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Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast. O PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. No programa de hoje Marco Antônio Villa. Historiador, professor, comentarista polêmico em rádio e televisão. Um papo delicioso sobre as raízes históricas e o cenário atual do Brasil e, também, futebol. Muito bem. Mais um LíderCast. Hoje é daqueles especiais. Deixa eu contar como que essa figura veio parar aqui. Eu sempre começo o programa contando como é que a pessoa chega aqui. Esse aqui foi um acidente de percurso. Eu estava com ele na minha alça de mira já há um bom tempo, quando um dia, o Patrick Santos me dá um alô: Luciano, eu vou te botar em contato com a esposa dele, porque eles estão pensando em fazer PodCast. Eu falei: cara pode ligar. E eles vieram aqui visitar, batemos um papo, eu falei: só tem um cachê cara. O cachê que eu vou cobrar é entrevistar o bicho. Topa? Eu topo. Então vamos lá. A gente começa aqui com três perguntas, que são as únicas que você não pode chutar. O resto chute à vontade. Essas três não. Eu quero saber seu nome, sua idade e o que é que você faz?

Marco Antonio Villa: Marco Antonio Villa. Tenho 65 anos. Nasci a 25 de maio de 1955, quando o Santos foi, pela segunda vez, campeão paulista. Ficou 20 anos sem ser campeão, de 35 a 55. E eu sou professor aposentado da Universidade Federal de São Carlos. A minha área é história. Lá era o departamento de ciências sociais. Porque os últimos 20 anos – eu fiquei 30 na universidade pública – os últimos 20 foi lá na Federal de São Carlos. Mas lá eram ciências sociais. Mas eu tinha feito mestrado em ciências sociais. Meu bacharelado em licenciatura foram em história, o mestrado em sociologia e o doutorado em história. Então eu dialogava entre a história e a sociologia e um pouquinho também na área de ciência política. Então o período que eu fiquei lá eu dava aula na graduação e também dava aula na pós-graduação.

Luciano Pires: Você nasceu onde?

Marco Antônio Villa: Eu nasci em São José do Rio Preto. Antigamente chamada capital…

Luciano Pires: E começou a torcer para o Santos lá em São José do Rio Preto?

Marco Antônio Villa: É. Porque o seguinte: a minha família, os meus pais são de São Bernardo do Campo. Porque São Bernardo do Campo é uma cidade que foi, até os anos 50, uma cidade de migração italiana, fundamentalmente. Tanto que os meus avôs por parte de pai são italianos e por parte de mãe é um argentino. O meu avô é argentino e a minha avó espanhola. Então, porque era uma cidade que tinha indústria de móveis. Hoje tem. Mas hoje, na verdade, nem é fabricado lá, mas antigamente era. Então os meus avôs paternos vieram da Itália e tinham uma fábrica que era de botão de osso, como era antigamente. E o meu avô materno trabalhava, entalhava madeira. Então, ele veio da Argentina para uma fábrica em São Bernardo e acabou ficando lá. Foi lá nos anos 20. Ele veio em 1920, 1919, depois da guerra. E aí a minha mãe casou em São Bernardo com o meu pai. Aí eles foram para Rio Preto. O meu pai foi abrir um negócio lá. Acabou não dando muito certo. Eu nasci lá. Mas aí volta para São Bernardo. A minha mãe se separa do meu pai. Na época não havia divórcio. Era desquite. E nós éramos três irmãos.

Luciano Pires: Com toda a carga do desquite. Mulher desquitada.

Marco Antônio Villa: Meu Deus… você podia falar qualquer… desquitada… meu Deus. E ela criou sozinha os três filhos. Porque o meu irmão mais velho tem seis anos a mais que eu. O do meio – que faleceu – tem cinco anos mais do que eu. E eu. E aí, em 59, a minha mãe falou: nós vamos voltar para Rio Preto. E abriu um negócio lá. Então ela abriu um negócio, começou a vender roupa.

Luciano Pires: Sua mãe como empreendedora. Virou empreendedora. Desquitada, no interior de São Paulo e empreendedora.

Marco Antônio Villa: Você imagina.

Luciano Pires: Em 1959?

Marco Antônio Villa: Em 1959. Aí começou a crescer o negócio, que ela chamava de butique, na época. E aí criou os três filhos, sozinha, lá em Rio Preto. E também encontrou gente muito boa. Rio Preto é uma cidade que tem gente muito boa, que ajudou minha mãe.

Luciano Pires: Interior de São Paulo. Eu sou bauruense. Fala porta, porco, com orgulho.

Marco Antônio Villa: É. E ajudaram bastante. Aí a minha mãe chegou um momento, em 64, o meu avô, pai da minha mãe, tinha uma loja de aviamentos – que hoje nem existe mais, daquele jeito – em Santo André. Porque depois ele trabalhava como entalhador. Mas ele teve um acidente de trabalho e abriu uma loja de aviamentos. E era a mais importante – certa época – de Santo André. Os alfaiates iam lá, comprar alpaca, uma série de coisas, que hoje é totalmente diferente. Linha, botão, coisa para ombreira, etc. Aí a minha mãe voltou para ajudar então, o meu avô. E aí eu vim para Santo André. E os meus parentes estavam todos em São Bernardo – que é vizinho – então é tudo ABC, tudo junto, tal. E aí eu cresci – eu tinha nove anos –cresci lá em Santo André. E aí gostando muito sempre de futebol. Porque eu já gostava de futebol em Rio Preto. Rio Preto hoje é uma grande cidade, mas na época era um pouco menor. E eu gostava muito do América de Rio Preto. Eu assistia até treino. Porque era uma cidade pequena, o grupo escolar, na época era pequeno, era onde é o Fórum hoje. Aí ia lá no grupo. Voltava para casa, almoçava e falava: eu vou ver treino do América. Era onde hoje é o Atacadão. Antigamente era o estádio Mário Alves Mendonça. Aí ficava vendo treino. Voltava. E adorava sempre futebol. E quando o América subiu para 1ª divisão, era chamada de divisão especial em 64, o primeiro jogo calhou de ser contra o Santos. E ver o Santos, quando você tem oito anos e ver o Pelé.

Luciano Pires: O Pelé…

Marco Antônio Villa: É. Então aí foi durante muitos anos, o maior público do interior. E eu fiquei na porta do hotel para ver todo mundo. E depois fui ao estádio assistir. O América ganhou de 2X1. Até a linha do América era Cuca, Valter Cardoso, Valtinho, Dirceu. Dois gols do Valtinho e o Pelé fez o gol do Santos. E aí depois, quando eu vim para São Paulo –estava em Santo André – aí eu acompanhava muito jogos no Pacaembu. E toda a família da minha mãe; sempre jogavam muito bem futebol, os meus tios, tive um que era um excelente goleiro, foi campeão estadual de jogos abertos, tal. E o outro jogava muito bem na frente. Era um excelente centro avante. Jogava futebol de salão também. E todo mundo era corintiano, eu era o único santista.

Luciano Pires: Você tinha heróis na família?

Marco Antônio Villa: Tinha. Tinha.

Luciano Pires: Com oito anos de idade, adorar futebol e ter um goleiro na família, um jogador.

Marco Antônio Villa: Então? E um dos meus tios – quarta à noite em São Bernardo, ele vivia em Santo André – ele falou assim: vamos ver o Pelé. Aí pegava o Fusca, na época só tinha…

Luciano Pires: E descia…

Marco Antônio Villa: Descia a Curva da Onça, que era perigosíssima, tal. E ia. O jogo era as oito naquela época, oito da noite. Descia, assistia o jogo, pegava o Fusquinha e voltava. E eu vi jogos fantásticos, inesquecíveis.

Luciano Pires: Você sabe que você tem um defeito terrível – que eu tenho também; eu tenho um puta de um defeito – anteontem o Brasil jogou com o Peru.

Marco Antônio Villa: Sim, sim.

Luciano Pires: Eliminatória da Copa do Mundo. Eu só descobri que ele jogou, porque alguém me contou à noite. Eu não tenho a menor ideia do que está acontecendo. Eu nem sei mais quem joga. Acho que o técnico ainda é o Tite. Sou corintiano de frequentar estádio. Não tenho a menor ideia de quem joga no Corinthians hoje. Eu desisti de futebol. Porque eu tenho um defeito fodido, que você também tem: eu vi o Pelé jogar.

Marco Antônio Villa: É. É.

Luciano Pires: Eu vi o Zico jogar. Eu vi o Rivelino jogar. Eu vi esses caras em campo.

Marco Antônio Villa: Em termos de armador mesmo, o melhor que eu vi jogar foi o Rivelino, em sequência. Porque ele começou em 64 no Corinthians, foi até 74, quando houve o episódio da derrota para o Palmeiras. Daí ele vai para o Fluminense. E o segundo jogo dele, ele fez um amistoso – foi 4X1, acho que no Maracanã – contra o Corinthians. E o segundo – que era para pagar o passe – foi no Pacaembu. Eu acabei vendo uma parte, porque era o seguinte: eu fazia economia na PUC. E eu voltava a pé. Eu morava na Rua Antônio Carlos, esquina com a Frei Caneca. Aí eu vinha a pé da PUC, lá da Cardoso de Almeida e cortava pelo meio do Pacaembu. E naquela época, o Pacaembu, aos 35 do segundo tempo, eles abriam os portões.

Luciano Pires: Sim, sim.

Marco Antônio Villa: Então eu passava nesse horário. Aos 30, 35. E eu lembro que eu vi o finalzinho do jogo. Eu sempre dava uma parada lá. Porque eu sempre gostei.

Luciano Pires: E o Rivelino no Fluminense já?

Marco Antônio Villa: No Fluminense.

Luciano Pires: E contra quem que ele jogou?

Marco Antônio Villa: Contra o Corinthians.

Luciano Pires: Não foi esse que ele deu aquele gol? Que ele deu um passe de chaleira. Foi no primeiro ou no segundo jogo?

Marco Antônio Villa: Foi. Acho que foi no segundo.

Luciano Pires: Que ele deu um passe que foi uma coisa impressionante.

Marco Antônio Villa: O Rivelino foi… então, outro dia, eu estava vendo um jogo do Santos agora. Não esse. O anterior. Estava em casa lá. Eu não gosto de ver jogo de televisão sentado. Eu gosto de ver jogo em pé, do Santos. Eu não fico tão irritado. Aí eu fiquei vendo um jogador nosso lá, que voltou, infelizmente, para o Santos. Coitado. É um bom cara, um tal de Pará. Mas ele é muito ruim. Eram passes de três, quatro metros. Aí eu lembrei na hora. Você falou dos jogadores. Eu me lembrei do Carlos Alberto Torres, foi o melhor lateral que eu vi na minha vida, no mundo inteiro.

Luciano Pires: Campeão da copa de 70.

Marco Antônio Villa: Então, eu o encontrei um dia. Eu fui muitas vezes no Jô Soares. Fui acho que sete vezes entrevistado lá. Aí, numa das vezes foi a coisa mais legal. Não foi a entrevista. Foi encontrar o Carlos Alberto Torres. Quando eu vi que ele ia ser entrevistado, eu falei: meu Deus. Poxa Carlos Alberto, posso tirar uma foto? Aí eu fui entrevistado, ele foi. Aí na hora que terminou, demorou o carro dele a chegar. Que ótimo. Aí eu fiquei conversando. E aí ele não podia nem dobrar a perna. Ele falava: você está vendo professor? Eu não posso dobrar a perna. Ele falou: foi o joelho. Grande parte do esporte de alto rendimento, o cara está destruído depois, todos…

Luciano Pires: Sim, sim. Se hoje é assim, você imagina naquela época. O cara jogava de chuteira de couro. Couro cru. Bola de capotão. Na chuva. A bola pesava três, quase dez quilos cara.

Marco Antônio Villa: Eu lembro. E a gente derretia sebo e passava no capotão. Ficava… cara… a casa… minha mãe falava: está insuportável.

Luciano Pires: Sabe que meu pai me conta uma história? Ele fala… meu pai… se você perguntar para o meu pai – ele está com 94 anos – ele te fala a escalação do Guarani de 1940. Ele dá de cabeça tudo. E ele conta a história. Ele falou: naquela época, antes do jogo principal, sempre tinha uma preliminar, que eram os aspirantes dos mesmos times. Então iam jogar Corinthians e Palmeiras, antes tinha. Então você chegava no campo, assistia à garotada jogando. Ele falou: sabe o que acontecia? Os caras compravam a chuteira nova e a chuteira era dura que nem um pau. Os aspirantes jogavam com a chuteira nova para amaciar a chuteira, para depois os titulares jogarem com a chuteira amaciada pelos aspirantes. Você consegue imaginar isso hoje? Eu estava olhando ontem, a minha filha me mostrando a chuteira, que agora fechou com o Neymar.

Marco Antônio Villa: Ele mudou, ele saiu da Nike e foi para a Puma.

Luciano Pires: A chuteira do Neymar, da Puma, custa R$1.200,00. O cara faz moldado para o pé dele. E aí você vai entrevistar o cara, ele diz: ah, estou cansado, porque teve jogo domingo e quarta. E eu estou muito cansado, porque é jogo demais.

