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Luciano Pires -

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite, bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. Hoje trazemos Vladimir Pershine, que se graduou em física pela Universidade Estatal de Tomsk, na Rússia, em 1988, Vladimir se formou em ciências físicas e matemática pela mesma universidade em 1993. No começo dos anos 2000, mudou-se para o Brasil apaixonando-se pelo país, construindo aqui uma carreira como pesquisador e professor na Universidade Federal do ABC, em 2020, Vladimir naturalizou-se brasileiro. Uma conversa sobre culturas diferentes, choques culturais, guerras e muito mais.

Muito bem, mais um LíderCast, eu sempre começo o programa contando como é que o meu convidado chegou até aqui, esse aqui foi uma indicação, eu gravei o LíderCast com o Dennys Xavier, e no meio da conversa, aquela conversa acalorada que nós dois tivemos aqui, ele falou, cara, você tem que chamar ele aí, ele vai ter umas histórias boas para contar. Bom, mandei uma mensagem, estamos aqui conversando os dois. Eu começo o programa com três perguntas, que são as únicas que você não pode chutar, o resto você pode chutar à vontade, essas três, por favor, direitinho, seu nome, sua idade, e o que que você faz.

Vladimir Pershine: Vladimir Pershine, em russo, no Brasil pode me chamar de Vladimir Pershine, mas a pronúncia original é Vladimir Pershine, estou com 56, sou professor universitário, trabalho na Universidade Federal do ABC, aqui em São Paulo, lá em Santo André.

Luciano Pires: Nasceu aonde?

Vladimir Pershine: Eu nasci na Rússia mesmo, na cidade que fica na Sibéria, chama Tomski, não é muito conhecida fora da Rússia, mas dentro da Rússia, ela é conhecida como um centro universitário, muita gente se formou lá, tem várias faculdades famosas.

Luciano Pires: Chama-se Tomski?

Vladimir Pershine: Tomski, porque tem Omsk e tem Tomski.

Luciano Pires: Sim, Omsk eu me lembro de ter visto…

Vladimir Pershine: São duas cidades diferentes.

Luciano Pires: Eu me lembro que ali naquele pedaço tem umas cidades interessantes, eu li muito a respeito do Dyatlov Pass, o incidente Dyatlov, você já leu isso? Dos estudantes que saíram e foram fazer uma caminhada, foram fazer um tracking lá na região da Sibéria e desapareceram e foram encontrados depois, cada corpo em um lugar, na montanha, ninguém descobriu até hoje o que aconteceu lá…

Vladimir Pershine: Não sei qual, porque é bastante comum acontecer, não é nada fora…

Luciano Pires: Quando é que você veio para o Brasil?

Vladimir Pershine: Eu vim em 2000, vou completar agora 23 anos da minha vida brasileira.

Luciano Pires: Você está com quase tanto tempo de Brasil… daqui a pouco você vai ser mais brasileiro do que russo.

Vladimir Pershine: Pois é, é meio surreal, principalmente quando entram na sala de aula com uma turma nova, e a maioria dos alunos está na faixa de 18, 20, 20 e poucos anos, e eu penso, eu falo mais tempo português do que eles, apesar deles serem nativos, mas uma sensação um pouco estranha, eu tenho mais tempo, mais vivência no Brasil do que eles que são nativos.

Luciano Pires: Como é que você veio parar aqui, por que que você veio para o Brasil?

Vladimir Pershine: Eu já estava procurando algum lugar para sair, porque tudo o que está acontecendo agora, as guerras, o regime autoritário na Rússia, na verdade, nos anos 90 as pessoas mais sensíveis, digamos, não vou dizer inteligente, mais sensíveis já estavam percebendo que a coisa não estava evoluindo para a direção certa. E muita gente naquela época estava procurando de fato um lugar ou para sair para viver alguns anos fora, ou para sair de vez mesmo. E eu tinha uns contatos com uma universidade na Alemanha, nos anos 90 eu todo ano ia lá, a gente tinha… o nosso grupo de pesquisa tinha um projeto de colaboração com a Universidade de Humboldt, em Berlim, mas eu logo percebi que para ficar na Europa, na área acadêmica, era praticamente impossível…

Luciano Pires: Por quê?

Vladimir Pershine: Porque tinha muito pouco espaço, muita gente muito competente, e muito poucas vagas, até os próprios alemães, italianos, franceses, naquela época não estavam conseguindo arrumar emprego depois de mestrado, doutorado, estavam indo para os Estados Unidos, ou os lugares como Brasil mesmo Austrália. Então, eu comecei a procurar opções mais viáveis digamos, e em um congresso em Moscou, em 2000, conheci um físico que até agora trabalha aqui em São Paulo, na Unesp, ele é americano naturalizado brasileiro, nós conversamos com ele, ele falou, se você quiser, a gente aplica um projeto para a Fapesp, então a conversa foi em maio, em agosto a gente aplicou, em dezembro já desembarquei aqui no aeroporto de Guarulhos com uma mala com dois livros.

Luciano Pires: Você não conhecia nada do Brasil, não sabia nada?

Vladimir Pershine: Não vou dizer nada, conhecia pouco, porque eu não fui o primeiro russo, digamos, da minha cidade, do nosso grupo científico que vieram aqui, já tinham outras pessoas, eles contavam um pouco, um lugar… não é a Europa, não é primeiro mundo, mas em princípio tem tudo para viver, para trabalhar, e portanto na minha cabeça já era, eu não conhecia quase nada, mas eu tinha essas opiniões dos meus colegas que falavam que é bom, é bom tentar ir lá, trabalhar um pouco, ou mesmo tentar estabelecer a sua vida.

Luciano Pires: Você chegou direto aqui em São Paulo?

Vladimir Pershine: Sim, desembarquei aqui no aeroporto de Guarulhos…

Luciano Pires: Cara, da Sibéria para o Brasil deve ser um choque…

Vladimir Pershine: É, na minha cidade estava fazendo -30, naquela época eu passei duas semanas em Moscou com 0 graus, e desembarquei aqui com 30 positivos, 30 de calor.

Luciano Pires: Quer dizer, 60 graus de diferença em alguns dias. Você se formou em que lá, o que que era a tua especialidade lá?

Vladimir Pershine: Pela minha formação eu sou físico, sou físico teórico, tenho doutorado na área de física teórica, física de partículas elementares, física de supercordas. Mas agora que eu estou lotado no centro de matemática, dou aulas de matemática.

Luciano Pires: Você viveu intensamente a queda do muro do Berlim, toda aquela mudança que aconteceu na União Soviética naquela… você tinha idade já para entender o que estava acontecendo naquilo?

Vladimir Pershine: Sim, perfeitamente, eu nasci em 66, eu costumo dizer que eu estou vivendo a minha terceira vida, a primeira vida foi na União Soviética, quando a União Soviética colapsou e o regime comunista acabou, eu já estava com 25 anos, eu participei de forma bastante ativa nas manifestações, comícios que pediam o fim do regime do partido comunista, depois eu tive quase 10 anos na Rússia, podemos dizer capitalista…

Luciano Pires: Naquela transição que ninguém sabia direito para onde ia.

Vladimir Pershine: É, e depois peguei uma mala e vim para o novo mundo, totalmente diferente, onde muitos valores, muitas regras que eu tinha acostumado lá na Rússia já não valiam mais, eu tive que reaprender a me socializar no trabalho, mas foi muito legal.

Luciano Pires: Você fala com tranquilidade dos teus primeiros 25 anos lá de viver sob um regime comunista, você fala numa boa a respeito?

Vladimir Pershine: Sim, falo de tudo, não tenho restrição nenhuma.

Luciano Pires: Porque eu aqui sou o curioso e eu sou ignorante, então eu faço as perguntas mais…

Vladimir Pershine: Pode perguntar tudo.

Luciano Pires: Você sabe que tem uma discussão e você deve ver com olhares que a gente aqui no Brasil não consegue ver, essa discussão toda de que tem comunista para lá, o mundo está dividido, os comunistas querem conquistar e tal. E tem uma leva, uma garotada nova de comunistas chegando aqui, youtubers, o pessoal defendendo o regime para cá, o regime para lá e botando em nível de comparação, comunista aqui, capitalista aqui, socialista lá, é uma confusão gigantesca. Mas você dificilmente encontra alguém que fala assim, eu vivi sob um regime desses, então eu posso dizer para você como é viver sob um regime desses. Como é viver em um regime, como é que é ter 22 anos de idade em um regime comunista?

