raca, aquela cerimônia que é legal, que acontece o time de rugby da Austrália, famoso no mundo inteiro, que vai começar o jogo, eles fazem… é muito legal aquilo, só que eu falei, só que essa aqui é especial, aí eu falei, eram dois times universitários que iam se enfrentar, só que os times não fizeram a raca, eles ficaram parados alinhados um olhando para o outro, e atrás deles estavam todos os estudantes daquela universidade, então tinha lá 300 estudantes, eles fizeram a raca ao invés do time fazer, e a hora que a câmera começa a filmar, então aparece o moleque com a feição de maori, do lado dele tem um loirinho, do outro lado tem um pretinho, do outro tem de tudo… então, você fala, cara, é a cultura maori sendo levada adiante por gente do mundo inteiro, porque tem todo tipo de sangue misturado, dá uma arrepio a hora que você vê isso. Você fala, não é uma coisa de grupinho que olha para… a cara dele mostra de onde ele vem, não, cara, tem todo tipo de gente lá. Essa é a Nova Zelândia, a Austrália deve estar parecida.

Murilo Macedo: É muito parecido, eles têm meio que um caminho livre entre os dois países.

Luciano Pires: E aí vocês decidiram, você chutou o pau da barraca, tirou a tua gravata pré ou pós pandemia?

Murilo Macedo: Foi pré.

Cris Nascimento: Não, você foi durante.

Murilo Macedo: Não, eu tirei a gravata da empresa de pesquisa de mercado, aí eu fui trabalhar em obra, trabalhei em uma distribuidora de carne e açougue por quase um ano, aí tive uma recaída, fiquei cinco anos trabalhando na Canon, como coordenador de produtividade.

Luciano Pires: Entre aspas, CLT, você virou um CLT.

Murilo Macedo: É.

Luciano Pires: E você não?

Cris Nascimento: Eu estava no processo do trabalho lá, que eu tinha… como eu fui patrocinada pela empresa, eu tinha uma certa obrigação com eles, eu ganhei um visto de quatro anos de trabalho diretamente com eles, mas depois de dois anos eu podia aplicar a residência, o green card, e aí o Murilo era meu dependente nesse visto, ele podia trabalhar onde quisesse, só que eu não, eu tinha a obrigação com esse restaurante. E só que daí seguiu, eu consegui, a gente conseguiu a residência, aí a gente pôde ficar livre lá.

Luciano Pires: Para ele ser dependente vocês tiveram que casar?

Cris Nascimento: A gente teve que fazer um acordo no papel.

Luciano Pires: Era um contrato…

Murilo Macedo: É um casamento.

Luciano Pires: Vocês fizeram um casamento mesmo no civil.

Murilo Macedo: Só que só é válido lá, não é válido aqui. Não porque nós não queremos, mas porque você tem que refazer.

Luciano Pires: No civil não adianta você trazer o teu documento lá, você vai ter que fazer o casamento civil aqui também.

Murilo Macedo: Ou fazer o esquema de validação.

Cris Nascimento: E tem que comprovar assim, quando a gente aplicou esse visto, a gente tem que fazer toda uma comprovação, dele entrar como dependente, tem que ter toda uma comprovação que moram juntos, eles são bem rígidos assim.

Murilo Macedo: Eles vão até em mídias sociais para ver se o casal tem fotos, tem histórico juntos…

Cris Nascimento: A gente tinha conta bancária junto.

Luciano Pires: Se não era muito fácil, junta um nepales com um indiano lá, vamos embora, vamos dizer que nós estamos juntos.

Cris Nascimento: E aí a gente… com o green card eu fiquei livre também para trabalhar, então eu fui me enfiar assim para trabalhar no meio dos australianos, porque eu estava trabalhando muito tempo com brasileiros, em um restaurante brasileiro, trabalhando mais com funcionários brasileiros, aí eu falei assim, não, eu preciso me enfiar um pouquinho aqui na sociedade. Aí eu fui trabalhar em uma fábrica de geleias e condimentos, que eu sempre tive vontade de ter alguma coisa do tipo, então fui trabalhar para dar uma… para aprender ali e fui trabalhar em uma ong também, que é uma ONG que recolhe comida de restaurante, de hotéis e doa para instituições e também eles dão aulas para grandes empresas para ensinar como reutilizar, eu fui dar aula, na verdade, nessa ONG, como reutilizar produtos que estão meio feinhos assim na geladeira para você aprender a utilizar esses ingredientes. Então, eu fui… até foi um choque cultural que eu tive depois de anos de Austrália, de estar ali trabalhando com inglês o tempo todo e dar aula em inglês, que foi um grande desafio assim para mim, mas que foi muito legal assim, deu bastante base para o que a gente faz hoje.

Luciano Pires: Aí pinta a pandemia… bom, vocês juntaram os trapos, foram morar juntos?

Cris Nascimento: É, a gente já estava morando junto há um tempo.

Luciano Pires: Aí pinta a pandemia, cara, e essa imagem que começa a chegar no Brasil da pandemia australiana eram horrorosas, cara, porque lá os caras baixaram o sarrafo, e foi até estranho porque a imagem que a gente tem Austrália, Nova Zelândia, são países de liberdade, aquilo tranquilo, na boa, de repente a polícia está descendo o sarrafo. E eu lembro que as primeiras imagens que chegaram de polícia pegando para valer a turma era de lá que vinha, foi Austrália, depois Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Canadá, falei, cara o que que está acontecendo com o mundo? Como é que aconteceu isso, como pintou a ideia de que havia uma pandemia vindo por aí, foi imediato lá, como é que foi?