Marco Antônio Villa: O Santos chegava a jogar – nas excursões para a Europa e para a África – a cada 48 horas.

Luciano Pires: Pois é.

Marco Antônio Villa: Excursão era fundamental para vim dinheiro para o time na época. Uma vez, eu até falei para um amigo, pesquisador. Ele estava estudando, não sei que aconteceu. Eu falei: veja a importância do Santos e do Pelé nas independências da África negra, tal. Ele achava que era gozação. Ele falava: você está exagerando. Eu falei: cara estuda, você vai ver o que significava chegar o Pelé e o Santos no Congo.

Luciano Pires: Parou uma guerra.

Marco Antônio Villa: Parou uma guerra.

Luciano Pires: Pararam uma guerra para assistir eles.

Marco Antônio Villa: Você não sabe o impacto disso. Eu falei: vai ver e tal. E jogava cada 48 horas. E em todos os jogos precisava estar o Pelé. Porque no contrato…

Luciano Pires: E não tinha avião de primeira classe…

Marco Antônio Villa: Nada.

Luciano Pires: Mete o cara no ônibus lá e vamos embora.

Marco Antônio Villa: É. Os jogos do campeonato paulista, nos anos 60, era ônibus. Para chegar em Rio Preto, 450 quilômetros, quase. Você imagina o que é pegar aqueles ônibus? Então não tinha essa frescura. Mas eu, mesmo seleção brasileira – eu confesso para você: não vi esse jogo, não vi o anterior também – eu perdi a vontade de ver a seleção. Primeiro: eles não têm mais identificação nenhuma com o Brasil. Nós não vemos eles jogarem. Todos se julgam os reis da cocada preta. As respostas são sempre as mesmas. Esse negócio de jogador ter staff é insuportável. Que staff?

Luciano Pires: Outra, descer do ônibus com fone de ouvido. Não dando atenção para ninguém.

Marco Antônio Villa: Isso. Ninguém. Está o repórter lá, trabalhando. O repórter está lá, milhões de pessoas estão acompanhando aquele repórter. Estão vendo pela TV. Não olha. Não fala. Cara qual é a tua?

Luciano Pires: Tem uma série nova chamada The Last Dance, que conta a carreira do Michael Jordan lá no basquete dos Estados Unidos. Assista. É fantástica. Mostra a carreira dele, a vida dele, a carreira dele inteirinha. E ali você entende o que é um ídolo. Como se constrói. O tipo de postura que ele tem. Mas é completamente diferente de qualquer coisa que você puder imaginar aqui no Brasil. E aí você vê o alcance que ele tem do ponto de vista de se transformar numa máquina de influenciar pessoas. Fazer dinheiro. Com todos os problemas. Problema de sacanagem, nego puxando o tapete. Está tudo lá na série. Mas a postura do cara: eu sou profissional. O que ele fazia lá é brincadeira. Hoje em dia se estragou muito isso.

Marco Antônio Villa: É. Eu fico vendo. Eu acompanhava sempre muito a imprensa esportiva. Eu também lia revistas, jornais. Eu acompanhava muito o rádio, TV. Na época era a TV Tupi, que foi a maior parte das coberturas. Então eu aprendi bastante coisa, acompanhava, gostava. Mas aí eu fui diminuindo o interesse. Mesmo hoje, o interesse que eu tenho não é o interesse que eu tinha antes. Claro que, também, eu tenho mil coisas para fazer. Apesar de que eu acompanho.

Luciano Pires: Sabe qual foi meu interesse? Para quê que eu mudei? Mudei para UFC. Agora eu assisto lutas do UFC. Sabe por quê?

Marco Antônio Villa: Não.

Luciano Pires: Porque lá os caras dão o sangue.

Marco Antônio Villa: E dão. Literalmente, mesmo. Eu acompanhava muito o boxe antigamente também. Porque eu gostava aqui no Brasil muito do Eder Jofre, tal, que foi uma coisa fantástica.

Luciano Pires: Foi. Campeão do mundo. Aquela sequência. Você é de uma geração – eu sou um ano mais novo que você – eu nasci em junho de 56. A gente é de uma geração que pegou… a gente nasceu no final dos anos 50 e pegamos o começo dos anos 60. Essa transição – e olha eu me metendo a falar com um historiador aqui – nessa transição da metade dos anos 50 para metade dos anos 60, o Brasil foi campeão do mundo em futebol, foi campeão de tênis, com a Esther.

Marco Antonio Villa: Maria Esther Bueno.

Luciano Pires: Fomos campeão mundial no basquete. A gente foi campeão mundial de boxe. A gente fez Brasília. A música popular brasileira virou uma loucura com a bossa nova lá fora. Tudo isso aconteceu naquele período ali pré…

Marco Antônio Villa: Em 63, O Pagador de Promessa ganhou o Festival de Cannes.

Luciano Pires: Ganhou o Festival de Cannes. Onde você olhava tinha… era uma loucura. O Brasil… ninguém vai segurar isso aqui mais.

Marco Antônio Villa: Esse que eu chamo: os anos dourados. E são anos dourados mesmo. Se você vê, você construir uma capital onde não tinha uma cabana. Em três anos e meio. É uma coisa, uma verdadeira loucura. Mas essa é questão desse otimismo: que dá para fazer; vamos fazer. Não tem estrada. Arruma um jeito. É difícil chegar. Arruma um jeito de chegar. E como isso contamina – no sentido positivo – a cultura, os esportes, a sociedade, a vida das pessoas. Um dos livros que eu escrevi chama-se Quando eu Vim-me Embora: história da migração nordestina para São Paulo. Que é a continuação de outro livro, chamado Vida e Morte no Sertão: história das secas no Nordeste nos séculos XIX e XX. Que eu trabalhei com uma documentação importante, tal. A história da migração nordestina para São Paulo é uma coisa fantástica. Os caras vinham sem nada, com a cara e com a coragem. E aqui educaram seus filhos, construíram uma nova vida. Viraram cidadãos. Porque, para trabalhar naquela época, você precisava de dois documentos: carteira de trabalho e título de eleitor. O título de eleitor era obrigatório. Você precisava mostrar que tinha o título, tal. Imagina o cara sair de lá do sertão central do Ceará, de Quixeramobim. Chega aqui tem que ter carteira profissional. Porque ele não tinha. Ele tem título de eleitor. Ele pode escolher em quem ele vai votar. Aqui não tem coronel não. Aqui ele vota no que dá na telha dele. Aí de uma hora para outra os caras dizem: tem um tal um de negócio chamado sindicato. Mas o que é sindicato? Você tem que estar filiado, não sei que, para isso. Aí tem uma fábrica. Mas o que é fábrica? Aí mostra uma máquina. O cara aprendia na marra, na garra ali e tal. Como que é? É assim, assim. Então nasceu uma classe operária aqui no ABC e na região metropolitana de São Paulo, no sentido mais amplo, os caras aprenderam a ler. Como é isso? Depois, claro, veio o SESI e todo o ensino técnico. Mas foi uma coisa fantástica.

Luciano Pires: Villa, parece que você está falando de outra dimensão. Hoje em dia, ouvindo você, parece que nós estamos falando de outra dimensão. Outro planeta, em outro lugar. Que a garotada que está hoje em dia, aquele cara que nasceu e pegou o Smartphone na mão dele com 16 anos de idade, com 13 anos de idade.

Marco Antônio Villa: Sim, sim.

Luciano Pires: Ele não faz ideia o que é chegar um cara aqui sem título de eleitor, sem saber ler, escrever, para construir uma vida.

Marco Antônio Villa: É. E com um papelzinho dizendo assim: que o primo dele morava em São Miguel Paulista. Ele desce no Brás, onde era a estação…

Luciano Pires: Com aquela cultura deles lá: o senhor conhece o Alfredo? Que Alfredo?

Marco Antônio Villa: Você está aqui numa metrópole. Aí vai lá, bate… finalmente encontra. Porque era assim. Vinha um, aí trazia o outro. Aí vinha o tio, vinha o primo. Vinha a mãe. E se construíram. E o interessante é que entrava por dia aqui, milhares de pessoas. E o que chama a atenção é que não criou tensão social. Nada disso. Aquilo que seria para dar tudo errado; deu tudo certo. Porque dava tudo certo para o país. Porque você chegou, de uma hora para a outra, aprendia uma profissão, entrava, ia fazer, se deslocava. Aí vinham seus irmãos. Aí casava. Aí os filhos iam estudar. E esse sentimento que eu falo sempre, que têm nos livros, nos anos 30, os chamados romances da seca, O Quinze, Vidas Secas, etc., todos terminam da mesma forma: migrando para o sul. E o Sul era São Paulo. Precisamos de uma nova vida. Não dá para ficar aqui. Como diz no final do Vidas Secas, a Sinhá Vitória diz para o Fabiano: eu quero educar os meus filhos. Ela não quer que os filhos sejam iguais a ela, iguais ao marido. Eles querem ser cidadãos. É isso.

Luciano Pires: É o progresso. Eu quero progredir.

Marco Antônio Villa: É. Eu quero progredir.

Luciano Pires: Eu quero progredir na vida. O progresso está lá embaixo.

Marco Antônio Villa: Está lá embaixo. Eu quero estudar. Eu quero ter uma casa. A autoconstrução. A região metropolitana de São Paulo são cidades de autoconstrução. Com a cara e com a coragem. Aí vem o mutirão. Como que eu vou colocar aquela laje? Vamos fazer um mutirão.

Luciano Pires: Villa, eu fiz o projeto Rondon, lá em 1976, eu fui para Irecê, na Bahia, sertão da Bahia. Os estudantes do Mackenzie. Fomos para lá. A gente é despejado lá. E ali a gente fica um mês na região. E visitando uma das cidadezinhas da região, eu estava lá, de repente, a gente foi apresentado para um cara chamado Abcide – era no nome dele – porque se escreve Abcde. Então era Abcide o nome dele. E a gente foi lá visitar e eles estavam construindo uma escola. Uma escola, tijolinho à vista. Toda construída a escola. Entende. Que beleza. E grande. Não era pequenininha não. Era um colégio grande lá. Que legal Abcide. Quem fez esse projeto? Eu. Quem que é o mestre da obra? Eu. Quem está botando o tijolo? Eu. Aqui não tem. A gente se vira. Dá os tijolos, eu faço.

Marco Antônio Villa: E aí tinha coisa é mais complicada: vamos fazer o seguinte? Vamos fazer um mutirão? Faz um almoção aqui para todo mundo. Chama todos os conhecidos, os amigos. E vamos levantar a laje aí. E assim, a cidade cresceu dessa forma. Então isso que é uma coisa fantástica. Quer dizer, o filho vai ter uma vida melhor que o pai. E o neto vai ter uma vida melhor do que o avô. Que dizer, portanto nós tínhamos uma sociedade naquele momento histórico, havia uma evolução efetiva. As pessoas viviam cada vez melhor.

Luciano Pires: E construída em cima do caos.

Marco Antônio Villa: Do caos. Porque era uma bagunça aquilo.

Luciano Pires: Porque não tinha planejamento nenhum.

Marco Antônio Villa: Não tinha nada.

Luciano Pires: Não tinha nada urbano. Não tinha nada disso.

Marco Antônio Villa: Você veja: até chegar lá em São Miguel, tal, a distância que tinha em relação às zonas fabris ou Brás, Mooca; ou os que trabalhavam na zona sul, que era uma verdadeira loucura. Lembrando aquelas ligações de ônibus antigas, Penha/Lapa. Que era a chamada mais antiga, mais longa de ônibus. Pegava trem. Trocava. Não tinha conversa. Tinha condições de fazer a casa lá? Vamos. Tinha problema do loteamento, rolo no loteamento, tinha não sei o que. Aí não tem água. Não tem saneamento básico. Mas vamos montar a casa aqui. A gente vai se arrumando. Vai chegar uma hora que a situação vai melhorar. E era assim. Quer dizer, isso de você construir a sua própria vida. Nós tivemos aqui, Luciano, depois da guerra, da 2ª Guerra, o maior deslocamento populacional no mundo ocidental, foi no Brasil. E deu tudo certo. Porque um deslocamento daquela proporção, de milhões de pessoas, poderia dar tudo errado. Criar uma tensão social, conflitos. Nada. Teve inicialmente problemas de discriminação, disso e aquilo? Teve. Eu, por exemplo, vivi no ABC, sabia. Havia discriminação em relação a baiano. Todo mundo que era do Nordeste era chamado de baiano. O cara podia ser do norte de Minas. Porque o que veio também de gente de Minas Gerais, não está escrito. Normalmente se fala só do Nordeste. Mas veio gente para diabo. Então era tudo chamado baiano. No Rio era chamado de Paraíba. Aqui em São Paulo de baiano. Falava disso e daquilo. Mas os caras foram, enfrentaram, construíram. Edificaram uma nova vida. Estudaram. Então é uma coisa fantástica. E esses preconceitos, ao longo do tempo, também foram sumindo. Foram desaparecendo.

Luciano Pires: E o Brasil se constrói em cima de um caos. Eu quero chegar nesse ponto. Nós temos uma herança que não é uma herança de planejamento. É uma herança de caos. Eu vou até aproveitar para te perguntar.

Marco Antônio Villa: Sim.

