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Luciano Pires -

 

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite, bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. No programa de hoje temos Sarah Rosa, atriz pornô e acompanhante, como ela mesma se define. Uma conversa fascinante sobre escolhas e a difícil vidas das, abre aspas, mulheres de vida fácil, fecha aspas. Muito bem, mais um LíderCast, esse aqui eu confesso que eu estava há muito tempo querendo fazer, só não tinha encontrado ainda a pessoa certa. Não tinha. Tinha tentado de várias formas aí, recebi algumas indicações e vai ser muito interessante esse papo aqui. Eu sempre começo com três perguntas aqui, são as únicas que você não pode chutar. Essas você tem que responder exato, depois você pode inventar à vontade. Quero saber seu nome, sua idade e o quê que você faz?

Sarah Rosa: Meu nome é Laudicéia Dias da Silva, que é o nome de batismo.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Nasci 05/08/81, tenho 39 anos. E meu nome artístico é Sarah Rosa.

Luciano Pires: O quê que a Sarah Rosa faz?

Sarah Rosa: Atriz pornô e acompanhante.

Luciano Pires: Atriz pornô e acompanhante.

Sarah Rosa: Isso.

Luciano Pires: Vamos sondar essa história que vai ser interessante. Você nasceu aonde Sarah? Sarah, mas espera aí. Vou te chamar de quê? De Sarah?

Sarah Rosa: Pode ser.

Luciano Pires: Sarah. Tá bom.

Sarah Rosa: Sarah.

Luciano Pires: Você nasceu aonde Sarah?

Sarah Rosa: Em Guanhães, Minas Gerais.

Luciano Pires: Aonde?

Sarah Rosa: Guanhães.

Luciano Pires: Guanhães?

Sarah Rosa: Minas Gerais.

Luciano Pires: Minas Gerais?

Sarah Rosa: Isso.

Luciano Pires: Cara. Têm irmãos?

Sarah Rosa: Tenho três.

Luciano Pires: Três irmãos?

Sarah Rosa: Dois de sangue e um adotivo.

Luciano Pires: Tá. Quê que sua mãe, seu pai, fazem, faziam? O quê que eles faziam da vida?

Sarah Rosa: A minha mãe dona de casa e meu pai trabalhava com agricultura. Que era uma firma que se chamava CENIBRA, plantava Eucalipto. Acredito que agricultor né?

Luciano Pires: Tá. O quê que…? Como é que era o teu apelido quando era menininha?

Sarah Rosa: Céia.

Luciano Pires: Céia?

Sarah Rosa: Céia.

Luciano Pires: Céia? É porque falar o nome, igual, era Laudi…? É Lau?

Sarah Rosa: Laudicéia.

Luciano Pires: Laudicéia, era Céia.

Sarah Rosa: Ahãm.

Luciano Pires: Quê que a Céia queria ser quando crescesse.

Sarah Rosa: Ah, eu tinha um sonho de ser famosa, ser modelo. E queria ter uma vida normal, ter as coisas. Essas coisas. Ter uma vida normal, coisa que eu não tinha.

Luciano Pires: Quantos habitantes tinha a cidade?

Sarah Rosa: Eu acho que no máximo 20 mil.

Luciano Pires: É pequeninha.

Sarah Rosa: É bem pequena mesmo.

Luciano Pires: Sei, sei.

Sarah Rosa: Guanhães tem um pouquinho mais, foi onde eu nasci. São João Evangelista, que é onde eu vivi. Que eu cresci, que tinha mais ou menos uns 20 mil.

Luciano Pires: Tá. Vocês estavam no campo? Lá era campo? Ou não, você morava na cidade?

Sarah Rosa: Na cidadezinha pequena.

Luciano Pires: Bem pequeninha.

Sarah Rosa: Bem pequeninha.

Luciano Pires: Devia ter poucos recursos ou poucas…

Sarah Rosa: Pouquíssimos.

Luciano Pires: É?

Sarah Rosa: Ahãm.

Luciano Pires: E o quê que… seus irmãos são mais novos ou mais velhos?

Sarah Rosa: Mais novos, eu sou a mais velha.

Luciano Pires: Tem irmãos mais novos?

Sarah Rosa: Ahãm.

Luciano Pires: Tá. E aí? Foi levando a vida. Você estudou? Fez o primário, fez escola normal como todo mundo?

Sarah Rosa: Sim. Ensino médio, fundamental. E comecei a cursar faculdade. Né?

Luciano Pires: Aonde?

Sarah Rosa: Na Uni Sant’Anna. Estava estudando jornalismo recentemente.

Luciano Pires: Mas que fica onde?

Sarah Rosa: No Santana, aqui em São Paulo.

Luciano Pires: Ah, você já estava em São Paulo. Tá.

Sarah Rosa: Ahãm.

Luciano Pires: Mas eu estou lá ainda.

Sarah Rosa: Ah, está lá ainda? Tá. Depois chego…

Luciano Pires: Você não chegou para cá.

Sarah Rosa: Tá bom.

Luciano Pires: Tá. Você viveu lá até que idade?

Sarah Rosa: Eu vivi lá até os 13 anos.

Luciano Pires: 13 anos?

Sarah Rosa: Nessa cidade.

Luciano Pires: E aí saiu sozinha, saiu com a família?

Sarah Rosa: Os meus pais foram trabalhar em Belo Horizonte, que é uma cidade maior.

Luciano Pires: Opa.

Sarah Rosa: Porque essa cidade que a gente morava, São João Evangelista, não tinha banco, não tinha nada.

Luciano Pires: Sei.

Sarah Rosa: Só tinha… mal tinha escola. E aí eles foram trabalhar fora e depois eu fui logo depois. Também fui trabalhar. Em casa de família.

Luciano Pires: Certo.

Sarah Rosa: Era doméstica.

Luciano Pires: Tá. Foi ser doméstica lá em…?

Sarah Rosa: Belo Horizonte.

Luciano Pires: Belo Horizonte?

Sarah Rosa: Isso.

Luciano Pires: Tá. E aí? Os sonhos de ser famosa mudaram?

Sarah Rosa: Olha.

Luciano Pires: Como é que é? Você vai para ser doméstica, que é uma profissão tão digna quanto quero qualquer outra, mas é uma profissão humilde.

Sarah Rosa: Humilde.

Luciano Pires: Ela é humilde.

Sarah Rosa: Bem humilde.

Luciano Pires: E eu tenho histórias aqui de gente que começa como doméstica e vira avião lá na frente. Vira dona de empresa e tudo mais, fica killer boy. Foi a largada, foi o começo. Né?

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: Mas como é…? E você estava com 13 anos?

Sarah Rosa: Sim. Eu tinha 13 anos.

Luciano Pires: Tá. Uma menininha de 13 anos trabalhando como doméstica?

Sarah Rosa: Sim. Como doméstica.

Luciano Pires: Quê que você queria ser quando crescesse cara? O sonho continuava igual? Vou fazer alguma coisa para ser famosa? Ou você tinha uma profissão em vista? Você pensou em fazer faculdade, estudar de alguma forma?

Sarah Rosa: Não. Eu assim, eu achava muito difícil estudar, mesmo naquela época da infância, então eu só queria cursar, tipo, no máximo fundamental, aprender a ler, escrever, essas coisas. E queria ser modelo, de qualquer jeito, assim. Queria ser famosa, eu ficava encantada em ver as pessoas na TV, aquelas coisas de desfile, eu achava interessante. E era muito assim, meu sonho. Mas não sabia por onde começar. E assim, trabalhei mais de 10 anos em casa de família, de BH, depois vim para São Paulo. Só uma história né?

Luciano Pires: 23. Dos 13 aos 23?

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Você trabalhou em casas de família.

Sarah Rosa: Casas de família. Uhum.

Luciano Pires: Tá. E como é que veio…? Como é que foi a vinda para São Paulo? Veio como?

Sarah Rosa: Nossa. Foi uma história bem complicada.

Luciano Pires: Aí é que está o molho daqui. Qual é a complicação da história?

Sarah Rosa: Então, aos 16 anos eu tive… eu fui assediada aos 16 anos. Né? Com um cara que eu fui trabalhar com ele, numa loja de refrigeração, em Belo Horizonte.

Luciano Pires: Tá.

Sarah Rosa: Porque assim, eu estava trabalhando de doméstica, mas eu queria muito trabalhar de outras coisas também. Conhecer o comércio e tudo. E eu saí com a minha mãe para a gente comprar uma geladeira usada, que a gente foi morar num barraco na periferia de BH. E aí ele perguntou para a minha mãe assim: e essa moça está trabalhando? Aí minha mãe falou assim: não. A senhora não deixaria ela trabalhar comigo? A minha mãe falou assim: deixo. Aí ele começou a me assediar, assim, ficava mexendo comigo, me encantando e tudo. E eu sempre saía fora, naquela, sempre saía fora. Aí eu tinha acabado de sair da minha religião evangélica, e tinha todas aquelas doutrinas que eu sempre segui. Então, quando eu fiquei com esse cara, eu achava assim, que eu não podia ficar com mais nenhum homem. Então…

Luciano Pires: Quer dizer, ele te assediou e você começou a ter um relacionamento com ele?

Sarah Rosa: Sim. Aí depois que aconteceu essa situação de estupro. Assim, foi praticamente um estupro. Né?

Luciano Pires: Você era virgem? Você era virgem?

Sarah Rosa: Eu era virgem ainda.

Luciano Pires: Tá.

Sarah Rosa: E ele baixou as portas, num dia que estava chovendo muito, e veio para cima de mim com tudo. E tampou a minha boca. E tirou a minha roupa e me jogou no chão. E forçou a situação, e aconteceu. E aí não tinha como eu, assim, pedir socorro, nada. Porque assim, era uma avenida muito movimentada. E… Desculpa. E aí aconteceu assim, e eu perdi a virgindade com aquele homem. E não era uma coisa que eu queria. Eu queria uma coisa assim, um namorado, uma coisa legal. Né?

Luciano Pires: Claro.

Sarah Rosa: E aí acabei assim, eu tive aquela coisa. Tinha aquela coisa de religião, de achar que eu tinha que casar com aquele homem porque era o primeiro, tinha que ser para sempre, assim.

Luciano Pires: Quer dizer você não… aquilo não foi um trauma para você virar as costas, ir embora, nunca mais quero ver esse cara. Você continuou lá?

Sarah Rosa: Não. Eu continuei lá. Porque assim, porque a vida com a minha mãe era muito difícil. A minha mãe, eu via a minha mãe assim, como um monstro, como uma pessoa assim, de filme de terror.

Luciano Pires: Sei.

Sarah Rosa: Aquelas histórias de contos de fada, de… madrasta né que fala? Eu via a minha mãe assim. Porque ela me tratava muito mal, desde sempre. E aí para mim, eu achava até melhor viver com aquele homem do que continuar vivendo com a minha mãe. Entende? E aí fui morar com ele. Até então, assim, meus pais souberam, tudo. Onde eu fui morar, eles me visitavam, depois esse homem mudou de residência.

Luciano Pires: Deixa eu entender. Eu vou explorar um pouco isso aqui mais. Vou explorar mais. Se eu exagerar você me fala que eu paro. Tá? Eu sou homem, eu não consigo me colocar no lugar de uma mulher para imaginar o que é ser estuprada. Eu não consigo imaginar, não passa pela minha cabeça. Eu consigo, sei lá, eu não consigo imaginar. Tá? Mas eu imagino que seja um trauma, especialmente que… você era virgem?

Sarah Rosa: Uhum.

Luciano Pires: Você estava saindo de uma religião. Não é?

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: Você tinha toda uma… você tinha consciência do que estava acontecendo. Você não estava sendo enganada ali, ele foi para cima de você e você… e aquilo é um trauma tremendo que para mim seria o suficiente para você odiar esse monstro para o resto da sua vida. E você não fez isso. Né? Você, de repente se viu numa situação que, cara eu podia odiar esse cara, ir embora daqui. Mas se eu sair daqui eu vou para onde? Vou ficar na minha casa, mas ele me trata melhor do que eu sou tratada… Como é que foi esse processo? Porque, cara você foi ficar com o cara que te estuprou?

Sarah Rosa: Sim. Porque assim, eu falei assim, é melhor ficar com esse cara do que a minha mãe. Que a minha mãe…

Luciano Pires: Você passou a gostar dele?

Sarah Rosa: Olha. Eu tive… chegou um momento assim, quando completou tipo um ano e meio que a gente estava jutos, eu comecei assim, a gostar. A acostumar com a situação, mesmo não tendo sentimento e, assim, na hora que ele ia fazer sexo comigo era muito difícil. Porque eu não conseguia sentir prazer, eu fiquei com ele três anos, não sentia prazer, não sabia o quê que era orgasmo. Nada dessas coisas. Porque eu sempre via assim como uma coisa forçada, toda vez que ele vinha eu lembrava daquela imagem.

