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Luciano Pires: Bom dia, boa tarde boa noite, bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. Hoje trazemos Renato Scarpin, formado em engenharia, mudou para o mundo das artes cênicas ao se apaixonar pelas coisas do teatro. Fez minisséries e novelas na Record, SBT, Globo e Band e no teatro, realizou inúmeros trabalhos como ator, autor e diretor. Ficou 10 anos em cartaz com o monólogo cômico de sua autoria “Engolindo Sapo Pra Um Dia Comer Perereca”, com o qual fez mais de 1.100 apresentações pelo Brasil. Uma conversa sobre artes, cultura, dos bailes da vida e o público que queremos ter. Muito bem, mais um LíderCast, como sempre eu começo contando como é que o meu convidado veio parar aqui. Estava eu nas minhas twitadas, sacanagem, agora ele botou o nome de “X”, você não consegue mais falar cara, é “Xzada”, “Xzando”, que merda. Estava eu twitando ali, e essa figura aqui de vez em quando curtia, mandava um comentário, um belo dia ele entra em contato comigo, “Luciano, meu espetáculo”, ou eu vi em algum lugar, não me lembro como que foi, acabei vendo ali e falei, “que legal”. “Estou com meu espetáculo, veja se você consegue ver”. “Cara, vou tentar”. Não consegui, agenda maluca, né, mas aí falei, “vou chamar esse maluco aí cara”, a gente vai trocar uma ideia lá, porque a área que ele atua é muito cara, nunca atuei nela, estou perto dela, mas é muito cara, acompanhei muito de perto e acho que vai dar um papo bem lega aqui. O programa tem a seguinte dinâmica, cara, tem 3 perguntas que são as únicas que você não pode chutar, essas você tem que ir certinho, o resto você inventa à vontade, essas 3 você mantém.

Renato Scarpin: Senão perde o prêmio.

Luciano Pires: Exatamente, seu nome, sua idade e o que que você faz são as 3 perguntas, então vamos lá.

Renato Scarpin: Bom, é um prazer estar aqui, né? Eu sou Renato Scarpin, tenho 52, e sou ator. Na verdade, eu sou formado em Engenharia Civil, sou engenheiro civil formado e trabalhei 2 anos como engenheiro. Trabalhei na Alemanha como engenheiro, quando voltei da Alemanha, fiquei lá uns 4 meses só, falei, vou ver qual que é essa de teatro.

Luciano Pires: Você não vai me contar história já, espera aí. Seu nome Renato Scarpin, idade?

Renato Scarpin: 52.

Luciano Pires: E o que que você faz hoje?

Renato Scarpin: Hoje eu sou ator.

Luciano Pires: Muito bem, agora eu vou pegar você. Nasceu onde?

Renato Scarpin: Eu sou de Curitiba.

Luciano Pires: Mais outro Curitibano. O que que tem na água de Curitiba, que o stand up do Brasil ou vem de Fortaleza, ou vem de Curitiba. O que acontece, cara?

Renato Scarpin: Eu não sei, acho que o Diogo Portugal foi um dos mais antigos de stand up.

Luciano Pires: Ele já esteve nessa cadeira aí.

Renato Scarpin: Ah é?

Luciano Pires: Já.

Renato Scarpin: O Diogo começou há muito tempo lá em Curitiba, mas eu não sei assim, eu não sou muito da galera do stand up, eu faço meu espetáculo hoje que é parecido com stand up, mas não é um stand up, é um espetáculo de teatro. Mas lá a galera, acho que o Diogo abriu essas portas. Na verdade, o stand up já existia lá com Chico Anysio, Chico Anysio já fazia isso.

Luciano Pires: Antes dele, já vem lá de trás. Tem uma moçada lá de trás que quando você vê hoje os vídeos desses caras, é inacreditável. Você pega o Zé Vasconcelos, você pega… o Golias nem fazia tanto assim, mas você pega o Zé Vasconcelos, pega o Chico, o próprio Jô cara, eu vi o Jô no palco, cara, um negócio maravilhoso. E era aquilo que você falou, não era piada, piada, piada, punch, punch, não, era eu vou te contar uma história. Pega o Zé Vasconcelos, era uma tremenda história, e você ri muito ao longo da história e não tem um punch no final, toda ela é a graça, é uma coisa diferenciada.

Renato Scarpin: É que essa parada de stand up veio lá dos americanos que tem essa… lá nos Estados Unidos, eles têm aquele roteirinho, prepara, dá o punch e o punch seguinte. Então, é uma regra, uma receitinha de bolo. E aí só que assim, aqui a gente tem como o nível intelectual da galera é muito abaixo lá de fora, então aqui as piadas acabam virando bobajada da bobajada. Porque o stand up é tipo, Seinfeld, ele fez um programa dele e ele conta essa história, que ele chegou no studio e o cara falou, pô eu quero fazer um seriado Seinfeld. Ele, sobre o que que é? É sobre nada. Isso você olha o seriado, é sobre nada mesmo, que é um cara que não faz nada, um amigo que não faz nada, uma amiga que não faz nada.

Luciano Pires: Falando sobre trivialidades, e…

Renato Scarpin: Só que é engraçado para caramba, porque são as bobajadas do dia a dia, que é aquelas pegadinhas do dia a dia. E lá o stand up é isso, aqui começou assim também. Hoje a coisa acho que deu meio que uma, eu pelo menos acho, deu uma degringolada assim.

Luciano Pires: Mas aonde que não degringolou, fala para mim? Qual é a área das artes que não degringolou, onde é que você olha? Não tem, cara. Ontem eu assisti o documentário do Thriller 40 anos.

Renato Scarpin: Eu vi até que você postou hoje sobre isso.

Luciano Pires: Assisti o documentário, cara, é de chorar bicho, é de chorar. Não é um documentário “ahh”, mas cara, o problema é que ele usa imagens que moram no seu coração cara. Cara, eu voltava voltando de uma viagem, eu tinha ido para a Bahia cara, estava voltando de carro e eu sabia que ia ser lançado o Thriller, porque foi anunciado, e eu não ia estar aqui. Então eu deixei um videocassete gravando, sem saber se ele ia gravar, podia acabar a luz no meio do caminho, cheguei de viagem, fui lá no vídeo e tinha gravado. Eu botei para assistir, e assisti em um videocassete o videoclipe do Thriller. E aquilo mudou a história da música mundial, só que quando você vê 40 anos depois e vê os caras contando como fizeram, quem estava envolvido, o nível de sofisticação desses caras, você fala bicho, isso não tem mais, isso não tem mais cara. Uma música, você pega Billie Jean, quantos compositores? É um. Quantos produtores? Tem um produtor. Você pega hoje a Beyoncé cara, tem 35 compositores, 12 produtores, 150 caras, não tem como não se perder, né?

Renato Scarpin: É que a embalagem hoje é o que conta, o que está dentro do pacote não importa muito, mas a embalagem é que conta. Então assim, se você pegar lá Amy Winehouse, que foi um meteoro, ela escrevia, escrevia, e ficou sei lá, 5 anos de carreira?

Luciano Pires: Acho que deve ter sido isso, acho que foi isso, não deu tempo né?

Renato Scarpin: Não deu tempo.

Luciano Pires: Ela tinha a qualidade fenomenal lá. Você tem irmãos?

Renato Scarpin: Eu tenho 2 mais novos, uma irmã e um irmão.

Luciano Pires: Seu pai e sua fazem ou faziam o que?

Renato Scarpin: Meu pai é contador, minha família inteira é uma família de trabalhadores classe média baixa. As minhas tias mais velhas, irmãs do meu pai, são aquelas ainda que são devotas de Getúlio Vargas, porque ele é o pai dos pobres e fez a CLT, que para elas mudou a vida.

Luciano Pires: Seu pai falou para você um dia, meu filho, quando você crescer eu quero que você seja contador. Você entendeu que era contador de história, e foi inventar moda.

Renato Scarpin: Eu conto essa história, até no Jô eu contei essa história que foi engraçada, eu fui fazer engenharia, primeiro que quando eu fui fazer vestibular eu falei puts, eu não sabia nem o que que era ser ator, olha que maluco né?

Luciano Pires: Então, eu tinha uma pergunta agora antes de você queimar, deixa eu fazê-la. Como é o seu apelido quando você era criança?

Renato Scarpin: Júnior, lá em Curitiba eu sou Júnior.

Luciano Pires: O que que o Júnior queria ser quando crescesse?

Renato Scarpin: Padre. Eu queria ser padre.

Luciano Pires: Meu pai do céu, pai contador, mãe?

Renato Scarpin: Minha mãe…

Luciano Pires: Do lar?

Renato Scarpin: Hoje ela é técnica em enfermagem.

Luciano Pires: E o cara queria ser padre e virou ator, está legal isso aí, vamos investigar isso aqui. Por que padre?

Renato Scarpin: Porque minha família toda é católica, aquela coisa, você crescia indo para a igreja, novena, aquela coisa toda, minha família italiana, então já viu. Quando chegou na época do vestibular, falei puta que pariu, vou fazer o que mano? E aí eu sempre tive essa curiosidade. Como eu fui escoteiro a vida inteira.

Luciano Pires: Você também era?

Renato Scarpin: Você também foi escoteiro?

Luciano Pires: Sempre alerta.

Renato Scarpin: Sempre alerta.

Luciano Pires: Eu fui lobinho, depois fui promovido a escoteiro, eu fiz as duas fases, de lobinho para escoteiro.

Renato Scarpin: Não, eu comecei no lobinho, fui escoteiro, fui sênior, fui pioneiro, fui chefe…

Luciano Pires: Porra, você foi longe.

Renato Scarpin: Eu fui escoteiro Liz de Ouro. Então quando eu tinha 7 anos, meu pai falou, “você quer fazer judô ou quer ir para o lobinho?”. Aí eu falei, “pô, eu quero fazer judô”. Ele falou, “tá bom, você vai ser lobinho”. E foi a melhor coisa que ele fez, porque assim, o escotismo é cara eu acho que devia ser obrigado, todas as crianças do mundo tinham que ir para o movimento escoteiro.

Luciano Pires: É sensacional.

Renato Scarpin: Baden Powell era um cara iluminado assim, é um cara que eu sou muito fã. E até hoje, até o escotismo hoje já começou a se perder com esse politicamente correto, com essa encheção de saco toda.

Luciano Pires: Nada escapou, nenhum lugar escapou. Nem os lugares que são contra escaparam, porque começam a usar uma linguagem parecida. Mandaram para mim o vídeo aqui ontem de um cara, de uns índios lá, que não sei o que, que os índios estão plantando e tem tudo aquilo que é contra, que os querem para os índios, esses índios fazem. Botaram a plantação, foram falar com o cacique, pô, o cacique falando parece a Marina Silva discursando, aqueles termos e contemporaneidade, blá blá blá. Meu, até os caras que não estão no aspecto deles, estão falando igual.