Luciano Pires: Eu vou falar uma bobagem aqui agora, você me diz se o raciocínio está correto ou não. De certa forma, quando aparece uma tragédia de proporções gigantescas, como uma guerra mundial, por exemplo, aonde os caras vão e destroem a Alemanha. A Alemanha é reconstruída não em cima do… o caos virou zero. Então eu vou refazer a cidade, eu vou corrigir todas as porcarias que tinham e vou fazer direitinho. O Japão se reconstrói. Então, o caos serviu para uma reconstrução em bases melhores do que o que existia antes.

Marco Antônio Villa: Sim.

Luciano Pires: O Brasil nunca teve esse caos.

Marco Antônio Villa: Não.

Luciano Pires: Ele nunca sofreu um caos desta proporção?

Marco Antônio Villa: Não, não. Nós tivemos problemas. Porque os nossos conflitos militares – excetuando a 2ª Guerra Mundial, da campanha da Itália – foram no século 19, na questão especialmente da fronteira sul, entre a antiga Cisplatina, hoje Uruguai, a Argentina e o Paraguai. Foram, conflitos permanentes que tiveram ali, até com a vinda da corte para cá. Já teve problema da invasão da província Cisplatina, que depois se incorporou ao Brasil. Depois se separou e virou o Uruguai. O Brasil invadiu várias vezes a Argentina. E depois teve o conflito da guerra do Paraguai, de 1864 a 1870. Então os conflitos foram ali. Agora, conflitos depois do século 20, deste tipo, nós não tivemos. Agora, aqui a coisa sempre foi muito desorganizada. Mas a partir de 1930, a revolução de 30 constrói o Brasil moderno. Nós somos filhos de 1930. Até a eleição é em outubro – excetuando esse ano, devido à pandemia – por causa da revolução de 30. Antigamente as eleições eram em 03 de outubro. Com a Constituição de 88 passou a ser no 1º domingo de outubro e no último domingo, segundo turno. O Brasil moderno nasce ali. Nós não tínhamos Ministério do Trabalho. Nós não tínhamos Ministério da Educação. Isso era 1930.

Luciano Pires: Você está falando de 70 anos.

Marco Antônio Villa: É. Muito pouco tempo. Em termos de situação, se a gente compara com a Europa…

Luciano Pires: Pois é. Se você compara com a China, aqui nós estamos falando de cinco mil anos…

Marco Antônio Villa: É.

Luciano Pires: E faz diferença isso?

Marco Antônio Villa: Faz. Até outro dia, eu lembrei, conversando, que o Zhou Enlai, que foi primeiro ministro da China na época do Mao, a situação era época complicada. Ele viajou à Europa. Aí perguntado: o que o senhor acha da revolução francesa de 1789? Ele disse: está muito cedo para eu tecer algumas considerações. Então você imagina.

Luciano Pires: Nós pensamos em milênio.

Marco Antônio Villa: Hoje eu não sei onde é que eu estava. Saí com a minha mulher, vi um restaurante e estava assim: desde 1965. Como se isso fosse… eu falei: eu já tinha 10 anos. Quer dizer, eu acho que eu estou velho mesmo. Mas é que comparado à Europa então, que você tem essa longevidade ou muito mais ainda, a China. Então, nós somos um país muito novo. E que vemos esse momento de grande explosão, em que a gente conseguiu combinar. Que é difícil expansão econômica e uma explosão cultural e no campo dos esportes, etc. e tal, como nunca. Essa história, quando o Stefan Zweig veio para cá fugindo do nazismo e escreveu Brasil, o País do Futuro. Ele acaba se suicidando depois, em 1942, em Petrópolis, ele e a mulher. Mas ele visita o Brasil. As pessoas ficavam impressionadas. Se nós olharmos aqui em São Paulo, em 1954, o 4º Centenário. O 4º Centenário marcou época.

Luciano Pires: O campeão foi?

Marco Antônio Villa: Foi.

Luciano Pires: Muito obrigado.

Marco Antônio Villa: No ano seguinte, em janeiro, 1X1 contra o Palmeiras. Mas as pessoas, até hoje você fala com as pessoas, as pessoas falam: foi incrível o que teve em São Paulo. A chuva de prata. Teve isso, teve aquilo. Os congressos internacionais. A inauguração do Ibirapuera. Tudo isso. Grandes monumentos públicos, tal. Aquele otimismo. Mas era um otimismo que não é aquele otimismo vazio. O cara fala de otimismo, você não vê. Otimismo concreto. Enorme expansão econômica. E aí começa essa coisa, que estava presente já desde o primeiro governo Vargas, a necessidade de conquistar o Oeste. Então se falava muito em conquistar o Oeste, que seria hoje o centro-oeste. Mas ainda não. É um processo que passa a ocorrer depois, já nos anos 70. E, na verdade, é um fenômeno do final desse século e agora, destas duas primeiras décadas, que também é um processo. Até outro dia eu estava falando com um professor americano, Herbert Klein e um brasileiro, Francisco Luna. Eles fizeram um belo livro, Alimentando o Mundo, que é a história então do agronegócio brasileiro. E uma parte dele dedicado a esse processo de conquista do Oeste. Porque a terra do cerrado não valia nada. Era considerada terra vagabunda, que não era nada. E virou essa coisa fantástica, que é uma coisa incrível, esse processo de expansão. E se dá com a cara e com a coragem. Porque você vai lá, compra a terra, chega, planta. Como você tira de lá?

Luciano Pires: Se vira. Bota fogo e derruba isso aí. Porque se você fizer, eu te dou o título da terra.

Marco Antônio Villa: Então, os caras com a cara e com a coragem fizeram aquilo.

Luciano Pires: Eu fiz um trabalho grande com o Orlando Villas-Bôas, fiz um livro com ele, tudo mais. Foi muito legal. Convivi com ele um bom período. E ele contava, ele fazia uma comparação entre a marcha para o oeste do Brasil, com a marcha para o oeste norte-americana. Ele falou: nos Estados Unidos foi trem. Ele falou: então, os caras fizeram a ferrovia, eles primeiro mandaram as caravanas na frente. Mas aí veio o trem. E o trem, onde ele passava, ele deixava algo. Ficava uma cidade.

Marco Antônio Villa: Sim, sim.

Luciano Pires: Ele foi contando: eles cruzaram o continente de ponta a ponta com ferrovias. E aquilo marcou espaço. O Brasil foi avião. Ele falou: o Brasil, um pedaço foi trem. Mas a Amazônia, aquilo tudo, não tinha estrada, não teve ferrovia e foi avião. E o avião não deixa nada, ele falou, deixa uma pista de pouso. No caminho do avião não fica nada.

Marco Antônio Villa: É verdade.

Luciano Pires: Ele falou: então é por isso que o Brasil tem essas imensas lacunas. A gente não conseguiu construir os caminhos que eles fizeram nos Estados Unidos.

Marco Antônio Villa: É. E o papel da aeronáutica antigamente, do Correio Aéreo Nacional foi extremamente importante. Agora, então nós temos coisas que são muito peculiares. Eu sempre brinco – sem dar uma de Policarpo Quaresma lá do livro do Lima Barreto, O Triste Fim de Policarpo Quaresma, que era ultranacionalista, ele queria estabelecer o tupi-guarani como língua – eu acho que um dos grandes problemas nossos é a dificuldade de pensar o Brasil em português. Porque num período se pensava em russo ou em francês, depende do momento histórico, depois inglês. Não saber entender a nossa especificidade. Nós somos um país que têm características… têm coisas que são ruins, mas tem muita coisa positiva. Têm coisas que só ocorrem aqui. Esses relacionamentos pessoais, a pessoa chega, depois de um tempo já está amigo, vem um estrangeiro para cá. Quando a gente vai morar num país fora do Brasil, sempre há uma resistência. Os caras ficam te olhando, na Europa: quem é esse, quem é aquele? O quê que é isso? Aqui não. Aqui, facilitou…

Luciano Pires: Pediu socorro, está todo mundo indo ajudar.

Marco Antônio Villa: Já está todo mundo lá. Essa questão do espaço da casa ser um espaço social. Traz a pessoa para casa. Vem aqui, vamos sentar.

Luciano Pires: Eu trabalhei em multinacional. Trabalhei muito com os americanos, fui para lá e tudo. E uma vez me chamaram porque uma grande empresa de caminhões veio para o Brasil. Eles iam fazer uma reunião do board da empresa, para decidir onde é que eles iam botar a fábrica nova. Se era no Brasil ou se era na China. E me chamaram para ir lá, porque eu conhecia a coisa toda. E eu fui fazer uma apresentação para os caras chamada Doing Business in Brazil. E eu chego lá, está todo o board. E aí eu vou montar. E eu abro a apresentação com um baita PowerPoint mostrando escola de samba. Então eu explico para os caras o que é. Está aqui, o maior espetáculo da Terra. Três mil pessoas. Lindo. Maravilhoso. Conhecem? Claro. A gente conhece. Sabe como que é. Toquei um samba no fundo. Maravilha. Agora eu vou explicar para vocês o que é isso aqui. E aí eu comecei a colocar regras. Eu falei: isso aqui não é uma pessoa se divertindo na rua. Isso aqui é uma competição. Essa competição tem regras. Eles têm que fazer três mil pessoas percorrerem em 70 minutos tantos metros. Não pode atrasar. Não pode adiantar. O samba tem que ser assim. Quando eu terminei de botar as regras todinhas, os caras ficaram olhando um para o outro. Eu falei: vocês pensaram que era diversão? E agora eu vou mostrar para vocês quem faz isso. E aí eu vou com as fotos da favela, falando: isso aqui é uma moradora. Isso aqui é um morador. Esse pessoal não tem diploma. Não tem escola. E no dia certo, na hora certa, eles fazem o maior espetáculo da Terra. Não tem computador. Não tem coreógrafo de Hollywood. Nada. E esse povo faz. Então eu quero mostrar para vocês como é que esse povo, com um propósito claro, motivado e com um mínimo de organização, a gente faz o maior espetáculo da Terra. E aí os americanos ficaram se olhando. Eles não tinham a menor ideia. Eles achavam que aquilo era um bando de gente se divertindo na rua. Quando você põe a perspectiva e fala: não. Se eu trouxer um americano aqui para fazer, ele vai fazer um desfile maravilhoso. Mas não vai ter tesão, não vai ter nada. Isso que tem aqui. Tem coisa que a gente meio que desvalorizou. Nós estamos numa baixa de autoestima terrível.

Marco Antônio Villa: Que é isso. É o oposto desses anos dourados, em que a autoestima estava lá nas alturas. Porque eu acho que quando você tem algumas sucessivas derrotas ou que você tem esperanças que são frustradas, porque você tem sempre esperança. É curioso. Tem até uma peça, um musical dos anos 60 chamado Brasileiro, Profissão Esperança. O pessoal pode ver até no YouTube. Outro dia eu estava revendo. Era concreto o otimismo, com resultados concretos. Mas as pessoas ficam frustradas, porque têm esperança que vai. Agora vai. Aí dá um problema. Agora vai. Então…

Luciano Pires: Mas você quer ver? Quer botar nomes nisso?

Marco Antônio Villa: Sim.

Luciano Pires: Vamos pegar rapidamente.

Marco Antônio Villa: Vamos lá.

Luciano Pires: O Brasil sai. Termina o regime militar. Nós vamos para uma eleição. A primeira eleição é meia boca. Elege-se o Tancredo. Seria o primeiro presidente civil. Todo mundo amando aquilo. E ele morre antes de tomar posse.

Marco Antônio Villa: Na véspera.

Luciano Pires: Aí assume quem? O vice dele. Que vem com o bigodão e lança um plano que ia virar o Brasil de ponta cabeça. E o plano deságua. O Plano Sarney. Vira uma loucura. O Brasil virou uma loucura.

Marco Antônio Villa: Sim.

Luciano Pires: Passa o Sarney, quem é que vem?

Marco Antônio Villa: Aí vem o Fernando Collor. Eleito em…

Luciano Pires: 40 anos de idade. O cara que ia resolver o problema do Brasil. Ele assume. A primeira coisa é aquela tungada no dinheiro da gente. E na sequência, todo o rolo que deu. A gente brocha de novo. Termina o Collor, quem vem?

Marco Antônio Villa: Aí vem o Itamar.

Luciano Pires: O Itamar na verdade foi para tampar o buraco do Collor.

Marco Antônio Villa: É. Aí vem o Plano Real, durante o governo Itamar.

Luciano Pires: E o Itamar foi direitinho…

Marco Antônio Villa: Não. De todos os presidentes, de lá para cá, desde a redemocratização, do Sarney para cá. Eu acho que o tempo vai passando. O Itamar foi o melhor. Porque ele conseguiu, primeiro: fazer um governo de união nacional. Excetuando o PT e o Antônio Carlos Magalhães, todos participaram do governo. Não houve uma denúncia de corrupção. Um ministro, amigo dele inclusive, o Hargreaves, que foi acusado, ele retirou o ministro. Foi feito o inquérito. E o cara voltou 40 dias depois. Então, não houve um caso de corrupção.

Luciano Pires: O maior escândalo foi a moça sem calcinha.

