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Luciano Pires -

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. No programa de hoje temos Anderson Passos, que serviu no Corpo de Bombeiros de Minas Gerais por 28 anos, onde foi docente, comandou o batalhão de emergências ambientais e desastres, o batalhão de Uberaba, e foi piloto instrutor de helicópteros de resgate. Anderson atuou em incêndios florestais e urbanos, desastres naturais e muito mais. Atualmente, é secretário de serviços urbanos de Uberaba. Na época da tragédia de Brumadinho, comandava o Corpo de Bombeiros da cidade, e foi convidado para liderar as equipes de buscas e resgates das vítimas. Conversamos sobre a carreira de bombeiros e sobre uma das maiores tragédias já vividas no Brasil.

Muito bem, mais um LíderCast, eu sempre conto como é que o meu convidado veio parar aqui, que não será diferente. Estou eu lá navegando pelas internets da vida, quando me entra uma mensagem e eu não vou me lembrar agora, porque tem tanto canal de entrada de mensagens, se foi um direct do Instagram, se foi no WhatsApp, entrou de repente o Clayton Reis, “olha cara, assisti uma palestra de um cara interessante, era legal você falar com ele”. “Pô, me dá o contato”. Mandou o contato, eu mandei uma provocação, “e aí cara, está afim?”. Ele, “ué, vamos marcar”. Isso faz o que, não faz 1 semana.

Anderson Passos: Tem uns 4, 5 dias.

Luciano Pires: 4, 5 dias. “Cara, tem uma data assim, você topa?”. “Topo, estou indo de Uberaba até aí”. Eu falei, “só para isso?”. “Só para isso”. “Vem embora”. Então, estamos aqui para mais essa rodada do LíderCast que promete ser bem intenso. Três perguntas para começar, essas três você não pode chutar, as outras você chuta à vontade. As três, você vai direitinho.

Anderson Passos: Tá certo.

Luciano Pires: Vamos lá, seu nome, sua idade e o que que você faz?

Anderson Passos: Anderson Passos, eu tenho 50 anos de idade, eu sou de Belo Horizonte Minas Gerais, hoje moro em Uberaba, eu fui bombeiro militar por 30 anos, hoje eu sou veterano, que é o nome militar que se dá para quem já está aposentado.

Luciano Pires: Com que idade que você aposenta? Você é novo demais para estar aposentado, o bombeiro tem uma aposentadoria mais…?

Anderson Passos: Sim, os militares no Brasil em regra aposentam por volta dos 30 anos de serviço. Foi o que aconteceu comigo, né? Eu entrei, portanto, próximo ali dos 20 anos de idade, e próximo aos 50 então me aposentei. Cá estou.

Luciano Pires: E essa aposentadoria é, desculpe, eu sou ignorante nisso aí, eu posso falar a bobagem que eu quiser aqui, tá? O escudo da ignorância é fantástico, né? Essa aposentadoria é compulsória, cara? Você tem que aposentar, precisa parar? Não adianta dizer, eu quero continuar, quero virar general dos bombeiros, sei lá o que que é, mas…

Anderson Passos: Pois é, você imagina um militar em qualquer que seja a área, inclusive dos bombeiros, já tendo sido visitado aí pelas mazelas da velhice, né, operando algum tipo de equipamento. Então, o preço social é de fato os militares se aposentarem um pouco mais cedo, então essa aposentadoria aos 30 anos ela é compulsória. Houve uma certa mudança de regras recentemente, eu paguei um certo pedágio, mas foi pequeno. Então, de uma forma geral são 30 anos de serviço, atualmente 35.

Luciano Pires: Tá bom, é bom saber, a gente ouve muita história aí com relação a essa falta de talento no mercado e de repente cara, um talento parar aos 50 anos. Cara, é muito cedo, é muita… 50 anos é a flor da idade, é quando você junta ainda… cara, você está no shape, você tem fisicamente está bem, tem 30 anos de história, de conhecimento, como é que se abre mão disso, né? A sociedade mudou cara, isso vai ter que mudar de alguma forma. Nasceu onde?

Anderson Passos: Eu nasci em Belo Horizonte, Minas Gerais, capital, sou filho do orgulhoso terceiro filho do seu Antônio e dona Zica, lá na periferia de Belo Horizonte. E desde sempre, escolas públicas, e uma das melhores escolas que eu estudei, faço questão de dizer, foi o CEFET, Centro Federal de Educação Tecnológica lá em Belo Horizonte. Em seguida, me formei como técnico em eletrotécnica. Então, por assim dizer, eu sou um bombeiro eletricista.

Luciano Pires: Você tem irmãos?

Anderson Passos: Tenho irmãos, somos 4. Sonia, Júnior, Anderson, eu, portanto, e Adelmo. E depois entrei na Academia da Polícia Militar em Belo Horizonte também, no ano de 1995, 4 anos de curso.

Luciano Pires: Deixa eu cutucar você antes disso aí. Você, qual é seu apelido quando você era pequenininho? Sempre já foi pequeninho…

Anderson Passos: Já nasci comprido.

Luciano Pires: Que altura você tem?

Anderson Passos: 1.91. Eu nasci comprido, e lá em casa eu sou do meio na estatura, caçula é um pouco maior. Acho que era muito puxão de orelhas, e a gente acabou crescendo muito.

Luciano Pires: Como era o apelido que você tinha quando era criança?

Anderson Passos: Rapaz, tinha uma porção de apelidos. Doutor, um vizinho ele sempre dizia que eu ia ser médico, ele errou redondamente, passei longe disso, nunca tive essa habilidade. Tinha uma meia dúzia na escola que era o que antigamente, hoje se chama de bullying, tinha as orelhas maiores, então era Dumbo, era uma porção de coisas lá rapaz. Ao longo do tempo, os apelidos foram mudando.

Luciano Pires: Então deixa eu pegar o Dumbo que é um apelido bom, é bem legal. O que que o Dumbo queria ser quando crescesse?

Anderson Passos: Rapaz, eu vou te falar de um sonho infantil de fato, primeira coisa que eu me lembro na minha vida, eu queria ser alguém que fizesse a diferença. Eu falo não é retórica não, de fato é isso mesmo. E naquele sonho infantil eu queria ser o super-homem, eu queria voar e salvar gente, e fazer coisas. Então a lembrança mais antiga que eu tenho é essa. Mas, eu fui percebendo que a gente para antes de salvar o mundo, tem que pelo menos conseguir arrumar a cama, lavar as louças em casa, salvar a própria vida primeiro, o próprio ambiente onde você vive. Isso foi uma escola muito grande, muito bacana.

Luciano Pires: Você sabe, eu acho que o mais próximo que existe de um super-herói é o bombeiro cara.

Anderson Passos: Rapaz, eu desconfio depois de aposentado, revendo, olhando pelo retrovisor, talvez foi uma busca inconsciente disso, porque eu me tornei piloto de helicópteros, então eu pude participar de equipes aéreas que faziam o resgate para salvar pessoas. Então, eu vou, trago para mim essa satisfação de ter participado de equipes que faziam o que esses personagens aí fazem.

Luciano Pires: O que que te levou para a Polícia Militar, porque você quando chega na polícia, você não tinha bombeiro em vista.

Anderson Passos: Não, não tinha.

Luciano Pires: Você chegou, vou ser polícia?

Anderson Passos: Um amigo me disse que havia um curso na Polícia Militar, uma faculdade, que você ficava ali estudando e recebendo durante aquele curso. Ele me enganou redondamente, porque a gente já descobre na primeira semana que é muito trabalho, muita dedicação. E Luciano, foi eu acho que o melhor curso que eu já fiz na vida, porque é um curso que tem, é o curso de formação de oficiais, que é um curso superior, ele tem desde matérias jurídicas que falam de Direito Penal, Direito Constitucional, Direito da Criança e do Adolescente, até Direito do Consumidor, até matérias como geopolítica, etiqueta social, atividades…

Luciano Pires: Isso lá em Minas?

Anderson Passos: Lá em Minas, Belo Horizonte.

Luciano Pires: Equivalente ao Barro Branco em São Paulo?

Anderson Passos: Sim, exato, exatamente. Inclusive nas competições esportivas, nós tínhamos muitos encontros com os paulistas e a turma do Brasil inteiro disputando voleibol no meu caso. Então, o curso muito completo que preparou para diversas situações, mas era um curso da Polícia Militar. Eu me formei dia 23 de outubro de 1998, 1 semana depois consegui ir para o Corpo de Bombeiros. Da minha turma de 120 pessoas, só 5 fomos para os Bombeiros, e eu fui um desses felizardos. E acho que valeu todo o esforço, abdicar em muitos momentos da convivência familiar é sempre um desafio para qualquer profissão, mas eu acho que isso para mim foi uma maneira assim de a gente fazer a diferença na vida das pessoas. Eu me encontrei nessa profissão.

Luciano Pires: Hoje está sendo a gravação mais acidentada do LíderCast que eu já fiz na minha vida. Nós estamos aqui com… São Paulo está dando picos de energia, a cada 1 hora cai a energia e derruba tudo, derruba o bairro inteirinho aqui, eu descobri que a cidade de São Paulo inteirinha, e hoje meu vinho resolveu bater na parede e usar uma furadeira. Então, em alguns momentos vai invadir o nosso som aqui, porque aqui é blindado, tudo, mas não aguenta uma furadeira na parede do lado de fora.

Anderson Passos: Vamos cumprir a missão de qualquer forma.

Luciano Pires: Isso aí. Mas, me fala uma coisa aqui, como é que pegou em você? Você entrou para fazer academia de polícia e lá dentro você se descobriu lá?

Anderson Passos: Foi.

Luciano Pires: Cara, é isso que eu quero fazer.

Anderson Passos: Assim, as atividades policiais eram muitas né? O Corpo de Bombeiros naquela ocasião ainda era um departamento da Polícia Militar. Então dentre o policiamento florestal ou ambiental, todos os demais, rodoviário, de transito, policiamento de choque, tudo isso, muito interessante e muito necessário. Mas, o Corpo de Bombeiros me chamou muito a atenção e me tocou pelo seguinte, você de fato ali tem materialmente assim, olha, eu fiz a diferença na vida dessa pessoa, eu participei. Isso me tocou profundamente. Então a atividade policial ela é muito ingrata, a polícia ela trabalha bastante, e muitas vezes não tem esse reconhecimento. E no Corpo de Bombeiros eu achei que era um bom caminho nesse sentido assim de eu me identificar muito com essa possibilidade, olha, o Joaquim se acidentou com o carro, fomos lá e ajudamos o Joaquim. Uma pessoa que estava em diversas situações que a gente acabou participando e é um trabalho muito coletivo, sabe Luciano, eu acho que um dos grandes valores dessa instituição, isso que me trouxe, me reforçou aquilo que a gente aprende em casa com a dona Zica e seu Antônio, é que a gente precisa trabalhar em equipe, a gente realmente precisa, não é só retoque, a gente precisa, a gente acerta mais, a gente ir consegue mais longe trabalhando de forma coletiva. E é o que se faz no curso de bombeiros, você não tem nenhuma ocorrência atendida de maneira solitária e as muitas vivencias, as muitas formas de ver um determinado problema, as soluções que surgem, isso é muito rico. Então, você constrói ali uma forma que para mim era muito instigante, de tentar com a pressão do tempo achar soluções para as coisas.

Luciano Pires: Uma curiosidade que eu tenho aqui com relação a essa academia que você fez, tudo lá. Você escolhe para que lado da polícia você quer ir, ou o sistema te chama?

Anderson Passos: É uma junção das duas coisas. Então, o aluno quando já está no cadete, quando ele já está prestes a se formar ele faz algumas opções. Então conforme a demanda, conforme a política daquele momento da instituição, você é direcionado. E eu tive muita sorte como eu te disse, dos 120 apenas 5 foram para o Corpo de Bombeiros. Então, eu de fato fui abençoado nisso.

Luciano Pires: Mas você queria?

Anderson Passos: Sim, as minhas 3 opções foram quarteis do Corpo de Bombeiros. Na minha cabeça, se não forem essas 3 opções, qualquer outra me serve, e fui atendido na primeira opção.

Luciano Pires: Como é que você chega em casa e fala, “mãe, virei bombeiro. A partir de amanhã, seu filho está entrando em barraco incendiado, subindo escada não sei o que”, e a mãe vai falar, “meu filho, que bom”.