Renato Scarpin: Está chato, muito chato.

Luciano Pires: Mas então padre, e aí você levou a sério essa coisa de ser padre?

Renato Scarpin: Assim, eu queria ser padre. Aí um dia, passei um dia no seminário para ver como que era, descobri que padre não podia…, falei, “não estou afim não”. Mas a minha bronca foi com os dogmas. Eu tinha lá uns 15 anos, 14 sei lá, falei para o padre, “mas vem cá, essa parada de dogma?”. Ele falou, “então, é isso, acabou e fim de papo”. Eu falei, “como assim acabou e fim de papo?”. “Não, é isso e fim de papo”. Eu falei, “então valeu, obrigado, não é para mim”. Aí fui fazer vestibular, no escoteiro, que a gente estava falando de escoteiro, a minha primeira especialidade foi de artista. E no fogo de conselho, que é aquela parada para quem não conhece, último dia de acampamento, última noite faz um fogo, todo mundo de reúne, faz uma sketch, e eu amava aquilo, falei, “vou fazer vestibular para artes cênicas”.

Luciano Pires: “Da montanha olô, ia-ô”.

Renato Scarpin: E aí eu falei, “vou fazer artes cênicas”. Meu pai falou, “o que? Vai ser ator, viado, maconheiro? Mas nem a pau”.

Luciano Pires: Que ano era isso?

Renato Scarpin: 88 para 89. E aí acabei fazendo engenharia, porque eu gostava muito de carro, ia fazer engenharia. Falei, “vou fazer Engenharia Mecânica”. Não passei em Engenharia Mecânica na Federal, mas passei em Engenharia Civil na PUC. Faz 1 ano, porque o primeiro ano é igual, no fim acabei ficando. Aí no meio do caminho, do 2o ou 3o ano, tinha um grupo de teatro na PUC chamado Tá na Hora, que existe até hoje, um grupo muito bacana. Até um amigaço meu, Chico Nogueira é o diretor, e eu fui ver um espetáculo deles, o Bella Ciau. Cara, aí aquilo me encantou de vez assim.

Luciano Pires: Isso lá em Curitiba tudo?

Renato Scarpin: Tudo em Curitiba, tudo lá. Aí falei para o meu pai, falei porra, eu vou parar a engenharia e vou fazer Artes Cênicas. Meu pai falou, “o que? Não, primeiro você se forma, depois se quiser dar o rabo na esquina, você faz o que você quiser”. Aí acabei me formando em engenheiro, trabalhei pouquinho, fui trabalhar na Alemanha como engenheiro, voltei. Quando eu voltei falei, vou ver esse negócio de teatro como que é, me inscrevi num curso para conhecer só, um hobby. Cara, três meses de curso eu falei, “é isso que eu quero fazer da vida, é isso”. E já nesse primeiro ano, acabei…

Luciano Pires: O que que te encantou ali, cara? Foi assim, o Clovis de Barros que conta uma história legal, que quando era molequinho tudo, a primeira vez que botaram para falar em uma sala de aula, ele era um bicho do mato, e a hora que ele subiu, ficou em pé e viu a molecada olhando para ele, ele falou, “cara, esse é o lugar que eu quero estar”. Era ele no palco. Com você foi isso, ou foi a coisa de poder ser alguém diferente de você em algum momento, o que que te atraiu nas Artes Cênicas?

Renato Scarpin: Engraçado, não foi nada com ser famoso, não foi nada com fazer novela, não foi nada disso. Eu acho que era o mesmo sentimento de querer ser padre, era ser alguém que pudesse mudar de alguma forma a vida das pessoas abrindo horizontes, abrindo novas formas de ver a vida. Então assim, o que me encantava no lance do padre era que caralho, o cara lá na frente falando para 200, 300 pessoas, dizendo para as pessoas serem melhores. Isso é uma coisa que me encantava. E como ator, essa função do ator me encantava, de…

Luciano Pires: Você tinha essa consciência?

Renato Scarpin: Não como eu estou falando agora. Eu tinha esse sentimento de que um ator poderia, pega um texto que faz você puta, aquilo te toca de alguma forma e te muda para melhor, isso me encantava. Então nesses primeiros 3 meses, quando eu comecei a perceber qual era o ofício do ator, eu falei, meu Deus, é isso que eu quero. E aí nesse primeiro ano, já acabei sendo contratado para fazer um espetáculo, para fazer outro espetáculo, até que as coisas começaram a dar certo muito rápido.

Luciano Pires: Você começou a trabalhar mesmo num…

Renato Scarpin: Como amador.

Luciano Pires: Você estava em Curitiba, você não estava no eixo Rio-São Paulo.

Renato Scarpin: Não.

Luciano Pires: Que teoricamente era onde está o grande mercado, as coisas acontecem e tudo mais. O que acontece aqui vai para lá, ou então começa lá e depois estoura aqui. Mesmo em um mercado menorzinho, as coisas começaram a acontecer para você ainda como amador?

Renato Scarpin: É porque lá em Curitiba, o mercado teatral era muito forte. Então é Rio, São Paulo, Curitiba, BH, Porto Alegre, Salvador. Mas tanto é que assim, a cena teatral curitibana é muito respeitada, e ficou famosa depois do festival, quando veio o festival de Curitiba a coisa, o produto teatral lá é muito bom, muito bom. Tanto que quando eu fui morar no Rio depois, eu ia ver os espetáculos e dizia, hum… os caras, “pô, tu é muito bairrista”. Eu dizia, “brother não é, é que aqui no Rio você coloca 4 globais em cena, a galera vem ver os globais. Lá em Curitiba não tem os globais”. Então assim, ou o teatro é bom, ou ele morre.

Luciano Pires: Ou o talento está ali, ou não tem essa.

Renato Scarpin: E o povo curitibano é chato à beça, tanto que todo mundo diz assim, quer estrear um espetáculo, vai lá, porque se o curitibano falar que é legal.

Luciano Pires: Eu como palestrante assino embaixo, ô plateia fria, cara.

Renato Scarpin: É difícil.

Luciano Pires: Difícil e fria. O Jô Soares falava assim, eu estreio em Curitiba, se for bem lá, vai bem em qualquer lugar. Você falou um negócio interessante, aqui é assim, a gente vai, vira, vai para o outro lado. Você falou um negócio legal aí que é aquela história que você fala, “põe 4 globais no palco que está feito”. Eu sou palestrante profissional, então há mais de 30 anos eu faço palestras para tudo quanto é lado. E também houve um fenômeno parecido com as palestras, de repente celebridades começaram a fazer palestra. O cara não é palestrante coisa nenhuma, mas o cara é um puta atleta, é um grande técnico, é uma celebridade. Ele sobe no palco, dá o recado dele, ninguém está preocupado se o conteúdo é bom ou não, estão preocupados em ver o cara e ter a chance de tirar uma foto com o cara na sequência. Isso praticamente fode o mercado. E agora você está falando e eu estou entendendo que com o mercado deve ter sido parecido, porque cara, mete uma celebridade, aí você tem em volta dele os caras ultra talentosos que acabam sendo eclipsados porque tem um global ali, e a turma vai lá para ver o global. Então cara, eu admiro demais os americanos por causa disso, lá se você não for competente, você não se estabelece lá, não tem cara.

Renato Scarpin: É isso.

Luciano Pires: Você é dançarino da Broadway? Sou. Meu, é um puta de um dançarino que se não for, não tem espaço para ele ali. Mas isso só acontece quando você tem um mercado altamente competitivo e tem um público exigente, que exige aquilo. Quando você pega um público que eu estou aí para ver um global, ele não dança bem, mas é um global. Ele não canta bem, mas é um global. Aí entra num ciclo que joga tudo para baixo, né cara?

Renato Scarpin: Você vê, eu lembro, ainda morava em Curitiba, foi um espetáculo lá, acho que os 3 Mosqueteiros, que era a galera da Malhação que estava em alta na época, isso lá nos anos 90. Brother, acabou o espetáculo, isso lá em Curitiba que é um povo chato. Os caras entravam em cena, Teatro Guaíra, 2 mil e poucos lugares abarrotados, uma gritaria, meninada gritando, aquela gritaria. O diretor ficou tão puto que ele falou assim, porra, próxima vez, isso foi em Curitiba e foi em todas as cidades do Brasil, ele falou, “para que ensaiar, estudar texto, montar luz. Próxima vez, eu vou fazer o seguinte, vou cobrar os R$ 150,00 de ingresso, vou colocar uma jaula no meio do palco e faço as pessoas passarem para colocar a mão no ator, como se tivesse colocando a mão em um bicho, e o ator fica lá sentadão, tomando uma água”, e acabou, porque não precisa. Mas é isso que você falou, quando o público não tem discernimento…

Luciano Pires: Você vê como é delicado isso, como é delicado porque isso aí é um passo para você mediocrizar a sociedade como um todo. Eu tenho um amigo meu, um puta de um palestrante, ele conta uma história engraçadíssima, que ele foi em um cliente, conhecido dele, negocia, enche o saco dele, conseguiu negociar, baixou o preço e foi lá para fazer a palestra dele. Uma puta palestra, né? Terminou a palestra dele, veio a próxima atração que era uma loirinha argentina que tinha saído de um Big Brother da vida, Casa dos Artistas, sei lá, estava em alta, vem a loirinha entra lá, “si, como estas, muchas gracias, buenos, beso, beso”. Não falou merda nenhuma, não fez nada, enrolou, enrolou, sentou no colo de um e de outro, bateu foto com todo mundo, ficou ali 40 minutos fazendo essa bagunça, saiu e foi embora.

Renato Scarpin: E levou o dinheiro?

Luciano Pires: Levou o dinheiro. E a plateia enlouquecida, ele chegou para o amigo dele, que isso cara? Você me enche o saco para me trazer aqui para eu fazer uma palestra legal, com conteúdo e depois dela vem essa menina, se bobear você pagou mais caro. Paguei mais caro por ela, mas porque a plateia amou aquilo. Então cara, se eu me basear por aquilo que a plateia quer ver, eu estou fodido, do ponto de vista da minha arte.

Renato Scarpin: Sim.

Luciano Pires: Agora, se for para ganhar dinheiro, eu vou me basear naquilo que ela quer ver. E vai ficar esse ciclo indefinível, onde o stand up vai ser uma sequência de palavrões, baixaria, palavrões, baixaria e palavrões, todo mundo dando risada e está feito o sucesso. Mas conteúdo, mudar a vida das pessoas, isso perde tudo cara.