Marco Antônio Villa: Aquela foi terrível. Ela levantando os braços. Aquela foto: o “x” da questão. Aquela foi terrível. Aí vem o Plano Real. Quando vem o Plano Real é uma coisa… todos os outros planos de estabilização fracassaram. Ele era o oposto dos outros planos. Não congelava preço, salários, ativos financeiros. Nada disso. Era uma coisa absolutamente distinta daquilo. Eu até brinco, sempre falo, que eu só tive certeza que ia dar certo quando o Aloizio Mercadante disse que ia dar errado. Porque ele não acertou uma previsão na história. Então quando ele disse que ia dar errado, eu falei: vai dar certo. E aí aquilo deu certo. Nós somos um país tão fantástico – muitos que estão nos acompanhando pode ser que não viram; ou eram crianças; ou alguns se esqueceram – nós convivemos com duas moedas ao mesmo tempo. Caramba.

Luciano Pires: Era uma moeda e uma quase moeda.

Marco Antônio Villa: Uma quase moeda. Então você tinha uma unidade referencial, tal, tal. Você tinha duas coisas ao mesmo tempo. E você tinha na padaria. No ônibus. Nas grandes operações comerciais.

Luciano Pires: ORTN. Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional.

Marco Antônio Villa: Sim. Nós tínhamos a Unidade Referencial de Valores, que era essa questão da transição. E você tinha isso, o que chama a atenção, das grandes transações comerciais, mas tinha na padaria. Em tudo. E deu tudo certo. Nós fizemos a transição. E aquilo que parecia impossível, a moeda voltar a ter valor. Porque é bom lembrar…

Luciano Pires: A ORTN foi antes.

Marco Antônio Villa: Foi antes. Unidade Referencial de Valores.

Luciano Pires: Exatamente. Tanto que o primeiro mandato do Fernando Henrique é fantástico.

Marco Antônio Villa: Sim. O segundo é ruim. O primeiro é bom.

Luciano Pires: Aí aquela coisa desanda, com aquela grande brochada no final do mandato dele, quando vem a reeleição e no dia seguinte o dólar vai parar na…

Marco Antônio Villa: É. Aí dispara. Aí vem a crise da Rússia. Junta a crise da Ásia também. Aí foi bombástico.

Luciano Pires: 98, 99. O bug do ano 2000 na sequência. Que parou o mundo inteirinho.

Marco Antônio Villa: Aí foi…

Luciano Pires: O estouro da bolha da internet.

Marco Antônio Villa: Isso.

Luciano Pires: Eu estou linkando isso aqui para a gente ver. A moçada reclama hoje que nós estamos vivendo uma crise. Eu nasci em 56. Eu não sei o que é viver no Brasil sem crise. Eu não consigo ver a minha história e falar: quando foi que o Brasil não teve crise? Me contaram que o Brasil não estava em crise no primeiro mandato do Lula. Mas depois eu descobri que não era verdade. Aquilo era uma grande maquiagem e a conta chegava lá na frente.

Marco Antônio Villa: Claro. Como chegou.

Luciano Pires: Então, o Brasil vive em crise desde que eu nasci. Portanto, eu acho que crise é a condição de ser brasileiro.

Marco Antônio Villa: Claro.

Luciano Pires: Não adianta chorar: porque está ruim. Como está ruim cara? Nós já passamos por cada uma.

Marco Antônio Villa: Não. E tem que saber conviver. Porque a questão que se coloca. Nós já tivemos – outro dia até falei sobre isso, acho que até escrevi, se não me engano – situações. Tem, por exemplo, se você pegar crise, a maior crise da história do capitalismo nos últimos 150 anos é a crise de 29. A crise de 29, nós não tínhamos à época Banco Mundial, não tinha ONU, não tinha Fundo Monetário Internacional, não tinha OCDE. Não tinha nada. Reunião de Davos. Não tinha coisa alguma, coisa alguma. Nós dependíamos de um produto: café. 70% das exportações brasileiras era o café. Aquilo veio para cá. Foi uma tragédia. Foi em outubro de 29, já no final do ano por lá. E 1930 foi um ano terrível. E calhou de juntar duas coisas: uma crise política, com a sucessão do Washington Luiz. E houve um racha. Porque as eleições… nós somos um país, que durante a república velha teve eleições regulares. Todas fraudadas, mas regulares. Não teve golpe. Tudo transição e tal, desde a eleição do Prudente de Morais. Dali para frente, no final do século 19, até 1930. Aí houve acusações de fraude, etc. na eleição de 30, mais uma vez. Todo mundo fraudou. Getúlio fraudou nos estados que os aliancistas controlavam. O governo fraudou onde controlava também. E o que acabou acontecendo – aí que é interessante – vem a revolução de 30, 3 de outubro. E ele toma posse um mês depois, em novembro, o Getúlio. Você pega uma situação que era uma bomba. Você não tinha um centavo. Dívida externa. Hoje nós não temos o problema da dívida externa, porque é um pouco diferente a questão. Mas dívida externa. O café é bom lembrar, que ele demora para produzir, de quatro a cinco anos. É diferente, por exemplo, do milho. Então, o que você plantou pra caramba em 1925, 1926, você estava colhendo em 30. Então era terrível. Tanto que em 29, o Brasil eu acho que produz 28 milhões de sacas e exporta 14 e fica com 14. No ano seguinte ia ter uma produção semelhante. Ou seja, em dois anos tinha estocado a safra de um. Era uma loucura. Aí vem uma ideia que é genial e aí vem Oswaldo Aranha, que era o Ministro da Fazenda, que é o seguinte: nós vamos comprar o excedente. Queimar o excedente, para fazer um equilíbrio entre a oferta e a procura. Proibir novos plantios. E pagar o que a gente está queimando, para manter a circulação monetária. E ao mesmo tempo, tem uma série de incentivos à produção industrial. A partir dali que você começa a falar realmente que nós temos realmente um desenvolvimento industrial em mais larga escala. E modernizar a estrutura do Estado brasileiro, que é feita a partir de 30. E isso nós devemos à revolução de 30. Complicadíssimo. Nós começamos a sair da crise em 1933, quando os Estados Unidos está no ápice da crise. Em 33, de cada quatro americanos, um estava desempregado. É a depressão. É o momento em que o Roosevelt é eleito no final de 32 e vai tomar posse em 33. Quer dizer, quando os Estados Unidos estão no pior da crise, nós estamos saindo, pelas medidas ousadas que foram tomadas. Muito antes de o Keynes publicar Teoria Geral em 36, apesar de que as ideias deles eram conhecidas do Keynes; nós fizemos uma solução tupiniquim keynesiana aqui e que acabou dando absolutamente certo. Você imagina um país, que: que infraestrutura nós tínhamos em 30? Não vamos comparar com hoje. Vamos dar uma olhada nas cidades. Vamos dar uma olhada nas opções que o país tinha. Não faz muito tempo – quem nos acompanha pode recordar; você lembrou o Plano Cruzado – o Plano Cruzado não é só por causa do congelamento. Mas nós tínhamos problemas de carências básicas. Tinha problema de leite Ninho. Eu tinha um filho pequeno. Sumiu o leite Ninho. Nós tínhamos problema de leite. Faltava arroz. Uma hora faltava o açúcar. Depois tinha o problema do óleo de soja. Hoje não temos carência em nada. Ao contrário, temos abundância.

Luciano Pires: Entramos numa pandemia e não faltou nada.

Marco Antônio Villa: Não faltou nada. Eu lembro que uma vez, num dos livros que eu estava pesquisando, em 1959 – que não existe mais – a Praça Clóvis Beviláqua, junto à Praça da Sé. Tinha toda sexta-feira, manifestação pelo feijão. Porque tinha carência de feijão. E nós tivemos vários momentos. Antigamente eram comuns vendas casadas. O cara só vendia Brahma se vendia o guaraná. E ninguém gostava do guaraná da Brahma, todo mundo gostava do guaraná da Antártica. E aí o cara falava: então eu não vendo a Brahma. Aí o cara ficava com um monte de guaraná da Brahma, que ele tinha que vender. Faltava cerveja. Era comum. Todo carnaval era a mesma história: cadê a cerveja? Tinha problema de carne. Coisas básicas do abastecimento a gente não tinha. Hoje você entra no supermercado, não só você tem produtos nacionais – e a partir do governo Collor, isso vem com a abertura – o que você tem de produtos estrangeiros. O azeite, eu lembro que só tinha um azeite aqui, que era o azeite Maria, antigamente.

Luciano Pires: Sim. Maria sai da lata.

Marco Antônio Villa: Maria sai da lata. Não tinha mais azeite. Não tinha mais nada. Hoje você entra em qualquer supermercado, você põe um monte de tipos de azeite. Então você tem uma abundância de tudo. Nós conseguimos passar por uma pandemia e estamos quase… vamos esperar que uma hora saia disso aí. Apesar de que está difícil. Porque na Europa tem a segunda onda agora. Sem ter problemas de abastecimento. E aí deve-se à revolução produtiva que nós tivemos aqui. E eu lembro, porque essa questão de faltar produtos era uma coisa… até início dos anos 90 do século passado, era algo que estava presente. Isso acabou. Isso é algo que não tem mais. E significa o quê? Que a eficiência nacional conseguiu resolver esse problema. Aquilo que era um problemaço, hoje não é. Ao contrário.

Luciano Pires: Nós temos ilhas de produtividade aqui no Brasil, que são impensáveis.

Marco Antônio Villa: Impensáveis.

Luciano Pires: Eu fiz uma série de eventos lá no interior do Mato Grosso; 6.500 quilômetros eu rodei lá. Mato Grosso, aquele interior, eu fiz 22 palestras lá. E um dia, uma pessoa me contando que foi lá com os americanos. Passearam lá. Três americanos foram visitar as fazendas. Pararam para comer num restaurante. Aí o americano vira para eles e fala o seguinte: eu não consigo entender vocês no Brasil. Vocês não têm estrada. Vocês não têm ferrovia. Vocês não têm hidrovia. Vocês não têm silo. Não tem nem aeroporto. E mesmo assim vocês estão incomodando a gente pau a pau. O dia que vocês desenvolverem isso tudo, nós estamos fodidos. O americano falou: quando vocês resolverem a questão da infraestrutura, ninguém segura esse país.

Marco Antônio Villa: É verdade. A eficiência, nós temos setores de uma incrível eficiência. Essa questão de juntar a criatividade, que é uma característica muito positiva nacional, de enfrentar problemas difíceis. E no caso da produção de grãos, carnes, especialmente, é que é essa questão de como… Mas agora tem sido enfrentado bem. Tem as ferrovias. A saída lá perto do Pará, Maranhão e tal. Saída por ali. Tem a questão da possibilidade da saída pelo Pacífico. A questão aqui embaixo é mais complicada com Paranaguá, Santos. É um velho problema. Mas é incrível. Então, nós conseguimos dar grandes saltos. É que há um descompasso na sociedade. Então você tem áreas – como você destacou – extremamente dinâmicas e inseridas na ordem econômica internacional, dinâmicos, concorrendo com qualquer um e tal. E outras muito atrasadas. Aí o que falta? Aí falta uma questão dentro… antes de decidir fazer história, eu fiz Economia, só que não acabei. Então eu gostava de umas coisas em Economia. Eu tenho conversas semanais com o Delfim Neto. A gente fica conversando e lembrando de umas coisas. Que falta uma eficiência do Estado brasileiro. E durante um momento histórico, quando nós conseguimos ter assim… o Brasil de 1900 a 1980 foi o país que mais cresceu no mundo ocidental. Foi o Brasil. E aí o papel dinâmico do Estado como elemento indutor do desenvolvimento econômico foi fundamental. Mas aí precisa ter algumas coisas: projeto, planos. Planos que se juntem num grande projeto. Nós não temos plano para nada.

Luciano Pires: Você está ouvindo LíderCast, que faz parte do Café Brasil Premium, a nossa Netflix do conhecimento, que redefine o termo estudar, ao transformar o seu Smartphone em uma plataforma de aprendizado contínuo. Para assinar acesse confraria.cafe. De novo: confraria.cafe. Lá você conhecerá os planos para se tornar um assinante. E ter acesso exclusivo aos bastidores da temporada do LíderCast e a muito conteúdo original. Além disso, contribuirá ativamente para que este conteúdo chegue para muito mais gente gratuitamente. Tem um plano lá que custa 12 reais por mês, cara, 12 reais. Uma latinha de cerveja quente. Todo mês, esse dinheiro fará com que você nos ajude a continuar crescendo e fazendo com que nossa voz seja ouvida por mais gente. Você estará contribuindo ativamente com a nossa causa, pela defesa da liberdade e da independência individual. De novo, vem para cá: confraria.cafe. Eu ouvi as tuas discussões na rádio. Você sempre batendo nessa tecla aí. Você imagina que a indústria automobilística teria surgido, se o governo no começo, não tivesse dado uma… quem teria construído Itaipu se não fosse o governo e tudo mais? A visão que eu tenho dessa história é o seguinte: o Brasil é um país eternamente adolescente. E adolescente tem que ter pai e mãe. Você não pode largar o adolescente para ele fazer o que ele quiser. Pai e mãe têm que chegar: opa; espera um pouquinho. Um pouco de ordem. E um dia ele vai amadurecer. Quando ele amadurecer, pode falar: pai, mãe, eu não preciso mais de vocês. Eu vou viver minha vida aqui. Então, há um determinado momento que, se você não tiver essa… que nem um condomínio. Se o condomínio não se juntar para arrumar a entrada, para pintar, não vai acontecer nada. Então, o condomínio tem que existir.