Murilo Macedo: Então, eu estava até trabalhando na Canon quando eu tive essa recaída, no final do meu período lá foi quando começou a pandemia, e porque a gente trabalhava com em uma área de digitalização e impressão principalmente para bancos, era um serviço essencial, então eu continuava indo trabalhar, eles fizeram o seguinte, serviços essenciais, como médicos, posto de gasolina, para continuar a cidade rodando ali no mínimo, você era autorizado a sair de casa, transporte público ainda funcionava com os horários bem limitados, mas você tinha que ter a justificativa do trabalho…

Luciano Pires: Que era um documento?

Murilo Macedo: É, ou seu contrato ou um contato, você tinha que provar que você trabalhava na…

Luciano Pires: E a polícia podia parar você…

Murilo Macedo: A pé ou de carro ou no trem…

Luciano Pires: E acontecia isso?

Murilo Macedo: Acontecia mesmo. Então, eu não fiquei esse primeiro período preso em casa, eu ainda ia.

Luciano Pires: E a Cris?

Cris Nascimento: Eu estava trabalhando, eu como cozinheira, acabou que eu estava assim trabalhando às vezes de casual para eventos, e parou tudo, até essas aulas pararam também, aí foi que essa ONG, eles começaram a produzir comida para doar para as pessoas em necessidade, então foi uma forma deles conseguirem manter os chefs ali, a roda rodando e também distribuir comida para as pessoas que não tinham acesso… porque assim, o que aconteceu? O governo australiano ajudou bastante financeiramente quem era cidadão, residente, porém as outras nacionalidades não, então assim, se você tinha um visto de estudante ou se você tinha… não tinha um visto de residência lá, às vezes teve gente que perdeu a renda e não tinha…

Murilo Macedo: A princípio você não ia ter ajuda do governo, se você não tivesse residência, o green card ou cidadão.

Cris Nascimento: Então, a gente começou a produzir marmitas para essas pessoas.

Luciano Pires: É interessante, porque no Brasil o que prendeu a gente dentro de casa foi o medo, mas era o medo da doença, não era o medo da polícia, e lá se o cara fala, não me interessa, vou sair, pum…

Murilo Macedo: Lá, eles fizeram até um… eles abriram… não foi de forma oficial, mas nas entrelinhas ficava assim, você pode denunciar, vamos dizer assim, para a polícia se o teu vizinho ou se vai ter um encontro, alguma coisa, você estava livre para poder denunciar.

Cris Nascimento: Monitorar as pessoas.

Luciano Pires: Cara, isso é terrível, vira um estado policial de repente.

Murilo Macedo: Então, você ficava meio assim, até sem estar fazendo alguma coisa errada, você imaginava que você pode estar fazendo…

Cris Nascimento: Você ficava ali naquela neura.

Murilo Macedo: Eu ainda estava indo para o trabalho, então eu pegava o trem e o metrô vazio, vazio, às vezes entrava alguma pessoa na estação e eu pensava, será que eu estou mantendo a distância, máscara…

Luciano Pires: Não passou pela cabeça de vocês deixa eu ir embora daqui, o mundo está acabando, eu quero que ele acabe comigo perto dos meus pais, não pintou um…

Cris Nascimento: Eu acho que assim, foi muito louco porque a fronteira fechou, aí para você poder sair você tinha que pedir autorização do governo para poder sair do país, para você retornar, você tinha que fazer uma quarentena que no começo era paga pelo governo, mas depois você tinha que desembolsar, sei lá, 3 mil dólares para fazer essa quarentena. Então a gente assim, a nossa família, graças a Deus, conseguiu ali estar bem, a minha mãe não precisou sair de casa, tinha os meus irmãos ali dando auxílio, os pais do Mu era um pouquinho mais difícil porque a irmã dele morava em Brasília e tal, então a gente ficou mais cauteloso, mas…

Murilo Macedo: Dava para monitorar um pouco até por chamada por vídeo, então a gente conversava bastante.

Cris Nascimento: E a gente assim, querendo ou não, eles acho que até preferiram a gente estar lá porque a gente estava seguro no sentido de estar assim financeiramente tendo um backup maior do governo se a gente necessitasse e tudo mais. Mas acho que na época passa muita coisa na cabeça, e eu acho que talvez a gente não tivesse tanta noção do que estava acontecendo aqui realmente, sabe? Acho que a gente estava meio… as informações chegam… a gente não sabe exatamente o que está acontecendo, então acho que dá uma paralisada ali também do que fazer.

Murilo Macedo: Tem uma coisa, nós nunca tivemos televisão, aparelho tivemos sim, mas antena para TV local, então notícia da TV…

Luciano Pires: Rede brasileira então…

Cris Nascimento: Nem australiana, nem brasileira.

Murilo Macedo: Nada.

Luciano Pires: Mas vocês chegaram a perceber que não importa o que aconteça no mundo, se é pandemia, se é guerra, se é terremoto, se é furacão, quando chega no Brasil a gente esculhamba tudo? A pandemia aqui foi uma esculhambação, se tiver guerra vai ser uma esculhambação…

Murilo Macedo: A gente sentiu não tanto durante, mas um pouco depois porque durante, querendo ou não, a gente conversava com a nossa família, evitava de ver estatística, às vezes meu pai vinha, não, olha aqui, acho que ele tinha um aplicativo que mostrava o número de mortes.

Cris Nascimento: E a gente falou assim, gente, para com isso, pelo amor de Deus.

Luciano Pires: Morreram 4 mil nesse final de semana.

Murilo Macedo: E às vezes chegavam umas notícias pesadas, você abre um site, ah morreu não sei quantos hoje, aí depois vinha uma contestação, não, mas a estatística pegou um dia e meio, não, era para pegar outro dia.