Luciano Pires: Você chegou a conversar com ele sobre isso? Perguntar por que ele fez isso com você? A gente sabe por que. Mas você chegou a confrontá-lo de alguma forma?

Sarah Rosa: Conversei. Ele falou que gostava de tirar virgindade de meninas novas. E é isso que ele falou. E que ele se encantou com a minha beleza, e não falou mais nada. E o que aconteceu? Ele ficou mudando de endereço, os meus pais não conseguiam mais ter contato comigo. Meus pais voltaram para o interior e aí perderam contato totalmente comigo. E eu comecei a ficar dentro de casa, ele saía para trabalhar, ele fechava o portão, trancava o portão, me deixava dentro de casa. Eu já não trabalhava mais com ele, assim, foi coisa de quatro meses depois, já não trabalhava mais com ele que ele não queria. Não queria que eu ficasse lá. Porque eu fui trabalhar com ele de recepcionista, de anotar recado, de marcar os endereços, essas coisas. Então ele falou assim: não aceito de você trabalhar mais, você ficar exposta, alguém pode gostar de você e levar você embora, tirar você de mim. Aí ele começou a me deixar dentro de casa. Primeiro ele mudou, a primeira vez. Foi só mudando para mais longe, para lugares que eu não sabia ali em Belo Horizonte, uns lugares afastados, perto do mato. Justamente para os meus pais não me acharem.

Luciano Pires: Você perdeu contato com seus pais?

Sarah Rosa: Totalmente, porque não tinha celular naquela época.

Luciano Pires: Sim. Mas quanto tempo durou? Dois anos, três anos? O quê que é?

Sarah Rosa: Três anos sem contato com meus pais. Três anos.

Luciano Pires: Você não pensou em fugir?

Sarah Rosa: Eu fugi.

Luciano Pires: Você fugiu?

Sarah Rosa: Eu consegui depois fugir. E nisso, ele me trancava, e outra, ele começou a não comprar mais Xampu para mim, eu não tinha como comprar. Roupa, nada, absorvente, essas coisas que mulheres precisam. Ele começou… e eu falei: porque você está fazendo isso comigo? Ele falou assim: eu não quero que você fique bonita, não quero que você cuide do cabelo. Lavava o cabelo com sabão. Sabão que eu lavava roupa lavava o meu cabelo, era… ficou uma bucha o meu cabelo. Ele falou assim que queria ver eu feia para ninguém gostar de mim, se interessar por mim, me levar embora. Essas coisas que ele falava.

Luciano Pires: Ele achava que você era propriedade dele. É isso aí.

Sarah Rosa: Propriedade.

Luciano Pires: O quê que você era dele? Você era namorada? Era mulher dele? O quê que você era dele?

Sarah Rosa: Não era nada. Eu me vi numa situação assim, muito desconfortável, muito complicado, muito triste, muito depressiva. E como que eu ia sair daquela situação? Eu ficava pensando. E um certo dia, a gente brigou e eu assim, estava tão nervosa com aquela situação, assim, já estava a ponto de explodir. E aí eu enfrentei ele naquele dia. Eu falei: chega. Enfrentei mesmo. Falei assim: se você me matar tudo bem. Porque para mima agora é melhor morrer do que ficar nessa situação. E aí eu empurrei ele, a gente brigou mesmo, assim, eu fui para valer para cima dele também. Ele ficou nervoso, para não me machucar ele saiu. Ele saiu e deixou o portão aberto e a carteira dele em cima da cama. Ele tinha acabado de chegar do trabalho, jogou as coisas dele em cima da cama. E aí foi a oportunidade, porque naquela época tinha R$ 30 na carteira dele, foi o suficiente para eu fugir.

Luciano Pires: Você saiu correndo, com a roupa do corpo?

Sarah Rosa: Sim, eu estava com a roupa do corpo, peguei na mochilinha só algumas peças que eu pudesse usar e fui para a BR, peguei o ônibus.

Luciano Pires: Para onde?

Sarah Rosa: Naquela época acho que era um e pouco. Para a rodoviária de BH.

Luciano Pires: Que horas era isso?

Sarah Rosa: Isso era quase nove da noite já. Aí eu cheguei, peguei o primeiro ônibus que eu vi, cheguei na rodoviária faltavam 15 minutos para sair um ônibus. Você acredita?

Luciano Pires: Para onde?

Sarah Rosa: Para minha cidade. Ali em São João Evangelista, onde meus pais estavam morando na época.

Luciano Pires: Voltou para casa?

Sarah Rosa: Aí eu voltei para casa. Meu pai não acreditou quando me viu, minha mãe também. Eles achavam que eu estava – segundo minha mãe, eu não sei se é verdade – mas segundo ela eu estava bem e eu não queria procurar a família, porque eu não estava nem aí com a família, não se preocupava com ninguém. Então não se importaram em ir atrás de mim, de procurar, de nada. De procurar saber o quê que estava acontecendo, de ir na polícia, nada.

Luciano Pires: Bom. Voltei para casa, você estava então com 19 anos? 20 anos?

Sarah Rosa: Sim. 19.

Luciano Pires: 19 anos de idade?

Sarah Rosa: 19 anos.

Luciano Pires: Voltou para a cidadezinha pequenininha, para a casa dos pais. E aí? Vou recomeçar minha vida. O quê que eu vou fazer? Cadê aqueles sonhos todos? O que aconteceu coma aquilo tudo?

Sarah Rosa: Então. Eu ainda pensava em crescer, naquele momento ainda. Assim, ah, agora estou livre, posso viver a minha vida. E aí…

Luciano Pires: Teus pais te receberam para morar com eles na boa?

Sarah Rosa: Numa boa. Não, mas o pior você não sabe. Esse cara foi atrás de mim.

Luciano Pires: Lá?

Sarah Rosa: Ele foi. Ele me procurou em todos os lugares que ele pudesse procurar e me encontrou.

Luciano Pires: E aí?

Sarah Rosa: E aí que eu saí de São João e fui para Guanhães trabalhar numa casa, para morar e dormir.

Luciano Pires: Como doméstica?

Sarah Rosa: Como doméstica e achava que eu ia ficar tranquila. Ele foi atrás também, aí ameaçava, começou a ameaçar toda minha família. Aí eles começavam a entregar onde eu estava. Aí começou a ameaçar o pastor da cidade, que era onde meus pais frequentavam, as igrejas evangélicas. Começava a ameaçar esses pastores, ficava ameaçando todo mundo próximo a mim ou próximo da família. E falava que ia me matar se eu não voltasse para ele. Teve um dia que ele me pegou na esquina com uma faca para me matar. Meu irmão estava passando na hora que ele estava indo almoçar, porque ele estava trabalhando na padaria, na mesma padaria dos donos que eu trabalhava na casa deles. E aí ele puxou o cara, sabe, enfrentou o cara e tudo. Mas ele ficou me perseguindo. Aí foi aí que eu conheci São Paulo.

Luciano Pires: Você fugiu para cá? Quê que você fez?

Sarah Rosa: As minhas primas do lado da minha mãe, falaram que eu poderia vir para cá que elas iam ajudar, arrumar um emprego e tal, para eu ficar. E aí eu acabei vindo com o tio delas, que é tio do lado… parte de pai delas. E aí chegando aqui já cheguei direto para uma casa para trabalhar aqui no Alto de Pinheiros na época. E aí só que a minha família acabou entregando onde eu estava de novo.

Luciano Pires: E o cara veio aqui?

Sarah Rosa: Veio para São Paulo.

Luciano Pires: Meu pai do céu.

Sarah Rosa: E aí acabaram entregando de novo e aí eu perdi o emprego porque ele conseguiu o telefone da casa e ficava ligando, ameaçando o pessoal no meio da noite. E a família era ótima, família maravilhosa. Mas eles me mandaram embora. E aí fui pulando. Até que o último trabalho que uma tia minha arrumou para mim, no caso mulher de um tio meu. Tio de sangue. Aí eles não sabiam onde eu estava, foi ali que o cara não me achou, mas aí eu já estava tão assim, com a cabeça tão perturbada que eu fiquei com depressão, fiquei deprimida, entrei em depressão e comecei a não levantar da cama, na própria casa. O quarto era separado da casa, nos fundos, eu não levantava para arrumar a casa do casal – era no Jardim Paulista, na época – para arrumar a casa do casal, para fazer as coisas. Eles chegavam, estava tudo do mesmo jeito. E ela até levava um lanche para mim, para ver se eu comia, eu não conseguia comer e aí eles tiveram que me mandar embora, porque não tinha como eu ficar lá na casa deles.

Luciano Pires: E você não tinha um grupo de amigos, você não tinha um grupo a quem recorrer? Nada disso? Estava sozinha?

Sarah Rosa: Não tinha. Sabe por quê? Porque a criação que a minha mãe me deu era assim, eu não brincar com as amigas, eu não ter amiga. Então eu não conseguia conversar com as pessoas, eu não sabia conversar, não tinha diálogo, não tinha nada. Eu não sabia me abrir, assim, não conseguia me abrir com ninguém. Entendeu? Então tive uma infância assim, na verdade eu não tive infância, aos sete anos a minha mãe me colocava para cozinhar, para cuidar de casa, e me batia quando eu não fazia direito.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Então era bem complicado assim. Então cresci assim.

Luciano Pires: Você está em São Paulo, desempregada, depressiva, com um monstro à espreita em algum lugar. O quê que você fez? O que você resolveu fazer da vida?

Sarah Rosa: É. Então, tive que voltar para o interior novamente. Porque, fui para a casa de uns tios meus. Aí eles…

Luciano Pires: Na mesma cidade? Não?

Sarah Rosa: Não. Fui para a casa de uns tios meus aqui em São Paulo, que eles foram lá na casa me buscar, no Jardim Paulista, me buscar. E aí eles também não, assim, as pessoas não aguentam a pessoa depressiva. As pessoas não conseguem. Por mais que seja da família. Como que eu vou ficar com essa pessoa aqui? Que está vegetando. Que fica nessa. E chega um momento que as pessoas começam a pensar que a gente é preguiçosa, que a gente não gosta de trabalhar. Essas coisas todas. E começa a julgar, começa a falar. E aí meu irmão, que estava lá no interior, veio, meu irmão do meio veio me buscar. E a família ficou cuidando de mim. Por um ano eu precisei ficar tomando remédio, injeção. Assim, para eu voltar ao normal. Porque eu estava… só ficava na cama, não fazia nada. Eu não conseguia tomar banho sozinha. Era muito difícil. Daí eu tive estágio de loucura, essas coisas. Um turbilhão de coisas.

Luciano Pires: Como é que você sai dessa?

Sarah Rosa: Nossa. Eu sempre ia… eu melhorava, levantava, caía, levantava e caía. E aí, nessa época que fiz tratamento e tudo, fiquei com meus pais um ano. Eu falei assim: gente. Tenho que sair dessa. E assim, na cidade o pessoal já sabia. Cidade pequena. Não queriam me dar emprego, porque sabiam que eu vivia depressiva. Eu tive momentos de loucura que eu saia, queria pular na frente dos carros. Na cidade, aí eu fiquei bem falada lá. Em Guanhães nessa época, eu tinha… meus pais já estavam em Guanhães, que foi onde eu nasci. Que é uma cidade bem vizinha, é um pouquinho maior que São João, eles foram morar lá. E aí eu pegava as coisas da minha mãe, saía nas avenidas jogando as coisas, quebrando as coisas nos carros e aquela loucura, e todo mundo que me via saía correndo de mim, tinha medo de mim. Essas coisas. Aí, eu precisava tomar injeção, ficava 12 horas dormindo direto. Quando eu voltava minha mãe dava muito remédio para eu, eu apagava de novo. Eu vivia adormecida, assim.

Luciano Pires: Isso o quê? Com 22 anos de idade?

Sarah Rosa: Isso.

Luciano Pires: É?

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: No auge da juventude?

Sarah Rosa: É. Nessa situação. E o pior de tudo, meus irmãos, eles tinham grupos de amigos da igreja. Posso até falar a igreja, Assembleia lá, de Guanhães. Aí eles chegavam, assim, sempre se reuniam todos os jovens. E uns iam para casa dos outros, cada domingo iam para uma casa, uma turma de jovens. E ficavam descontraindo, brincando, jogavam futebol, essas coisas. E aí esses jovens um certo dia foram lá para casa, quando eu vi eu escondi debaixo da cama. Assim, eu fiquei escondida até esses jovens irem embora. Fiquei lá o dia inteiro de baixo da cama. Porque eu não queria que ninguém me visse. Sabe? Eu tinha…

Luciano Pires: É?

Sarah Rosa: É. Não achava assim… nossa eu estou numa situação que eu não quero ser vista. Não quero que as pessoas me vejam, não quero ver ninguém.

Luciano Pires: Você tinha ciência da situação que você estava? Você tinha consciência dessa…?

Sarah Rosa: Eu tinha.

Luciano Pires: Você tinha…? Intercalava um momento de loucura com cair em si?

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: Falar: cara eu tenho que sair dessa, eu tenho que dar um jeito.