Marco Antônio Villa: Claro.

Luciano Pires: Embora cada um mantenha a sua individualidade.

Marco Antonio Villa: Claro. Claro.

Luciano Pires: Mas o Brasil tem um histórico. Essa incapacidade que a gente tem de planejar todos os elos dessa cadeia toda.

Marco Antônio Villa: E que é complicado. Porque não é fácil. Quando você olha a produção, você olha tudo, você fala: precisa ter o financiamento da safra. Vamos pegar lá. Aí precisa ter isso. Aí você vai somando tudo é um negócio complicado. Então você precisa ter…

Luciano Pires: E você não está falando do Uruguai.

Marco Antônio Villa: Sim. É. Não.

Luciano Pires: Que você dá um pulo e você está…

Marco Antônio Villa: Claro.

Luciano Pires: Você está falando do Brasil. Tudo é…

Marco Antônio Villa: Um país de dimensões continentais. É tudo muito complicado. E o que falta – que nós perdemos o pé também – uma das coisas é isso: falta planejamento. Hoje nós não temos nem Ministério do Planejamento. E o planejamento é fundamental. A partir do governo JK, Juscelino Kubitschek teve o plano de metas. Então você estabeleceu todas as metas durante o quinquênio. O JK falava: 50 anos em cinco. Depois, no governo Goulart teve um plano trienal, que acabou não sendo lá muito bem cumprido, etc., tal. Aí depois vem o regime militar, tem o PAEG, que é do governo Castelo. Aí depois vêm os PNDs – Plano Nacional de Desenvolvimento –são vários. Então, claro que você não necessariamente vai seguir exatamente o que está no plano.

Luciano Pires: Mas a linha mestra tem. A direção tem que estar apontada.

Marco Antônio Villa: Está desenhado. Os investimentos. Tal lugar precisa disso. Porque nós temos coisas, por exemplo, tem coisas assim: energia eólica. Hoje está muito presente no Nordeste. Você tem um parque eólico fabuloso e não tem rede de transmissão. Então você fala assim: caramba isso aqui é um absurdo. O que adianta ter tudo isso? Então, o que falta é isso. Falta essa questão dos grandes planejamentos de grandes gestores. E nós vivemos também um momento – que não é de agora – um momento histórico de carência de lideranças. Porque têm certos momentos da história – em vários países isso ocorre, nós no momento estamos tendo isso agora, já de algumas décadas – de faltar lideranças. Então é isso. E liderança é essencial. Há uma crise geral também, das elites. Isso em tudo: no sentido empresarial, político, intelectual.

Luciano Pires: Porque muita gente lavou as mãos e deixou a coisa rolar.

Marco Antônio Villa: Teve aqueles que eu acho que… Luciano, eu vou falar assim: eu já estou cansado para ser educado. Eu estou cansado disso aqui. Eu vou cuidar da minha vida. Porque eu tenho a família…

Luciano Pires: Mas eu penso isso. Um dos meus livros chama-se Me Engana que Eu Gosto. É o nome dele. E eu conto a história. Eu começo dizendo o seguinte: com 19 anos de idade eu estava na cidade de São Paulo, com o cabelo aqui – acredite ou não – nas ruas, com uma placa na mão, pedindo a volta do irmão do Henfil, pedindo o fim da ditadura. Fazendo barulho, tudo. E eu consegui o que eu queria. Eu consegui, no período de 79 a 80, 81. Acabou a ditadura. Voltou o irmão do Henfil. Teve toda a retomada democrática no Brasil. Eu consegui o que eu queria. E hoje, 40 anos depois, quando eu olho para o Brasil, eu descubro que eu não consegui fazer aquele país que eu disse que ia fazer quando eu consegui aquilo. E aí eu especulo: o que deu errado? Deu errado foi o seguinte: a hora que eu vi que eu consegui, eu virei as costas e fui cuidar da minha vida. E como eu, um monte de gente foi cuidar da vida.

Marco Antônio Villa: Claro.

Luciano Pires: E a gente largou aquilo na mão. Então hoje, alguns dos caras que estavam na rua comigo, com a placa na mão, estão presos, porque são corruptos.

Marco Antônio Villa: Sim, sim.

Luciano Pires: Ninguém olhou para eles. A gente virou as costas. Foi cuidar da vida e o Brasil ficou ao Deus dará.

Marco Antônio Villa: E essa questão de que nós somos um país em que as instituições têm dificuldade de se consolidar. Têm certos países que você tem uma estrutura estatal tão eficiente que você pode pôr o Incitatus, o cavalo do imperador Calígula na presidência, que o negócio vai, a coisa anda sozinha. Porque você já tem um negócio que anda.

Luciano Pires: A minha teoria é a do balde. Eu falava assim: se você tirar a Dilma e botar um balde, o Brasil vai dar certo. O balde. Deixa o balde lá.

Marco Antônio Villa: Agora não. Nós somos um país ainda muito novo, com muitas carências, com muitos problemas muito grandes. Têm problemas que a gente passou a ver nos últimos 20, 30 anos, por exemplo. Falava-se muito da educação pública. É comum as pessoas mais velhas dizerem assim: na minha época – era primário, ginásio, colégio – era muito bom o primário, o ginásio. Era muito bom o colégio. Só que naquela época, 70, depende, 80% da população viviam no campo e 20 ou 30% viviam na cidade. Só que lá no fundão não tinha escola. Esse pessoal que estava lá veio para cá. Se deslocou. Hoje nós temos grandes… hoje o Brasil é um país fundamentalmente urbano. A população rural é pequena. E nós não conseguimos dar conta. Você tem muitas escolas – depende dos lugares – para todos. Não é a questão de não ter vagas. A questão é da qualidade de ensino, que é terrível.

Luciano Pires: Eu vi uma apresentação da Viviane Senna, que ela mandou um trabalho que eles estavam fazendo. E ela mostrou que eles fecharam um estado. Eu não me lembro. Sergipe eu acho que foi que eles fecharam. E fizeram uma experiência lá, que foi muito bem-sucedida. E ela falava o seguinte: a gente tem capacidade de fazer as coisas com tremenda qualidade. O que nós não temos capacidade é de ampliar isso. Então nós temos que fazer uma escolha: ou tem quantidade ou tem qualidade. O Brasil não consegue escalar qualidade.

Marco Antônio Villa: Realmente, ela tem razão. Você tem experiências localizadas que são superbacanas. A integração do professor com a comunidade. Da comunidade com a escola. Boas notas dos alunos. Mas aí também é necessário juntar. Fazer com que esse aluno… não adianta só ele ter boas notas, um bom desempenho escolar, se a economia do entorno não possibilita que ele, ao se formar vai ter emprego. Porque esse é outro problema. Eu conheço um pouco o semiárido nordestino, que eu escrevi, visitei e tal. Aí uma vez eu estava em Canudos, que fica no nordeste da Bahia, uma região que o índice pluviométrico é baixíssimo. Na verdade, todas as vezes que eu fui para lá, eu nunca vi nem um pingo d’água, nem um chuvisco. Eu lembro uma vez que eu estava lá, em dezembro. Eu estava conversando com o pessoal na cidade e tal – têm 13 mil habitantes o município todo, a cidade deve ter 10 mil, nove mil aproximadamente – aí o menino falou assim: hoje é o dia mais feliz e mais triste da minha vida. Eu falei: como é possível? No mesmo dia? Ele falou: mais feliz, porque eu estou me formando no colegial. Eu falei: parabéns. Ele falou: mais triste, porque não tem o que fazer.

Luciano Pires: Não tem o que fazer.

Marco Antônio Villa: Aí quando você pega e levanta os dados do IBGE, cruza com o IDH e vai dar uma olhada, você vê o PIB local. Tem um ou outro emprego da prefeitura, do governo estadual, empregos públicos, são pouquíssimos. Tinha, na época, uma agência do Banco do Brasil, parece que agora acabaram fechando, negócio de assaltos. Esses cangaceiros modernos hoje, que atuam no sertão. Até no interior de São Paulo tem. Que vão e assaltam as cidades. Não tem economia.

Luciano Pires: E aí se o moleque for muito bom, ele vai embora.

Marco Antônio Villa: Ele vai ter que migrar.

Luciano Pires: Ele vai embora.

Marco Antônio Villa: Ele vai ou para cidades médias como Feira de Santana, vindo para cá. Ou para lá Paulo Afonso. Ou se desloca mesmo para Salvador, no caso da Bahia.

Luciano Pires: Agora está acontecendo um fenômeno interessante. A tecnologia permite agora que essa molecada comece a agitar e tem polos de tecnologia em lugares que são absolutamente inesperados. Eu fui fazer um evento em Porto Velho. Teve lá uma Campus Party em Porto Velho. Porto Velho é longe em qualquer lugar do mundo. Fica lá no fim do mundo. E eu chego lá e tem quatro mil moleques acampados lá dentro. Tem moleque fazendo robô. Os moleques todos juntos. Todo mundo conectado com o mundo. Eles estavam lá desenvolvendo software, tudo mais. Então, a tecnologia vai proporcionar que…

Marco Antônio Villa: Isso é uma coisa fantástica. Esse processo de mudança é a mais radical e a mais rápida no tempo, que nós estamos vivendo. Vai ser muito interessante ver o que vai acontecer. Agora, a gente precisa também nessas regiões, o semiárido brasileiro é o mais populoso do mundo, se você tiver um projeto você tem um monte de agências. Mas não adianta falar porque você vê você tem Banco do Brasil, Caixa, Banco do Nordeste, tem a SUDENE, por incrível que pareça existe a SUDENE, tem o DNOCS, Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, tem a EMBRAPA, que a EMBRAPA é fundamental na história do Brasil, todos esses sucessos que nós temos na área da agricultura, especialmente da agricultura, é a EMBRAPA, a EMBRAPA revolucionou. E é uma lição para o mundo, porque a tecnologia que a EMBRAPA tem ninguém tem no mundo. Então precisa fazer um trabalho coordenado dessas agências. E com objetivos a serem atingidos. No primeiro ano, segundo, terceiro, no quarto. Acompanhar, mas precisa ter pessoas que entusiasmem. Não pode ter aquele cara… eu lembro que eu tinha professores na graduação de história, eu trabalhava muito, eu dava aula de história e estudava história – e para trabalhar, para dar aula de história os melhores períodos são de manhã e de noite, à tarde não é um bom mercado – e eu fazia o curso de história, na graduação na USP era à tarde, à noite também tinha, mas eu preferia a tarde porque eu dava aula à noite também. Então eu fazia história e estudava. E eu entrava no CRUSP, que era o restaurante lá que tinha, eu era um dos últimos a entrar, chegava dez para duas, porque eu dava aula no Brás, pegava o Butantã, o Largo da Concórdia lá, o Butantã/USP e tal. E para você pegar a comida lá no restaurante universitário, quando você é um dos – já ela é ruim no começo – quando você é um dos últimos é um horror. Você já sente aquele cheiro, eu era um dos últimos. Aí chegava, tinha um senhor lá que ia virar a catraca, ele sabia que eu chegava dez para as duas. Então chegava lá, engolia a comida, ia correndo dar aula. Começava as duas eu chegava sempre atrasado, duas e dez, duas e… e aí tinha um senhor lá, eu lembro, no primeiro ano ele falava tão baixinho, a sala era grande, com uma falta de entusiasmo que olha, estava na metade do curso e eu não sabia qual era o tema do curso. Aí eu falei: ele está falando do quê? Sabe que eu não sei. Então precisa ter gente que entusiasma. Então, nós precisamos ter pessoas que entusiasmem. Eu estava outro dia falando até para uns amigos, eu falei: imagina você assumir o Governo Federal e falar o seguinte: olha o Brasil tem 30 milhões de analfabetos ainda funcionais, tal. Tem em torno disso, 30/35, isso para ser otimista, porque se você for mesmo e pedir para escrever um texto de 16 linhas – parece que é essa a regra – as pessoas não conseguem. Vamos dizer que tem 30 milhões, que é um número terrível, mas de 10% da população. Se ele falar assim: no final do meu governo eu vou tentar acabar com o analfabetismo, se eu não acabar vai estar muito próximo. Ia envolver todo mundo. É igreja, é sindicato, é empresário, artista, é jogador de futebol.

Luciano Pires: É o John Kennedy dizendo: nós vamos chegar na Lua antes do final do século.

Marco Antônio Villa: Isso, isso.

Luciano Pires: Do século não, antes do final dos anos… da década.

Marco Antônio Villa: Dos anos 60. Dos anos 1960.

Luciano Pires: E aquilo contamina todo mundo.

Marco Antônio Villa: Todo mundo fica entusiasmado, tal, vamos fazer isso. Imagina a alegria da pessoa, saber ler e escrever. Primeiro a questão da pessoa virar cidadã, ela sabe ler, sabe escrever. Isso é um salto na vida dela que não tem preço. Segundo, esse cidadão sabendo ler e escrever ele vai ser um elemento que tem uma produtividade no trabalho muito maior. Puxa vida. Então… e aquilo passa a dar uma nova vida àquela comunidade, ou no bairro onde ele vive, ou na pequena cidade onde ele vive no interior. Então, precisa pessoas que entusiasmem. O JK tinha – o Juscelino Kubitschek – tinha essa qualidade de entusiasmar, tal, de pensar grande, você tem que pensar grande.

