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Luciano Pires -

Para comprar o livro da Renata:

https://livrariacafebrasil.com.br/psicopatas-domesticos

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite, bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. No episódio de hoje trazemos Renata Silbert, que tem uma carreira profissional diversificada, de executiva em grandes empresas a profissional do mercado financeiro. Sentindo que precisava complementar sua experiência profissional com questões ligadas à gente, Renata decide cursar psicologia aos 47 anos, passando a clinicar. Essa experiência a colocou em contato com histórias impressionantes, que acabaram por inspirar o livro Psicopatas Domésticos. Uma conversa fascinante sobre o psicopata que está na sala ao lado. Ou ao seu lado. Ou dentro de você. Muito bem, mais um LíderCast, sempre começo contando como é que minha convidada dessa vez veio parar aqui. Isso aqui é uma recomendação que a gente não pode deixar de atender. Me manda uma mensagem o meu grande amigo Roberto Motta, “Luciano, tenho uma amiga que escreveu um livro sensacional, e o tema você vai gostar, psicopata, meu falei, ” Meu Deus do céu”, não ela, mas o livro né? “Cara, conversa com ela”. Falei, “mas é já”. Mandei uma mensagem para ela, a gente marcou, veio do Rio, está chegando aqui, então isso foi uma grande recomendação, amigo do Motta é meu amigo.

Renata Silbert: Muito querido, Roberto muito querido, meu amigo de colégio, Santo Inácio.

Luciano Pires: Seja muito bem-vinda. A gente começa aqui com três perguntas que são as únicas que você tem que se preocupar, o resto pode chutar à vontade, essas três você vai… Aliás, como é mulher, eu abro mão de uma. Tem gente que reclama comigo, “você não tem que abrir mão porque mulher é tudo igual”. Tá bom, mas vamos lá, seu nome, sua idade e o que que você faz?

Renata Silbert: Eu me chamo Renata Silbert, tenho 61 anos, e o que que eu faço, é um monte de coisa.

Luciano Pires: Pode, nós temos tempo.

Renata Silbert: Bom, enfim, olha só, minha história é a seguinte, eu estudei no Santo Inácio com o Roberto, depois eu fiz Administração de Empresas na Fundação Getúlio Vargas, pela Escola Brasileira de Administração Pública. Aí fui trabalhar em empresa multinacional.

Luciano Pires: Você está acabando com o programa já. Eu perguntei o que que você faz, o que que você faz hoje? “Eu sou”?

Renata Silbert: Faço um monte de coisas ainda.

Luciano Pires: Sou psicóloga, sou psiquiatra, sou…

Renata Silbert: Tá bom, então no momento, você quer saber o que que eu faço no momento? No momento eu sou escritora, psicóloga, eu trabalho no mercado financeiro, eu construo casa, eu faço projetos, eu sou decoradora. Assim…

Luciano Pires: Um pouco multitarefas.

Renata Silbert: É, eu sou multitarefas.

Luciano Pires: Você nasceu onde?

Renata Silbert: Nasci no Rio de Janeiro.

Luciano Pires: Carioca da gema?

Renata Silbert: Carioquíssima, 400 anos de família de Rio de Janeiro.

Luciano Pires: Legal, tem irmãos?

Renata Silbert: Tenho um irmão maravilhoso, uma benção.

Luciano Pires: O que que seu pai e sua mãe faziam, fazem?

Renata Silbert: Meu pai foi deputado desde o dia que eu nasci até o dia que ele morreu. Eu nasci com o pai deputado.

Luciano Pires: Federal, Estadual?

Renata Silbert: Não, Estadual, meu pai era judeu, então ele representava a colônia judaica do Rio de Janeiro. Quando eu nasci, ele era deputado no Rio Estadual, e ele nunca quis ir para Brasília, então ele nunca foi para Federal, porque ele nunca quis ir para Brasília. Mas ele era deputado naquela época, quando ser deputado era muito diferente do que é hoje.

Luciano Pires: Na época que os caras andavam armados.

Renata Silbert: Era uma profissão como outra qualquer, porque você tinha um salário, enfim, era muito diferente do que é hoje. E eu me lembro de criança, a gente nas eleições, na porta dos lugares de votação, porque naquela época não era proibido, levando papelzinho, santinho, entregando. As pessoas falavam, “que menininha bonitinha, pega um papelzinho do pai dela”. Eu falava, “vota no meu pai”, enfim. E aí é isso.

Luciano Pires: Sua mãe?

Renata Silbert: Minha mãe era dona de casa.

Luciano Pires: Qual seu apelido quando você era pequenininha?

Renata Silbert: Tem umas pessoas que me chamam de Rê, outras pessoas me chamam Renatinha.

Luciano Pires: O que que a Renatinha queria ser quando crescesse?

Renata Silbert: A Renatinha queria ser atriz, olha só que coisa louca.

Luciano Pires: No Rio de Janeiro. Você está com 61, nós estamos falando de 50 anos atrás?

Renata Silbert: Era época de Regina Duarte, das novelas da Globo. Eu queria ser na verdade, a Regina Duarte.

Luciano Pires: É isso que eu ia dizer, quer dizer, uma época que a Globo, novela de Globo dominava o Brasil. Nós estamos falando de começo dos anos 80, final dos anos 70?

Renata Silbert: É, final…

Luciano Pires: Começo dos anos 80.

Renata Silbert: Não, até antes, porque eu sou de 63, então eu com 10 anos tinha… é 73.

Luciano Pires: Música popular brasileira a milhão, o Rio de Janeiro decolando.

Renata Silbert: Eu me lembro de eu indo aos festivais nacionais de música no Maracanãzinho com meus pais, me lembro Fio Maravilha, Maracanãzinho vindo abaixo.

Luciano Pires: Você viu BR3 com Tony Tornado.

Renata Silbert: É, eu fui a alguns, mas o Fio Maravilha foi um que ficou na minha cabeça, porque o Maracanãzinho veio abaixo.

Luciano Pires: Maria Alcina, né?

Renata Silbert: Eu não lembro, era ela?

Luciano Pires: Fio Maravilha não foi ela?

Renata Silbert: É, não sei, também não me lembro.

Luciano Pires: Faz tempo. Isso é uma característica das pessoas sexys como nós dois, a gente está tão longe…

Renata Silbert: É, a gente vai ficando na história.

Luciano Pires: Mas então você queria ser atriz?

Renata Silbert: É, queria ser atriz, e aí assim, a gente as vezes, a vida vai levando a gente pelos caminhos que a gente não imagina. Meu pai faleceu quando eu tinha 14 anos, e minha mãe falava para mim, minha mãe teve câncer no ano seguinte, e a gente não tinha família, não tinha mais ninguém, só tinha eu com 14 anos e meu irmão com 8. Então minha mãe tinha uma preocupação muito grande de ela morrer, porque não tinha com quem deixar a gente, e aí ela falou para mim, “minha filha, você tem que fazer alguma coisa que você ganhe dinheiro o mais rápido possível, porque eu não sei quanto tempo eu vou viver, não sei se o câncer vai voltar”. E aí eu não tive muitas… eu não pude mais pensar no que que eu gostaria de fazer, né, porque eu tinha aquela coisa de que eu tinha que ser capaz de o mais rápido possível me sustentar. E aí quando eu terminei o Santo Inácio entrei na Fundação Getúlio Vargas, porque era uma faculdade com nome, e eu comecei a trabalhar com 16 anos de idade entrei como estagiaria em uma multinacional, e fiquei lá acho que 12 ou 13 anos trabalhando no departamento de planejamento estratégico, que era, a gente fazia consultoria da presidência da empresa. E foi uma coisa fantástica, porque era um trabalho completamente diferente de tudo. Eu acho que foi esse trabalho que me preparou para ser multitarefas na vida.

Luciano Pires: Que ano era isso, mais ou menos?

Renata Silbert: Isso era 82, 83 mais ou menos.

Luciano Pires: Plano Sarney, auge da hiperinflação.

Renata Silbert: É, e assim, era um trabalho que a gente tinha, cada dia surgia uma coisa nova, porque a empresa quer apresentar um projeto no Congresso Nacional, então tinha legislação.

Luciano Pires: Que segmento que era?

Renata Silbert: Era gases industriais. E aí você tem que fazer um estudo sobre a China, porque o presidente da empresa vai fazer uma visita para a China. A gente vai fazer uma expansão na América Latina, tem que fazer estudo de viabilidade econômica de projeto. Enfim, era um mundo, e assim, eu acho que eu tive uma sorte enorme de ter entrado em uma área que ao invés de eu ter um trabalho repetitivo, eu tive um trabalho desde o início muito, muito criativo. E aí a vida, depois quando eu saí dessa empresa, entrei no mercado financeiro, e aí a vida foi me levando. Aí a coisa de um determinado momento da vida surgiu a coisa de construir casas, aí eu tinha um amigo que era arquiteto, ele fazia os projetos, meu irmão construía, eu auxiliava, mas com o tempo o meu irmão saiu da construção, meu amigo arquiteto deixou de fazer os projetos porque não precisava mais, porque eu aprendi a fazer os projetos. E aí eu virei meio que arquiteta, enfim, não oficial, mas de vida, engenheira de vida, decoradora de vida, enfim. E em um determinado momento eu pensei assim, o que que falta na minha vida, o que que falta? Falta a área humana.

Luciano Pires: Que idade que você tinha quando concluiu isso?

Renata Silbert: Sei lá, uns 12 anos atrás mais ou menos, uns 46 ou 47.

Luciano Pires: Você chegou naquele nível de maturidade quando a gente começa a olhar para trás.