Sarah Rosa: Tinha. Tinha uma certa… uma… como que você falou?

Luciano Pires: Consciência.

Sarah Rosa: Consciência. Tinha uma certa consciência. Inclusive assim, às vezes dava umas loucuras em mim. Tinha coisa que eu lembrava, tinha coisa que eu não lembrava. Aí as pessoas me falavam, meus pais, meus irmãos. Não, não acredito que eu fiz isso. Às vezes eu tirava as roupas da minha mãe, dos meus irmãos. Tudo do guarda-roupa e jogava no meio da lama. E colocava as roupas lá no meio da rua, as coisas no meio da rua. Era uma loucura.

Luciano Pires: Bom. Ninguém pensou em internar você num…? Em qualquer lugar?

Sarah Rosa: Não. Começaram a me dopar. Aí estava dando certo. Mas não me internaram, as pessoas falavam: ah, é coisa espiritual, macumba. Vamos levar lá no centro de macumba para tirar isso que eles tiram. Aí minha família: não, a gente é cristão, a gente não pode fazer isso. Aí começaram a fazer campanha de sete dias em casa, da igreja evangélica. Com os remédios tudo foi estabilizando, foi voltando. E para eu sair dessa. Eu consegui um trabalho ali na cidade, na época, para ganhar R$ 150. Porque a minha intenção – não tinha falado para os meus pais – era sair de novo para fora. Que eu queria continuar lutando. E aí eu consegui esse trabalho, aí juntei um dinheirinho e fui para BH. Em BH, eu arrumei um emprego em BH. E voltei para São Paulo novamente. E quando eu cheguei aqui, aí eu arrumei trabalhos em casa de família novamente. De BH eu vim direto para uma agência de emprego, aqui no Santa Cruz, que eu acho que agora não existe mais essa agência, que era… a gente já vinha com emprego arrumado e já ficava no local, já morava e tudo. Né?

Luciano Pires: Bom. Nesse intervalo todo você não teve relacionamento com mais ninguém, você não tinha namorado, você tinha nada disso?

Sarah Rosa: Não.

Luciano Pires: Você estava sozinha.

Sarah Rosa: Sozinha e eu só queria crescer. Sabe? Eu queria me vestir melhor, me calçar melhor, comer melhor. Coisa que eu nunca tive. E eu queria assim, quem sabe um dia eu posso ser uma modelo. Essas coisas de adolescente.

Luciano Pires: Muito bem. E aí aqui em São Paulo você voltou ao normal?

Sarah Rosa: Não. Aí tive outras depressões, tive várias, depressão. Mas aí eu fui trabalhar noutra casa, aí depois eu falei assim: gente eu preciso estudar. Que eu só tinha quarta série. Porque eu ia procurar emprego em restaurante, em outros lugares, eles pediam oitava série. Aí eu comecei a fazer isso, a trabalhar e estudar. Aí fiz…

Luciano Pires: Você fez algum supletivo? Uma coisa assim?

Sarah Rosa: Supletivo. Aquele CEU lá né, que fala. Fiz quinta, sexta, sétima, oitava. Aí consegui o primeiro emprego em restaurante. De auxiliar de cozinha. Aí que eu fui mudando de trabalho, loja de vendedora, e fui trocando de emprego. Mas eu não me encontrava. E o pior de tudo. O salário que eu vivia, o salário que eu tinha, eu tinha que escolher, ou eu comia direito, ou eu pagava aluguel. E algumas vezes eu fui despejada, porque fiquei desempregada e não tinha como pagar aluguel. Então era muito difícil assim, dormi na rua, tudo.

Luciano Pires: Que idade você está? 24?

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Você estava com 24?

Sarah Rosa: Para 25.

Luciano Pires: 24/25.

Sarah Rosa: Isso.

Luciano Pires: Bom. Até aí a vida está uma dureza.

Sarah Rosa: Dureza.

Luciano Pires: Está muito complicada. E aí? Como é que você dá uma virada nessa situação? Como é que você parte para outro tipo de…? Eu quero… em algum momento nós vamos chegar no filme, no filme pornô, no acompanhante, eu quero saber em que momento é que essa passagem vai acontecer.

Sarah Rosa: É, aí assim, continuei naquela vida medíocre de ganhar salário mínimo, de morar em periferia, assim, não tenho nada contra, tudo bem. Mas assim, eu mal conseguia pagar aluguel, mesmo na periferia, isso que eu quero dizer. Mesmo sendo assim, um aluguel de 200 contos, 300 contos, eu não conseguia pagar direito. E eu não comia bem também, me alimentava supermal. O meu alimento que eu mais comia era Miojo, hoje eu não gosto de Miojo porque, assim, às vezes eu tinha fome, era o mais barato, era 50 centavos, na época. Então, eu fui trabalhando, fui trabalhando e tudo, e as pessoas falavam assim para mim: gente, mas você é tão bonita, você podia fazer alguma coisa. Aí fui comprar pão na padaria para os patrões meus, a menina falou assim: nossa você podia ser modelo, tal. Você é tão bonita. Aí eu comecei a ir em agências para tirar foto. Pegava meu salário, ia, eles faziam aquelas fitas, falavam em chamar, mas não chamavam, só fazia book, fazia foto, mas nunca chamavam. Entende? E a reviravolta foi que eu, assim, depois eu fui fazer um curso de manicure, de cabeleireira, que falei assim: ah eu acho que eu vou melhorar. Porque assim, trabalhava com padaria e tal. E aí eu saí da padaria e com o dinheiro da padaria que eles me pagaram, fui fazer os cursos de manicure e de cabeleireira. E aí que eu comecei a melhorar a situação financeira. Eu comecei a viver um pouquinho melhor.

Luciano Pires: Sempre sozinha?

Sarah Rosa: Sempre sozinha.

Luciano Pires: Continua sozinha.

Sarah Rosa: Sempre sozinha. E assim, de vez em quando tinha umas paqueras assim, mas não dava certo. Não era coisa legal também né? Mas tive uns relacionamentos nesse meio termo, de morar junto um ano, dois anos, mais para o final, antes de ser acompanhante.

Luciano Pires: Tá.

Sarah Rosa: Bem no finalzinho. E aí eu fiz o curso de manicure e cabeleireira, aí eu não conseguia oportunidade diretamente de cabeleireira. Os lugares falavam assim: ai, você não tem experiência. Ai não dá para você, a gente prefere pessoas com experiência mesmo, tal. Eu não tinha espaço. Aí eu comecei a trabalhar de auxiliar de cabeleireira, para ganhar R$ 600. E eu falei assim: poxa eu acho que eu vou fazer unha, porque é mais independente. Eu faço a minha unha, ganho 50% do salão, e está tudo bem. Né? Melhor do que eu ficar aqui, ganhando R$ 600. Aí assim eu comecei, no mesmo salão, pedi ao patrão para eu mudar de auxiliar de auxiliar de cabeleireira, se eu podia fazer unha. Aí ele falou: tudo bem. E aí eu ganhava aí meus 1500, e aí eu comecei a pagar um aluguel melhor, ali na João Dias, de R$ 700. Com tudo mobiliado, tudo bonitinho. E era pertinho do trabalho, eu descia andando, que era ali no Carrefour da João Dias, Estúdio Único, não tem problema falar.

Luciano Pires: Não.

Sarah Rosa: E aí eu descia andando, voltava, e aí eu comecei a trabalhar, tipo 12 horas por dia para tirar meus 1500. Às vezes 1600, nessa faixa. Mas eu trabalho de 12 a 14 horas por dia para isso.

Luciano Pires: Não é fácil.

Sarah Rosa: Porque lá era… não, 12 horas, que era das 10 às 10, que abria.

Luciano Pires: Tá.

Sarah Rosa: Domingo, feriado. Tudo eu trabalhava.

Luciano Pires: Tá bom. Qual é aí a perspectiva, hein? Você está lá, fala: muito bem. Eu estou ganhando melhor. Melhor do que você sempre ganhou, continuava sendo um trabalho onde você não tinha muita perspectiva de crescimento ali. Não é que eu vou… você falou: eu mal conseguia para meu aluguel. Aí já estava numa situação um pouco melhor, mas não sei se eu conseguia sonhar que vou ter meu próprio salão, vou montar minha própria estrutura. Você estava pensando nisso? Vou empreender de alguma forma? O quê que você via lá? O quê que você via como…? O tempo está passando.

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Você está com 25/26 anos de idade nessa altura.

Sarah Rosa: É. 2007.

Luciano Pires: O quê que você via pela frente?

Sarah Rosa: Eu via tudo muito distante para mim. Porque assim, tudo que eu tentava não dava certo. Tudo que eu tentava não dava certo. E eu tinha um problema muito grande, que eu tinha muito ódio da minha mãe. Eu não gostava da minha mãe, eu via ela como uma inimiga minha. Isso contribuiu muito para o meu desastre durante todos esses anos. Né? Porque quando você carrega alguma coisa, ódio, mágoa, de uma pessoa principal da sua vida, eu acho que acaba atrapalhando muito a sua caminhada. E eu… quando eu caí na real, que era isso. Eu comecei a querer ser amiga dela, ficar próxima dela.

Luciano Pires: Mas ela está morando lá no interior?

Sarah Rosa: No interior.

Luciano Pires: E você aqui?

Sarah Rosa: Aqui.

Luciano Pires: Tá.

Sarah Rosa: Mas mesmo assim, por mais que eu tentei não deu certo e eu via que… não via assim uma amizade da minha mãe, amor de mãe, nada. Então… se der tempo de eu contar eu conto a história da infância um pouquinho, lá atrás, e conto o porquê e tudo dessa situação. De rejeição…

Luciano Pires: Da sua mãe?

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Do quê? Da?

Sarah Rosa: De rejeição da gravidez…

Luciano Pires: Não, mas acho que você já colocou ela numa situação, já deu para entender a pressão e tudo mais. Vamos entender como é que foi essa tua passagem para outro mundo. Para outra… como é que você decide um belo dia ser acompanhante? Eu não sei se foi assim. O quê que você fez? Você conheceu alguém que te contou, contou quanto ganhava, você viu. Como é que foi isso?

Sarah Rosa: Tinha umas meninas que elas iam fazer unha no salão, e elas comentavam. Assim, têm pessoas que são abertas.

Luciano Pires: Elas eram acompanhantes?

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: Eram acompanhantes. Tá.

Sarah Rosa: Acompanhantes. Aí falou assim: ai, você é tão bonita. Você podia de repente fazer programa. Você não pensa nisso? Você ia ganhar um dinheiro legal, você ia sair da situação que você se encontra, você ia viver melhor. Assim a gente acabava fazendo amizade com as clientes. E ela se abria, falava: sou acompanhante, tal. Mas é… muita vergonha.

Luciano Pires: E elas te contavam os números que elas ganhavam?

Sarah Rosa: Sim. Diz que ganhava bem, chegava a ganhar 1500 por semana. Falei: nossa isso aqui eu ganho por mês.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Né? E tranquilo e tal. Eu não via os lados negativos do acompanhante, só os positivos, só o dinheiro assim. Pensava, mas eu não tinha coragem. Falava assim, mas não, não nasci para isso. Eu não vou fazer isso. Aí eu colocava as leis divinas nessa, não é certo perante Deus essas coisas. E aí, de tanto passar por tantos problemas, tantas dificuldades, aí teve um dia que eu falei: que saber, eu vou fazer isso. Aí eu comprei aquele jornalzinho amarelo. Que tinha acompanhante tinha tudo. E eu comecei a ler e aí eu procurei, tinha uma casa de privê na Praça da Árvore. Foi aonde eu comecei. E aí eu comecei ali, e ganhava pouquinho naquela época, mas o suficiente.

Luciano Pires: Espera que nós vamos explorar isso aí. Espera um pouquinho. Você não foi num açougue para trabalhar como açougueira, você não foi numa loja de roupas para vender roupas. Você foi para um lugar que era totalmente o oposto daquilo tudo que foi a sua criação. E você vinha de uma experiência onde o sexo para você era uma coisa, imagino que era traumática. Que tudo que aconteceu com aquele sujeito lá, você devia ter uma… não sei como é que isso era trabalhado na sua cabeça, não devia ser uma coisa fácil para você. E de repente você ia para um local onde você ia ter relacionamentos com pessoas que você não conhecia. Você não tinha experiência nisso, você não começou com o teu primo ali. Não. Era um negócio que você ia ser jogada direto dentro da arena. Como é que foi isso? Você teve uma mentora? Você foi com alguém? Alguém te levou? Alguém: Sarah vem cá. Sarah não, não era Sarah na época. Né?

Sarah Rosa: Não.

Luciano Pires: Eu vou te ensinar como é que faz. Como é que foi isso? Você bateu na porta e falou: eu queria trabalhar aí?

Sarah Rosa: Não. Na época era Sarita, eu…

Luciano Pires: Sarita?