Luciano Pires: Eu escrevi um texto quando eu trabalhava na indústria automotiva. Automobilística. Quando a indústria automobilística fez 50 anos no Brasil eu escrevi um texto que depois ficou superconhecido lá que eu falava o seguinte: 50 anos atrás, quando o Brasil já começou a fabricar carros aqui no Brasil, indiano andava a pé, não, chinês andava de bicicleta, indiano andava de elefante e coreano andava a pé. Eram países miseráveis, acabados, 50 anos depois nós estamos importando carro chinês, coreano e indiano para cá, com uma tecnologia muito maior que a nossa. A gente conseguiu em 50 anos, enquanto esses caras evoluíram do pé no chão para uma indústria… a gente conseguiu patinar, patinar e não conseguir fazer a coisa andar. Deixa eu perguntar uma coisa para você aqui agora, é pessoal tua. Porque história? Porque você foi parar em história?

Marco Antônio Villa: Porque eu comecei a trabalhar muito cedo, ainda em Santo André, antes de vir para São Paulo. Era office-boy, na época o pessoal começava a trabalhar era office-boy. Aí vim para cá e comecei a trabalhar numa empresa chamada Themag Engenharia, que projetava usinas, projetou a usina de Ilha Solteira, Água Vermelha, tal. Ilha Solteira no Paraná, Água Vermelha no Rio Grande, e uma série de… tinham três grandes empresas de projetos, era a Hidroserv, que era do Maksoud, a Promon Engenharia e a Themag. Era no Largo do Arouche, depois eles foram para… quando mudaram para Bela Cintra, se não me engano, mas aí eu já tinha saído. Aí era no Largo do Arouche, quase esquina com a Rua Vitória, era um prédio lá, embaixo tinha a loja de tapetes [Peka 00:58:22], e o prédio inteiro quase era da… alugado para a Themag. E aí eu ascendi rapidamente dentro da empresa, naquela época havia um progresso muito grande, o Brasil crescia muito rápido no início dos anos 70, então você era sempre promovido, etc., tal. Aí virei várias coisas lá até chegar a um setor de custo e orçamento, num prazo mais ou menos curto de tempo. Aí eu fui fazer Economia, porque era inclusive uma coisa que se falava muito no momento, Economia era meio moda na época, tal, e aí comecei a fazer Economia, mas aí depois me desinteressei do curso e comecei a participar de umas coisas políticas da época, me desinteressei um pouco do curso. E aí gostava sempre muito de história, queria fazer história, aí eu resolvi deixar o curso de Economia na PUC, fui fazer história na USP. E durante um período eu fazia algumas disciplinas de Economia na PUC, fazia o curso de história na USP e trabalhava, era uma loucura para conseguir encaixar tudo num dia. Mas consegui fazer isso durante um ano acho, no ano de 79, se não me engano. Aí não dava, era muito complicado, tal, e umas outras questões de vida pessoal e eu fiquei só fazendo história. E aí fiquei na área de história e fiz bacharelado, licenciatura, depois fiz o mestrado em Sociologia, o doutorado em história. Comecei a dar aula, primeiro eu dava aula no ensino médio, depois fui para a universidade, fiquei 30 anos. E aí gostava, sempre gostei muito. Antigamente eu gostava de história, gosto ainda, mas hoje não me dedico mais à história da América Latina, eu estudava o México, estive um tempo lá. E aí, depois, nos anos 90 comecei a me dedicar exclusivamente à história do Brasil.

Luciano Pires: Mas você se encontrou na história?

Marco Antônio Villa: Ah, sim, claro.

Luciano Pires: Porque você tem uma memória prodigiosa, que a gente não consegue aplicar isso aí para uma coisa que a gente não gosta de fazer. Você deve ter um tesão gigantesco em história.

Marco Antônio Villa: Sim, gosto, gosto, gosto. Gosto. Sei que… sabia que a profissão era uma área difícil na questão da luta pela sobrevivência, mas gosto, gosto muito, escrevi muito, muitos livros. Gosto. Gostava de dar aula, sempre gostei de dar aula. Depois, outros tempos aí já eram exposições maiores de palestras, de participar de debates. Aí mais assim já nos anos 90, no final dos anos 90 comecei… não, na metade dos anos 90 comecei a escrever muito para jornal. Então escrevi muito para a Folha de São Paulo na parte de resenha, o Caderno Mais que tinha antigamente, escrevi muitas resenhas, tal.

Luciano Pires: Como colunista de opinião ou resenhas de…?

Marco Antônio Villa: De opinião, depois passei para opinião no começo do século. Aí já em 2001/2002 comecei a escrever na página três, que é desses debates. Aí escrevi muitos aos lá, uns oito anos.

Luciano Pires: Eu tive um contato com você pela primeira vez como comentarista na TV Cultura.

Marco Antônio Villa: TV Cultura, eu estou até hoje lá no Jornal da Cultura, desde 2010.

Luciano Pires: Faz tempo né?

Marco Antônio Villa: Desde 2010.

Luciano Pires: Foi a primeira vez que eu te vi, lá.

Marco Antônio Villa: É.

Luciano Pires: Achei interessante, tudo, a tua… você me chamou a atenção pelo entusiasmo de falar, a maneira de falar. Entusiasmado e tudo. E aí eu vi que você foi… teve um filão que você abriu ali, que foi o caminho da mídia, e você passou a ser convidado para ampliar cada vez mais a participação. Eu vi você indo para outros lugares, foi parar em rádio.

Marco Antônio Villa: Sim, sim, sim.

Luciano Pires: E outras coisas.

Marco Antônio Villa: É. Aí participava também bastante do Globo News Painel.

Luciano Pires: Então, mas isso quando aconteceu você era um professor…

Marco Antônio Villa: Universitário.

Luciano Pires: Já estava na mídia?

Marco Antônio Villa: É, isso, eu combinava as duas coisas.

Luciano Pires: Você nunca foi um jornalista?

Marco Antônio Villa: Não.

Luciano Pires: Que abandonou a história para se tornar um jornalista? Você sempre foi um professor…?

Marco Antônio Villa: Isso. Combinava isso. Perfeito, Luciano, eu combinava as duas coisas.

Luciano Pires: Em um determinado momento você se aposenta como professor? Para de dar aula?

Marco Antônio Villa: Paro de dar aula.

Luciano Pires: E se dedica só à mídia?

Marco Antônio Villa: À mídia e escrever os meus trabalhos, da mesma forma como eu estava na universidade. E aí eu passo… aí eu entro na Jovem Pan, fiquei muitos anos lá, acho que fiquei cinco, se não me engano, por aí, quatro, cinco. E um programa… participando de um jornal da manhã, jornal diário, que é uma coisa pesada, tal, todo dia. Tinha de levantar às cinco horas da manhã, ler todos os jornais, tal.

Luciano Pires: Eu admiro aquele povo, admiro os que estão lá.

Marco Antônio Villa: É.

Luciano Pires: E agora eu vou te provocar um pouquinho. Quê que tem na água da Jovem Pan que faz com que quem está lá há muito tempo de repente extrapola cara? Reinaldo Azevedo extrapolou, foi embora. Como é que chama lá? Vera Magalhães extrapolou, foi embora. Você extrapolou, foi embora. Cara, eu falo, tem alguma coisa nessa água aí cara, porque os caras… e ali eu notei que uma coisa interessante lá é que é o seguinte aqui. O Tutinha é muito esperto, o Tutinha é o dono da rádio. O Tutinha é muito esperto, ele sabe de mídia, ele sabe o que ele precisa lá. Ele sabe que se ele colocar dois – como é que é – duas visões distintas e provocar um atrito a audiência cresce barbaramente. E os programas são desenhados para isso, sempre, ele não tem programa… aliás, acho que só hoje o Pingos nos Is que tem três comentaristas que estão na mesma linha, mas os outros sempre têm visões diferentes ali, que acabam dando o cheque. E que eu acho que é o que explica a Jovem Pan ter… ela cresceu… era uma rádio de entretenimento, foi para a política e de repente ela tomou conta, hoje ela está muito longe do segundo colocado. Mas deixa eu chegar no ponto que eu queria lá. E ali parece que o Villa vestiu um personagem. Você é um cara, você é um gentleman, você está sentado comigo aqui, você é um gentleman. Você não é um cara nervoso, pelo contrário, a gente… bem-humorado e tudo mais. Ali a coisa tomava outra dimensão. Eu não sei se era o personagem que foi colocado lá e foi alimentado que é para quanto mais se explodia lá mais a audiência crescia, ou se você realmente se encheu o saco lá e tomou a água deles lá e virou…

Marco Antônio Villa: Não. O que aconteceu é o seguinte, eu por ter sempre acho que me saído bem lá como professor, nos debates antes de ir para a rádio, tal, para ficar realmente fazendo… porque a rádio tem uma linguagem diferente da TV. Né?

Luciano Pires: Totalmente.

Marco Antônio Villa: Então eu cheguei lá e já sentei, já desde o programa deu tudo certo, também tive bons colegas, bons amigos, que me ajudaram bastante, porque é lembrar sempre que é um trabalho coletivo. E eu sempre me dei bem como todo mundo lá, isso é uma coisa que é sempre… uma coisa legal, bacana, com a senhora da limpeza, do café, com o pessoal da redação, com todos os colegas, os locutores e…

Luciano Pires: E tem um Patrick Santos ainda no meio do caminho.

Marco Antônio Villa: Patrick, gente finíssima, como gerente de jornalismo, realmente um cara muito legal. Lá embaixo tem um café, o Café do Constantino, que todo mundo se encontra, aí fica contando, contando história de futebol, lembrando de coisas antigas. Então é sempre muito agradável. E eu aprendi lá, como que se fazia ali, rapidamente peguei o jeitão em questão de dias. Agora peguei uma conjuntura, já ali em 2015, 2016, que o país estava realmente bastante agitado, e aí tinham muitos debates, entrevistas, coisas. E eu acabei – eu já era uma pessoa conhecida – mas acabei ficando muito conhecido a partir desse período.

Luciano Pires: Cara aquela transmissão que vocês fizeram da prisão do Lula, aquilo foi histórico.

Marco Antônio Villa: Foi no dia 7 de abril.

Luciano Pires: Quanto tempo você ficou no ar?

Marco Antônio Villa: Ficamos, ficamos porque o Patrick estava… ficamos das sete da manhã às onze da noite, direto.

Luciano Pires: Aquilo foi histórico.

Marco Antônio Villa: Ficamos. Aquilo lá foi a maior audiência da história da Jovem Pan. No caso do YouTube deu uma explosão, uma coisa fantástica. Aquilo foi uma coisa realmente incrível. Por quê? Começou a história numa quinta-feira, no dia cinco, depois no dia seis. Aí eu não ia, nem ia no dia sete, mas quando você está compromissado com o trabalho, levando a sério. O Patrick, logo de manhã ele me mandou uma mensagem lá, falou: hoje aqui estou sozinho, ninguém sabia o que ia acontecer. Ele falou: se você quiser dar uma passada aqui. Você que ser entrevistado? Eu falei: não, eu vou aí, vou aí. Aí… ou melhor, fico um pouco aí, vejo o que… eu não imaginava que ia acontecer tudo aquilo. Aí, cheguei lá sete, sete e dez, ele já estava lá, já começando a transmissão. Começamos tal, aí o negócio começou a pegar fogo, saímos de lá às onze da noite. E aquilo então foi uma coisa incrível. Quer dizer, então foi… e aí você, quando a coisa fica quente, a discussão política, tal, você muitas vezes até se exalta, fala alguma coisa que não devia falar inclusive. Mas as entrevistas sempre foram muito polêmicas lá. Então teve muitas entrevistas polêmicas. Uma série de coisas que ocorreram. Mas acho que tudo tem seu momento, teve o momento lá, teve umas pessoas boas com quem eu trabalhei. Então depois virei essa página, passei agora a tocar, já estava tocando ao mesmo tempo as minhas coisas, aí também junto com a minha mulher. Ela tocando a questão de redes sociais, aí começamos a ver a importância do que era o YouTube, a questão de cursos. E aí eu também percebi que queria fazer também um trabalho mais meu, que eu tivesse o domínio pleno, ou o maior possível do meu trabalho. Que não é o caso quando você está vinculado a uma rádio, uma TV, tal. Que você tem toda uma outra estrutura. E foi muito bom, está sendo muito bom, estou aprendendo muito a cada dia. E é um trabalho também pesado, porque inicialmente nós fomos fazendo live até sábado, domingo e feriado, tal. Montando toda uma estrutura, mas eu estou agora mais satisfeito do que quando eu estava, por exemplo, trabalhando em rádio. Que eu passei, também tive uma passagem pela Rádio Bandeirantes. Todas as passagens, em termos de audiência, tal, foi êxito. Se você for pegar, no caso da Bandeirantes foi relativamente breve. Eu passei no Jornal Primeira Hora das sete as oito, a audiência era oito vezes, no caso do YouTube, maior do que a anterior, oito vezes. E os recortes, davam recortes 130 mil views, 100 mil, 80 mil. Então, em relação à questão de participação foi tudo muito bem. Mas aí por uma série de razões eu acabei saindo. E agora tocando tudo isso é muito bom. Então a gente vai aprendendo.