Vladimir Pershine: Tem que lembrar também que eu não peguei, digamos, a pior parte do regime comunista, porque o regime comunista lá na Rússia durou de 1917 até 91, dá o que? 74 anos, mas nunca foi a mesma coisa, o regime sempre evoluiu, nos anos 20 não era a mesma coisa que nos anos 30, nos anos 70 não era a mesma coisa que nos anos 80.

Luciano Pires: O mundo conheceu claramente o regime dos anos 50, Segunda Guerra Mundial foi quando a ideia do que era o comunismo tomou conta do mundo, que estava na mídia, estava no cinema, estava em Hollywood, estava em tudo quanto é lugar a ameaça vermelha.

Vladimir Pershine: Para quem estava dentro, a gente enxerga a história, digamos, a dinâmica do regime de que forma? Até a morte do Stalin em 1953, estava piorando, piorando, o regime estava se fechando mais e mais, às vezes matando um pouco mais, como no final dos anos 30, matando um pouco menos como no começo dos anos 50, mas o controle do estado não parava de aumentar. E depois da morte de Stalin começou a andar no sentido mais ou menos liberal, entre aspas, porque não é liberal totalmente, mas o regime começou a ficar mais relaxado, menos carnívoro, digamos. E a cada década às vezes melhorando um pouco, piorando um pouco, mas se a gente pegar dos 50 até os anos 80, estava ficando mais frouxo, digamos, já estava controlando menos, estava permitindo mais na mídia, na vida pessoal, por isso… eu peguei as duas décadas mais… porque nos anos 60, eu nasci em 66, não tenho lembrança dos anos 60, minhas primeiras lembranças são de quando eu tinha 4 anos de idade, mais ou menos, dos anos 70, então os anos 70 eu lembro bastante bem, não entendendo tudo, criança ainda não compreende tudo, então tenho mais lembrança dos anos 80, dos acontecimentos, das guerras, dos líderes que não paravam de morrer em Kremlin naquela época. Mas de qualquer forma eram duas décadas bastante liberais, tinha o controle da KGB, a gente sabia que os agentes da KGB estavam em todo e qualquer lugar, não podia falar nada abertamente contra o estado das coisas, que tinha o partido comunista que supostamente era o melhor partido do mundo, que salvou o nosso povo da miséria capitalista e nos deu de presente aquele regime maravilhoso, não podia duvidar disso. Mas a gente não via ninguém sendo fuzilado, ninguém sendo preso, às vezes chegavam alguns boatos que algum professor lá da nossa universidade foi demitido porque descobriram que ele frequentava a igreja ortodoxa e distribuía uns materiais entre os alunos convidando para a igreja, mas também não foi fuzilado, só foi demitido. Então, a gente não viveu aquele medo que o pessoal dos anos 30, 40 viveu, mas claro que viver naquele regime era bem diferente daquilo que a juventude vive hoje no Brasil, pelo menos a diferença principal que a gente praticamente não tinha nenhuma informação de fora do país, os jornais falavam um pouco, mas era só…

Luciano Pires: Era tudo filtrado.

Vladimir Pershine: Falavam mais sobre as greves em Paris, sobre os racismos dos americanos que perseguem os negros, ou seja, pegar uma coisa mais negativa do mundo ocidental e fazia um pequeno resumo lá no jornal, na penúltima página do jornal, mas até sobre isso falavam muito pouco. A maior parte da propaganda, falavam do sucesso do país comunista, de quanto trigo, de quantos sei lá milhões de toneladas do trigo os camponeses conseguiram colher nesse ano, como estava tudo melhorando, a gente não estava vendo muita coisa melhorando, mas se você não tem ponto de referência, você acha que, de fato, a sua vida é boa.

Luciano Pires: Quando você falou agora pouco aí, eu resolvi sair de lá quando eu vi que as coisas não estavam indo para um caminho bom, o que que era esse caminho bom? Eu imagino uma garotada de 22 anos de idade louca para descobrir o mundo, em um ambiente onde não tinha acesso à informação do mundo, como é que é, o que que te incomodava lá a ponto de você falar, vou sair daqui?

Vladimir Pershine: Nos anos 90 a gente já tinha o acesso a tudo, eu viajei pela primeira vez, acho que em 96 para um congresso na Áustria, no ano seguinte fui para Berlim, para a Itália, comecei a ter contatos na Europa. Claro que o choque principal, das pessoas que até naquela época capitalista, que era bem melhor em termos de abastecimento na Rússia, a gente não passava fome já nos anos 90, mas mesmo assim, chegando lá nos supermercados europeus, vendo todos os serviços de café, restaurantes, o respeito que os atendentes tinham aos clientes, isso chocava, porque demorou muito na Rússia capitalista mudar o comportamento do pessoal que trabalha nos serviços. Porque na época comunista já que não tinha concorrência, se chegasse a algum café, restaurante, era basicamente, você quer o que, quer comer, o que que você quer comer? Isso não tenho. Que mais você tem? Não sabe ler? Está tudo escrito aí.

Luciano Pires: Eu publiquei outro dia um material meu onde eu estava contando de uma pesquisa, uma pesquisadora americana fez, ela está fazendo em vários países do mundo, é uma pesquisa sobre branding, alguma coisa tinha a ver com comportamento, alguma coisa assim, e ela conta da experiência dela na Rússia, que ela falou, cara, foi um negócio assim inacreditável, porque todo lugar que eu ia, eu prepara para receber as pessoas, então a gente montava a sala, era um hotel, recebia todo mundo, e eu tinha ali na sala, eu tinha Coca-Cola, Pepsi Cola, Sprite, água e suco, e quando eu cheguei lá na Rússia, eu encontrei uma situação interessante, que as pessoas de lá, elas não olhavam e diziam para mim o seguinte, eu quero Coca, quero Pepsi, eu quero Sprite, no vocabulário delas é o seguinte, ou é refrigerante ou é água ou é suco, a categoria refrigerante não tinha separação por marcas. Que ela falava, o pessoal de lá não tinha essa ideia ainda de que Pepsi é Pepsi, Coca é Coca e são duas coisas separadas, lá era a categoria refrigerante, aí ela faz uma explicação sobre essa coisa da construção de marca, que o ocidente treinado para ver marcas, conhecer marcas de coisas, e aquela sociedade que conseguia ver a categoria suco, a categoria água e a categoria refrigerante por não ter ainda recebido o impacto da coisa de marcas ali. Eu achei bem interessante essa… porque é uma cabeça completamente diferente, muda tudo quando você…

Vladimir Pershine: Não, refrigerante sabia, porque Pepsi tinha fábricas na União Soviética.

Luciano Pires: Mas isso em que ano? No final, né?  Ela deve ter feito isso nos anos 70, alguma coisa assim, quando era bem restrito ainda…

Vladimir Pershine: Nos anos 80 já tinham várias fábricas que fabricavam Pepsi, Coca Cola não, Coca Cola chegou só nos anos 90, mas pelos filmes americanos a gente sabia que Coca Cola era quase o símbolo do mundo livre, quem pode tomar Coca Cola é quem tem liberdade.

Luciano Pires: Quando você desembarcou aqui, o que que te chocou quando você chegou no Brasil cru ainda, você não falava português nada, você falava o russo e inglês, o que que você falava?

Vladimir Pershine: Sim, sim, porque aconteceu tudo muito rápido, não deu tempo para aprender português, naquela época não tinha Youtube, eu comprei um livro texto de português, acho que o único que eu consegui achar lá na Rússia, e quando eu cheguei aqui no Brasil, falaram para jogar fora porque era português de Portugal, a primeira página fala rapaz e rapariga, falaram, não, isso você não vai falar aqui no Brasil. Então, não deu, de fato, para aprender quase nada. Me ajudou o fato que eu comecei a trabalhar em um ambiente acadêmico, estudo de física teórica lá da Unesp, todo mundo falava em inglês, mas o meu chefe, ele foi muito firme comigo, ele falou, nos primeiros dois meses eu não quero nenhum trabalho de você, você vai aprender português, eu quero que em dois meses você fale português, de forma básica lá, mas fale. E de fato, consegui. Mas voltando a sua pergunta, o que me… não vou dizer chocou, surpreendeu, a primeira impressão de quem chega em São Paulo, agora nem me lembro qual trajeto que o ônibus estava fazendo, acredito que era região lá da Luz, essa lojas, onde não tem porta, só levanta a persiana, e pronto, entra, um monte de produtos na porta das lojas, deve ser coisa específica para o Brasil, para a América Latina, acredito que Oriente Médio também deve funcionar mais ou menos assim, mas eu nunca tinha visto daquilo, para mim rua de comércio era uma parede com várias portas, você entra em uma porta e vê o que que você precisa, essa mistura que não tem divisão entre a rua e o dentro, parece que o mundo é um só, porque lá por causa do nosso clima, o ato de sair para a rua é bem mais sério do que aqui, aqui vocês colocam o chinelo e vai na esquina comprar alguma coisa, lá na Rússia não, na Rússia você se arruma dependendo da estação, coloca um casaco bem quente…

Luciano Pires: Na Sibéria, então, eu imagino como é que é, porque as temperaturas lá eram aquilo que você falou, 30 abaixo de zero é normal.