Sarah Rosa: É. Por ah… Sarita. É um nome legal. Aí depois eu fui Lorrane, Patrícia e depois chegou no Sarah. Que foi o caso da artista agora. Mas assim, aí eu li no jornal e falei assim: eu vou lá. Com a cara e a coragem. Não foi ninguém comigo. Ninguém, nenhuma pessoa que trabalhava lá, nada. Simplesmente peguei no jornal e fui. Falei assim: agora é tudo ou nada. Agora é a minha última tentativa, é a última coisa que eu vou tentar, porque eu já estou cansada de trabalhar e não ter nada, não conseguir nada, não ter o que eu quero. Que é o básico do básico, que é comer bem, se vestir bem, essas coisas. E eu vou lá, e fui, bati na porta, no endereço que estava lá, cheguei lá.

Luciano Pires: Eu queria trabalhar aqui.

Sarah Rosa: Aí a mulher me atendeu, aí ela sentou comigo na sala para fazer entrevista. Aí eu conversei com ela, falei assim: olha nunca trabalhei, não sei se eu vou ter coragem, mas eu vou tentar. Se não der certo tudo bem. Aí logo depois, acho que coisa de 15 minutos depois que eu já estava lá, um cliente entrou.

Luciano Pires: 15 minutos você chegou? Eu ia perguntar se ela te deu um manual.

Sarah Rosa: Não, falou nada.

Luciano Pires: Se ela sentou com você para, vem cá, vou te explicar como é que acontece, é assim que você faz. O procedimento tem que ser… não faça isso. Ninguém te deu nenhum tipo de instrução?

Sarah Rosa: Não, ela só falou os valores, como que funcionava. Valore de 1 hora. Quer que eu falo?

Luciano Pires: Quero. Fala, fala.

Sarah Rosa: Então, uma hora eram R$ 100, e meia hora eram R$ 50. O trivial, oral e vaginal. Aí se eu quisesse fazer, por exemplo, um anal, aí eu cobrava a parte no quarto. Ela falou assim: não pode cobrar menos que R$ 50, que as meninas cobram de 50 para cima. Aí eu falei: não, tudo bem. Aí foi isso só que ela falou.

Luciano Pires: Tua naturalidade de me falar essas coisas aqui, me deixa incomodado, sabe. Porque eu imagino que você devia estar… esse não era o teu ambiente, você não vivia isso. Você não vivia de sentar na frente de uma pessoa e falar: o sexo custa tanto, vai ser assim, vai ser assado. Você não tinha essa prática.

Sarah Rosa: Não tinha, não tinha essa prática.

Luciano Pires: E você estava diante da mulher, ela dizendo você vai fazer assim, assim, assado. Né?

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: E aí você sentou numa cadeirinha e ficou ali aguardando?

Sarah Rosa: É. Eu falei assim: agora vamos ver o que vai acontecer. Porque eu disse: ah, para quem já passou necessidade, fome aqui em São Paulo. Dormi um dia na rua, na chuva, porque ficou na rua, não tinha lugar para ficar. Isso aí é fixinha. Eu pensei: ah, isso aí eu acho que eu vou conseguir sim, imagina. Aí fui, falei assim: agora é tudo ou nada. Não interessa, não estou nem aí. Sabe.

Luciano Pires: Entrou um cliente?

Sarah Rosa: É. Foda-se.

Luciano Pires: Entrou um cliente?

Sarah Rosa: Aí entrou o cliente.

Luciano Pires: Tinha várias meninas lá:

Sarah Rosa: Várias.

Luciano Pires: E o cliente olha e ele escolhe?

Sarah Rosa: Ele escolhe, só que nesse daí, ela foi malandra. Ela chegou nele, e falou assim: ai tem uma menina nova, ela não tem experiência, tal. Ela falou que se não der certo no primeiro cliente que ela vai embora.  Conversou com ele. Né?

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Eu não sabia. Fiquei sabendo depois que ele voltou várias vezes lá.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Aí falou assim: aí você chama ela e tal. Trata ela direito. Falou assim. Conversou bem com ele. Aí ele não pediu apresentação. E eu já subi direto.

Luciano Pires: Ele não pediu o quê?

Sarah Rosa: Não pediu apresentação.

Luciano Pires: Quê que é apresentação?

Sarah Rosa: Apresentação? O cara fala assim: ah, quero apresentação. Aí vai, faz uma fila de meninas, que é um prive. Né?

Luciano Pires: E elas vão passando, ele vai olhando todas elas passando e escolhe uma delas?

Sarah Rosa: Isso.

Luciano Pires: Certo.

Sarah Rosa: Ela cumprimenta, dá um beijinho. Aí a que ele mais agradar, que foi mais simpática, às vezes ele leva para o quarto. Ele que escolhe.

Luciano Pires: Tá. Ele não teve apresentação?

Sarah Rosa: Não.

Luciano Pires: A tua primeira vez já foi?

Sarah Rosa: Direto.

Luciano Pires: Direto. Tá.

Sarah Rosa: Aí eu só peguei a minha bolsinha e subi. Ela me deu camisinha, que nem isso eu tinha. Aí ela me deu camisinha e falou assim: vai toma. Aí eu subi. Aí ele me tratou superbem, foi superlegal. Aí eu pensei: ah, se todos clientes forem assim, vou continuar, vai ser legal.

Luciano Pires: Essa tua primeira, essa tua primeira experiência foi algo prazeroso? Foi algo prazeroso?

Sarah Rosa: Não foi prazeroso, mas foi tranquilo assim.

Luciano Pires: Foi tranquilo? Você não…?

Sarah Rosa: Foi. Uma coisa leve.

Luciano Pires: Não foi nada que te assombrou? Tanto que você falou, quando terminou você falou: pô se todos eles forem assim.

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Dá para levar.

Sarah Rosa: Dá para levar. Só que era um cliente que ele não chegou a transar. Esse daí.

Luciano Pires: Tá.

Sarah Rosa: Me tratou bem, tudo. Só pediu para fazer oral. Só. E conversou um pouco comigo e pronto.

Luciano Pires: E foi embora?

Sarah Rosa: Foi embora.

Luciano Pires: E quanto na tua mão? Cinquentinha?

Sarah Rosa: Aí… cinquentinha que foi de meia hora.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: E aí depois eu tive outros, eu cheguei lá às sete da noite, fechava dez horas e eu tive mais dois de uma hora. Então já saí de lá…

Luciano Pires: Na tua primeira vez foram três pessoas?

Sarah Rosa: Ahãm.

Luciano Pires: Três caras?

Sarah Rosa: Ahãm.

Luciano Pires: Três programas?

Sarah Rosa: Três programas 250 que eu ganhei e mais um anal. Eu tirei mais uns 100 contos ainda. Eu saí de lá mais ou menos com uns 350.

Luciano Pires: Tá. Então vamos…

Sarah Rosa: Em menos de três horas.

Luciano Pires: Vou explorar você um pouquinho aqui. Que hora terminou isso tudo? Você começou sete horas da noite. Que horas terminou?

Sarah Rosa: Dez horas eu fui embora.

Luciano Pires: Dez horas você foi embora. Muito bem. Quê que se passou na sua cabeça quando você estava indo embora para casa? Você tinha acabado de passar algumas horas em que você transou com três caras que você não conhecia. Fez coisas com eles que talvez você não tivesse feito anteriormente. Porque agora você estava fazendo como uma profissional. Não é? E embolsou seu dinheirinho. E tua cabeça? Como é que funcionava tua cabeça na hora de voltar para casa? Quando você chegou em casa e botou a tua cabeça no travesseiro você pensou o quê?

Sarah Rosa: Eu…

Luciano Pires: Porque eu imagino que talvez tenha havido uma revolução. Do tipo, cara… passou minha vida inteira pela minha cabeça, isso aqui que acabou de acontecer comigo é diferente de tudo que eu fui criada, tudo que eu vivi até hoje. Eu acabo de passar por uma experiência, saí com dinheiro na mão e agora vou ter que tomar uma decisão na minha vida. Se isso é para mim ou não é. Como é que você trabalhou? Que loucura foi essa na sua…? Ou tudo bem? Ou você: moleza. Como é que foi?

Sarah Rosa: Nossa. Foi incrível isso, assim, foi surpreendente para mim mesma. Porque eu tinha muito preconceito. Muito preconceito dessas meninas, eu falava supermal, eu achava assim que eram as piores pessoas do mundo. Por causa da crença, tudo, religião. Aquela coisa de preconceito, de falar assim. Desculpa, mas eu vou falar uma coisa assim que não sei se eu devo falar. Mas os cristãos normalmente eles têm aquela coisa de julgamento demais. Tipo assim, as pessoas estão sempre erradas, não vou dizer todos, mas a grande maioria. E aí tinha aquele julgamento, eu cresci com aquele julgamento. Porque qualquer coisa diferente era muito errado. Era uma pessoa banida. Então, assim, quando eu via alguma garota, assim, que eu via que era garota de programa – o jeito de se vestir, ou se estivesse na frente de uma boate, uma coisa assim – eu atravessava para o outro lado da rua para não passar na mesma calçada. Eu falava assim: se um dia eu tiver um cara, se eu descobrir que ele saiu com uma menina dessas, nunca mais eu olho na cara dele. Porque eu tenho nojo. Às vezes eu comentava isso com alguns caras, na época, eles começavam a rir. Achavam. Né? Mas assim, foi tranquilo. Eu encarei tranquilo. Falei assim, porque ela conversou comigo, a dona da casa e falou para mim assim: pensa que são seus namorados. São seus amantes, são pessoas que você conheceu numa balada, que você ficou e que talvez você nunca mais vai ficar. Mas pensa por esse lado. Não pensa no negativo. E aí foi isso que eu coloquei na cabeça e deu certo. E eu cheguei em casa e fiquei tranquila.

Luciano Pires: Você está ouvindo o LíderCast, que faz parte do Café Brasil Premium, a nossa Netflix do conhecimento, que redefine o termo estudar ao transformar o seu Smartphone em uma plataforma de aprendizado contínuo. Para assinar acesse confraria.cafe, de novo, confraria.cafe, lá você conhecerá os planos para se tornar um assinante e ter acesso exclusivo aos bastidores da temporada do LíderCast e a muito conteúdo original. Além disso, contribuirá ativamente para que este conteúdo chegue para muito mais gente gratuitamente, tem um plano lá que custa doze reais por mês, cara, doze reais, uma latinha de cerveja quente. Todo mês esse dinheiro fará com que você nos ajude a continuar crescendo e fazendo com que nossa voz seja ouvida por mais gente, você estará contribuindo ativamente com nossa causa pela da defesa da liberdade e da independência individual. De novo, vem para cá, confraria.cafe. Deixa eu usar um termo que a gente está evitando aqui desde o começo. Mas que têm a ver com toda essa coisa do carimbo e da… de como a sociedade…

Sarah Rosa: Vê as coisas.

Luciano Pires: Vê as coisas. Né?

Sarah Rosa: Uhum.

Luciano Pires: Você botou a cabeça no travesseiro e pensou? A partir de agora eu sou puta.

Sarah Rosa: Pensei. Eu pensei.

Luciano Pires: Isso. Eu quero saber disso sabe. Como é que você…? Esse teu distanciamento moral, que você falou com ela, ela falou: pense que é teu namorado, lalalalá. Te ajudou um bocado, mas eu acho que tem um nó em algum momento que você vai ter que passar por isso.

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: É falar cara: sou sim e daí? E essa carga de preconceito não vai se aplicar a mim porque eu consegui superar isso. É isso que eu queria entender. Como é que funciona isso? A hora que você bota a cabeça no travesseiro e fala: o que eu fiz hoje foi me tornar uma puta.

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Alguém me pagou para eu fazer sexo. E na história da humanidade tem toda uma carga para isso aí.

Sarah Rosa: Tem toda uma carga.

Luciano Pires: Como é que você lidou com isso?

Sarah Rosa: Eu já era distanciada de todos e de tudo, naquele momento eu me distanciei mais ainda. Foi uma coisa automática assim da minha mente, da minha cabeça. Falei assim: gente eu sou puta. Sou prostituta. Né? Falo assim. Porque o pessoal fala. Sou prostituta. Mas eu não quero ficar nisso a vida inteira, eu vou ficar por um tempo, escondido. Ninguém vai saber. E depois eu vou seguir minha vida, vou fazer outras coisas. Eu consegui esconder isso por mais ou menos uns dois anos e meio. Assim, de não falar para ninguém. Sabe?

Luciano Pires: E você continuava trabalhando no salão?

Sarah Rosa: Não. Eu acabei abandonando o salão por que…

Luciano Pires: E ficou só com essa…?

Sarah Rosa: Eu vi que valia muito mais a pena ficar o dia inteiro no privê do que ficar no salão, mesmo para manter as aparências. Porque eu conheci muitas meninas que trabalhavam em firmas, trabalhavam em lugares e iam lá só para fazer bico. Ficava duas, três horas e ia embora. Entendeu?

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Então eu falei assim: ah, vou focar nisso aqui no momento. E foquei. Coisa de acho que três meses depois eu já comprei um Palio. Eu já não tinha dinheiro para comer.