Anderson Passos: Pois é. Eu acho que, o meu irmão mais velho Junior, ele era policial já há algum tempo, e a minha mãe aprendeu a conviver com esse tipo de situação alguns anos antes. Então, ele me ajudou a amortecer esse impacto em casa. Mas, então eu estava ali preparado ao longo dos 4 anos para ser policial e quando virei bombeiro, eu acho que minha mãe, nunca perguntei isso a ela, mas, eu acho que ela recebeu isso de forma muito positiva, no sentido de que eram outros riscos. Mas, a vida de bombeiros não é feito as mães imaginam, feito as esposas imaginam, que a gente fica ali dentro de incêndio o tempo todo, subindo em prédios e tudo mais. Mas, eu posso te garantir que agora que eu me aposentei eu estou contando muitas histórias para a minha família que eu não podia contar quando estava, para poupa-los.

Luciano Pires: O que significa, que se um filho seu optar por ser bombeiro, que um lado você vai falar, fico orgulhoso de ver ele seguir a carreira que eu tanto amei. Por outro lado…

Anderson Passos: Teremos alguns conflitos.

Luciano Pires: Eu vou saber todas as histórias que ele não vai querer contar para mim, e eu sei como é que funciona.

Anderson Passos: Exatamente.

Luciano Pires: E aí cara, a demanda de… você ficou na capital?

Anderson Passos: Fiquei na capital praticamente a carreira toda, sempre envolvido com a atividade de ensino, sempre gostei. Eu sou falante, como você pode perceber, sou muito tagarela como se diz na minha terra, e sempre muito envolvido e observando bons professores. Eu sou fascinado com a possibilidade de você estar num ambiente escolar, um ambiente acadêmico. E tive a satisfação Luciano, de quando me aposentei ano passado, estar comandando a academia dos bombeiros em BH. Então, esse período todo de trabalho, foi sempre envolvido com atividades educacionais e também tentando me colocar em atividades operacionais. O que é um desafio também, porque normalmente quando o oficial vai se graduando, ele vai chegando mais perto das mesas e dos carimbos e das canetas, e se distanciando lá dos equipamentos operacionais, dos alicates hidráulicos e tudo mais. E eu percebi em algum momento que eu poderia ainda me manter ativo na atividade operacional. Então, fui para a aviação, um concurso interno, me tornei piloto em 2005.

Luciano Pires: Como chama sua mãe?

Anderson Passos: Dona Zica, Edwiges.

Luciano Pires: Aí você chegou para a dona Zica e falou, “mãe, é o seguinte…”.

Anderson Passos: Outro susto.

Luciano Pires: Não satisfeito em correr riscos entrando em incêndio, agora eu sou piloto de helicóptero e a dona Zica fala, “pô, dá um tempo”.

Anderson Passos: Ela falou, “você vai ganhar quanto a mais por isso?”. “Não, nem um centavo a mais”. “Você não tem juízo”. Mas foi muito legal, porque o ambiente da aviação é mais o ambiente em que você realmente ao contrário do que parece, e tem muitas questões que envolvem segurança. Mas, a atividade bombeirística aérea, atividade de salvamento aéreo, ela de fato tem os seus desafios, os seus riscos, em incêndios florestais por exemplo, que você tem um ambiente de muita fumaça, animais, aves de todo tipo fugindo do incêndio. O próprio ambiente de calor que é desfavorável ao voo, você tem fiação, uma porção de coisas.

Luciano Pires: Aviação dos bombeiros?

Anderson Passos: Exato. Foi criada naquela ocasião um grupamento aéreo para salvamento, portanto, com helicópteros e um pequeno avião. Hoje em dia isso já expandiu bastante, e o objetivo é claro, as variadas ocorrências que podem ser facilitadas com aeronave. Então, desde acidentes automobilísticos, com vítimas presas entre as ferragens, acidentes em cachoeiras por exemplo, acidentes de trabalho, em qualquer lugar, e até alguns assim que não podem nos escapar. O filho do lavrador lá na roça, picado por escorpião, o helicóptero pousa no quintal dele e traz a vítima. É um serviço assim, muito legal, dos mais acessíveis que eu já presenciei, exatamente assim. O filho de um lavrador tendo um serviço, poxa quanto que custa um atendimento aéreo, um resgate aéreo, né?

Luciano Pires: Sim.

Anderson Passos: Isso basta que o médico lá verifique a necessidade daquilo. E várias outras situações que a gente viveu, acidentes cardíacos, acidentes vasculares cerebrais. Então, de transporte de pacientes.

Luciano Pires: Quem que aciona?

Anderson Passos: Qualquer pessoa pode acionar ligando 193, e faz uma triagem médica, feito o SAMU por exemplo. Inclusive há em vários estados, cada modelo é de um jeito, em Minas Gerais esse convenio é muito aproximado com o SAMU. Então, o médico faz aquela triagem, havendo a indicação a equipe decide, o piloto decide, olha, há necessidade médica. Tem condição prática de voo? Clima, distancia, local de pouso, essas coisas? Então, tendo o médico e o piloto ali entrosados na necessidade da possibilidade técnica, esse voo acontece, e faz a diferença. 84% Luciano, das pessoas que morrem de trauma, elas morrem na primeira hora após o trauma. Então, levar o atendimento avançado ou fazer a pessoa chegar ao hospital na primeira hora, é uma possibilidade de reduzir e muito a chance de morte e é claro, a chance se sequelas também.

Luciano Pires: A gente vê muito nos filmes, que os bombeiros estão lá na boa, tranquilo descansando, de repente toca a sirene, aí eles vêm, desce aquele cano, mete a roupa no caminho. Com helicóptero é igual?

Anderson Passos: Igual.

Luciano Pires: O helicóptero está paradinho num lugar e vocês estão numa salinha ali esperando a demanda chegar, é isso?

Anderson Passos: Isso, é. A diferença é que quando entra essa chamada, enquanto o médico está fazendo essa triagem, a equipe já vai colocando o helicóptero para fora do hangar, ele fica sobre rodas, existe uma base, e as informações vão sendo mais apuradas. Porque há informações que as vezes elas chegam destorcidas. Então, a pessoa até pelo telefone, até pelo rádio, ela pode ouvir uma coisa e interpretar outra. Por exemplo, você diz assim, “há vítimas”. “Quantas vítimas são?”. “São 6”. São 6 ou são 3? Um caso real que aconteceu comigo, fica 1 quilometro após a ponte preta. Não era ponte preta, era ponte estreita. Então, nós fomos para uma outra direção e ficamos viando durante muito tempo sem encontrar. Então, esse pequeno delay de alguns poucos minutos é necessário para que essa informação seja apurada. Mas, de uma forma geral é isso, é uma decolagem de emergência, já existe um plano de voo previamente liberado junto a torre de controle, isso acontece em pouquíssimos minutos, a equipe já está a caminho e é um voo que consegue fazer, por exemplo, 200 quilômetros em linha reta, conforme a aeronave até bem mais que isso, e conseguindo aquele objetivo, que é fazer com que o atendimento médico avançado, que é médico e enfermeiro, chegar até o acidentado, chegar até o paciente, em até 1 hora.

Luciano Pires: E aí você tem do outro lado um hospital preparado para receber vocês, com todo o protocolo de segurança?

Anderson Passos: Exatamente.

Luciano Pires: E que pousar e decolar um helicóptero demanda, tem todo um protocolo né?

Anderson Passos: Sim. Então nesse caso, a legislação ela permite que os bombeiros possam decolar de formas mais abreviadas. Então, você já tem, uma série de verificações já são feitas e ninguém mais encosta na aeronave. A mesma coisa serve ao plano de voo, ele já fica previamente acordado. Então já se sabe ao longo do dia, qual é o piloto, quantas pessoas estarão a bordo, uma série de detalhes. Então essa aviação, ela tem por exemplo, quase 100% dos locais de pouso, são locais inéditos. Então, você pousa em rodovias, pousa no meio do pasto, pousa no alto de uma montanha. Isso requer da tripulação uma atenção muito grande, por isso que eu digo espírito de equipe. Em muitos lugares, o piloto sequer está vendo o local de pouso, quem diz a ele em qual altura está, se ele tem um risco por exemplo do rotor de causa que fica Luciano invisível quando ele está girando com muita velocidade na sua condição normal de voo. Então, é um perigo muito grande e o tripulante tem que confiar no piloto, e o piloto confiar no tripulante nas informações. Então, se você vai girar a cauda do helicóptero para a esquerda ou para a direita, existe toda uma fonia, uma fraseologia, uma forma de falar padronizada para evitar que acidentes aconteçam, porque é a aviação a mais perigosa do mundo é a aviação de resgate, exatamente pelas características. Você decola em emergência, você não sabe, talvez seja a única aviação do mundo que você decola sem saber onde vai pousar.

Luciano Pires: Que loucura.

Anderson Passos: Você tem uma referência.

Luciano Pires: Quando você pousa, você está num ambiente que é de caos, nunca é um ambiente tranquilo, não, é um correndo para lá, outro para cá, todo mundo apavorado.

Anderson Passos: Exato, e sem conhecer da aviação, porque você está levando ali uma aeronave que tem a hélice girando a 800 quilômetros por hora, então qualquer impacto ele é extremamente danoso. Se leva uma ventania né, aquele sopro do helicóptero fazendo fumaça, fazendo poeira conforme o lugar, e o combustível, 540 litros de combustível voando sobre a cabeça das pessoas. Então, até a avaliação da equipe médica, da equipe técnica de bombeiros, para saber se aquele helicóptero vai trazer mais transtorno ou mais solução. E essa decisão tem que ser tomada muito rapidamente, até pela natureza das lesões. Muita demora não adianta, a aeronave não se torna necessária.

Luciano Pires: Cara, é muito detalhe, a gente que olha de fora só vê a cena do pouso e decolagem, acha que aquilo é uma coisa…

Anderson Passos: É feito assistir um teatro, você assiste à peça, ninguém vê o ensaio.

Luciano Pires: Me fala uma coisa, essa demanda por vocês é o dia inteirinho? Você falou, é 24 horas por dia?

Anderson Passos: Não, é só durante o dia.

Luciano Pires: Não tem voo a noite?

Anderson Passos: Não existe no mundo resgate noturno regular. Existem pouquíssimas instituições mundo a fora, na realidade os que não tem, existem pouquíssimas mundo a fora que fazem, mas é um risco fora da curva, sabe? Todas as que fazem, são pouquíssimas, já tiveram acidentes com perda de tripulações. Então isso não se mostra prudente, nós nunca fizemos desta forma. Decolar quando você já está no local e anoitece, em algumas situações você pode retornar para a base trazendo o paciente, mas já aconteceu de decolarmos lá sem o paciente. Olha, a pessoa está presa entre as ferragens, aquele resgate demorou mais do que a gente tinha calculado o tempo de solo, e aquela vítima foi literalmente deixada lá com a equipe médica para que acabasse de fazer o resgate e o transporte. E a aeronave retornou a base porque não seria seguro fazer o voo noturno, então quando o lusco fusco já se aproxima, quando a coisa já não tem condição de se configurar como resgate completo, isso a gente retorna. Então, são várias situações assim, é como todas as profissões tem, eu imagino que isso não é nenhuma diferença. O fato é que a pressão do tempo essa sim, ela exige que as coisas sejam de forma autocráticas, porque a legislação diz que a responsabilidade é do piloto da aeronave. Então, quando todos dizem, pouse aqui, pouse ali, vamos pousar ou não vamos pousar, ainda que todos possam se acidentar, a responsabilidade segundo a legislação é do piloto. Então, você precisa ouvir todo mundo e criar ao longo do tempo uma forma de decidir assertivamente. Deus foi generoso comigo, me permitiu passar um bom tempo livre de acidentes, mas nós vimos a dona morte de perto algumas vezes, toda a tripulação, acenamos para ela, ela acenou para a gente e a gente acabou conseguindo se desvencilhar e seguir graças a Deus, com a atuação de muita gente que estava ali treinada, atenta, e não posso deixar de dar créditos ao nosso anjo da guarda que está sempre atento.

Luciano Pires: Deixa eu comentar uma coisa, o trabalho que eu faço há pelo menos 30 anos, ele é focado em aumentar o repertorio para as pessoas para melhorar a capacidade de julgamento e tomada de decisão. Eu sempre explico assim, o que que eu quero, eu quero ajudar as pessoas a tomar decisão melhor para elas. E isso está antes de qualquer providencia, então antes de fazer um curso de vendas, eu preciso me preparar para saber, pensar e tomar boas decisões, aí eu faço, até para escolher qual é o melhor curso para ser feito. E o processo de julgamento e tomada de decisão é um negócio sofisticadíssimo, que é interessante, a gente usa o dia inteiro para muitas coisas, e quando você entra em um processo em que isso tem que acontecer em pressão, com uma pressão ambiente, fica tudo muito mais complicado, porque a pessoa pode ficar histérica, pode deixar de pensar direito. Então, eu estou me referindo a cosias do dia a dia, uma pressão de um cliente, alguma coisa, uma entrega de última hora, um problema que deu. Quando tem vidas em jogo então, a coisa é muito mais complicada. Eu fiz a minha aventura lá do Everest, e ali eu acompanhei de perto, tem um esquema de salvamento lá com piloto de helicóptero voando a 6 mil metros de altura, onde a teoria diz que o helicóptero não se sustenta e os caras vão, tem todo um procedimento, e o cara tem que tomar decisões sob pressão.