Renato Scarpin: É engraçado assim, sabe? A classe artística tem um sério problema. Eu falo isso, e depois eu fico escutando encheção de saco nos restaurantes pós-espetáculo, dos colegas. Mas a classe artística tem um sério problema que é uma arrogância nível blaster máster assim, os caras em um dado momento eles até tem razão até um limite que é o público também não pode, eu não posso fazer só o que o público quer, eu tenho que apresentar outras coisas. Mas, isso tem um limite.

Luciano Pires: Claro.

Renato Scarpin: Quando eu digo que a classe artística tem uma arrogância, é porque assim, você conversa com alguns e o cara vai lá, puts, o cara pega a grana não sei de onde, do bolso, também não importa, mas monta aquele espetáculo com aquela punheta mental nele, para ele mesmo, que ele quer mostrar o quanto ele é o intelectualizado, bota aquela bosta em cena que ninguém entende porra nenhuma, e você olha e fala, mas para que?

Luciano Pires: O que que eu vim fazer aqui? É.

Renato Scarpin: Para que montar isso? Esse cara não entende que não, você tem que tornar acessível ao público.

Luciano Pires: Sem dúvidas.

Renato Scarpin: O outro extremo que é, não vou fazer o que o público quer, que é o que o stand up está fazendo hoje, tem stand ups que são bacanas, são engraçados mesmo, são legais. Mas é aquele, um ou outro assim, a grande maioria cai na apelação, e apela mesmo, não quer nem saber, que fala o que o público quer ouvir. Acontece que é um problema que não sei se é mundial, mas agora é, mas no Brasil há muito tempo é assim, o povo brasileiro é preguiçoso. Não quer estudar, não quer adquirir conhecimento, acha que se você fala o português correto, você é metido. Eu tinha um professor de português que era engraçado, que ele dizia assim, eu acho tão engraçado isso, porque se você usa corretamente o plural, você é bicha, só que ele era gay, e ele ficava indignado. Ele falava assim, “é só você usar o plural corretamente que você é bicha, onde já se viu?”. E é isso, o brasileiro tem preconceito com quem tem conhecimento, com quem quer ter conhecimento, com quem quer melhorar, porque é preguiçoso. E isso é uma coisa que enquanto o povo brasileiro não entender e admitir essa preguiça de adquirir conhecimento, não vai mudar. Então assim, se você faz só o que o público quer, é isso que a gente vai ter, os funks da vida que só falam de “metelança”, os stand ups que só falam de peido, de não sei o que.

Luciano Pires: E que consumiram todo o espaço disponível, dinheiro disponível, horas disponíveis.

Renato Scarpin: É isso, você entendeu? Eu viajava com um espetáculo anos atrás, e aí chegou um texto do Juca de Oliveira que era engraçadíssimo, muito legal, e de repente começou o produtor a não achar mais pauta em teatro nas cidades, tudo stand up, stand up. Era uma época – eu estou nessa época eternamente – falta de grana, cara, falei, não tem o que fazer. Então você não pode com eles, junte-se a eles. E eu escrevi um solo chamado Engolindo Sapo Para Um Dia Comer Perereca. Só que assim, eu não consigo só fazer piada de peido, vou dar uma melhoradinha aqui. E comecei meio que na brincadeira, cara limpa e fazer um personagem, porque só lá subir no palco com a roupa do corpo, falar “então gente, estava andando na rua, tropecei e quebrei os ovos que estava trazendo do mercado”. A plateia “ká ká ká”. Não, queria um textozinho um pouquinho mais… mas era bobagem, falando de casal, de casamento, de separação, de impostos, de banco, enfim, e escrevi alguns personagens. E comecei assim, estreei, segundo dia tinha 8 pessoas, terceiro dia tinha 6, quarto dia tinha 10, 20 espetáculos depois eu estava com 200 pessoas, e nessa brincadeira fiquei 10 anos em cartaz com esse espetáculo, viajei praticamente o Brasil inteiro, fiz mais de 1100 apresentações. E a galera ria muito, era 1 hora e quase 20 de espetáculo, e era uma risada atrás da outra, e todo mundo dizia, “o texto é stand up, não é bem stand up porque é inteligente demais para ser stand up”. Porque eu tinha nas personagens, nas personagens eu fazia isso que eu estou te falando que é de dar aquela cutucada no público, fazer o cara rir, mas se ligar em algumas coisas.

Luciano Pires: Mas, com conteúdo.

Renato Scarpin: Um exemplo, só para você entender, eu tinha um personagem que era o Fritz, que era um alemão nazista. A primeira fala dele era, “eu não gosto de gente preta, eu não gosto de fiado e não gosto de judeu”. A primeira fala dele, a plateia faz assim, meu Deus do céu, como esse cara fala uma coisa dessa? E aí no decorrer da personagem falando, mostrava que ele, uma judia casou com ele para se vingar do holocausto, então arrebentava com ele todo dia. Ele teve 3 filhos negros, porque ela traia ele com negro, os 3 filhos eram negros e os 3 filhos eram gays. E ele não percebia nada disso, ele se achava o espertão, não sei o que, e era avacalhado por todo mundo e não entendia. E toda a plateia sacava que o personagem era uma grande crítica ao radical intolerante, todo mundo entendia, e riam para caramba. A primeira fala dava aquela arrepiada, então eu chamava a atenção de todo mundo, e no decorrer a galera sacava que era uma grande porrada no babaca intolerante, que é racista, que é homofóbico, que é não sei o que lá, mas de um jeito bacana, de um jeito engraçado. Não era uma lacração de falar “não pode falar isso”. Não, eu falava exatamente o contrário.

Luciano Pires: Hoje em dia você não consegue mais, sabe por que? Hoje em dia você derruba o disjuntor. Você falou a frase, caiu o disjuntor, o cara não escuta mais nada que você tem. 2004 eu lancei um livro chamado Brasileiros Pocotó, Reflexões Sobre a Mediocridade que Assola o Brasil. E lá eu dizia naquele livro, cara, a educação está uma merda, a música é boquinha da garrafa, éguinha pocotó, essa merda toda vai dar merda lá na frente, vai dar encrenca lá na frente. E aí eu encontrei gente que falava assim, mas o que você está querendo? Você quer trazer alta cultura? Eu falei não cara, eu não estou metendo a boca no Gugu Liberato, sabe por que? Porque um cara que consegue botar 20 milhões de pessoas em um domingo assistindo, esse cara não pode ser ignorado, nem esse cara e nem nenhum programa, nem Big Brother. Se o Big Brother consegue botar 30 milhões assistindo, cara, você não pode ignorar isso, não dá para ignorar, primeiro ponto. O que eu tenho que fazer, é usar esse talento que esse cara tem de atrair as pessoas, cara, e botar um conteúdo legal ali, entendeu? Que haja o Gugu, porém, vamos botar um treco legal? E usava como exemplo, eu falava, cara, pega por exemplo a TV Cultura no seu auge, pega TV Cultura com Castelo Rá-Tim-Bum. O que que era aquilo? Você pega um puta de um roteirista, um puta artista de primeira linha, pega os caras de produção maravilhosos, aquilo tudo tem um capricho maravilhoso, sai uma obra prima. A Globo fez isso muitas vezes, com novelas e tudo mais. Então, quando você quer fazer, dá para fazer, e dá para fazer com conteúdo legal. Só que em algum momento tem alguma coisa chamando para baixo, tipo assim, cara legal, você é o melhor compositor, mas está caro, chama o Zezinho, não é tão bom quanto ele. É o complexo do Dadinho, lembra do Dadinho? O Dadinho que você comia, que era uma delícia e hoje é uma bosta, o que acontece ali? Espera um pouquinho, esse açúcar está um pouco caro, pega aquele açúcar que é um pouco mais baratinho. Essa farinha não está… pega a farinha mais baratinha. Tudo é mais baratinho, o resultado é uma bosta, é a mesma coisa, mas é uma bosta, por que? Porque eu fui baixando a qualidade, ou baixando a régua. Não tem que ser tão bom cantor, vai na média. Quando você junta tudo na média, o avião cai, entendeu? O avião cai. Então, quando você falou, é interessante isso, quer dizer, eu não posso abrir mão de dar o que o público quer, vou fazer um show e não vou tocar as músicas famosas, só vou tocar as músicas que eu quero? Isso é uma merda. Eu vou tocar as músicas famosas e também vou trazer as músicas novas, não vou perder a chance de…

Renato Scarpin: Apresentar.

Luciano Pires: Já que está todo mundo reunido aqui por causa daquilo que eles conhecem, eu vou trazer o novo para eles também. Mas, as pessoas ficam preguiçosas. O Kiko Loureiro, guitarrista do Megadeath, o Kiko saiu do Megadeath agora, depois de 9 anos que ele ficou lá. Então ele era um guitarrista brasileiro de uma das maiores bandas de Heavy Metal do mundo. Quer dizer, o cara estava no ápice. E ele fez um comentário outro dia, ele estava num PodCast e eu estava ouvindo ele falar, ele falou o seguinte, “cara, sabe o que me incomodava ali bicho? Está tudo resolvido. Sabe o que eu tinha que fazer? Os caras me ligavam, eu recebia um e-mail, junto vinha uma passagem aérea, eu pegava um voo de primeira classe, chegava num lugar na hora do show, vinha um cara me pegava, me levava de limusine, e eu subia no palco, o cara me dava uma guitarra afinada, eu só tinha que tocar 20 músicas. Não tinha um perrengue cara. Eu não aguentava mais aquilo, cadê o perrengue? Eu não tenho que fazer nada, está tudo resolvido”. Isso deixa o cara preguiçoso, ele falava isso, está me deixando preguiçoso. Eu não vou estar empenhado em resolver, em cara, eu vou resolver isso e vai ficar melhor. Não, fiquei preguiçoso. Me parece que no mundo do business isso acaba acontecendo, montou o processo, funcionou, a fórmula está legal, bicho, repete, repete, não enche o saco, só repete e vamos faturar mais. Aí vira isso cara, uma repetição de fórmula. A mesma dupla caipira, tem uma dupla sertaneja, aí tem a segunda que é igual a ela, a terceira que é igual a ela, aí um cara inventa sertanejo forró, forró universitário, e aí aparece mais 4, aí junta com funk, é tudo a mesma coisa, repetindo formulas, né cara?

Renato Scarpin: Não, e é engraçado, porque assim, a gente foi agora terça-feira ver um show de rock do primo da Marita que chama Toneladas, você deve conhecer até essa banda, Tonelada. É daqui de São Paulo.

Luciano Pires: Tonelada, não conheço não.

