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Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast. O PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. Encerrando a temporada 16 do LíderCast, temos hoje Denise Pitta. Empreendedora digital, dona do site Fashion Bubbles, pioneiro no segmento da moda na internet brasileira. Uma estudiosa de tendências, que fala muito mais do que sobre moda, mas de comportamento e estilo de vida. Muito bem, mais um LíderCast. Dessa vez com uma querida amiga, de bastante tempo. Uma história muito legal, cujo convite surge para o LíderCast num insight. Eu estava fazendo uma busca no meu WhatsApp e aí aparece o WhatsApp dela. Eu falei: está na minha cara o tempo todo. Como é que eu nunca chamei ela para o LíderCast? Mandei a mensagem. Na hora ela: vamos conversar. Então estamos aqui hoje. Três perguntas que começam o programa. Você não pode chutar nas três. As outras, pode chutar à vontade. As três não tá? Se nome, a sua idade e o que você faz?

Denise Pitta: Primeiro Luciano: eu estou lisonjeadíssima com o convite. Que delícia estar aqui, eu que sou sua fã, eu que acompanho também tanto do seu trabalho. Então fiquei… e foi incrível, porque no dia anterior eu tinha pensado em você. Porque um amigo me pediu o seu livro autografado, do Monte Everest. Eu falei: eu tenho que pedir o livro de volta, que o Luciano autografou. E aí no dia seguinte, você me manda mensagem. Olha que mundo maluco.

Luciano Pires: Não tem nada. Nada é por acaso.

Denise Pitta: Então?

Luciano Pires: São os encontros.

Denise Pitta: São os encontros. Agora, meu nome é Denise Pitta. Eu tenho há 15 anos. Começou como um blog. Hoje é um portal com mais de 10 mil artigos, o Fashion Bubbles. E eu vou fazer 43 anos agora em novembro.

Luciano Pires: 43?

Denise Pitta: Olha os cabelos brancos aqui. Eu resolvi não pintar.

Luciano Pires: Nada. Você está muito bem. Baiana?

Denise Pitta: Baiana, do interior da Bahia. Barreiras fica a mil quilômetros de distância de Salvador.

Luciano Pires: Caramba. Você nasceu em Barreiras? Você tem irmãos?

Denise Pitta: Tenho dois irmãos. Edgar, que inclusive montou o Fashion Bubbles junto comigo e meu cunhado. E mais um irmão, que hoje está iniciando o doutorado, o mestrado, lá em Petrolina.

Luciano Pires: Petrolina?

Denise Pitta: Isso. Agrônomo.

Luciano Pires: Sim. O que seu pai e sua mãe faziam?

Denise Pitta: Minha mãe é historiadora, professora. Uma mulher inteligentíssima. Foi freira, Luciano. Olha que história mais maluca.

Luciano Pires: Meu Pai do céu.

Denise Pitta: E ela… no interior da Bahia era normal os filhos irem para o colégio de freira. Então minha avó, minha tia com nove, minha mãe com 10; foram para o colégio de freira. E aí com 15, minha mãe resolveu ir para o convento, se emancipou se foi ser freira. Vida dificílima. Uma ordem chamada Escravas do Coração de Jesus. Você imagina…

Luciano Pires: Caramba.

Denise Pitta: O sofrimento. Você adolescente. Mas minha mãe saiu, casou, teve a gente.

Luciano Pires: Sua mãe escolheu fazer isso? Foi escolha dela ir para o…

Denise Pitta: Bom, não sei se foi bem uma escolha. Quando você já é criado desde que nascem os dentes, dizendo que você foi escolhido, você nasceu… porque o sonho da minha avó era ter sido freira. Minha avó não queria casar. Mas é que antigamente eram aquelas histórias do sertão.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Meio que já combinadas. O sonho da minha avó era ter sido freira. Então ela já criou as duas filhas para irem para o convento.

Luciano Pires: As duas foram para o convento?

Denise Pitta: As duas foram para o convento. A minha mãe ainda saiu. Minha tia foi ser freira na Espanha. E assim, são histórias complexas daquele tempo. Porque quando você sai, você não saía com a roupa do corpo. Porque você tinha o hábito e você tinha que devolver. Tanto que foi uma luta da minha mãe por esses direitos. Inclusive fez um artigo na revista Veja, que circulou o Brasil todo. A gente tem pastas e pastas e pastas desses artigos.

Luciano Pires: Dela? Da saída dela?

Denise Pitta: Da questão dos direitos das freiras e tudo mais.