Renata Silbert: É, eu já fiz tudo, mercado financeiro, construção, foram tantas experiências, o que que falta na minha vida? Falta essa parte humana. E aí fui fazer faculdade de psicologia.

Luciano Pires: Você foi cursar psicologia.

Renata Silbert: É, fui fazer psicologia, acho que eu entrei devia ter uns 46, 47 mais ou menos, fiz 5 anos de faculdade de psicologia, trabalhando no mercado financeiro, atendendo ligação no meio da sala de aula. Ficava sentada perto da porta, porque se alguém me ligava eu tinha que correr para o lado de fora para atender. Na hora das provas, eu entregava meu celular para a professora e falava o seguinte, “olha, se algum cliente me ligar você por favor atende, porque eu tenho que fazer a prova aqui”, e elas atendiam para mim, que elas sabiam o que que era essa corrida. E aí assim, minha vida sempre foi muitas coisas ao mesmo tempo.

Luciano Pires: O que que você encontrou na psicologia? Abriu um mundo para você, como que foi?

Renata Silbert: Eu acho que assim, a gente até vai falar um pouco disso no nosso tema, mas eu acho que eu sou uma pessoa, eu me interesso pelo ser humano, sabe? Eu me interesso pelo ser humano, eu gosto de escutar as histórias, eu gosto muito de escutar as histórias das pessoas. Eu tenho muito interesse por isso. Eu acho que eu sou esfomeada pela história do outro, então eu acho que a escuta é uma coisa que eu acho fantástico, é uma troca de vida, sabe? Eu acho que esse foi o meu grande interesse lá atrás. Mas durante muito tempo, eu não pude me dedicar só a psicologia, porque eu ainda criava meus filhos, meus filhos ainda eram dependentes financeiramente de mim, eu tinha uma vida no mercado financeiro estruturada. Bom, o tempo passou, os meninos graças a Deus hoje são independentes, cada um tem sua vida e tudo mais, e de 1 ano e meio, 2 anos mais ou menos, eu comecei esse meu retorno para a psicologia. E aí quando eu comecei esse meu retorno, quer dizer, eu comecei com alguns atendimentos sociais, atendendo as pessoas de graça, até porque eu achava que eu tinha que voltar a uma prática, e aí era muito bom poder ter oportunidade de atender pessoas que precisavam, então eu estava ajudando elas e elas estavam me ajudando também.

Luciano Pires: Você fez isso como voluntária?

Renata Silbert: É, na psicologia, na psicanalise chama-se atendimento social.

Luciano Pires: Onde que você arrumou tempo para isso, você está no mercado financeiro, aquilo é uma loucura, ele funciona 24 horas por dia, não é?

Renata Silbert: Eu sou muito ligada Luciano, a minha cabeça, as vezes eu não sei o que que acontece aqui dentro, porque eu penso 50 mil coisas ao mesmo tempo. Falavam que isso é uma característica de mulher, porque homem não é assim, de pensar 50 mil coisas ao mesmo tempo.

Luciano Pires: Homem é uma de cada vez e uma não se comunica com a outra.

Renata Silbert: Pois é, eu penso 50 coisas ao mesmo tempo. Para você ter uma ideia, eu não tenho agenda, está tudo na minha cabeça.

Luciano Pires: Ainda bem que você está com o cérebro bom. Eu vi uma apresentação ontem, eu vi um post no Instagram que eu rachei o bico, um palestrante… depois os caras estavam comentando que esse vídeo já tem uns 15 anos. Ele contando coo é que funciona o cérebro do homem e da mulher. Ele fala, o cérebro do homem são caixinhas, são muitas caixinhas que não se comunicam uma com a outra, aliás, elas não se encostam uma na outra. O homem toma todo o cuidado, e quando ele pega uma caixinha, de botar de volta sem que uma se encoste com a outra. E tem uma caixinha lá que é a preferida dele, que é uma caixinha vazia, não tem nada dentro. Então ele pega aquela caixinha e ele curte aquela caixinha e fica nela. E o cérebro da mulher ele é todo conectado, então ele está o tempo todo, está todo ligado, ela não consegue pensar uma coisa sem conectar com a outra. E ele fala, bom, então a mulher vem conversar com o homem e o cara está na caixinha vazia, onde ele fica…

Renata Silbert: E aí a pobre da mulher fica ali pensando, nossa, ele não está interessado em mim, porque ele está ali na caixinha vazia.

Luciano Pires: Exatamente, e ele não consegue saltar e uma para a outra.

Renata Silbert: Eu acho que as minhas caixinhas tão todas absolutamente emaranhadas, uma confusão só. Eu não sei como é que funciona, mas eu agradeço muito a Deus, porque eu acho que funciona muito bem. Eu falo o seguinte, eu acho que de Alzheimer eu não vou morrer de jeito nenhum, porque a velocidade do pensamento, a intensidade dos pensamentos é tal que não tem a menor possibilidade de acontecer. Mas enfim, ainda hoje eu junto as duas coisas, eu ainda atuo no mercado financeiro, e eu estou fazendo esse retorno para a psicologia, e aí quando eu comecei a fazer esses atendimentos sociais, eu me deparei com algumas histórias de relações abusivas. E aí assim, o que me impressionava, alguns relatos bem dolorosos, muito devastadores, e aí assim, aquilo me impressionava.

Luciano Pires: Que era novidade para você? No seu hall de conhecidos, você não…

Renata Silbert: Não, então assim, aquilo era uma coisa bem impressionante. Na verdade, eu acho o seguinte, a gente sempre escuta umas historias estranhas, todos nós temos pessoas que a gente sabe que viveram coisas esquisitas, mas as pessoas não costumam muito falar. E dentro de um consultório, a pessoa ela derrama aquela devastação toda ali daqueles sentimentos todos dela em cima de você.

Luciano Pires: Eu entendo se o seu trabalho era social, não era com milionários, era com pessoal…

Renata Silbert: Não, com pessoas mais simples, e aonde que as histórias eram ainda mais dramáticas, porque são muitos problemas que se acumulam. Bom, aí o que que aconteceu, aí voltamos ao nosso amado Roberto Motta, que tem a livraria virtual dele, e eu entro na livraria do Roberto e resolvo comprar dois livros, e um desses livros chamava-se Mentes Criminosas, de um autor americano chamado Stanton Samenow. E eu começo a ler esse livro, e quando eu começo a ler esse livro, esse livro bate de uma forma brutal com aquelas histórias que eu estava escutando no consultório. Então, eu pego uma caneta e vou ali sublinhando, do início até o fim do livro, não consigo parar o livro, aquela compulsão ali naquele livro, e eu falei assim, caramba, olha só, isso é a psicopatia. Quando a gente conecta as histórias de vida a uma patologia, é uma coisa muito impressionante, porque é como se você conseguisse compreender tudo que você não compreendia. E o meu livro tem isso.

Luciano Pires: Antes de você falar do livro aqui, como que chama o livro? Mentes Criminosas?

Renata Silbert: Esse foi o livro que eu li, Mentes Criminosas.

Luciano Pires: Tem um outro chamado Psicopatas no Poder, não tem? Tem mais um chamado Psicopatas no Poder, que fala de…

Renata Silbert: Esse eu não li, é.

Luciano Pires: Me fala desse Mentes Criminosas, ele fala de criminoso, isso? De crime?

Renata Silbert: Ele fala, ele começa, na verdade assim, a gente, existem muitos livros Luciano, sobre a psicopatia. Mas, a maior parte dos livros que existem sobre psicopatia, falam da psicopatia criminal, e esse livro ele já é um livro que ele já tinha uma abordagem que ia além da criminalidade, que já falava de uma forma de estar no mundo, uma forma de estar no mundo destrutiva. Ou seja, a pessoa pode não ser capaz de matar, mas ela, o dano que ela causa nas relações afetivas é enorme. E aí aquilo bateu muito com as histórias que eu estava escutando, e por isso que eu agora vou te falar um pouco do meu livro, a característica do meu livro é a seguinte, eu misturo essa construção da ideia do psicopata doméstico, com as histórias. Porque eu acho que eu conto histórias no livro também, porque eu acho que esse contar de histórias dá essa humanidade que as pessoas precisam. E eu acho que essa que faz toda a diferença do meu livro, é isso.

Luciano Pires: Você falou um termo interessante, psicopata doméstico. Quando você bota o adjetivo doméstico ali, você já tirou da cadeia o cara, já não está na cadeia, não é um assassino, é o que está em casa do meu lado ali, né?

Renata Silbert: Isso, o que eu falo é o seguinte, o psicopata, assim, de ponde que surgiu essa criação desse tema? Foi uma ousadia da minha parte, criar psicopata doméstico, por que? Porque eu quis juntar as duas ideias, o que que a gente imagina? Que existe o psicopata que é aquele que mata, estupra, enfim, faz crimes bárbaros, é capaz de crimes bárbaros. Mas a gente sabe também que existe aquele abusador doméstico, o cara que bate na mulher, enfim.

Luciano Pires: Ou a mulher que bate no homem.

Renata Silbert: É, que maltrata também, porque assim, existe. É muito menos, é uma relação de 3 homens para uma mulher psicopata.

Luciano Pires: Eu acho que é até de se esperar.

Renata Silbert: Talvez até tenha uma influência cultural nisso também, é possível.

Luciano Pires: E também força física, etc. e tal, tudo isso também.

Renata Silbert: É. Então assim, eu resolvi juntar essas duas histórias, porque na verdade o que que acontece, as características que existem no psicopata criminal e as características do abusador doméstico, elas são as mesmas, elas são exatamente as mesmas. O que está ali, a diferença é uma diferença de intensidade. É como se fosse uma mesa de mixagem, imagina o seguinte, cada ser humano fosse uma mesa de mixagem, com diversas características que a gente possui, e algumas características que a gente não possui. Então as características do psicopata, seriam frieza, deslealdade, falta de respeito com o outro, crueldade, prazer na crueldade, o sujeito não tem culpa, ele não sente culpa, jamais. Ele jamais se responsabiliza por nada, ele não tem remorso do que ele faz. Então assim, essas são as características que ele possui.

