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Luciano Pires -

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite, bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreenedorismo com gente que faz acontecer. No episódio de hoje temos Sérgio Siqueira, um ouvinte do Café Brasil que se tornou um querido amigo. Sérgio tem uma história ótima de alguém que, pela educação, descobre seus talentos para o “do it yourself” e, a partir da criação de soluções, migra de funcionário de grandes empresas para se tornar ele próprio dono da sua: uma fábrica de massas que é uma joia. Sérgio tem uma visão muito clara sobre a importância do autoconhecimento e da simplicidade para o exercício de uma liderança, e por consequência gestão eficiente. E tudo isso, baseado em livros. Que bate-papo delicioso. Muito bem, mais um LíderCast, começando como sempre contando como é que o meu convidado veio parar aqui hoje. Isso aqui é um caso antigo cara, Serjão já é amigo do coração, e está com a gente participando aí das ações que a gente faz, nosso MLA e tudo, e outro dia ele me convidou para ir almoçar, aliás outro dia não, ele me convidou para ir almoçar centenas de vezes. E outro dia eu fui, fui conhecer a empresa dele lá, uma joia, “pô Sérgio, sua história é uma história para LíderCast cara, vamos lá?”. “Não, acho que não”. Vamos lá, estamos aqui hoje, lembra como é que começa, né? Começa com 3 perguntas, as únicas que você não pode chutar, o resto você chuta à vontade. Seu nome, sua idade e o que que você faz?

Sérgio Siqueira: Então, eu me chamo Sérgio Siqueira, eu tenho 62 anos e sou empresário, tenho uma fábrica de massas há 32 anos.

Luciano Pires: 32 anos.

Sérgio Siqueira: Eu que fundei, é.

Luciano Pires: Você é fundador dela?

Sérgio Siqueira: Fundador, é.

Luciano Pires: Nasceu onde Serjão?

Sérgio Siqueira: Eu nasci em Santo André.

Luciano Pires: No ABC?

Sérgio Siqueira: No ABC.

Luciano Pires: Legal.

Sérgio Siqueira: Hoje a indústria fica na cidade de Santo André e tenho um prédio comercial, que é onde fica todo o pessoal comercial, que é em São Caetano, que é perto também.

Luciano Pires: Sim. Serjão, tem irmãos?

Sérgio Siqueira: Eu tenho 2 irmãos, eu sou o mais velho, tenho meu irmão Fernando que é segundo, e depois tem a Cida que é a terceira.

Luciano Pires: Você falou sua idade?

Sérgio Siqueira: 62.

Luciano Pires: Tá bom. Seu pai e sua mãe faziam o que?

Sérgio Siqueira: Meus pais, eles vieram da Europa na época da Segunda guerra, eles vieram convidados, meu pai veio de Portugal e minha mãe veio da Itália.

Luciano Pires: O Siqueira vem deles?

Sérgio Siqueira: O Siqueira vem do meu pai, meu pai é português. Lá em Portugal ele chamava Sequeira, com E. Aqui no Brasil, virou com I. Mas meu pai é português, eles se encontraram aqui no Rio de Janeiro, e muito pobres, semianalfabetos, e pouco dinheiro, pouca escola. E daqui a pouco vieram para São Paulo, meu pai sempre foi operário, minha mãe sempre trabalhou em casa, fazia costura, essas coisas.

Luciano Pires: Seu pai trabalhou no ABC, nas montadoras?

Sérgio Siqueira: Meu pai trabalhou 11 anos na Pirelli, foi o primeiro emprego dele aqui em São Paulo, e depois ele teve uma lanchonete por alguns anos.

Luciano Pires: Virou empreendedor depois?

Sérgio Siqueira: É, lanchonete, só que acabou que ele tinha problema de alcoolismo, então acabou que se perdeu o negócio.

Luciano Pires: É aquela história, já passaram por aí alguns que tem uma história parecida com a sua, e eu digo o seguinte, no mínimo ele te ensinou o que não fazer.

Sérgio Siqueira: Exatamente, o caminho do que não fazer eu já sei. Isso me ajudou muito, não fico triste não, me ajudou muito, porque foi… eu acho que tem uma história bonita para contar. Ela vem muito por aí mesmo, da dificuldade surge uma coisa interessante aí pela frente.

Luciano Pires: Qual era o seu apelido quando era criança?

Sérgio Siqueira: Eu era quietinho, pequenininho, então era Serginho.

Luciano Pires: Serginho. Pouco criativo.

Sérgio Siqueira: Mas era o que eu tinha, não tinha outro.

Luciano Pires: O que que o Serginho queria ser quando crescesse?

Sérgio Siqueira: Pois é, você sabe que eu era o cara que via um relógio quebrado, eu ia desmontar o relógio. Pegava o relógio, desmontava, se dava para consertar eu consertava, senão eu montava e deixava lá.

Luciano Pires: Mas você conseguia montar de volta?

Sérgio Siqueira: Montava de volta.

Luciano Pires: Você tinha a pegada? Porque eu fazia isso quando era moleque, eu desmontava os brinquedos e quando montava ficava peça sobrando.

Sérgio Siqueira: Eu sempre tive habilidade manual, desmontava as coisas, montava, consertava as coisas, tinha uma tomada eu ia lá, tirava e tomada, sempre muito habilidoso desde pequeno. Eu sabia disso, mas eu não acreditava nisso, porque a família, não só meus pais, mas meus tios, era todos operários, família operária. Então aquele era o mindset da época, da família. Eu sempre soube de um certo potencial aí, mas não acreditava nele.

Luciano Pires: Então, mas isso te apontava para onde cara? Te apontava o seguinte, eu sei desmontar, eu sei fazer as coisas aqui, logo quero ser engenheiro.

Sérgio Siqueira: Você já deve ter visto essa história várias vezes. A família de um alcoólatra, porque hoje eu sou totalmente em paz com essa questão, mas quando eu era pequenininho, ela um ambiente hostil, minha casa era sempre a pior casa da minha família e tudo mais, então a gente sempre estava meio recolhido, meio quietinho. E eu tinha um tio lá, meu tio Alécio, ele era um cara que falava de filosofia, falava de livros, falava, e eu adorava ver o cara falar. E meus tios tudo virava assim, esse cara só fala bobagem. Poxa vida, o cara está falando um negócio interessante, eu adoro o que ele fala, eu falo que ele é meu segundo pai, ele não acredita até hoje. E ele falava umas coisas interessantes, ele lia muitos livros e eu ficava admirado de ver ele falar, gostava de ver o cara falar, as reuniões. Ele ia embora, metralhavam o cara que só falava bobagem, muita conversa e tal. E na verdade não, na verdade ele estava falando de filosofia mesmo, de pensadores. E poxa, eu me conectei com isso aí. Então, eu comecei a despertar porque que todo mundo não olha para o cara, e eu gosto do que o cara fala. Comecei a me despertar assim. E quando eu tinha lá pelos 17 anos assim, então o problema de alcoolismo se acirrou, eu não quero mais morar nessa casa, não quero mais essa vida para mim, eu quero ter dinheiro, quer ter uma casa legal, quero ter uma família legal. Então eu me casei rápido, achei uma moça lá e me casei.

Luciano Pires: Para sair de casa.

Sérgio Siqueira: Para sair de casa. Então quer dizer que foi uma coisa muito… porque geralmente você namora várias meninas, e vai casar mais tarde, mas eu casei cedo e puxa, fiquei feliz, saí de casa. Aí montei minha própria casa, então eu morei de aluguel durante o primeiro ano de casado, e depois eu comprei uma casa que só tinha as paredes e as portas, e não tinha chão. Quer dizer, o chão era de cimento.

Luciano Pires: Que idade você tinha?

Sérgio Siqueira: Eu tinha acho que uns 24, 25. E o tempo vai passando, vai esquecendo. Aí falei, bom, é essa casa que eu posso comprar e eu comprei essa casa. Falei, eu vou mobiliar a casa. Meu avô era marceneiro, e eu via… o único avô que eu conhecia era marceneiro, e eu via ele trabalhando lá nas máquinas, fazendo as coisas e tal. E ele me ensinou a fazer 45 grais das portas. Eu como era habilidoso, eu comprei uma bancada, comprei uma serra circular e eu mesmo fiz meus próprios moveis de quarto e de cozinha, recém-casado.

Luciano Pires: Você já trabalhava com o que na época?

Sérgio Siqueira: Eu trabalhava na Pirelli.

Luciano Pires: Seguiu o caminho do seu pai?

Sérgio Siqueira: Não do meu pai, porque eu já tinha feito curso técnico, eu fiz curso técnico de eletrônica e depois curso superior, fiz Engenharia Eletrônica. Naquela época, já tinha feito curso técnico, 17/18 já estava na faculdade, mas entrei como estagiário na Pirelli. Acabou que quando eu comprei essa casa, estava contando que comprei uma serra circular e fiz o guarda-roupa, fiz mesa, fiz armário de cozinha, porque era o jeito que eu tinha, paralelamente tinha um pedreiro colocando piso, o portão, e montei minha casa desse jeito aí. Então com 1 ano de casado eu já tinha casa própria totalmente montada, 1 ano e meio mais ou menos. E foi bem na época do plano Collor, que para muita gente foi ruim, mas para mim foi excelente. A sua história é meio parecida, porque eu nunca fui no banco, raras vezes na minha vida eu tomei dinheiro emprestado no banco. Houveram algumas vezes, mas foram pouquíssimas vezes. Eu falei para o cara, olha, ao invés de pegar no banco, eu te dou 14 cheques. Você vai descontando 1 por mês. Tá bom, e o cara aceitou, eles olham que eu estou fazendo a coisa com carinho, com honestidade assim, eu tenho muita facilidade de transparecer a honestidade, e o cara aceitou. E 1 mês depois o Collor pegou o dinheiro, o cara ficou desesperado. Falei olha, o que que eu vou fazer? Eu te faço 50% de desconto, você arruma o dinheiro e me paga 50%. Eu catei dinheiro com a minha família lá, é um dinheiro que eu tinha para fazer os moveis, dinheirinho pouquinho, e paguei minha dívida que era mais ou menos uns 40% da casa, acabou saindo pela metade.

Luciano Pires: Só para o pessoal que está ouvindo a gente não ficar boiando aqui, o meu lado da história, eu comprei, vendi tudo que eu tinha e comprei uma casa. Mas assim, tipo assim, do dia para a noite eu não tinha mais carro, telefone, vendi tudo e comprei uma casa, e assumi uma dívida com um cara em dólar, e ele me deu notas promissórias, ou eu dei notas promissórias, e eu recuperava cada uma delas. Era uma dívida em dólar, acho que eram 12 parcelas de U$ 500 dólares, que era uma nota naquela época. O Collor vai, baixa o plano Collor, e o dólar fica 1 para 1 no dia seguinte. Então minha dívida que sei lá, era U$ 6 mil dólares, virou 6 mil dinheiros, reais na época. Então do dia para a noite. Como eu fiz, eu acho que o gringo, o americano pensa diferente cara. Americano, deal é deal, não tem essa de chorar, me ferrei. Ficou quieto, e eu acabei levando vantagem com isso aí. Mas aí, você é o cara do “do it yourself” então, não tem problema de pegar e fazer?