Luciano Pires: Ela comentou com você? Esse programa é assim tá? Eu não tinha a menor ideia dessa história. Ela pinta e a gente quer explorar isso aqui. Ela comentou com você o processo de tomada de decisão, de sair da…

Denise Pitta: Dolorosíssimo. Ela passou tendo pesadelo. Porque você foi escolhida, você está sendo tentada. Tem toda aquela questão da culpa. Tem toda aquela questão… minha tia não fala desse assunto até hoje.

Luciano Pires: Sua tia também saiu?

Denise Pitta: Minha tia saiu. Minha tia não conseguiu reconstruir a vida dela direito. Não casou. Ela foi para o convento mais tarde do que a minha mãe e saiu mais tarde. E você sai em frangalhos. Porque tem toda uma… é quase uma lavagem cerebral, de culpa, de… era comum. Por exemplo, minha mãe saiu, porque ela adoeceu. Ela saiu, tipo, pesando 37 quilos, com 24 anos, do convento.

Luciano Pires: Caramba.

Denise Pitta: Então ela saiu para não morrer lá dentro. Mas aí a culpa. Porque você foi o escolhido. Deus está lhe testando. Então é complexo. É muito complexo. Foi um assunto… minha mãe, assim, até bem pouco tempo atrás, ela falava que ela sonhava, que ela tinha medo de ter que entregar a gente, ter que abandonar a gente para voltar para o convento. Imagine…

Luciano Pires: Ela ficou dos 15 aos 24?

Denise Pitta: Isso. Dos 15 aos 24.

Luciano Pires: Na idade que a mulher está desabrochando. Que coisa.

Denise Pitta: Exatamente. E meu avô e minha avó não tiveram filhos homens. Tiveram só elas duas. E as duas eram para ir para o convento.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Olha só o pensamento.

Luciano Pires: E ela sabia que quando saísse, aqui fora não ia ser bem recebida?

Denise Pitta: Sabia que não ia ser bem recebida.

Luciano Pires: Não ia ser bem recebida. Então ela tinha um problema do lugar que ela deixava. Ela não estava deixando aquilo para ir para um lugar onde ela seria bem recebida. Ela sabia que ia ter encrenca lá fora também.

Denise Pitta: Sabia.

Luciano Pires: Que coragem hein?

Denise Pitta: Sim. Minha mãe era uma mulher corajosa. Minha mãe, nos anos 80, enfrentava. Lutava pelos rios da minha cidade. Fazia palestra. Foi vereadora nos anos 80. Imagina uma mulher, no interior do interior da Bahia…

Luciano Pires: Porreta.

Denise Pitta: Com toda essa história. Ela trabalhava num instituto chamado… não era um instituto. Eu nem sei o que era. Uma fundação. Era FUNRURAL que cuidava da aposentadoria dos velhos ligados ao…

Luciano Pires: Ao agro.

Denise Pitta: Isso. Exatamente. E tinha… quando o cerrado foi povoado… porque o cerrado era uma terra ruim, que não servia para nada. E eles descobriram que era uma terra maravilhosa, que era só corrigir a acidez. Que tinha água, que tinha… então veio muita gente de fora, grilou. E aqueles donos, aquelas pessoas, perderam suas casas e foram para as ruas de Barreiras. A minha mãe ia lá, buscava essas pessoas na calçada. Tinha uma louca, Maria Espingarda. Aí ela conseguia aposentar essas pessoas. Colocava uma freira… porque a primeira aposentadoria vinha acumulado. Então ela colocava uma freira para ajudar a administrar aquilo. A freira ajudava a construir casa. Maria Espingarda depois virou empresária.

Luciano Pires: Olha só.

Denise Pitta: De bêbada na rua, virou depois. Botou uma banquinha na feira. Teve sua casa. Então a gente teve um exemplo assim, fantástico em casa. E o meu pai, deixa eu falar um pouquinho dele.

Luciano Pires: Sua mãe está…

Denise Pitta: Está viva, fazendo palestra, cuidando da história de Barreiras.

Luciano Pires: Quando ela vier para cá, você me avise que eu quero sua mãe aqui. Eu quero fazer um LíderCast com ela. Essa história é maravilhosa.

Denise Pitta: Sim. É uma história muito rica.

Luciano Pires: Se ela vier, me traga ela aqui. Eu vou querer ela aqui sim.

Denise Pitta: Ela está com 78 anos. Mas trago sim. Dia sim, dia não, ela está na televisão em Barreiras. Porque ela levantou toda a história da minha região. Então sempre que a Veja, as televisões da região vão falar da minha região, embasam com… já aconteceu até de multinacionais contratarem o trabalho dela, de pesquisa, porque disseram que era região de quilombo e queriam confiscar essas terras.

Luciano Pires: Qual é o nome dela?

Denise Pitta: Inês Pitta.