Luciano Pires: Uma pergunta para você, ele é capaz de ser tudo isso sem perceber que ele é isso?

Renata Silbert: Sim, é, a gente vai falar disso. Deixa eu só falar as características que ele não tem. Ele não tem honestidade, ele não tem empatia, que é a capacidade de você olhar para o outro e perceber o outro como ser humano, não tem alteridade, não tem tolerância, não tem amorosidade, característica básica deles, uma ausência de capacidade de sentimentos profundos. Isso tudo pode funcionar como uma mesa de mixagem, aonde tem essas características ruins que o sujeito tem, e essas características boas que o sujeito não tem. E aí você imagina a imensa capacidade de configurações que isso pode ter dentro de cada ser humano. E aí assim, o que eu resolvi fazer dentro do meu livro foi aproximar e mostrar o seguinte, o sujeito ele pode não… o psicopata doméstico, ele não mata o corpo. Eu falo, ele não mata o corpo, mas ele estraçalha a ala. Ele devasta o outro, ele é capaz de devastar o outro sem dó nem piedade, sem nem remorso, sem culpa, e ele tem prazer na destruição do outro, porque isso é quem ele é, isso faz parte de quem aquela pessoa é.

Luciano Pires: Isso é assustador, especialmente porque quando você bota o doméstico, quando você fala o psicopata, na minha cabeça e na cabeça da maioria das pessoas, vem um filme norte-americano onde aparece um assassino.

Renata Silbert: O cara com uma faca na mão. Não.

Luciano Pires: Aquilo não, não vou nem dizer que é uma caricatura, mas aquilo é uma quantidade ínfima, que são aqueles que manifestam dessa forma.

Renata Silbert: É, uma coisa muito importante é o seguinte, que é uma loucura. As pessoas, esse sujeito ele aprendeu a usar uma máscara social perfeita. Então, quem não convive com ele não tem a menor ideia de quem é aquela pessoa, porque ele costuma ser uma pessoa extremamente agradável, extremamente sedutora. Porque ele aprendeu muito cedo a usar essa máscara, porque ele sabe que se ele apresentar para o mundo aquilo que ele é internamente, ele não pode apresentar aquilo para o mundo. Então ele criou um personagem, Jung chama de persona, ele criou um personagem que ele apresenta para o mundo que esse personagem é a pessoa mais maravilhosa do mundo. O cara é capaz de fazer caridade, o cara é capaz de estar na igreja, assim, o cara é capaz de ajudar velhinho, ajudar os vizinhos na obra ali do lado, o cara é um cara bacana, só que não, só que não é nada disso.

Luciano Pires: Você está falando aí, está vindo na minha cabeça os casos, aliás, nós estamos lidando com dois agora que eu não sei se se encaixa aí. Mas como é o nome do cara do charutão, que agrediu a menina na academia, que agora foi preso, um grandão. E eu estava vendo essa história toda e era exatamente isso, o cara é sedutor, tudo, até o momento que ele é contrariado.

Renata Silbert: Até o momento que não é. Olha só, isso aí ponto pacífico, não suportam ser contrariados. O outro não existe, não existe. Quando as pessoas começam a se relacionar com esses sujeitos, talvez a primeira característica que elas vão identificar é como se existisse assim, quando as relações se constroem, vão sempre existir diferenças. Existe você, e existe eu, e aí nós somos pessoas que temos histórias de vida diferentes, criações diferentes, as vezes valores diferentes. Então para a relação ser construída, nós vamos ter que negociar e encontrar, e chegar no meio do caminho. Com uma pessoa dessas não existe o meio do caminho, porque o outro não existe, ele está sempre certo, ele é o dono da verdade. Então no início, na verdade, não existe a negociação, existe um verdadeiro embate sempre. E eu chamo de vítima, porque é uma vítima, a pessoa que vai se relacionar com um sujeito desses, ela no início entra nesse embate, porque ela tem forças ainda para brigar, mas com o tempo, quem que aguenta? Ninguém aguenta, porque é insuportável. Então o que que acontece? A vítima se submete.

Luciano Pires: E aí permanece nessa relação…

Renata Silbert: Aí permanece nessa relação submetida numa eterna estratégia de evitação de conflito, tentando, já amedrontada, cada vez ficando com mais medo, fazendo de tudo para aquele sujeito não explodir em cima dela.

Luciano Pires: Não sei o que Brennand o nome do cara.

Renata Silbert: Eu não vi essa história.

Luciano Pires: Uma história famosa aqui, e eu me lembro dela dando uma entrevista outro dia, ela contando a história. Tem vídeos da academia, ela na academia e o cara começa a cortejá-la.

Renata Silbert: Sim, são sedutores.

Luciano Pires: Conversa, pede telefone, não sei o que, e ela no começo, cara agradável e tudo mais. Até que ela dá um não para ele, quando ela dá um não para ele, o cara vira um perseguidor. E aí as meninas em volta falando, cara, cuidado que esse sujeito é perigosíssimo. E o cara na academia tocando o terror com todo mundo, o dono da academia vai lá, “ele é complicado mesmo”, e o cara tem dinheiro. O cara tem dinheiro, grandão e tudo, então ela conta uma história de terror, porque o cara passa a persegui-la.

Renata Silbert: Olha só, tem uma ciosa característica que é o seguinte, eles adoram um não. No início, esse jogo da sedução que eles fazem, se mostram extremamente sedutores e eles gostam desse não do início, é o desafio para eles, entende? Eles têm o outro, a vítima, é um objeto a ser conquistado, é um desafio. Eles precisam tomar posse dessa outra pessoa. Então esse nãozinho inicial, torna o jogo mais instigante, faz com que eles fiquem mais fissurados ainda. Por isso que as vezes o cara quando toma um não definitivo, ele vira um stalker.

Luciano Pires: Cara, estava na minha cabeça, eu ia te perguntar isso agora. Me fala do stalker.

Renata Silbert: É, porque enquanto é um joguinho, porque ele vai ficando, quando a vítima é difícil, ele vai ficando mais atiçado, mais atiçado. E aí ele fica muito atiçado com aquele jogo difícil. Se no final das contas ele não consegue, e ele recebe um não definitivo, ele fica enlouquecido, ele pode virar um stalker.

Luciano Pires: E aí o stalker é um perseguidor.

Renata Silbert: É um perseguidor, porque na cabeça dele ele está pensando o seguinte, como não? Como que eu não consegui a posse do objeto, como que eu não consegui? Eu tenho que conseguir a posse desse objeto. Olha, é tão louco Luciano, é como se fosse, o Robert Hare, um psicólogo americano, cientista e tudo mais, ele fala o seguinte, é como se essas pessoas elas tivessem parado no desenvolvimento emocional delas na infância, como se fossem crianças que precisam ter um brinquedo. Como é que a criança funciona com o brinquedo? Ela quer aquele brinquedo de qualquer maneira, ela precisa da posse daquele brinquedo. E aí tem uma coisa também que é o seguinte, tem uma fantasia delirante naquele brinquedo, entende? Não é uma relação aonde que duas pessoas se conhecem e a relação vai sendo construída à medida que as pessoas vão se conhecendo, vão se gostando e vão se apaixonando. Não, da parte do sujeito aquilo é um objeto para tomar posse, é o brinquedo que ele precisa ser dono.

Luciano Pires: E a diferença é que ele é uma pessoa é um ser humano.

Renata Silbert: Exatamente, é uma pessoa. E aí ele faz esse jogo extremamente sedutor, eles são muito sedutores, e a pessoa muitas vezes cai, porque é difícil não cair. Quando você conhece uma pessoa dessas, você acha que você conheceu o príncipe encantado, sua alma gêmea. Você nunca encontrou alguém que se interessasse tanto por você.

Luciano Pires: Você está comentando agora, eu estava me lembrando do caso da Ana Hickmann, o stalker, que foi o cara que no fim morreu, que o cunhado dela acabou matando o cara, porque o cara foi torná-la refém lá no hotel. E eu estava ouvindo o pessoal contar essa história, disse que esse cara estava numa fantasia tão grande que ele cria uma página da Ana Hickmann, a página como se fosse a Ana Hickmann, onde ele dialoga com ela. Ele faz o post conversando com ela, e faz o post dela respondendo para ele.

Renata Silbert: Mas isso daí eu já acho o seguinte, esse aí já não é mais nem psicopatia.

Luciano Pires: Já é loucura?

Renata Silbert: Esse daí já é acho que uma… porque também tem o seguinte, quer dizer, as vezes tem muitas comorbidades. Existem transtornos que são combinados, então esse cara ele pode estar dentro, o que que é a psicopatia? O DSN5 fala o seguinte, que existem os transtornos de baixa consciência, que são quatro: o transtorno de personalidade narcísica, o transtorno de personalidade anti social, transtorno de personalidade boderline, que é muito conhecido, e o transtorno de personalidade histriônico. Então assim, o que eu falo é que o psicopata doméstico, ele é como se ele pode passear entre o narcisismo e o anti social, entendeu? Ele pode estar mais para o narcisismo, ele pode estar mais para a psicopatia, entendeu? Mas de qualquer forma, tem essas características narcísicas, que é um enorme egocentrismo, um cara muito autocentrado, voltado para ele, para o que ele sente, para o desejo dele e tudo mais, onde que o outro está sempre ali para lhe servir, o outro não existe como ser humano. E aí constrói-se essa relação às vezes, quando a pessoa cai no jogo, ela cai na armadilha, porque eu acho que é uma armadilha. Porque você imagina Luciano, você conhecer uma pessoa, você se relacionar com uma pessoa anos, e você não ter a menor ideia quem é aquela pessoa. Você já imaginou que loucura?