Luciano Pires: Deixa eu falar um pouquinho dessa parte das mídias sociais aí, vai ser importante aí. Mas eu não vou deixar você sair ileso aqui sem dar mais uma cutucada aqui. Você acha que em algum momento você realmente extrapolou? Você acha que extrapolou? Você se arrepende de ter dito que os seguidores do Bolsonaro eram neonazistas.

Marco Antônio Villa: Ah, essa foi uma polêmica. Isso daí sabe quando ocorreu?

Luciano Pires: Começou ali, ali foi o momento que explodiu a coisa.

Marco Antônio Villa: Sabe o que isso foi? Sabe que agora eu posso até datar, isso foi no início de 2018. Isso foi no Pingos. Que era o seguinte. Têm umas coisas que era… faltou não sei quem naquele dia não sei quem lá nos Pingos, estava Felipe e Augusto, Felipe Moura Brasil e Augusto Nunes, aí o diretor de jornalismo na época…

Luciano Pires: Esqueci de falar. O Felipe tomou a água também.

Marco Antônio Villa: É? Também. O Zé Pereira falou: pô Villa, tal. Eu sempre fui um cara que leva a sério o trabalho. E quando as pessoas me pedem, sentem necessidade. Eu vou, não tem conversa, não era obrigação minha, minha obrigação era o Jornal da Manhã, estar bem preparado, sabendo tudo, tal. O outro era no final da tarde. Falei: não, vou. Não, porque nós estamos com um problema. Cheguei umas duas ou três, apresentar os Pingos, eu nunca fui apresentador. Mas pediram: quebra o galho. Então não tem conversa isso daí, para mim não tem tempo ruim não. Falou vai, eu vou, tal. Aí eu fui. Aí saiu uma discussão e eu fiz essa afirmação, tal, no calor da discussão. Acho que foi uma discussão com o Felipe, inclusive. E aí eu falei, e aí deu toda essa confusão. Eu acho que na verdade eu devia ter falado aquilo o seguinte: não questão de quem estava seguindo o Bolsonaro, porque os 57 milhões que votaram no Bolsonaro no segundo turno, a maior parte deles votou contra o PT, não votou no Bolsonaro. E eu sabia quem era o Bolsonaro, porque em 2017 eu estive com ele na Pan durante 40 minutos, tete a tete. Têm milhões de views isso.

Luciano Pires: Eu me lembro disso.

Marco Antônio Villa: 40 minutos, foi muito engraçado. Porque tudo de improviso, não tinha preparação, roteiro, não tinha nada. Ele foi lá, pa-pa-pa. E eu tinha, tinha e tenho uma leitura radicalmente oposta sobre o Brasil do que ele tem, e sempre deixo isso muito claro em todo lugar que falo, tal. No Jornal da Cultura dessa semana, por exemplo, entrou essa questão, deixei bem clara qual é a minha posição no sentido histórico. E aquilo que eu… quando eu falei aquilo daquela forma, ela devia ter sido melhor trabalhada, melhor explicada, e não foi. Que é pensar um pouco de falar que nós temos no Brasil uma tradição autoritária, ultra autoritária o Brasil. O Brasil tem dificuldade de conviver com a democracia e com as liberdades, e as elites brasileiras são autoritárias. Não é acidental que o Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão no mundo ocidental. Último, 1888. Tinham castigos corporais até dois anos antes da abolição, castigos corporais. Só são abolidos porque morreram dois escravos em Valência, que é uns 70 quilômetros do Rio. Bem, então a questão que se coloca é que eu deveria justamente ter levado para a questão de explicar a tradição brasileira. Porque o nazismo no sentido alemão, não. O Fascismo no sentido italiano, sim. Porque a tradição, o fascismo… instituições que nós temos no Brasil hoje não têm na Itália hoje. Que foram eliminados com a proclamação da República da Itália e o fim do fascismo. Nós temos aqui, nós somos um país que tem ainda essa estrutura sindicato, federação, confederação, que é do fascismo, tem aqui e não tem mais na Itália. Então, aquilo deu uma repercussão, toda uma confusão. Mas aquilo até foi depois relativamente administrado. Agora a grande questão é que esse governo, como o governo do PT, em relação aos meios de comunicação age da mesma forma. O PT tinha os blogs sujos, alguns jornalistas, não vou dizer o nome, alguns faleceram até, que ganharam muito dinheiro, 100 mil, 150, 200 mil, 250 mil. Eram fortunas por mês, fortunas, eram os blogs sujos que estavam a serviço do PT, que recebiam dinheiro através de bancos e empresas estatais, governos estaduais, e através de empresas que forneciam ao estado e anunciavam no seu blog, no seu site, etc., tal. Hoje também tem. A SECOM, a SECOM fez coisas escandalosas, SECOM liga para a TV, ou para o rádio e pede a demissão, pede a demissão das pessoas, pede: olha eu não quero que esse fique, ou não tem anúncio. E não tem anúncio agora, não é só do governo, mas através de empresários. Eu chamo um de Zé Carioca, que não é a denominação que eu dei, mas quem deu a denominação de Zé Carioca para ele foi um adversário meu, inclusive nós temos umas brigas na justiça também sobre isso, um senhor lá daquela Havan, que é chamado de Zé Carioca, ele pede demissão de jornalista, senão não anuncia na empresa. Vide o episódio do SBT. Né? Em que ele gasta, segundo estava no UOL esses dias, 40 milhões o ano passado, vai gastar em propaganda 80 esse ano. Aí é inacreditável, aí você…

Luciano Pires: Isso é uma realidade que sempre existiu no Brasil. Isso vem do Chateaubriand, isso vem da…

Marco Antônio Villa: Ah, mas nessa proporção hoje, eu posso dizer em relação a mim mesmo com é que funciona, há uma clara, um claro… por isso que eu fico tranquilo, eu estou no mesmo lugar onde sempre estive, na defesa dos princípios republicanos, da ética, do respeito à coisa pública, do combate à corrupção, da defesa dos interesses nacionais. Eu estou no mesmo caminho, então eu tive problemas com o PT, seriíssimos, o Lula me processou várias vezes, o PT, como eu tenho com esses que estão agora. Eu estou no mesmo lugar, não é que eu mudei. É que imagina: nós tivemos um episódio agora do vice-líder do governo com dinheiro nas nádegas, no meio das nádegas. Né?

Luciano Pires: Você consegue me explicar como é que se põe dinheiro…?

Marco Antônio Villa: Como é que é possível? Eu queria saber também.

Luciano Pires: Eu fiz um desenho hoje, eu publiquei na rede social e perguntando: será que é assim? Como é que se põe dinheiro nas nádegas?

Marco Antônio Villa: Você imagina um tal de Chico Rodrigues, de Roraima, senador, tanto que diz assim: não, nádegas a declarar. Já têm várias piadas, tal. Aí você fala: pô dos cinco líderes do governo, cinco estão processados, na Câmara e no Senado. O Barros lá do Paraná, dos filhos do presidente, todos têm problemas.

Luciano Pires: Esse negócio que você está falando do Senado. Isso não diz mais sobre a qualidade da Câmara e do Senado que nós temos do que qualquer outra coisa?

Marco Antônio Villa: Aí que é o problema.

Luciano Pires: Deixa eu ligar com uma outra coisa que você colocou lá atrás. Tá? Que é o seguinte: essas mudanças que o Brasil tinha que ter, de planejamento e tudo mais, dependem de que esse Senado que está aí, e essa Câmara que está aí tenham uma visão de país que definitivamente eles não têm. Então quando a gente chega com uma mudança bem-intencionada colocada lá, e é completamente descaracterizada. Você vê essa história do traficante que foi liberado agora aqui. Né? Entra-se com um desenho, esse desenho é completamente descaracterizado e alguém filtra lá dentro que ninguém viu. Ah, deixa que depois a gente corrige.

Marco Antônio Villa: Mas vamos lembrar do pacote anticrime, que é do Sérgio Moro, quando foi colocado isso pelo deputado Lafayette Andrada essa modificação, e foi aprovada, o Sérgio Moro advertiu o Presidente da República que tinha sido alterado e ele chancelou a alteração do Congresso Nacional, portanto ele é coparticipe na libertação do André do Rap. Ele foi alertado, inclusive está no documento oficial do Ministério da Justiça falando: olha tem de vetar isso daqui, tal. Que é um absurdo aquilo lá. Então a coisa toda é que a renovação de 2018 não foi renovação. As pessoas imaginavam… a maior parte dos eleitos, eles no máximo – eu brinco – poderiam ser eleitores, senão grande parte devia ser interditado pela justiça, que eles têm problemas graves, cognitivos, tal. É um horror.

Luciano Pires: Você não acha que é ali que está o…? Se você olhar hoje aqui… o problema do Brasil, botar numa escala. Dos 100% do problema do Brasil, quanto está em cada poder? Sabe. Qual é o poder que é aquele que traz mais problemas para o Brasil? Para mim, a minha análise que eu faço, para mim é o Legislativo de longe, de longe. Tudo que os outros dois fazem reage à o que o Legislativo fez, ou obedece algo que o Legislativo implementou. Não é?

Marco Antônio Villa: Teria de ver, eu insisto muito, eu tenho falado muito que o nó górdio da crise é o sistema político. Né?

Luciano Pires: Sim.

Marco Antônio Villa: Nós temos de mudar. E mudar como? Voto distrital misto. Tal qual, por exemplo, tem a Alemanha, tal. O voto distrital misto garante a representação das minorias, e aí nós não temos fenômenos eleitorais no voto distrital. O cara é votado pelo Distrito, então você não tem…

Luciano Pires: Sim. Voto em quem está perto de mim. Né? Voto em quem está perto de mim.

Marco Antônio Villa: Eu sei onde ele mora.

Luciano Pires: Cobro.

Marco Antônio Villa: Eu sei onde ele mora, e ele sabe quem votou nele. Quer dizer, ele sabe para quem ele deve prestar contas e você sabe onde mora o teu representante. Por outro lado, acaba daquele puxador de votos. Dificilmente essas figuras mais patéticas da vida política brasileira seriam eleitas com o voto distrital. E mesmo no estado de São Paulo. Que a gente tem mania sempre de colocar que o problema são os outros. Não, não, não. Têm figuras patéticas eleitas aqui no estado de São Paulo.

Luciano Pires: Olha a prefeitura agora, vendo a corrida pela prefeitura agora.

Marco Antônio Villa: Então, eu fico acompanhando.

Luciano Pires: Vem cá, Villa, essa história do voto distrital, eu vejo essa discussão, há muito tempo ela acontece. E me parece muito claro que isso é um movimento muito positivo para ser implementado. Porque que ele não passa?

Marco Antônio Villa: Olha você vê que tinham projetos há quatro anos atrás que nessa eleição fizesse uma espécie de modelo, começasse a testar na eleição municipal.

Luciano Pires: Isso.

Marco Antônio Villa: É. Esqueceram. Porque sempre tem uma outra questão. Então muitas vezes nós perdemos tempo no varejo e deixamos de lado o atacado. O atacado é voto distrital, cláusula de barreira. Porque se diminuir o número de partidos para seis, sete, oito, nove se tanto, depende da cláusula que você coloca. Como tem nas grandes democracias. Aí os partidos passam a ter cara. E aí, aí não podemos ter três dúzias de partidos políticos. Aí a coisa começa a melhorar. Porque a questão toda, a gente parece que… eu acho que… e uma outra coisa que eu tenho. Pega o exemplo da França e de Portugal. Porque o sistema presidencialista, o que funciona mesmo é nos Estados Unidos, o resto, em quase todos os países ele acabou não sendo muito bom. O parlamentarismo puro eu não concordo. Eu sou favorável a igual tem na França e em Portugal, por exemplo, o semipresidencialismo, você elege diretamente o Presidente da República, que para nós isso é muito importante. Ao contrário das Repúblicas Parlamentares que eles são eleitos indiretamente, eleitos diretamente. Dê atribuições ao presidente em relação à política externa, forças armadas, por exemplo, e o chefe…

Luciano Pires: E troca o síndico.

Marco Antônio Villa: Então, o chefe do governo.

Luciano Pires: E troca o síndico.

Marco Antônio Villa: Então, o chefe do governo é o primeiro ministro, eleito pela Câmara, pela Câmara Baixa, e ele pode cair se a coisa não vai bem. Agora, no ano passado na Itália houve uma mudança no governo, e não foi necessário ter – algumas vezes é necessário, no caso não foi necessário – novas eleições, se manteve uma… se reorganizou a coligação que estava lá e seguiu a vida. Porque o impeachment é uma coisa muito pesada.

Luciano Pires: É um trauma, isso é muito traumático.

Marco Antônio Villa: Demora muito tempo.

Luciano Pires: Sim.