Luciano Pires: Então. Você estava num momento em que você ganhava… você falou que quando você ficou bem você começou a ganhar 1200, 1300, 1400 reais, fazendo unha no salão. Né?

Sarah Rosa: Sim. Por mês.

Luciano Pires: Nessa tua nova função o quê que você tirava num mês?

Sarah Rosa: Eu tirava… eu lembro que era na semana, eu contava na semana, tipo dois, três mil por semana assim.

Luciano Pires: O que dava dois mil. É oito mil por mês. Você sai de mil e pouco para oito mil por mês.

Sarah Rosa: Sim eu atendi, chegava a atender 15 clientes no dia. E tinha maior pique, nossa. E outra coisa, não sentia cansaço, não sentia dor, não sentia nada. Eu assim parecia que nada estava acontecendo. Eu foquei tanto, e fui.

Luciano Pires: Cara, 15 clientes num dia?

Sarah Rosa: No dia.

Luciano Pires: Meu Deus do céu, esse mundo é muito louco para a minha cabeça. É muito para a minha cabeça. Né?

Sarah Rosa: Muito.

Luciano Pires: Mas então. Você pensou uma coisa ali que eu imagino que você deve ter pensado consigo mesma. Muito bem, eu vou ultrapassar todos os preconceitos que eu tinha, vou entrar nessa e vou ficar por um tempo.

Sarah Rosa: Por um tempo.

Luciano Pires: Para juntar um dinheiro.

Sarah Rosa: Sim, e sair fora.

Luciano Pires: Para fazer o quê?

Sarah Rosa: O pé de meia. Eu queria assim, ter um salão.

Luciano Pires: Você queria ter…? Tua meta era essa? Uma hora eu quero ter um salão.

Sarah Rosa: Eu queria ter um salão. E assim, minha família não vai ficar sabendo, ninguém vai ficar sabendo. Então ótimo. Eu ficava a coisa entre eu e eu mesma. Entre eu e Deus, pronto. Só que assim, eu me tornei uma pessoa gananciosa. Eu queria comprar roupa diferente todo dia, eu queria comprar calçado diferente todo dia. Era uma maquiagem, era isso, era aquilo. Eu não foquei assim no meu objetivo. Juntar dinheiro? Poxa, vou juntar dinheiro. Aí eu comprei o Palio que ficou parado, sei lá, uns dois anos. Porque eu não tirei carta. Tentei carta, não deu certo, desisti. Porque eu estava assim, muito… comecei a pensar muito no dinheiro. Sabe? Não pensei nas outras coisas. Aí eu falei assim: poxa, vou pegar umas coisas, vou comprar, vou levar, vou vender em Minas. Desse dinheiro já é um complemento de mais dinheiro. Mas assim, não fui no meu objetivo que eu queria. De montar algo. Né? Aí depois disso eu adoeci, fiquei doente.

Luciano Pires: Mas você guardou dinheiro? Você chegou a guardar um dinheiro ou não?

Sarah Rosa: Não guardei.

Luciano Pires: Você não guardou?

Sarah Rosa: Não guardei.

Luciano Pires: Deixa eu te perguntar uma outra coisa aqui. Depois…? Digamos assim. Depois de três meses que você está nesse trabalho você já é uma profissional. Três meses você já pegou a manha. Já é profissional. Você estava curtindo o que você fazia? Era uma curtição? Você gostava?

Sarah Rosa: Eu estava curtindo.

Luciano Pires: Você estava gostando?

Sarah Rosa: Eu estava gostando já de trabalhar, estava gostando. Eu tinha clientes bons. E por incrível que pareça, era um modelo de cliente que tinha ali na Praça da Árvore. Japonês, a maioria. E eu fiz uma carteira de clientes que não tinha apresentação, eles chegavam e me procuravam. Quero a Sarita, quero a Sarita. Aí as meninas começaram a brigar comigo lá, assim, implicar, procurar no GPGuia, se eu estava fazendo sem camisinha, se eu estava… o quê que eu estava fazendo a mais que estava tendo tanto cliente. E nem eu também entendia. Só sei que vinha. O tempo todo. E aí isso que foi legal, o cliente foi legal, o primeiro. Os dois outros, eram dois japoneses, que foram supercarinhosos. E por isso que eu continuei, e a maioria naquela época era japonês. Claro que foi mudando os modelos de cliente. Mas foi uma das coisas que fez eu continuar.

Luciano Pires: Tá. Você está fazendo parecer que é fácil.

Sarah Rosa: É

Luciano Pires: Você está fazendo parecer que aquele pessoal que fala que as mulheres da vida fácil estão certos. Né? Eu não sei se é fácil. Você que pode me dizer se é fácil ou não. Por que… vamos lá de novo, eu não consigo me colocar no teu lugar, eu não consigo imaginar uma fila de homem chegando e eu entrar num lugar e transar com toda a intensidade com esses caras. Mesmo que seja fingindo. Mesmo que seja fingindo, mas tem ali uma… cara tem alguém entrando em você pô. Né?

Sarah Rosa: É. O tempo todo. Desconhecido né?

Luciano Pires: Então. E como é que você lida com esta questão? Sabe, tem uma questão moral nessa história toda aí. Isso não te incomoda? Você se projetou algum momento lá na frente daqui a X anos – quando você estiver casada, você estiver com filhos e tudo mais, e você vai ter esse teu passado inteiro – isso está trabalhado na sua cabeça? Você consegue enxergar isso como: é um momento, é uma passagem, é um caminho para alguma coisa? Como é que…? Você nunca pensou nisso?

Sarah Rosa: Olha. Eu pensava, mas depois eu falei assim: ah, minha família já sabe, todo mundo já sabe. Porque eles ficaram sabendo através de filme. Porque eu não tinha contado. Aí eu falei assim: então vou seguir em frente, até onde der. E não penso no passado. Que, por exemplo, se eu casar, ter filhos, ah, é o meu passado, não vou ter vergonha dele. Eu acho que eu encaro as coisas da melhor forma possível. É o que eu sou, é o que eu vivo. Então não vou fugir isso.

Luciano Pires: Quando foi isso? Quanto tempo faz que você começou lá na agência… Praça da Árvore? Quanto tempo faz isso?

Sarah Rosa: Tem cinco anos.

Luciano Pires: Há cinco anos.

Sarah Rosa: Cinco anos.

Luciano Pires: Não é tanto tempo assim. Né? Você já estava madura, você já era uma mulher madura quando você começou.

Sarah Rosa: Estava nos 30 anos já.

Luciano Pires: Tá. Ela começou madura. Né?

Sarah Rosa: Comecei madura.

Luciano Pires: Tá. Como é que o…? Cara eu tinha tanta pergunta.

Sarah Rosa: A gente vai perdendo né?

Luciano Pires: É. Fico curioso para…

Sarah Rosa: Eu também vou me perdendo.

Luciano Pires: Não. Mas eu fico curioso para entender isso. Porque você – de novo – você faz parecer que é fácil, sabe. Dá impressão que é fácil. Você falou, até um momento aí você falou: pô, esse era o lado bom. Né? Mas cara, como é que você lida com o risco? Sabe. Com o medo? Sabe. Tem alguém que você não conhece. Que entrou lá, que vai estar com você sozinho num lugar. Pode ser um maluco, pode ser alguém violento, pode ser alguém doente, pode ser alguém… têm mil opções de riscos aí. Você lida com isso tranquila? Como é que você se garante. Sabe. Para esse tipo de…? Hoje você não está mais em privê? Você não atende mais em privê?

Sarah Rosa: Não. Particular só.

Luciano Pires: Você é particular?

Sarah Rosa: Particular.

Luciano Pires: Mas e enquanto você estava num privê até entendo, você está num ambiente que…

Sarah Rosa: Tem proteção.

Luciano Pires: Se acontecer alguma coisa você tem uma proteção ali. Né?

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Quando você é particular é diferente né?

Sarah Rosa: É outra história.

Luciano Pires: Mas como é que você lida com isso? Com essa coisa de imaginar que tem um risco? Sabe? Tem alguém que eu não conheço, vai chegar aqui e nós vamos nos trancar durante uma hora em algum lugar e…

Sarah Rosa: Sim. É. Eu acostumei com esse risco. Né? E perdi o medo. Sinceramente eu não tenho medo, nunca tive. De acontecer algo. Sempre encarei assim, na maior naturalidade. Não que eu não tenha corrido risco, já corri risco sim.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: E consegui sair.

Luciano Pires: E deve saber de histórias de colegas que tiveram problemas e…

Sarah Rosa: Com cliente.

Luciano Pires: Com cliente.

Sarah Rosa: Que foram assassinadas, tudo.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Por clientes. Não só ter apanhado, mas assassinadas.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Eu vivi uma história dessas, estava na praia – fui atender um cliente lá – e ele veio para cima de mim, ele pegou meu celular. Ele começou a cheirar muito. Foi quando, foi na época que eu usei drogas, que eu comecei a usar drogas. Né? Foi ali que eu comecei a usar drogas. E ele pegou meu celular, deslogou todas as minhas redes sociais. Tirou Instagram, Facebook, WhatsApp, tudo. E ficou com o meu celular na mão dele. E ali eu percebi que ele já estava com uma má intenção. Não tinha como eu falar nada com ninguém, avisar ninguém, nada. E ele não deixou eu pegar meu celular, e ele começou a cheirar muito e falou que não ia me pagar, porque eu não tinha recebido dinheiro antes. E ali eu já estava com ele por horas ali, e ele me forçou a usar drogas primeiro. Forçou mesmo, ele falou assim: você está comigo, você vai ter que usar e pronto, acabou. E aí eu comecei a cheirar, foi na época que eu comecei a usar cocaína. E eu peguei gosto, fiquei cheirando com ele ali o dia inteiro, peguei gosto e fiquei por um tempo usando droga, na verdade. Cheguei ao fundo do poço.

Luciano Pires: Cara você desceu até, sabe, se a sociedade tiver uma beiradinha você foi para a beirada da beirada. Porque você estava se prostituindo, consumindo droga. E uma coisa é eu imaginar você fazendo isso, mas o ambiente onde você está, que é um ambiente que tem que aceitar isso. Tem que aceitar a droga, portanto quem está em volta, não vai ter ninguém ali para te dar a mão, falar: vem cá, vamos sair dessa. O pessoal está junto nessa. E isso é um crescendo. Né? Te joga numa situação que se bobear você não sai mais dela. Né?

Sarah Rosa: Não sai mais dela.

Luciano Pires: E aí?

Sarah Rosa: E aí, com esse cara, o que aconteceu? Ele chamou um táxi e falou assim: a gente vai sair daqui, e você vai sair quietinha, você vai sair comigo. Você vai sair daqui comigo. E daqui a gente vai para outra praia, a gente vai para um lugar distante. Falou bem assim: você vai comigo. E aí eu falei assim: pronto, esse cara vai me matar. E aí eu falei: não, não vou. Ele falou: você vai sim. E me pegou pelo pescoço. Falou assim: se você falar que não vai, eu vou te matar aqui mesmo. E aí eu saí com ele. Saí com ele no táxi e quando parou no farol eu abri a porta do táxi e saí correndo, e fugi, consegui fugir. Então ali eu me salvei, porque eu tive uma percepção de fugir, de sair do carro e porque Deus também me ajudou. Porque se ele estivesse armado ele tinha atirado em mim.

Luciano Pires: Sarah, como é que Deus faz parte dessa vida?

Sarah Rosa: Olha. É uma coisa muito louca esse negócio de Deus. Porque é uma coisa que a gente não vê, e às vezes a gente também no sente, mas a gente tem uma fé. Eu costumo dizer que não existe religião, existe o que você acredita, a sua fé, não importa se é em Deus, se é em espíritos.

Luciano Pires: Você tem essa fé?

Sarah Rosa: Eu tenho essa fé.

Luciano Pires: Essa fé não é aquela que você foi criada lá atrás.

Sarah Rosa: Não é cristão evangélico não. Não, não é. É uma fé assim, todos os caminhos me levam a Deus, basta que eu acredite.

Luciano Pires: Você frequenta alguma religião?

Sarah Rosa: Eu não frequento atualmente.

Luciano Pires: Você não professa nenhuma?

Sarah Rosa: Eu só tenho assim, espiritualidade, que a gente fala, eu sou espiritualista. Eu gosto de acreditar em tudo um pouco. Né? E eu gosto de todas um pouquinho. Que eu acho todas passam uma… né?

Luciano Pires: Como é que o cinema chega para você? Que eu acho que deve ser uma coisa natural né? Para as meninas que estão nesse meio deve vir convite toda hora para o cinema.