Luciano Pires: E o pessoal fala que você só conhece o outro na hora da separação, quando se separa, que aí aparece a…

Renata Silbert: Às vezes pode existir isso até em pessoas normais, porque tem briga, tudo mais. Mas você imagina o seguinte, o psicopata criminoso, vamos pensar no psicopata criminoso. O psicopata criminoso, é aquele cara que ele vai, ele matou, acordou de manhã, deu vontade dele de matar, aí ele foi, matou, fez picadinho de quem ele tinha que fazer, encontrou um prazer enorme naquilo que ele estava fazendo. Aí ele volta para casa, ele almoça tranquilamente com a mulher, os filhos, ele pergunta para os filhos, “oi meu amor, como foi o seu dia hoje na escola?”. Olha só, aquela mulher e aqueles filhos, não tem a menor ideia de quem é aquele sujeito. Você já imaginou você conviver com uma pessoa que você não sabe quem é?

Luciano Pires: Deixa eu fazer uma provocação que você colocou um tema que é muito legal agora. É claro que você foi no extremo, esse é o cara que sai, mata alguém e volta para casa. Vamos reduzir a intensidade?

Renata Silbert: Mas o psicopata doméstico é igual.

Luciano Pires: Então, mas vamos reduzir a intensidade e dizer o seguinte aqui, o cara que está em casa com os filhos, aquela coisa maravilhosa, o cristão, etc. e tal, e que vai para uma rede social e ali se transforma em um monstro, onde ele cancela, ele destrói, ele ataca, ele acaba com a vida da pessoa. Ele entra em um lugar, fazendo você perder seu emprego, pelo prazer de destruir, porque você pensa diferente dele. Aí ele volta para casa, “queridos, como vai sua vida? Vamos a missa domingo?”, etc. e tal. Eu chamo de Cristal Minion, o cara que ele tem essa capacidade de destruir alguém, e ao mesmo tempo ele é aquele exemplo.

Renata Silbert: Ele está fingindo que é uma outra pessoa.

Luciano Pires: Digamos que é uma questão de nível só. Ele só não matou alguém com uma faca, mas ele faz uma destruição muito parecida.

Renata Silbert: Ele tem prazer nessa destruição. Então assim, é isso, quer dizer, o sujeito ele aprendeu desde muito cedo a usar uma máscara, para mostrar para o mundo alguma coisa que ele não é. Então assim, ele é extremamente sedutor, ele é extremamente gentil, ele é excessivamente gentil. Assim, ninguém é excessivamente gentil normalmente, a gente é educado com todo mundo, a gente é gentil com todo mundo, mas assim, você não é capaz de o vizinho está precisando fazer uma obra, você vai pensar assim, estou com vontade de ajudar? Ah não, não estou com vontade de ajudar, porque que saco, o cara se vira lá. Eu gosto muito dele, mas deixa ele resolver o problema dele porque eu já tenho os meus. Mas esse cara não, esse cara vai lá e vai falar assim, eu vou ajudar o meu vizinho, porque ele tem uma preocupação muito grande de ter essa máscara de boa pessoa imaculada. Uma coisa muito interessante que tem no livro do Stanton Samenow que diz o seguinte, eles nunca se veem como má pessoas. Então tem um capitulo desse livro Mentes Criminosas, que o Stanton Samenow fala o seguinte, que os policiais americanos já aprenderam a lidar com os psicopatas. Então quando eles vão conversar com os psicopatas e eles precisam descobrir os crimes que os sujeitos fizeram, onde estão os corpos e tudo mais, eles falam assim, “pô cara, a gente está junto com você, a gente sabe que você é um cara legal. A gente sabe que poxa, são as circunstâncias da vida que fizeram, levaram você a fazer isso, a gente está com você cara, a gente é seu amigo, a gente te compreende”. Então na hora que o sujeito se vê daquele jeito que ele deseja ser visto, como ele é um cara bacana, ele aos pouquinhos vai desenrolando as suas histórias e vai aos pouquinhos deixando os seus crimes a descoberta. Porque é uma loucura isso, quer dizer, o cara que é capaz de matar e tudo mais, ele não se vê como uma má pessoa.

Luciano Pires: Nesse seu trabalho todo aí, aliás deixa eu até mostrar a capa do livro, está aqui, a capa do livro é um desenho onde tem uma mulher em primeiro plano com uma boca aberta gritando de desespero, ou sei lá o que.

Renata Silbert: E uma pessoa macabra atrás, controlando, assustadora, com um olhar de total crueldade, sem sentimento nenhum no olhar.

Luciano Pires: O livro tem 222 páginas. “A vítima não se dá conta de que não está numa relação amorosa, porque uma relação amorosa pressupõe amorosidade, o que é o olhar para o outro. E para haver esse olhar é preciso que o sujeito tenha dentro de si sentimentos. Só que os sentimentos para o psicopata são muito superficiais e inexistentes. Tem uma pegada aqui que talvez tenha vindo desses seus atendimentos todos lá, que quando você fala amorosidade, tudo, dá a entender que é um relacionamento afetivo, homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher, não importa mais. Quando você sai desse afetivo e vai para dentro do ambiente do trabalho, por exemplo, onde você já esteve de tudo, você já esteve na corporação, você já esteve… como que faz?

Renata Silbert: Olha só, eu já trabalhei com psicopatas já, já trabalhei em ambientes fortemente psicopáticos.

Luciano Pires: Foi uma iluminação para você, depois que você aprendeu isso tudo e olha para trás, cara, agora eu saquei.

Renata Silbert: Eu hoje, assim, eu entendo. Quando a gente entende a patologia, quando a gente entende que isso é uma patologia e que ela é muito maior do que a gente imagina, muito, muito maior do que a gente imagina, é libertador sabe Luciano, porque as vezes você está em um ambiente de trabalho, por exemplo, um ambiente altamente hostil, e você fica se questionando, poxa, o que que eu estou fazendo de errado? Por que que eu não me encaixo aqui, por que que eu não consigo me dar bem? Você fica se culpando, porque você não consegue entender que você está no lugar errado, que você não se encaixa, porque você não tem a mesma personalidade daquelas pessoas. Então eu hoje olho para trás, eu tive isso uma vez, eu trabalhei em um lugar que foi um lugar horroroso que eu trabalhei. Eu tive todo tipo de doença psíquica, física que eu podia ter eu tive quando eu estava ali dentro. E no dia que eu pedi demissão, a pessoa se virou para mim, assim, eu era destruída diariamente, quando chegava no domingo de manhã eu já queria morrer só de pensar que eu tinha que voltar para lá, mas eu sustentava meus filhos, eu precisava trabalhar. Enfim, no dia que eu fui pedir demissão, meu chefe se virou para mim, “não por que que você não pensa melhor, por que que você não fica?”. Eu falei assim, “porque eu estou no lugar errado, eu sou muito diferente das pessoas aqui”. O mercado financeiro tem uma característica de ser todo mundo muito ligado em dinheiro, e assim, as vezes as pessoas tem uma loucura por dinheiro, e para mim dinheiro é necessário como segurança, mas eu não vejo o dinheiro como um objetivo por si só, eu nunca vi. A minha visão por dinheiro é outra. Então assim, para mim não vale tudo por dinheiro, sabe? E assim, essas pessoas que valem tudo por dinheiro, elas são capazes de qualquer coisa. É o que eu falo, é uma ausência de humanidade. E aí um dia, vou te contar uma coisa né, eu fui tentar conversar com essa pessoa, e eu falei para ele assim, “o clima daqui é muito ruim, o que que você pode fazer para melhorar?”. E aí ele se virou para mim e falou assim, “vocês não estão aqui para serem amigos, vocês estão aqui para ganhar dinheiro”. E aí essa frase eu nunca me esqueci, e eu pensei assim, eu estou no lugar errado, eu tenho que sair daqui.

Luciano Pires: Eu conversei com um cara que trabalha em uma grande empresa brasileira, que tem como característica essa pressão absoluta, e é uma empresa que produz bilionários. O cara que consegue escalar na empresa e chegar lá perto do topo, ele vira bilionário. Então essa empresa já tem… se pegar os 100 bilionários brasileiros, acho que 10 são dessa empresa.

Renata Silbert: Imagino qual seja.

Luciano Pires: Só que no caminho para você chegar lá, e eu conversei com o cara que estava numa empresa dessa, e o cara estava realmente pirando. Eu falei, “mas e aí, como que é isso cara? Como que você trabalha num lugar desses?”. Ele falou, “cara, as regras são muito claras. Quando eles me contataram, eles me mostraram que era assim. Ou você tem essa característica, ou você não vai encaixar aqui”. E aí o cara entra lá e fala, “como é que tem tanta gente que aguenta?”. Não, esse pessoal entra, sabe como é que é e aceita o jogo, depois não adianta reclamar.

Renata Silbert: Mas o ponto é esse, entendeu Luciano, não aceita só o jogo. Se a pessoa não tiver uma personalidade que ela se enquadra naquilo, o nível de sofrimento psíquico que a pessoa vai ter que passar para ela ficar ali dentro daquele trabalho é tão grande, tão grande, que vai ser insuportável, a pessoa não vai aguentar, entende? Então, na verdade assim, você precisa já ter, para a pessoa sobreviver em um ambiente hostil desses, ela precisa já ter aquelas características, e aquilo além de a pessoa já ter algumas características e linhas psicopáticas, aquilo já é uma escola de psicopatia.