Sérgio Siqueira: Não, nunca tive esse problema. Aliás, é uma característica minha, de fazer mesmo. Então eu fiquei uns anos aí nessa casa, depois eu logo vendi essa casa e já comprei outra. Só que antes, terminei de fazer o móvel e fiquei nessa casa aí. Aí a Pirelli me convidou para ir para Porto Alegre. Então aluguei essa casa e fui morar de aluguel em Porto Alegre.

Luciano Pires: Você foi para o Rio Grande do Sul?

Sérgio Siqueira: Foi lá que eu conheci seus e-mails, foi de lá que alguém que trabalhava na Dana que me indicou você, e eu, “pega e-mail desse cara aqui, tal”, e desde lá eu te acompanho.

Luciano Pires: Que ano era isso?

Sérgio Siqueira: 92, 96. Isso aí. 94 acho que era.

Luciano Pires: Foi comecinho e era comecinho de tudo, era comecinho da internet.

Sérgio Siqueira: Comecinho de tudo, exatamente.

Luciano Pires: Que eu comecei, eu soltava um e-mail semanal com textinho, era e-mail mesmo.

Sérgio Siqueira: Eu guardava, eu tinha uma pasta que eu guardava todos os e-mails.

Luciano Pires: Não tinha tratamento nenhum. Que legal.

Sérgio Siqueira: Aquilo sempre ajudou muito a criar, porque como eu não tive muita base lá na primeira infância, então minha base foi essa daí, de pesquisar e procurar me formar emocionalmente, e com cultura mesmo.

Luciano Pires: Você estava crescendo na empresa?

Sérgio Siqueira: Eu estava crescendo, sabe por que? Como eu era habilidoso, então o primeiro trabalho que eu fiz na Pirelli aqui em Santo André ainda quando eu era estagiário, eu tinha um serviço lá que o cara apertava um botão, cada 10 minutos ele tinha que ir lá apertar o botão 30 segundos. Eu olhei para aquilo lá e falei, eu posso fazer um negócio eletrônico que ao invés de o cara ir lá toda hora, e o cara as vezes ia para o banheiro, apertava com 12 minutos, era um teste de falha. O cabo, era Pirelli Cabos, e o cabo tinha que ir até explodir, tinha que ir subindo a energia do cabo até explodir. Então ele apertava o botão a cada 1 minuto, ele apertava o botão durante 2 ou 3 segundos, uma coisa assim, não me lembro direito. A cada 10 minutos ele apertava o botão durante 30 segundos, esse era o tempo. E eu peguei e fiz um circuitinho eletrônico lá, que não precisava ter ninguém, não precisava ter o operário que ficava a noite inteira apertando o botão, atrasava porque ia no banheiro, não precisava ter ninguém mais. O dispositivo eletrônico, quando eu mostrei aquilo lá, os caras ascenderam, esse moleque estagiário aí, já resolveu um problemão, porque tinha que manter o funcionário a noite inteira. Depois ele fazia 1 teste por vez, porque tinha que ter 1 funcionário por vez. Aí eu coloquei um sistema de cercas lá, e ele fazia 6 testes por vez. Então fazia 6 testes por vez, cada teste era um robozinho desse aí, e os caras falaram, esse é o cara. Aí comecei a crescer, por causa desse trabalho comecei a crescer e tal. Houveram outras coisas, a Pirelli as vezes vendia, mas não tinha o que vender, historias antigas né? Então você tinha que mostrar para o cliente que tinha o que não tinha, porque estava fazendo aqui. Não é que não tinha, estava fazendo. Aí eu tinha que fazer meus jogos eletrônicos, para que acontecesse, que o cliente visse o que ele tinha que ver. Não que, a Pirelli sempre honrou tudo que fazia, mas muitas vezes estava fora do prazo. Então com essa coisa, eu fui ascendendo. Me mandaram para Porto alegre, tinha embaixo de mim 600 pessoas. Com 26 anos, que eu fui para Porto Alegre.

Luciano Pires: Você virou chefe do dia para a noite?

Sérgio Siqueira: É, para implantar o sistema de qualidade lá. Então estava estudando estatística, sistema de qualidade, e fui para lá, Sapucaia, perto de você lá. Você estava em Gravataí, pertinho lá. Então a fábrica era Sapucaia, então tinha um monte de gente lá. O cara falou assim, se a gauchada lá não fizer o que você está mandando, demite. Eu falei, puts grilo, demitir? Nunca demiti ninguém, como que eu vou demitir? Aí começava a ver que os gaúchos lá viam um paulista novinho, sem barba. Aí eu deixei barba, coloquei óculos, que eu não uso óculos, mas coloquei óculos lá sem grau para parecer um pouquinho mais velho. E eu comecei a demitir, porque eu não conseguia fazer meu trabalho. Ou eu faço meu trabalho, ou tenho que fazer de algum jeito. E eu sou tarefeiro, você me dá uma tarefa, eu vou lá fazer. Eu tinha demitido 50 lá, aí veio uma amiga minha, uma amigona daquela época, era do RH, ela não era funcionária da Pirelli, ela era terceirizada, ela falou, “Sérgio, você está demitindo gente demais, os caras vão trabalhar armados, eles deixam a arma na portaria. Uma hora você vai ter um problema aí”. Aí eu vi a gravidade do momento ali, falei muitas vezes eu tenho capacidade técnica, mas não tenho capacidade emocional para conduzir aquilo. “Vai fazer terapia”, ela me sugeriu. Aí eu fui encontrar uma psicóloga, e fui fazer terapia. Nunca tinha contato om isso, e fui lá fazer, ela me indicou a psicóloga e fui lá. Eu falo que essa mulher salvou minha vida, porque ela me introduziu no mundo do autoconhecimento. Então naquela época, a metodologia que ela usava, porque tem Freud, Jung, a metodologia que ela usava era análise transacional, que é de Eric Berne.

Luciano Pires: Era o que estava na época.

Sérgio Siqueira: E eu uso até hoje isso aí, é uma coisa que é extremamente importante para as pessoas que se relacionam. Quem que não se relaciona? Todo mundo se relaciona, ou com a família, ou com os empregados, com os bancos, tudo é relação. Não sei se você sabe, a análise transacional, ele tem, como é uma relação, são 2 elementos, 2 relacionados. Então imagina que você tem 3 bolinhas, o pai, adulto e criança. Então você tem o estado emocional de pai, estado emocional adulto, e estado emocional criança. Os dois tem. Então nós dois estamos agora no estado emocional adulto, nós estamos tendo uma conversa adulta. Mas por exemplo, se eu te pergunto assim, “Luciano, que horas são?”. Você fala assim, “a esma de ontem”. Então você está me respondendo de uma forma infantil, então você se transformou naquele momento em um estado emocional infantil, criança. Então você está infantilizando a nossa conversa que estava em um nível adulto, “que horas são? A mesma de ontem”. Então, por que que você está fazendo isso? Eu tenho que tentar entender por que que você está fazendo isso? Porque você está tentando me infantilizar, você está infantilizando aquela relação, por que que você está fazendo isso? Por que que eu estou te entendendo como criança, quando você… Então essa análise, ela leva a uma melhoria na comunicação. Se eu te pergunto, “que horas são?”, você fala, “você não tem relógio”, você está me respondendo como pai. Você não tem relógio? Fazendo uma cobrança. Então isso acaba me colocando em uma outra situação, depende como eu reajo a sua reação a pergunta.

Luciano Pires: Duas crianças, vai sair tapa.

Sérgio Siqueira: Por exemplo, quando você está em uma relação sexual, um namoro entre casais, quanto mais criança tiver os dois, melhor, porque você vai voltar para o estado criança. Então as vezes estar no estado criança é bom, as vezes estar no estado adulto, é bom. Então quando você percebe que estado emocional que você está, você passa não só a conduzir o seu estado emocional, como conduzir a própria reunião mesmo. É muito interessante isso, me ajudou demais e me ajuda até hoje.

Luciano Pires: Mas aí você de posse desse conhecimento, você pode mandar embora?

Sérgio Siqueira: Não, mas eu comecei a conduzir os trabalhos de uma outra forma. Então, quando você não tem conhecimento, é ogro, você não fez, vai embora. Quando você tem ferramental, então você começa a ter outro tipo de comportamento diante de uma determinada situação. E tudo é relação, tudo é relacional. Então mudou muito. Então eu cresci de novo lá na Pirelli, porque eu comecei a resolver os problemas, fiquei lá 6 anos.

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar, você ficou 6 anos lá no Sul, e aí?

Sérgio Siqueira: Depois eles começaram a fechar a empresa, a fechar aquela fábrica e aquele tipo de cabo, ia fichar, voltei para São Paulo. Quando eu voltei…

Luciano Pires: Essa informação é importante, eram cabos?

Sérgio Siqueira: Cabos.

Luciano Pires: Você trabalhava com extrusora, essa informação é importante.

Sérgio Siqueira: Você sabe, né? Pois é, quando eu vim para São Paulo, depois de alguns meses, eles fecharam a empresa inteira, a fábrica inteira de cabos daquele tipo de cabo. Então foi mandado 70 pessoas embora no mesmo dia, inclusive meu gerente. E falei, e agora, o que que eu faço? Depois de mais de 11 anos trabalhando, eu não sabia o que que era procurar emprego. Eu não estava olhando para o mercado, eu não estava nada, para mim eu ia ficar naquela empresa para o resto da vida. Adorava aquele trabalho, um abiente bom e tal.

Luciano Pires: Mas você é um cara, eles não te aproveitaram? Ou veio aquela história…

Sérgio Siqueira: O que se passa é que a Pirelli naquela época começou a entrar em uma crise, que cortava todo mundo, inclusive meu gerente que era antigo de casa e tudo mais, eles não tinham muito… que é o seguinte, entra uma equipe, ele traz a equipe dele. Então veio um cara que veio de Sorocaba, ele trouxe todo mundo de lá, e ficou uma coisa política mesmo.

Luciano Pires: Essa é a comédia corporativa, jogo corporativo.

Sérgio Siqueira: Exatamente, e muito triste, sabe? Fiquei muito triste mesmo quando eu saí, porque eu não estava esperando sair, sabe?  Sempre fiz um bom trabalho e tal.

Luciano Pires: Você estava casado ainda?

Sérgio Siqueira: Casado ainda e tinha dois filhos, naquela época meu filho Flavio que hoje trabalha comigo, já trabalha há mais de 15 anos comigo, ele mora no Canadá hoje, mas ele trabalha de lá comigo. E tenho uma filha, Renata, que também mora no Canadá, mas ela trabalha no banco, não trabalha comigo não. Pois é, aí fui demitido, falei, o que que eu faço agora? Estava completamente desatualizado, perdido mesmo, porque eu não sabia o que estava no mercado, não sabia o que estava rolando, não sabia, só olhava para o meu trabalho na Pirelli.

Luciano Pires: E você foi demitido lá?