Sarah Rosa: Sim. Então, essa casa que eu trabalhei na Praça da Árvore, marcou muito, porque tudo aconteceu através de lá, dessa casa. Eu conheci um cliente lá, que ele conhecia um ator pornô, e ele passou o meu contato para o ator e passou o do ator para mim, e o meu para o ator. Só que eu não chamei, porque eu fiquei na dúvida, vou ou não vou. Embora eu tinha um sonho de ser famozinha e tudo. Mas será que? Vou ficar muito exposta, minha família vai ficar sabendo, alguém vai ver. E aí eu fiquei pensando por muito tempo. Ele me chamou, aí ele pediu fotos, eu mandei, mas não decidi. Aí teve um dia que eu falei: quer saber, eu vou lá conhecer.

Luciano Pires: Quanto tempo faz isso? Três anos, o quê?

Sarah Rosa: Olha foi logo depois. Foi logo depois, foi assim, aconteceu meses depois que eu já estava trabalhando de acompanhante. Só que a fama veio bem depois. Isso foi há quatro anos e pouco, quatro anos. Foi um ano depois que eu era acompanhante. E aí eu fui fazer um teste para eles, na época fazia teste para as Brasileirinhas, hoje em dia não, hoje em dia é mais fácil de entrar. E eu fui para a praia fazer um teste com um produtor de fetiche. E aí eu passei no teste.

Luciano Pires: Bom, vamos lá. Até agora você está numa atividade que na maioria das vezes deve ser você e uma pessoa trancada num quarto.

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: Na maioria das vezes.

Sarah Rosa: Maioria das vezes

Luciano Pires: Eventualmente tem mais um, têm mais dois, mas a maioria absoluta das vezes são duas pessoas na intimidade. E agora você chegou num lugar onde tinha um iluminador, tinha um cara filmando, tinha um diretor de cena, tinha uma maquiadora, tinha de repente oito pessoas em volta e dizendo para você: vai, transa com o cara aí.

Sarah Rosa: E vai fazer assim, assim e assim. E é tudo técnico né? Esse negócio de técnica, de falar: assim, assim, assim. E falei: ah, tá bom. Aí eu pensei: ah, vou fazer como eu faço no programa, vou ser natural. Vou fazer como se eu estivesse com um namorado, com alguma coisa assim.

Luciano Pires: Sim, mas aí você vai abrir o olho…

Sarah Rosa: Não vou me intimidar com a câmera.

Luciano Pires: Aí você abre o olho e vê oito pessoas te olhando lá. Como é que é? Não dá vergonha, não dá…? O quê que se passa nessa hora?

Sarah Rosa: Eu não fiquei. Sabe o quê que eu penso? Sempre tinha alguma força maior que na hora me ajudava assim, em tudo. Porque eu encarava tudo numa boa assim, como se fosse tudo muito natural. E aí também ali veio aquele frio, aquele medinho, mas na hora que começou a gravar eu encarei naturalmente, e deu certo. Foi a cena que mais fez sucesso. E aí que eu continuei gravando, e continuaram me chamando. Foi assim.

Luciano Pires: E aí de repente então você está fazendo dois, você tem duas áreas de ação agora. Você está fazendo o teu programa e está no cinema?

Sarah Rosa: No cinema. As duas coisas.

Luciano Pires: Bom. Com o cinema a tua arte começa a ser distribuída por aí. Não é?

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Um dia chega nos seus pais.

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Chega um filme lá.

Sarah Rosa: Eu imaginei que assim, um dia eles pudessem saber por alguém. Mas não pensei que fosse tão rápido. Né?

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Mas aí eles descobriram através de WhatsApps. Né? Esses grupos de WhatsApps.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Que meu pai trabalhava numa firma, tinha um grupo de WhatsApp. Né? Meu irmão tinha grupo de WhatsApp. Então as pessoas começavam… mandaram: ó aqui. E aí pegaram um trechinho meu, que eu falava na casa lá, que eu era de Guanhães, Minas Gerais. Aí todo mundo começou a mandar para todo mundo. Que eu era de lá. Olha, tem uma pessoa que é daqui da cidade, que é atriz pornô. Sabe? Começaram com essa. Aí chegava rapidinho. E aí, algumas mulheres – não sei quem – ligavam para a minha mãe, falavam: você tem uma filha vagabunda. Não sei o que. Você tem uma filha puta. Né? E assim, mas nunca falava quem que era. Né?

Luciano Pires: E aí? Esse pessoal veio… a tua família veio tirar você dessa vida ou não?

Sarah Rosa: Não.

Luciano Pires: Não tinham os laços…

Sarah Rosa: Deixaram, naturalmente.

Luciano Pires: Os laços estavam quebrados lá, estavam quebrados?

Sarah Rosa: Estavam, mas assim, também nunca chegaram em mim e apontaram o dedo. Assim. Sempre tiveram preconceito, claro, todos têm. Mas nunca chegaram em mim assim, falar: você é uma vagabunda, você é puta.

Luciano Pires: Até hoje?

Sarah Rosa: Até hoje. Nunca chegaram, nunca falaram. Eu nunca soube também que alguém tivesse falado algo do tipo em relação a esse meu trabalho.

Luciano Pires: Tá.

Sarah Rosa: Aí é isso.

Luciano Pires: E aí os filmes começam a fazer sucesso?

Sarah Rosa: E começa.

Luciano Pires: E você começa… se torna um nome conhecido no meio? Se fala do meio pornô do Brasil seu nome…

Sarah Rosa: Sarah Rosa ficou conhecida. E no fetiche, no mundo do fetiche, que não é brasileiro, é mais exterior.

Luciano Pires: Quê que é o mundo do fetiche?

Sarah Rosa: É outro tipo de público. Normalmente quem gosta do pornô, não gosta do fetiche. Porque assim, são coisas diferenciadas. Coisas bizarras. Não só coisas naturais, mas coisas bizarras também, como chuva marrom, chuva prata.

Luciano Pires: É. Não, eu não vou entrar em detalhes aqui. Eu não vou entrar em detalhes aqui, mas…

Sarah Rosa: É diferente.

Luciano Pires: Não. Mas eu fico – de novo – eu fico… essa tua naturalidade com que você trata isso aí me dá impressão… deixa eu ver se eu consigo… sabe, é como aquele… é como o cara que trabalha num… eu não quero ser… um cara que trabalha num Pronto Socorro e chega alguém todo arrebentado, e o cara olha para aquilo e fala: cara isso é a coisa mais natural do mundo. Esse cara todo arrebentado, com as tripas saindo de fora, eu trabalho aqui, é meu trabalho, é a coisa mais natural do mundo. E se eu olhar uma cena daquela eu desmaio, eu caio ali. Mas para ele aquilo se torna uma coisa natural. E a gente olha e fala: pô esse cara não tem coração? Como é que é isso? Não. Ele se adaptou ao trabalho e aquilo para ele é o normal. Entra um cara com o olho caído, meu trabalho é esse, eu vou tratar dele normalmente. Então ele não sente o impacto emocional porque ele criou uma armadura emocional para isso. Você parece que criou uma também, então para você é tudo bem. Mas tudo bem mesmo?

Sarah Rosa: Tudo bem. Tudo bem. Assim, eu tive muitos momentos assim, que eu parava assim, ficava meio triste, não falo… e também ao mesmo tempo deprimida assim, pensando sobre tudo isso. Às vezes quando eu ficava sozinha, a maioria das vezes eu estava sozinha. Às vezes eu mesma não queria amizades, não queria estar próxima das pessoas, que eu ficava pensando no julgamento delas ao meu respeito. Inclusive na escola de dança tinham pessoas conhecidas que me julgavam que falavam mal. Entendeu? Então eu afastava de todo mundo. Porque as pessoas começaram a saber que eu era, assim, por causa do pornô. E muito exposta nas redes sociais, essas coisas. Então ficou muito complicado. Mas de dois anos para cá, que eu, assim, que eu fiquei realmente conhecida assim. Hoje em dia eu não consigo andar na rua, no meu bairro, assim. Por causa de assédio, os caras ficam parando, os caras querem perguntar alguma coisa. Ah, você é fulana?

Luciano Pires: Então, isso que eu ia te perguntar. Quer dizer, chegou a fama que você sonhava quando era menina lá atrás. Né?

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Sou famosa, de certa forma sou uma modelo, sou conhecida, sou famosa, saio na rua as pessoas me assediam. É um assédio bom?

Sarah Rosa: Não. Eu assim, a gente acaba não tendo mais vida. Porque, poxa, não posso andar naturalmente mais na minha rua, não posso dar uma volta com o cachorro. Não posso fazer nada que as pessoas ficam abordando.

Luciano Pires: Então, isso eu entendi que tem uma incomodação da abordagem. Mas eu quero entender o seguinte, uma coisa é alguém chegar para você e falar: cara te admiro, você é linda, assina para mim aqui. Que legal, pô que bom estar com você. Adorei o que você fez. Isso é uma abordagem que por mais que te incomode, pô, tem alguém aqui que gosta de mim, está sorrindo para mim que está me dando boa energia. Isso é uma coisa. E tem outra abordagem que chega e fala: pô é puta. Eu vou ganhar essa mulher.

Sarah Rosa: Eu vou lá porque é fácil.

Luciano Pires: Já vou lá porque ela é fácil? Né?

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Esse tipo de abordagem acontece?

Sarah Rosa: Acontece, muito, muito. Porque eles pensam assim: ah, um a mais, um a menos, para ela não faz diferença. Ela fica com muitos, ela é puta. Então é uma vagabunda qualquer. Eles pensam assim. Então o tipo de abordagem é muito agressivo. Agora, falando dos fãs, que é o que você falou, que: “ah, eu te admiro”, “gosto do seu trabalho”, são pessoas legais, são pessoas boas. É o que eu queria. Reconhecimento, de fã. Não assim, sendo abordada na rua por algumas pessoas que são grosseiras. Tem um diferencial aí.

Luciano Pires: E essa tua exposição, dessa tua intimidade? Você expõe tua intimidade de todas as formas.

Sarah Rosa: De todas as formas.

Luciano Pires: Não tem mais o que mostrar ali.

Sarah Rosa: Não tem.

Luciano Pires: Não tem mais o que mostrar ali. Tudo bem? Vergonha não faz parte da tua…? Ou você tem uma chavinha que você desliga isso?

Sarah Rosa: Não. Na verdade, eu tentei seguir religião. Assim, tentei me acalmar com essas coisas. Mas eu vi que tem muito preconceito dentro de uma religião, de uma coisa fechada. As pessoas têm preconceito também. Então eu preferi ficar meio que afastada mesmo, meu mundo assim. Sabe? Fazer minhas orações, eu e Deus assim. E viver em paz.

Luciano Pires: E as meninas que são suas colegas? Não tem um grupo que…? Vocês sofrem o mesmo tipo de pressão, o mesmo tipo de preconceito. Acho que deve ter uma concorrência ali, sempre tem. Mas vocês vivem o mesmo tipo de situação, de problema ali. Isso não é uma alternativa para você? Sabe. Pô, eu vou esvaziar a cabeça com as meninas que sofrem como eu sofro. Tem um grupo de amigas, a gente se encontra, faço um churrasco na minha casa no final de semana, elas vêm aqui para tomar um chá. Existe esse lado na tua vida? Com elas que entendem o que você faz?

Sarah Rosa: Ah, que me dera. Seria bom se existisse, seria muito melhor.

Luciano Pires: Elas não são unidas? São desunidas? O quê?

Sarah Rosa: São desunidas, falsas, mentirosas e faz de tudo para puxar o seu tapete o tempo todo. Todas assim praticamente. É difícil ter uma que você possa confiar.

Luciano Pires: Você não tem uma amiga? A tua melhor amiga? Sua melhor amiga?

Sarah Rosa: Do pornô eu tenho uma amiga. Eu considero minha amiga.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Até agora assim, não tive nenhum problema assim. Né?

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Mas em geral, num todo, não. Não são unidas. Não tem como. É bem perigoso matar você sendo sua amiga ali. Que é o que já aconteceu. Tem acontecido aí. Mas então não pode confiar nessas pessoas, infelizmente. São as que menos pode confiar. A gente não pode julgar a todos, mas eu não tenho coragem.

Luciano Pires: Você não pode generalizar.

Sarah Rosa: Não pode.

Luciano Pires: Mas, como é que é? Cachorro que foi mordido por cobra tem medo de linguiça. Imagino que você deve ter passado algumas experiências aí que são complicadas. Vem cá. Você está com 39 anos?

Sarah Rosa: É. Estou com 39 agora.

Luciano Pires: Daqui a pouquinho a idade chega. E essa tua exuberância da atriz vai… você não vai conseguir vencer a idade.

Sarah Rosa: É. Não vai.

Luciano Pires: O quê que vai acontecer na sequência?

Sarah Rosa: É. Eu estou preparada. Assim, eu não tenho mais medo da idade, nem do que possa vir a acontecer. Tá? E também eu não me preocupo assim. Assim, ai, eu… Sabe? Claro, eu quero parar um dia. Lógico. Porque até mesmo a beleza acaba, a juventude, como você falou. E esse ramo tem prazo de validade. A gente sabe.

Luciano Pires: Você faz planos para o futuro? Você tem planos?