Vladimir Pershine: Não, já é considerado frio até para a gente. Mas enfim, a primeira coisa que me chamou atenção foi isso, que parece que aqui o mundo é um só, está andando na rua, se misturando… tipo físico também é diferente, eu lembro no primeiro dia não tinha WhatsApp, não tinha e-mail, quando eu cheguei, me abriram uma conta de email, eu mandei para a minha colega de departamento de Rússia o aviso que eu cheguei, e ela fez um pedido, vai lá para a rua, olha e a primeira impressão, olha para a gente, o que que você acha do povo e sem pensar me escreva o que que você acha, porque depois você vai esquecer isso, você vai se acostumar, a primeira impressão. Então, seis horas todo mundo foi embora, era perto da Avenida Paulista, na Rua Pamplona, a duas quadras da Paulista, eu sabia que lá ficava a Paulista, eu sozinho sem falar praticamente uma palavra em português, fui procurar um lugar para comer, saí para a Paulista, um monte de gente saindo para o trabalho, um monte de homens de terno e gravata, eu fiquei olhando e bom, os brasileiros ouvintes não vão gostar provavelmente da minha primeira impressão, eu escrevi para a minha amiga, amiga, eles têm cara de bandido, todo mundo, um jeito mais, não sei, solto de andar, o tipo físico talvez tenha sido alguns preconceitos que eu tinha na cabeça, porque na Rússia o arquétipo de bandido é alguém do sul da Rússia, dos países lá da inint 26:36 da Armênia, da Geórgia, da República Chechênia, e o brasileiro, não que seja igual, mas se aproxima no tipo físico aquele povo do sul, não senti nada violento, todo mundo estava na maior paz, mas essa foi a minha primeira impressão, de fato, eles têm tipo físico diferente, eu preciso mudar meus conceitos.

Luciano Pires: Depois você foi vendo com o tempo que isso não fazia sentido, claro.

Vladimir Pershine: Não, agora eu não acho. Depois de duas semanas eu já não estava mais achando.

Luciano Pires: A gente aqui, a gente esculhamba o estrangeiro muito fácil, entrou aqui, em duas semanas você já entra no jogo e aí fica tudo muito light. Mas curioso…

Vladimir Pershine: Brasileiro é muito receptivo a estrangeiros, principalmente a quem não é americano, com americanos vocês têm um pouco de reserva.

Luciano Pires: Eu tenho uma amiga, ela é argentina, e ela contando para mim da experiência dela aqui no Brasil, contando onde é que pegou quando ela chegou aqui, e a Argentina é vizinho nosso aqui, então teoricamente nós estamos muito próximos, mas tem uma diferença, o argentino tem uma cultura bem diferente da brasileira aqui, mas ela falou, ela falou, o que eu fiquei mais, que me chamou atenção, foi que eu logo no começo, primeiros dias, eu ia viajar para a Argentina, alguma coisa assim, então ela ia para o aeroporto de Cumbica, e ela resolveu ir de metrô, e ela faz a mala dela, aquela mala gigante e foi pegar o metrô seis horas da tarde, ela falou, cara, a hora que eu cheguei no metrô, tinham 2 milhões de pessoas, aquele monte de gente se empurrando, quando eu vi aquilo, eu nem sabia como é que eu ia fazer, porque não dava para entrar no trem, mas na hora que eu pedi a ajuda para alguém e eles perceberam que eu era estrangeira, que eu não era brasileira, ela falou que parecia mágica, se abriu um vão, me pegaram, me ajudaram a entrar, me colocaram lá dentro, então a receptividade do brasileiro para cuidar das pessoas que não são daqui, vocês quando percebem que a gente está com dificuldade, vem todo mundo ajudar, e ela falou, isso me chamou muito a atenção aqui, assim como chamou a atenção a forma como o brasileiro se conforma com as coisas, vocês entram em uma fila e está tudo certo, e fica na fila enquanto durar a fila, na Argentina em 15 minutos está todo mundo gritando, ninguém quer ficar na fila. Mas são coisas bem diferentes aí das culturas. Mas então, você vem para cá com a ideia de fazer sua vida aqui ou você veio fazer uma experiência?

Vladimir Pershine: Não, eu estava na dúvida, em princípio eu tinha contrato de pós-doc de um ano, prorrogável por mais um ano e depois por mais um ano, provavelmente. Então, eu gostei, resolvi prorrogar por mais um ano e depois meu chefe falou que, na verdade, eu teria direito a quatro anos no total, cada ano prorrogando, eu fiquei o segundo ano, o terceiro ano, mas já no segundo ano, acho que eu tive o dia do fico.

Luciano Pires: Sim, o que que foi que te… por que você deixou a família inteira lá, você deixou todo mundo lá, não deixou?

Vladimir Pershine: Sim, sim, os meus pais eram vivos, ainda naquela época tem um irmão mais novo com sobrinhos.

Luciano Pires: E você não está na Europa onde você pega um carro, em quatro horas, seis horas você chegou até…

Vladimir Pershine: Não, é uma decisão séria, a minha mãe até o final da vida, ela faleceu em 2005, eu vim em 2000, ela não se conformou com o fato de eu ter ficado aqui, toda vez que eu ligava, ela perguntava, mas quando que você volta a morar aqui? Eu tentava explicar que não pretendia fazer isso, mas toda vez ela repetia, mas quando que você volta, quando que você vem morar, trabalhar aqui?

Luciano Pires: Qual foi a fagulha do dia do fico, cara? O que que te bateu? Você conheceu alguma brasileira, conheceu uma brasileira, se apaixonou pela brasileira?

Vladimir Pershine: Não, eu conheci depois um brasileiro, já tenho 16 anos de casado com um brasileiro, mas naquela época não, não foi… eu estava bem solteiro, bem solto aqui em São Paulo. Eu fiquei um ano e meio sem viajar, quando cheguei no Brasil, eu não voltei no começo nem para a Rússia, nem para nenhum outro lugar, quase nem saí de São Paulo, que tinha que trabalhar, tinha que me adaptar, e depois de um ano e meio viajei, fiquei bastante tempo na Rússia, participei de uns eventos científicos, passei bastante tempo na minha cidade, passei um pouco em Moscou, vi que eu tinha esquecido vários problemas da Rússia, porque de longe, quando você está longe, sempre fica tudo melhor, mais bonito.

Luciano Pires: Mas isso aí, o que que pegou, quando você chegou lá, você sentiu a dimensão, há uma diferença do que a gente tratava como liberdade aqui, para o que era considerado liberdade lá?

Vladimir Pershine: Sim, sim, lá em princípio estava uma época boa, a União Soviética já tinha se desintegrado fazia tempo, o Putin já era presidente, mas o regime dele não tinha se consolidado ao ponto de matar opositores, prender, ou seja, era relativamente livre, mas mesmo assim, essa presença do estado meio fascista policialesco era muito perceptível, estava no ar, você andava, Moscou saí da estação de metrô, e chegam uns dois, três policiais e te param, pedindo documentos, começam a ter interrogar, o que que você está fazendo aqui, aí eu explicava, não, eu não estou fazendo nada, eu estou indo de um aeroporto para o outro, estou em uma escala, cadê a passagem a aérea, tive que procurar lá a passagem aérea, passaporte, visto, explicando de onde, estou indo para onde, em um lugar normal isso não acontece. E não tinha nenhum perigo de ato terrorista…

Luciano Pires: Era o estado policial.

Vladimir Pershine: Era rotina ver alguém com uma mala, então para onde ele está indo? Precisamos descobrir. E esse atendimento no serviço, quando levo minha sobrinha para um café, pergunto quais sucos têm para comprar para a sobrinha, e a moça responde, está tudo na vitrine. Agora mudou, agora esses serviços melhoram.