Renato Scarpin: Puta, hoje são os caras tudo lá com 60, 70 anos, começaram a tocar nos anos 80, só rock and roll, músicas deles. E aí a gente falando de música, eu falei assim, você pega sertanejo, você ouve uma, você ouviu todas, porque se você deixar ali tocando, se você não prestar atenção você fala, “já acabou aquela? Já está na outra?”. Porque assim, a batida é igual, a letra, diferente de quando você ouvia Tonico e Tinoco, e o Pena Branca e Xavantinho.

Luciano Pires: Tinha uma puta história, a música vinha com uma história tremenda.

Renato Scarpin: Isso com o samba, é tudo, pasteurizou.

Luciano Pires: Voltamos ao começo do nosso papo aqui, o que que não pasteurizou cara? Cara, eu acho que o que aconteceu conosco é um fenômeno interessante que tem a ver com a gente deixou de ter escassez para ter excesso de tudo, entendeu? Antigamente era muito escasso, um show era uma coisa escassa. Um disco, era uma coisa escassa, tudo era muito escasso. Filme, meu, eu tinha que ir na Blockbuster, antes da Blockbuster, eu tinha que ir na locadora de VHS para alugar um filme, não tinha 10 cópias o filme, tinha 2 ou 3. Então não conseguia, eu tinha que esperar para alugar, quando conseguia alugar levava aquilo para casa, eu tinha que rebobinar. Aquilo dava um puta trabalho. A hora que eu boto aquilo, cara, agora eu vou assistir inteirinho e eu assistia o filme inteirinho por mais bosta que fosse, porque tinha muito pouco. Agora cara, liga Netflix, eu começo os filmes eu largo tudo. Olhei o filme, me encheu o saco, eu vou e largo, porque é muito fácil, é muito barato, não preciso devolver. Música, cara, LP, bolachão, capona, caro para caramba, não cara, vai no Youtube, digita e você pega de graça.

Renato Scarpin: Alexa faz tudo.

Luciano Pires: Caiu tanto o custo de entrada dessa coisa, que ela perde o valor.

Renato Scarpin: Cara, isso é uma coisa que me deixa muito preocupado, porque assim, as crianças hoje, isso eu falo para os meus sobrinhos. Uma sobrinha tem 11, vai fazer 12, quer uma Alexa de natal. Eu falei para ele, mas para que que você quer isso aí? Não porque… eu digo, quanto é 25+… a Alexa fala. Qual a capital…? A Alexa fala. Ascende a luz apaga a luz. Eu falei, tá, e você vai fazer o que?

Luciano Pires: Terceirizou a inteligência né cara?

Renato Scarpin: Você vai fazer o que? Vai ficar comendo bolacha, engordando no sofá, você entendeu? O cérebro, assim como o corpo, se você não exercita nada, você vai atrofiando. E não é à toa que o QI pela primeira vez de uma geração para a outra, diminuiu.

Luciano Pires: Está caindo. No nosso papo anterior ali, quando você estava falando, acho que ela comentou, ou você comentou, que a turma não sabe mal… conta para nós essa história aqui, porque você faz um personagem chamado Cristo, Jesus.

Renato Scarpin: Eu fazia Engolindo Sapo lá Para Um Dia Comer Perereca, fiquei 10 anos. Veio a pandemia, matou assim nossa, para os atores assim, foi um horror, terrível.

Luciano Pires: Palestrantes também, acabou o mundo.

Renato Scarpin: Foi foda. E aí agora eu escrevi Engolindo Sapo 2. Novo texto, novas personagens, e eu brinco no Engolindo Sapo 2, com a questão humana Deus e a humanidade. Então, o Deus eu digo na peça, puts, a humanidade faz tanta cagada, mas tanta cagada que até Deus já entregou para Deus. E aí eu vou brincando com a parte do Velho Testamento, é uma coisa rápida, até poder chegar em Jesus. Eu digo assim, eu acho que o limite de Deus chegou, porque ele tentou de tudo. Se você perceber no Velho Testamento, Deus era mais participativo, ele falava mais com a galera, chamava Noé no canto, queimava a sarça para dar um salve lá para o Moisés, ele era mais… “Egito, se continuar a cagada vão ser 7 anos de bosta nesse país inteiro, então vocês se liguem”. Mas o limite chegou quando ele mandou o próprio filho para cá. E depois da crucificação de Jesus, se você reparar bem, Deus meio que deu uma sumida, nunca mais falou com ninguém. E nessa, eu no espetáculo eu vou falando essas coisas, tal, e faço Jesus. Só que um dia o cara chegou pós-espetáculo, eu vou lá cumprimentar a galera, fazer foto com todo mundo que quer fazer foto, e o cara falou assim, o cara devia ter uns 30 anos, “porra, ri para caramba, engraçadíssimo, muito legal, mas eu queria saber uma coisa, o que que é dilúvio?”. Cara, eu fiquei olhando para a cara dele e falei, eu não sabia se ele estava me zoando, e ele sério, não sabia o que que era dilúvio, nunca tinha ouvido falar em Sodoma e Gomorra. Eu falei, tá, tudo bem, é uma coisa que para quem tem, vai na igreja ou vai no templo, mas assim, não precisa ler a bíblia, eu nunca li a bíblia.

Luciano Pires: Sim, isso está na cultura geral.

Renato Scarpin: Meu Deus, sabe, não estou falando de física quântica.

Luciano Pires: Aí quando você me contou isso eu te contei a história que me contou o Ricardo Jordão, que é o curso, ele dá o curso lá, e ele falou, “cara, eu estou tendo que explicar para a molecada o que que é cupido, quem é cupido. É aquele cara das flechinhas, que flecha coração”. Falou, do que que nós estamos falando aqui, de um público que não tem referências.

Renato Scarpin: Nenhuma.

Luciano Pires: Eu não posso, eu tenho um limite de tempo, eu posso voltar no tempo 5, 6, 10 anos, passou disso cara, não tenho mais referência. Eu vejo esses PodCast de internet, de Youtube, que na verdade é live de Youtube, os moleques conversando. Cara, o cara leva um entrevistado um pouco mais elaborado, o entrevistador não sabe o que fazer, porque o cara não tem referência. “Ah é? O que foi? Eu não sei dessa história”. Como essa história? Eu estou falando do massacre da Praça da Paz Celestial caralho. “Não, como foi isso aí?”. Então, é um resultante de um processo de “emburrecimento” que já vem de lá de trás.

Renato Scarpin: Mas o que mais me deixa louco, sabe Luciano, é assim, o cara não saber eu até, tá bom. O que me irrita é o cara não querer saber, e é isso que você tem visto cada vez mais, o cara não querer, ele não quer. Praça Celestial, o cara não sei o que é. Tá, foda-se. Não brother, não é assim, daqui a pouco você vai ter que aprender a falar Mandarim, porque…

Luciano Pires: Os caras vão dominar o mundo. Eu não como Praça da Paz Celestial, foda-se. Cara, eu já ouvi isso. Outro dia eu botei um post, eu me atrevi a fazer um post explicando a diferença entre este e esse. Cara, o que eu apanhei no post cara, mas me ridicularizaram no post, “quem é você, seu merda que não sabe nem usar uma crase para vir aqui”. O importante é ser entendido. Os caras não sabem que você, quanto mais cru você for, menos você tem chance de entender o mundo, você não tem mais nuance. Se você só conhece duas cores, tudo é preto e branco, não tem cinza na sua vida. Então essa perda, e isso aí se reflete na exigência que o público faz com você. Então como eu faço PodCast há muito tempo, eu sempre tive essa discussão. Pô, mas você tem que fazer um PodCast mais acessível. Cara, espera um pouquinho, eu não quero no meu público gente que veio buscar o PodCast acessível, eu não quero no meu público o cara que está aqui pelo desconto que eu dei. Desculpa cara, se você veio por causa de um desconto, porque está baratinho, eu não quero você aqui. Eu quero alguém que venha aqui para falar, espera um pouquinho, esse cara está me falando uns negócios que estão me incomodando, que eu não sei e que eu vou atrás. E a hora que eu descobrir o que que é, eu vou voltar para dar uma porrada nesse cara, entendeu? Esse é o público que eu quero. E quando você sente que o público está assim, cara, o que que é isso? É um ciclo, no próximo episódio eu tenho que estar melhor do que o anterior, senão o público me pega. Isso me obriga a ter que estar sempre acima. Eu tenho que estar sempre crescendo, eu não posso voltar atrás, eu não posso abrir mão, eu não posso usar truquezinho. Se eu usar truquezinho, meu público me pega, entendeu? Não é um público de 11 milhões, nunca vai ser, mas não é um público que me emburrece cara. Não me emburrece.

Renato Scarpin: É aquela história do Napoleão Bonaparte, que dizia, um grupo de 5, eu quero ser o mais burro.

Luciano Pires: Sim.

Renato Scarpin: E é obvio, esses dias eu falei isso para uma galera, o pessoal do teatro falou, como assim, deixa de ser besta. Eu falei, não, o cara está certo. Não, imagina, ser o mais burro. Falei gente, o cara está certo, porque se ele é o mais inteligente ele não vai para mais lugar nenhum. Se ele é o mais burro, ele tem uma infinidade de coisa para aprender. O cara está certo. E aí você fala, puts, eu vejo as crianças na escola, escola pública chega a dar desespero. É que as pessoas não estão se tocando.

Luciano Pires: Elas não querem ver.

Renato Scarpin: Acho que o Roberto Campos falou assim, o emburrecimento do Brasil não é aleatório, é um projeto muito bem executado e está sendo implementado à risca. Chega a dar desespero. Eu tenho um amigo em Curitiba que tem um filho de 12 anos também, ele tem condições, então botou o filho em uma puta escola pica assim. E ele é chato para essas coisas, então o moleque já lê [MIT], já lê não sei o que, toca piano, e aí cara eu digo assim, não é o dinheiro. Tudo bem, a escola que o moleque estuda lá…

Luciano Pires: …abre oportunidades.

Renato Scarpin: Sim, logico, se todo mundo tivesse a chance de ir para uma escola daquela, seria do caralho. Mas você vê que não é só a diferença de ter grana para botar em uma puta escola, ou vai para uma escola pública. Não, o pai lá incentiva, pega no pé, e o moleque entendeu que ele tem que toda hora aprender mais e cada vez mais. E ele está entendendo a história do Sócrates, quanto mais sei, sei que nada sei.

Luciano Pires: Sim.

Renato Scarpin: Então o moleque hoje tem essa fome de conhecimento. E 99,99% das crianças, não querem, querem o fácil, querem não sei o que. E você fala, se botar numa escola daquela não fica 1 semana, porque não está afim, não está afim de aprender nada. Eu vejo pelos meus sobrinhos, pô brother olha isso aqui. Não, não quero. Como assim você não quer?