Luciano Pires: Dona Inês, a senhora fez o trabalho direitinho aqui, que a filha também é um rojão. Que legal. Eu quero a senhora aqui no programa. Seu pai?

Denise Pitta: O meu pai, ele trabalha com… ele é pecuarista, tem as fazendas. E o meu pai ajudou a equilibrar, porque essa mulher era um furacão. Era um furacão. Ela mexia com ecologia, ele montou o museu de Barreiras. Ajudou a tombar as casas.

Luciano Pires: Incomodou muita gente.

Denise Pitta: Incomodou muita gente. Ela descobriu 100 anos da cidade e a prefeitura não queria comemorar. Estava errado. Ela falou… chamava Paulo Braga, na época, o prefeito da cidade. Nem sei se pode falar isso. Mas ele falou: eu não vou comemorar. Não tem para isso. Ela pegou os documentos. Tirou foto. Mandou fazer um cartaz. A gente saiu de madrugada, espalhou na cidade inteira: Barreiras faz 100 anos. Foi atrás das empresas para patrocinar. E meu pai apoiava tudo isso. Meu pai sempre esteve do lado. O meu pai equilibrava um pouco esse… então, ele tinha aquele jeito mais tranquilo. Aquele jeito… porque senão, ninguém aguentava. Então ele sempre foi…

Luciano Pires: Você está falando do interior da Bahia. É um lugar onde isso tudo é arriscado. É muito arriscado. Porque tem os coronéis. Tem aquela coisa toda lá…

Denise Pitta: Sim.

Luciano Pires: No interior. E são anos 80. Anos 70; anos 80.

Denise Pitta: Exatamente.

Luciano Pires: Que doideira.

Denise Pitta: Meu avô não aceitava. Meu avô… era o desgosto da vida dele. Quando a minha mãe foi eleita vereadora, meu avô chamou o meu pai e ofereceu dinheiro para ele fazer minha mãe desistir de ser vereadora.

Luciano Pires: Olha que coisa.

Denise Pitta: Quer dizer, o pai, ao invés de sentir orgulho…

Luciano Pires: Sim. Mas era a posição dele: lugar de mulher não era lá.

Denise Pitta: Não.

Luciano Pires: Na cabeça dele, não era lugar de mulher. Olha que loucura essa conversa. Isso dá para a gente… eu quero ela aqui.

Denise Pitta: O meu pai hoje… eles mantiveram… fizeram bodas de ouro ano passado.

Luciano Pires: Olha só. Que legal.

Denise Pitta: Uma história muito rica.

Luciano Pires: Que legal. Muito bem. Como que era o teu apelido quando você era pequenininha?

Denise Pitta: Me chamavam de Deni, porque eu era pequenininha.

Luciano Pires: Deni.

Denise Pitta: É.

Luciano Pires: Você era urbana, você sempre viveu na cidade? Vocês não viveram na fazenda, nada disso?

Denise Pitta: Não. Nunca vivemos na…

Luciano Pires: O que a Deni queria ser quando crescesse?

Denise Pitta: A Deni… eu tinha duas divisões. Primeiro, que eu não assistia uma aula. Eu desenhava em todas as aulas. Em todas. Eu adorava psicologia. A minha mãe gostava muito de ler. Chamava análise transacional. Naquela época tinha aquele monte de livro em casa. Todo lugar tinha um livro. E eu adorava aquilo. Eu lia muito. E nas aulas eu desenhava. Então, quando eu fui fazer vestibular, eu me inscrevi para as duas coisas: artes plásticas e psicologia.

Luciano Pires: Onde?

Denise Pitta: Eu fiz na Católica em Salvador. Na minha cidade não tinha faculdade.

Luciano Pires: Eu imagino. Quer dizer, você ia ter que sair para mil quilômetros de distância. Com que idade?

Denise Pitta: 18 anos.

Luciano Pires: Com 18 anos?

Denise Pitta: É.

Luciano Pires: Você ia ter que sair de casa.

Denise Pitta: Todos nós. Meu irmão saiu com 17. Eu já saí mais madura, aos 18. E a gente ia morar sozinho. Meu irmão do meio, que são dois anos só mais velho que eu, passou em Viçosa. Então ele foi para Viçosa e eu fui para Salvador. Então era meio que a gente já era criado… minha falava assim… a gente tinha que cozinhar, fazer as coisas da casa, porque a gente estava sendo criado para a vida. Ela sempre falava que os pais, eles não pertenciam… era uma frase: os filhos não pertenciam aos pais, mas na força da vida. É uma frase famosa.

Luciano Pires: É a história da flecha lançada?

Denise Pitta: Isso. Exatamente. Então a gente já foi criado para ir para o mundo.

Luciano Pires: Você foi para Salvador morar com o seu irmão?