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar, hoje em dia é outra coisa, é outra história.

Vladimir Pershine: Eu fui a última vez, nós fomos em 2019, bem antes da pandemia, Moscou e San Petersburgo, os serviços são impecáveis, todo mundo simpático, capitalismo funciona, demora, mas funciona.

Luciano Pires: Eu estive em Murmansk em 2008.

Vladimir Pershine: Não conheço.

Luciano Pires: Fiz um voo da Finlândia até Murmansk, era um voo fretado, desci lá, e ali que eu conheci, pela primeira vez eu botei o pé na Rússia, e começou a bagunça aqui, porque para pegar o visto já foi uma confusão para conseguir o visto aqui, fui lá para lá, e eu tinha essa impressão toda, cheguei lá em um lugar que tinha meio que o desenho que eu imaginava, cinza, tempo ruim, e uma cidade bem… não era uma coisa como você falou aqui, tudo para fora, tudo na rua, todo colorido, não tinha isso, era uma coisa mais acinzentada. Depois eu fui perceber que era em função do lugar que eu estava, eu estava perto do círculo polar ártico, então não tem como querer solão e tudo mais…

Vladimir Pershine: É, não conheço pessoalmente, mas pela imagem que eu tenho não é um lugar que eu gostaria de conhecer.

Luciano Pires: Mas eu vi uma coisa interessante lá que me chamou muito atenção, eu não sei se você vai… acho que você vai captar o que eu vou dizer aqui, eu vi que o russo tem uma esculhambação parecida com o brasileiro, é aquela história o seguinte, vamos dar um jeito aqui? Vamos, enfia um palitinho aqui, bota uma fitinha aqui, dá um nó e faz funcionar. Então, não tem frescura, vamos fazer funcionar e dá seu jeito, sabe o jeito, jogo de cintura, eu senti isso muito nos russos, depois que você se aproxima, começa a beber com eles e conversar, parecia que eu estava falando com brasileiro, porque a esculhambação é muito parecida, no bom sentido, no bom sentido.

Vladimir Pershine: Em uma mesa, um alemão, um americano, um brasileiro e um russo, o brasileiro já vai fazer amizade com o russo com certeza.

Luciano Pires: Na hora, muito mais com o russo do que com os outros lá, porque tem essa… parece que havia uma afinidade, embora seja uma coisa, o russo, você ouvindo russo, às vezes parece que tem alguém falando em português em algum lugar, dá umas pegadas do russo. Mas vem cá, você vem para cá e você mergulha no mundo acadêmico, você veio para ser professor, foi ser pesquisador e depois professor?

Vladimir Pershine: Sim, eu tive bolsa de pós doutorado, um projeto de pesquisa com esse professor americano que até agora trabalha lá na Unesp, mas quando resolvi em 2001, quando voltei lá da Rússia, abri a janela, depois de 36 horas de viagem, olhei para São Paulo, essa feiura toda, os prédios todos diferentes, todos desalinhados, alguma coisa dentro lá do meu coração deu um clique, eu quase chorei naquele momento, pensei, ah não, eu quero ficar aqui, apesar de tudo, apesar de bagunça, dessa feiura de São Paulo, eu não quero voltar para a Rússia, eu quero ficar aqui.

Luciano Pires: Você entendeu o que que foi esse chamado, o que que foi, por quê?

Vladimir Pershine: Eu acho que mais liberdade de ser quem você quiser, não tem nenhuma força opressora do estado te controlando, te perseguindo, essa abertura do povo, não vou dizer que os brasileiros têm me ajudado muito, mas também ninguém olha para você aqui como na Alemanha e pergunta, você veio fazer o que aqui? Porque eu tenho amigos na Alemanha, por exemplo, que moram lá agora já faz 40 anos, mas eles nunca vão se sentir alemães de verdade, eles têm amigos, colegas alemães, mas sempre tem uma linha divisória entre quem é alemão e quem não é alemão, vocês podem viver aqui sem problemas…

Luciano Pires: Mas você está no meu país, o país é meu, vai devagar.

Vladimir Pershine: Vocês nunca serão… nunca farão parte do mundo alemão, então algo invisível, uma barreira invisível nunca desaparece. No Brasil não, perguntam, esse sotaque é de onde? Ah, sou russo. Ah, eu achei que você era do Rio Grande do Sul, eu sou da Bahia. Aqui vir de um outro país é a mesma coisa que vir de um outro estado, de Minas, do Nordeste.

Luciano Pires: Eu estou especulando com você essa história de entender o que que te trouxe, como é que você ficou aqui, porque eu faço um trabalho bastante grande aí com os podcasts e tudo mais para botar na cabeça da molecada aí para dar valor para essa coisa chamada liberdade, então você tem um negócio na sua mão chamado liberdade, que como nenhum de vocês nunca perdeu, vocês não sabem o que é não ter, quem não sabe o que é não ter, não dá valor, então vem aí um sujeito agora com essa história que aconteceu no Brasil de um estado começar a ocupar espaço, medidas que são draconianas, indo contra a constituição e tudo mais, e de repente começa a parecer uma negociação, cara, me dá um pouquinho da tua liberdade que eu vou te dar um conforto, fica parado em casa que eu vou salvar sua vida, deixa de falar tal coisa que eu te dou um dinheirinho. E as pessoas começam a negociar a liberdade, porque nunca perderam, não sei o que é não ter…

Vladimir Pershine: Não, isso é muito perigoso.

Luciano Pires: Então, e aí você vem de um lugar onde você experimentou, entre aspas, você já pegou o final, mas o que é não ter e vem para um lugar onde você tem essa liberdade, essa oportunidade de vivenciar os dois lados quase ninguém teve no Brasil, a gente não sabe o que é viver um regime sem liberdade, e quando vem alguém com o canto da sereia como está acontecendo agora, fica muito fácil você abrir mão, não, deixa, é pelo nosso bem, e você vai perdendo a liberdade aos pouquinhos.

Vladimir Pershine: É uma sensação muito ruim quando você está em um país sentindo que há uma força oculta ou às vezes nem tão oculta que controla absolutamente tudo, controla o governo central, controla o governo dos estados, dos municípios, é a mesma força só, não tem briga, concorrência como aqui no Brasil, aqui ninguém controla tudo, um partido pode controlar o governo federal, mas entre o governo dos estados ele não tem tanta representatividade, são outros partidos, indo para os municípios também a coisa muda…

Luciano Pires: E se subir o morro do Rio de Janeiro é outro controle, é outra história, é outro mundo.

Vladimir Pershine: Sim, é outro poder. Na Rússia, de fato, a gente nos anos 90 presenciou e participou no processo de diversificação quando, por exemplo, o governador do meu estado tinha um candidato para prefeito, e ele perdeu, e ganhou um cara que era meio estranho e era acusado em coisas estranhas, com drogas ilícitas, ninguém sabia se era verdade ou não, mas ele ganhou, o povo apostou nele e ele ganhou, foi muito legal, depois descobriram que era tudo mentira sobre ele, mas foi muito legal sentir que nós, de forma totalmente mágica, jamais vista na nossa vida, nós podemos nos unir com as pessoas desconhecidas da cidade, contra o governo estadual, e eleger alguém diferente, e ele ficou dois… como chama? Dois mandatos, oito anos.

Luciano Pires: E isso seria impensável nos anos 70, 80, não poderia nem pensar nisso.

Vladimir Pershine: Não, 70, 80 não tinha eleição, ritual tinha, mas não tinha escolha.

Luciano Pires: Não, eu digo o seguinte, nem tanto a eleição em si, mas vamos nos juntar para ir contra esse organismo, ia para cadeia.

Vladimir Pershine: Não tinha nem mídia, era controlado. Se juntar como? Nos anos 90 a gente se juntava através dos jornais, que por mais que a minha cidade não seja muito grande, 500 mil habitantes, não é vilarejo onde você conhece todo mundo, como você mobiliza as pessoas em apoio a algum candidato, precisa de algum veículo, internet ainda estava nascendo, praticamente era inexiste, então eram jornais, jornais independentes que surgiram naquela época que se abriam para as discussões, onde as pessoas iam, jornais e televisão, os canais independentes, a mídia, precisa de algum veículo, se você não tem nada, se o estado controla tudo, como que você vai achar outras pessoas que pensam da mesma forma como você, na época comunista, claro que na vida particular a gente falava mal do governo, quando tinha um congresso do partido comunista, e camarada Brejnev, que estava mais para lá do que para cá, já mal falava, na escola, no trabalho, a gente precisava fazer discursos, o grande camarada Brejnev anunciou novas medidas que vão melhorar tudo, mas na vida particular não, a minha mãe, ela liga para a vizinha, falava, está assistindo televisão, está vendo o horror? Já nem consegue mais falar esse maluco. Ou seja, a gente não tinha respeito verdadeiro aos líderes comunistas.