Luciano Pires: Isso é um problema. Saiu agora uma pesquisa no mundo empresarial dizendo que essa nova geração Z, a maioria não quer ser líder. Antigamente, eu quero entrar aqui e quero ser o presidente da empresa. Agora não quero ser, por que? Porque meu líder eu conheço, ele só se fode, e se eu não quero para mim, eu não quero ser líder, vou ficar aqui tocando minha vidinha. Então começa a aparecer assim uma, perde-se uma ambição, e aí é muito fácil entender. Eu vou fazer o que? Vou pintar meu cabelo de roxo cara, vou deixar crescer pelo no sovaco, vou dizer que eu sou um abajur e você tem que me chamar de senhor abajur. Em volta dele tem uma pessoa falando que é isso mesmo, tem que ser assim. Então, vira uma, cara, é um mundo inacreditável. Não sei se você viu, está circulando aqui, anteontem ou ontem, uma discussão lá no senado norte-americano, acho que uma senadora ou deputada americana lá, fazendo um questionamento para as 3 [deans], as 3 presidentes das 3 maiores universidades americanas, Harvard, Penn e a outra eu não me lembro qual era, que era a da Ivy League, as 3 que são as bam bam bans, e ela faz uma pergunta para elas, pergunta assim, eu queria saber o seguinte aqui. Manifestações que pregam o genocídio do povo judeu, são contra o código de conduta da sua universidade? E as 3 responderam, depende do contexto. E a senadora subiu pelas paredes, como assim, como depende do contexto? Se tem alguém pregando eliminar uma pessoa por causa da raça, quando é que tem um contexto que isso é aceitável? E as 3, não, não, depende do contexto, depende do contexto. E aí no final depois os caras comentam, bom, troca judeu por negro ou por gay, e veja a mágica acontecer. Só o fato de essa discussão existir, já mostra o nível que nós estamos, porque eu estou perdendo meu tempo, eu não tenho saco. Espera um pouquinho, chegou nesse nível, não. Outro dia o Seifield, ele foi, ele está sendo entrevistado, eu não me lembro se é um PodCast ou o que que é, mas tem um palco, tem um monte de gente em volta, o entrevistador vira para ele e faz uma dessas perguntas. Você está vendo aqui em volta? Está cheio de gente branca. O Seifield fala, não, você não vai começar, não me vem… pelo amor de Deus, eu não tenho mais saco para discutir entendeu? Não é porque eu seja contra esse assunto, é porque não tem cabimento cara, não tem cabimento essa discussão. Mas numa sociedade que está pobre como essa aqui, tem cabimento. Sabe qual é o resultado? É na hora da eleição, eu vou votar em quem me promete picanha e cerveja, porque eu só consigo entender isso cara, a única coisa que eu consigo entender é que vai ter picanha e cerveja. Veio o outro falar das aplicações, não sei o que, que eu vou reduzir o déficit. Ah, nem sei o que esse cara está falando, mas da picanha e cerveja eu entendo.

Renato Scarpin: Não, e você vê, há uns anos atrás tinha uma diarista uma vez por semana lá em casa, ela ficou anos trabalhando comigo lá. Um dia, eu vendo televisão, uma notícia qualquer lá, “desvio de R$ 400 milhões e não sei o que”. E eu falei, “puta que pariu, esse aqui é um país amaldiçoado mesmo né?”. Falei assim, R$ 400 milhões como se fosse… Aí ela, nossa, R$ 400 milhões. Eu falei, você já imaginou R$ 400 milhões? Ela, não sei o que que é isso. Como assim? Bom, para encurtar a história. Até R$ 1 mil reais, R$ 5 mil reais, R$ 10 mil reais, ela tinha a noção do que isso significa. R$ 50 mil reais ultrapassava, olha como isso é sério, ultrapassava a capacidade de entendimento.

Luciano Pires: A capacidade de compreensão dela. Sim.

Renato Scarpin: Eu fui falando para ela, até chegar R$ 1 milhão. Quando ela num esforço absurdo para entender o que era R$ 1 milhão de reais, ela começou a ficar numa indignação, porque ela porra, eu pego ônibus. Eu falei, você pega 4 ônibus para chegar aqui, para R$ 4,40. Você está pagando de imposto R$ 2,00, então você podia pagar R$ 2,40 talvez de R$ 4,40, porque R$ 2,00 são imposto. Então, você está num dia gastando R$ 10,00 de imposto. Agora junta os seus R$ 10,00, mais R$ 10,00, mais o meu, mais… dá R$ 1 mil reais. Junta mais, dá R$ 1 milhão de reais. O cara roubou R$ 400 milhões assim, então é seu hospital, seu ônibus, não sei o que. Cara, ela saiu dali cuspindo marimbondo, porque assim, foi a primeira vez na vida que ela entendeu que ela vai no mercado comprar 1 quilo de arroz, uma lata de azeite, um leite e um pão, se ela não paga nada de imposto, ia sobrar muito dinheiro para ela. E ela se ralando, enfim.

Luciano Pires: Teve uma eleição, eu não me lembro qual delas foi, que assim, as vésperas, estava entrando no processo de vésperas de eleição, já estava… eu não me lembro se era entre uma… estava na boca da eleição, e teve um rolo qualquer, pegaram alguém do PT, bandido, e pegaram um cara com mala de dinheiro, e foi um puta escândalo porque o PT não admitia de jeito nenhum que aparecesse a foto da mala de dinheiro. Falar que roubou não tem problema nenhum, agora não mostre a foto cara.

Renato Scarpin: A imagem.

Luciano Pires: Porque a hora que a imagem aparece, aí a pessoa entende o tamanho da bronca, entendeu? É disso que nós estamos falando cara.

Renato Scarpin: Não eu fiquei assim, porque ela, quando eu vi, quando eu entendi que até R$ 20 mil reais, R$ 10 mil reais ela tinha noção do que isso de dinheiro significa, do que ela poderia fazer com esse dinheiro, e dali para cima ela não… eu falei, nossa. Porque eu mesmo não sabia que o limite era tão baixo. Tanto que uma vez ela queria comprar uma geladeira e ela ia fazer uma prestação Casas Bahia, sei lá onde, eu falei para ela, mas vem cá, você vai pagar quanto? Ela, 24 de R$ 150,00 paus, tá estou chutando, mas era mais ou menos isso. Quanto custa a geladeira? R$ 900,00. Falei, mas vem cá, sua geladeira quebrou? Porque se quebrou e você precisa comprar outra e não tem dinheiro, compreensível. Não, é porque eu quero trocar, está muito velhinha. Mas vem cá, se você pegar R$ 100,00, colocar debaixo do seu travesseiro, em 9 meses você compra a geladeira. Você continua colocando nos próximos 15 meses que vai dar os 24, você compra um fogão, outra coisa… ela não entendia. Falei, então vamos fazer o seguinte, dei o dinheiro, compra a geladeira à vista, e 1 vez por semana, 1 vez no mês eu desconto para te ajudar.

Luciano Pires: Eu fiz uma vez uma palestra em uma produtora de vídeo de um amigo meu, na hora que eu estava fazendo eu estava falando para ele sobre custo de dinheiro, e fui mostrar para os caras como é que funcionava e fiz uma brincadeira com a turma lá. Falei, eu quero saber o seguinte, quem é que tem o celular mais foda, deixa eu ver quem é. O Motoboy tinha um Iphone pica das galáxias. Cara, como assim? Era um motoboy. Quanto você pagou nisso aqui? Estou pagando X parcelas de não sei o que, e eu mostrei aquilo para eles para discutir o assunto, cara, ele não comprou um celular, ele comprou uma passagem para ser bacana, entendeu? Eu sou como os bacanas. Quanto vale isso? Vale o preço do celular e mais um valor embutido gigantesco que eu não sei quanto é, mas que ele está disposto a pagar para se sentir o bacana. Então, não tem matemática nessa história, tem emoção, e se você é levado pela emoção, esse é o grande lance, o trabalho que eu tenho feito aqui há muito tempo, é exatamente falar para o cara, cara bota na sua cabeça o seguinte, você é um otário, eu sou um otário, ambos somos, e não tem como não ser otário. Nós vamos ser otários. Agora, eu quero que você seja um otário consciente, tá? Seja um otário, mas seja consciente de que você está sendo otário, porque não dá para não ser, mas tendo consciência você talvez possa reduzir um pouco do prejuízo. Demos uma volta tremenda aqui cara. Me fala um pouco desse seu mundo aí cara então. Você trabalha como artista?

Renato Scarpin: Há 27 anos, 26 anos, 94 para cá.

Luciano Pires: Que você vive como artista?

Renato Scarpin: Como artista.

Luciano Pires: E você não está fazendo novela, você não está na rede XPTO, que que você fez?

Renato Scarpin: Eu fiz, eu comecei que eu estourei mesmo, quando eu fui para a Globo fazer a minissérie Um Só Coração. Aí ali a coisa, na época você ia para a Globo para ficar famoso. Hoje, você tem que ser famoso para ir para a Globo, porque a Globo precisa de gente famosa. Tem uma piada que eu faço na peça sobre isso até. Aí fiz várias novelas, e eu trabalhei, fiz 5 no SBT, fiz novela na Record, fiz na Band, na Globo. Eu só não trabalhei na Rede TV até hoje, e teatro.

Luciano Pires: E você fez a TV na época então que a TV era o… era impressionante.

Renato Scarpin: A Globo tinha uma força, nossa, imagina quando eu fiz a minissérie eu era par romântico da Maria Fernanda Candido.

Luciano Pires: Sim.

Renato Scarpin: E aí cara, quando foi para ar, coisa assim de 1 semana, eu chegava no hotel o telefone piscando de mensagem, aqui é o cara do Amazonas, eu quero fazer uma entrevista contigo. Aqui é o cara da rádio não sei de onde, Porto Alegre, queria fazer uma entrevista contigo. Aqui é o cara não sei de onde da Paraíba, era uma coisa impressionante, Globo uma potência. Tanto que uma novelada Globo, você pega lá uma época, um Roque Santeiro, 90% de ibope.

Luciano Pires: É uma coisa impressionante.

Renato Scarpin: Eu lembro, eu era moleque, 85, foi quando o Coxa foi campeão, mas eu lembro daquela época porque eu viajava com um caminhão com meu pai, bicho, na hora da novela, do Roque Santeiro, a estrada ficava, os caminhoneiros todos paravam para assistir à novela, a estrada ficava vazia, era uma coisa impressionante.