Sérgio Siqueira: Não, aqui em São Paulo. Voltei, eles fecharam a fábrica lá. Depois de 1 ano e meio, fecharam a fábrica aqui. Aí eu vou atrás de procurar emprego, achei emprego em uma concorrência, uma empresa de cabos também, era uma empresa japonesa. Lá nesta empresa japonesa, eu fiz o melhor trabalho da minha vida, por incrível que pareça. Fora o da Franccini, que é da minha empresa, mas lá eles tinham, era uma empresa japonesa, então era um monte de japonesinho, os caras com uma pilha de papel em cima da mesa. Você não via os caras, porque era muito papel, e eu fui sempre muito organizado, mesa limpa. Beleza, aí um dia, eu estava fazendo meu trabalho, lá eu era gerente de produção. E o japonesinho que era o dono, quer dizer… tinha o filho e o pai, o pai era o dono da empresa, dessa fábrica de cabos, e o filho era meu chefe lá, muito bem. E o cara chamou, “você não trabalha?”. “Como não trabalho?”. “Mas eu não estou vendo nada na sua mesa”. Eu falei, “meu trabalho está lá na fábrica, não está aqui na minha mesa. Você quer ver? Vamos lá”. Aí eu levei o japonesinho, o cara nem andava direito assim, o senhorzinho, fundador. Porque lá eles trabalhavam com… não sei se você já leu o livro, aquela época eu tinha lido o livro A Meta, muito interessante esse livro, fez uma grande diferença na minha vida. Lá eles tinham máquinas trabalhando em série. Então por exemplo, ele fazia o fio, depois a capa, depois a embalagem, depois enrolava, depois a gravação, e tinha tudo em série. Se uma máquina quebrasse, parava a linha inteira. E tinham máquinas rápidas e tinham máquinas lentas, então quem que mandava na linha era a máquina mais lenta, porque ela estava na linha. Então a máquina rápida tinha que andar lento, por causa da máquina lenta, porque eles estavam em série. E eu pedi para o filho desse fundador da empresa, dá um conjunto de máquina para mim que eu vou colocar elas em paralelo. Então por exemplo, uma máquina que trabalhava muito rápido, ela trabalhava sozinha. Uma máquina que trabalhava um pouco mais lento, ela tinha duas. Uma mais lenta ainda, ela tinha 4, entendeu? Então eu colocava para uma máquina rápida, eu colocava por exemplo 4 máquinas lentas em paralelo. Se uma quebrasse, tinha 3 ainda rodando. Então, trabalhando em paralelo, todo mundo trabalhava na máxima, ao invés de a velocidade média da linha ser de 40 metros por minuto, ela passou a ser 600 metros por minuto.

Luciano Pires: Quanto?

Sérgio Siqueira: 600, para você ter uma ideia. Então, esse foi um trabalho lindo que eu fiz na minha vida. Era fio de construção civil nessa empresa aí, fazia fio também, mas era construção civil. Então, era muito rápido. E aquilo lá zunia, mas se fizer errado? Mas não pode fazer errado, tem que fazer o setpoint da máquina, tem que ser certinho, para o cara não fazer errado. Porque a hora que começar, ela vai voar. E foi um trabalho lindo que eu fiz lá, sabe? Então a empresa se transformou todinha, e os japonesinhos começaram a ficar com raiva de mim, porque nós estamos aqui há tantos anos, você faz 6 meses que você está aqui, você já fez isso? Então, quer dizer, por que que eu fiz? Por causa desse livro A Meta, por isso que eu valorizo tanto os livros, sabe? Então ele mostra isso aí, não sei se você lembra desse livro A Meta.

Luciano Pires: Eu li há muitos anos, cara.

Sérgio Siqueira: Então, era um pai que foi levar os garotos em um passeio na montanha. Então, tinha os garotos magrinhos que iam lá para frente, e tinha os garotos gordinhos, que ficava lá para trás. Foi ver, o gordinho com mochila, ele não sabia se ele ficava atrás com o último da fila que era o gordinho ou se ficava na frente com os magrinhos. Então ele ficava com o último e falava, “espera aí”, e todo mundo tinha que esperar até chegar. Aí começaram a ver, tiraram a mochila do gordinho, foram ver o que que tinha na mochila, tinha panela, pedra, coleção de chaveiro, e deu a mochila para o magrinho. O magrinho carregar a mochila do gordinho, e assim a velocidade média subiu. Então, por causa dessa história eu fiz esse trabalho lá. Eu desde sempre valorizei muito os livros, eu tenho mais de 2 mil livros lidos na minha casa, então eu leio muito mesmo, sempre li muito. Então, eu valorizei muito. Depois que eu trabalhei 4 anos nessa empresa, falei cara, eu quero montar minha empresa, porque eu não aguento mais, era Ferraz de Vasconcelos, era longe, 35 quilômetros da minha casa, muito longe, filho pequeno, eu não acompanhava o crescimento dos meus filhos, eu fui um pai muito presente, acompanhei desde sempre os meus filhos assim. Época de dar presente para as pessoas, eu e meu filho pegávamos a coleção de músicas, sempre tive muito CD, muita música, a gente fazia uma fita, tinha fita cassete, e eu fazia uma fita cassete para dar de presente, é para você, não é que eu comprei, eu fazia uma fita igual para todo mundo. Eu pensava, que música que o Luciano gosta? Vou fazer uma fita para você. Então meu filho ficava comigo ali vendo, ouvindo música, tinha um gravador de rolo, a gente gravava todas as músicas lá e ia procurando, qual é a música que fulano gosta? Qual é que combina com ele? Foi bem interessante.

Luciano Pires: Como é que foi essa… porque você tem uma carreira toda feita na CLT até então.

Sérgio Siqueira: CLT.

Luciano Pires: E de repente, você vai virar dono da firma, empreendedor. Você estava preparado para isso, ou foi uma loucura, tipo estou de saco cheio…

Sérgio Siqueira: Eu sempre quis, porque essa habilidade me acompanha sempre.

Luciano Pires: Mas você mirou em alguém, você tinha alguém que…

Sérgio Siqueira: Não, eu não mirei, o que aconteceu assim, mas minhas leituras, eu percebi que fazer o conchiglione, é uma conchinha, que é o primeiro produto que a Franccini fabricou, se fazia com extrusora, e aquilo me ascendeu, eu conheço tudo de extrusora. Extrusora é um tubo, que dentro desse tubo tem uma rosca, essa rosca transporta o material, e na frente tem uma forma. Então ele faz pressão, e sai o material na forma com o formato que você quiser. E saía na outra empresa, fazia o formato de cabo. E para mim, saia o formato e macarrão. Eu conheço tudo de extrusora, e macarrão se faz com extrusora, quem sabe, né?

Luciano Pires: Cara, é uma mudança brutal, você vai partir para alimentos.

Sérgio Siqueira: Eu vou te contar uma frase que eu adoro, essa frase me acompanha há vários anos, uma frase que foi dita pelo Einstein, que ele fala assim, “Deus age anonimamente na vida das pessoas através das coincidências. E ele age com mais intensidade, para os desbravadores”. E eu fui sempre um desbravador, dessas histórias que eu estou te contando e outras que eu vou te contar ainda. Então, eu percebo muito essas coincidências. Então, algumas pessoas da minha família e minhas tias, começaram a vender o conchiglione. Por que o conchiglione chegou? Eles começaram a vender isso aí, a minha esposa na época começou a vender também. Comprava de alguma empresa, e revendia por aí, uma lojinha.

Luciano Pires: Para você que nunca viu, conchiglione é uma conchinha de massa, que você recheia e come.

Sérgio Siqueira: Feita com massa de macarrão e recheado com queijo, ou carne, ou frango, com qualquer cosia que você queira. Pode ser doce, pode ser…

Luciano Pires: Que sacanagem marcar essa gravação meio dia.

Sérgio Siqueira: Daqui a pouco eu vou comer. Então, as pessoas da minha família estavam vendendo conchiglione, e eu acabou que me aparecei um livro de conchiglione que fazia extrusora. Aquilo o negócio fez uma conexão, porque uma das minhas características é fazer links com as coisas que me aparecem. Então eu pego uma coisa aqui, daqui a pouco faço um link ali, saiu um negócio interessante aqui. Aí eu comecei a comprar, pouco dinheiro porque tinha sido demitido, vendi aquela casa que eu comprei, a primeira casa, tinha comprado uma outra casa maior, e essa casa maior tinha um salão de festas de 250 metros quadrados. Era um salãozão lá, vazio, eu falo que é um salão de festas porque é um salão vazio que dava para fazer festa.

Luciano Pires: Um salão na casa?

Sérgio Siqueira: Na casa, embaixo assim da casa.

Luciano Pires: Isso é um puta salão.

Sérgio Siqueira: Era uma casa grande, mas era um salão enorme mesmo.

Luciano Pires: Lá no ABC?

Sérgio Siqueira: Lá em Santo André, do lado… é no mesmo bairro lá. E eu tinha um espação lá que eu jogava bola com as crianças, brincava lá na parte debaixo da casa. Olha o link de novo, comprei essa casa com esse negócio, com esse salão embaixo. Aí conchiglione, aí extrusora, eu peguei, fui no ferro velho, ferro velho mesmo, e tem ferro velho de ferro, materiais ferrosos, e tem ferro velho de aço e inox. Então, porque essas máquinas alimentícias, devem usar aço inox. Então eu comprei os materiais, tubo, rosca, não sei o que lá, mandei na usinagem e tal, e fiz a primeira máquina, uma primeira extrusora que eu tenho ela até hoje. É uma extrusorinha pequenininha, e fiz o molde. Onde que está o molde, pergunta para os meus primos na Itália onde que está o molde? Até que eu achei uma empresa aqui em São Paulo que fazia o molde, porque aqui em São Paulo só tinha uma empresa que fazia o conchiglione naquela época. Eu fui a segunda empresa que começou a fazer esse tipo de produto.

Luciano Pires: Esse molde, é um molde de bronze?

Sérgio Siqueira: É um molde de bronze, exatamente.

Luciano Pires: É quase uma obra de arte, né?

Sérgio Siqueira: Exatamente, e ele é muito peculiar para aquela máquina, então ele precisa ser devolvido. Para você chegar no molde, você tem que fazer 10 moldes, para chegar no molde que… beleza. Então, fiz a maquininha e para a minha surpresa, saiu o conchiglione. Falei nossa, eu vou montar uma fábrica desse negócio aí, eu tenho esse espaço, tenho a máquina, tenho não sei o que, e comecei.

Luciano Pires: Você comprou a massa em algum lugar?

Sérgio Siqueira: A gente comprava a massa.

Luciano Pires: Você comprava massa?

Sérgio Siqueira: Não, eu comprava o produto pronto de uma fábrica e revendia, eu fazia as entregas.

Luciano Pires: Não, eu digo o seguinte, quando você estava montando sua máquina.

Sérgio Siqueira: Não, eu comprei a farinha, aí veio assim, precisava da massa, aí eu fiz a massa na mão. Aí testei a massa.

Luciano Pires: Então, você teve que desenvolver também…

Sérgio Siqueira: Desenvolver também a masseira.

Luciano Pires: Você passou a mexer com comida?

Sérgio Siqueira: Com comida.

Luciano Pires: Construindo a máquina de um lado, e desenvolvendo a matéria-prima do outro.