Marco Antônio Villa: O Paulo Brossard foi um grande político brasileiro, jurista, Ministro do Supremo, ele tem um livro, quase que citado por todo mundo nos anos 60, que depois foi desenterrado na gestão Collor, quando houve o impeachment, que ele diz assim, ele é parlamentarista, sempre foi. Ele fala assim, olha… no fim ele fala: sou contra porque o cara já fez toda a tragédia, todo o desastre, aí vai se fazer alguma coisa, e ele fala: nós precisamos ter outros mecanismos. O bom do semipresidencialismo é isso, que você tem essas condições de fazer esse tipo de modificação, e aí a coisa segue em frente. E também você tem impeachment de ministro, tal, que pode ser feito de uma forma mais rápida. Do jeito que nós estamos é desesperadora a situação. Parece que nós vivemos eternamente em crise, nós não conseguimos sair. E o mundo está mudando muito rapidamente, de forma radical, e num curto espaço de tempo e nós estamos perdendo tempo no mundo. Né?

Luciano Pires: Sim.

Marco Antônio Villa: Os outros estão nos suplantando. Você lembrou minutos atrás a questão da Coreia. Você pega… vai… o quê que era a Coreia em 1960? Não era nada. Olha o que é a Coreia 50, 60 anos depois. Então nós precisamos enfrentar as grandes questões nacionais, e do jeito que nós estamos é desesperador. Eu, muitas vezes passo rapidamente pela TV Câmara, TV Senado, vejo uns trechinhos, é tudo patético. Em São Paulo nós temos 70 deputados federais, a maior bancada é a de São Paulo porque tem o maior número de eleitores. Então, São Paulo, é uma piada, é uma piada, a maior parte dos deputados federais. Então, vamos ver agora o que vai acontecer nas eleições municipais, eu sempre tenho falado e lembrado o seguinte, é aquela velha história que diziam: você não mora na União, nem no Estado, você mora no Município. Então é por aqui. Você quer o quê? As coisas básicas, que não tenha buraco na rua, que tenha água, tenha esgoto, tenha iluminação, que a coisa esteja limpa, a cidade, os serviços públicos funcionem. Então vamos ver agora se… como é que a coisa… como é que se desata esse nó agora nos municípios. Eu espero aí que ao menos sejam eleitos bons prefeitos, bons vereadores.

Luciano Pires: Meu caro eu vi… vamos caminhar para o nosso finalmente aí. O papo é muito bom, mas a gente precisa terminar aqui. Você está indo então… está botando um foco grande nas mídias sociais.

Marco Antônio Villa: Sim, estou aprendendo.

Luciano Pires: Tem um fenômeno interessante acontecendo no mundo todo aí que é a grande organização não é mais a dona do pedaço. Alguns elementos que estão lá dentro. Então o jornalista que é conhecido, que constrói a sua marca como jornalista ele consegue sair da grande organização e ter até muito mais espaço lá fora. Você pega um caso como o Alexandre Garcia, ele botou um canal dele lá. O Lacombe, o Lacombe botou um canal no YouTube e fez um milhão de seguidores em três dias, que eu acho que ele nunca teve uma audiência dessas na televisão, e ali ele começa a ter. Então as mídias sociais trouxeram essa oportunidade. Você tem conteúdo, é um cara conhecido, vai lá, puxa uma audiência, você está com uma audiência muito boa hoje, na casa de centenas de milhares em cada uma das tuas redes. Né?

Marco Antônio Villa: Sim.

Luciano Pires: E está pensando em entrar no mundo dos PodCasts também.

Marco Antônio Villa: Então, e é legal essa questão de fazer essas aventuras pelo desconhecido, da novidade, tal. E eu sempre fiz isso também quando era historiador, nunca ficar com os mesmos temas, buscar temas que eu não sabia nada, ou sabia pouco, ou tinha dúvidas, inquietações. No caso o PodCast é uma coisa bem legal. Primeiro que isso tem um efeito multiplicador fabuloso e contato com milhões de pessoas, nós somos um país com 213 milhões de habitantes, gente para diabo, tal. E a possibilidade de poder alcançar um público. E sempre fazendo uma reflexão, buscando uma diferença, um diferencial, que aí é a questão da formação histórica, analítica. Fazer uma ponte que no Brasil não sei por que não é devidamente feita entre a pesquisa universitária, as reflexões da universidade com a do mundo, com a que está fora. Além dos muros da universidade. Na Europa isso é feito com relativo êxito, se faz essa vinculação, no Brasil não, de há muito. Era no passado, tinha uma vinculação, nós acabamos perdendo. Então é fazer, buscar essa reflexão e é difícil, não é fácil, nós somos um país muito tenso. Não é nem digo polarizado no sentido de ideias políticas, que há uma pobreza tão grande de ideias políticas no Brasil que é exagero chamar de ideias. A gente põe ismo em certas pessoas que não há ismo, porque no ismo pressupõe um conjunto orgânico de ideias. Então é no sentido de fazer essa vinculação entre a história, produção, a ciência política. Um olhar, portanto, diferente do que é o olhar de jornalismo. Eu tento, faço um jornalismo político, mas eu não sou originalmente um jornalista. E buscar então a reflexão ali no calor da hora, que é sempre um desafio você ali no calor da hora tentar desenhar tendência em relação aquele fato.

Luciano Pires: É admirável isso.

Marco Antônio Villa: Então, e o PodCast é uma coisa bacana, você tem também de ser sucinto, porque a tradição latina é da prolixidade, também. Você buscar uma visão de totalidade, mas sendo sucinto e enfrentando uma conjuntura. Eu gosto disso, eu sempre fiz isso informalmente, vamos chamar assim, ao longo da vida, tal. E agora fazendo isso profissionalmente, de forma bastante organizada e tentando fazer a vinculação PodCast, passar pelo YouTube. Continuo escrevendo os livros, fazendo palestras. O duro é que…

Luciano Pires: Quantos livros você tem?

Marco Antônio Villa: Tenho 38.

Luciano Pires: Cacetada.

Marco Antônio Villa: E o problema é que o dia só tem 24 horas. Nós precisávamos fazer um acordo lá em cima para parar o sol, o sol andar mais devagar. Se ele tiver 30 horas por dia já ajuda. Mais seis dá um certo… então…

Luciano Pires: Mas legal. Você deve estar sentindo uma experiência. Aconteceu comigo tá? Eu sou também, sou da geração antiga e entrei nesse mundo todo da internet, já estou no PodCast desde 2006. E ele me trouxe uma coisa que eu até brinco dizendo o seguinte: como seria o Machado de Assis escrevendo no dia de hoje? Quando você tem a reação imediata do teu leitor. Machado de Assis recebia uma cartinha de alguém, e olhe lá. E você não, hoje você publica um texto, em 15 segundos já toma uma porrada, já alguém aponta um erro, alguma coisa assim. O que faz com que nós tenhamos que ser um tipo de escritor diferente do que era o Machado de Assis. Você sentiu isso? Porque enquanto você está na mídia grande, a reação que você recebe lá é difícil chegar, mas quando você está na mídia grande com o Twitter ao mesmo tempo, em cinco segundos o mundo cai de alguma coisa que você fala ali. Isso te pegou no meio do caminho.

Marco Antônio Villa: Então, isso é uma coisa bacana, uma coisa que eu estou aprendendo a trabalhar com isso. Porque essa questão do feedback e tal. Uma coisa era a sala de aula que você tinha 40, 50 alunos, você estava ali conversando. Quando você vai para a grande mídia, os jornais, rádio e TV especialmente, tem a resposta, mas você não sabe como, porque ela passa por outros canais. Agora é diferente, se você dá um tuitada, ou você lendo os comentários do teu vídeo no YouTube, os caras estão falando: olha… e aí… e tem gente que fica observando as coisas mais exóticas no caso do YouTube. Vê um livro que está na mesa, fala: pô. Teve um rapaz que viu um livro, a câmera estava assim, ele viu o livro. Aí ele congelou a imagem, virou e viu que o livro era um livro do Mário Filho, irmão do Nelson Rodrigues, O Negro no Futebol Brasileiro. Realmente eu tinha pego aquele livro que eu tenho, que eu queria dar uma consultada. Era uma questão que envolvia acho que o Leônidas da Silva, se não me engano. Eu estava lendo lá um negócio, fui dar uma espiada e deixei ali na hora da live. E ele tinha uma dissertação de mestrado sobre o livro O Negro no Futebol Brasileiro, me mandou depois. Então eu falei: putz. Quer dizer, o cara viu o negócio, falou: professor, eu estudei esse livro porque eu peguei, fui ver a vida do Mário Filho, tal, parará, que é o nome oficial até hoje do Maracanã. E aí então como que é uma coisa bacana. Então você tem essa resposta e todo mundo comenta e fala. Então pode ser o porteiro, o outro ali, o outro acolá. Essa e questão da socialização da informação. E você tem de ter um discurso – que minha mulher sempre lembra também – transversal, que todos entendam o que você está falando. Pode ser o médico ou o porteiro, mas eles têm de entender. Então, você tem de ter então um equilíbrio na sua fala que permita esse tipo de compreensão. Sem cair no panfletarismo barato e sem cair numa análise acadêmica que ninguém vai entender o que você está falando. Então você tem de ter um equilíbrio na tua fala que possibilite que todos entendam o que você está dizendo. Então isso é uma coisa bacana e que eu também vou aprendendo a cada dia, é um processo de aprendizado, tal. Muitas vezes você espera a recepção de uma… de um… agora vamos entrar no PodCast, mas no caso do meu canal do YouTube, tem certas análises que eu falo: hoje estava muito bom. Falo para mim mesmo. Aí o número de views não é no número que eu imaginava. Isso aconteceu essa semana, eu falei não sei o que, não gostei de uma fala minha e foi muito bem o número de views. Quer dizer, então é difícil entender.

Luciano Pires: É um mundo completamente complicado. Meu caro, que prazer, é um bom papo. Você vê a coisa do PodCast encanta por isso. Eu não te pressionei porque está na hora do comercial, eu não pressionei porque vai acabar o bloco, porque tem 12 minutos o primeiro bloco. Eu não tinha um papel aqui para coordenar. A gente senta e bate um papo, e aí se tiver que durar 10 horas dura. Mas você vai sentir a hora que você vai começar a fazer o PodCast e botar no ar aí, você vai sentir. Realmente é algo muito especial que eu acho que tem um canal interessantíssimo de engajamento com o ouvinte como não tem nada igual. O PodCast é único então seja bem-vindo a esse mundo aqui.

Marco Antônio Villa: Legal. Obrigado, obrigado Luciano aí.

Luciano Pires: Muito obrigado pela visita aí meu caro.

Marco Antônio Villa: E obrigado aí pelo convite.

Luciano Pires: Imagina.

Marco Antônio Villa: E vamos aprendendo aí que a vida é sempre aquela velha história, é frase gasta: mas é um eterno aprendizado.

Luciano Pires: Seus canais? Marco Antônio Villa?

Marco Antônio Villa: É no YouTube.

Luciano Pires: O Villa tem um “L” ou dois?

Marco Antônio Villa: Dois “L”, dois “L”, senão é falso.

Luciano Pires: Marco Antônio Villa no YouTube.

Marco Antônio Villa: No Twitter é VillaMarcovilla, tudo junto. Tenho no Face.

Luciano Pires: Está no Instagram também?

Marco Antônio Villa: No Instagram e agora… e tem também o próprio blog do Villa mesmo na internet, além do canal do YouTube, então esse é o conjunto das mídias.

Luciano Pires: Esse que é o ecossistema Marco Antônio Villa.

Marco Antônio Villa: É. É.

Luciano Pires: E, além disso, têm cursos, um bom professor que não leva cursos para o on-line não é um bom professor. Você tem…

Marco Antônio Villa: E isso é legal, também tenho aprendido muito, viu. No www.cursosdovilla.com.br, nós temos três cursos lá que nós estamos oferecendo e outros que ofereceremos. História Política das Constituições Brasileiras, o ponto de vista da história política das sete constituições, desde a primeira imperial, em 1824 até a republicana de 1988. Temos também a História da Ditadura Militar no Brasil, que vai de 1964 a 1985 e O Que é Fascismo? Que é uma discussão que se faz muito no Brasil, são várias aulas, lá na plataforma www.cursosdovilla.com.br têm todas as informações. E outros cursos que nós estamos desenhando aqui, que estamos aí também para oferecer. Discutindo questões que estão mais vinculadas à conjuntura brasileira.

Luciano Pires: Perfeito. Muito bem, tivemos aqui o Marco professor, o Marco Antônio Villa, no LíderCast. Meu caro, seja sempre bem-vindo.

Marco Antônio Villa: Valeu. Muito obrigado.

Luciano Pires: Espero que a gente se converse mais, que o papo vale muito a pena.

Marco Antônio Villa: Valeu.

Luciano Pires: E que o seu Santos entre no caminho, porque o Corinthians eu já perdi a esperança.

Marco Antônio Villa: Valeu.

Luciano Pires: Muito bem, termina aqui mais um LíderCast. A transcrição desse programa é exclusiva para assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium. Lembre-se, confraria.cafe.

Locutor: Você ouviu LíderCast, com Luciano Pires. Mais uma isca intelectual do Café Brasil. Acompanhe os programas pelo portal cafebrasil.com.br.