Luciano Pires: Vamos voltar no assunto aqui, o que que era Roque Santeiro cara? Quem era o roteirista daquilo, quem era o cara que escreveu aquilo lá cara? Você pega um Dias Gomes da vida, você pega, quem era os atores, diretores, era um puta pessoal de primeira linha. Ali não tinha joguinho sabe, não tinha brincadeirinha não, era para botar para foder. E a Globo não economizava, se é para construir uma cidade, eu construo, a gente faz e bota uma grana que é até além. Eu fui lá visitar, eu estive lá no Projac, e cara, quando olhei aquilo falei não é possível, eu vim aqui participar de um programa, eu estou sentado aqui no meu banquinho esperando começar, e tem 35 caras em volta de mim aqui, um puxando o cabo, outro emendando o cabo, outro subindo o cabo. Cara, não tem dinheiro no mundo que pague, essa merda vai quebrar. E claro que aquilo não é sustentável, só era sustentável por aquela loucura toda, propaganda, o cara pagando R$ 4 milhões para fazer um filme de 30 segundos, R$ 10 milhões para veicular, aquilo era um mundo maluco que desandou. Mas tinha uma força de mídia gigantesca, então mudou isso tudo e está entrando em um mundo agora que é um mundo muito doido, porque o padrão de qualidade da Globo deixou de ser a moeda de troca cara. O vídeo está mal iluminado? Foda-se. O som está ruim? Foda-se. Você está falando aqui e latiu o cachorro? Dane-se, dá o conteúdo. Isso é tudo que a Globo não fazia, a Globo era aquela coisa perfeita, agora não importa mais, cara.

Renato Scarpin: Essa época aí do Boni, esse padrão Globo de qualidade que foi referência para todo mundo. E era uma coisa nível internacional mesmo, novela os americanos podem fazer um filme Star Wars que só eles sabem fazer essas coisas e fazem bem para um caralho, porque o americano quando quer, puta que pariu, não tem para ninguém. Mas na novela, a Globo dava de frente, com esse padrão americano. E que aí cara, assim, eu acho que é o problema da qualidade da Globo, não sei se… porque eu quase também não vejo mais televisão assim. Eu brinco, eu ganho para fazer, para assistir eu tenho que ganhar mais.

Luciano Pires: Eu também não sei como que tá cara, nunca mais vi, não tenho a menor ideia do que é novela, não vejo mais noticiário, coisa nenhuma.

Renato Scarpin: Mas a questão é a linguagem.

Luciano Pires: Mas me fala cara, essa coisa aqui. Eu tenho notado uma coisa, e não sei se é porque eu vivo em uma grande cidade, em um grande centro, onde paradoxalmente tudo aqui é mais complicado do que em um pequeno centro. Então cara, para você me tirar da minha casa, para eu ir no teatro Renascence num sábado à meia noite, para assistir à pré-estreia do seu show de stand up cara, só sendo seu amigo bicho, muito amigo seu, porque cara vai ser uma mão de obra. Se eu for de Uber, eu vou gastar uma pá de grana para ir de Uber cara, eu chego lá, é tudo complicado, está tudo muito complicado. E me parece que isso está refletindo nas pessoas, porque não tem mais aquela história, vai estrear uma peça, estala o dedo e vai todo mundo ver. A peça não, o show da Ludmilla os loucos vao, mas a peça de teatro, não. Aquela, a peça vai ficar em cartaz 1 semana, não tem mais, isso parece que a capacidade de mobilização das pessoas está muito menor. Está acabando livraria, está acabando teatro, acabou de fechar o aliança francesa. Então mobilizar pessoas está complicado. Eu não sei se fora do grande centro está assim, me parece que não. Você quando viaja para o interior, é tão raro que quando chega tem a escassez, o povo vai ver. Mas como é que é esse seu modelo cara, para ganhar a vida, para ganhar dinheiro em um cenário como esse, onde ficou difícil assim?

Renato Scarpin: Assim, eu sempre fiz muita coisa, não só o teatro, por exemplo, eu fiz muita publicidade que é um outro ramo que também acabou.

Luciano Pires: Sim.

Renato Scarpin: Publicidade acabou. Se você pegar, não sei se a galera que estiver ouvindo aí lembrar, mas tinha um comercial da Topper, de rúgbi que eu fiz, que pô, a gente fez 5 filmes iniciais, mandou os 5 para Cannes, e 2 foram premiados. Dos 5, imagina, entre bilhões de… que eram comerciais inteligentes, eram comerciais legais. Se você pegar os comerciais do Washington Olivetto dos anos 90, 80, porra, mensagens lindas e frases que ficaram. “Não basta ser pai, tem que participar”.

Luciano Pires: “Não esqueça da minha Caloi”.

Renato Scarpin: Caramba brother, assim, um nível, a publicidade brasileira era top, a top mundial. E eu assim, aproveitei bastante, ganhei muita grana fazendo publicidade. Ator ganhava bem, não tinha, precisava de atores. Hoje mano, você liga a TV e vai ver a publicidade. Nada contra as pessoas, mas é o cara lá que era da Globo, como chama? Enfim, Ivete Sangalo, não sei o que, 5, e desses 5 fazem comercial de telefonia, de carro, de banco, de supermercado, não tem mais texto, não tem mais nada. Se você pega lá os filmes que são imagens de gente dançando, aí coloca um cara de cabelo azul, um outro não sei o que lá, porque precisa, e aí acabou, publicidade acabou. E os caches que eram caches descentes, hoje são ridículos, assim, ridículos, mas era uma fonte de renda. O teatro era uma fonte de renda, porque as pessoas, ainda é, mas assim, no teatro está acontecendo o que você está fazendo aqui com seu PodCast. O nicho está cada dia mais limitadinho, as pessoas que gostam de teatro. O teatro, eu acho que ainda vai dar uma reviravolta, porque eu sei lá, uns 15 anos, eu discutindo com Paulo Goulart e falei, “Paulo, eu acho que teatro acabou, vai ficar os grandes musicais e aquele marginal lá, aquele lá na boca do lixo que só aquela galera que eu falei, punhetas mentais, vai querer ver. Esse teatro que a gente faz aqui, acabou”. E o Paulo me falou uma coisa que eu nunca esqueci, ele disse, “teatro nunca vai morrer”. Eu falei, “pô Paulo, aí ninguém mais quer saber, celular, celular”. “Nunca vai morrer, sabe por que? Porque é ao vivo e é humano”. Porra Paulo. Ele falou, “deixa eu te perguntar uma coisa, você, quantos acidentes de carro você já viu em filme? Carro bater, capotar?”. Eu falei, “filme? 1 bilhão”. “Você lembra de algum?”. “Não, é tudo igual”. “Você já viu algum acidente de carro ao vivo?”. “Já”. “Você sabe me contar com todos os detalhes, por que que você sabe me contar com todos os detalhes?”.

Luciano Pires: Você viveu, você estava presente.

Renato Scarpin: É o gerúndio, está acontecendo, você está ali, viveu. O teatro tem isso.

Luciano Pires: É assistir a final do campeonato no estádio, ou assistir na sua sala, acomodado, na sua TV de 55 polegadas com a sua cervejinha, cara, são duas coisas completamente diferentes.

Renato Scarpin: No estádio, isso vai ficar na sua memória a cada segundo do jogo, cada canto da torcida, é isso. O teatro é isso. Ele está naquela fase descendente agora de, ele vai chegar no fundo do poço ainda, não chegou, porque assim, No Engolindo Sapo eu dizia para a galera, “galera olha só, a peça tem, 1 dia são 24 horas, num mês são 720 horas. Ninguém vai ao teatro 10 vezes por mês, vocês vão vir 1 vez por mês, é ou não é?”.

Luciano Pires: Sim.

Renato Scarpin: Porra, 1 hora das 720, dá para ficar sem olhar esta merda, entendeu? A galera ria, guardava o celular. E no Engolindo a plateia não era problema, mas tem espetáculo que realmente atrapalha, e hoje as pessoas não conseguem se concentrar por 1 hora num texto ali na frente, os atores suando na frente deles, não conseguem. Só que está acontecendo o seguinte, esse afastamento humano, meu irmão que é matemático e fala, daqui a 40, 50 anos, quem vai ganhar dinheiro vai ser vocês os artistas, porque assim, a tecnologia vai estar tão avançada que não vai ter emprego, ninguém vai precisar trabalhar, a energia vai ser mega barata, e com uma energia mega barata construir casa, carro, vai sair muito barato, então todo mundo vai poder comprar qualquer coisa, porque vai ser tudo muito barato. O que que o ser humano vai fazer?

Luciano Pires: Eu vou assistir um show de humor.

Renato Scarpin: Você vai ler, vai ouvir música, vai ver uma peça, você vai precisar desse contato humano. Mas o teatro está agora naquela descendo ladeira abaixo e só Deus sabe onde que vai parar, né? Então assim, mas ainda é uma fonte de renda, e a gente faz, eu e a Marita a gente tem uma empresa chamada Fábrica de Homenagem. A gente faz poesia personalizada. Então você quer homenagear lá a sua mãe, é aniversário dela amanhã, você contrata a gente, a gente manda um questionário, são 5 perguntinhas, o que que ela gosta, como que ela é, de onde ela veio, conta a história da vida dela e a gente pega a vida dela e transforma em uma poesia, uma [odi] a ela. E aí a gente pega essa poesia e grava o poema declamado ou por mim, ou pela Marita. E as pessoas assim cara, enlouquecem.

Luciano Pires: Porque não tem nada igual cara. Eu acabo de passar por uma experiência única na vida, eu fui celebrar um casamento cara.

Renato Scarpin: Eu vi.