Anderson Passos: Pois é. Essa preparação, ela de fato começa na academia militar. Então, quando o cadete chega ali neófito né, ali naquele ambiente, ele já começa a tomar um choque com as mudanças que ele precisa fazer na própria rotina diária. E na medida que o curso vai passando, ele vai muitas vezes falando para grupo de 3 pessoas, de 5, 10, 30, depois para um grupo de 200, 300 pessoas, e ele é colocado em várias atividades que vão sendo aos poucos capacitando a ele tomar decisões sob pressão do tempo. Inicialmente, pressões mais acadêmicas num ambiente mais controlado. Quando vem já a atividade profissional propriamente dita, você fica por um tempo sendo acompanhado por alguém mais experiente e comigo foi da mesma forma. Então, os pilotos eles levam 4 a 5 anos para serem formados, é quase o tempo de uma faculdade, justamente para isso, porque nesse ambiente de estresse, de raciocinar sob pressão, algumas lições vão ficando. Primeiro que conhecimento sem amor vira uma arma, então você precisa saber que quem está demandando o serviço é uma pessoa que pode ser sua esposa, seu filho, um amigo, você não sabe quem é.

Luciano Pires: Repete isso aí que foi muito bom. Conhecimento sem amor…

Anderson Passos: É, o conhecimento sem amor é uma arma. Então não bastam qualificações, certificações, se o resultado que você está fazendo não tem amor. Você tem que entender que o serviço que você está prestando, seja ele qual for, ele tem que ter amor, você tem que botar amor no que você está fazendo, se dedicar. No nosso caso de bombeiro, se dedicar a vida que está sendo tratada, não é uma coisa que você tem, uma conta cartesiana para ter um resultado, um raciocínio cartesiano para ter um resultado de 1 + 1 são 2. Entraram vários outros aspectos. É sempre pensar que você tem pessoas que estão ali sob risco, fazendo atendimento, a tripulação altamente qualificada e pessoas que estão lá dependendo daquele serviço que vai ser prestado. E decidir solitariamente não é uma boa coisa, é importante abrir os olhos, mas abrir os olhos de coração para ouvir de fato o que as pessoas estão falando e tomar decisões. Essa parte, ela é difícil e a gente vai fazendo isso gradualmente, como piloto eu passei por isso e a gente reproduz isso com os mais jovens, é você colocá-lo, o copiloto, para voar com alguém que é mais firme, alguém que é mais tranquilo, alguém que é mais nervoso, alguém que é mais fácil no trato, que tem uma habilidade interpessoal maior. Voar com o vento, com menos vento, com alguém que fala muito alto, você voar chovendo, com risco de granizo, submetendo aquele profissional em formação a vários ambientes, num ambiente controlado, e aos poucos ele vai percebendo qual que é o estilo, a cultura daquela organização. Ou seja, aquele grupamento aéreo, qual que é a cultura? Existe uma forma de decolar, existe uma forma de apurar informações, as aproximações são assim, eu sou assado, elas são mais arrojadas ou não por um motivo ou por outro. Porque a habilidade motora, é o que todo mundo parece, todo mundo julga que seja uma coisa diferenciada. Na realidade, não. Eu te garanto que todo mundo que tem uma habilitação de automóvel, uma carta para dirigir, ele consegue pilotar um helicóptero ou um avião. A diferença é a tomada de decisão, ela não admite muitos erros. O erro de um cirurgião por exemplo, ele mata o paciente. O erro de um piloto, ele acaba com a vida de muitas pessoas, a bordo e em solo também. A literatura, a gente vê os jornais, são recheados de histórias como essa, infelizmente. Então essa capacitação ela tem que ser feita de forma muito correta. E tem uma coisa pitoresca, que a gente tem como tradição, é quando você libera um copiloto para ser piloto, ou seja, ele está sendo promovido, ele é lançado a um desafio e ele sabe que ele vai passar por desafio. Ele não sabe quando, mas geralmente você convoca o copiloto para fazer um voo de treinamento, mais um voo de treinamento, ele entra num processo de voo avançado. Então, faz várias situações com ele aí, situações que o instrutor está apenas olhando, ele não interfere nos comandos mecânicos, e vai avaliando a condição dele tomar decisões. Então, nesse dia em que ele é surpreendido, ele fez o voo, quando o voo está sendo encerrado o copiloto diz assim, “olha, então parabéns comandante, pode trocar de lugar aqui, ou se ele já tiver no local do piloto, no assento do piloto, ele já assume esse voo. Então, ele faz um voo pairado, coisa de 1 metro, 1 metro e meio do chão, e ficam debaixo da aeronave com a mão nos [skis], o comandante do grupamento e o instrutor que acabou de libera-lo. Isso traz para o copiloto, agora piloto, a responsabilidade de não matar os seus colegas de serviço, seus chefes, uma coisa muito inconveniente, mas traz para quem está liberando a demonstração de, essa é uma diferença entre acreditar e confiar. Então, você está ali debaixo de alguém que você trinou, você está colocando a sua vida em risco porque se ele fizer uma tolice qualquer ele pode acabar com a sua vida. Então, esse é um exemplo muito simbólico que a gente sempre pratica e que é muito aguardado tanto pelo copiloto, tanto pelos comandantes que estão ali. É uma bela passagem.

Luciano Pires: Esse processo que você comentou de treinamento, isso demanda tempo, você não consegue…

Anderson Passos: Sim, são anos.

Luciano Pires: Na literatura, você não vai conseguir, você tem que botar a cara para bater, tem que passar, como você falou, cada momento desse tem um tempo para ele. Então, você não vai conseguir formar um cara desses aí em 6 meses. Quando você assiste Indiana Jones e vê um moleque de 14 anos entrar num aviãozinho e sair pilotando o avião, decolando de onde quer, pousando em qualquer lugar no meio das pedras tudo, fala cara, não é assim.

Anderson Passos: Não é assim, e o que acontece, a gente percebe que nessas situações, eu não sei se o nosso ouvinte consegue imaginar, mas eu queria fazer uma figura aqui. Como é que é um som dentro de uma aeronave, né, um helicóptero por exemplo, você está com as portas abertas, você tem um ruído muito mais alto ali do que os 80 decibéis, tão marcantes para a nossa audição, acima disso é bastante prejudicial, então todos estão de fones. Nos fones você escuta as pessoas conversando entre si ali, 4, 5 pessoas, as vezes 6 pessoas dentro do helicóptero conversando de maneira ordenada, mas conversando. Então, você tem que ter mais ou menos de memória o timbre de voz de cada um para saber se quem está te chamando é o tripulante que está na porta da esquerda ou na porta da direita. Você tem também a fonia das viaturas de bombeiros que estão lá embaixo em terra procurando, olha, a pessoa na cachoeira foi aqui, foi ali, isso está acontecendo de uma forma ou de outra, tem uma pessoa que caiu no rio e está descendo. Então essa conversa operacional. Até aí, nós estamos falando de bombeiros, mas tem a parte aeronáutica da coisa também, que a torre de controle também está se comunicando. Então todos que estão a bordo aos poucos vão treinando os seus ouvidos para saber, olha, essa voz ou esse tipo de comunicação veio de tal pessoa, senão a torre te pergunta uma informação, você dá uma informação que não tem nada a ver com o voo, controlador. E tem casos pitorescos que acontecem nessas situações, mas todo mundo vai sendo treinado. Então, basicamente são atividades de risco de fato, mas são atividades que são, todo mundo vai sendo exposto aquele ambiente de forma gradual e o aprendizado de fato ele é lento, ele carece de muito entrosamento, aí vem a generosidade do instrutor. Tem que ser aquela pessoa que transmite informação, não a que mostra que sabe. Claro, se ele é instrutor, ele sabe. Melhor age quem transmite informação. Então olha só um outro exemplo interessante, quando você faz por exemplo a troca do motor do helicóptero, talvez tenha sido a situação mais marcante falando de manutenção. Eu fui chamado para fazer um voo após a troca de um motor de um helicóptero. Então você ali pensa várias vezes se você, como é que você começa aquele voo, você não pode decolar de imediato, sabe-se lá se os parafusos estão bem apertados, se os arames estão nos lugares certos, se as conexões foram feitas de forma adequada. Claro que isso passa pela cabeça de todo mundo, e minha esposa por exemplo, só sabe dessas histórias agora após a aposentadoria por motivos óbvios. Mas você começa fazendo, aciona a aeronave, dá partida ou liga, como se fosse ligar um automóvel, você liga, observa, não houve explosões, não houve chamas, não houve gritaria e nem nada, ok, desliga, desce, toma um café, bebe água, abaixa a frequência cardíaca, repete esse processo mais algumas vezes. Não tem manual que vá te dizer quantos acionamentos você tem que fazer para decidir decolar. Só tem 1 regra que a gente utiliza, quando a decolagem de fato for acontecer, o mecânico responsável por liberar a aeronave para voo, ele está no banco de trás. Esse é um comprometimento muito importante do mecânico para com a sua equipe. Ele está mostrando, olha, eu mais do que acreditar, eu confio no trabalho que eu fiz. Então esses exemplos, essas situações, elas são feitas ao longo de várias operações, citei apenas 2 delas, mas, quando você trabalha com atividades em altura você tem cordas envolvidas, uma pessoa te dando segurança lá embaixo, você não sabe que ancoragem foi feita, né? Então isso é interessante, e no serviço bombeirístico, isso me cativou bastante porque você cria uma conexão com pessoas, tanto você tem a oportunidade de demonstrar confiança nas pessoas e exige que você confie também.

Luciano Pires: Essa do mecânico me lembrou uma história boa, que tem uma escola de engenharia de aeronáutica que a molecada projeta um avião e um belo dia o avião está na pista e todo mundo vai para dentro do avião, todos os moleques mais o professor. Senta todo mundo lá, o avião é lindo, não sei o que, pois é, agora nós vamos decolar. Quem tiver inseguro levanta e sai do avião, e aí todos os alunos saem fora do avião, fica sentado só o professor. E o cara vai lá para o professor, ué, mas todo mundo foi embora porque não confia no avião, só ficou o senhor. Por que que o senhor ficou? Cara, eu sei quem projetou esse avião, essa merda não vai decolar nunca. Que delícia isso. Você estava me falando agora e eu fazendo uma imagem aqui, você imagina um piloto de helicóptero em guerra, onde além de tudo que você falou tem um cara lá embaixo querendo derrubar você.

Anderson Passos: É um ambiente hostil.

Luciano Pires: Cara, que absurdo. Tem um filme famoso, Black Hawk Down, Falcão Negro em Perigo, que tudo que você falou está lá, todo aquele estresse, inclusive aquela sequência que tem o comandante geral naquela sala tranquila em terra, lá em cima um helicóptero pequenininho com 2 estrategistas observando o que está acontecendo e aquela comunicação triangular, cara, um negócio muito louco.

Anderson Passos: Isso acontece Luciano, como eu te disse, em várias situações. Então essa confiança do liderado com o seu líder, ela tem que romper aquela barreira que a gente vê academicamente aí do chefe. Então ele tem que entender que a decisão está sendo tomada com amor também, com inteligência, com vivencia. Então, por exemplo, em atendimento a ocorrências com muitas pessoas, em Brumadinho nós tivemos lá 500 bombeiros. Então, você tinha que colocar todo esse pessoal em uma zona de risco onde havia risco de rompimento de outras barragens. Então, algumas a gente designava equipes com mais ou menos vivência conforme o local, quantidade de risco ou a condição daquelas pessoas se auto salvarem em caso de um rompimento. E em várias desses locais, os bombeiros estavam lá com lama até os joelhos, lama até a cintura, então se houvesse o rompimento eles estariam ali enrascados para poder sair. Mas, em nenhum momento você via as pessoas se negando a fazer aquilo. Então, há essa pressão, há uma exposição ao risco, mas eu acho que esse sentimento, esse comprometimento de grupo é o que faz com que em várias situações como eu disse do helicóptero, se ouvindo um tanto de coisas ali, você vá ao longo do tempo entendendo que tipo de mensagem, que tipo de informação e quem afinal de contas, quem está dando aquela recomendação ou aquela dica, seja ele o chefe ou mais modesto dos funcionários, qual que é a confiabilidade daquela fonte. Então, um comandante pouco experiente, um gerente pouco experiente, um diretor pouco experiente de nada vai ajudar, porque tem um estudo japonês que fala que nos momentos de grande estresse, inédito, 80% das pessoas tendem a ficar estáticas, congeladas, sem saber o que fazer. Isso quer dizer o seguinte, se você tiver em uma sala de cinema e alguém gritar fogo, 80% vão ficar paradas de fato, inertes. 15% vão fazer o que se espera, identificar rota de fuga, ajudar as pessoas que tem dificuldade, sair andando com a possível tranquilidade, mas, tem 5% das pessoas que podem fazer ou que farão, espera-se que faça tolices. Sair do ambiente e voltar para buscar um celular, coisa desse tipo. Então, é importante que a pessoa vá se treinando para que nos momentos de estresse, ela possa ser os 15% que vão ajudar os demais, e a gente vê várias situações como essa. Às vezes, você tem que dar um estimulo muito forte, bater na mesa, levante-se, ou abaixe-se, corra ou pule, o que quer que seja. Mas isso tem que ser feito com assertividade, na hora das crises não há crachá, não há patente, as pessoas se mostram como elas são e tendem a fazer o que foram treinadas para fazer. Por isso o treinamento é fundamental, que as pessoas tenham uma preparação mental para poder reagir, aí nós estamos no limite entre estar treinado e estar adestrado, para situações de emergência muitas vezes é necessário o adestramento, para que você…

Luciano Pires: Que é quando você responde até inconscientemente, né?