Luciano Pires: Mas não podia sair na rua com a camiseta escrito abaixo Brejnev.

Vladimir Pershine: Não, era tudo entre os amigos, era tudo atomizado, não tinha como juntar força para fazer absolutamente nada, era tudo controlado, então a vida era assim, era uma versão oficial que a mídia vendia, a propaganda.

Luciano Pires: Você está ouvindo o LíderCast, um PodCast voltado para liderança e empreendedorismo, de onde veio este tem muito mais, por exemplo, a mentoria MLA, master life administration, um programa de treinamento contínuo em que reunimos pessoas interessadas em conversar sobre temas voltados ao crescimento pessoal e profissional, comunidades online oferecem conexão, compartilhamento, apoio, aprendizado e segurança, o MLA é mais do que isso, é um mastermind para profissionais com encontros mensais, presenciais e online promovendo uma sensação de comunidade e uma troca muito valiosa de experiências. Olha, tem vagas disponíveis, se você se interessa em estar comigo acesse mundocafebrasil.com, e clique no link para saber mais.

Luciano Pires: E você sai de um país que tem uma cultura militar pesadíssima, porque ali é uma potência o tempo todo se preparando para combater outra potência lá e se bobear soltam uma bomba atômica um na cabeça do outro, e vem para um país aqui que tem carnaval, onde a gente aqui, eu estou preocupado para saber se vai ter cerveja no final da tarde ou não, não tem foguete para cair em cima de mim, não tem nenhum vizinho para me atacar, nós estamos em uma outra… é uma outra pegada aqui. Quando você olha hoje para o que está acontecendo lá, você vê essa situação de Rússia e Ucrânia e tudo mais, você consegue entender que tem uma cultura russa beligerante ou isso tem a ver mais com quem está no governo, o povo russo não é assim? Deixa eu te explicar melhor aqui, se você pegar o Brasil e você for para o Rio Grande do Sul, ali tem uma cultura beligerante, o gaúcho é de briga, se você for para Recife, Pernambuco, eles são de briga, que são os dois pontos do Brasil onde teve luta, teve guerra, o Brasil foi invadido lá em baixo e lá em cima, então ali aquele povo guerreou, o resto do Brasil não teve isso, nunca aconteceu guerra nenhuma, então a gente é muito bonachão aqui. E a Rússia tem um histórico de guerras lá que faz parte da história dela, você consegue ver isso na cultura do povo, nas decisões que são tomadas, no que está acontecendo agora com a Ucrânia?

Vladimir Pershine: Mas eu não sei se esse histórico de guerras está relacionado tão diretamente ao… como que eu digo? A esse hábito agressivo de homens brigarem entre si, porque na Europa também teve muita guerra, todo mundo viveu em guerra e você vê que as pessoas não são tão agressivas como na Rússia, para mim a agressividade russa tem mais a ver com a opressão do estado, já que o homem se sente frágil diante da força do estado, ele extravasa brigando com os outros homens, ou com a mulher em casa. Acho que isso é mais a raiz da nossa agressividade tradicional, que eu achava até que era um pouco mito, um exagero, mas infelizmente a guerra contra a Ucrânia mostra que não, que a gente não entendia, nós intelectuais russos, a gente não entendia muito bem até que ponto o nosso povo, de fato, era agressivo, porque não é só o fato de invadir outro país, mas como, todas as atrocidades que a gente acompanha, fuzilamentos arbitrários, estupros, saques, de fato a gente não esperava em 2022 ver isso do nosso povo. Mas falando de agressividade, sim, sim, o russo é mais agressivo que o brasileiro, o brasileiro também tem a sua agressividade de outra forma, se você comparar número de homicídios por 100 mil, no Brasil é o que? Uns 30 por 100 mil, na Rússia não chega nem a 10, não é o melhor lugar da Europa, mas deve estar 8 ou 10, ou seja, três vezes menos. Não tem tanto crime armado para alguém sair te assaltando na rua, são mais brigas entre conhecidos, brigas de trânsito, ou seja, para um homem russo bater em outro homem, é bem mais fácil do que para um brasileiro bater em outro brasileiro, e isso vem desde criança, os alunos nas escolas russas mais velhos, humilham os mais novos, estava melhorando um pouco isso, mas assim, na minha época era comum o pessoal mais velho pegar umas moedinhas dos mais novos, que os mais novos levavam para um lanche, para algum salgado e voltavam para casa sem nada, porque algum marmanjo pegou tudo.

Luciano Pires: Se você for ver isso aí, é uma representação da pressão do estado, eu vou pressionar para baixo, o mais forte pressionando o mais fraco faz uma escada na sociedade.

Vladimir Pershine: É uma rua de dois sentidos, o estado oprime, aumenta a agressividade do povo, mas o estado foi criado pelo povo, o estado também… ele não caiu da lua, o povo russo o estado daquele estilo opressor. De fato, a violência nua e crua é bem mais presente historicamente na Rússia, que aqui você sente, até quando você desembarca no aeroporto de Moscou, não sei quando você foi lá na Rússia, se você percebeu, isso está no ar pela forma como os casais que passam do lado conversam, o que que você falou, o que que você quer, e aqui no Brasil todo mundo simpático, pelo menos superficialmente.

Luciano Pires: A quantidade de vezes que eu tive que mostrar o meu passaporte lá…

Vladimir Pershine: Não, mas nem estou falando da polícia…

Luciano Pires: Eu entendi o que você está dizendo, eu estou dizendo mais assim daquela coisa de uma cultura onde o… o termo não é bem esse, mas onde essa postura policial de controle, ela está presente em todo lugar, todo mundo controla, parece que é um controle, fui entrar, já fui… tomei um toco já da mulher que me atendeu lá, não teve bom dia, seja bem-vindo, nada disso foi… que grossura, mas não era uma grossura, esse é o jeito de ser do pessoal lá. Então, há uma cultura essa… que você até falou, o atendente não tem nenhum interesse na tua época lá de te explicar que suco… está lá, você se vire. Então, havia uma certa grossura no trato que aqui no Brasil não tem, o cara te recebe, bota uma cervejinha lá, todo mundo vira amigo.

Vladimir Pershine: É uma necessidade de se mostrar importante, acho que a gente tem, no fundo, no fundo, um pouco de insegurança, parece que se a gente… eu estou me incluindo, mas acho que eu não sou assim, mas como representante do povo russo posso dizer, se eu tratar bem alguém, parece que estou mostrando a minha fragilidade.

Luciano Pires: Vulnerabilidade.

Vladimir Pershine: É, para eu me sentir lá mais seguro, mais forte, eu preciso humilhar o outro de alguma maneira. Eu estava achando que isso estava diminuindo, estava melhorando, mas com a situação atual, está dando vários passos para trás, atualmente a sociedade russa pelo o que eu posso julgar aqui de longe, não está em um bom estado nesse sentido, está bem doente a sociedade.

Luciano Pires: Você veio para cá e mergulhou no mundo acadêmico, você veio como pesquisador, não é isso?

Vladimir Pershine: Com o pós-doc, sim.

Luciano Pires: Cara, posso estar errado, não conheço, não sou do ramo aqui, não vai ser do Brasil que vai sair a nova… o Nobel de física, não vai ser daqui, aqui me parece que as condições não são as melhores…

Vladimir Pershine: A gente não tem controle disso…

Luciano Pires: Então, isso que eu ia te perguntar, quer dizer, quando eu olho, eu falo, onde é que estão acontecendo as coisas, eu sou um físico e quero trabalhar em um lugar onde tenha suporte, eu vou para fora, eu vou para os Estados Unidos, eu vou para algum lugar onde me parece que há essa… você tem os fundos, você tem condições, você tem o trato… aqui é meio maltratado, você não tem a condição toda, como é que você ficou aqui, cara? Eu estou errado nessa minha… quem faz o desenvolvimento da ciência acontecer é o ser humano, é a pessoa em si, ou é o ambiente, esse suporte, que peso tem essas coisas?