Luciano Pires: Então, você está falando para mim, eu estou imaginando, temo psicopatão com um monte de psicopatinhas embaixo, ele está criando um monte de psicopatas.

Renata Silbert: É uma escola de psicopatia, e olha, eu vou te contar mais uma coisa que um dia eu escutei nessa empresa que eu trabalhei, que eu me lembro que eu fiquei estarrecida. Que uma pessoa se virou para outra, que estava fazendo uma coisa ruim, fazendo claramente uma coisa ruim, eu não me lembro nem a circunstância, mas eu me lembro da frase. E aí a pessoa se vira para essa pessoa que estava fazendo essa coisa ruim e falou assim, “isso mesmo, coração bem pequenininho”.

Luciano Pires: Passe por cima, atropele.

Renata Silbert: Não tenha coração, aqui não tem espaço para coração.

Luciano Pires: Tope tudo por dinheiro.

Renata Silbert: Isso mesmo, bateu palma, isso mesmo, coração bem pequenininho. Nunca me esqueci dessa frase na minha vida.

Luciano Pires: Cara, que impressionante. Você está falando, eu estou vendo pessoas, eu estou lembrando de momentos da minha vida na minha carreira.

Renata Silbert: Luciano, é uma loucura. Quando eu começo a conversar isso com as pessoas, sobre esse assunto com as pessoas, as pessoas elas, olha só, eu estou olhando o seu olhar agora e eu estou vendo, você está olhando para mim e a sua cabeça está aqui, tum tum tum. Eu falo isso no início do livro, que isso é uma coisa fantástica, quando eu comecei a estudar esse assunto, comecei a falar sobre esse assunto, com cada pessoa que eu ia falar e que eu começava a contar das características e tudo mais, a forma de estar no mundo dessas pessoas, e tal, essas pessoas falavam assim, “opa, eu conheço alguém assim”. “Opa, olha só, acho que a mulher do meu filho é assim”. “O marido da minha sobrinha é assim”. “caramba, eu tive uma namorada assim”, sabe? Então assim, as pessoas se deparam, tem uma coisa fantástica nisso, entende, porque as vezes a gente vive as relações, quer seja relações afetivas, quer seja relações de trabalho, quaisquer tipos de relações, com pai, com mãe, porque tem muitos pais também psicopatas, crianças que crescem dentro de lares. Eu me deparei com muitas histórias de mães narcisistas destruidoras para os filhos.

Luciano Pires: Como é que faz quando você pega um caso desse, porque você está contando para mim uma história, que eu imagino que a pessoa chega para você, “Renata, minha vida está assim”, e você entende o que está acontecendo, ela está numa relação muito ruim para ela, e você vai dar uma recomendação para essa pessoa. E a primeira recomendação que vem na minha cabeça que é muito clara, sai dessa, livre-se dessa, vai embora.

Renata Silbert: Não é tão fácil.

Luciano Pires: Mas, eu não vou embora de uma mãe, não vou embora de um pai, não dá. Você vai ter que permanecer ali. A outra recomendação, vamos curar esse maluco.

Renata Silbert: Não tem como curar o maluco, não tem como. É um transtorno de personalidade, de baixa consciência. Oque que é o transtorno de baixa consciência? Uma estrutura psíquica, aquilo assim, é muito anterior, é lá de trás. Não é por exemplo assim, você tem uma psicose, você pode ter um sujeito por exemplo que passou uma vida toda sem ter um surto psicótico, sem ter um surto esquizofrênico, nem nada. E num determinado momento aquilo eclodiu. Aquela pessoa, você pode tratar, porque pode ter sido as circunstâncias, você pode dar remédio, tem medicação e tudo mais para você controlar aquilo e tal. Você pode fazer uma terapia, enfim, tem uma série de coisas, de medidas, que você pode tentar ali. Para esse sujeito, não tem mudança, porque é uma forma de estar no mundo. Você não muda uma estrutura de caráter de alguém, é uma estrutura de caráter.

Luciano Pires: Se um psicopata te procura Renata? Eu sou um psicopata, entendi o que está acontecendo comigo, li seu livro, estou me reconhecendo nele.

Renata Silbert: Você não vai acreditar no que está acontecendo, estão começando a me procurar.

Luciano Pires: Psicopatas?

Renata Silbert: Outro dia, dá até medo de contar aqui, mas acho que eu vou contar. Tomara que a pessoa jamais veja esse…

Luciano Pires: Você não vai dizer o nome dela.

Renata Silbert: Eu não vou dizer o nome dela, mas é uma pessoa que eu nem… Enfim, um sujeito se virou para mim e falou o seguinte, “Renata”… entrou num desses Tik Tok, Instagram, sei lá qual foi, virou para mim e falou assim, “Renata, olha só, eu estou querendo escrever um livro sobre um serial killer”. Aí eu falei, “ah é?”. Ele falou, “eu queria a sua ajuda para eu escrever esse livro sobre um serial killer”. Aí eu falei, “sim, mas dá onde que vai vir as ideias?”. “Eu tenho um amigo que é serial killer e que me contou os pensamentos todos dele. Então eu preciso escrever os pensamentos do meu amigo”. Que amigo, né Luciano? Não era amigo, né, é ele, porque quando que um serial killer vai se virar para alguém e contar para esse alguém os seus próprios pensamentos? Não vai, entendeu? Então da mesma forma que esse assunto atrai as pessoas que vivem essas relações abusivas, esse assunto também atrai essas pessoas. Eu tenho tido pessoas me mandando mensagens e tudo mais falando, “olha, eu estou no transtorno, eu sou assim”.

Luciano Pires: Então, essa pessoa que te procura e que reconheceu que ela tem o transtorno, ela pode se curar?

Renata Silbert: Não.

Luciano Pires: Você falou, a vítima não consegue curar o psicopata. O psicopata reconhecendo ele pode se curar?

Renata Silbert: Não, ele não consegue mudar. Outro dia eu recebi um comentário que eu achei até interessante, até com essa pessoa eu falei. Ele falou para mim o seguinte, “eu descobri que eu estou no transtorno, e o que está acontecendo comigo agora é o seguinte, as máscaras não estão mais se encaixando, eu estou com dificuldade de colocar a máscara”. Porque ele se acostumou a usar uma máscara a vida toda, ele está com dificuldade de usar a máscara, ele começou a ter dificuldade de enganar as mulheres, porque como ele está com dificuldade de usar a máscara, então ele falou que está sendo rejeitado muito rapidamente, porque ele não está mais conseguindo colocar a máscara. Que está com dificuldade também no trabalho, porque ele se dá conta hoje que o ambiente de trabalho dele está cercado de pessoas também dentro do transtorno. E que ele já olha para essas pessoas, e ele já entende que as pessoas estão ali por interesse, mas que essas relações também não se sustentam por muito tempo, porque as pessoas também tendem a não se aguentar. E aí, mas assim, tem uma coisa que ele se faz um pouco de vítima, que fala o seguinte, mas a responsabilidade não é só minha, existe uma corresponsabilidade, porque as pessoas empáticas que são as minhas vítimas, as mulheres empáticas que foram as minhas vítimas, todas elas tinham também sérios problemas emocionais e tudo mais. Então o sujeito tenta virar o jogo, falar que o culpado é a vítima, entendeu?

Luciano Pires: Mas esse cara, o que que ele pode fazer? Ele falou para você, “Renata, eu não quero estar nessa situação onde eu estou”.

Renata Silbert: Pois é, é o que eu falei para ele é o seguinte, “olha só, eu sei que você não pode mudar. Mas olha só, você ter a consciência de quem você é, e o dano de destruição que você causa na vida dos outros, já é um primeiro passo. Então talvez você vá ter que aprender a encontrar um meio do caminho, uma forma de estar no mundo. E você vai encontrar, você vai ter que encontrar”.

Luciano Pires: Mas isso é por conta dele? Por exemplo, esse instinto de violência que você tem, meu, vai fazer MMA para tomar porrada de alguém, encher alguém de porrada, e naquilo você extravasar.

Renata Silbert: Não, não é isso. O que acontece é o seguinte, em algum momento essa pessoa não se construiu como ser humano, entende? Luciano, você olha para dentro de si, e você enxerga o que? Uma enorme riqueza de pensamentos, de sentimentos. Pessoas não patológicas, nós somos muito ricos, sabe, nós somos capazes de doar afetividade para os outros, de querer bem, é muito sentimento que a gente tem dentro da gente. Isso é uma riqueza que como a gente tem, a gente não se dá conta da enorme riqueza que é isso. Você já imaginou um sujeito que olha para dentro dele mesmo e enxerga nada? Um vazio. Ele sabe que lhe falta alguma coisa que os outros tem. Então junto com esse vazio que ele olha, que ele enxerga esse nada, vem uma enrolem destruição, um desejo de destruição, porque tem, ele não tem, ele sabe que ele não tem alguma coisa que ele deveria ter e que os outros tem. E aí esse desejo da destruição do outro, quer seja uma destruição física através da morte, ou enfim, através da destruição psíquica emocional do outro, é a forma dele de estar no mundo, ele precisa derramar essa destruição que existe dentro dele, ele precisa derramar essa destruição em cima do outro.

Luciano Pires: Eu vou retomar uma coisa que eu perguntei lá atrás, a gente falou um pouquinho mas vamos falar de novo aqui. Você está dizendo o seguinte, não é que esse cara acorda de manhã e diz, “hoje eu vou destruir a vida da Renata”. Não, isso acontece…

Renata Silbert: Naturalmente, porque é isso que ele é. Aí você perguntou para mim, o sujeito tem consciência? Não, o sujeito não tem consciência do que ele faz com o outro. O sujeito está num mundo de três formas, eu costumo falar de três formas. A primeira forma que ele está no mundo é a pulsão, o sujeito é pura pulsão. Todos nós temos pulsão, a gente tem a pulsão de destruição, as vezes a gente deseja mesmo o mal, quero que a pessoa se ferre e tudo mais, a gente tem raiva.