Sérgio Siqueira: Então em um certo tempo, eu construí a máquina ali no espaço, na casa mesmo. Comprei máquina de solda, comprei um monte de coisa.

Luciano Pires: Que aí não tinha rolo, é sua área.

Sérgio Siqueira: É minha área.

Luciano Pires: Você ia testar até acertar.

Sérgio Siqueira: Até acertar, exatamente.

Luciano Pires: Tá, mas e a comida, cara? Você mexia com comida?

Sérgio Siqueira: Não mexia com comida, isso que é o negócio, mas aí vai estudar meu. Às vezes o cara quer montar, por exemplo, um restaurante, ele sabe cozinhar e vai montar o restaurante, ele quebra. Mas por que que quebrou? Ele não sabe fazer comida? Ele cozinha superbem, mas a gestão que é o negócio, gestão é muito mais do que a própria receita da comida. Então eu fazia a massa com as minhas próprias mãos, colocava na extrusora e saía o conchiglione. Bom, agora eu tenho que fazer uma masseira para fazer massa em quantidades maiores.

Luciano Pires: Agora está ficando engraçado isso aqui. Eu estou visualizando a cena.

Sérgio Siqueira: Está com fome?

Luciano Pires: Estou com fome, mas estou visualizando a cena. Você, como é que você faz? Você foi lá, montou, e de repente saiu uma conchinha. Você fala bom, vou fazer 30 conchinhas, e agora vou cozinhar essas conchinhas para comer conchinha para ver se está bom. Foi assim?

Sérgio Siqueira: É isso aí mesmo, é assim. Mas você pensa que deu certo na primeira vez?

Luciano Pires: Claro que não.

Sérgio Siqueira: Só deu certo na vez número 200.

Luciano Pires: Quem comia isso, era você que testava?

Sérgio Siqueira: É, testava, comia um pedacinho, não está bom, chamava alguém, e ia fazendo. Até que eu aprovei, as pessoas aprovaram, está gostoso, então vamos começar. Mas aí da extrusora eu tive que fazer uma masseira para bater a massa, era uma masseira pequenininha, que a masseira o que que é? É uma bacia onde dentro ela tem uma pá, que o motor mexe a pá e mistura o ovo, a farinha, água, vai misturando tudo e sai uma massa.

Luciano Pires: Quanto tempo levou esse processo, até você falar, vou construir a extrusora?

Sérgio Siqueira: Levou 1 ano mais ou menos.

Luciano Pires: E você não estava faturando enquanto isso?

Sérgio Siqueira: Não, estava… eu trabalhava nessa empresa aí do japonês, então de noite, fim de semana, meu filho lá ali do lado, pai ajudo lá. Meu filho participou muito dessa etapa.

Luciano Pires: Legal.

Sérgio Siqueira: Então, fiz a masseira, e da masseira precisa ter uma panela para cozinhar, e depois precisa ter um negócio para enfiar o recheio lá dentro, porque no começo a gente enfiava o recheio com uma colherzinha. Depois tinha que ter instrumentos para encher, rechear as conchas. Então você vai trazendo uma coisa, outra coisa.

Luciano Pires: Você está descrevendo um processo.

Sérgio Siqueira: Um processo.

Luciano Pires: Isso aí te ajudou de montão, aquele negócio da qualidade lá atrás, a experiência lá dentro.

Sérgio Siqueira: Toda a experiência só somou, é isso que eu te falo das coincidências, sabe? Que as coincidências elas vão acontecendo do nada assim, sabe? Eu fico impressionado com isso aí.

Luciano Pires: Legal que todo seu conhecimento do mercado automotivo, e ele serviu…

Sérgio Siqueira: Não automotivo, era fios, cabos.

Luciano Pires: Mas era cabos, de qualquer forma era seguimento industrial voltado para a construção civil e tudo mais, e você aproveita tudo…

Sérgio Siqueira: Nessa empresa do japonês que eu estou te falando, as máquinas dele eram construídas do mesmo jeito que eu fiz a minha, porque na Pirelli, aquelas máquinas enormes, aqueles monoblocos, você não via nada do que tinha lá dentro. Trabalhava, é que nem motor de carro, você não sabe o que tem lá dentro. Mas as máquinas desse japonês, ele mesmo fabricava as máquinas, e eu falei, puta sacada, o cara pega umas cantoneiras lá e faz as máquinas. Quer dizer, o coração da máquina tem que ter usinagem, tem que ter todo um trabalho, todo um processo direitinho, não é feito de qualquer jeito. Só que a máquina não é tão bonita quanto as máquinas de monobloco, as que vem [importada] a máquina não é tão bonita, mas ela funciona e as vezes ela é mais forte. Então, aí foi nascendo, contratei 1 pessoa, 2 pessoas, daqui a pouco tinha 8 pessoas trabalhado na minha empresa, na minha casa.

Luciano Pires: Está bom, quando é que você faz a primeira venda?

Sérgio Siqueira: Veja só, já tinha venda antes da fábrica, porque eles revendiam, tanto minha mãe, minha tia. Mae não, minha esposa.

Luciano Pires: Ah, então você passou a alimentar essa redezinha de…

Sérgio Siqueira: Exatamente, existia os clientes, e eu sabia que tinha mercado. Tem mercado, vamos… aí comecei a produzir. Ah, você só tem conchiglione, não tem outra coisa? Aí comecei a terceirizar outras linhas de produto. Aí a empresa foi crescendo assim, eu comecei terceirizando, encontrava o cliente, começava a fabricar. Depois comecei a fabricar a lasanha, canelone, rondeli, e assim foi indo, e o que eu não tinha, terceirizava. Comprava o produto pronto, não ganhava quase nada. E era em uma época extremamente difícil, muito desemprego, aquela inflação de 80% ao mês que você viveu também.

Luciano Pires: Era Sarney. 84, 85 e 86.

Sérgio Siqueira: Por isso que o pessoal fala agora estamos em crise, realmente estamos em crise agora, mas nem se compara com a crise que eu vivi, nós vivemos, lá em 82, 84.

Luciano Pires: Isso é interessante né Sérgio que o pessoal pergunta, qual é a pior crise que você passou na sua vida? A próxima. Porque a gente vai esquecer tudo que aconteceu lá atrás e vai achar que agora o mundo está acabando.

Sérgio Siqueira: Exatamente.

Luciano Pires: A gente passou por cada uma aí, que não faz ideia.

Sérgio Siqueira: E uma coisa interessante, que a empresa já nasceu com software. Eu não sabia disso, mas eu falava assim, como que eu vou calcular o preço? Porque como o preço virava todo dia, eu tinha salário, tinha matéria-prima, por quanto que eu vou vender? Então encontrei um cara, ele fez um programinha Clipper, não sei se você lembra, Clipper, é tipo aquele DOS que tem no Windows antigo, tem aquela tela azul e tal. E o meu programa era aquele lá, então eu tinha uns 8 ou 10 imputs, e tinha 4 outputs. Quer dizer que era o salário, a energia elétrica, a embalagem, matéria-prima, é os imputs, então colocava lá, fazia cotação, quanto que custa o queijo, quanto custa a farinha, quanto que custa salário, energia elétrica e tal, esse era os imputs. E ele me dava na saída o preço dos meus produtos, que era um programinha que eu mesmo fiz em basic. Eu aprendi a programar em linguagem basics, você deve ter visto no passado. Então, era uma calculadora científica, com uma impressorinha, e eu devia ter trazido aqui que eu tenho ainda o rolinho do primeiro programinha mesmo. Eu programei em basic, e ela saia uma filipetinha assim, tipo essas filipetas que você vai tomar um café e o cara te dá uma filipeta, saia ali com os preços dos produtos. Então eu sabia por que preço que eu ia vender cada produto, então eu sempre ganhei dinheiro.

Luciano Pires: Quando que você dá um salto Sérgio? Porque uma coisa é você, “vou vender aqui, vou abastecer as tias, para fazer as vendas com as tias”. Agora, de repente, eu tenho que ter marketing, vou vender para o mercado.

Sérgio Siqueira: Não havia marketing, porque era boca a boca. Então, em Santo André, fábrica tudo vinha de São Paulo, Santo André eu era meio único lá. Então comecei a vender, eu ia nos supermercados, oferecia e o cara comprava. Ia no restaurante, oferecia e o cara comprava, porque o produto era bom mesmo. E estava pertinho, eu sempre fiz um preço convidativo, sempre ganhei dinheiro, nunca vendi com prejuízo, porque tem muita gente que fala estou vendendo, mas vai ver no final da conta não sobra nada. Eu sempre olhei para a questão financeira, quando você visitou lá você viu, tem um primeiro mandamento lá da Franccini, nada substitui o lucro, porque se você não tem lucro com o que você está fazendo cara, então é uma filosofia mesmo, né? Agora, que eu estava te contando a história dos consórcios, de repente eu tinha 8 empregados na minha casa, eles entravam pelo mesmo portão que eu. Não dá mais, com filho pequeno, eu preciso mudar daqui, e comecei a ver um lugar para alugar, para mudar a empresa. Daqui a pouco me apareceu um terreno para vender meia quadra de onde eu estava ali, né? Falei puts grilo, como é que eu vou fazer isso aí? Então eu já estava guardando dinheiro para justamente fazer uma alçada de crescimento.

Luciano Pires: Você já tinha nessa época, quando é que você teve a consciência de que deu certo? Tipo assim, deu certo a ponto de falar, cara, é aqui que eu vou ficar e aqui vai ser minha vida.

Sérgio Siqueira: Quando eu fiz aquela extrusora que saiu o primeiro conchiglione, falei cara, é aqui. Saiu o primeiro conchiglione, eu falei é aqui que vai ser, porque eu tenho domínio, eu não dependo de mais ninguém. Quando eu fui demitido, aquilo lá para mim foi um grande aprendizado, porque eu estou dependendo do cara me querer ou não. Quando eu era filho do meu pai alcoólatra, eu estava dependendo daquele cara, se ele estava bonzinho ou estava bravo. Então aquilo lá me criou uma força interna muito grande. Então quando eu percebi que aquele conchiglione saiu, os primeiros, falei é aqui que eu vou fazer, e era uma maneira de eu vender alguma coisa como indústria, porque eu queria ter uma indústria. Você sabe que quando eu saí da Pirelli, estava contando, na época não tinha portão elétrico, alarme de carro, não tinha nada disso, estamos falando de 40 anos atrás. E eu fazia alarme de carro, pegava seu carro e entregava com alarme, sabe? Comprava as peças, do jeito que abria a porta, disparava uma sirene. E não tinha siso na época, eu fazia nos carros dos meus amigos, das pessoas e tal. Mesma coisa, portão elétrico hoje é a coisa mais comum que tem, mas naquela época, 40 anos atrás, não tinha. Então eu não fazia a parte mecânica do portão elétrico, mas eu fazia a parte… então contratava alguém para fazer a parte mecânica, e eu fazia a parte eletrônica da coisa. Então com isso eu vendia, juntava um dinheiro.

Luciano Pires: Sérgio, a parte de gestão do negócio, gestão financeira e tudo mais, você foi buscar em algum lugar?