Luciano Pires: Aquele grupo lá do Facebook, Brasileiros em Sydney pegou fogo.

Cris Nascimento: Nossa, pegou fogo e era o pessoal assim, alguém pedindo… quando não podia fazer as coisas, por exemplo, no grupo das meninas lá alguém pedindo assim, quero fazer a unha, aí umas assim, como assim você vai fazer a unha, está tudo morrendo. Então, tinha essa…

Murilo Macedo: Cuidado, a polícia está de olho nos grupos.

Cris Nascimento: Virou uma loucura, a gente evitou ficar muito nessa vibe, se não a gente enlouquecia também lá. Mas a gente teve… eu particularmente tive alguns períodos assim que eu fiquei bem assim preocupada e meio, sei lá, você pira um pouco, lógico que a gente teve assim, acho que por lá não ter tido tantos casos assim de morte e tudo, então a gente teve alguns períodos de vida normal lá.

Luciano Pires: Especialmente porque você se afastar da televisão faz toda a diferença isso, porque aqui era o dia inteiro, e aí não tem cabeça que fique sã com alguém, você vai morrer, você vai morrer, não adianta, o dia inteiro, morreu outro, ah o fulano morreu, uma loucura.

Murilo Macedo: É, às vezes tinha umas conversas com a família, lembra do fulano? Morreu.

Luciano Pires: Morreu, morreu, morreu, vai chegar minha vez, aí dá um pavor. Eu acho que eu peguei Covid duas vezes, acho, não tenho certeza, uma vez sumiu o meu paladar, falei, bom, devo estar com Covid, fui fazer o exame, aqui eu vi aquela puta esculhambação que era o exame, enfia o algodão no teu nariz, aí vem o resultado pode ser que seja, pode ser que não seja, tem 80% de chance de estar errado e de estar certo, aí você ia no médico, um médico falava A, outro falava B, era uma puta de uma zona, e eu falei, ninguém sabe de merda nenhuma, quer saber de uma coisa, eu não estou mal, estou bem, então eu vou continuar trabalhando, moro a 60 metros daqui, então eu vinha para cá sozinho, tinha ninguém, mas cara, e para entrar no elevador com aquele sentimento de culpa, meu Deus, acho que eu estou Covid dentro do elevador, eu vou matar todo mundo, aí mandava vir a comida, aí chegava o motoqueiro com a comida para me entregar, meu Deus, eu vou sair e vou pegar na comida perto do… eu vou contaminar o motoqueiro, aí um dia eu parei e falei, que puta paura, que loucura é essa, cara. E aí como é que eu tratei essa história toda aí, eu botei, depois de ler milhões de coisas, eu botei na cabeça, cara, a pandemia veio e ela vem com uma cota, ela vai matar seis milhões de pessoas e depois ela vai embora, e não há o que fazer, porque ninguém conhece essa merda, não sabe de onde veio, não há explicação para marido e mulher dormindo um do lado do outro, a mulher morre, o marido não, o que que explica isso? Ninguém descobriu o que que era, o cara tomou quatro vacinas e morreu, o outro não tomou nenhuma vacina e está bem, ninguém explica essa merda. Eu falei, bom, se eu for tentar entrar na vibe, eu vou ficar louco, eu vou continuar tocando minha vida, vou evitar, não vou sair lambendo corrimão na rua, mas eu vou tratar minha vida sem ficar histérico, mas para mim foi muito fácil, eu estava sozinho, então não tinha… o que aconteceu comigo é que o mercado acabou, o meu mercado de palestras acabou, no dia seguinte já não tinha nada, e aí foi complicado, mas foi a época de focar no online, focar nos PodCasts e tudo mais, que abriu esse campo aí, mas essa paura mundial foi… e a gente conseguia enxergar que tinha países que estavam mais apavorados que nós ainda, a Nova Zelândia foi um, Austrália, Canadá, esses caras estão todo mundo louco.

Murilo Macedo: Acho que as fronteiras da Austrália ficam fechadas coisa de dois anos e meio, você não podia viajar, você tinha que ter uma autorização.

Luciano Pires: Eu não consegui mandar coisa pelo correio para lá, eu tinha um pacote para mandar pelo correio, o correio, na Austrália a gente não entrega. Como não? Quem que entrega? Outro jeito, pelo correio não vai. E levou um ano.

Cris Nascimento: A gente acabou assim, Sydney foi rígido, mas eu acho que a gente foi um pouquinho menos do que Melbourne, que foi… porque os estados lá têm autonomias, então…

Murilo Macedo: Fechar fronteiras, decidir o que…

Cris Nascimento: Então, acho que Melbourne foi um pouco pior, apesar que a gente teve um segundo lockdown em 2021 que foi mais pesado lá em Sydney, que durou o que? Uns seis meses, não, uns cinco meses mais ou menos.

Luciano Pires: Quando você fala lockdown é lockdown mesmo, não saia de casa…

Cris Nascimento: Não pode sair a 5 quilômetros de casa, você tem um raio…

Luciano Pires: Se não a polícia te pega.

Cris Nascimento: Pode pegar sim, só que na época a gente já estava começando o nosso negócio e até…

Luciano Pires: Vamos chegar aí que essa era a próxima. Nessa loucura toda, teu restaurante parou, você está na ONG, você…

Murilo Macedo: Eu estava no final de trabalho na Canon e fui justamente ali quando começou a pandemia, que a gente estava começando com a ideia do nosso negócio, aí eu decidi de vez pendurar a gravata.

Luciano Pires: E virar um empreendedor para valer. Qual é o negócio?