Anderson Passos: Inconscientemente. Na aeronave por exemplo, quando você está lá fazendo um trabalho que é dos mais estressantes, que é você ter um socorrista, um bombeiro pendurado numa corda embaixo do helicóptero, colega seu de serviço, ele está ali fazendo um salvamento. Se a aeronave apresentar uma pane qualquer de motor, você tem ali outras pessoas a bordo. Então o piloto, ele pode dar a ordem para que o tripulante que está no banco de trás corte a corda. Isso significa perder a vida do companheiro que está ali embaixo e da vítima que eventualmente esteja lá. Talvez seja por isso o nome dessa função do tripulante que está no banco de trás, nós chamamos de fiel. Então ao receber o comando de corte a corda, ele tem que cortar em 1 ou 2 segundos, no máximo.

Luciano Pires: E não vai passar na cabeça, será?

Anderson Passos: Não pode.

Luciano Pires: “Comandante, será que deu tempo…”…

Anderson Passos: Morreu todo mundo.

Luciano Pires: Foi todo mundo.

Anderson Passos: Então isso nós estamos falando de um adestramento, ou seja, tudo o que precisa ser debatido, tudo o que precisa ser discutido, já foi feito antes. A responsabilidade é do piloto, ele que está no comando, não cabe ao fiel daquele caso pensar ou de alguma forma ali ponderar qualquer situação. Mas isso quer dizer o seguinte se ele seguir ou se ele não seguir aquela orientação ele pode pagar com a própria vida, porque se ao não cortar a corda, talvez a aeronave que está em pane não consiga fazer um pouso de emergência e todos de fato morram, inclusive os que estão dependurados. Então são inúmeras situações como eu estou te mostrando aqui.

Luciano Pires: Em um caso como esse, terminado, digamos que ele cortou a corda, morreu quem estava pendurado lá e a aeronave conseguiu pousar, eu imagino que isso depois vai para uma sindicância, vai para um tribunal qualquer.

Anderson Passos: Claro.

Luciano Pires: O fiel não vai ser penalizado nunca?

Anderson Passos: É, a legislação fala que a responsabilidade por tudo acontecido é do comandante, então essa decisão ela é solitária e de fato ela exige que você decida em segundos. Então, por isso a formação ela é tão demorada, porque todos nós quando saímos de casa, acordamos, nós começamos a tomar decisões. A comparação que a gente pode fazer, é de a gente abrir o computador, eu conheço pessoas que tem várias telas trabalhando assim, 5, 6, 8 telas, fazem uma parede de telas a sua frente, e ela vai ao longo do serviço, ela vai prestando atenção em uma tela, depois em outra. Embora você tenha várias telas abertas, você está concentrada em uma ou outra naquele momento. Então, dizer para o seu cérebro qual é a tela que você tem que prestar atenção, nesse momento é o abastecimento? É a condição da vítima que é o mais importante, é a meteorologia, é o angulo de aproximação, é a fiação, por exemplo, que é um problema para a aviação? Então, lapidar essa forma de decidir em cada momento, na decolagem eu preciso prestar atenção nisso, no pouso naquilo, na triagem naquela outra informação. Então esse é um processo lento, processo que precisa ser sedimentado, então a repetição ela é importante, a constância, a exposição gradual, a observação, porque a inteligência emocional ela faz toda a diferença. Ao longo desse processo, desde que o bombeiro entra até conforme a função que ele vai desempenhar, é fundamental observar aspectos das interações que ele faz. Então, se ele for uma pessoa que é avessa a tomar decisões ou ser comandada por isso, por uma situação ou outra, ele é direcionado para algumas atividades mais burocráticas por exemplo, ou para atividades que isso não seja um conflito. Então isso vai das interações, e as equipes, elas precisam estar integradas, é impossível embarcar em uma equipe como essa estando de ombros para um colega, estando com alguma coisa mal resolvida, com desgaste pessoal.

Luciano Pires: A vida de um, está na mão de outro.

Anderson Passos: E a gente vê nos programas de televisão uma coisa que a prática nos mostra também, que as relações humanas, elas têm, elas seguem a lei da física, que é quanto mais contato, mais atrito. Então, pessoas que estão ali submetidas ao longo de um turno de serviço, ao longo de uma carreira inteira, é natural que você disputa muito mais com seu irmão do que com aquele seu primo, sua prima que você vê de vez em quando. E tem psicólogos que dizem assim, “poxa, verifica como são perfeitas as pessoas com que você não convive”.

Luciano Pires: Quem dizia isso era o Clodovil.

Anderson Passos: Clodovil também dizia isso.

Luciano Pires: Família é que nem dente, tem que ficar separado. Se juntar dá cárie. Deixa eu te perguntar uma coisa, você falou a palavra mágica no meio do caminho aí, que é Brumadinho. Evidentemente, imagino que isso deve ser um momento de virada na sua vida. Não digo que Brumadinho possa ter provocado em você mudanças na sua trajetória, mas eu acho que é um daqueles momentos em que é um impacto tão grande, que aquilo vai ficar com você para o resto da vida, aquela experiência. Quando aconteceu Brumadinho, você que está nos escutando aí, que nasceu em Júpiter e chegou na Terra o mês passado, Brumadinho foi uma barreira que caiu em Minas, era uma barreira gigante, com dejetos de mineração, aquilo vai tudo sendo acumulado, fica um lago de lama formando uma barreira e um belo dia essa barreira quebrou, veio abaixo e aquele lago de lama correu, aquilo foi uma tragédia gigantesca. Um belo dia você chega em casa de manhã, dá um beijinho na esposa e fala, “meu bem, estou indo trabalhar, estou indo para o escritório”. Ela fala, “bom trabalho, bom dia para você”. Toca a sirene e aconteceu algo em Brumadinho. Como é que foi isso cara, como é que você se envolveu nisso, por que que você foi, como foi?

Anderson Passos: Pois é, essa especificamente eu estava de férias, estava no litoral de São Paulo voltando com a família de férias. Então, nós paramos no mirante do Cristo Redentor, na subida da rodovia 040, lugar que a gente nunca tinha parado, já tínhamos passado várias vezes, resolvemos para lá. E era justamente o momento, dali a poucos minutos haveria o rompimento da barragem. Tiramos algumas fotos e tudo mais, lugar muito bonito, e quando entrei no carro novamente um amigo me liga dizendo assim, “olha, você está sabendo que houve o rompimento de uma barragem em Brumadinho?”. Falei, “não estou sabendo”. Liguei para o comandante do batalhão de desastres que era meu compadre, que inclusive havia me sucedido no comando desse batalhão. Eu era o comandante 1 ano antes, e ele disse olha, resumindo um pouco a história, “olha, aconteceu de fato, nós estamos apurando alguns detalhes, mas aconteceu, estamos vendo a gravidade disso, já tem um colega a caminho, eu estou indo para lá para saber disso”.

Luciano Pires: Você sabia onde era Brumadinho?

Anderson Passos: Sim.

Luciano Pires: Brumadinho já era um ponto de risco, que estava na antena dos bombeiros?

Anderson Passos: Olha, pois é, primeiro, Minas Gerais se chama Minas Gerais não é por outro motivo senão pelas inúmeras minerações que tem de todos os minerais que você possa imaginar. A região do quadrilátero ferrífero que a gente aprende na escola, inclui Belo Horizonte também, onde você tem ali centenas de barragens. Então, é uma área em potencial risco constantemente, porque você pode ter uma chuva torrencial, você pode ter um abalo sísmico, qualquer outra situação que pode levar a um rompimento. Já havia acontecido outros rompimentos, Mariana foi um deles em 2015, a mineração em Itabirito Herculano também nesse período. Então, em 2001 eu participei desses que eu estou lhe relatando aqui, a mineração Rio Verde também na região metropolitana. Então é uma área de muita atenção, mas as empresas claro estão ali observando, tentando manter as regras de segurança. Então essa área já era uma área conhecida por várias ocorrências, uma área na região metropolitana de BH. Então, já fui aquela área várias vezes com vários colegas, inúmeros colegas estavam ali também. Mas, eu te dizer que eu retornei para o carro, estava lá voltando de férias e seguimos viagem, porque eu estava indo a BH para renovar meu breve de pilotagem. Eu ia renovar justamente na segunda-feira, e dia 25 foi uma sexta-feira, o rompimento aconteceu na hora do almoço. Então, eu segui minha viagem para BH, já cancelei minha renovação do brevê, portanto, sabendo que aquela emergência ia demandar muita coisa, e fiquei tocando minha vida ali, isso foi na sexta-feira. No domingo à noite, eu recebi a ligação do comandante dizendo que precisava de alguém para render o comandante que estava lá naquele local. Isso me causou uma surpresa porque haviam outras pessoas com a minha mesma patente ao longo do Estado inteiro. Mas, entendo eu que por uma afinidade com o colega que estava lá, por já ter comandado aquele batalhão, por ser piloto, foram elementos que o comando botou no caldeirão para decidir e me fez esse convite impositivo. Então, fui receber essa designação e a partir dali me engajei na missão, e daí a 3 dias nós já tínhamos feito um processo de levantar as equipes, escolher a dedo cada uma das equipes, pessoa por pessoa que iria fazer a troca do primeiro turno das equipes que estavam lá. Então eles já iam trabalhar 1 semana, a minha equipe então iria substituir aquela primeira que pegou certamente a pior fase de todas né, e ali quando eu cheguei no local disse assim para o Coronel Ângelo, grande amigo e meu compadre. A minha primeira impressão, é de que já estava tudo muito bem encaminhado, já estava muito organizado, mas, eu mais uma vez me enganei. De fato, organizado estava, mas havia muita coisa ainda a ser feita, a emergência era gigantesca. Gigantesca.

Luciano Pires: Você já tinha uma dimensão da tragédia quando chegou lá? Quando você assumiu já se sabia a quantidade de gente que tinha sido atingida?

Anderson Passos: Não, não havia uma noção exata ainda, as primeiras informações foram que havia mais de mil pessoas mortas e isso é natural. Toda crise ela tem como característica riscos, é claro, incertezas, mas ela tem também falhas de comunicação. Toda crise tem isso, então isso faz parte do desastre, da tragédia, da crise, e é importante a gente saber onde tem essas falhas de comunicação, e essa não foi diferente, havia essa falha também. O número oficial são 270, no livro nós relatamos 272 vítimas, eu já explico porquê. E chegamos lá então, havia-se uma nuvem de tristeza sobre a cidade, as pessoas andando pela cidade sem saber o que fazer, desorientadas. A maior fonte de renda do município que era a empresa, estava ali com os serviços bloqueados, várias ruas e avenidas e estradas bloqueadas e mais do que qualquer coisa, centenas de desaparecidos, e uma confusão muito grande.

Luciano Pires: Só para a gente lembrar um pouquinho, me fala um pouco da dinâmica desse… A barreira cai e desce um tsunami de lama, pedra, lama vai embora, ela atinge no meio do caminho pousadas e algumas áreas que tinham ali, chega até a cidade, invade uma parte da cidade ou não?