Sérgio Siqueira: Isso veio, porque é o seguinte, a empresa sempre foi lucrativa, porque eu nunca fiquei dependendo muito do banco, de financiamento de máquina e tudo mais. Então a empresa sempre foi lucrativa, eu sempre consegui guardar dinheiro, graças a Deus. Alimentação dá dinheiro, mas dá dinheiro para quem faz direitinho, porque senão não quebrava restaurante toda hora aí, não quebrava empresa toda hora. Então, não é fácil ter…

Luciano Pires: Me conta a história do seu terreno então, você viu o terreno, você enxergou?

Sérgio Siqueira: Na hora, um terreno de 600 metros quadrados, eu falei, puts, vou comprar esse terreno aqui. E na época o cara estava meio enrolado, ele estava precisando vender o terreno, muito. Só que o terreno tinha passado por 6 pessoas, e ninguém fez escritura. Eu falei, eu só compro direitinho aqui, senão, não. Então ele foi atrás dos 6 antigos proprietários, uns já tinham morrido, eu sei que até a documentação ficou pronta e aí eu comprei o terreno. Fui juntando todo dinheiro, vendi carro velho, vendi sapato velho, vendi tudo que eu tinha, comprei o terreno praticamente à vista. E aí comecei a construir, tinha uma casinha lá, derrubei a casinha, que é a casinha que ele morava, ele vendia máquina de lavar roupa velha, essas coisas, meio que um ferro velho, papelaria. Demoli tudo, esse meu tio querido que eu tinha egípcio, que já morreu até, ele fez o projeto, e eu falei, “tio faz um projeto para mim?”, mas eu tinha falado para ele fazer o projeto de um andar, que era um galpão, mas ele fez um projeto de 3 andares. Porque ele achou que era 3 andares, aquele prédio, aproveitar a área, eu faço o projeto, você constrói 1 e depois se você quiser você constrói os outros, mas já está… faça a fundação para construir 3 andares. Aquelas fundações enormes, não sei se você já viu fundação, é um negócio imenso. Quando eu mostrava para os pedreiros, nossa, mas para que você vai fazer tudo isso? Olha, projeto, vamos fazer o projeto. De novo as coincidências. “Tio, faz um projeto aí para mim”, para não pagar um projetista e tal, e graças a Deus que ele fez isso, porque hoje eu tenho 3 andares. Onde que eu vou arrumar dinheiro? Aí tem aquela história dos consórcios que eu te contei, acabou que eu fui na empresa lá, eu não queria contar essa parte da história, porque foi uma história que envolveu muita amizade.

Luciano Pires: Sabe o que que é interessante dessa história toda aqui, é essa sua consciência de que é o seguinte cara, eu não vou tentar pegar dinheiro em banco, eu vou fugir de banco, e você fez consórcio.

Sérgio Siqueira: Eu vou contar a história, eu fui lá no dono do consórcio, eu não vou dizer qual que é o consórcio, porque é uma coisa feita entre amigos. Porque lá nessa empresa de japonês, eles tinham um negócio chamado Tanomoshi, sabe?

Luciano Pires: Claro que eu sei.

Sérgio Siqueira: E eu era o único não oriental que participava do Tanomoshi. Quer dizer o seguinte, todo mundo dá um dinheiro, tem um churrasco e sorteia o dinheiro daquele mês.

Luciano Pires: Eu tinha Tanomoshi de videocassete, lembra? Videocassete eu comprei assim.

Sérgio Siqueira: Tanomoshi é uma coisa espetacular que a gente devia fazer no nosso grupo, porque é um negócio bacana demais, ele une as pessoas.

Luciano Pires: Todo mês todo mundo dá uma quantia de dinheiro, e num determinado momento…

Sérgio Siqueira: Todo mês tem um churrasco e sorteia.

Luciano Pires: Aquele dinheiro todo. Então são 12 pessoas dando R$ 100,00 cada uma, você tem R$ 1200,00. No churrasco, alguém ganha R$ 1200,00.

Sérgio Siqueira: Exatamente, e por causa dessa ideia, eu fui lá no dono do consórcio e falei olha, eu conheço um negócio, filosofia japonesa que chama Tanomoshi. Então, é assim, você precisa vender consórcio e eu estou precisando do dinheiro. Então eu vou comprar 25 consórcios de você, só que eu não quero carro, eu quero o cheque. E claro que isso aí hoje em dia não é totalmente ilegal, mas o consórcio estava começando, nós estamos falando de 30 e poucos anos atrás, 38 anos atrás mais ou menos. E o cara topou de fazer isso, quer dizer, eu te prometo que eu não vou atrasar nenhuma parcela, um consórcio de 50 meses, eu pagava os 25 consórcios religiosamente. Outras coisas podiam ficar para trás, mas o consórcio não, porque era honra. Nós não assinamos um papel, não teve nada, teve amizade, sabe? Eu falei para o cara, olha, se você quiser hipotecar meu terreno por causa dessas dívidas, por causa desses consórcios, ele falou, “não precisa, eu confio em você”. E o cara, teve 1 ou 2 meses que eu fui lá e falei, estou nessa fase da obra e preciso de um cheque. Ele falou, “esse mês eu não tenho, mas mês que vem eu tenho”. Então ele dava o cheque para o mês que vem.

Luciano Pires: Como se tivesse contemplando.

Sérgio Siqueira: Isso mesmo, porque no grupo de consórcios havia gente que foi sorteada, mas estava com a prestação atrasada. Então ele não podia receber o carro porque estava com a prestação atrasada, foi sorteada ele saia fora do sorteio, e aquele carro ficava parado. Então para ele foi bom que ele vendeu 25 consórcios para uma única pessoa, porque você sabe que um grupo de consórcio, são 100 integrantes. Então 25 era 1/4, então eu era cliente de 1/4 de um grupo inteiro. Enfim, é isso aí. Então desses outros 75 muitos deles eram sorteados e estavam em atraso, mas eu não atrasei nenhuma parcela do começo ao fim, sabe? O dia que eu paguei a última parcela eu fui lá agradecer o cara, foi um aspecto emocionante, porque se não fosse assim, eu não teria conseguido fazer esse prédio.

Luciano Pires: Quando ficou pronto esse prédio? Que ano era?

Sérgio Siqueira: Eu demorei 2 anos para construir esse prédio, puts quer ver que ano que era? Você me faz umas perguntas, já faz tempo, 92, 96, 97, mais ou menos isso aí. Que a empresa nasceu em 92, ela ficou uns 4 anos na minha casa, e nesses 4 anos que eu construí esse prédio aí. Então um pouco era do dinheiro do consórcio, e um pouco do dinheiro que eu tinha, e um pouco do dinheiro que entrava das massas. Então, porque quando eu fui demitido…

Luciano Pires: Daria para fazer isso hoje Sérgio?

Sérgio Siqueira: Não, de jeito nenhum. Com toda a experiência que eu tenho, se você me colocar na rua, você não tem nada, eu não faria de jeito nenhum isso aí, hoje é impossível.

Luciano Pires: Por que?

Sérgio Siqueira: Porque a gente vive em uma guerra entre a inflação e os juros. Por exemplo, suponhamos que um determinado mês do ano sua empresa fatura R$ 100 [mil], e tem de lucro R$ 10 [mil]. No outro mês, daqui a pouco, ela vai faturar R$ 150 [mil], ao invés de faturar R$ 100 [mil], aumentou o faturamento para R$ 150 [mil]. Então, ao invés de ela lucrar R$ 10 [mil], ela lucrou R$ 15 [mil]. Só que como ela faturou R$ 150 [mil], teve um aumento de escala, né, então ela não lucrou R$ 15 [mil], ela lucrou R$ 17 [mil], vamos falar. Faturou R$ 150 [mil], lucrou R$ 17 [mil]. Então você devia ter ficado mais rico R$ 7 [mil], porque você ganhava R$ 10 [mil] e agora você ganha R$ 17 [mil]. Só que você vai perceber que você ficou igualzinho, mas cadê esses R$ 7 [mil] aí, porque eu faço essas contas, cadê esses R$ 7 [mil] aí que eu estou lucrando mais? Então esses R$ 7 [mil] fica perdido na inflação, e fica perdido nos juros, porque você tem que financiar o cliente, então é juros, o seu dinheiro que está na mão do cliente. E na inflação dos juros, e no imposto, porque todo dia tem um imposto a mais. Na hora que você tem que regularizar a empresa, paga imposto, vai regularizar, mais um lance de regularização, mais um imposto. Esses R$ 7 [mil] que você ganhou a mais, que devia vir para o seu bolso, ele se perde nos juros, na inflação e no imposto. Então a gente vive em uma luta incessante pagando juros, pagando inflação e pagando impostos. Quanto mais você cresce… aí eu decidi, eu não vou crescer muito, eu vou ficar, você fez a melhor definição, você foi visitar lá, então você fez a melhor definição de todas para a empresa. A empresa é pequena o suficiente para eu conhecer todo mundo pelo nome, e grande o suficiente para me manter tranquilo, porque eu tenho uma vida tranquila, eu não tenho nenhuma dificuldade financeira, muito pelo contrário, eu guardo dinheiro todo mês. Então, eu estou tranquilo.

Luciano Pires: Quantos funcionários tem lá hoje?

Sérgio Siqueira: Tem 70 internos, depois tem mais uns 30…

Luciano Pires: Eu fui visitar, eu fiquei encantado porque essa ideia toda, como eu vendia autopeças, tinha aquela coisa do gigantismo, da empresa crescendo, etc. e tal, eu estava em uma empresa de U$ 8 bilhões de dólares, era um negócio monumental, e tinha uma certa discussão ali dentro que era o seguinte. Nenhuma fábrica, isso nunca aconteceu, mas havia lá, eu fiz um curso em Michigan, e na discussão os caras estavam dizendo o seguinte, a fábrica ideal devia ter 500 funcionários para aquele negócio lá, autopeças, porque com 500 a gente consegue manter o controle do que está acontecendo, dá até para conhecer as pessoas e dá para você saber o que está acontecendo e ter um certo controle. Quando ela passa disso, ela ganha um gigantismo, e aí acontece um fenômeno interessante cara, o sistema ganha vida, entendeu? O sistema que foi montado ele ganha uma vida e ele passa a se autogerir cara. E aí você não sabe porque as coisas acontecem. Então o exemplo acabado aqui, você pega uma Toyota, cara, Toyota é o paradigma da qualidade mundial. E a Toyota quase que quebra quando começa a aparecer uma porra de um tapete que prende o acelerador, o carro bate. Como é que uma empresa paradigma de qualidade, pode fazer uma cagada dessas? E se vai olhar, cara, o sistema agiganta de tal forma que ele se autogere, então aconteceu uma cagada e ninguém consegue descobrir. Até descobrir de onde veio, porque foi, e a hora que os caras começam a fuçar, aquilo foi percebido, alguém apontou, mas o sistema se auto… e desapareceu lá dentro.

Sérgio Siqueira: Exatamente.

Luciano Pires: Essa sacada sua de eu vou ficar no tamanho, e não quero passar disso aí.

Sérgio Siqueira: Eu posso aumentando a qualidade dos equipamentos, tudo mais.

Luciano Pires: Você vai aumentar produtividade.