Vladimir Pershine: Mas acho que eu não tive muito a ambição de virar um grande físico, eu estava só querendo achar um lugar para eu viver com tranquilidade. Claro que quem quer construir uma carreira na área de ciência, estar lá na ponta, tudo, o Brasil não é o lugar mais indicado, mas também eu não quero falar mal do Brasil nesse ângulo, o Brasil está… comparando com muitos outros lugares, está muito bem, a vantagem do Brasil é o tamanho, o Brasil é muito grande e tem várias instituições de pesquisa, de ensino e tem tantos professores, tem tanta gente trabalhando na área acadêmica que o Brasil praticamente tem representantes de absolutamente todas as áreas, não estou falando só de física, mas de química, de engenharia, medicina, qualquer coisa que você imaginar que está acontecendo no mundo lá fora, pode ter certeza que você vai achar algum grupo do Brasil que tem vínculo com aqueles, eles não são pioneiros, mas pelo menos estão bem informados, eles sabem o que está acontecendo, quais são os problemas de hoje, qual o estado da arte da área em absolutamente todas as áreas, poucos países do mundo tem esse luxo de ter coberto todas as áreas científicas. Então, acho que isso é muito positivo para o Brasil, ou seja, tudo bem, você não vai virar prêmio Nobel, quer dizer, não sei, talvez, como disse, a gente não controla isso. Mas para um jovem que está começando a sua carreira, quer se educar, tem várias opções, não faltam oportunidades para você usar pelo menos como porta de entrada, começar a trabalhar em algum grupo de pesquisa e depois, sei lá, ir para a Europa, para os Estados Unidos, Canadá, não sei, se aperfeiçoar depois, já decidir se quer ficar lá ou voltar aqui para contribuir. Porque eu também entendo que muita gente gosta de viver no seu país, porque mudar para outro país não é para todo mundo, precisa ter uma estrutura emocional, e muita gente valoriza o fato de você estar inserido no meio do seu povo, falar a língua nativa, ir lá visitar os congressos, passar lá um período sabático de vez em quando, mas ter a sua vida no seu país, eu não tenho isso, felizmente eu fiz essa opção…

Luciano Pires: Você já virou brasileiro, né, cara? Você já incorporou, não?

Vladimir Pershine: Não, mas quando você volta para o seu país, você entra lá, um ônibus, e de repente você ouve que todo mundo fala a sua língua, isso mexe.

Luciano Pires: Mexe? E você… como é que você lida com essa questão dessa saudade da sua origem?

Vladimir Pershine: No dia a dia eu não sinto saudade, eu falei que quando você pisa lá, você sente, quando você entra em contato com as suas raízes, mas isso passa, isso é coisa de um instante e…

Luciano Pires: Você trouxe gente de lá para cá ou influenciou pessoas?

Vladimir Pershine: Não, às vezes eu ajudo, quando alguém me procura, eu falo, agora com o início da guerra, a Fapesp, a Fundação de Amparo de Pesquisa aqui de São Paulo teve um projeto para trazer pessoal da Ucrânia, da Rússia e Bielorrússia, e um cara da minha cidade escreveu para mim onde que ele consegue achar alguém da área dele, eu indiquei para ele lá na Unicamp, vai lá, escreve para o pessoal da Unicamp, e ele conseguiu achar, e desde de fevereiro ele está aqui trabalhando, família veio visitar, então nesse sentido sim, quando preciso ajudar alguém, dar alguma indicação explicando como as coisas funcionam, quando vim em 2000 aqui, saindo da Rússia, o meu salário de lá, e eu já tinha doutorado, eu trabalhava como professor universitário com doutorado, era 200 dólares, seria o que 1000 reais em preço de hoje.

Luciano Pires: Aqui no Brasil seria isso aí, 1000 reais, mas…

Vladimir Pershine: Salário mínimo.

Luciano Pires: Mas é relativo, eu não sei o que que você compra com 200 reais na Rússia comparado ao que compraria com mil aqui.

Vladimir Pershine: Não, os preços eram já praticamente idênticos, talvez uns 30, 50% diferentes, mas o…

Luciano Pires: O salário era baixo, de qualquer forma era muito baixo.

Vladimir Pershine: Ou seja, o salário era vezes menor, uma ordem, digamos, menor, comparando com os professores daqui, e os preços talvez 20, 30% menores. Então, era incomparável a situação, eu com pós-doc comecei a ganhar vezes a mais, claro que eu tive que pagar aluguel, plano de saúde, mas mesmo assim aqui o salário dava para viver com dignidade, lá não. Então, eu não diria que era uma maravilha lá pelo ponto de vista econômico, e também a economia russa basicamente é petróleo, porque o que que a Rússia atual faz? Todas as fábricas lá que foram construídas na época soviética foram demolidas.

Luciano Pires: A empresa que eu trabalhei era uma indústria de autopeças global, e surgiu uma oportunidade de ela incorporar umas fábricas de… eu não me lembro se era de cardã, era uma fábrica de algum produto qualquer, ligado com a metalurgia na Alemanha oriental, assim que caiu o muro, começou a expandir, e aí saiu uma caravana, e aí um amigo meu aqui do Brasil foi junto lá para visitar a fábrica que a gente poderia comprar. Ele voltou horrorizado, ele falou, cara, não tem, as máquinas são dos anos 50, a tecnologia comparado ao que nós temos aqui, não dá nem para chegar perto. E ali ele conheceu o gerente da fábrica, e ele notou uma coisa interessante, que o gerente da fábrica tinha acabado de acontecer a liberação, era coisa de um ano, um ano e pouco, tinha acabado de cair o muro, e ele falou, o que chamou minha atenção é que o gerente da fábrica, ele andava, na camisa dele tinha uma coleção de canetas coloridas, várias cores, e aquilo ele tinha o maior orgulho, ele me contou que aquilo ele comprou, quando caiu o muro, ele atravessou pela primeira vez para o outro lado, ele saiu da Berlim oriental e foi para a ocidental, e ele falou, eu atravessei de lado, eu comecei a andar na rua, eu comecei a ver aquelas vitrines como nunca tinha visto, passei a noite sentado em uma praça, e no dia seguinte eu comprei essa coleção de canetinha colorida, e esse é o meu, digamos, era o momento dele descobrir o outro lado do muro.

Vladimir Pershine: O estado russo é muito arcaico, é praticamente feudal, medieval, quando tem um grande feudo, e ele tem representantes nos estados…

Luciano Pires: A nomenclatura não acabou?

Vladimir Pershine: Não, ressurgiu.

Luciano Pires: Tem uma versão nova dela lá, os amigos do rei…

Vladimir Pershine: Sim, sim, eles têm faculdades especiais onde eles formam, tem academia de presidente chamada, que forma os novos burocratas.

Luciano Pires: Uma elite.  Você dá aula há quanto tempo aqui? Há 20 anos já?

Vladimir Pershine: Sim, eu comecei, eu fui concursado em março de 2004, falta pouquinho, daqui a uns meses eu vou completar 20 anos sim.

Luciano Pires: Já passou pela tua mão, então, umas três gerações de brasileiros, três ou quatro gerações de brasileiros depende…

Vladimir Pershine: Depende de como contar, já passaram 20 anos.

Luciano Pires: Então, mas você tem… como é que você está molecada nova que está chegando lá, você quando olha essa garotada nova, eu digo assim, a matéria prima que está chegando na tua mão hoje como professor, você está vendo uma garotada mais antenada, menos antenada, essa garotada está mais conectada com o mundo, mas em compensação está menos preocupada para o que está acontecendo aí, o nível de demanda que você tem na sala de aula, o nível de interesse da garotada, como é que você vê essa…?

Vladimir Pershine: É difícil eu fazer alguma inint 01:04:33 porque também eu trabalhei em dois lugares bastante diferentes, de 2004 a 2012, eu trabalhei em Minas, na Universidade Federal de Itajubá, que é uma universidade tradicional de engenharia, principalmente engenharia elétrica, esse pessoal que trabalha com a Eletrobrás, grandes empresas, a maioria lá dos diretores são todos formados pela Federal de Itajubá, eles têm uma rede de amizade pelo Brasil inteiro, ex-alunos de lá, e desde 2012, eu trabalho aqui na Federal do ABC, que é uma situação meio que experimental, a gente tem um esquema totalmente diferente de universidades tradicionais, o pessoal que entra lá faz vestibular, no momento do vestibular não escolhe a profissão, não escolhe o curso específico, eles entram, bacharelado de ciência e tecnologia…

Luciano Pires: Igual para todo mundo, o primeiro ano é igual para todo mundo, como é que é?