Sarah Rosa: Eu tenho.

Luciano Pires: Onde é que você se vê daqui a 10 anos?

Sarah Rosa: Ai, eu gostaria muito de ter uma marca. Sabe? Com o meu nome. Ter um comerciozinho. Ao menos uma esmalteriazinha.

Luciano Pires: Já tem a Daspu. Não tem?

Sarah Rosa: Ãhn?

Luciano Pires: Já tem a Daspu. Não tem?

Sarah Rosa: Como assim?

Luciano Pires: Você não…? Tem uma marca que eles fizeram. Não tinha a Daslu? Que era uma marca.

Sarah Rosa: Daslu? Ah.

Luciano Pires: Fizeram a Daspu.

Sarah Rosa: Daspu?

Luciano Pires: É. Criaram uma…

Sarah Rosa: É. Vamos ver, quem sabe.

Luciano Pires: Não. Elas criaram, já tem. Isso existe.

Sarah Rosa: Tem mesmo?

Luciano Pires: Existe. Tem, tem um movimento aí que elas fizeram uma marca que era aí, Daspu.

Sarah Rosa: Quem sabe vem a Sarah Rosa mais tarde.

Luciano Pires: Então. Mas você tem essa ideia de?

Sarah Rosa: É. De ter uma marca, tipo uma lingerie da Sarah Rosa. Uma loja on-line, algo do tipo, assim.

Luciano Pires: Quê que você está fazendo para que isso aconteça?

Sarah Rosa: Olha. Eu estou começando a juntar o dinheiro. Que é o primeiro ponto. Né? Que é o que eu estou fazendo agora, mas. Porque sem dinheiro você não faz nada. E depois você estuda sobre o assunto. É isso.

Luciano Pires: Olha. É complicado. Tá? Porque esse aqui é um programa sobre liderança e empreendedorismo. Então eu trago… sentou nessa cadeira aí todo tipo de gente que você pode imaginar. De presidente de empresas a ex-ministro. Ah, sentou alguém que está perto da tua área aí, que é o dono da Bahamas, esteve aqui.

Sarah Rosa: Ah, que legal.

Luciano Pires: Fiz um programa com ele, tudo mais. E eu estou tentando olhar para você, para o teu trabalho como um empreendedorismo, uma empreendedora. Você tem a tua própria empresa, teu próprio produto, você é uma prestadora de serviço. Que presta um tipo de serviço que a gente olha e fica meio… é meio complicado encaixar em algum lugar ali, até porque tem uma carga de preconceito.

Sarah Rosa: Muito.

Luciano Pires: E aí a sociedade… Quando você sai na rua e está caminhando na rua. Você imagina… você caminha imaginando que todo mundo está te olhando?

Sarah Rosa: Sim. Tenho essa impressão. Será que está me reconhecendo?

Luciano Pires: Por quê? Porque você é bonita e é reconhecida, ou porque estão te julgando?

Sarah Rosa: Me julgando. Eu penso, sempre assim. Ah, eu acho que porque me viu da internet, então talvez esteja me julgando. Algo do tipo. E se vem algum cara mexer comigo então, já fico assim meio. Sabe? Não apavorada, mas com receio. Com medo de algo, assim.

Luciano Pires: Você não imagina que um dia pudesse… teria esse lado da fama?

Sarah Rosa: Não, não imaginei que eu pudesse passar por isso. Inclusive já tive uma abordagem do cara insistir, me seguir assim, me perseguir no meu próprio bairro. E aí eu parei de andar pelas calçadas, por ali, mercado, essas coisas. Só saio de carro. Não dá para sair a pé. Não dá para fazer caminhada, nada. Porque tem abordagem. Não sei o quê que eles pensam.

Luciano Pires: É.

Sarah Rosa: Né?

Luciano Pires: É tenso hein. É uma vida tensa.

Sarah Rosa: É uma vida tensa.

Luciano Pires: Tenso, porque você não pode ser você.

Sarah Rosa: Não posso ser eu.

Luciano Pires: Você não pode ser você.

Sarah Rosa: E sempre gostei.

Luciano Pires: Então.

Sarah Rosa: Ponho uma bermuda, saio de chinelo, fico à vontade por aí. Não posso mais, acabou.

Luciano Pires: Tá. E bom. Isso vai ter um tempo, isso vai durar, uma hora vai acabar.

Sarah Rosa: Vai acabar.

Luciano Pires: Isso uma hora vai acabar.

Sarah Rosa: Vai acabar.

Luciano Pires: Então só para a gente encaminhar para o nosso finalmente aqui. Eu te perguntei sobre o futuro. Você me contou um sonho, que parece com um sonho de criança. Ah quando eu crescer eu quero ser famosa. Tá legal.

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Ah, quando eu crescer eu quero ter uma marca. Legal. Bom. Você está construindo uma marca, mas é nova, são dois, três anos. Três ou quatro anos. Que é uma marca dentro de um nicho muito restrito que…

Sarah Rosa: Muito restrito.

Luciano Pires: E tem um tempo de validade, daqui a pouco ela passa e vai aparecer a…

Sarah Rosa: Uma outra.

Luciano Pires: Regina Zé que vai acabar com a Sarah, que vai ultrapassar a Sarah e coisa e tal. Você está de alguma forma procurando alguém para te assessorar nisso? Você falou: vou ter a minha rede social. Como assim? Sabe. Tem um lado empreendedora aparecendo aí? Sabe. Do tipo, vou trabalhar para que as coisas aconteçam. Ou é só sonho? Você falou: estou guardando dinheiro. Tá. Guardar dinheiro é um pedaço, terei dinheiro. Agora eu tenho que ter a técnica para fazer, eu tenho que pensar, eu tenho que ter o marketing dessa mídia.

Sarah Rosa: Alguém que tenha o conhecimento.

Luciano Pires: Tem que ter marketing para isso. Tem que ser… eu vou pensar na minha rede social eu tenho que pensar na rede, não é só botar minha rede lá e botar fotinho fazendo caras e bocas. Sabe. Tem todo um trabalho sendo feito lá. Você não tem…? Você não mexeu em nada para…?

Sarah Rosa: Não. Não fui atrás ainda disso.

Luciano Pires: Quero construir a marca. Você não…?

Sarah Rosa: Só pensei. Falei: seria uma ótima ideia. Mas não saiu disso assim. De procurar alguém, conversar sobre. Não. Estou falando isso agora aqui.

Luciano Pires: Tá. E o coração?

Sarah Rosa: Está tranquilo.

Luciano Pires: Você lidou bem. Você tem… você teve companheiros? Tem companheiro? Você tem… você está levando uma vida mais tranquila? Você está sozinha? Como é que você está?

Sarah Rosa: Estou. Eu estou num relacionamento, união estável, que fala. Quando você não casou no papel, mas você está morando junto. Estou com uma pessoa. É.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Sim. E está dando certo assim. Né? Eu posso falar um pouquinho sobre?

Luciano Pires: Claro. Por favor.

Sarah Rosa: Então, eu conheci ele trabalhando.

Luciano Pires: É um cliente?

Sarah Rosa: Era um cliente.

Luciano Pires: Era um cliente.

Sarah Rosa: E aí se tornou meu marido, assim. Claro, ele também não quer que eu continue nisso, ele quer me ajudar a arrumar alguma outra coisa para fazer.

Luciano Pires: Quanto tempo faz isso?

Sarah Rosa: Que eu estou com ele? Fez um ano e meio agora.

Luciano Pires: Um ano e meio.

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: E ele lida bem com essa…?

Sarah Rosa: Nem tanto assim.

Luciano Pires: Com os vídeos, com os vídeos do YouTube lá?

Sarah Rosa: Não muito. Rola umas crisezinhas de ciúmes, de briga, mas é coisa de casal. Não consegue lidar 100%. Né?

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Ninguém consegue. Né?

Luciano Pires: Sim. E vocês estão agitando alguma coisa para…?

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: Porque ele… para ele apressar a tua saída, sabe, é aquela história, você tem uma máquina girando hoje que está rendendo, está te dando dinheiro para você guardar para cuidar da tua vida e tudo mais.

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: Essa máquina não pode ser desligada amanhã de manhã. Né?

Sarah Rosa: Não pode.

Luciano Pires: A menos que fosse um milionário, fala: para tudo, vem viver comigo aqui que eu vou… você não pode desligar a máquina de uma hora para outra. Mas tem que ter um plano. Vocês não conversaram sobre um plano?

Sarah Rosa: Na verdade ele é analista de sistemas, ele está com um projeto de programação, trabalhar com programas, essas coisas.

Luciano Pires: Ele e você trabalhando com programa. Olha que interessante.

Sarah Rosa: É. Então. Programação. É. Está vendo?

Luciano Pires: Os dois trabalham com programa.

Sarah Rosa: A mesma palavra, programa.

Luciano Pires: Isso aí. Tá bom.

Sarah Rosa: É. Eu estava fazendo faculdade, só que aí veio o Covid-19, fechou.  E on-line eu não estava gostando.

Luciano Pires: Você estava fazendo jornalismo?

Sarah Rosa: Isso. Rádio e TV, que também inclui jornalismo. Né?

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Que é a mesma área. E aí eu estou parada por uns meses até voltar ao normal a faculdade. Aí eu retornarei.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Eu só tranquei e volto. Porque eu preciso ter uma profissão, trabalhar em algo, fazer algo.

Luciano Pires: Sim. A hora que passar o tempo de validade você vai fazer o quê? Jogador de futebol vai ser técnico, vai dar aula para criança, etc. e tal. O quê que faz alguém com o teu perfil? Vai ser diretora de filme pornô? Vai ser dona de um privê?

Sarah Rosa: Ai, dona de privê eu já pensei nisso, não te falei.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Não. Eu gostaria sim, de ter uma casa de privê, ou sei lá, uma boate. Gostaria. Até mesmo porque eu já entendo um pouco do assunto, consigo entender as meninas, tudo. Mas eu pensei mesmo em ter uma profissão mesmo, assim. Sabe?

Luciano Pires: Sei.

Sarah Rosa: Agora, dirigir filme de pornô, ser produtora de pornô acho que não. Só se fosse de filmes.

Luciano Pires: Certo. Deixa eu encaminhar para o final aqui, Sarah. Têm um monte de meninas que estão entrando nessa vida parecida com a sua por pressões parecidas com a sua.

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: Quando eu te pedi para contar como é que foi o começo da tua vida era para entender, saber de onde você vem, quais são as pressões. O quê que levou você? E você contou uma história que é complicada. Sabe. Aquele lance da depressão. Sabe. De não ter recurso, tudo mais. A gente consegue entender que houve um contexto que leva você a tomar essa decisão. E têm uma série de meninas, e eu já ouvi histórias de várias delas. Sabe. Que é aquela que… o próprio Oscar Maroni, eu fiz esse mesmo tipo de pergunta para ele, ele falou: cara conheço uma menina bonitinha, que trabalha no shopping, ganha R$ 1200, R$ 1400 por mês vendendo jeans. E eu trago ela para cá e mostro para ela que ela pode ganhar 1400 num final de semana e o que ela vai ter. Então tem uma compensação, tem uma compensação monetária, mas que moralmente é uma confusão. O negócio é confuso. Eu sei que muita gente pode olhar para isso e falar: cara eu vou querer seguir nesse caminho porque vou fazer como a Sarah fez, eu vou entrar, vou ficar um tempo, vou fazer meu pé de meia e depois vou cuidar da minha vida. Né?

Sarah Rosa: É.

Luciano Pires: Pega a tua experiência aí e imagina que têm umas meninas assim, te ouvindo aqui agora.

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: Que recado você passa para essas meninas? Eu não quero que você doure a pílula, você tem uma responsabilidade agora. Tá?

Sarah Rosa: Sim.

Luciano Pires: Você está falando por meninas que estão olhando você de longe, quero ser famosa que nem ela, vou entrar nesse caminho porque deve ser fácil ganhar muito dinheiro.

Sarah Rosa: Não é fácil.

Luciano Pires: Quais são?

Sarah Rosa: É rápido o dinheiro, não fácil. Então, o caminho é realmente ter cabeça e juntar realmente dinheiro, e ter um projeto, um foco em algo. Porque se você for cabecinha, querer comprar roupa, calçado, isso e aquilo, ficar por aí curtindo o dinheiro, não vai chegar a lugar nenhum. Como eu também não consegui ter nada. Por causa disso, porque eu realmente não foquei, eu saí do foco. Porque sobe para a cabeça. A gente não tem dinheiro, de repente a gente começa a ter dinheiro. E aí a gente não sabe o que fazer com o dinheiro. Então realmente se a pessoa tiver foco, ter um objetivo, tudo que entrar eu vou tirar pelo menos 50% e guardar para esse objetivo. Aí a pessoa vai longe, consegue. Mas se não focar, não consegue. Vai ficar só no sonho, só na imaginação, só na ilusão. Não vai sair do lugar.

Luciano Pires: E o lado negro?