Sérgio Siqueira: Aumentar faturamento, mas eu não vou aumentar de espaço, não vou aumentar mais funcionários, esse é o tamanho ideal. Então é uma decisão tomada há muitos anos. Agora, como ela sempre teve bons lucros, então nunca me olhei muito para a questão, você fez uma pergunta lá atrás, a questão financeira, como é que você gere essa parte de gestão. Então quer dizer, 2015 mais ou menos teve a crise da Dilma. Na crise da Dilma, a gente quase faliu, porque muitas empresas faliram, muitos clientes deixaram de pagar, foi uma coisa. E a gente estava com endividamento com equipamento, a gente comprou câmaras, veio um cliente grande, a gente começou a trabalhar no mercado de massas congeladas para cozinhas industriais. Porque a Franccini hoje ela atende restaurantes, supermercados, lojas, escolas, hospitais, cozinhas industriais e revendedores, e loja virtual. Então ela atende vários segmentos, não é fácil você atender, porque são públicos, depois que fala o restaurante, todo dono de restaurante é mais ou menos igual. Quando você fala com supermercado, todo supermercado é mais ou menos igual. Quando você fala com cozinha industrial, toda cozinha… agora, quando você fala com todos os mercados, cada um é cada um, você tem que saber como que você fala com cada tipo de cliente. Não é fácil fazer isso aí. Mas na época a gente queria crescer um pouquinho mais, os filhos estavam crescendo, demandando mais escola, demandando mais curso de inglês, curso de judô que eles faziam, depois foram fazer um pouco de Kung-fu, e tudo mais, começou a demandar mais dinheiro, preciso ganhar um pouquinho mais. Aí eu fui para o mercado de cozinhas industriais, e para vender para cozinhas industriais é massas congeladas. Para vender massa congelada, você tem que ter congeladores, para você ter uma ideia, é congelador de 120 metros quadrados, é enorme.

Luciano Pires: Eu sei, você me enfiou dentro de um aquele dia.

Sérgio Siqueira: Se eu te deixasse mais 1 minutinho lá você virava pinguim.

Luciano Pires: E a temperatura na rua estava 50 graus, lembra? Derreteu a sola do meu sapato, 50 graus lá fora.

Sérgio Siqueira: Escuta só, esse calorzão aí, eu estava lá e as máquinas não davam conta de congelar. Meu filho falou, só deixar as massas aqui no Canadá, deixa no quintal e está tudo congelado. Então eu tinha feito financiamentos com os fabricantes dos tuneis de congelamento, das câmaras frigoríficas, então são equipamentos caríssimos, equipamentos de R$ 500 mil reais assim, para congelamento adequado. Só que eu fiz dívidas com os próprios fabricantes, chamei os fabricantes e falei olha, você vai instalar uma câmara aqui e eu vou te pagar desse jeito. Se você quer é assim, eu não vou entrar no banco para fazer isso aí. O cara, prédio próprio, eu estou falando diretamente com o dono, não está falando com o financeiro e tudo mais, e ocara topava. Então ele pegou um sinal, e me fez o negócio e eu vou pagando. Só que aí veio a Dilma e fez aquela lambança toda lá, e a empresa quase faliu. Eu falei, meu Deus, o que que eu faço, aí contratei um consultor, falei, “consultor me ajuda, o que que eu faço aqui? Não sei se eu quero vender a empresa, o que que eu vou fazer?”. Aí o consultor estava preparando a empresa para ser vendida, eu acho que ele captou isso, então ele estava meio que maquiando. Eu falei, me orientou a fazer mais empréstimo no banco, sabe, eu falei não está certo isso aí sabe? Aí tirei esse consultor fora, até a história do consultor, você sabe a história do consultor?

Luciano Pires: Conta, é só não falar o nome de ninguém.

Sérgio Siqueira: O sujeito chegou numa fazenda, tinha um sujeito, o caboclo lá com palitinho de dente na boca, está sentado lá, chegou um cara com uma S10 soltando fumaça, falou para o cara, “tarde”, “tarde”. “Se eu te disser quantas cabeças de gado você tem aí, você me dá uma cabeça de gado?”. Ele falou, “pois não, pode me dizer”. O cara pegou GPS, não sei o que lá, fez mapeamento, “você tem 1483 cabeças de gado”. Ele falou, “o senhor está certo, pode pegar sua cabeça lá”, o caboclo falou. Aí foi lá, pegou e colocou na S10. “Antes de o senhor ir embora, posso lhe fazer uma pergunta?”. Ele falou, “pode”. “Se eu descobrir qual é sua profissão, senhor me devolve minha cabeça de gado?”. Ele falou, “pois não, pode descobrir”. “O senhor é consultor”. “Por que?”. “O senhor veio aqui sem eu pedir, vem falar o que eu já sabia, e você não entende nada de gado, porque devolve meu cachorro”. Ele ao invés de pegar o gado, pegou o cachorro. Então para mim acontecei mais ou menos isso, não que eu estou desmerecendo o consultor, muito pelo contrário, eu usei bons consultores depois. Mas tem muito isso, você tem que escolher muito bem que consultor você vai… tem de tudo no mercado. Eu peguei o consultor errado, o cara me sugeriu que eu fosse para o banco, pegasse dinheiro emprestado, e hipotecasse.

Luciano Pires: Ele estava armando sua empresa, para você vender a empresa?

Sérgio Siqueira: É, para vender a empresa, hipoteca o prédio. É mais ou menos o que a gente está vendo aí na Lojas Americanas e tudo mais. Você mostra aqueles números lindos, só que você vai ver está tudo podre, está cheio de cadáver no armário. Tirei fora o consultor, não é isso que eu quero. Ai daqui a pouco veio outro consultor, que ele veio com a ideia de DRE que eu não tinha um DRE adequado.

Luciano Pires: O que que é DRE?

Sérgio Siqueira: DRE, demonstração de resultados.

Luciano Pires: Sim.

Sérgio Siqueira: Então quer dizer que ele mostra lá o faturamento, as despesas, e mostra toda a história financeira da empresa. Então meu filho acabou mergulhando, eu, meu filho e esse consultor mergulhando para deixar a empresa super bem administrada nesse sentido financeiro, por que? Porque houve a necessidade que a empresa quase faliu na época da Dilma, então a Dilma para mim foi uma lição boa, porque ela me trouxe uma gestão financeira que eu não tinha antes. Aí a empresa cresceu, a empresa cresceu, ela tomou um porte, tomou uma dimensão que ficou maior que naquela época.

Luciano Pires: Sem crescer o volume, você não aumentou o prédio, você cresceu em produtividade, na gestão e tudo mais.

Sérgio Siqueira: Exatamente, e ela tem uma coisa linda, porque assim como eu fiz aquela primeira máquina extrusora lá, praticamente 70 a 80% das máquinas que eu tenho lá, elas foram fabricadas internamente. Eu desenho a máquina, levo para a oficina, “oficina você dobre isso, corta isso, solda aquilo”, chega lá eu monto. Mas eu faço o projeto da máquina. Muitas vezes eu vou visitar o fabricante da máquina, entendo como que é a máquina e faço a máquina do meu jeito. Quer dizer que a máquina é muito mais potente, muito mais rápida, e ela não economiza no tamanho do motor, nem no tamanho do redutor. Então é uma máquina durável que não quebra nunca. Então eu tenho pouca manutenção, eu tenho manutenção preventiva. Toda hora tem que trocar um rolamento, lubrificar e tudo mais. Mas eu tenho máquinas grandes, as vezes eu compro uma máquina diante dessa expertise, eu compro uma máquina, eu desmonto a máquina inteirinha, reforço do meu jeito, reforço o redutor, motor, dispositivo. E muitas vezes eu tenho a experiência de uma máquina, eu comprei para fazer 60 quilos por hora, depois que eu fiz esse trabalho a máquina passou a fazer 120 quilos por hora, para você ter uma ideia. É uma bolinha de queijo assim, sabe? Então ela tem massa de nhoque, mas dentro vem recheado com queijo. Então essas coisas me trazem uma competência industrial muito interessante, sabe?

Luciano Pires: Você vive aquilo lá 100%. Eu fui visitar lá, estive lá com voe, chega lá você não tem um escritório envidraçado no 24o andar, você está sentado no meio da turminha lá, você está andando o tempo todo lá dentro.

Sérgio Siqueira: Lá ninguém tem sala fechada, eu não tenho nenhuma sala fechada, é tudo aberto, é baias de trabalho. Então na fábrica tem o pessoal do financeiro, pessoal de compras, pessoal de RH e o pessoal de produção também tem qualidade, tem processo, tem chefe de cozinha, tem as funções ali. E num outro prédio que também é próprio, fica o pessoal comercial, porque a vibração é outra, pessoal comercial é mais despojado, é outro tipo. Antigamente eles ficavam juntos, mas a vibração do pessoal de produção é diferente da vibração do pessoal de comercial. Então o pessoal é outro. Às vezes eu vou, fico no comercial, faço meus trabalhos lá.

Luciano Pires: Montou um studiozinho ali, para fazer seus vídeos.

Sérgio Siqueira: Os vídeos. Teve uma época que eu fazia treinamento para os revendedores, revendedor muito cru, então eu ia lá fazer treinamento, ensinar como que vende, ensinar sobre o produto. Às vezes a chef de cozinha ia ensinar a preparar o produto, né? Mas mesmo dentro da empresa, a gente montou um studio, não sei se você lembra, lá a gente montou um studio para fazer as filmagens de Instagram.

Luciano Pires: Você estava em uma agência, te enchendo o saco, cobrando o olho da cara. Cara, eu vou fazer um studio aqui dentro.

Sérgio Siqueira: Essa é outra história interessante, porque até a agência te entender era 1 ano, depois que a agência te entendia, você percebia que a agência não estava fazendo bem o que eu queria, não era bem aquilo, né? Troca de agência, mais 1 ano, até a agência pegar o jeitão de novo da empresa.

Luciano Pires: Sim, conta para mim aquela história do seu carro, da sua decisão com automóvel. Conta essa história para mim.

Sérgio Siqueira: Como meus filhos moram no Canadá, essa história é interessante também.

Luciano Pires: Tem uma prévia que você contou para mim de alguém chegar para você e falar, porra cara, você está bem de vida, tem que andar com um carro legal. Alguém fala isso para você, e você espera um pouquinho, deixa eu analisar.

Sérgio Siqueira: Então, eu tinha 4 carros, um era motor turbo, outro era tração nas 4 rodas, outro não sei o que, cada um… estava com vontade de dirigir esse aqui, né, e meus carros tem que estar tudo certinho, a luzinha tem que estar ascendendo, os balanceamentos, aquilo me dava um trabalho. Eu tinha um carro turbo lá, que eu tinha que trocar o óleo a cada 3 mil quilômetros, porque o motor era turbo, mas não era turbo que eu fiz não, era turbo de fábrica. Eu não gasto nem dinheiro, eu compro o carro certo, mas eu não fico incrementando carro. Mas adoro carro, quando eu faço as minhas viagens assim, eu sempre alugo uns carros bacanas para ter experiência. Mas meus filhos moram no Canadá, e um dia eu fui visitá-los, aluguei um carro lá. Eu parei em um semáforo assim, de repente, pô, eu sou sozinho, tenho 4 carros no Brasil a minha disposição e mais um aqui, eu tenho 5 carros nesse momento a minha disposição, e não preciso disso.