Cris Nascimento: Então, hoje assim, nosso negócio, ele é meio camaleão, ele foi se adaptando, foi mudando ao longo do tempo assim, a ideia inicial era receber pessoas para experiências gastronômicas na nossa casa, no nosso quintal, por isso que ele chama KeenTown Project, a gente fez uma brincadeira ali com o inglês, de ser keen, keen é uma palavra que quer dizer empolgação, animação, town de cidade, então é um lugar entusiasta, digamos assim. E aí quando o gringo pronuncia parece o nosso quintal de casa. Então, essa ideia inicial, a gente mudou para uma casa nesse bairro que é bem… é gastronômico, tem bastante cervejarias e tal, e aí a gente tinha essa ideia de lúdica de receber, porque eu estava cansada da indústria de restaurantes também, de você cozinhar para um número e não para pessoas, para olhar ali na cara da pessoa, olhar no olho e falar assim, olha eu cozinhei isso daqui, tem história, isso e aquilo. A gente quando… o Mu trabalhou um tempo nos dois, eu também, a gente começou fazendo assim para amigos, aí faz para amigos de amigos, a gente teve alguns formatos que a gente fazia.

Luciano Pires: É o Monday Night Burgers que o meu filho montou, exatamente isso, começa a fazer em casa, recebe dois amigos, aí vira quatro, num dia ele tem 18 amigos lá, metade dos quais ele nunca tinha visto na vida dele, se reunindo para ter uma noite hambúrgueres, até que o condomínio vai lá, chama a polícia, vira uma confusão, aí ele descobre que tem que sair de lá porque virou um business, mas ele acabou montando um negócio exatamente assim com esse conceito, não adianta você passar na rua, não vai ter um letreiro “entre aqui”, quem vai, tinha que entrar em um site, botar um application, era convidado, no dia recebia o endereço, aí ia lá, tinha uma coisa muito especial, virava todo mundo amigo, era uma festa, era bem legal.

Cris Nascimento: A gente fez alguns formatos assim, a gente tinha o formato de grupos para feijoada, buffets de feijoada e buffets de moqueca, então a gente recebia grupos de 10 a 20 pessoas, e elas iam lá para passar a tarde no nosso quintal.

Murilo Macedo: Sábado ou…

Cris Nascimento: Ou de domingo e tal. E aí…

Luciano Pires: Isso pré pandemia, antes da pandemia…

Murilo Macedo: Isso foi em 2018 que a gente começou.

Cris Nascimento: 2019, aí a gente fazia em paralelo.

Murilo Macedo: Porque ainda trabalhava.

Cris Nascimento: Aí a gente montou um menu degustação que o tema era mandioca, então assim a gente fez um menu degustação de seis pratos, onde a gente recebia dez pessoas, cada prato tinha um elemento de mandioca e a gente combinava gastronomia e história e cultura, então a gente tinha uma apresentação, não tinha menu impresso, a gente ia falando como que era criado aquele prato, geralmente eram estranhos, dez estranhos porque eles não se conheciam, vendia ticket individual, ou um grupo reservava também. E aí quando veio… isso estava meio entre pandemia, já estava entrando em pandemia, mas a gente conseguia navegar porque não tinha restrições tão rigorosas, e como a gente tinha um outro trabalho também, quando baixava a pandemia assim alguma restrição maior, a gente continuava no nosso outro trabalho. E aí até que veio o segundo lockdown de Sydney em 2021, e aí que foi que a gente estava com o mês de julho todo reservado, e aí acabou tudo, a gente teve que devolver o dinheiro de muitas pessoas que já tinham reservado eventos. E aí a gente já prevendo isso, que poderia acontecer isso, a gente começou uma entrega, um sistema de entrega onde a gente fazia, fez uma experiência gastronômica na casa das pessoas, então elas recebiam o prato da semana que vinha com uma história, que vinha com um QR code para acessar uma playlist que acompanhava aquele prato, muito inspirado no Café Brasil, nessa época, muita coisa aí boa, e aí foi que no lockdown a gente explodiu, no sentido de a gente pôde levar a nossa comida por Sydney inteira, como a gente trabalhava com alimentação, o Murilo podia entregar em todos os lugares de Sydney, então a gente não tinha restrição dos 5 quilômetros.

Luciano Pires: Quer dizer, acabou sendo bom, acabou sendo bom para vocês.

Murilo Macedo: E foi justamente na pandemia onde as pessoas talvez buscariam uma segurança maior, foi quando eu saí do trabalho e falei, vamos cair de cabeça no nosso projeto.

Cris Nascimento: E as pessoas, elas estavam em lockdown, elas estavam precisando de um conforto, elas estavam comemorando os aniversários dentro de casa…

Luciano Pires: E aí a comida…

Cris Nascimento: …As celebrações e a comida… e as pessoas estavam trancadas dentro do país, os brasileiros principalmente, então foi um aconchego ali do Brasil na casa delas.

Luciano Pires: Muito bom, e deu certo… mas aí isso pegou?

Cris Nascimento: Pegou durante o lockdown, aí quando acabou que foi abrindo as coisas, lógico que as pessoas estavam querendo sair, a gente já notou que mudou um pouquinho, a gente… porque o nosso business, nessa época o Murilo já tinha dado a louca, largado tudo e eu também, então os dois 100% no negócio, a gente já tinha dado essa cartada. Então, a gente migrou para um outro serviço que foi o que dá a base, ainda é hoje do nosso negócio de serviço de chef personalizado, então a gente cozinha a comida da semana das pessoas em um formato bastante personalizado, cada cliente tem um menu, um esquema totalmente personalizado para eles…

Luciano Pires: Vocês viraram marmiteiros.

Cris Nascimento: A gente virou marmiteiro.