Luciano Pires: É o famoso puta que pariu. Tem uma hora que eu tenho que soltar.

Renata Silbert: Mas a gente tem a pulsão de vida dentro da gente também, e pessoas não patológicas lutam contra a pulsão de morte, contra a pulsão de destruição. Para esse sujeito, essa pulsão de destruição, não houve interdição nessa pulsão de destruição. Ele realmente deseja destruir o outro, ele sabe que ele não pode mostrar esse desejo de destruição ali para o mundo, mas está ali. E dentro dessa pulsão de destruição, tem também as perversões, tem as transgressões, tem as mentiras, enganações, assim, estão falando de uma monstruosidade, de uma pessoa que tem uma ausência de sentimento dentro de si, que não tem um bem querer verdadeiro por ninguém, que tem um desejo de destruição, que precisa de estímulos transgressores, perversos o tempo todo. Então, é uma coisa muito ruim ali. A segunda forma que o sujeito está no mundo, é pela lei. Ele conhece a lei, ele não tem nenhuma dificuldade de raciocínio, mas a lei para ele é algo que nunca foi internalizado, que não entrou. Pessoas não patológicas, elas têm, a lei existe e com o tempo a gente internaliza. Se você deixar um relógio de ouro aqui na minha frente, eu não vou pegar, porque não é meu, porque essa não sou eu, eu jamais vou fazer isso. Se eu tiver todas as oportunidades de fazer as coisas erradas, eu jamais vou fazer, porque essa não é a Renata. Mas o sujeito é aquele sujeito que se não tiver alguém olhando ele vai fazer. E a terceira forma que ele está no mundo, é pela comparação. Ele se compara com o outro o tempo todo. Por que que ele precisa se comparar com o outro? Porque aquela auto referência que a gente tem dentro da gente, quando a gente olha a gente sabe quem a gente é, ele não tem. Então ele precisa se comparar com o outro o tempo todo. Então é a inteligência do outro, o outro é mais inteligente que ele ou não é, o outro é mais rico que ele ou não é, o outro é mais isso, mais aquilo. Então tem essa coisa de você… e daí que surge, quando ele se compara com o outro e ele se sente inferior a daí também que vem o desejo de destruição, ele quer destruir aquela pessoa porque ele…

Luciano Pires: Ele não vai trabalhar para ficar igual o outro, ele vai destruir o outro.

Renata Silbert: O que eu falo é o seguinte, é um sujeito altamente invejoso. A inveja, é uma coisa muito diferente do que a gente imagina. Porque a gente pensa o seguinte, você tem um carro legal, eu tenho inveja do seu carro e quero ter um carro igual. Não, a inveja não é isso, a inveja é o seguinte, você tem um carro legal, eu não só quero ter o seu carro, como eu quero que você se exploda atravessando a rua, e você deixe de ter o carro. Então, existe um sentimento, a inveja tem um sentimento de destruição dentro dela, o sujeito deseja que o outro não tenha aquilo que ele tem. E aí como é que funciona? Então vamos voltar a relação afetiva? Como é que funciona a relação afetiva? O sujeito lá da academia, que você contou que viu a moça bonitona, ele criou, ele identificou que aquela pessoa tinha características que ele desejava ter para ele. Ele precisava tomar posse daquele objeto. Então ele faz uma fantasia delirante sobre aquilo, sobre aquela pessoa, e ele começa a se relacionar com aquela pessoa como se na verdade ele pudesse absorver aquelas características que existem no outro que ele gostaria que fossem dele, mas que não são, porque ele não tem nada dentro dele. Então é um objeto de valor. Isso é legal para ele, ter posse de um objeto de valor, porque ele gostaria de ter aquelas características para ele, mas também é legal porque ele se apresenta perante a sociedade como dono de um objeto de valor. É uma propriedade esse objeto de valor. A medida que o tempo vai passando, enquanto a vítima vai construindo uma relação amorosa com o sujeito, com a máscara que o sujeito apresenta, ela vai criando um vínculo afetivo profundo com aquela máscara que ela acredita que existia, que vai existindo, o sujeito vai desconstruindo aquela fantasia delirante dele do início. E aí ao mesmo tempo que ele vai se destruindo, ele começa a se comparar sem parar com a vítima. E aí o que que acontece, ele precisa destruir a vítima, porque com o tempo ele sabe que a vítima tem aquelas qualidades que ele jamais terá, e ele precisa destruir o objeto que primeiro foi o objeto desejado, passa a ser o objeto a ser destruído. E por isso que as vítimas quando saem dessas relações afetivas tão patológicas, elas saem absolutamente devastadas, entendeu? Essa é a construção da devastação na relação afeitava.

Luciano Pires: Como é que eu me protejo de um psicopata desses aí? Tem algumas formas de a gente pensar isso aqui, tipo assim, para eu não entrar em uma relação como essa, e aí significa o seguinte, eu não vou nem aceitar o emprego nesse lugar, ou entrei e já percebi que o cara é, caio fora. Como é que…

Renata Silbert: É muito difícil você perceber. Eu diria para você o seguinte, uma característica que as vezes você pode identificar logo de cara é assim, não existe muita negociação, acho que essa é uma característica. Assim, são pessoas que você vê que tem uma difícil negociação. Se você vê que a negociação é difícil, cuidado. Eu acho que esse talvez seja o primeiro sinal. Às vezes as pessoas ainda assim vão tentando, tentando e achando que… porque o sujeito por outro lado as vezes é um sujeito que é maravilhoso. E aí a gente vai ter que ir no final da relação que é o seguinte, como é que uma pessoa que foi destruída, que foi massacrada como é que uma pessoa consegue sair, consegue voltar a ser um ser humano, como é que consegue se reerguer? E aí eu falo o seguinte, existe um fenômeno chamado de dissonância cognitiva. A dissonância cognitiva ele é resultado, é uma coisa que se constrói dentro da vítima, porque ela aprendeu a conviver com o médico e com o monstro. Hora o sujeito era bom, e hora o sujeito era ruim. Ela amava o sujeito bom, e ela tinha medo e pavor do sujeito ruim. Ela vai precisar aprender o seguinte, o sujeito bom nunca existiu. Então quando você sai de uma relação dessas, não só o seu presente foi apagado, tem que ser apagado, como o seu passado nunca existiu. É que nem a mulher que é casada com um psicopata assassino que matou, um serial killer que mata 20 pessoas, um belo dia a polícia chega na casa dela e prende aquele marido. Fica ela e os filhos olhando para aquilo, como assim, como que isso pode ter acontecido? Ou seja, o que ela acreditava que era a história dela, nunca existiu, ela acreditava em uma fantasia. Eu costumo falar o seguinte, a nossa vida é como se fosse um quebra-cabeças aonde que você tem um monte de pecinhas e você vai construindo esse quebra-cabeças. Só que as vezes, você vai recebendo as pecinhas, vai encaixando, só que de vez em quando surgem na relação com esses sujeitos, surgem umas pecinhas que não se encaixam. Você olha, você fica tentando encaixar aquilo e tudo mais, mas aquela pecinha não se encaixa naquilo que você acredita que é a sua vida, não se encaixa. Aí o que que você faz? Você depois de um tempo tentando encaixar aquilo, você desiste, você joga a pecinha em uma caixinha, entendeu? E ao longo da vida você vai jogando aquelas várias pecinhas que não se encaixaram em uma caixinha, e aí quando a relação acaba o quebra-cabeças explode, e vem toda a devastação, você vai precisar pegar aquela caixinha, jogar aquela caixinha de novo em cima da mesa e tentar entender que a sua vida não era aquele quebra-cabeças que você pensava que era. Você vai ter que remontar a sua vida, você vai ter que ressignificar uma vida inteira. É louco, né?

Luciano Pires: E numa dessas pode você virar um psicopata, porque deve dar um nó na cabeça.

Renata Silbert: Não, não tem como. Dá um nó danado, mas não tem como, quem não é um psicopata, quem é uma pessoa…

Luciano Pires: Naqueles seus atendimentos que você fazia pessoal, você deve ter encontrado a “dona Regina”, que há 25 anos apanha do marido. E você olha para ela, “dona Regina, 25 anos apanhando do marido?”. “Pois é”.

Renata Silbert: Mas as vezes ele é bonzinho.

Luciano Pires: Ele é bonzinho, dá o dinheiro, sustenta, trata bem os nossos filhos.