Denise Pitta: O meu irmão já tinha vindo para São Paulo. O meu outro irmão. Ele se formou. E um estava em Viçosa. No começo eu morei com uma prima. Fomos juntas. Porque todo mundo tinha que sair para estudar. Ou era Brasília, que está perto. Está só a 680 quilômetros. Esse é o perto. Ou era Salvador.

Luciano Pires: Interior do Brasil tem esses números.

Denise Pitta: Sim.

Luciano Pires: Quando a gente vai para Mato Grosso, Goiás, Pará. Está pertinho daqui. Quanto? 180 quilômetros a gente já chega lá. É tudo pertinho. E você fez o que, cursou o quê?

Denise Pitta: Eu fiz artes plásticas. Não passei em psicologia. Mas o meu curso era aquele mesmo. Mas eu não me identifiquei com artes plásticas, no início. E mulher é sempre mais complicada. Então quando eu falei para a minha família: eu não gostei desse curso. Não está me preparando para vida. Nessa época eu fiz palestra contra a globalização, contra o neoliberalismo e procurava um estilo próprio. Eu pensava que a gente ia aprender técnica. Eu pensava que eu ia aprender a desenhar. Não. Mas era o tal de buscar o estilo próprio. Eu falei: isso aqui, eu vou sair daqui e eu não vou sair preparada para a vida.

Luciano Pires: Você sabe que tem uma história interessante. Você está falando e eu estou me identificando. Eu também saí de Bauru, vim para São Paulo para estudar, para ser cartunista. Eu estava nas artes. E o cartum tem muito esse lance do estilo próprio. Demais. Então era uma busca incessante pelo teu traço.

Denise Pitta: Isso.

Luciano Pires: Qual é o meu lance? Eu quero chegar num ponto em que você bate o olho no meu desenho e fala: foi o Luciano que fez.

Denise Pitta: Exatamente. Tinha essa busca.

Luciano Pires: Os grandes guitarristas são assim. Você escuta uma guitarra e você fala: esse é o Keith Richards. Esse é o Eric Clapton. Só pelo som dele, você sabe quem é o cara. O artista, a mesma coisa, pelo tipo de pincelada, você bate o olho e fala: isso aqui é van Gogh. Não tem como não ser ele. E o cartum era assim também. Então tinha que achar um traço. E era muito difícil. Porque eu estava começando. E eu me lembro claramente. Teve uma noite, altas horas, eu virava a noite desenhando. Não havia um propósito naquilo. Era desenhar por desenhar. Então eu sentava na minha mesinha. Eu guardei essa mesinha comigo até hoje. E ficava em cima dela, desenhando, desenhando. E uma noite eu achei o traço. Eu estava fazendo e pá. Eu guardei o cartum, dizendo assim: é isso. Foi quando o traço surgiu pela primeira vez. E aí eu comecei a trabalhar em cima dele. Mas foi como uma iluminação. Achei algo que tem o meu estilo. E eu imagino que quem trabalha com moda, essas coisas, você quer que o cara bote o olho e fale: isso aqui só pode ser… essa é a Denise.

Denise Pitta: Então, mas o que aconteceu nas artes plásticas? Eu descobri que eu desenhava na escola, mas eu desenhava corpinho, bonequinha. Eu desenhava vestidos. Então eu nunca desenhei natureza morta. Não era artes plásticas o que eu tinha que fazer. Então, quando eu estava na 4ª série, eu fazia umas bonequinhas todas bonitinhas, vestidinhas, com pé de cabra. O meu irmão chamava de pé de cabra. Era salto alto. Elas estavam de salto alto. Desde o início. Então eu descobri que em São Paulo havia uma faculdade de moda. Que não se sabia muito bem. Eu venho dessa família de freiras, uma avó extremamente religiosa. Então assim, tudo que envolvia roupa, vaidade, era pecado assim… e aí quando eu falei de moda foi uma catástrofe. Porque artes plásticas até podia. Mas moda? Era um negócio pecaminoso. Era uma coisa que trabalhava a vaidade.

Luciano Pires: Mas e sua mãe?

Denise Pitta: Mesmo a minha mãe.

Luciano Pires: Sua mãe também?

Denise Pitta: Minha mãe também. Ela falou assim: ou você faz artes plásticas ou você volta para Barreiras. Eu falei: entre fazer artes plásticas e voltar para Barreiras, melhor fazer artes plásticas. Aí passei a faculdade para a noite. Fui trabalhar; fazer estágio. Todo o dinheiro que eu pegava, eu colocava na poupança. Porque eu tinha ali, poucos anos para juntar meu recurso para vim embora para São Paulo.

Luciano Pires: E você já tinha cabeça essa história de que: São Paulo é o meu caminho. O que era isso? Era o teu irmão te dando insights também?