Luciano Pires: Marmiteiro, vão mandar a marmita, com a diferença que a pessoa escolhe que marmita que ela quer, é isso aí?

Cris Nascimento: Mas de uma forma bem, bem personalizada, se ela faz dietas, se ela tem alergia, ela tem uma dinâmica diferente, então a gente fez essa base, a gente ainda continua fazendo eventos, mas de uma forma mais personalizada, então a gente faz feijoadas para eventos, que é uma coisa bem bacana assim, a gente fez uma feijoada ano passado para a Unicef Austrália, então para 80 gringos comendo feijoada lá, então a gente sempre tenta trazer essa cultura brasileira.

Murilo Macedo: Ela desenvolveu uma linha de produtos também.

Cris Nascimento: A gente desenvolveu uma linha de produtos que a gente até trouxe um item para você, que a gente tem geleias, inint 01:17:23

Luciano Pires: Sabe que há um tempo atrás eu recebi… há um tempo atrás, tempo atrás, faz dez anos, sei lá quanto tempo faz, eu tinha feito um artigo qualquer conversando sobre… falando alguma coisa sobre a necessidade de a gente consumir aquilo que é nosso aqui, cara, dê preferência para o que está perto de você, cuide dos empregos aqui em volta, pare de consumir o que está lá longe. E alguém da Austrália falou, cara, aqui tem de montão, e mandou para mim as fotos dos produtos com o selo made in Austrália, com o maior orgulho deles, isso é feito aqui, e aquilo tem um atendimento especial. Que é o contrário nosso aqui, se é do Brasil… mas está mudando, se é importado é bom, se é feito aqui é meia boca.

Cris Nascimento: Lá na Austrália é ao contrário.

Luciano Pires: Mas eu vi o selinho, era um triângulo.

Murilo Macedo: Um canguruzinho… ele tem uma barrinha que ele mostra quantos por cento do produto é Australiano.

Cris Nascimento: Você vai ver na nossa label, como chama?

Luciano Pires: Rótulo.

Cris Nascimento: Você vai ver no nosso rótulo tem, e lá é ao contrário assim, tem gente que não compra se não for produzido na Austrália, já é ao contrário. Então, a gente desenvolveu essa linha de produtos e o Mu também…

Luciano Pires: Shopee lá não vinga.

Murilo Macedo: Assim, tem alguns outros sites, mas sem essa força da Shopee. O pessoal prioriza.

Luciano Pires: E aí vamos, estamos chegando já no nosso final aqui, bom, está rolando, está dando certo lá, aí vocês resolvem dar um break e dar um pulinho no Brasil para ver como é que estão as coisas aqui, seis anos sem vir para o Brasil, nós estamos em 2023, 2015…

Cris Nascimento: 2017.

Luciano Pires: Olha a minha conta.

Murilo Macedo: A pandemia tirou…

Luciano Pires: Tirou metade dos meus neurônios, tinham 3, um e meio foi embora. 2017 para cá, cara, de 2017 para cá o Brasil deu uma virada, mudou bastante, mudou muito, e aí vocês tomaram um susto na hora que vocês chegaram aqui? Desceram no Brasil e falaram, não é mais aquilo, continua sendo aquilo, ficou meio triste, não, está igual, o que que vocês viram, qual foi choque.?

Murilo Macedo: A última vez que viemos, viemos por 15 dias, em 2017, então também a gente não conseguiu ter uma ideia tão boa na época, foram duas semanas que nós fomos em um congresso de gastronomia, um casamento e voltamos para a Austrália. Então, dessa vez nós vamos ficar dois meses para entender, a gente quer conversar com as pessoas, entender como é que está o Brasil, porque muito tempo sem vir e toda a bagunça que foi nos últimos anos.

Cris Nascimento: Que o mundo dividiu entre pré Covid e pós Covid também, então…

Murilo Macedo: Teve o mundo e teve o Brasil, precisa dividir pré 2018 e pós 2018.

Luciano Pires: Política e tudo foi uma bagunça sem tamanho.

Murilo Macedo: Então, essa vinda, que nem a gente falou, é um termômetro para conversar com as pessoas e sentir. Acho que o saldo é positivo dessa vinda para o Brasil, por exemplo, Uber, na Austrália há muito tempo, sempre estava bem sólido, até para vir para cá, eu falei, eu vou renovar minha carteira de motorista, que venceu em 2019, aí depois eu fiquei pensando, acho que o Uber deve estar funcionando bem lá, cheguei, funcionando super bem, problema de locomoção se tinha muito aqui em São Paulo, trânsito, não sei o que, a parte de melhor, trem…

Cris Nascimento: Está um pouco melhor, mobilidade.

Murilo Macedo: Mas a gente veio um pouco assustado com a questão da violência, querendo ou não é o que chega, muito do que chega, mas não tive nenhuma experiência até agora.

Cris Nascimento: É lógico que tem uma cautela, porque a gente acaba tendo, a gente é muito… não tem essa questão lá na Austrália, você pode usar o se celular à meia noite em uma rua deserta, então assim, essa questão é uma coisa que para a gente aqui, lógico que a gente precisa… tem que ser ter muito mais cautela, mas a gente não se sentiu ameaçado, eu falo que eu tenho mais medo do trânsito, daquela coisa de caminhão, das pessoas no trânsito do que da violência em si.

Luciano Pires: Eu trouxe o cônsul de Israel aqui para fazer LíderCast, eu perguntei para ele, como é viver em um país com a ameaça de cair um foguete na tua cabeça a cada segundo? Ele falou, é morar em um país onde os meus filhos vão para a escola sozinhos e eu não me preocupo, no Brasil eu não posso. Ele deu o troco, nós estamos tão acostumados com isso que para a gente é trivial, violência passou a ser algo trivial para quem mora aqui, quem vem de fora toma um choque, tira isso do bolso, tira esses brincos, não vai com celular, como não vai? Vocês se sentiram em casa quando chegaram aqui ou não?