Sarah Rosa: O lado negro. Têm os perigos, é muito difícil, a mulher tem que ser… a menina tem que ser muito forte para enfrentar. Muitas situações têm que dar de louca, muitas vezes eu dei de louca. E assim, de começar a gritar, de começar. Sabe? A dar pití, para assustar as pessoas. Né? Você tem que dar uma de louca, você tem que ser louca. Porque senão você não consegue, senão você não vai durar seis meses e vai embora dessa para outra. Então tem que ter muito cuidado, tem que ter cuidado com a… todos os cuidados possíveis. Tem que ter. Porque perigo corre, e muito. A gente encontra muitos loucos nas noites, nas noitadas, nas boates. Particular também, ainda é pior. Porque você está ali sozinha, não tem uma proteção, segurança, nada. E aí, como é que vai ser?

Luciano Pires: E aí?

Sarah Rosa: Tem muitas meninas que têm cafetão, mas o cara pega 50% do valor da menina, metade. E aí não adianta em nada, a menina não vai sair do lugar, vai trabalhar a vida inteira para o cara.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Então acho que tem que se cuidar, tem que se prevenir realmente. Realmente você está a fim de entrar? Essa é a pergunta. Se você realmente for entrar tem que saber tudo que você vai enfrentar. Porque é um dinheiro rápido, mas também não é fácil. Você pega cara grosseiro que machuca na hora do sexo, cara que não toma banho, que tem mau cheiro. Quer que você faz as coisas que você jamais faria, até com seu companheiro, seu namorado. Tem muitas coisas estranhas que as pessoas não conhecem. Né?

Luciano Pires: Pois é cara. Esse distanciamento, essa madura emocional, esse distanciamento moral eu não consigo entender como é que isso pode acontecer.

Sarah Rosa: É então. É que as pessoas têm ilusão de ser só um sexozinho, papai e mamãe, chegou lá e pronto, o cara foi embora, e deu o dinheiro. Não é assim. O cara que está pagando, a maioria deles, ele quer fazer coisas que nenhuma outra mulher faz. Então eles pagam. Estou pagando. Eles falam assim. Tu tem que fazer o que eu quero. Entendeu? Então às vezes você se sujeita a muitas coisas que você jamais faria. Só para pegar aquele dinheiro ali, naquele momento e ter aquele cliente naquele momento. E se você for fresca demais você não vai ter cliente nenhum. Essa é a verdade.

Luciano Pires: Essa que é a pergunta que eu ia te fazer. Quer dizer, eu imagino que têm níveis. Né? Eu ouvi falar de book rosa, essas coisas todas que tem por aí. E têm níveis, sabe, tem um nível que você pega cliente só com um nível que teoricamente, isso teoricamente, é um cara com mais posses, que teoricamente é mais educado, que teoricamente teria uma outra compreensão. E a gente sabe que não é sempre assim.

Sarah Rosa: Não é sempre assim.

Luciano Pires: Tem uns animais.

Sarah Rosa: Tem uns animais.

Luciano Pires: Que não tem nada a ver com o dinheiro que ele tem no bolso, nem com a educação que ele tem.

Sarah Rosa: Não tem educação.

Luciano Pires: O cara vira bicho. Né?

Sarah Rosa: É. Nem sempre ter dinheiro quer dizer que o cara é educado, às vezes o cara é milionário, mas é um lixo. Entendeu? Te trata muito mal, porque é um cara arrogante.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: E às vezes tem aquele que é superpobre, ganha o salário dele, trata superbem. Então isso é muito de educação também, de pessoa para pessoa. Entende?

Luciano Pires: Vou terminar com uma provocação para você.

Sarah Rosa: Ahãm.

Luciano Pires: Estamos… 2020, estamos em dois mil e… daqui a 25 cinco anos. Estamos em 2045. Sua filha de 20 anos chega para você e fala: mãe eu vou entrar nesse mundo. Quê que você vai falar para ela?

Sarah Rosa: Seria muito difícil, eu acho que ela não falaria, ela entraria escondida como eu.

Luciano Pires: Você descobre que ela está entrando nessa.

Sarah Rosa: É. Vai que eu descubro.

Luciano Pires: O quê que você faria?

Sarah Rosa: Eu conversaria, porque se eu falasse não ela ia fazer do mesmo jeito. Porque adolescente, ou uma pessoa quando quer uma coisa mesmo, dependendo da personalidade, ela vai e faz. Eu ia conversar, ia falar sobre os riscos, os perigos, as doenças, tudo. Aí se ela quisesse seguir mesmo assim eu ia deixar. Ia fazer de tudo para ajudá-la, para ela não precisar disso com eu precisei. Mas se era uma coisa, porque assim, conheci muitas meninas que falavam que gostavam e não precisavam. Que o pai pagava a faculdade. Tinha meninas que tinha emprego.

Luciano Pires: Isso é verdade? Isso é verdade? Faziam porque gostavam e não porque precisavam?

Sarah Rosa: Dizem que sim. E aí, sei lá, eu acho estranho, a pessoa tem condição financeira, não precisa, tem de tudo e ainda faz. Porque ela quer um extra, quer dinheiro a mais. Sabe assim? Essas coisas.

Luciano Pires: Deixa eu te… eu ia terminar com essa aqui, mas eu lembrei que eu passei… atropelei você numa coisa que você falou lá atrás, ficou parado e eu preciso voltar aqui agora. Você falou que você ficou doente.

Sarah Rosa: Fiquei.

Luciano Pires: O quê que aconteceu com você?

Sarah Rosa: Eu, assim, mas não foi doença grave, não foi nenhuma DST. Que eu pudesse ter pegado em programas não. Foi… eu tive problema de rins, tive infecção de rins porque na verdade eu não tomava água. Só trabalhava, trabalhava, trabalhava e não preocupava com minha saúde. Quase não tomava água.

Luciano Pires: Com relação ao teu trabalho você nunca teve problema de saúde?

Sarah Rosa: Nunca. Nunca tive, graças a Deus. Nunca tive nenhum problema. Sempre tive muitos cuidados também em relação a isso. E aí eu tive problema de rins, e eu fiquei gravemente com infecção nos rins. E eu estava… eu já começava a andar torto assim, não conseguia sair, mesmo assim estava lá fazendo atendimento.

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: Mesmo assim doente, continuava. Teve um momento que eu não aguentei, chamei um táxi e fui para o hospital, fiquei internada. Aí falou assim: olha mais três dias você ia morrer. Seus rins não iam ter mais como. Fez exame, detectou…

Luciano Pires: Se você chegar numa festa. Chegou numa festa. Num lugar onde estão as pessoas sentadas lá, qualquer. E alguém bota no telão e começa a passar um vídeo de um filme seu. E a turma começa a assistir o filme tudo lá. Você senta para assistir o filme, legal, como orgulho? Você tem vergonha? Quê que bate em você? Você consegue imaginar?

Sarah Rosa: Eu sairia na hora.

Luciano Pires: Você sairia na hora?

Sarah Rosa: Na hora.

Luciano Pires: De vergonha?

Sarah Rosa: Sim, porque é engraçado. Quando eu estou fazendo os vídeos ali, eu fico muito natural, como se nada estivesse acontecendo. Mas se for para eu parar e assistir eu não consigo. Nunca parei para assistir um vídeo meu, não assisto.

Luciano Pires: Por quê?

Sarah Rosa: Nenhum deles eu assisto.

Luciano Pires: Por quê?

Sarah Rosa: Porque eu me sinto mal quando eu vejo. Falo: nossa sou eu mesma que estou ali? Nossa, que estranho, eu acho tudo muito estranho.

Luciano Pires: Então quero entender o quê que é esse mal. Esse mal que você sente é vergonha do que você está fazendo? É uma sensação de que você está sendo humilhada? É uma sensação que você pode estar fazendo mal e as pessoas vão estar dando risada? O quê que é? O quê que você não consegue ver ali? Você olha para aquilo. Eu não queria estar nessa situação. O quê que é?

Sarah Rosa: É tipo uma opressão assim. Eu fico meio oprimida com aquilo lá. Assim, eu podia ter sido atriz de outra coisa? Não de pornô, de expor o corpo. Porque o que as pessoas falam de mim? Quem me conhece. Olha eu aí, tal. Assim, na verdade eu não sinto orgulho de ver eu transando ali nos vídeos não. Não sinto orgulho mais. No começo podia até ser, tal. Mas depois a gente vai vendo, a gente vai amadurecendo, vai vendo diferente as coisas. Né? Porque eu sei que têm meus irmãos, meu pai, parentes, tios, todo mundo. Que querendo ou não falam sobre isso, mesmo que eu não saiba, mas falam. E aí eu me sinto mal nesse sentido. Por causa da sociedade, família, essas coisas. Então eu não assisto.

Luciano Pires: Sarah, quem estiver interessado em encontrar você, assistir você, fazer um programa com você. Como é que faz? Qual é o contato melhor teu aí? É Instagram? O quê que é?

Sarah Rosa: Nossa. Instagram é difícil eu responder por que são muitas pessoas que me chamam. Então eu demoro muito para responder.

Luciano Pires: Como é o endereço do Instagram? Como é que é? @sarahrosa?

Sarah Rosa: Não. É sarahrosaatrizoficial.

Luciano Pires: sarahrosa?

Sarah Rosa: atrizoficial.

Luciano Pires: Tudo junto?

Sarah Rosa: Tudo junto.

Luciano Pires: sarahrosaatrizoficial.

Sarah Rosa: É. o Twitter também. O Twitter é @sarahrosaoficial, atrizoficial.

Luciano Pires: Tá. Você tem um site também?

Sarah Rosa: Não. Vou fazer, não tenho, mas eu estou no YouTube, e lá, no finalzinho eu coloco meu celular, meu WhatsApp. Porque eu não escondo, né?

Luciano Pires: Tá.

Sarah Rosa: E está lá no Instagram, meu número, no Twitter, em todos os lugares. Tá? Então é fácil de me achar. E eu também estou no site PhotoAcompanhantes, que é de garotas de programa, é um site popular. Podem me achar lá.

Luciano Pires: Olha o quê que eu posso dizer para você? Primeiro que – de novo – a tua naturalidade como você fala faz parecer tudo muito fácil. Sabe.

Sarah Rosa: Tudo muito fácil né?

Luciano Pires: Dá a impressão que é muito fácil, a gente não vê o que aconteceu tudo, então parece que é muito fácil. Sabe.

Sarah Rosa: Parece.

Luciano Pires: Parece que ter esse distanciamento moral que você tem, também é uma coisa fácil. E eu não sei se é fácil. Sabe. Eu não sei quantas têm a força que você tem, para chegar e falar isso tudo e falar, cara está, estou fazendo, vou lá e uma hora isso vai passar. Quê que eu posso dizer para você é o seguinte, se cuida, se cuida.

Sarah Rosa: Sempre.

Luciano Pires: Começa a pensar nessa tua transição. Sabe. Só guardar dinheiro não resolve. Você tem que ter um plano.

Sarah Rosa: Um plano.

Luciano Pires: Você tem que ter um plano. Você tem que ter um plano, e tem que encontrar alguém que possa: ó vou te dar um caminho aqui. Sarah, vamos fazer o site. Quem sabe ouvindo isso aqui, alguém se toca, fala: espera aí, deixa eu ajudar a Sarah a construir essa marca, para ter um canal de saída aí. Né? E cara, obrigado por você ter…

Sarah Rosa: Eu que agradeço. Gostei muito.

Luciano Pires: Vindo aqui, falar de forma tão aberta assim. Sabe.

Sarah Rosa: Gostei muito também do papo.

Luciano Pires: Legal. É um papo comprido aí, mas que… agora a minha cabeça é que está a milhão. Vou tentar botar ela no lugar aqui

Sarah Rosa: É. Porque que nem você falou, não é fácil, muitas meninas se afundam em drogas. Né?

Luciano Pires: Sim.

Sarah Rosa: E…

Luciano Pires: Você saiu? Você começou…

Sarah Rosa: Eu entrei, mas saí. Eu fui forte e consegui sair, têm meninas que não saem. Se afundam e acontecem coisas ruins.

Luciano Pires: Tá bom. Bom. Para você que está ouvindo a gente aqui só vou dar uma dica, eu estou com ela trancado aqui dentro do estúdio, ali fora está o companheiro dela nos assistindo, talvez ele tenha ouvido pela primeira vez essas histórias todas. Né? E toca a sua vida, toma cuidado, use máscara.

Sarah Rosa: Usem máscara gente.

Luciano Pires: E use camisinha.

Sarah Rosa: E use camisinha. Valeu.

Música: “Arranjei uma namorada na banda do norte, hum; A menina era de morte, era bonitinha, hum; Me disse: se quiser fazer amor com ela, hum; Você tem que arranjar também a camisinha.”

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast. A transcrição desse programa é exclusiva para assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium. Lembre-se, confraria.cafe.

Locutor: Você ouviu LíderCast, com Luciano Pires. Mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portal cafebrasil.com.br.