Denise Pitta: Eu tinha um irmão aqui. Ele estava morando aqui. Ele se identificou muito. Mas havia a faculdade de moda. E eu odiei a faculdade de artes plásticas. Eu nunca desenhei natureza morta. Eu nunca desenhei. Eu não me identifiquei com nada daquilo ali.

Luciano Pires: Mas você se formou?

Denise Pitta: Eu me formei. Fiz a minha poupança. Quando minha mãe falou…

Luciano Pires: Certificado. Mãe está aqui o certificado. Estou formada. Agora desculpa que eu vou cuidar da minha vida. É isso?

Denise Pitta: Isso. Aí ela falou: e você vai com que dinheiro? Eu falei: vou com o meu. Porque eu tinha feito minha poupança.

Luciano Pires: Você trabalhou com o que lá, nessa época?

Denise Pitta: Eu trabalhei em loja de decoração. Eu dei aula de educação artística. Trabalhei em loja de roupa. O que aparecia. Fui secretária.

Luciano Pires: Que idade você tinha?

Denise Pitta: Eu fui com 18 anos. Isso foi entre os 18 e 21 anos.

Luciano Pires: Você se formou com 21?

Denise Pitta: Isso.

Luciano Pires: E aí veio a decisão: muito bem. Vou para São Paulo.

Denise Pitta: Vou para São Paulo. Vou para São Paulo. Meu irmão e meu cunhado me acolheram aqui na casa deles, no primeiro mês, até eu me organizar. Aí eu fui fazer a faculdade de moda. Aí o meu irmão falou: ao invés de fazer outra faculdade, faz uma pós-graduação. Só que o meu diploma só saiu depois do carnaval. Salvador não funciona depois do carnaval.

Luciano Pires: Antes…

Denise Pitta: Antes do carnaval.

Luciano Pires: Antes e durante.

Denise Pitta: É.

Luciano Pires: Antes e durante. Não funciona.

Denise Pitta: Quando eu cheguei aqui, eu perdi todas as inscrições. Então ao invés de fazer a pós de moda, eu falei: vou fazer um ano de faculdade de moda para poder começar a minha vida aqui. Eu precisava arrumar emprego. Porque eu tenho dinheiro para seis meses, oito meses.

Luciano Pires: Você veio morar com o seu irmão?

Denise Pitta: No primeiro mês sim. Depois… eu tinha um namorado na época, convenci ele: vamos para São Paulo. Vamos para São Paulo. Eu vim com ele.

Luciano Pires: Você veio com ele? Você veio com o namorado então?

Denise Pitta: É. Eu vim primeiro, uns dois três meses, ele veio em seguida. E aí: vamos para São Paulo. Vamos para São Paulo. Aí eu cheguei na faculdade de moda. Que era só para fazer um ano para eu me… mas eu me achei. Era aquilo. Aí eu descobri que toda aquela conversa pecaminosa, de vaidade, de roupa. Era muito mais que isso. Roupa era fascinante. É identidade. Eu descobri que moda era um modo de ser de uma época, de um indivíduo. Com a roupa você diz quem você é. E eu me apaixonei. Eu me apaixonei. Fiquei os quatro anos. Tanto que chegou no meu TCC – aí foi minha vingança – chegou no meu TCC, eu descobri um negócio chamado… veio parar nas minhas mãos um livro chamado Viagem à Era da Imagética, que dizia que ia mudar tudo e que a gente ia passar por uma nova era da imagética, onde a gente viveria no mundo da imaginação. Eu falei: é isso que eu quero. Eu fiquei fascinada por aquilo. Gente, a Viagem à Era da Imagética era o universo virtual. Como estava se formando, não tinha nome ainda. Então era…

Luciano Pires: Que ano era isso?

Denise Pitta: Isso era 2004, 2005.

Luciano Pires: 2004. A internet tinha estourado a bolha três anos antes, quatro anos antes. Estourou a bolha. E a gente estava tentando se encontrar. O que vai ser?

Denise Pitta: O que vai ser?

Luciano Pires: Não tinha rede social ainda.

Denise Pitta: Não tinha rede social ainda.

Luciano Pires: Não tinha nada disso.

Denise Pitta: Aí durante esse livro, começou a aparecer o Orkut. Lembra do Orkut?

Luciano Pires: Lembro. Opa.