Murilo Macedo: Um pouco, não como eu achei que… na casa da família tudo bem, mas fora, a gente já se sente acho que bastante australiano.

Cris Nascimento: Eu acho que, na verdade, a vinda para o Brasil nos mostrou o quanto de australiano a gente tem, que eu acho que talvez lá a gente talvez não perceba, porque você está vivendo lá, você já está muito inserido lá, talvez você não perceba quantos costumes australianos você acaba adquirindo, e aí quando você está no Brasil você fala assim, nossa, já penso mais como um australiano do que como um brasileiro.

Luciano Pires: Me dá um exemplo. Outro dia eu entrevistei uma amiga minha argentina, ela falou, quando eu cheguei no Brasil tomei alguns choques, e ela falou, o choque primeiro que eu tomei aqui é o seguinte, cara, como é que vocês se conformam de ficar em uma fila? Como é que vocês entram em uma fila e está tudo bem, e quando alguém reclama, calma, calma, como é que você se conforma em pegar um celular que não funciona? E quando você reclama, o cara, espera aí que daqui a pouco o sinal volta. Ela falou isso e me chocou, e é uma argentina que está aqui do lado da gente.

Murilo Macedo: Uma coisa que a gente comenta praticamente em todo lugar que a gente vai, eu sempre trabalhei, bom, quando trabalhava nas empresas com eficiência de processo, o Brasil, de forma geral assim, vou generalizar, é muito ineficiente, a produtividade é muito baixa para qualquer coisa, desde o aeroporto até o cafezinho que você vai tomar na esquina.

Luciano Pires: É pavoroso, eu que moro aqui e que estou aqui há 67 anos, eu estou assustado, a queda de qualidade do serviço no Brasil é um negócio pavoroso, e antigamente você sentia isso nas coisas mais específicas, alguma coisa que precisava de uma eficiência, de uma especialização maior, eu tive um problema porque eu peguei um pintor ruim e o pintor tem que ser um pintor bom. Hoje em dia, o moleque que corta frios na padaria é uma porcaria, corta mal o frio, como assim? O moleque que bota as coisas no saco, que isso, cara? Que cara feia é essa aí, bicho, o que aconteceu?

Murilo Macedo: A gente comenta também, porque o Brasil tem aquela coisa, não, o brasileiro é amigável, todo mundo sorrindo, essa caricatura que tem do Brasil, eu não senti tanto, não sei se os últimos períodos o pessoal deu uma murchada…

Luciano Pires: Se você parar para pensar, rir de que?

Cris Nascimento: Rir da desgraça.

Luciano Pires: Eu tenho uma palestra minha que eu criei um termo chamado brasiliência, que é a brasilidade com resiliência, quando está tudo uma merda, está tudo um horror, enchente, aquele pavor, meu, bota duas cervejas, uma carninha, está resolvido, depois a gente se vira. Então, o brasileiro tem esse espírito, ele não sofre ao ponto, o pavor vira sambinha.

Cris Nascimento: E às vezes você não está conformado e vou, espera aí, deixa eu mudar isso daqui, que nem a gente, vou para fora, vou tentar criar alguma coisa, não, você se conforma, você toma cerveja mesmo, e isso é uma coisa que às vezes incomoda a gente, principalmente essa parte da eficiência, lá na Austrália tudo é por hora, time is money.

Murilo Macedo: Até o salário mínimo é calculado por hora.

Cris Nascimento: A expressão time is money é literal lá, então tempo é dinheiro o tempo todo, então assim, nós como empreendedores lá, hoje a gente também tem um negócio de duas pessoas, a gente não tem pessoas contratadas…

Murilo Macedo: É, tem social media, alguma coisa assim.

Cris Nascimento: Como você, a gente tem ali as pessoas…

Luciano Pires: Prestador de serviço.

Cris Nascimento: Mas porque a gente não consegue e é muito caro, então a gente tem que ter o máximo de eficiência e produtividade, então assim, quando a gente vê aqui no Brasil, aí você vai… a gente tem até um exemplo, o Indústria Verde, a gente foi para o Pará, para Belém do Pará, aí a gente estava observando ali nas docas, que é um lugar bem famoso, vários restaurantes, aí tinha uma sorveteria, um quiosque, era um quiosque de uma sorveteria, era uma ilha de sorvete, tinham 11 atendentes, a gente contou, 11 pessoas, eles se esbarravam ali naquela coisa e nem tinha 11 pessoas esperando para tomar sorvete. E a gente falou assim, gente, isso nunca aconteceria na Austrália, porque não é que tem mais gente que vai ser mais eficiente, pelo contrário, eles estavam se batendo ali e ninguém estava chegando a lugar nenhum, então acho que aquilo resume o Brasil nessa coisa das pessoas hoje, daí elas acabam sendo mais acomodadas, elas acabam… a gente pensa que porque tem mais pessoas vai ser mais eficiente, o negócio vai estar pronto mais rápido, mas pelo contrário, a gente está notando uma acomodação maior.

Murilo Macedo: Você dilui ali o trabalho, fica acho que o outro vai fazer…

Luciano Pires: É assim mesmo.