Anderson Passos: Na realidade ela invadiu uma parte, um bairro rural da cidade, mas na área rural, mas um bairro urbanizado. Então quando aconteceu o rompimento, instantaneamente haviam pessoas trabalhando sobre a barragem inclusive. Elas foram então engolfadas por aquilo instantaneamente. Várias áreas administrativas da empresa estavam logo abaixo, então em poucos segundos o refeitório foi atingido com pessoas almoçando lá. O rompimento foi meio dia e 28. Então as pessoas foram atingidas subitamente, sem nenhum tipo de aviso, alarme ou coisa parecida, escritórios como eu disse, a rodoviária, tamanha a complexidade daquela empresa, havia uma estação rodoviária própria, almoxarifado, estrutura de todo tipo que você possa imaginar foram atingidas ali. Uma pousada foi atingida, ela literalmente sumiu do mapa, você não encontrava vestígio qualquer de onde havia. A lama, foram 10 milhões de metros cúbicos, ela deixou deposição de rejeitos alguns pontos que foram medidos em 16 metros. 16 metros é coisa de 5 andares, mais ou menos. Então, é muita lama, numa velocidade que superou 100 quilômetros por hora, e em poucos minutos a distância de 10 quilômetros que foi entre a barragem e o rio Paraopeba, foi alcançado esse tsunami. Ondas assim com dezenas de metros de altura em alguns pontos que foi arrasando tudo, levando telhado das casas, levando paredes, levando a fundação, levando locomotivas, arrastando locomotivas como se fossem bolinhas de papel.

Luciano Pires: Tem um vídeo que mostra esse momento aí, eu vou lembrar depois de colocar nesse nosso bate-papo aqui, no Portal Café Brasil, eu vou colocar o vídeo ali. Isso significa que mesmo que tivesse uma sirene, alguma coisa assim, não daria tempo de reação da pessoa se…

Anderson Passos: É, existe, a legislação de barragens ela fala de uma zona de auto salvamento. Então é aquela área onde as pessoas precisam estar aptas para se safarem. E esse é o desafio, as pessoas precisam estar treinadas, elas precisam estar informadas, elas precisam ser alertadas com a maior antecedência possível do que fazer. Aí entra novamente aquela questão que a gente falou de frente ao estresse, inédito, e muito agudo, a reação das pessoas. Então, o tempo de reação conta muito. Nós conversamos com pessoas, com um rapaz especificamente que ao ouvir um barulho, sentir o chão tremer e perceber alguma movimentação diferente, ele estava no refeitório, se levantou, saiu pela porta da emergência, seguiu a rota de fuga já pré-determinada, foi para uma área segura e ali ele se safou, se livrou de ser atingido. Mas muitas pessoas foram pegas de surpresa de fato, em condições que não tinham tempo de reação. Então, um bairro rural foi atingido com ruas, então nós tínhamos lá dezenas de situações emergenciais simultaneamente acontecendo. Então áreas industriais por exemplo, com pessoas presas, áreas urbanas, e pior, ao longo dos primeiros dias com chance de vida. Então a pressão para a tomada de decisões é muito grande. Aonde fazer a escavação, aonde buscar? Num ambiente que tinham 4 milhões de metros quadrados, são 400 quarteirões. Imagina uma cidade, o que isso representa, uma área muito grande. Mas, se você escavar, por exemplo quando você vê terremotos, se você escava onde ficava ali o banheiro, você pode ter sucesso. Se você escava na sala de TV, pode não ter sucesso. E outra, as estruturas foram arrastadas, então como eu disse, locomotivas de 10 toneladas de combustível mais o seu peso próprio, elas foram arrastadas por 3, 4 quilômetros. Você imagina o que isso fez com os corpos, uma coisa muito agressiva. Então, a forma com que essa ocorrência foi se desenvolvendo, a criação de protocolos foram sendo feitos como toda a emergência requer, entender a emergência durante o acontecimento e milhares de pessoas contribuindo com informações, todo mundo precisando ficar atento para saber a confiabilidade daquela informação, quais eram os interesses de pessoas que estavam ali, com interesse até escuso, havia informações falsas de pessoas ali dizendo, “olha, eu perdi meu pai, minha mãe, meus filhos, meu marido, e isso era falso. As pessoas buscando, dezenas de pessoas que davam notícias falsas buscando algum tipo de reparação, pretendendo algum tipo de reparação. Então, um ambiente caótico de fato, em que eu acho que prevaleceram ali trabalho em equipe, pessoas se dedicando muito aquilo que fizeram, com a rotina de trabalho, de sono mínima, turnos que começavam as 5 da manhã, passavam da meia noite nos primeiros dias, porque poderia haver pessoas soterradas precisando de socorro. Então, eu fui 1 das dezenas ou centenas de bombeiros que dormiam com o colchão lançado no chão, colchonete. Mas havia hotel disponível, havia colchoes confortáveis, banho quente, um conforto muito maior, mas naqueles primeiros dias era necessário que esse tipo de procedimento fosse tomado, então dormíamos no chão para estarmos próximos da equipe. Para que ela entendesse que aquela emergência era relevante de fato e para que a gente não perdesse tempo indo e voltando para o hotel, ganhávamos ali 3 horas. E sabemos nós que poucos minutos de alguém que pudesse estar soterrado faria a diferença na vida delas. Então, eu pude presenciar inúmeras situações em que a gente pode dizer assim, com muita satisfação, exemplo de brasileiros lá, não só bombeiros, mas voluntários, familiares, que tinham aquilo em mente. Olha, o conhecimento sem amor não vale nada, ele é uma arma. Então, praticar isso é muito difícil, né? E a gente quando está num momento de muita pujança, quando o ambiente é favorável, é fácil a gente ser corajoso, tomar decisões, ser valente ou coisa parecida. Quando eu falo isso em relação ao casamento, então quando a gente está bonito, magro, o chefe está elogiando, o salário está em dia, as contas estão em dia, é fácil gostar da gente. Eu quero desafio o contrário, quando o sujeito está ali acima do peso, o desodorante já está vencido, as contas não estão em dia.

Luciano Pires: É muito fácil você conduzir o barco na calmaria. Na tempestade é que o bicho…

Anderson Passos: A liderança vai ser testada na tormenta, né?

Luciano Pires: Deixa eu te perguntar uma coisa, o protocolo que vocês têm numa situação como essa, porque eu imagino que um acidente como esse não é algo replicável, vamos replicar para um treinamento. Isso não dá, não tem como replicar aquela loucura toda lá. E quando chega aquilo, é uma situação nova para todo mundo. Por mais que eles tenham estudado, tudo, eu imagino que deva ter alguma projeção pronta, olha, se um belo dia quebrar, ou cair, é por aqui que vai correr o detrito, esse é o caminho que ele vai. E vocês quando chegam lá e dão de cara com aquilo, vocês têm algum protocolo que determine o seguinte, olha, é na periferia que nós vamos encontrar as pessoas, não adianta perder tempo cavando aqui no núcleo central, nem perde tempo no restaurante que está embaixo de 16 metros, vamos lá na beiradinha que é onde deve estar quem sobreviveu, tem todo um jogo desse? Tem especialistas para isso?

Anderson Passos: Pois é, lamentavelmente Minas Gerais, a especialidade foi nascendo à custa dos funerais, infelizmente. O histórico de desastre envolvendo esse tipo de estrutura, ela vai sendo aprendida a cada acontecimento. E muitas das coisas que a gente aprendeu nas anteriores foram aplicadas nesse último que foi Brumadinho, um deles a gente percebeu que a nossa lógica de tentar buscar como você falou, não se aplicava. Ou seja, o comportamento da lama ele foi diferente nas várias emergências. Então, ter informações era uma atitude compulsiva de todos nós para captar informações. Olha, o que que foi encontrado? Foi encontrado uma carteira. De quem que é, onde que foi, localização, foto, o que tem de informação? Encontramos um boné, lamentavelmente corpos, segmentos corporais se é que você entende o que eu estou dizendo, um eufemismo para dizer que são partes de um corpo.

Luciano Pires: Sim, porque aquilo ia desmanchar.

Anderson Passos: É uma onda muito agressiva, claro. Então essa coleta de informações é um assunto um pouco mórbido, mas eu acho necessário porque mais mórbido que isso foi o acontecido. Então, captar esses dados para que isso fosse trabalhado em tempo real, enquanto uns estavam lá na lama fazendo o que se precisa fazer ali, coletando materiais, tentando fazer os salvamentos, outros recebendo as informações e tentando entender como aquela lama funcionou. Como foi esse, não os outros, esse. E foram várias diferenças importantes. Acho que um método dessa operação foi esse, das 272 vítimas, 269 foram identificadas, restam 3. Até onde nós temos conhecimento, é numericamente a operação mais exitosa do mundo, de longe é a maior operação do Brasil em termos de duração, de envolvimento de bombeiros, uma série de recordes que não nos trazem nenhum tipo de alegria, é um tipo de registro que eu diria desconfortável, mas ele é real.

Luciano Pires: Repete para mim o número que você falou.

Anderson Passos: São 272 pessoas, que são 270 oficialmente, mas os 2 bebes, os 2 fetos nas barrigas das duas grávidas que estavam lá, que oficialmente não entram. Então, oficialmente são 270. Nós consideramos 272. 269 já foram identificadas, restam, portanto 3 a serem identificadas.

Luciano Pires: Essas 3, quando você fala em ser identificada é o seguinte, não há traço delas, não é que existe uma ossada, um pedaço de corpo em algum lugar e precisamos saber quem é. É zero?

Anderson Passos: Existem segmentos que ainda estão em processo de identificação, porque a contaminação pelo minério, uma série de coisas, o próprio tamanho da amostra, se é que você entende, muitos segmentos foram muito pequenos. Então, o IML desde então, eu não vou dar detalhes técnicos que isso me foge do que eu alcanço tecnicamente falando, eles permanecem fazendo tentativas para extrair o DNA para fazer aquele tipo de verificação. E ainda hoje, depois das várias estratégias que já foram montadas e as estratégias foram sendo mudadas ao longo do tempo, a estratégia hoje montada são grandes máquinas que estão montadas lá, que estão peneirando material, o que é biológico vai para uma via, o que não é biológico vai para outra. Tudo o que for biológico, vai sendo enviado para o IML. Então, existe uma firme possibilidade de que essas 3 pessoas ainda não identificadas de fato sejam, porque para as famílias inicialmente elas estavam ávidas como qualquer um de nós estaria, por encontrar o seu parente vivo, são, sem nenhum arranhão. Lamentavelmente, ao longo de poucos dias, a busca já era por corpos. Mas adiante ainda, tornou-se uma busca agônica, uma busca sem fim, por encontrar ao menos algum segmento, para que as pessoas pudessem dar um fim digno ao seu parente. Dessas 272 pessoas que perderam a vida, que os familiares chamam de joias, restam então 3 joias a serem minimamente identificadas.

Luciano Pires: Continua tendo o trabalho lá então?

Anderson Passos: Sim.

Luciano Pires: Se eu entendi o que você falou, os caras estão peneirando 400 quarteirões?

Anderson Passos: Sim, é, uma parte disso já foi feito, mas é um trabalho que vai demandar muito tempo. Então as estratégias foram sendo mudadas ao longo da operação. Então, qual que foi a primeira, você perguntou dos protocolos, qual foi a primeira providencia quando você chega num ambiente como esse? Cada um faz o que sabe fazer de melhor. E faz pensando que o que ele tem que fazer é o melhor para a maioria. Então o atendimento a uma crise, a um desastre, se eu sou, fora da minha profissão, se eu sou lá um carpinteiro, e é isso que eu sei fazer, eu tenho que ver no que que aquela minha habilidade melhor serve para ajudar as pessoas. Então, a estratégia que nós utilizamos foi de saturar o ambiente. Então foram centenas de bombeiros que estavam pela área, verificando ao longo desses 400 quarteirões, percorrendo infinitamente para verificar tudo que podia ser feito de salvamento. Nas primeiras 24 horas, foram salvas 192 pessoas com vida. Ou seja, esses números que são tristes e impressionantes, lamentáveis, poderiam ainda ser maiores, mais vítimas perdidas. Então, o tempo de resposta é importante, a organização ela já precisa estar minimamente feita, ou seja, uma corporação de emergência tem que ter ali a sua organização para uma emergência maior, modulada de alguma forma. Mas, todas as corporações, todas as empresas elas estão sujeitas a crises. É importante saber, treinar, capacitar, sensibilizar como as coisas devem ocorrer durante as crises. É necessário que o fluxo de informações ele seja ajustado para o tempo da emergência. Então se uma empresa consegue comprar uma garrafa de água em 1 semana para repor o estoque, a emergência não permite aquilo, ela exige que você compre aquela água em 2 horas.

Luciano Pires: Pelo preço que tiver sendo vendido.

Anderson Passos: Pelo preço que tiver. Aí entra tudo isso. Então, as pessoas têm que ter mais autonomia para tomar decisões, então todo esse tipo de ajuste precisa ser feito para que a emergência de o time das decisões, decisão tardia não serve, decisão imatura não serve, decisão que não está sedimentada, embasada na vivencia também não serve.