Denise Pitta: Aí eu fiquei fascinada. Eu queria fazer o meu TCC sobre Viagem à Era da Imagética. Aí os meus professores: não, porque você está tomando droga. Só pode ser. Isso não faz sentido. E aí nesse livro dizia assim, que, por exemplo, a gente não iria mais… nessa época, você ia dissociar da realidade e você não ia mais… a co-criação não era mais tão necessária. E que ia ser um mundo muito conturbado. Porque de repente, você tem todo o conhecimento do mundo nas suas mãos. Então morre alguém lá no Japão, então você ia precisar ter estabilidade mental. Então ele dizia que nós íamos nossos parceiros não mais por gênero – feminino ou masculino – mas por afinidade. Quem te ajuda a superar todo esse furacão. Eu fiquei encantada com isso. Daí eu falei: o meu TCC vai ser sobre isso. E meus professores: não, porque não tem sentido. Eu virei, olha: eu já tenho uma faculdade. Eu não preciso desse diploma. Eu fiz essa faculdade para mim, Denise, e me encantei. Sou maravilhada e muito grata por tudo que eu aprendi aqui. Mas eu vou fazer aquilo que eu quero fazer, que é Viagem à Era da Imagética. E dei uma banana para eles e fui fazer o que eu queria fazer.

Luciano Pires: Mas você terminou a faculdade?

Denise Pitta: Terminei a faculdade.

Luciano Pires: Então você entrou para ficar um ano e ficou…

Denise Pitta: E fiquei os quatro anos.

Luciano Pires: Fez os quatro?

Denise Pitta: E nossa… era na UNIP, eu acho que esse curso agora acho que são só dois ou três anos. E era maravilhoso. Porque naquela época tinham apenas quatro cursos de moda no Brasil, que era Anhembi/Morumbi, com negócios da moda. SENAC, com um tom mais de modelagem. Santa Marcelina era para você ser [convite], passarela. E UNIP que era focada no desenvolvimento de produto, que é você trabalhar no chão de fábrica, trabalhar nessa roupa que a gente está usando. Eu fiquei encantada com aquilo. Porque você tinha que entender um pouquinho. Era uma engenharia. A roupa é uma engenharia. Se você erra a cava, pega o braço, aquilo vai para o…

Luciano Pires: Já era. Sim

Denise Pitta: Aquilo já era. Você tem que entender, você tem que prever comportamentos. A roupa é feita anos antes. Ela é pensada anos antes. Por exemplo, você está usando essa roupa. A gente, quando está usando uma roupa, que nem agora, as pessoas estão… a confecção está trabalhando no inverno que vem, que vai ser lançado no meio do ano. Elas estão trabalhando nesse…

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Só que isso tem que estar pronto. Elas estão finalizando esse inverno. Eles começaram – os estilistas – a trabalhar esse inverno lá no meio do ano passado. Porque ele agora tem que estar pronto, já estar em posição de venda. Então vai ser disseminado. Vão ter as feiras. Os lojistas…

Luciano Pires: Tem toda uma cadeia. Você tem que produzir a estampa lá atrás. A estampa que vai ser usada. Tem que mandar fazer; tem que produzir; tem que desenhar; tem que recortar…

Denise Pitta: Tem que vender.

Luciano Pires: Tem que distribuir.

Denise Pitta: Para chegar isso lá, tipo para o próximo inverno. Só que para chegar na mão do confeccionista para ele produzir essas peças, você tem aí o botão, a matéria prima. Você tem o tecido. Por exemplo, se for algodão, ele foi plantado três anos antes. Então é uma cadeia que são quatro, cinco anos até a roupa chegar em você. São quatro; cinco anos. Toda essa cadeia tem que chegar lá e tem que vender, tem que captar esse desejo. Tem que chegar lá e… como eu falei, a gente não usa roupa. A gente se expressa. Então tem sociólogos, psicólogos. Então a gente vive atrás de macrotendências. Tendência é seguir um rumo. É seguir uma direção. Porque tem que bater no final. Você tem que olhar aquela roupa e se identificar com ela e comprar aquela roupa.

Luciano Pires: E isso é uma dimensão fascinante, essa história da moda. Eu sou um pouco mais velho que você, pelo menos uns 20 anos. E eu sou da época… eu passei pela época dos anos 70. A consciência jovem. Os meus 20 anos foram ao longo dos anos 70. E era uma época que a moda tinha alguns ícones. Então ícone quem era? Era o estilista Dener, depois o Clodovil. Então havia um lance em que a moda começou a surgir como algo… era muito maluco aquilo. Aquelas roupas esquisitíssimas. Eu falava: que absurdo. Ninguém nunca vai usar um negócio desses. Então, mulher vestida de arame farpado. Isso é um absurdo. Eu acho que ninguém usou roupa de arame farpado. Mas, de repente, a estampa de arame farpado virou uma tendência, que no ano seguinte, estava todo mundo com estampinha de arame farpado. Só que isso eram anos 70, anos 80, anos 90. E o acesso, o que era? Era pela televisão, cinema, revistas. Então as revistas faziam muito essa coisa da moda. Começaram a surgir as supermodelos. Então tinha todo um glamour nisso aí, que construiu uma indústria bilionária, que era a indústria da moda, que era uma indústria de one away. Então o pessoal criava tudo e entregava para o povo. Só que você começa a mexer nisso com o surgimento de internet, que é two way. Não basta eu fazer e te entregar. A volta vem na mesma hora.