Renata Silbert: Quando a gente fala de pessoas, assim, tem uma coisa muito ruim também que é a dependência econômica, dependência financeira. Tem muita gente que sabe até, tem mulheres que apanham e tudo mais, mas que sabem que elas têm que ficar ali porque elas não têm outra alternativa. Mas Luciano, quando a coisa é tão óbvia, quando o sujeito bate é muito obvio. A pior destruição não é a destruição física, a pior destruição é a destruição psíquica, é esse jogo do sim e do não, do bom e do mal. Tem uma coisa na psicologia comportamental, que chama reforço intermitente. Reforço intermitente é o seguinte, se você tem um ratinho e você dá comida sempre para aquele ratinho, o ratinho vai lá, ele se alimenta, ele sabe que ele tem um lugarzinho que ele sempre pode ir ali e se alimentar. Então, ele vai se alimentar nas horinhas que ele sabe que ele pode se alimentar, e quando ele não estiver comendo, ele vai brincar no parquinho, com os brinquedinhos dele, rolando as bolinhas e tudo mais. Um outro ratinho, se esse ratinho que ia sempre ali naquele lugar e recebia a comida percebe que aquele lugar não dá mais comida, o ratinho vai embora, ele vai tentar encontrar comida em um outro lugar. Só que tem o terceiro ratinho, o terceiro ratinho é o seguinte, e um ratinho que ele nunca sabe quando a comida vem, mas ele é alimentado de vez em quando. Ele é mantido quase morto de fome, mas a comida vem de vez em quando, ele de vez em quando ganha uma comidinha, ele ganha uma balinha. E aí na hora que ele ganha esse reforço intermitente, ele fica aprisionado naquela relação, entendeu, porque ele quer acreditar que ele vai ser alimentado. Uma outra comparação interessante também é o seguinte, Síndrome de Estocolmo. Da onde que surgiu a Síndrome de Estocolmo? Ela surge exatamente disso, quer dizer, as pessoas estão ali na posse, foram sequestradas, estão na posse daqueles sujeitos que podem terminar com a vida delas, mas se deparar com o mal, com a possibilidade da destruição, do desejo do outro de te destruir, de acabar com a sua vida, é tão ruim, é tão insuportável, que as pessoas buscam se apegar na ideia que o sujeito não é tão mal assim, entende? Então quando a pessoa ela está em uma situação dessas, ela quer se apegar a ideia que aquela pessoa não é tão ruim assim, e por isso que ela fica.

Luciano Pires: E uma coisa interessante, você está falando para mim de um ponto de vista do indivíduo. Mas isso pode ser uma sociedade inteira, isso pode acontecer com uma sociedade inteira. Um psicopata no poder, que nem o outro livro que eu te falei, quer dizer, um sujeito, Adolf Hitler, é um psicopata no poder e que ele domina uma sociedade inteira.

Renata Silbert: Na época, olha só, por que que os judeus foram tão massacrados? Porque eles se recusaram a olhar, porque você olhar, você entende? Cara, existe a possibilidade de alguém entrar na sua casa, pegar você, sua mulher, seus filhos, seus pais, e massacrar todo mundo. Você se deparar com essa possibilidade é insuportável você pensar nisso. Então, por que que muitos só foram ver quando não tinha mais como fugir, quando milhares de pessoas já estavam sendo mortas? Porque o pensamento de que o mal existe e ele quer te destruir, é insuportável. Então as pessoas, o que que acontece, elas tentam relativizar o mal. Eu acho que a gente vive hoje uma cultura no mundo inteiro séria de relativização do mal. As pessoas não querem olhar para aquilo e falar, isso é o mal. Olha só, porque a gente sabe o que que é o bom e o que que é mal, só que hoje a sociedade também ela está tão destorcida, os valores estão tão destorcidos, os valores éticos, morais, os princípios das pessoas, está tudo tão louco que assim, o mal está cada vez mais instalado na sociedade. E Luciano, é muito difícil você olhar e falar assim, o mal existe, ele está acontecendo.

Luciano Pires: Nós estamos vivendo esse momento agora, os ataques lá de 07 de outubro, e a forma como…

Renata Silbert: E a sociedade tentando relativizar o que o Hamas fez. Olha só, não existe relativização para você degolar criancinha, para você estuprar mulheres, para você estripar, enfim, não existe relativização possível.

Luciano Pires: Você viu aquele acontecimento que aconteceu essa semana na Bahia, da mulher que atacou…

Renata Silbert: Não.

Luciano Pires: Uma turista chilena entra em uma loja, e a dona da loja é uma judia. E esse vídeo está na internet. A mulher tem um ataque e vai para cima dela, quebra a loja inteirinha e gritando para a judia, assassina de criança, e assassina de criança, porque a outra é judia.

Renata Silbert: É uma inversão, é uma inversão louca. Quer dizer, o mal tem essa capacidade, o mal se disfarça de bem. A discussão sobre a psicopatia nas pessoas ela precisa estar muito presente. Esse livro ele é uma tentativa de despertar, isso existe nas relações, mas isso existe também, nós temos que nos deparar com a existência do mal. O mal nas relações afetivas, eu tenho uma frase que eu falo o seguinte, a gente sabe que o mal existe, mas a gente jamais imagina que o mal possa vir disfarçado de amor.

Luciano Pires: Eu tenho um PodCast Café com Leite, um PodCast para crianças, e no material de apresentação dele, tem um Power Point que eu abro com uma frase do Walt Disney. Que ele falou numa época, ele estava sendo muito criticado, porque a coisa mais legal dos filmes do Disney, sempre foram os vilões. Os vilões eram de uma exuberância, você pega a Madame Min, você pega a Malévola, cara, a bruxa, era de uma exuberância, e eram muito legais os vilões.

Renata Silbert: Irmão Metralha.

Luciano Pires: Cara, era muito legal. E o pessoal criticando, Disney, você está dando muita… está muito legal o vilão. E a resposta dele é o seguinte, cara, eu não faço filme para esconder o mal das crianças, eu faço filme para mostrar que o mal existe e pode ser derrotado. Então, esconder o mal, a hora que o mal aparecer além de não identificar, elas vão cair vítimas. Elas têm que identificar e saber que ele pode ser vencido. Então essa ideia de que o mal existe e pode ser vencido.

Renata Silbert: O mal existe, e nós precisamos ter consciência disso. Nós precisamos olhar para o mal e identificar. Então o que eu falo é o seguinte, pessoas que saem dessas relações devastadas por essas pessoas que tentaram destruir, tinham prazer na destruição do outro e tudo mais, elas vão ter que compreender que ela máscara do bonzinho, era uma máscara, que aquilo não existia. Ela tem que se deparar com quem é aquele ser humano, quem é essa pessoa de verdade, porque a gente só consegue se defender daquilo que a gente sabe existir. A gente precisa identificar o mal, para a gente pode entender. E quando você identifica que aquela criatura era uma criatura realmente perversa, você consegue entender que você se libertou. Então eu acho que isso é o que eu falo para essas mulheres que saem devastadas dessas relações, é que isso não foi um término de uma relação, isso foi uma libertação, você se libertou de uma coisa muito, muito ruim que você vivia. Na verdade, você tem que agradecer a Deus, porque nada na vida acontece à toa. Então Deus estava ali olhando. Eu sou católica, Santo Inácio, estudei no Santo Inácio e tudo mais, mas Deus estava ali olhando por você e te salvou. E se você saiu dali com saúde, se você não saiu, se o sujeito não te lesou financeiramente… porque tem mulheres, eu estou recebendo relatos, ontem mesmo eu recebi um relato de uma mulher que falou, “Renata, eu não tenho dinheiro para comprar o seu livro, entendeu? Ele me deixou sem nada”, sabe? Então, cara se você saiu com saúde, se você saiu financeiramente mais ou menos equilibrada, se você…

Luciano Pires: Li seu livro, terminei de ler o livro e ao longo da leitura reconheci um monte de gente, e eu terminei de ler os eu livro absolutamente desesperado, porque eu me reconheço em um lugar onde eu não quero estar, eu me reconheço em um trabalho aonde tem o psicopata, ou em uma relação aonde tem o psicopata, ou então meu pai, meinha mãe, filho, cunhada, eu reconheci que isso existe e eu estou absolutamente desesperado. O que que eu faço?

Renata Silbert: Olha só, você precisa, a gente as vezes na vida Luciano, eu acho o seguinte, eu prefiro ter a consciência de quem são as pessoas que estão a minha volta, eu prefiro. Assim, eu prefiro saber quem é quem.

Luciano Pires: Eu também acho, o que que eu faço? Compra uma arma para ameaçar matar esse desgraçado aqui?

Renata Silbert: Não, lógico que não.

Luciano Pires: Chuto o pau da barraca? Me torno um psicopata no nível deles?

Renata Silbert: Não, você nunca vai se tornar um psicopata, não.

Luciano Pires: Crio uma relação de conflito terrível? Deixo que se arrebente e dane-se, paro de cumprir a minha parte?

Renata Silbert: Não, eu acho o seguinte, algumas mulheres me perguntam, olha, ontem até no lançamento do livro eu conversei com uma pessoa que me falou o seguinte, eu dependo financeiramente dele, estou casada há 30 anos, eu não desenvolvi uma profissão, ele falou para mim muito cedo para eu ficar cuidando dos nossos filhos em casa e tudo, eu não tenho como sair. Aí eu falei para ela o seguinte, se você não pode se libertar externamente, começa a se libertar internamente, entende?

Luciano Pires: Não.

Renata Silbert: Internamente.

Luciano Pires: Como é que eu faço?

Renata Silbert: O internamente é você…

Luciano Pires: Estou apanhando de você, está doendo para cacete, você está dizendo para mim o seguinte, cara, aceite a porrada, continua apanhando…

Renata Silbert: Não, não é aceitar, é você se dar conta de que você, de quem é aquela pessoa, enxergar quem é aquela pessoa, enxergar, não cair mais nos joguinhos, porque eles são especialistas nos joguinhos, e esse joguinho, essa dissonância cognitiva, esse reforço intermitente, é que faz com que as pessoas fiquem. Então olha só, se depara com a realidade, a realidade é essa. Na hora, quando você está se deparando com a realidade, quem é realmente aquela pessoa, é quando você começa a poder se proteger internamente dela. É como se você fosse criando um…

Luciano Pires: Eu chamo de armadura emocional.

Renata Silbert: É uma armadura emocional, é uma coisa interna dentro de você, aonde que cada vez mais o que o outro te fizer, vai te causar menos dano.

Luciano Pires: Mas eu amo esse outro Renata, eu amo essa pessoa. É Estocolmo?