Luciano Pires: Eu fui celebrar um casamento. O casal de ouvintes, que me ouve há 10 anos, os 2 juntos, cara, a gente sonhava que fosse você, lá vou eu celebrar o casamento. E vamos, vamos lá, não deve ser tão complicado isso. Uma coisa que eu não contava cara, agora quando eu falo devia ter imaginado que é assim, é o teor emocional de um casamento é um negócio absurdo cara. Eu acho que só velório que é capaz de equiparar sabe, o teor de emoção. São emoções diferentes, mas tem um teor emocional ali que é um negócio impressionante. A noiva entrando e caminhando, e a plateia chorando cara, a plateia em lagrimas porque a noiva está entrando. E você tem que lidar com aquilo tudo, cara, é uma carga emocional que é complicado. Você está acostumado com palco, eu sou palestrante, eu sei muito bem o que é pegar uma plateia fria e uma plateia emocionada, cara, é diferente. E ali eu vivi essa experiência, e para mim ficou muito claro, o que a gente viveu ali não tem chat GPT que entregue cara. Até os erros. Eu fiz fichinhas de papel que eu ia lendo, mas eu tinha que segurar o microfone e a ficha estava difícil, e eu fui botando a ficha na mesa, e aí de repente bate o vento e o vento virou as fichas todas. E ninguém contava com isso. Eu virando a ficha, e o noivo preocupado em pegar as fichas, eu, “não, deixa aí, faz de conta que isso é o tempo passando”. Que surge na hora essas ideias ali, você fala cara, de onde veio isso? Mas tudo isso compõe um quadro. Aí passou uma maritaca voando, não foi ensaiado a maritaca, ninguém ensaiou o tempo, a temperatura não foi ensaiada. O que se sabia é que olha, tudo que estava lá foi programado, mas tem coisas que só acontecem porque está lá presente, pessoas ao vivo. Eu olho no olho da noiva, o olho dela cheio de lágrimas, o meu enche de lágrimas também, isso você não reproduz com inteligência artificial. Até você pode imitar, ela pode imitar, mas quem estava presente ali viveu um momento que não tem vídeo, não tem filme, não tem o que… então isso vai se valorizar cara, é aquilo que eu falo, eu não sairia da minha casa para ir no estádio de futebol assistir o show do Paul McCartney, mas nem que você me pague. Eu amaria ver um show do Paul McCartney, mas com essa loucura, não. Agora, se ele faz um show ali na casa de show de 200 caras, e o cara me cobra uma nota, eu acho que eu sou capaz de fazer uma loucura, pagar uma nota preta, só para estar ali com mais 200 entendeu, pelo fato de estar presente em um momento único ali. O resto… então acho que isso talvez explique o que você está falando aí, talvez o teatro não morra nunca, porque estar presente é a necessidade.

Renato Scarpin: Mas é o que eu digo, teatro se resume a madeira, pano e pó. É isso. O que acontece entre o terceiro sinal e os aplausos, é a mágica. E é isso, eu acho ainda que o jovem vai redescobrir, sabe? Caralho, nossa, é um cinema 3D, entendeu? Porque eles não conhecem. Vou te dar um exemplo, eu fazia um espetáculo agora no começo do ano que chamava Ladrão que Rouba Ladrão, um comedião que a galera ria, mas do começo ao fim do espetáculo, mas riam de passal mal de tanto rir. E era muito engraçado mesmo. E aí eu cheguei para o porteiro do prédio, falei brother, vai ver. As pessoas tem, teatro é chato. Mano, você vai gostar. Não, nunca fui. Então você tem que ir para você ver. Aí ele falou, com uma má vontade, tá. Cara, se você não gostar eu te pago uma caixa de breja, que eu sabia que ele ia gostar porque era um comedião. Bom, foi ele a mulher e o filhinho dele acho que de 5 anos, 5 ou 6 anos, e a peça é adulta. Brother, eles riram, mas riram de passar mal. Isso foi em maio. Ele fala até hoje do espetáculo. E aí ele falou, cara, mas é muito legal. Eu falei, eu falei para você. E ele não tinha noção, ele não conseguia imaginar o que era teatro. E agora que ele sabe ele fica me perguntando, e aí, o que que dá para ver, o que que é legal? Ou seja, e o Jô falava uma coisa engraçada, cinema se você vai para o cinema e vê um filme bosta, você não deixa de ir ao cinema. Agora, você vai ao tetro e vê uma peça bosta, você nunca mais volta, porque o teatro é aquele programa que quando é bom não existe coisa melhor. Mas quando é ruim, não existe coisa pior. E essa experiência do gerúndio, que está ali, o ator erra o texto, fudeu, cai o refletor, não tem o que fazer, para, corta, vamos de novo. Não bicho, está rolando, sabe?

Luciano Pires: E as vezes esse improviso é… outro dia eu botei uma isca intelectual lá do Stevie Ray Vaughan tocando, foi um puta de um solo e arrebenta a corda da guitarra dele, e ele continua, ele está tocando e cantando, e chega numa hora que tem um break da guitarra e ele canta, a corda arrebentou. Nisso o [Roady] já viu, o [Roady] vem por trás dele com a guitarra ele enquanto ele está cantando, tira uma guitarra, põe a outra, o cara conecta o negócio, ele retoma o solo sem parar cara. Quando você… eu fico arrepiado cara. Quando você vê um negócio desse, fala, se eu tivesse naquele show, teria sido o ápice do show, o que que foi? Foi o erro. Aquele erro que aconteceu foi a coisa melhor, mas por que? O cara estava ultra preparado para aquilo, a plateia está entregue. É que nem um negócio que eu tinha até marcado para perguntar para você, que é aquela coisa da diferença de um público. O público que vai para o stand up, eu paguei para ir num lugar para rir. Logo, eu já chego, está virado, o on está acionado. Eu sento lá “boa noite”, rá rá rá, o stand up americano é muito assim, o cara fala qualquer merda, pagaram para estar aqui. Uau. O público está, eu fui para rir, né? Numa peça de teatro, não sei se é assim, se eu paguei para alguém chegar lá e fazer um monte de piada e eu dar risada. Eu fui para me entreter, e eu acho que tem uma seriedade no meio do caminho aí que faz toda a diferença cara.

Renato Scarpin: A comédia, tipo Engolindo Sapo e Ladrão que Rouba Ladrão que eu fazia, é que o Ladrão que Rouba Ladrão eram 7 atores, e era uma história, tal, mas era uma comedia Vaudeville. O meu, é um show solo, e as vezes rola isso, a galera, é comédia, eu quero rir. E aí é engraçado porque no Engolindo Sapo como é solo e eu tenho essa liberdade, eu posso mexer com o público, e eu não faço isso, eu não gosto de essa coisa do stand up que me irrita, pega o cara da primeira fila, como é seu nome, o que que você faz? Advogado, gente se juntar mais 3 é quadrilha. E pega no pé de alguém, pega lá faz o cara de Cristo, isso um pouco me irrita esse tipo de humor, saca? Mas as vezes acontece de começar o espetáculo e a plateia estar com aquela cara de cu. Você fala, hoje vai ser de fuder. Já aconteceu de eu parar um espetáculo um dia, parei assim, deu 10 minutos e ninguém ria de porra nenhuma, mas nada, e a galera com aquela cara assim, me faça rir, saca? Deu 10 minutos, ninguém riu, eu parei o espetáculo e falei, “gente, na boa, na boa, vocês saíram de casa, tomaram banho, pegaram taxi, pegaram Uber, pegaram ônibus, pegaram a puta que pariu, chegaram aqui, compraram ingresso, porra, para ficar nesse mal humor? Na boa, se vocês não se soltarem, vocês combinaram entre vocês?”. Tipo, vamos fuder com ele. Aí riram, porque na real estava todo mundo tímido. E é uma coisa que como eu fiz por 10 anos Engolindo Sapo, foram mais de 1100 apresentações, eu já consigo entender o público, entendeu?

Luciano Pires: Você já sabe a hora que vai dar risada, claro, claro.

Renato Scarpin: E eu vi que era um público que estava mais tímido, que eles estavam com uma cara de, se eu rir, puta, eu vou passar vergonha, saca? Pronto, solta.

Luciano Pires: O Murilo Gun falando para mim, que o Murilo Gun ele entrou no stand up por intenção, ele falou, intencionalmente, eu vou fazer stand up. Não é que ele era um cara engraçado, não, estudou para isso e foi fazer stand up. E depois ele saiu do stand up e foi para outra área fazer palestra, e ele comentando comigo ele falou, o stand upper entra no palco com uma cruz nas costas gigantesca que é a obrigação de fazer a plateia rir. Mesmo que a plateia, eu paguei para ir e rir, eu quero ver se você é capaz de fazer rir. Ele falou, e isso é uma cruz tremenda cara, você começa a fazer, a turma não ri, e aquilo vai ficando pior, pior. Aí tem alguns que abre o bolso do palavrão, começa a botar palavrão, mas ele falou cara, isso me incomodava demais. E na palestra, eu não tenho obrigação de fazer rir, eu tenho a obrigação de fazer pensar. E talvez eu até consiga impactar a pessoa muito mais fortemente do que ela dando risada, mas tinha uma diferença. De qualquer forma a gente deu uma puta volta e voltou ao começo do nosso papo aqui, que é a qualidade da plateia para quem você está se dirigindo, entendeu? Que é uma coisa que me preocupa imensamente, que eu acho que preocupa você. Cara, caiu a qualidade da plateia, nós estamos fodidos. Nós artistas, estamos fodidos cara, quando cai a qualidade da plateia.

Renato Scarpin: Cara, eu digo assim, eu vi o Suassuna.

Luciano Pires: O Ariano.

Renato Scarpin: Ele é uma figuraça, e ele dando uma palestra sei lá onde que ele estava que ele falou assim, eu vi o cara falando que o Tchan é genial.

Luciano Pires: Não foi o Tchan, foi o Ximbinha que era o guitarrista do…

Renato Scarpin: É genial, esse caboclo é genial, eu vou falar o que de Beethoven?

Luciano Pires: Se eu gastar o aditivo para genial, eu vou falar o que de Beethoven?

Renato Scarpin: A gente está nessa fase assim, que está… e o que dá medo é que você não vê a menor perspectiva de mudar. Pelo contrário. Então assim, ontem eu estava falando com esses amigos lá no show que eu fui fazer essa participação no Beverlly Comedy ali, e eu falei para eles, cara, eu entendo que… ah, mas que eu faço lá o personagem Jesus, e porra, texto inteligente, texto inteligente. Eu digo assim, não tem nada de inteligente, eu não estou falando de física quântica, de equação do terceiro… não tem nada disso. Só não é a bagaceira. Por não ser bagaceira, já é inteligente demais.

Luciano Pires: Sim.

Renato Scarpin: Eu falei tá, eu até posso dar uma facilitada, mas eu tenho um limite para baixar, senão eu não… não é só o fato de vai ganhar dinheiro, mas aí eu vou me auto agredir, entendeu? Aí eu vou me sentir agredido, subir no palco para ficar falando, “então, o cu, a buceta”. Tem uns amigos meus, um monte lá que faz stand up e as vezes me mandam uns vídeos, e eu fico olhando aquilo e digo, puta que pariu, eu vou fazer o seguinte, eu vou pegar um Uber e vou trabalhar de Uber, porque isso aqui já não dá, eu não dou conta, entendeu?

Luciano Pires: Com palestra cara, é muito parecido, e o que me incomoda na palestra é eu estar sentado vendo um sujeito horroroso, usando todo tipo de truque barato, e termina a vez dele e é minha vez, e o apresentador vem e fala, “com vocês, o próximo palestrante”. E eu vim na sequência do cara, porra cara, saiu Chico Anysio e o cara falou o próximo, você fala puta merda, olha o palco que eu estou entrando, olha onde eu vou pegar a plateia.