Denise Pitta: Vai junto.

Luciano Pires: Vem tudo junto. E eu me lembro que quando a internet chegou a moda foi uma das coisas tirou muito proveito dela. Porque os ícones começaram a aparecer ali. Começaram a aparecer os blogs, os blogueiros para todo o lado ali. E era um mundo que ficou ao alcance de todo mundo. Eu não precisava mais depender de uma revista importada para saber tendências. Agora, ligava o computador e estava na minha cara o que estava sendo feito no mundo inteiro ali. Foi a época que você começou a mexer.

Denise Pitta: Daí entrou o Fashion Bubbles. O que aconteceu? Eu tive esse choque quando eu cheguei na faculdade. Que a moda era muito mais só do que roupa. Era a segunda indústria que mais emprega no país. Ainda é hoje. Então, como é que uma indústria tão importante, que emprega mão de obra desqualificada, era tratada daquela forma. E quando eu vi as revistas da época, era ruim. Era só o hit da moda. O branco é o novo vermelho. O vermelho é o novo preto. E eu achava que não traduzia. Aquilo não traduzia o que era a moda de fato. Aí na faculdade, lembra que eu tive que economizar dinheiro. Eu tive que fazer uma iniciação científica para ganhar bolsa para poder… porque eu tinha que viver aqui. Eu estava me consolidando aqui. Então eu li todos os clássicos inspirados na moda. Eu fui entender que a moda era muito mais profunda. E eu me apaixonei por aquilo. Eu fiz iniciação científica sobre formação da identidade brasileira na moda. Então nisso, eu descobri que, por exemplo, era proibido no Brasil ter indústria. Não se podia fazer roupa aqui na época da colônia. Por quê? Porque você forma identidade. Então você tolhe tudo. Então a primeira referência de uma coisa brasileira foi acho que D. Pedro, que ele usou um cocar indígena. Então essa primeira referência de… eu acho que foi D. Pedro II. Agora não me… faz tempo já que eu estudei isso. Então, a primeira referência de identidade brasileira surgindo. Então no começo era tudo copiado. Até hoje a gente tem essa referência da cópia.

Luciano Pires: Tem uma história interessante. Quem primeiro abordou muito foi o Peninha, foi o Eduardo Bueno, com o livro que ele lançou lá sobre o descobrimento do Brasil. Ele comentava lá. Ele falou: o português desce, chega aqui, desce. Então o que acontece? Ele chega na praia, vêm os índios nus recebê-lo. E ele desce de veludo. Vestido de veludo da cabeça aos pés. 45 graus à sombra. Ele de veludo. Fedendo. Um horror. Um século sem tomar banho. E aí tem aquele choque. Então eu chego num país, está todo mundo pelado, vivendo num país tropical, tomando 10 banhos por dia. Chega o europeu com aquela coisa. E a moda brasileira é a tendência europeia.

Denise Pitta: Até os anos 20, imagina que no Nordeste, eles usavam casacos de pele. Porque eles seguiam à risca…

Luciano Pires: O modelo de lá.

Denise Pitta: O modelo de lá.

Luciano Pires: Imaginar o seguinte: ainda hoje no verão brasileiro de 40 graus, se você for no Rio de Janeiro tem cara de terno e gravata.

Denise Pitta: Sim.

Luciano Pires: Andando de terno e gravata no Rio de Janeiro. Você fala: isso não faz o menor sentido.

Denise Pitta: Porque é uma construção. À medida que você se constrói como país, que você constrói as suas bases, os seus valores, automaticamente essa identidade vai surgindo.

Luciano Pires: E ela empresta elementos de todas as origens aí.

Denise Pitta: Uma das nossas características é misturar. A gente incorpora tudo. Tudo que está no mundo a gente… a gente faz a cópia. Mas a forma… a gente é um povo muito sensual, até por esse calor todo e tudo mais. Então a gente pega e faz uma releitura que é só nossa. Não tem jeito. Você acaba colocando. Seja na sensualidade, seja na forma de compor. Por exemplo, eu trabalhei como estilista. Daí logo que eu cheguei na faculdade de moda, a coisa que eu mais admirei em São Paulo é que, diferente de Salvador, que eu precisava de uma indicação para conseguir os trabalhos, é que eu colocava o meu currículo debaixo do braço e em um mês eu estava trabalhando. Quis sair desse, fui para outro melhor. Aqui, com a força do seu trabalho, você crescia. Eu não precisava que ninguém me indicasse. Então eu descobri o mundo. Foi maravilhoso. Então eu trabalhei numa empresa que se chamava Ravage, que era detentora da Quiksilver na época. Então eu fiz parte das coleções da Quiksilver e Roxy, por conta do meu trabalho, sem precisar da indicação de ninguém, eu fui crescendo.