Luciano Pires: E eu imagino os tipos de pressão que vocês estão sofrendo naquele momento, porque você tem a pressão dos familiares, e ali não tem lógica.

Anderson Passos: Ao vivo, estavam lá.

Luciano Pires: E não é uma discussão lógica na hora. Você pode vir com a explicação que você quiser, para alguém que perdeu alguém não tem explicação, é uma demanda gigante. Você tem uma pressão política, que está acontecendo ali. Você tem a pressão de vocês como profissionais, com a vida a risco, tem a pressão da sociedade como um todo pressionando, tem a pressão da dona da área que tem o maior interesse que aquilo seja resolvido da forma mais rápida possível.

Anderson Passos: Um gigante econômico.

Luciano Pires: Tem a pressão da mídia, que deve estar desesperada para contar histórias malucas lá, então você tem que estar lidando com aquilo com alguém comandando essa demanda toda.

Anderson Passos: E olha que coisa que não pode escapar para a sociedade. Se você num ambiente como esse, você converge muita gente. Então, nessa situação, foi dia 25 de janeiro de um novo governo, tanto em Minas Gerais com o governador que não era político antes, não tinha vivencia com as atividades públicas, ele estava há 24 dias no governo. E um presidente também novo que não tinha essa vivencia. Então, isso em várias esferas, era um novo ciclo político. Então, as pessoas estavam ali surpreendidas, estavam ali numa condição de terem sido pegas de calças na mão, para resolver situações muito além que qualquer um podia ter previsto, porque o desastre anterior, ele já nos pareceu insuperável, e esse foi lamentavelmente muito além. A quantidade de vítimas foi gigantesca, um dano ambiental embora grande, menor do que os anteriores, mas a dimensão humana foi muito impactante. E todas as pessoas que iam lá, do presidente da república até o funcionário mais simples, de qualquer poder, então generais, diretores de todas as empresas envolvidas nisso, empresa de água, gás, combustível, órgãos ambientais, órgãos policiais, toda a alta cúpula esteve lá. E se você perguntar para cada um deles qual é a prioridade, a resposta não será outra do que a sua própria área. Estabelecer a prioridade nesse momento, é uma tarefa difícil, em que todos estão ali inflamados, a polícia precisa coletar dados para poder fazer os seus trabalhos, a empresa de água quer restabelecer tubulações que podem estar faltando aos seus consumidores, e há questões de saúde envolvidas nisso. Reparação de instalação elétrica, de telefone, tudo isso caiu por terra. E é comum nos desastres, seja terremoto, furacão, o que seja, estabelecer prioridades é um desafio, e tem um componente político extremamente desgastante envolvido nisso tudo. Então a forma de organizar um ambiente de caos, de tragédia, ela exige tomada de decisão, e a impressão que eu tenho é que quando as decisões são tomadas com firmeza, com assertividade, mas com clareza, com transparência, elas, se você vai criando um ambiente para que as pessoas ajam da mesma forma. Então, qual era a prioridade? Vida humana. Vida animal, meio ambiente, e paralelamente outras coisas iam acontecendo e as prioridades variam, pela manhã havia uma prioridade, levar as equipes para fazer a busca. Ao meio dia, levar alimento para elas. Um outro momento, você tinha lá um helicóptero, uma outra atividade, um outro recurso, utilizado por exemplo para fazer fiscalizações de fiação elétrica, outro para fazer uma avaliação em uma barragem que estava lá também deteriorada. Então a minha função lá não foi de pilotar, fiquei envolvido na coordenação das tarefas, e pude ver um esforço do Brasil inteiro, o nosso país é um país de gente muito solidária, de pessoas tentando ajudar, mas é preciso saber que só a rusticidade e boa vontade não são suficientes. Porque você precisa ter a energia colocada com vigor, mas de forma controlada. Eu arrisco ir até para a área do marketing, que tem a capacidade de sintetizar coisas, uma propaganda de pneus falar o seguinte, olha, potência não é nada sem controle. Então é necessário que as pessoas que vão para um ambiente como esse, ela se coloque ali, “olha, o que você precisa que eu faça?”. E não o que eu quero fazer. Eu vi lá médicos varrendo os espaços onde nós trabalhávamos, eu vi arquitetos por exemplo amolando ferramentas, eu vi pastores de igreja carregando peso, servindo as pessoas.

Luciano Pires: Contribuindo de alguma forma lá.

Anderson Passos: Da forma necessária.

Luciano Pires: Eu tenho uma palestra minha sobre liderança, que eu coloco que o que faz a liderança é o contexto, não é o líder em si. Então tem esse momento que o líder sou eu, mas de repente muda-se o contexto completamente e o líder vai ser o cara que era o terceiro, quarto, quinto escalão, porque ele é o cara que sabe do que se passa naquele momento. E cabe a mim então como líder máximo ter a humildade de falar, agora quem conduz a bola é ele que é muito melhor que eu. Então, eu imagino que um ambiente como aquele onde tudo é novo… Deixa eu perguntar uma coisa também que está me deixando curioso aqui. Esse pessoal que foi designado para trabalhar lá, a equipe que estava com você, as equipes, imagino levas de equipes que foram sendo substituídas aí. Tem um trabalho feito com esse povo depois desse processo, quando eles saem de lá e passaram pela aquela angústia de não encontrar a pessoa viva, ou encontrar parte de uma pessoa, identificar, ter que contar para a família. Cara, isso deve ser um pesadelo, e ninguém sai inteiro em uma situação como essa, né?

Anderson Passos: Isso, ninguém sai.

Luciano Pires: Tem um trabalho feito com eles depois?

Anderson Passos: Olha, não há preparação que de conta de uma situação dessa, falo por mim mesmo trazendo as cicatrizes que trago no corpo e na alma, e no coração a respeito do que foi passado lá. Foi uma operação, até pela duração da operação, ela foi trazendo coisas que a gente até então não conhecia, porque normalmente você tem uma emergência de bombeiros, um incêndio, um acidente automobilístico, um transporte de paciente, transporte de órgãos, coisa assim, que você tem contato com as pessoas durante poucas horas. Às vezes, durante poucos dias, raramente durante algumas semanas. Só que lá ela foi se estendendo. Nós então fomos transformando ou o ambiente foi fazendo com que aquele número frio de 272 vítimas que perderam a vida, esse número foi levando nome, depois ganhou sobrenome, depois ganhou foto, depois ganhou história. Em muito pouco tempo Luciano, nós estávamos lá procurando 272 amigos que a gente nunca conheceu, e as cobranças eram feitas pelas famílias com todo o vigor que você possa imaginar e com toda razão, ninguém é treinado para ser vítima. Você é treinado para resgatar, para operar, né, o médico, essas coisas todas. Mas ninguém, as pessoas chegam lá com os nervos e as emoções à flor da pele de forma justa, de forma legítima, com cobranças terríveis. E um outro elemento que foi para esse caldeirão, um outro tempero, foi que as pessoas, mostrar para as famílias, que aquele arfam de colocar todos os recursos e suplementa-los infinitamente não era o que a emergência necessitava. Nós precisávamos fazer as buscas de uma forma cautelosa, de uma forma técnica, não para ficar livre do problema, mas para fazer com qualidade. Arrisco dizer que isso também é um dos aspectos que tornou esta ocorrência muito emblemática no sentido de ter um sucesso grande, né? Todo o material que estava sendo revolvido era observado, nós tínhamos cão de busca, vários, melhores, aliás todos os cães do Brasil nós utilizamos lá, e prestaram um trabalho sensacional a quem nós devemos total deferência aos bombeiros de 4 patas, os cães de busca. Então convencer as famílias de que o que estava sendo feito era a melhor opção, as opões eram as melhores possíveis, né? Eu digo para mim que vivi boas ou instigantes experiências inesquecíveis até da minha carreira, mas nem de longe alguma delas se compara com a véspera da primeira reunião com as famílias. Poucas semanas depois as famílias nos procuraram, olha, precisamos saber o que que vocês estão fazendo, porque havia uma difusão de informações, de providencias, as famílias não estavam, claro, não estavam ainda se organizando, não estavam organizadas, e quando isso aconteceu foi feito uma reunião. E era a minha semana, coube a mim passar as informações para as famílias.

Luciano Pires: Eles fizeram uma associação das vítimas e Brumadinho.

Anderson Passos: É, mas antes disso houve uma associação informal, as pessoas se organizaram, foram aos órgãos públicos, Ministério Público e tudo mais, e rapidamente a gente organizou para passar essa informação. E olha, eu fui um dos que ao sair dessa reunião, indiquei que um colega que eu vi que estava muito abalado já fosse direto ao psicólogo, ao atendimento emocional, eu fui mais tarde. Então esse acompanhamento, ele existia, nós pedimos que ele estivesse lá, a presença de psicólogos, para que as pessoas pudessem botar para fora ali aquelas questões todas, e a instituição mantem um quadro de profissionais de saúde que faz o acompanhamento clínico de exames, de tudo mais.

Luciano Pires: Você fez acompanhamento com psicólogo?

Anderson Passos: Fiz, fiz.

Luciano Pires: Porque o psicólogo não consegue fazer você “desver” o que você viu, “desviver” o que você viveu, não tem como cara, aquilo nunca vai ser apagado da sua mente. E eu estou pensando na consequência. Outro dia eu coloquei no ar um programa, não me lembro se foi um programa ou um PodSumário, em que eu falava de uma pesquisa que foi feita com grandes acontecimentos desse tipo, tragédias e tudo mais, e os caras eles simularam um ataque nuclear nos Estados Unidos, com um hospital onde vários médicos, especialmente os que eram psicólogos, não sabiam que aquilo era um treinamento. Eles entraram de repente, começou uma loucura, começou a chegar vítima de radioatividade e tudo mais, e os caras estavam fazendo um grande experimento social para entender como é que a dinâmica funcionava. E eles terminaram aquilo dizendo o seguinte, que eram 80% das vítimas, são vítimas de psicólogo, não são, nenhuma delas sentiu na carne, mas o impacto daquilo botou todo mundo doente mentalmente, porque é assim que age o terrorista, o terrorista mata um, mas afeta milhões.

Anderson Passos: Isso causa o colapso da estrutura de assistência. Então, se o médico, o recepcionista do hospital ele está abalado, aquela estrutura que deveria dar a resposta ela está fragilizada.

Luciano Pires: Sim.

Anderson Passos: Então, é importante, por isso que é importante que a pessoa, o profissional que possa estar exposto a esse tipo de situação, ele seja gradualmente treinado para que, olha, eu já vi isso acontecer, no miminho já ouvi falar. Então, me disseram que era para fazer isso ou aquilo, temos relato de pessoas que o médico por exemplo que fez o treinamento de um sistema de comando em operações, é uma história relatada no livro. Ele fala, poxa, fizeram um simulado lá no interior de Minas, com 70 vítimas. Mas nunca, uma explosão de um shopping, incêndio em um shopping salvo engano, ele tinha feito o curso coisa de 2 meses antes. Ele aplicou tudo e mais 5 vezes aquilo que ele tinha treinado, aprendido ali, numa questão real muito mais ampla. Então, mas ele relata em primeira pessoa, olha, isso valeu é claro, o treinamento, porque é mudança de comportamento, as pessoas têm que entender. E o ambiente como esse, você pode imaginar a quantidade de câmeras ligadas que estavam lá, a pressão grande.

Luciano Pires: Exatamente a pergunta que eu ia fazer agora a você. A gente quando assiste filme na televisão, no cinema, Netflix e tudo mais, não é raro acontecer um crime, acontecer alguma coisa, chega lá um delegado, um mocinho, alguma coisa assim, e a primeira providência é tire os jornalistas daqui, entendeu? Tira, afasta, não quero câmeras, quero todo mundo longe daqui, porque essa intromissão desses olhos do jornalista, da pergunta que não tem cabimento naquela hora e que vai te desconcentrar, vai tirar você, pô, estou numa linha focado aqui e o cara vem com uma pergunta que não tem nada a ver e você acaba afetando, vai para a sociedade embalado de uma forma que talvez não seja a forma que interesse. E eu me lembro de uma vez, aconteceu uma vez aqui no brasil, lembra quando aquele garoto, acho que era Eloá o nome da menina, aquele garoto que pegou e fez ela de refém e depois o pessoal descobriu que a televisão estava ligada, então o que os comentaristas falavam ele via ali. Isso foi um caso. Outro caso foi lá em Munique 73, em que de repente o cara descobriu que estava transmitindo e os terroristas assistindo a transmissão e eles aproveitaram aquilo para tirar a vantagem deles. Não é o caso ali que você viveu, mas sempre tem esse tipo de interferência que acaba arrastando a sua imagem pessoal para a sociedade. Quem é esse cara? Esse cara é aquele bombeiro desalmado, sem alma, que quando eu precisava ele foi ríspido comigo, e ninguém quer saber o que que está rolando na hora lá. Exigem de você talvez até um grau de humanidade que você não pode nem exercer, porque se você for humano naquele momento como deveria ser, você está detonando toda uma estrutura. Deixa eu só complementar com um case que eu já contei uma vez aqui e vou contar de novo. Eu fui uma vez com meu sogro há muitos anos atrás assistir um Corinthians e Flamengo no Morumbi.