Murilo Macedo: E aquela cervejinha…

Luciano Pires: Ontem eu estava… quando foi? Anteontem eu estava trabalhando aqui, toca a campainha em um horário que não era para tocar a campainha, aí eu desço para ver o que que era, eu abro a coisa, tem acho que oito garis que estavam limpando a rua, e um deles tocou a campainha para ver se eu não dava uma caixinha para eles tomarem um café, gari da prefeitura, com roupa de prefeitura e tudo mais e tocou minha campainha para eu ir lá, você não tem umas moedinhas para a gente tomar um café, aí eu olhei para aquilo e falei, cara, será que uma coisa dessa acontece no primeiro mundo, onde o cara vem, ele toca a campainha, ele tira você dá tua produção, me dá uma graninha para eu tomar um café, mas sabe, é um nó, e eu olhei para aquilo e falei, cara, eu acho que isso é só aqui, não sei se tem em outro lugar. Eu consigo imaginar um cara tocando a campainha e falando assim, estou fudido, estou com fome, sou pobre, me dá um pão duro, isso eu consigo entender, mas os caras estão trabalhando, parou para tocar a campainha para tomar um cafezinho, eu não sei se tem lá fora. E essas coisas me incomodam, sabe, de… não é por ter ou não ter dinheiro, não é isso, é a quebra do processo, entendeu? Tinha que estar todo mundo, vai, vamos acabar isso aqui logo para poder fazer mais, e não tem essa. Aí a turma se conforma.

Cris Nascimento: Isso que nos assusta um pouco.

Murilo Macedo: Aquela cervejinha que o brasileiro vai terminar em pizza, vai terminar em cerveja, e a gente acaba se acostumando a tomar, o brasileiro acaba se acostumando a tomar cerveja quente, aí com o tempo vai ser cerveja quente e sem gás, e você vai levando e numa boa, você vai normalizando as coisas.

Cris Nascimento: Normalizando os problemas.

Luciano Pires: É um nível de exigência que lá fora… mas é aquela coisa, depois que você experimenta e sabe que há uma opção e que é possível que as coisas funcionem, é difícil você voltar e aceitar, mas cara, é tanta porrada, que chega uma hora que você aceita, como é que eu vou mudar essa… como é que eu vou gritar com a atendente da companhia aérea, porque meu voo, mudaram o portão do meu avião, porque não adianta, bicho, quem mudou o portão não está nem aí com quem vai estar lá, aí se perde no caminho, você fala, o sistema é tão enrolado que é impossível desenrolar.

Cris Nascimento: E essa energia também, você começa a selecionar as lutas que você vai lutar, porque se você for brigar com tudo, você realmente não vive.

Murilo Macedo: Tem que saber escolher quais as lutas, porque até no que a gente imagina, a Cris até comentou antes, em uma possível volta para o Brasil, o que a gente pensa por causa da família, ter filho perto da família, a gente pensa muito, teve um Café Brasil, eu não vou lembrar qual é, você fala a questão do brasileiro, já há muito tempo esse Café Brasil, os brasileiros que saindo acabam se especializando, aprendendo coisas lá fora e você até fala assim, o Brasil está de braços abertos, o Brasil precisa.

Luciano Pires: Sim, voltei com o que vocês aprenderam, voltem com essa… eu já vi que dá para fazer, então vamos implementar aqui, para de se conformar que eu vi que funciona, lá fora deu certo, por que que não dá aqui?

Murilo Macedo: Então, a gente tem um pouco disso, um pouco não, tem bastante, a gente aprendeu muito lá fora e está aprendendo, empreendendo fora, vendo como pode ser simples algumas coisas e como elas funcionam, e trazer para cá bastante disso, e até em um material de marketing que a gente tem, tem uma frase que a gente gosta que fala “think global, act local”, pense globalmente e aja localmente…

Cris Nascimento: É, mudar o mundo você não vai conseguir…

Luciano Pires: Mas a tua esquina dá para dar um jeitinho nela.

Cris Nascimento: Dá para dar um jeitinho. E eu acho que o Café Brasil nos inspira muito a isso e…

Luciano Pires: Então, quando é que vocês tomaram contato com o Café Brasil, lá ou aqui?

Murilo Macedo: Foi quando eu pendurei a gravata, foi na primeira semana…

Luciano Pires: Então, em 2017?

Cris Nascimento: Não, a gravata definitiva que foi em…

Murilo Macedo: Na pandemia.

Cris Nascimento: 2020.

Luciano Pires: Então, é pouquinho, faz pouco tempo? Você não tinha o hábito de ouvir PodCast, não havia esse hábito lá?

Murilo Macedo: Eu tinha um PodCast com uns amigos meus, que eu jogo basquete lá, então a gente tinha um PodCast sobre basquete.

Luciano Pires: Só de áudio?

Murilo Macedo: É, só de áudio, gravava cada um na sua casa, depois um outro amigo meu condensava, então eu saí foi acho que na primeira, segunda semana, que foi meio de novembro, eu saí final de outubro, e eu estava cortando a grama do quintal, porque a gente ia ter um evento, eu falei, deixa eu ouvir alguma coisa aqui, eu fui no Spotify, eu pesquisei assim, eu coloquei Brasil, cultura, música e política, alguma coisa assim, e aí veio Café Brasil, aí eu falei, o primeiro que veio, eu falei, ah legal, deixa eu ver aqui, era o episódio 760 e pouco, 40 e pouco, aí começou a tocar, veio um depoimento de um ouvinte, veio um ouvinte falando, nossa, Luciano, ouço seu PodCast desde não sei quando, tem muito tempo, eu fiz direito, advocacia, não sei o que, mas o que eu aprendi no PodCast foi muito mais do que eu aprendi na universidade, aí eu ouvi e falei, ah, o que que esse cara está falando? Balela, aí o depoimento começou assim. Aí eu falei, vamos ver, aí depois que eu vi…

Cris Nascimento: Eu lembro até hoje você chegando e falando, nossa, eu encontrei um PodCast muito legal, nossa, muito legal, só que eu vi que ele é muito antigo.