Renata Silbert: É Estocolmo, mas eu falo uma outra frase que é minha também e que eu falo o seguinte. O amor acaba quando a gente deixa de gostar do outro ser humano, entende? Porque como é que você pode amar alguém que você não gosta? No que que o amor se sustenta?

Luciano Pires: Eu estou tentando entender por que que as pessoas ficam presas 20, 30 anos em um relacionamento abusivo?

Renata Silbert: Porque elas não conseguem enxergar as vezes, porque elas não conseguem enxergar porque existe esse jogo do bom e do mal, e elas estão se submetendo, elas estão sempre na expectativa de que o sujeito bom vai voltar. Uma outra coisa também é o seguinte, pessoas que estão no transtorno tem uma tendência muito grande a ter comorbidades. Então por exemplo, o sujeito é um psicopata, mas ele também é bipolar, e aí quando você conhece o sujeito, ele não se apresentou para você com uma carteirinha de “sou psicopata”, mas ele mostra a carteirinha de “sou bipolar”, entendeu? E aí coitadinho de mim, eu sou bipolar, eu estou deprimido para caramba hoje, acordei mal, mal. Aí a pessoa altamente empática que é a característica da vítima, ela vai lá e fala, “poxa, o que que eu posso fazer para te ajudar?”. Então você cai, é uma Síndrome de Estocolmo realmente na verdade, porque o sujeito pode estar fazendo todas as coisas erradas, você pode estar tendo sinais de que tem coisas acontecendo que você não sabe, que você desconhece, mas quando o sujeito faz esse joguinho de vitimização, a vítima cai.

Luciano Pires: Eu fiz uma pesquisa essa semana passada, procurando no Google bipolares famosos. E a relação que veio é absolutamente, é inaceitável. Todo muno é bipolar famoso, todo mundo, você vê famoso, o cara é arista, cientista, é tudo gente que você fala, cara, mas esse cara é genial. É genial, e bipolar. Ou seja, não é um transtorno que é…

Renata Silbert: Falam o seguinte, que a arte e a loucura as vezes meio que se comunica.

Luciano Pires: Eu tenho uma tese, deixa eu te contar a minha tese. Minha tese é a seguinte, quando você demonstra uma genialidade em alguma coisa, qualquer coisa, você é um jogador de futebol extremamente habilidoso, você é um pintor como poucos, você é um tremendo artista de cinema, você é um músico, você é um físico nuclear que tem uma genialidade, essa genialidade ela consome tanto recurso que fica faltando do outro lado da sua vida. Então, eu sou um pintor genial e bato na minha mulher, eu sou um escritor genial e sou pedófilo, eu sou… então acaba consumindo recurso porque o cérebro não consegue lidar com isso.

Renata Silbert: É.

Luciano Pires: Pode ser por aí.

Renata Silbert: Pode.

Luciano Pires: Então vamos lá de novo, o livro chama-se Psicopatas Domésticos, da Renata Silbert. Está à venda na loja do Café Brasil, então se você entrar em livrariacafebrasil.com.br, o livro está lá.

Renata Silbert: Está lá nos destaques, que eu adorei.

Luciano Pires: E eu recomendo dar uma boa olhada nisso aqui, porque nós estamos vivendo um momento, ou em uma sociedade onde esses psicopatas não estão se escondendo mais, estão visíveis, estão sentados em situações de poder.

Renata Silbert: É verdade.

Luciano Pires: E estão expondo para todo mundo, estão se orgulhando disso.

Renata Silbert: E estão se orgulhando de serem psicopatas.

Luciano Pires: E mostrando. Vamos lá no Hamas, o cara filma e fala, “olha aqui, eu sou um psicopata”.

Renata Silbert: Você imagina que coisa louca? Quer dizer, os caras entraram em Israel com as câmeras para registrar o absurdo que eles estavam fazendo. Quer dizer, não tem vergonha, a coisa não é feita…

Luciano Pires: Aí outro psicopata vê aquelas cenas, e mesmo assim defende.

Renata Silbert: Exatamente, isso é legal. Então tem uma coisa boa também eu acho nisso, que é o seguinte, os psicopatas estão cada vez mais descarados? Estão. Mas as vítimas estão começando a gritar. A gente nunca viu, a gente está vendo agora várias pessoas, aristas e tudo mais, começando a acusar, “eu era casada com um psicopata, o sujeito fazia isso, isso, isso”. Existia Luciano antes, uma vergonha, uma culpa. A própria pessoa que era vítima, ela tinha vergonha de se expor. Se eu passo tanta coisa ruim, como é que eu aceito isso? Então tem aí uma responsabilidade que assim, que ela acha que ela é responsável também, e que é extremamente vergonhoso. É vergonhoso realmente você se dar conta que você se submeteu aquilo. Então existe esse sentimento.

Luciano Pires: Uma recomendação a você que está nos ouvindo aqui, e que ficou preocupada. Primeiro, leia o livro. Segundo, se você se percebeu em uma situação como essa, cara, tem muito mais gente como você em uma situação parecida. Não é que isso tem que ser normal, é que isso é muito mais comum do que a gente imagina.

Renata Silbert: Muito mais comum.

Luciano Pires: E uma coisa que você falou importante aí, acho que a primeira coisa é esse trabalho interno da construção dessa armadura emocional. A minha armadura emocional, e aí partir para tentar de alguma forma alertar, não sei, alertar…

Renata Silbert: É, quem não consegue se libertar externamente, que pelo menos internamente consiga se proteger um pouco. E assim, eu queria muito falar, deixar uma mensagem final, que eu quero deixar… o assunto é muito difícil, as pessoas que leem o livro falam para mim, elas têm um nome para esse livro, que falam que o livro é extremamente perturbador. Elas ficam muito, eu tenho uma amiga minha que ligou e disse assim, “pô Renata, que caceta que você foi escrever esse livro, não estava preparada para isso não”. Tem pessoas que falam para mim assim, “eu leio um capítulo, eu tenho que parar, porque eu não dou conta de ler tudo de uma vez só”. Então é um tema que é difícil, as pessoas as vezes vão se identificar, mas tem duas mensagens que eu quero passar. A primeira de todas é o seguinte, o conhecimento é libertador, é a única forma de você se libertar de uma situação, de uma relação que você vive, é você entender que você se relaciona com uma pessoa patológica. Quer seja marido, namorado, namorada, esposa, pai, mãe, chefe, enfim, é preciso compreender que essa patologia existe, e que a outra pessoa, a pessoa que está lá do lado de lá, é uma pessoa patológica. Então, essa é a primeira mensagem. E a última mensagem que eu quero passar é que existe luz depois dessa libertação, nada é tão ruim quanto estar dentro dessas relações, quaisquer que sejam elas, nada é tão ruim. Então a saída de uma relação dessas, é uma relação extremamente difícil, extremamente devastadora. Eu falo isso para as minhas pacientes, é uma travessia muito dolorosa, mas ao final dessa travessia, existe uma paz.

Luciano Pires: Se você em algum momento tiver… eu gostaria de conversar com alguém aqui, como nós estamos falando aqui, que passou por isso e que tivesse coragem de contar sua experiência, porque eu acho que conversar sobre isso ajuda muita gente que está… Olha se você conhecer alguém, que tiver nos ouvindo e tiver disposto a contar como foi a sua passagem, eu gostaria de fazer um programa com essa pessoa.

Renata Silbert: É, tem várias pessoas que me contam, mas o problema é que normalmente as pessoas não querem se expor.

Luciano Pires: Tem que ser com cuidado isso. Então vamos lá, Psicopatas Domésticos da Renata Silbert, está na livrariacafebrasil.com.br. Quem quiser entrar em contato com você, @renatasilbert?

Renata Silbert: O meu Instaram é renatasilbert_psicologa. E aí eu respondo as pessoas pelo Instagram, eu atendo online, então posso atender no Brasil todo. Uma coisa que eu costumo falar é o seguinte, normalmente essas pessoas que saem dessas relações tão devastadas, elas não podem ser atendidas por qualquer psicólogo. Elas precisam ser atendidas por alguém que conheça profundamente a patologia, porque eventualmente uma outra pessoa que não entenda a dinâmica desse relacionamento vai falar, “a culpa é sua”, entendeu? E é tudo que a pessoa não precisa ouvir, porque de fato ela foi vítima de uma pessoa que estava ativa nessa intenção de destruição. Então, o atendimento para essas pessoas precisa ser feito por alguém que compreenda essa patologia, e que consiga ajudar a pessoa dentro dessa patologia a enxergar que tudo aquilo que ela viveu, foram características do sujeito. É o modus operandi. Isso é um negócio muito interessante que fala o seguinte, o sujeito ele tem, todo mundo que está dentro desse transtorno, eles têm um modo de atuar muito parecido uns com os outros. Parece que eles nascem com o mesmo… tem um escritor, escreveu um livro também sobre um assunto muito legal que ele fala o seguinte, parece que eles nascem com o mesmo manual de instruções, é quase como se fosse um manual de instruções a forma que eles…

Luciano Pires: E se você aprender a reconhecer um, automaticamente você vai…

Renata Silbert: Exatamente. E outra coisa, e eles vão, as cenas que ele vai fazer com as próximas vítimas, serão exatamente as mesmas cenas vividas com as vítimas anteriores, porque o sujeito vai repetir. Ele viu que aquilo dá certo, aquela estratégia dá certo, ele vai repetir exatamente a mesma estratégia com as próximas pessoas.

Luciano Pires: Renata, obrigado pela visita. Gostou do papo?

Renata Silbert: Obrigada você. Legal, amei.

Luciano Pires: É um papo tranquilo, obrigado por você ter vindo, obrigado pelo livro, acho que você vai ajudar muita gente aí, e vamos manter contato.

Renata Silbert: É essa a intenção.