Renato Scarpin: Você vê essa coisa de, uma palestra tem muito de interagir, eu não sei como que é sua palestra, mas a gente interage com a galera. Eu fiz uma vez, eu e a Marita a gente fez uma vez um trabalho para uma fundação de um partido político, que eles queriam mudar, eles queriam botar essa coisa de cota para mulher, que tem que ter não sei quanto de mulher.

Luciano Pires: 30%.

Renato Scarpin: Só que assim, eles falaram, todo mundo faz isso, só que na hora do pega para capar, as mulheres só servem de…

Luciano Pires: Sim, é só para dizer que tem.

Renato Scarpin: Sei lá, 10 candidatas, mas não dão 1 centavo. E eles queriam efetivamente mudar isso, fazer com que as mulheres realmente se candidatassem e fossem representadas de verdade. E aí contratam a mim e a Marita para a gente passar 4 dias, que eles fizeram um retiro não sei onde lá, 4 dias com eles fazendo interações. Eu falei, pô, vamos fazer o seguinte, que eles davam palestras lá o dia inteiro, cursos de política, de engajamento, de não sei o que, legislação, formando novos políticos no Brasil todo. E aí eu falei, pô, vamos fazer assim, primeiro dia a gente vai se infiltrar, e a gente vai fingir que é da delegação de São Paulo, que vem gente do Brasil inteiro, então assim, ninguém conhece ninguém mesmo, só se me reconhecerem da novela, alguma coisa assim, mas eu vou tentar. Então eu fui com óculos escuros, e a Marita assim, e desde as 7 da manhã, e ninguém sabia que isso ia acontecer, que nos demais dias a gente só fazia intervenções com cenas. Eu escrevia uma cena lá e a gente fazia interação. Mas nesse primeiro dia foi do caralho, porque só a advogada da fundação que até hoje já subiu, está em outro plano, e era uma pessoa do grandessíssimo caralho, e o presidente. Nem os…

Luciano Pires: Os outros diretores, ninguém sabia?

Renato Scarpin: Ninguém sabia que a gente ia fazer aquilo. Então as 7 da manhã, todo mundo no hotel lá tomando café, eu já de cara assim gritava Marita, não tinha a nossa inscrição, lógico, a gente não era porra nenhuma, fui lá pegar meu negócio e não tinha. Obvio que não tinha. Até dei um berro, Marita, cadê a porra do… você não mandou a merda do e-mail? Todo mundo olhou, porra…

Luciano Pires: Esse cavalo.

Renato Scarpin: Tratando ela assim. Aí deram um jeito, a advogada veio, desculpa, o que que está acontecendo? Porra, não mandou. Ela falou com as pessoas, me deram o crachá, deram o crachá para a Marita, e a gente passou o dia fazendo isso. Então assim, palestra rolando, cara, foi muito engraçado, palestra rolando, a Marita… quem tem pergunta? A Marita, eu tenho uma pergunta. E a Marita pegava um microfone e dizia, eu queria saber por que que essa garrafa é azul e transparente? Eu, dá o microfone aqui, ela quer saber por que que a garrafa é transparente e o negócio aqui é azul? Mano, isso foi irritando as mulheres todas, tinha homem e mulher do Brasil inteiro. Um olhava para a cara do outro, e chegou no final do dia, as mulheres, e a gente cochichava um com o outro, na época a gente era casado. Falei assim, amor, eu não vou sair vivo daqui, porque elas estão assim, todos os megatons para eu desaparecer. Final do dia, a advogada foi fazer uma dinâmica lá, ela falou, quem quer participar? 4 mulheres, e ela chamou 4 mulheres. Agora, vocês podem escolher um cara para participar. Ele, ele, porque elas queriam me enforcar porque eu passei o dia inteiro maltratando a Marita, sendo grosso, estupido e tal. Aí chega na dinâmica, a dinâmica era assim, bom, você é homem ela é mulher. Vamos inverter o papel. Aí era uma gaúcha, delegada lá gaúcha, ela virava para mim e dizia assim, você é uma burra, não sei o que lá, como eu fazia com ela. Eu, desculpa, eu errei. Não sei o que, desculpa. Eu fazendo o bonzinho. Mano, essa menina, se ela tivesse armada juro por Deus que ela teria me dado um tiro na fuça.

Luciano Pires: Hoje você tomaria um tiro.

Renato Scarpin: A coisa começou, aí já era final do dia, as mulheres começaram a se revoltar porque eu sínico para caceta, maltratei ela o dia inteiro, e aí nessa dinâmica eu sendo bonzinho, desculpa, não sei o que, não sei o que lá. Elas começaram a entrar num alvoroço, a advogada teve que parar e falar, gente, Renato e Marita são atores, foram contratados. Ai… Bom, onde eu quero chegar com isso? A advogada falou, por que é que ninguém aqui, o que que você sentiu o dia inteiro? As mulheres, não, absurdo, porra, esse cara maltratando ela, e não sei o que, ninguém. Nenhum homem, nenhum vagabundo, mano, porque homem é bicho cagão, nenhum chegou para mim e falou assim, porra mano, maneira aí o jeito. As mulheres, nenhuma veio falar comigo, mas quase todas foram falar com a Marita. Você está bem, não sei o que, você está precisando de alguma coisa? E foram dar uma assistência para ela. E aí a advogada comentou, por que? Por que que vocês não fizeram nada? E aí foi a coisa mais louca, alguns homens dizendo assim, não, porque eu olhei para ele, porra, esse cara bonitão deve ser filho de algum senador pica, está com a secretária. Outro falou não, deve ser um cara foda de Brasília e trouxe a puta junto. E aí eu falei, você vê como que são as cosias, vocês todos me julgaram um cara pica, porque eu me impus o tempo inteiro sobre ela. E na real, vocês estão querendo cargo político, era um partido de esquerda, vão querer ser candidatos para defender, e vocês não defenderam aqui. Aqui, entre vocês mesmos. E aí que a gente viu o como pessoas daquela fundação que são pessoas de certa forma esclarecidas, que tem a intenção de melhorar o mundo, não fazem nada em relação a nada.

Luciano Pires: Que está a alguns centímetros dela.

Renato Scarpin: Ali.

Luciano Pires: Sim, na cara delas.

Renato Scarpin: O coitado lá que eu digo, as crianças estão indo para escola, ou trabalhador comum, esse bicho, ele está fodido que o lance dele é chegar em casa, comer qualquer coisa, e ver novela e dormir.

Luciano Pires: Ter picanha e ter cerveja.

Renato Scarpin: E se não tiver picanha e cerveja, ele vai comer miojo com salsicha e tá bom, entendeu? Então assim, a gente não tem, eu vejo assim, que é o que me assusta, a menor perspectiva de melhora. Pelo contrário, a tendência para mim é piorar. É o George Orwell em 1974 na veia, quanto mais você diminui a quantidade de palavras, você diminui o intelecto, você diminui não sei o que, e vai ser um bando de zumbis, é isso que a gente vai ser, come, dorme, caga, dorme, e é isso.

Luciano Pires: Eventualmente trepa, porque nem isso mais… já está se questionando, né? É meu cara, mas tem alguns caras fazendo o papel deles aí, eu estou fazendo o meu, acho que você está fazendo o seu no seu show. Acho que a gente vai…

Renato Scarpin: A resistência, porque para mim essa é a verdadeira resistência.

Luciano Pires: Eu acho que sim, e é duas independentes. Para mim, se tiver algum futuro, ele está nos independentes. Quem vai criar tendência, quem vai definir para onde vai, são os independentes. Esses malucos que se viram por conta própria, e até que o cara desponte, fique famoso, aí o sistema vem e come ele. Contrata, paga, bota ele dentro do jogo e acabou ali.

Renato Scarpin: Você vê, diz que ano que vem vai vir aquela tempestade solar que vai derrubar a internet no mundo.

Luciano Pires: É uma puta oportunidade cara.

Renato Scarpin: Assim, eu digo puta, hoje o que que é melhor para o mundo? A revolução zumbi, que ela venha logo, entendeu? Porque assim, pelo menos os zumbis você pode dar uma paulada na cabeça e não vão achar ruim, porque hoje são os zumbis que você não pode dar uma paulada na cabeça.

Luciano Pires: Você tem que andar igual a eles aí.

Renato Scarpin: Entendeu?

Luciano Pires: Meu caro, dá para fazer um papo aqui que vai até longe. Quem quiser conhecer seu trabalho, te seguir, saber da agenda de shows, como é que faz? Você está em redes sociais?

Renato Scarpin: No Instagram, @renatoscarpin, igual sapato. E tem o Instagram do espetáculo que é @engolindosapo. E eu vou reestrear agora dia 13 de janeiro, e vou ficar 3 meses lá no teatro Rute Escobar, todos os sábados às 20:30. É uma salinha pequenininha, aconchegante. Foi lá que eu comecei o Sapo 1, e fiquei naquela salinha quase 6 anos direto, de janeiro a dezembro, fazendo sexta, sábado e domingo fazendo direto.

Luciano Pires: Quantas pessoas cabe nessa salinha?

Renato Scarpin: Umas 100 pessoas, é bem aconchegante.

Luciano Pires: E você conseguia botar 100 sexta, sábado e domingo?

Renato Scarpin: Cara, eu fazia sexta, sábado e domingo, fazia sessão extra na sexta, sessão extra no sábado, e eventualmente sessão extra no domingo do Engolindo Sapo 1.

Luciano Pires: Isso acontece por causa do boca a boca? É o boca a boca, não é você gastando dinheiro em propaganda, pagando mídia que nem um alucinado não, é o boca a boca?

Renato Scarpin: É, porque assim, Engolindo Sapo 1 foi um puta sucesso, foi muito legal. Tanto que as pessoas me pediam para escrever o 2. Porque o 1, falei, não dá para voltar porque os temas já também deram uma envelhecida. Então, o mundo está diferente, então, e agora está rápido, essas mudanças são rápidas. Mas a galera pode seguir lá no Instagram, @renatoscarpin, ou @engolindosapo, e aí assim, a gente vai estar, Engolindo Sapo estou escrevendo um texto novo, não, já escrevi, estou começando a produzir, esse vai ser aquele que se fizer sucesso, me leva para a cadeia.

Luciano Pires: Tá certo, então tá bom, então está em cima da linha, está no limite. Meu caro, grande papo, valeu pela presença.

Renato Scarpin: Eu que agradeço, o convite foi sensacional.

Luciano Pires: Vamos trocando ideia, eu vou te assistir lá, dessa vez eu vou.

Renato Scarpin: Você vai gostar, você vai curtir.

Luciano Pires: Abraço.

Renato Scarpin: Abraço.