Vladimir Pershine: Os três primeiros anos, que acabam às vezes 4 e 5, teoricamente são 3 anos, e depois eles escolhem bacharelado de física, de alguma engenharia, de química, e tem parte de ciências humanas também, etc. Bacharelado de ciências humanas e depois escolhem políticas públicas, relações internacionais, filosofia, etc. E não tem noção de turma aqui na Federal do ABC, outras federais mais tradicionais o pessoal vai durante 4 ou 5 anos fazendo todas as matérias, alguém se perde, alguém novo entra, mas o núcleo continua, eles se formam, eles colocam placa lá no prédio da universidade, turma do ano tal, 5 em 5 anos eles vão lá para se encontrar, mantém a amizade o resto da vida. E nessa modalidade que a gente tem na federal do ABC isso não existe, para ir para uma aula é como ir para uma sessão de cinema, para onde eu vou, esse semestre eu vou me matricular na turma tal, você sai lá um horário, outro horário é totalmente diferente das pessoas, então não se forma essa…

Luciano Pires: Deve ter um currículo mínimo que a pessoa tem que fazer, que é o básico…

Vladimir Pershine: Sim, as disciplinas eletivas depois, mas ninguém escolhe as mesmas disciplinas, até escolhendo as mesmas disciplinas pode ser que um horário você fica com uma turma e depois outra turma disciplina já são outras pessoas, então até para mim como professor, fica mais difícil de entender o que está acontecendo em uma turma, porque são pessoas…

Luciano Pires: Sim, você não vai criar afinidade ali com o grupo.

Vladimir Pershine: …Aleatórias. Mas alguma coisa a gente percebe assim, o que eu percebo assim ao longo de 20 anos, que estava melhorando, por exemplo, eu estava trabalhando em 2004 a 2012, eu senti uma ligeira melhora, o pessoal estava mais interessado em estudos, um pouco mais preparado, mais dedicado aos estudos. Peguei aqui, aqui a turma era bem mais relaxada, bem mais perdida, bem mais sem saber o que que quer da vida, e depois da pandemia piorou ainda mais, pandemia não sei, posso estar enganado, mas para mim foi um impacto muito grave no comportamento dos alunos.

Luciano Pires: Psicológico?

Vladimir Pershine: Na valorização do estudo, do ensino. Agora qualquer turma que eu pego, um terço da turma nunca aparece, nem para fazer a prova, nem para acessar o site do Moodle que a gente usa para os testes…

Luciano Pires: Cara, é inacreditável, você está falando uma coisa aí que está acontecendo com a sociedade como um todo, eu tenho um programa meu de assinatura, que é um programa caro, e ontem eu estava comentando, tem meia dúzia de caras que compraram e não aparecem, o cara comprou, pagou e não aparece, faço evento, mando convite para todo mundo, o cara vem, paga, compra o evento, vende 150 convites, na hora tem 80 pessoas, 70 não foram, a impressão é que ninguém… ninguém, uma grande parte não quer mais ter compromissos, eu quero… eu tenho compromisso de estar aqui às 3 horas que nós vamos gravar, e evito, eu não quero mais compromisso, eu não vou, eu não estou com saco de ir, eu não vou, isso não vai me trazer nenhuma consequência que está na minha cabeça, então a sociedade parece que está perdendo essa…

Vladimir Pershine: Eu não sei, é inacreditável isso, uma falta de responsabilidade com a sua própria vida, eu paguei, eu me matriculei, mas depois, eu não quero.

Luciano Pires: Curso online, eu vi meu curso lá, nascer meu curso, estava conversando com um amigo meu que é um grande lançador de cursos lá, é o cara que é considerado um padrão no Hotmart, que é a plataforma de cursos ali, ali é um dos caras que maior engajamento tem, o engajamento dele é 32%, ou seja, 32% dos alunos dele terminaram o curso e ele é o maior, eu fui ver o meu número lá, era 9%, ou seja, espera aí, eu vendi o curso para 100 caras, o 100 compraram, pagaram o curso e só nove fizeram, o resto é assim, não tem compromisso.

Vladimir Pershine: Não sabia que na sua área também é assim, eu achava que era praga lá das universidades públicas.

Luciano Pires: Não, em todas as áreas, cara, em todas as áreas, as pessoas não vão mais, não se mobilizam mais.

Vladimir Pershine: As universidades públicas, os políticos costumam dizer que no Brasil sobre a expansão do acesso, que nós dobramos o número de alunos em tantos anos, mas ninguém pergunta…

Luciano Pires: A qualidade… é quantidade só…

Vladimir Pershine: A quantidade dos que conseguiram se formar.

Luciano Pires: Não tem qualificação.

Vladimir Pershine: Na mídia você não encontra esses números, eu sei esses números porque estão públicos, tem lá site do INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, que disponibiliza abertamente todos esses dados, mas você não vai ver um jornalista dizendo qual a porcentagem entre os ingressantes nas universidades públicas e os que se formam, quando se fala em ingressos e egressos, 40% no Brasil.

Luciano Pires: 60 ficam no caminho.

Vladimir Pershine: Ou seja, de cada mil alunos que se matriculam, passam no vestibular, só 400 se formam. E é um número estável, nos últimos dez anos era melhor, antes da expansão universitária era 60, quando o governo começou a implementar há 20 anos, 17, essa expansão universitária, tinha várias metas, uma meta era dobrar o número de alunos ingressantes e a outra meta era aumentar o número de formandos de 60 para 80, eles conseguiram dobrar, isso não precisa de muita inteligência…

Luciano Pires: E você facilita o custo de entrada fica muito mais fácil, você reduz as barreiras para entrar…

Vladimir Pershine: Não, se você tem o dobro de vagas, claro que…

Luciano Pires: E reduz barreira, fica mais fácil entrar. Para sair mais fácil ainda, porque os caras reduzem a linha de corte, o exame final… a prova é mais fácil, não tem mais reprovação, se você for lá na molecada lá embaixo, não no teu nível, na universidade, mas a garotada lá embaixo vai subindo, ah não sabe ler direito, não interessa, ele vai subindo, então a linha de corte não existe mais. Então, você vai recebendo…

Vladimir Pershine: Não, no nosso caso existe, porque eu falei, de 60% caiu para 40 e ninguém quer discutir isso…

Luciano Pires: A qualidade caiu, cara.

Vladimir Pershine: Quer discutir lá aumento de salário, que claro que eu apoio, essa pauta, falta de… falta disso ou aquilo, mas discutir a nossa eficiência, o que que a gente faz para resolver isso, porque para mim são escandalosos esses números.

Luciano Pires: Você tem esses números na Rússia?

Vladimir Pershine: Boa pergunta, já faz tempo que eu não procuro esses números, mas acredito que gira em torno de 80, porque… não, no mundo inteiro 80 seria um número razoável de pessoas que formam, se for menos para que existir essa universidade? A universidade não faz o papel dela, ela consome os recursos e não forma, tem que fechar a universidade e abrir outra com outras pessoas. E aqui não, está tudo bem, é meio que tabu discutir esse assunto dentro da academia, você não vai conseguir levar para nenhum conselho essa discussão.

Luciano Pires: Não, porque eles vão jogar você naquele mundo pavoroso da meritocracia, onde você vai ser crucificado, trucidado e cancelado, porque você está se atrevendo a querer conectar o mérito no resultado, vem cá, você vai crescer se você der resultado, você vai ganhar se você produzir, você vai subir na carreira se você produzir, se você for um professor que ensina, deixa eu ver quantos você ensinou, deixa eu ver o resultado da tua, então eu vou te medir pela tua eficiência, bota um papel desse na mesa, um sindicato vem e corta as suas pernas, e tira você fora.

Vladimir Pershine: Sobre esse discurso de professor, que somos todos maravilhosos, que professor é muito importante na vida do aluno, só que a gente não consegue formar aluno. Então, onde está essa maravilha toda de professor.

Luciano Pires: É, meu caro, pelo o que eu estou vendo com você, você já virou brasileiro mesmo, não é mais russo não, já é brasileiro…

Vladimir Pershine: Não, tenho o documento brasileiro.

Luciano Pires: Você tirou a cidadania daqui ou não, você é cidadão brasileiro? Você vota na eleição?