Luciano Pires: Pagando IPVA de 4, pagando manutenção de 4.

Sérgio Siqueira: E me dá um trabalho. Você já vendeu um carro, cara? Vender um carro é a coisa mais difícil do mundo, e cada dia mais difícil porque o cara começa a colocar defeito em uma coisa que você gosta tanto, o cara começa a colocar defeito, e começa a baixar o preço. Eu falei, quer saber de uma coisa, eu vou vender tudo e vou alugar carro. E há mis ou menos 5 anos, já está indo para o sexto ano, eu só ando com carro alugado. Quer dizer, eu vendi todos os carros, foi uma dificuldade vender porque eram carros mais especiais assim, então não é um Gol que qualquer um compra, o cara precisa gostar daquilo também. Eu sofri um pouco para vender os carros, mas vendi tudo.

Luciano Pires: E aí você passou a andar de carro alugado, e não é um carrão.

Sérgio Siqueira: Não, é um HB20 1.0 manual, porque o manual ele me dá um desempenho melhor, porque se eu colocar carro automático é um carro muito fraco, e eu ando rápido por aí. Então eu optei por ter um caro manual, primeiro que eu gosto do carro manual, mas é o sexto ano que eu alugo o carro. O carro fica comigo o ano inteiro, depois devolvo o carro usado de 1 ano e pego um carro novo. E eu pego sempre o mesmo modelo e mesma cor. Então, as pessoas nem notam que eu mudo de carro, só muda a placa. Mas eu tenho adotado nesses últimos anos…

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar, essa coisa dessa vida…

Sérgio Siqueira: Eu estava revendo do Gustavo Cerbasi, que ele veio aqui também, eu adotei uma vida muito simples, sabe? Então a minha vida é uma vida extremamente simples, eu tenho camisetas, eu só ando desse jeito na empresa, raramente eu mudo de roupa, sempre eu estou de calca jeans e camiseta. Então quer dizer, eu adotei esse estilo de vida, e é realmente um estilo de vida muito interessante.

Luciano Pires: Quando você simplifica tudo, sim.

Sérgio Siqueira: Então eu passo a gastar muito menos dinheiro, eu passo a ter muito menos preocupação. Por exemplo, no meu bolso eu tenho meu celular e meu relógio, e a chave do carro, não tenho mais nada. Relógio está no pulso. Eu só ando com isso, não ando com carteira, documento digital, então o cartão de crédito está no celular, se perder o celular, paciência, está na nuvem, não vou perder nada. Então, eu adotei esse esquema de vida muito simples. Então minha vida é muito simples mesmo, e de verdade. E não sinto falta, porque de repente o cara fala… tem gente, muitas pessoas que eu conheço que tem uma condição de vida muito inferior à minha, mas quando você bate a fotografia, pô, aquele cara está muito melhor.

Luciano Pires: Está numa puta casa, puta carrão.

Sérgio Siqueira: Eu moro bem, eu não tenho nada… é simples, mas não é simplório, você entende? Eu não economizo dinheiro com muita coisa, eu gosto de qualidade, nos meus moveis, na minha vida tem qualidade. Mas a minha vida é uma vida muito simples, não tem essas coisas de vinhos muitos caros, não tem.

Luciano Pires: A gente falou pouco o nome da sua empresa.

Sérgio Siqueira: É Franccini.

Luciano Pires: Franccini, ou Frantini?

Sérgio Siqueira: Muitos falam Frantini, e eu deveria falar Frantini, porque é um nome mais pomposo. Mas ela nasceu Franccini, então eu falo Franccini.

Luciano Pires: Bom, quem segue a gente aqui, sabe que a Frantini está patrocinando a Café com Leite, e não foi por um acaso, não é à toa, o Serjão vira um amigo da gente aqui. O Sergio me acompanha desde 90, e a hora que eu botei o Café Premium ele veio, já assinou de primeira linha, está sempre contribuindo, sempre colaborando. Quando nasceu a ideia do MLA, pulou para o barco na hora, falou estou junto, e a gente todo mês se encontra nas nossas lives, no ao vivo e tudo mais. A hora que eu mostrei para ele o projeto do Café com Leite ele, cara, estou junto, ajudou no começo e agora está fazendo o patrocínio do projeto. Mas você tem uma visão interessante, é um tremendo leitor de livro, e reconhece que os livros te deram um upgrade, né Sérgio?

Sérgio Siqueira: Porque no começo, eu lia muito livro técnico, da minha profissão mesmo. Mas depois de um certo tempo, depois que eu descobri a tal da análise transacional lá em Porto Alegre, eu comecei a valorizar muito o autoconhecimento. Então eu leio muito, hoje em dia eu só leio livro e autoconhecimento. Mas não é autoajuda, autoconhecimento é no sentido de conhecer-se a si próprio. Então por exemplo, eu queria te falar isso aí, eu tenho um conhecimento muito grande na parte de constelação familiar, mas não é a constelação familiar que a gente está acostumado a ouvir. Que você vai lá na constelação, faz os representantes, eu nunca participei de uma constelação familiar. O que eu acho muito interessante e aconselho todo mundo a estudar, são as teorias da constelação familiar, que você sabe, todas as relações elas estão balizadas por 3 únicas leis, que é a lei do pertencimento, quer dizer, que você pertence a sua família, você pertence a sua empresa, você pertence a sociedade. Então, a lei do pertencimento você não pode mudar. Seu pai e sua mãe vai ser seu pai e sua mãe para o resto da vida. Seus filhos, vão ser seus filhos para sempre. Então é aquela lei do pertencimento, que você não pode mudar. E tem a lei da hierarquia, seu pai e sua mãe sempre vai ser antes de você, e seus filhos vai ser sempre depois de você. Então, é a hierarquia, você tem que respeitar o seu pai e sua mãe, e seus filhos tem que te respeitar, porque você está antes deles. Assim como por exemplo, as pessoas na empresa, eu aplico isso lá na empresa, as pessoas da empresa, os mais velhos têm mais voz do que o novo, porque o cara pode ter um cargo maior, mas ele chegou agora, ele não sabe da história da empresa. Isso faz uma diferença enorme para quem está na empresa. Então, eu tenho funcionários de 26 anos, 20 anos, 24 nos, um monte, mais da metade tem mais de 15 anos de empresa. Quer dizer, eles ficam, porque são respeitados. E ficam, gostam de estar lá. Então a lei da hierarquia, ela é muito importante, porque você vê hoje em dia filho não respeita o pai, pai não respeita o avô, está uma bagunça. Mesmo na empresa entra lá o gravatinha, e ele já quer mandar em todo mundo. Tem uns pessoal antigo aí, tem que dar vida para o cara antigo, ele conhece a história, ele conhece não é bem a história, mas ele conhece a cultura da empresa.

Luciano Pires: Não só conhece, como ele é o cara que ajuda a manter, a constituir. E quando você pega e manda embora o velho de 60 anos…

Sérgio Siqueira: Você está mandando a cultura embora.

Luciano Pires: Claro que vai, cara.

Sérgio Siqueira: Então quer dizer, o que eu mais quero, hoje por exemplo na empresa, eu estou fazendo um trabalho de governança. Meu filho está no Canadá, você sabe, uma empresa como diz o Flavio Augusto, uma empresa é herdada, vendida, fechada ou falida, só tem esses 4 caminhos. Falida ela não vai ser, fechada talvez, só o dia que eu me aposentasse, se meu filho não estiver por perto ela vai ser fechada.

Luciano Pires: Ou vai vender para alguém.

Sérgio Siqueira: Sim, mas hoje em dia não vale nada, sabe? Você vende uma empresa no Brasil hoje, você não se livra da empresa, você fica com ela por muito tempo ainda, sabe? Trabalhista e tudo mais, enfim.

Luciano Pires: Eu me lembro quando a gente fez, a Dana comprava muita empresa, e também em alguns momentos ela tratou da venda toda. Na hora de discutir a venda, você olhava aquele puta parque industrial, não valia nada. E as maquinas, não valem nada, não vale nada. Então o que que vale aqui? Vale a tecnologia que você tem, vale os clientes que você tem, se tiver uma marca legal, vale a marca. Prédio, o resto não vale nada.

Sérgio Siqueira: A máquina foi feita por mim mesmo, não vale nada, então não sei. E vou te falar, se eu pegasse aquele prédio e transformasse em apartamentos, eu ganhava mais dinheiro, entendeu? Não é que eu ganhava, mas eu não faria nada.

Luciano Pires: Sim, não teria trabalho nenhum.

Sérgio Siqueira: Não teria que olhar governo, sindicato, nada disso, eu fico em casa lendo meus livros, acabo ganhando mais porque eu vou ganhar sem trabalhar praticamente. Mas estava falando da constelação, a lei da hierarquia ela é importantíssima quando você aplica essa lei. Então eu nem faço, e nem vou em constelação, nada disso, mas a teoria para mim ela é muito cara, ela é muito rica, sabe? E eu aplico a lei da hierarquia lá na empresa, na minha família. Se eu vejo alguém, algum desrespeito, filho desrespeitando pai, sobrinho… o irmão mais velho ele é mais velho, ele veio primeiro, ele não veio segundo. Então irmão mais novo tem que respeitar o irmão mais velho. Não respeitar para dar ordem, nada disso, mas ele tem que respeitar a precedência.

Luciano Pires: Já dizia o carequinha, ele flava, respeita os mais velhos.

Sérgio Siqueira: Exatamente. E aí tem a terceira lei, que é a única lei que depende da gente, o Hellinger que é o criador das constelações, ele chama da lei do amor, mas é a lei do dar e receber. Por exemplo, se eu te faço um favor, por exemplo, eu te fiz um favor, eu te transferi um pouco de amor fazendo esse favor para você, então eu fico esperando aquilo. Mesmo no inconsciente, eu fico esperando que você também me retribua aquele benefício que eu te fiz. Só que como se trata de amor, de coisa boa, você me faz um pouquinho mais. Puta merda, eu fiz um negócio para o Luciano, ele fez um pouco mais, então eu fiquei com dívida com você, com dívida de amor. Então, eu não vou ver a hora de te entregar algo a mais para crescer aquilo.

Luciano Pires: E você cria uma espiral positiva.

Sérgio Siqueira: De amor, exatamente. E assim as coisas deveriam caminhar, porque depende de mim fazer a escalada do amor. Assim como, você me fez uma ofensa, por exemplo, eu fico com uma necessidade, uma espécie de vingança de você. Só que eu não vou me vingar a altura, eu vou vingar um pouquinho menos, para poder fazer uma escalada negativa, para não escalar o ódio, sabe como que é? Então, essa lei do amor depende da gente, de a gente fazer crescer o amor, fazer crescer as relações. Então eu vejo assim, por isso que eu falo autoconhecimento, a análise transacional me ajudou nas relações, a constelação me ajuda muito nessa questão de conduzir a vida, conduzir a vida também nas relações, o que que eu devo fazer, o que que eu não devo fazer. E tem um outro assunto que para mim me ajudou demais, que é o assunto Eneagrama, e eu aconselho todos que estão te ouvindo, estudem essas 3 matérias, a análise transacional são vários livros, eu já li mais de 20 livros sobre análise transacional, é um negócio que saiu de moda, mas ele é riquíssimo, importantíssimo. A constelação familiar, mas não é para sair fazendo constelação, é para estudar a teoria da constelação familiar, é isso que importa, porque você aplica na sua própria vida, você resolve os seus problemas. Não é que você vai lá em uma sala, o cara vai falar e o cara vai resolver o seu problema.