Anderson Passos: Isso que é emoção.

Luciano Pires: Esperto, com meu sogro, o que que eu fiz? Eu comprei cadeira numerada, falei pô, estou indo com o “véio”, eu vou de cadeira numerada para garantir que não vai ter nenhum problema. E fui, cheguei um pouquinho tarde, devia ter chegado muito antes. Cheguei um pouquinho tarde, estava uma muvuca no estádio, aquele negócio pavoroso, e no meio daquela bagunça toda eu consegui chegar até o portão que era um portão gradeado, passando o portão eram as cadeiras numeradas. Eu com ingresso, e na minha frente um PM tomando conta do portão, e eu falava com ele, ele nem me olhava, ele não me ouvia, ele não me olhava, ele não fez, impassível. E eu mostrando, aqui, eu tenho ingresso, ele nada. E eu fiquei puto com aquilo, eu aqui com educação tentando falar com esse cara, esse ogro não me ouve. Depois que eu parei para ver a situação, eu falei, cara, se ele abrir esse portão para eu entrar, atrás de mim vão entrar 150 malucos que estão aqui pressionando e ele não pode agir de outra maneira. Se ele fosse cuidadoso ou carinhoso comigo, ele vai ser atropelado. Então, nesse momento ele tem que ser essa máquina insana que está lá, que não tem sentimentos, para cuidar da integridade de um todo. Senão, ia ser um desastre aquilo. Imagino que com vocês deva ser parecido.

Anderson Passos: Assim, havia uma estrutura já, como eu disse, previamente organizada, então havia um porta voz. Essa função então é de pegar informações operacionais e poder traduzi-las para entregar ali a informação adequada, porque havia muita informação errada. As fake news elas começaram já nas primeiras horas após o rompimento com vídeos falsos, as pessoas simulando outros rompimentos, uma série de coisas terríveis. Então, aparecerão nos desastres, nas crises, pessoal mal-intencionadas também, os canalhas eles estarão presentes nas tragédias, nas crises. É importante a gente identifica-los, saber que isso vai acontecer. Mas, me chamou atenção Luciano, que ambientes como esse, com muitas câmeras ligadas, no mundo hoje que é bastante ingênuo e as pessoas tendem a ficar buscando likes, seguidores e coisas parecidas, que muita gente aparecia lá com muita razão para tudo, sabe? Querendo, olha, eu resolvo, eu sei, você fala uma coisa ele sabe outras 10 melhores das que você sabe. Se fosse fala, eu sou graduado em alguma coisa, eu sou advogado. Não, eu tenho doutorado, eu já fui ao Everest, eu já fui 8 vezes.

Luciano Pires: Isso está me parecendo os especialistas de pandemia que surgiram para todo lado. Todo mundo sabia, todo mundo…

Anderson Passos: Exato, e as vezes as pessoas, o problema é quando a pessoa tem autoridade. Então, autoridade ou de um diretor de uma empresa, ou de um órgão publico qualquer. Então a pessoa chega ali com um afã e com poder de decisão, isso é catastrófico. Então, algumas dessas pessoas nós identificamos, e houve uma inteligência coletiva de segregar essas pessoas para que as tomadas de decisões delas não impactassem num todo. Então as pessoas chegavam lá, chegavam batendo no peito, e você reconhece fácil essas pessoas porque elas têm um comportamento, eu que sou bombeiro vou fazer uma comparação com incêndio. Então a pessoa chega como se ela fosse uma grande fogueira, ela brilha muito, ela emite uma luz muito intensa, e ela quer que todos os olhares fiquem ali por ela. Até nas coisas negativas que você fala, ela vai te dar um exemplo que ela tem uma coisa mais surpreendente. Se você disser assim, olha, eu fiquei resfriado anteontem. Ele fala, não foi nada, eu peguei uma gripe, uma pneumonia, fiquei 3 meses internado. Então ela quer atenção para si, e ela é feito uma fogueira, mas uma fogueira em um ambiente como esse, ela chega um momento que ela começa a produzir uma luz que incomoda todo mundo, produz uma fumaça que rapidamente vai intoxicar todo mundo, vai matar. Chega uma hora que você não consegue olhar para aquela figueira. Imagina uma sala cheia de gente com uma fogueira ali. E as pessoas se organizam para dar cabo daquela fogueira, para apagar aquela fogueira. Antes que isso aconteça, é importante tirar essa luz intensa dali, para não matar todo mundo. A figura que a gente usa para explicar como a contribuição é bem-vinda, é o contrário, é todo mundo brilhar como uma vela. Se cada um for uma vela, uma vela é maior, outra menor, uma se apaga e outra continua acesa, você pode passar a chama de uma vela para outra. Se uma vela cair, ela não causa um prejuízo muito grande, você tem outra sustentando. Qual que é a metáfora disso? É cada um ter o seu conhecimento, a sua própria luz brilhando um pouquinho, porque ninguém comanda grandes crises sozinho, isso é uma tolice, chega a ser uma injustiça com os colegas, uma deslealdade. E para reforçar esse conceito, tem um livro famoso escrito há milhares de anos já, há muitas mãos, ele fala que em um ambiente escuro, quando você tem uma vela, ela não deve ser colocada embaixo de uma mesa, ela tem que ser colocada no alto para que aquela vela produza um milagre, de que uma pequena parcela de luz, ela debela…

Luciano Pires: A escuridão.

Anderson Passos: Vou falar de novo. Existe um livro muito famoso, o livro mais lido de toda a história da humanidade, que traz um exemplo muito interessante. Ele diz que uma vela quando ela está em um ambiente escuro, ela não deve ser colocada debaixo da mesa, ela tem que ser colocada no alto, onde ela possa produzir o seu milagre, em que uma pequena parcela de luz debela uma grande parcela de escuridão. Cada um tem que saber como que ele vai ajudar naquele ambiente. Essa iluminação que as velas produzem é muito mais agradável ao olhar e isso contribuiu mais para que aquele ambiente se torne mais favorável a que outras velas apareçam.

Luciano Pires: E essa lição sua aí, as vezes pode significar o seguinte, eu não devo nem me meter lá, eu não tenho nem que ir lá cara.

Anderson Passos: Exato.

Luciano Pires: Eu não tenho que abrir minha boca, eu não tenho que falar a respeito, eu não tenho que dar opinião, não tem que ir lá, eu tenho que dar um jeito de suportar quem está lá na frente tomando a pancada e sentindo. Brumadinho foi o grande case da sua vida?

Anderson Passos: Certeza, certeza, sim, tudo de maneira superlativa, número sem precedentes, uma dedicação muito grande de muita gente. Eu insisto em destacar que eu não fiz nada diferente que os meus colegas fizeram, pessoas lá se colocaram em riscos muito maiores do que eu me dispus inclusive, mas eu entendo que cada um fez aquilo que podia fazer, de forma muito aguerrida, de muita dedicação.

Luciano Pires: Quer dizer, em 30 anos de carreira, o pior incidente era aquele que estava por vir ainda?

Anderson Passos: É.

Luciano Pires: Talvez o próximo seja pior que esse aí.

Anderson Passos: Infelizmente.

Luciano Pires: A gente tem até explicações para isso, né? O mundo está muito mais denso, as pessoas estão vivendo em áreas muito mais arriscadas, então o rio transborda e cada vez é pior, porque tem muito mais gente lá perto. E a tecnologia sozinha ela ajuda, mas ela não… em uma hora como essa aí, o que que eu tenho? Eu tenho armas que vão me ajudar a resgatar corpos, mas elas não foram suficientes para salvar vidas. Não teve o alarme, não teve a detecção, não teve… tá bom, vamos discutir que teve falhas humanas, teve incompetência, teve todo tipo de [dilação] você pode fazer aqui agora. Mas, tem que estar lá, tem que vestir o sapato dos caras lá para entender o tamanho da encrenca. Qual é a lição que você tira para a sociedade depois de um… é muito fácil eu falar, tem que mudar a legislação, tem botar gente na cadeia. Cara, isso não resolve, isso não vai impedir que o próximo problema aconteça, porque eu acho que o problema está além da lei, ele está muito além da lei. Ele tem muito a ver com realmente a pessoa saber o que está fazendo, na hora que ela bater o olho falar cara, espera um pouquinho, eu não vou parar aqui agora, porque se eu não estiver um pouquinho a mais isso pode juntar com outro problema e pode dar uma coisa muito maior. De tudo que você viu lá, qual é a lição que fica para nós como sociedade?

Anderson Passos: Uai, eu penso que, como um bom mineiro eu começo falando uai, né? Uai. Eu acho que a gente observou que esses desastres tecnológicos como você disse, eles são de fato cada vez mais danosos, né? Então, se você olhar lá na Amazônia, lá chovem 200 milímetros só em um dia e não acontece nada, porque lá não tem ninguém morando ali. Mas 200 milímetros em São Paulo, arrasa muita coisa, que o terreno é todo impermeabilizado, essa coisa toda. Então os desastres tendem nesse tipo de coisa aí, a se repetir, infelizmente com mais gravidade e tudo mais. Então a tecnologia ela precisa ser vista com muita responsabilidade, planejamento urbano, como as nossas cidades são construídas, nosso ambiente, como as coisas são postas, porque quem está na ponta do problema lá ele sofre duas pressões. No caso aí dessa mineração, eles sofrem o risco de não ter a mineração e perder o emprego, ou estar na mineração e acabar sendo atingido se alguma coisa falhar. As duas barragens que a gente viu mais recentemente, elas eram consideradas seguras. Então, essa calibração, essa régua de risco, ela mais uma vez ela não pode ser calibrada apenas as custas dos funerais. É importante que a gente tenha uma visão humanizada, entender que existe um curso social, existe um custo humano envolvido nisso. Sociedade, ela lamentavelmente ela demonstra muita humanidade nas tragédias, a gente precisaria buscar um mundo perfeito em que a gente pudesse prevenir situações como essa, entendendo que a sua família poderia estar ali. E não são soluções malucas, é o básico, entender, olha, podia ser a minha família ali. Eu não colocaria minha casa, não deixaria aquela barragem ali daquele jeito, como várias outras situações que a gente vê né? Loteamentos que são abetos em áreas que são inundadas.

Luciano Pires: Prédio construído com areia de praia.

Anderson Passos: Isso. Esse tipo de coisa, então assim, o básico precisa ser bem feito, e eu acredito que a gente tem que ter gentileza, tem que ter empatia. Eu acho que talvez um grande resumo de tudo seja assim, a gente precisa ter empatia não só nas tragédias, empatia com civilidade, empatia não jogar lixo no chão, começa disso. Mas, começa em casa, né? Eu acredito muito que os valores familiares, eles têm potencial retumbante de mudar a sociedade, ter o convívio familiar de qualidade, é uma busca incessante.

Luciano Pires: É ter um grau de exigência que a gente desaprendeu a ter, o Brasil não tem mais isso. Aqui é o seguinte, deu para o gasto e está valendo. “Cara isso pode quebrar”. “Dá para o gasto, tá valendo”. “Olha o risco”. “Tá valendo”. Cara, isso aí gerou um livro, né?

Anderson Passos: Gerou um livro, exato.

Luciano Pires: Você está com o livro aqui na minha frente, estou vendo ele aqui, chama-se Brumadinho 272, é um livro independente, lançado pela 11 Letras, é isso?

Anderson Passos: Exato.

Luciano Pires: E escrito por Anderson Passos, que está conversando conosco, e a Luciana Quierati. Relato de um comandante dos bombeiros sobre as buscas e as vidas impactadas pelo desastre da barragem. Por que fazer um livro sobre isso aqui, me dê uma resposta que não seja, para o meu legado.

Anderson Passos: Muito bem.

Luciano Pires: Por que fazer um livro sobre isso?