Vladimir Pershine: Sim, sim, sim, não faz muito tempo, fiz… antes da pandemia saiu, no começo de 2020 eu tirei o RG, já votei uma vez para prefeito, e uma vez para presidente e governador, já duas vezes que eu votei, 2020 e 2022. Não é a experiência mais agradável no Brasil escolher entre os candidatos disponíveis, mas em termos de pertencimento, me sentir parte da sociedade brasileira, é legal sim, ir no dia como todo mundo vai, apertar lá, levar a colinha…

Luciano Pires: Se você compara com a tua história de 30 anos atrás, é isso aí. É, meu caro, vamos lá, quem quiser trocar uma ideia com você, conhecer, você está publicando em redes sociais, você tem trabalhos publicados, você tem livro escrito, você tem o teu trabalho sendo divulgado de alguma forma?

Vladimir Pershine: Não, o Dennys, ele sempre fala que eu preciso escrever um livro sobre as minhas experiências, quem sabe um dia ele consiga me convencer nisso. Não, eu tenho redes sociais, mas eu uso só para a minha vida pessoal mesmo, para postar para onde fui, o que eu vi, como a guerra… com o início da guerra na Ucrânia, eu passei a postar um pouco no começo sobre as visões que eu acho corretas da situação, que eu acho que muita gente aqui no Brasil estava meio perdido na avaliação…

Luciano Pires: Como é que vai terminar aquilo lá?

Vladimir Pershine: Ninguém sabe.

Luciano Pires: Ontem eu vi o Putin sugerindo um cessar fogo humanitário entre Israel e…

Vladimir Pershine: Não, você não pode acreditar em nada que ele fala, ele sugere, mas ele nem expressou as condolências aos mortos lá nos ataques em Israel, todos os presidentes do mundo inteiro mandaram alguma carta, alguma nota, e antigamente ele fazia isso, agora ele fez em… ele se mantém em silêncio, foi gritante o silêncio dele, ele não se pronunciou sobre aquilo e agora vem pedir cessar fogo? É tudo palhaçada.

Luciano Pires: Mas eu te perguntei, você falou que ninguém sabe, como é que vai acabar a situação Rússia e Ucrânia, você olhando Rússia e Ucrânia, eu estou te perguntando agora, você comparar Rússia e Ucrânia com Brasil e Argentina? É comparável assim? Me parece ser muito mais…

Vladimir Pershine: Se comparar as línguas sim, tem certa semelhança, a mesma, digamos, distância entre as duas línguas, bem que a fonética também, a fonética entre espanhol e português é bastante diferente, a fonética de russo e ucraniano também é parecida. Mas a história, é claro, é diferente, Brasil e Argentina nunca fizeram parte do mesmo estado, e os ucranianos, coitados, eles a vida toda fizeram parte do inint 01:19:18 da Letônia, do estado polonês depois do Império Russo, depois da União Soviética, eles tiveram pouquíssimas chances de desenvolver a sua própria identidade nacional dentro de um estado. Mas essa guerra atual, ela acabou com esse discurso de que somos irmãos, que é o mesmo povo, o discurso do Putin é justamente esse, ele fala que o ucraniano não existe, nem língua ucraniana, nem o povo ucraniano existe, é uma versão local do povo russo, é um caipira do sul da Rússia, o ucraniano. Mas isso não é verdade, porque os ucranianos têm a sua própria identidade, os próprios ucranianos não concordam com isso. O que vale é o que o próprio povo acha, se o povo acha que ele é povo distinto dos outros, ele é um povo distinto, não interessa lá a comparação linguística, semelhança, se os ucranianos falam que sim, somos um povo separado, pronto, não tem o que questionar. E a invasão agora da Rússia só fortaleceu essa identidade ucraniana, se tivesse alguém lá na dúvida dentro da Ucrânia, se continuava vivendo com mais vínculos com a Rússia, ou mais vínculos com a Europa, agora ninguém quer vínculo com a Rússia, ir lá, morrer lá, um soldado russo te matar do nada. Então, agora até muitos russos, eu tenho alguns amigos russos que moram na Ucrânia, uma menina, quer dizer, menina agora de 56 anos, que estudou comigo na faculdade, ela mudou logo para lá para Odessa, se casou lá, ela não fala mais russo, ela é russa e ela cresceu comigo em Tomsk, se formou comigo, a gente conversa até no Facebook, ela escreve para mim em ucraniano, eu escrevo em russo, ela não quer usar a língua russa.

Luciano Pires: Ah, ela não quer usar.

Vladimir Pershine: E é típico, tem muita gente que está nessa situação, que tem russo como língua nativa, mas abandona o russo para poder falarem o ucraniano, para se sentir fazendo parte do novo estado ucraniano, para contrapor a política agressiva da Rússia.

Luciano Pires: É, meu caro, sei como é que vai ficar isso não, mas está bem complicado.

Vladimir Pershine: Eu posso dizer que não há como a Rússia conquistar a Ucrânia, porque o Putin quer isso, que a Ucrânia faça parte abertamente da Rússia, ou que seja o estado formalmente dependente, mas de fato dependa politicamente da Rússia, isso não tem como acontecer, porque ele pode ir lá e destruir a Ucrânia inteira, mas o povo ucraniano não vai aceitar isso, eles vão morrer, porque tem coisa chamada dignidade, que muitas teorias sociais, marxistas desprezam, tem dignidade do povo, não interessa a vida econômica, se os ucranianos se aliassem à Rússia, eles poderiam até viver melhor economicamente, parte lá do dinheiro do petróleo que a Rússia tem, ela poderia direcionar para a Ucrânia, mas eles não querem isso, eles preferem viver mais pobres, mas com dignidade de um país independente.

Luciano Pires: Vamos ver se acaba isso.

Vladimir Pershine: E não sei, as forças já estão acabando, os dois lados… então, a gente vai ver.

Luciano Pires: Eu acho que a economia vai ser… mas você falou, eu achei que a Rússia estava se esvaindo economicamente, você disse que ela está com mais dinheiro do que tinha antes de começar a guerra, então…

Vladimir Pershine: Não, porque as sanções que a Europa e os Estados Unidos colocaram para a Rússia, proíbem vender as coisas para dentro da Rússia, mas não proíbem a Rússia de vender o produto dela, então para comprar, as empresas russas, elas de forma muito rápida, elas conseguiram criar canais novos, as autopeças, eletrônicos, vendem lá para a Turquia, Cazaquistão, como se fosse para algumas empresas de lá, e de lá revende para a Rússia, às vezes usando duas, três em etapas de revenda, para esconder para onde está indo, mas de fato não está faltando nada na Rússia agora. Não, está faltando sim, por exemplo, aviação, a coisa mais grave é a aviação, os aviões já começaram a cair, esses pousos forçados no meio de campos que estão acontecendo, isso não é por acaso, é falta de manutenção isso, mas só depois de um ano, um ano e meio que começou a acontecer isso. No mais está tudo funcionando, a família do meu irmão também está lá, ele fala que algumas coisas ficaram mais caras, mas assim, 10, 20% mais caros, nada demais, ou seja…

Luciano Pires: Vamos torcer para essa coisa não crescer e terminar. Meu caro, inint 01:25:37 obrigado aí pela conversa.

Vladimir Pershine: Não, foi um prazer.

Luciano Pires: É fascinante você… eu gosto de trazer gente que vem de outras culturas para cá, porque essa coisa da integração ao Brasil é fascinante, cada um tem um olhar, cada um tem uma visão, cada um dá valor para coisas que a gente como brasileiro não vê, nesse nosso papo aqui para mim o que pegou de mais interessante é essa tua experiência de vivência em uma sociedade com liberdade relativa, para uma sociedade com liberdade. E agora nós estamos nesse momento no Brasil discutindo e relativizando liberdade, eu estou muito preocupado com isso, mas é aquela história, você não consegue provar para alguém, para um adolescente de 15 anos que…

Vladimir Pershine: É surreal escolher um país para viver com plena liberdade vendo como esses valores estão sendo atacados agora, não é apenas por molecada, mas por gente grande que está na mídia e tudo, parece que não vale mais defender a liberdade, o que vale mais é defender a presença do seu partido no poder.

Luciano Pires: Não vai dar certo isso. Meu caro, grande abraço.

Vladimir Pershine: Obrigado.

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast, a transcrição deste programa você encontra no LiderCast.com.br.

Voz masculina: Você ouviu LíderCast com Luciano Pires, mais uma isca intelectual do Café Brasil, acompanhe os programas pelo portalcafebrasil.com.br.