Murilo Macedo: Eu olhei e falei, era lá de 2006, acho, e esse episódio era um dos mais recentes, que era do final de 2020, aí fui lá, primeiro, falei, bom, deixa eu ouvir o primeiro, 2005, como é que era? A voz do narrador estava diferente, mas eu falei, vamos ver.

Luciano Pires: O conteúdo é parecido, mas a plástica era totalmente diferente.

Murilo Macedo: Aí eu fui do primeiro, segundo, terceiro, foi comecei a ficar muito engajado no ouvir, falei, nossa, acho que eu vou fazer, ainda mais por nós estarmos tanto tempo longe do Brasil, eu fiz meio que uma viagem no tempo para entender o que que estava acontecendo no Brasil, não só o que estava acontecendo, mas como é que estava a cultura, ter mais contato com a cultura, principalmente música, meu pai é muito de música, eu também, aí nós fizemos uma viagem pela costa da Austrália de van, saímos de Sydney, fomos até Byron Bay, e eu fui acho que 10 horas dirigindo direto ouvindo Café Brasil e a volta também.

Cris Nascimento: E a volta foi direto, porque a ida a gente foi parando, mas a volta foi direto, então a gente ouviu assim oito horas de Café Brasil direto.

Murilo Macedo: Aí engrenou, aí eu ouvi todos os Café Brasil, todos os Cafezinhos, todos os Café com Leite, todos os LíderCast.

Luciano Pires: Você está falando em 1700 episódios, barbaridade.

Murilo Macedo: Dois anos e pouco para ouvir tudo, estou desatualizado agora dos últimos, porque as férias aqui…

Cris Nascimento: Mas a gente falava assim, eu falava para ele assim, como que vai ser quando você terminar, quando você chegar no atual, por que vai dar um vazio, você ouve ali e tal, e ele falou assim, não, ele ficou até meio quieto assim, refletindo tudo, digerindo todos esses episódios, aí eu falava para ele assim, um dia a gente vai no LíderCast.

Luciano Pires: Tamo aí.

Murilo Macedo: É verdade.

Luciano Pires: Isso é que nem assistir Game of Thrones, acabou a série, meu Deus do céu, o que que eu vou fazer agora que não tem mais a série? Vou ter que procurar outra, vamos ver se eu acerto lá. Mas o Café Brasil vai continuar.

Murilo Macedo: E até no período você começou com as assinaturas, mas eu estava lá em 2016, eu nem sei se ainda, eu nem sei se o Café Brasil está ainda, porque eu não ouvia nenhum para frente, eu queria… era tudo surpresa, eu comecei do um, eu falei, eu não sei se o Café Brasil ainda existe, se o Luciano está vivo ou não, aí eu falei, bom, quando eu terminar, vamos ver, se tiver ainda, eu quero fazer a assinatura do…

Cris Nascimento: E a gente assinou tudo depois.

Luciano Pires: Legal. Bom, e os planos aí, o que que vem pela frente? Vocês estão aguardando essa avaliada, vão continuar lá, se alguém quiser conversar com vocês tem como?

Cris Nascimento: Sim, no Instagram é o nosso maior contato ali de entrar com a gente, eu sou a cozinheira, mas eu sou a social media, eu sou o costumer service, então KeenTown Project com K e…

Luciano Pires: Então, vamos lá, @…

Cris Nascimento: keen, que é K E E N, town de cidade, T O W N, project.

Luciano Pires: Tudo junto, keentownproject tudo junto? Então, vamos lá  K E E N town T O W N project, ponto nada?

Cris Nascimento: Não…

Luciano Pires: É @…

Murilo Macedo: A gente tem o nosso website que é a mesma coisa, keentownproject.com.

Cris Nascimento: Se digitar no Google, no Google acha a gente também, que a gente tem o nosso site, tem uma página lá para entrar em contato com a gente e hoje as expectativas para o Brasil, muita gente perguntou, e aí mudou, vão querer voltar mesmo? Eu acho que sim, eu acho que a gente está mais… essa coisa, algo mexe muito forte com a gente, além do abraço redondo, mas eu acho que é o nosso… o que que vai ser o nosso Everest, sabe? De tipo assim, o que que a gente… o lugar onde a gente quer chegar, mas também como a gente vai poder impactar positivamente na vida das pessoas, a gente tem assim…

Luciano Pires: Tem um propósito aí.

Cris Nascimento: Tem um propósito, o que que é o nosso Café Brasil, sabe? Nosso legado. E eu acho que assim, a Austrália é um país superdesenvolvido, as pessoas têm muitas oportunidades lá, tanto pelo governo, as coisas fluem mais fáceis, e a gente pensa que lá… acho que a Cris e o Mu, e o KeenTown, acho que as pessoas estão bem servidas já com outras coisas, eu acho que talvez a gente poderia impactar muito mais se a gente tivesse aqui.

Murilo Macedo: Talvez o Brasil precise mais.

Cris Nascimento: Mais da gente.

Luciano Pires: Eu vou encerrar com Tom Jobim então, dizendo que morar na Austrália é muito bom, mas é uma merda, morar no Brasil é uma merda, mas é muito bom. Obrigado pela visita e boa viagem de volta para vocês lá, tamo junto aí.

Cris Nascimento: Obrigada.

Murilo Macedo: Obrigado.

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast, a transcrição deste programa você encontra no LiderCast.com.br.

Voz masculina: Você ouviu LíderCast com Luciano Pires, mais uma isca intelectual do Café Brasil, acompanhe os programas pelo portalcafebrasil.com.br.