Luciano Pires: O consultor.

Sérgio Siqueira: É, o cara que vai resolver. Esquece, porque ele não vai resolver, tem muita interferência por lá, não se faz isso. Eu sou totalmente contra esses grupos de constelação familiar, essa é minha opinião pessoal, de fazer, de ir lá levar representante, não sei o que lá. É muito gostoso e confortável, mas aquilo lá não funciona, o que funciona é você aplicar a sua teoria na sua própria vida, aí você vai estar resolvendo o seu problema.

Luciano Pires: E o Eneagrama?

Sérgio Siqueira: O Eneagrama ele me ajudou muito a conhecer quem eu propriamente sou. Você sabe que o Eneagrama são 9 personalidades, né?

Luciano Pires: Sim.

Sérgio Siqueira: Cada personalidade ela é representada por um animal. Então tem a formiga, tem o gato, tem a águia, depois tem o cavalo, coruja, macaco. Então, cada um, tigre, golfinho.

Luciano Pires: Tem um atributo, uma característica.

Sérgio Siqueira: Cada um tem uma característica diferente. Então, quando você se descobre ali, poxa, eu só funciono desse jeito. Então eu entendo porque que eu funciono daquele jeito. Quando você entende como que funciona um carro, você dirige muito melhor, não é assim? Quando você entende como que funciona um cambio, você vai trocar a marcha na hora certa. É mais ou menos a mesma coisa, você entende como que você funciona por dentro, o seu desempenho é muito maior.

Luciano Pires: Até para saber o que que você precisa evitar, onde é que eu não devo me meter.

Sérgio Siqueira: Então dentro do Eneagrama tem uma coisa assim`, por exemplo, quando eu estou feliz eu me comporto de um outro jeito. Quando eu estou normal, eu estou me comportando de um jeito e se eu estou feliz, estou me comportando de outro jeito. Se eu estou triste, eu estou de outro jeito. Por exemplo, no meu caso quando eu estou feliz, estou bem, eu viro muito mais protetor, eu viro muito mais doador, e quando eu estou triste eu me recolho, eu vou lá me recolher na minha biblioteca lá, ler meus livros, não converso com ninguém, fico calado. Se eu me percebo calado, o que que está me entristecendo? Então eu vou me entendendo, porque que eu estou dessa forma, porque que eu estou doador, o que que está me fazendo feliz? Então, são coisas que ajudam você a decidir o que fazer diante dos problemas. Por isso que quando você sabe pilotar um carro bem direitinho, você pilota com muito mais eficiência. E quando você sabe pilotar você mesmo de uma forma clara, então você pilota melhor. Então, os problemas chegam menos, o estresse é menor, as dificuldades são menores. Não é que elas são menores, é que você sabe pilotar melhor.

Luciano Pires: Autoconhecimento.

Sérgio Siqueira: Autoconhecimento para mim é a coisa mais importante que um ser humano pode fazer para si próprio.

Luciano Pires: Não é autoajuda, é autoconhecimento.

Sérgio Siqueira: É autoconhecimento, é estudar mesmo.

Luciano Pires: Você, o que que você vai inventar agora cara, o que que você está inventando agora? Eu vi que a sua linha de produto não era conchiglione e espaguete. Tem um monte de coisa. Então, se você entrar na loja da Franccini, então vamos lá, Franccini escreve com dois C’s. Então, é franccini.com.br, tem uma loja online, que não vai na hora do almoço que você vai ficar louco. E ali tem de tudo, tem as massas, acompanhamentos, tem uma pancada de coisas lá. O que que você está inventando agora, cara?

Sérgio Siqueira: Então rapaz, você sabe que eu, não é que eu estou desacelerando, mas a gente não vai crescer muito mais. Na verdade, o que está lançando agora, é uma linha de produtos congelados, massas congeladas. Quer dizer que ao invés de você ter uma massa fresca e você ter um prazo de validade aquela massa, quer dizer, as nossas massas tem 60 dias, 60 dias? Ela tem muita validade não é porque tem muito conservante, ao contrário, tem pouco conservante. É que ela é feita em uma condição de higiene tão grande, que ela dura mais. Porque quando nasce um prato, nasce uma comida, se ela nasce com pouca bactéria, a bactéria demora para crescer. Se ela nasce com muita bactéria, estraga logo. Então nossos produtos, elas têm uma condição de higiene muito grande, então ela nasce com pouquíssima bactéria, então a bactéria demora para… então, o produto tem um shelf life, quer dizer, um tempo de vida de 60 dias, a maior parte deles. Só que as vezes você quer tem uma massa lá no seu congelador, entendeu? Então uma coisa é você pegar uma massa fresca e congelar, outra coisa é você receber a massa congelada e guardar no seu freezer congelado. Mas não estou falando massa de umas empresas grandes que tem por aí, que você come e não sabe nem o que está comendo, é produto de boa qualidade. Você vai no supermercado, tem umas massas congeladas que é incomível, é química pura.

Luciano Pires: A visão da Franccini é levar massa da nona.

Sérgio Siqueira: Exatamente, porque é um respeito com o cliente, porque eu não uso praticamente química nenhuma lá na empresa. Então você vê nos supermercados, tem uma linha enorme de massas congeladas, produtos congelados, mas é química pura aquilo lá, está errado aquilo, não devia ser permitido. Aí o governo faz o negócio de colocar açúcar, gordura, você vai comer um panetone agora, dá até… isso aqui é veneno, porque tanta ciosa escrita lá que faz mal, pô, nunca mais eu vou comer panetone. Chocolate, você vai ver embalagem de chocolate…

Luciano Pires: É o fenômeno do Dadinho.

Sérgio Siqueira: Você sabe que eu tenho uma história com Dadinho, eu chegava em casa com Dadinho e meu filho vinha com a mãozinha assim para receber os Dadinhos, um monte, aqueles Dadinhos deliciosos assim. Então a gente tem um carinho com o Dadinho porque eu tenho uma história com o meu filho particular com Dadinho, sabe? Outro dia eu achei Dadinho e comprei. Cara, eu não tive coragem de dar Dadinho para o meu filho, eu ia levar para o Canadá, comprei aqui e falei nossa, eu vou levar. Fui comer um, não vou levar esse negócio não cara.

Luciano Pires: Eu vou te dar uma dica, eu não experimentei ainda, mas lançaram uma versão do Dadinho antigo, que é a versão dos anos não sei o que. Eu sei lá o que que é.

Sérgio Siqueira: O cara se quebra demais fazendo produto de baixa qualidade, sabe? Não está certo isso aí.

Luciano Pires: É um momento em que você…

Sérgio Siqueira: Você falou esses dias aí, não lembro em que lugar, pega um material mais baratinho, não sei o queque você falou outro dia.

Luciano Pires: Eu escrevi, eu fiz um programa do complexo do Dadinho.

Sérgio Siqueira: Isso aí mesmo.

Luciano Pires: Diminui um pouquinho o açúcar, quando você junta tudo que você diminuiu fica uma merda no final. Mudou a característica inicial, a gente não percebeu porque foi passando devagarinho. Agora pega um velho que nem eu, que lembra com o Dadinho lá de trás, já vieram falar para mim que o que mudou foi meu paladar. “Seu paladar mudou”. Aqui, meu paladar.

Sérgio Siqueira: Eu não faço isso, meus produtos lá têm qualidade, sabe? Eu não vou para a baixa qualidade não.

Luciano Pires: Serjão, quem quiser conhecer a Franccini então, vamos lá. @?

Sérgio Siqueira: @franccinimassas. A gente tem muitas receitas no Instagram, todo dia tem 1 ou 2 receitas, são modos de preparo, porque muitas vezes a pessoa não sabe preparar o produto. Para mim, o melhor jeito de preparar o produto é você colocar o molho, a gente vende o molho também. Põe o molho na frigideira, põe o produto em cima do molho, tampa a frigideira, 4 minutos você está comendo o produto. Outro dia nós fizemos uma comparação do miojo, preparar o miojo e preparar as nossas massas. Nossa massa ganhou de longe, porque até a água ferver, você já está comendo o produto.

Luciano Pires: Repete, você põe o molho…

Sérgio Siqueira: Pega a frigideira, frigideira é o melhor instrumento dentro de uma cozinha, é a frigideira.

Luciano Pires: Sim.

Sérgio Siqueira: Então, parece que não, mas eu só cozinho com frigideira por exemplo. Eu raramente uso panela, porque você coloca o molho no fundo da frigideira, coloca as massas por cima.

Luciano Pires: Congeladas mesmo?

Sérgio Siqueira: É, ela é fresca ou congelada. Porque se ela é congelada, você vai ter que cozinhar. Então essa linha que eu vou lançar congelada, você vai ter que cozinhar antes de comer.

Luciano Pires: Ok.

Sérgio Siqueira: As massas que a gente vende hoje são pré-cozidas, então você põe na frigideira, põe o molho, põe a massa por cima, tampou e fica 4 minutos lá, está pronto.

Luciano Pires: 4 minutinhos você está comendo.

Sérgio Siqueira: Por que tampar? Porque ela pega umidade do molho, umidade da massa e fica lá, ela não vai… Agora se você não tampar, ela vai secar, aí fica massa dura. Tem alguns clientes que ligam e falam, “a massa estava dura igual uma madeira”. “Claro, você não fechou a frigideira, eu já sei o que aconteceu”. Tanto é que no Instagram, nós temos nota 5… no Google, nós temos nota 5. Quer dizer, o pessoal gosta mesmo, é bacana.

Luciano Pires: Serjão, são 1 hora da tarde, você me deixou aqui morrendo de fome, nós vamos almoçar agora, e não vai ser massa, mas vamos comer agora. Cara, grande papo, grande conversa, obrigado por estar aqui com a gente.

Sérgio Siqueira: Obrigado, adorei a oportunidade.

Luciano Pires: Vamos continuar.

Sérgio Siqueira: É sempre um prazer estar do seu lado, eu te acompanho há muito tempo, e não é à toa.

Luciano Pires: Como que é? É uma troca, é o amor de lado a lado que vai crescendo.

Sérgio Siqueira: É por aí, você percebe que tem isso entre a gente mesmo. Porque primeiro você faz, você fez o Café com Leite, aquilo lá tocou meu coração, por isso que eu te ajudei com aquilo, porque tocou meu coração mesmo, você está fazendo para as crianças. Eu vejo que as crianças estão abandonadas pelos pais, abandonadas pela sociedade, abandonada pela escola, eu fico muito triste com isso aí. E é o futuro, quando a gente ficar um pouco mais velho, quem vai estar no ar são as crianças, é tenso. Muito obrigado, foi um prazer.

Luciano Pires: Abraço.