Anderson Passos: Bom, tem que ter algumas explicações, eu posso te dar 2 delas. Alguém mais inteligente, mais inspirado que o nome falha agora, falou que as palavras elas, a gente tem algumas opções para fazer com elas. Ou a gente guarda e elas podem nos sufocar, ou a gente fala e as podem nos libertar de muitas coisas, ou escreve, que aí ficam de fato com um registro. A ideia aqui é a gente registrar as inúmeras coisas que a gente viu, que a gente ouviu e que eram muito impactantes e que não podiam ficar de fato sem serem registradas. Daqui a muito pouco tempo, tudo que aconteceu será esquecido, as tragédias vão surpreendendo a cada momento e nós seremos, infelizmente, a estatística mostra isso ou sugere isso, que nós seremos alcançados por tragédias ainda maiores. Será que o acontecido em Mariana, 2015, se tivesse sido suficiente ouvido aquele grito das pessoas atingidas, daquela comunidade, Brumadinho teria acontecido? É uma reflexão. Se Brumadinho for agora ouvido, ou foi ouvido suficientemente alto esse grito para que a gente mude esse futuro, nós não podemos prescindir da mineração, ele é fundamental na sociedade, mas há formas de faze-la de forma mais segura. Então aqui é uma homenagem as pessoas que se envolveram de forma voluntária, é uma homenagem à memória das vítimas, é uma homenagem as pessoas que estavam lá se dedicando para que pudessem essa terrível parte da história brasileira, ela poder ser registrada como reflexão, como inspiração para a gente mudar adiante. Então é uma forma de a gente faz uma homenagem à memória das vítimas, 272 vítimas que perderam a vida subitamente do rompimento dessa barragem.

Luciano Pires: Eu vou querer ler esse livro aqui cara, imagino que você fala muito bem, se escrever tão bem quanto fala você vai nos carregar para o ambiente lá e aquilo que você falou, a missão de um livro como esse aqui, é causar tal indignação em quem ouve, que se essa pessoa passar por uma situação em que pode ocorrer uma tragédia, ela vai gritar, ela não vai olhar e falar lavo as minhas mãos. Essa boate está muito apertadinha, a porta é pequenininha, isso aqui pode dar um problema, as pessoas podem morrer. Falar é muito legal, mas tem que ir além disso, alguma coisa tem que ser tomada. Acho que toda a sociedade agir como policial, a polícia [desse] as coisas, a gente pode ter uma sensação de que se você não fizer bem feito dentro do que é necessário para a proteção do ambiente, ou seja, quanto menos gente lavar as mãos e deixar comigo.

Anderson Passos: Eu acho que a sociedade ela tem que agir protegendo, e não defendendo. Tudo que a gente falou aqui foi uma defesa, olha, aconteceu um desastre e foi feito ali então uma reação. O conceito de proteção e defesa civil é esse, proteger e agir antes.

Luciano Pires: Eu ia te fazer uma pergunta sobre o quão frustrante deve ser para um bombeiro que tem como medida do sucesso do seu trabalho salvar vidas, estar envolvido meses em um processo onde o seu trabalho é recuperar corpos, cara, é buscar corpos.

Anderson Passos: Essa de fato talvez tenha sido a maior ferida que muitos de nós trazemos nessa condição, quando cada um foi acionado para ir para essa emergência, foi com o ímpeto de buscar vida, de alcançar vidas. E a frustração de fato é muito grande, ela é desastrosa, ela é corrosiva e ela deixa marcas sim, profundas marcas, que suscitaram a ponto de a gente querer escrever o livro para registrar essas marcas, pessoas que se arriscaram por outros que sequer conheciam. Então, o livro escrevemos a quatro mãos, eu e a Luciana, muito do mérito dessa forma de escrever tem o dedo da Luciana, ela é uma jornalista incrível que eu não a conheci durante o atendimento inclusive, eu li o que ela escreveu e achei profundamente respeitoso com as famílias.

Luciano Pires: Foi assim que você chegou nela então?

Anderson Passos: Foi.

Luciano Pires: Ela fez uma reportagem?

Anderson Passos: Foi, eu li algumas reportagens que eu fiquei ali insistindo 1 ano para ela poder topar essa empreitada, e ela de fato se empenhou e é uma pessoa que eu considero de uma habilidade única singular, uma profissional brilhante, paulista, que conseguiu organizar essas informações. Escrevemos aí, foram madrugadas a fio trocando informações, espreme daqui, corrige dali para ficar uma coisa assim, verdadeira, para que não ficassem informações destorcidas. Então, o relato que a gente tem recebido é de que está muito verídico, de fato o que está descrito é conforme aconteceu sem nenhum tipo de romantização.

Luciano Pires: Eu fiz um contato seu com o pessoal lá de [CEDET], e eu espero que quando esse programa for ao ar esse livro esteja à venda na loja do Café Brasil.

Anderson Passos: Maravilha.

Luciano Pires: Então, livrariacafebrasil.com.br, o nome do livro é Brumadinho 272. Não tem como errar. Vamos caminhar para o final aqui, mas vamos caminhar então com uma coisa boa, que foi o negócio que a queda de luz interrompeu a gente e eu não consegui continuar. Você trabalhou com transporte de órgãos também cara?

Anderson Passos: Sim.

Luciano Pires: Porque uma coisa é, fui lá, busquei uma vítima de um acidente de transito. A vítima está lá, vamos atrás, etc. e tal. De repente você vai carregar um órgão que tem vida útil, tem hora para chegar, em toda uma logística gigantesca e eu falo de [cátedra], porque eu vi como é que funciona. Quer dizer, desde o momento, o processo de extração do órgão, o transporte do órgão e o processo de aplicação do órgão é um trabalho de logística milimétrico ali, tem hora, tem tempo de duração.

Anderson Passos: Exato.

Luciano Pires: E de repente você é o cara que vai ser demandado. Você chegou a fazer transporte, os bombeiros fazem isso de forma natural? Quem aciona vocês?

Anderson Passos: Olha, é uma corrente gigantesca como você falou, é uma engenharia de produção, então enquanto já tem pacientes que estão lá aptos a receber o órgão, eles já estão sendo preparados. Em muitos casos, eu nunca presenciei isso, mas o relato que a gente escuta das equipes de saúde é essa, o órgão está sendo retirado lá no doador, em uma cidade distante, os pacientes já estão aqui, os possíveis receptores já estão aqui sendo preparados, fazendo os últimos exames, né? Porque as vezes o receptor pode estar resfriado naquele dia, não pode ser operado, outro está com a baixa resistência, outro apareceu algum tipo de incompatibilidade.

Luciano Pires: Olha o detalhe onde você está falando. O pessoal do hospital onde vai acontecer o transplante liga e chama 2 ou 3 potenciais receptores, eles vão para lá, 2 vão voltar para casa frustrados porque não foi o momento e 1 vai receber o órgão.

Anderson Passos: Exato.

Luciano Pires: O que vai definir se aquele 1 é o tal é isso que você falou, a pessoa veio, está com resfriado, alguém vai tomar uma decisão na hora e falar, “dos 3, é esse que vai receber”.

Anderson Passos: São poucas horas, então você tem que levar a equipe até o local, saber, passado todo aquele tramite de autorização de doação, de verificação, de confirmação da morte do doador que não é um processo nem lento e nem fácil, difícil para todo mundo. A pessoa que faleceu, em geral foi uma morte repentina de algum acidente, alguma situação que não atingiu aquele órgão a ser doado, mas de fato um acidente. A maioria dos casos são pacientes jovens muitas vezes, e esse processo tem que ser tomado em poucas horas. E ele muitas vezes se arrasta por questões que são físicas ou fisiológicas. Então, uma operação que é planejada para durar 2, 3 horas, ela pode durar 10 horas. Você é acionado, fica de plantão, vai ao hospital. Isso aconteceu comigo, nós levarmos 2 equipes com 2 helicópteros em uma cidade lá na zona da mata, chegarmos lá, no último exame, na última análise, não foi possível captar os órgãos e voltamos para cá frustrados da mesma forma. E as pessoas que estavam, potenciais pessoas para receber os órgãos, eles também frustrados. Mas, a grande maioria dos casos são ações muito exitosas, são exitosas e a gente vê a empatia dos familiares que perderam um parente tendo esse ato que eu acho que é de muita humanidade fazer essa doação, porque um único paciente pode doar vários órgãos, pode salvar várias vidas, tal qual o doador de sangue. Então é nesse sentido que eu acho que a gente precisa ter essa percepção de sociedade, porque todos nós somos potenciais clientes de tudo isso que eu falei.

Luciano Pires: Você evidentemente partiu para uma nova carreira, agora você virou escritor, está fazendo palestra também, está contando sua história, está usando a sua experiência como liderança nessas situações todas para falar para o universo corporativo e tudo mais.

Anderson Passos: Exato.

Luciano Pires: Quem quiser te encontrar acha você aonde?

Anderson Passos: No Instagram, @andersonpassos. Estou lá, agora levando após a minha aposentadoria, portanto, levando essa vivencia como eu disse, de presenciar várias coisas, mas principalmente observar outros colegas no processo de tomada de decisão. Em especial prevenção de acidentes, que é um aspecto muito interessante, porque todo acidente ele é evitável, ele decorre de uma sequência de eventos, ele requer que a pessoa tenha uma abnegação grande, compartilhe os próprios erros para evitar que alguém erre de forma igual. Então, tudo isso que a gente conseguiu ver e mealhar de experiência e de maneira de transmitir as informações, hoje eu tenho passado para as empresas focado em prevenção de acidentes, capacitação dos seus recursos humanos. Também falando de liderança, o que a gente viu e pôde não só praticar e sofrer na pele quando era liderado, mas em outro momento quando já fomos líderes de equipes extremamente especializadas, o que é um desafio. Equipes muito melhores do que eu mesmo, com capacitações muito acima, então isso é um desafio. E o gerenciamento de crises, que é a rotina dos bombeiros gerenciar crises de ocorrências realmente com uma repercussão muito grande, com clamor social, como você disse, com clamor de mídia, e que graças a Deus a gente coleciona mais sucessos do que fracassos, mas compartilhar os erros Luciano, eu acho que é muito mais valioso, porque o que deu certo, está nos manuais. E nas palestras, eu falo muito daquilo que deu errado. E os bombeiros são uma instituição hoje com índice de aprovação popular sem precedentes.

Luciano Pires: O Exército foi para o saco, a igreja foi para o saco, a mídia foi para o saco, a Polícia Militar foi para o saco, os bombeiros não. Qualquer… não conseguiram ainda sujar. Eu acho que hoje, eu não vi como é que foi, não vi se fizeram aqui, mas aquela pesquisa, qual é a entidade mais confiável? Eu imagino que hoje o bombeiro deve estar em primeiro lugar, ou continua em primeiro lugar.

Anderson Passos: Já há alguns anos, isso me enche de satisfação, porque é muito gratificante você ver o serviço sendo reconhecido e quando se ganha, ganham todos, quando se perdem, perdem todos. Eu acho que a essência dos bombeiros. Então eu tenho compartilhado sob a visão da instituição que é a mais bem quista pela população, que é referência de qualidade, de confiabilidade, de assertividade, ou de acerto na tomada de decisão, como que a gente faz isso, como que a corporação alcançou e mantem esses níveis de aprovação.

Luciano Pires: Continuem sendo os nossos super-heróis, é o mais próximo que a gente pode ver se super-heróis aí. Meu caro, missão cumprida, contra tudo e contra todos. Acabou a luz 3 vezes ao longo da gravação, o vizinho fez e desfez, agora parou. Mas, a gente aos trancos e barrancos chegamos lá, foi cumprido com o ganhar do dia.

Anderson Passos: Assim que deve ser.

Luciano Pires: Obrigado pela sua visita, acho que foi mergulhar nesse livro aqui, porque eu acho que vou devorar isso aqui em um instantinho. Está muito presente esse assunto ainda e acho que a gente tem muito que aprender com quem esteve lá na linha de frente. Obrigado pela sua disposição, não só de vir aqui, vai voltar para Uberaba agora, mas de dedicar essa sua carreira para salvar a gente dessas loucuras todas que acontecem.

Anderson Passos: A gente tem que entender que cada qual ajuda como pode. Então, se Deus está me dando essa oportunidade de trabalhar dessa forma, é tentar aproveitar e se dedicar ao máximo, é o que eu tentei fazer. Graças a Deus com a família apoiando muito, tive o privilégio de casas com a dona Juliana, a esposa perfeita.

Luciano Pires: Ela está vigiando e babando lá fora.

Anderson Passos: Está com um belíssimo vestido cor alaranjado, que é a mesma cor da farda dos bombeiros. Gabriel e Julia estão lá em casa, e a gente poder ajudar de alguma forma é sempre muito bom. Eu queria lembrar não só o Luciano, mas todo mundo que nos ouve também, que os bombeiros também aceitam convites para incêndios em churrasqueiras. Presenciar incêndios em churrasqueiras, então podem nos convidar para esse tipo de emergência também, iremos com a mesma agilidade com que vamos nos demais.

Luciano Pires: Grande abraço cara, obrigado pela visita.

Anderson Passos: Fiquem com Deus, pessoal.