Luciano Pires: Como estilista? Deixa eu pegar isso aí. Quando você termina a faculdade de moda e você pega o teu certificado na mão, você se dizia o quê?

Denise Pitta: Na verdade eu já cheguei aqui formada, lembra?

Luciano Pires: Então, mas você se formou em artes plásticas.

Denise Pitta: No primeiro mês eu comecei a trabalhar com moda. Não tinha. Você era estilista mesmo.

Luciano Pires: Você já era estilista. Isso estava claro para você?

Denise Pitta: Não. Aí você entra como estagiária. Eu tive que fazer…

Luciano Pires: Não. Eu digo: mas estava claro para você o caminho que você escolheu? Eu vou ser estilista.

Denise Pitta: Estava. Era o meu sonho, eu vim para São Paulo…

Luciano Pires: Vou trabalhar com moda, significa ser estilista. É isso?

Denise Pitta: Na minha cabeça era.

Luciano Pires: Era isso?

Denise Pitta: O meu sonho era fazer roupas de passarela. Tanto que eu fui trabalhar em confecção. Eu entrei como estagiária, desde o chão de fábrica. Passei do chão de fábrica, por todos ali, até chegar lá onde eu queria mesmo, que era o desenvolvimento. Que era o meu sonho: criar roupas. Só que quando eu cheguei aqui era aquela época da chapinha. E eu sempre fui meio descabeladinha. Eu nunca consegui me encaixar em padrão nenhum. Eu brinco que eu sou meio nômade. Eu não consigo encaixar em… tanto que logo no primeiro dia da faculdade de moda, eu já arrumei uma confusão. Eu já cheguei lá e falava assim: eu não quero ser vaca holandesa. Vaca holandesa que anda tudo igualzinho. Esse negócio de cor da moda, de ter que seguir uma tendência, isso é muito chato. Porque eu não quero ser vaca holandesa. Aí até que eu fui descobrir que havia uma indústria. Que, por exemplo, esse seu tecido – como a gente estava falando antes – alguém plantou. Ele precisou de cinco anos para chegar aqui. Precisa ter alguns caminhos para bater no final. Pink está na moda. Violeta está na moda. Mas tem que ter a linha que vai costurar isso daí, que foi feita dois, três anos antes. Então tem que ter uma cartela, tem que seguir, porque é uma indústria que você está falando. Então até eu entender que se falava de uma indústria. Até eu entender que tem que ter sim, alguns segmentos foi um tempo. E aí nessa época, eu trabalhando já, eu tinha um chefe que falou – eu tinha dois anos de São Paulo – ele me chamou na salinha dele e falou que eu não podia andar com aquele cabelo, que não representava a empresa.

Luciano Pires: Que cabelo era? O que era?

Denise Pitta: Eu tinha o cabelo meio esvoaçante, meio…

Luciano Pires: Era uma Gal Costa?

Denise Pitta: Nada.

Luciano Pires: O que era aquilo?

Denise Pitta: É que todo mundo usava chapinha. Todo mundo. E o meu cabelo é bem fininho e leve. Então eu ando no vento e ele fica assim. Então, esvoaçado. Então ele me chamou. Aquele cabelo não estava adequado. E eu tinha sotaque. Aquele sotaque não representava a empresa. Eu olhei aquilo, eu fiquei tão decepcionada com aquilo. Porque eu estava chegando em São Paulo. E eu achei aquilo… aí eu decidi que eu queria empreender. Eu falei: eu vou montar minha marca. Eu vou fazer o que eu tenho vontade. E aí quando eu terminei a faculdade, no ano seguinte, eu me juntei com uma colega, a Giuliana Possato. A gente montou a Lilith, que era uma marca de lingerie. E aí é que tudo começou. Aí o que aconteceu nessa época? Eu tinha passado do chão de fábrica até chegar ao estilo, todo o percurso. Só tinha um lugar que eu não tinha trabalhado. Que era a venda. Eu odiava vender. Eu odeio vender até hoje. Eu não entendia. Eu queria fazer passarela. Eu queria captar as tendências.

Luciano Pires: Era uma artista. Era uma artista.

Denise Pitta: Aí tinha que vender as peças. Aí pronto. Aí ferrou. E duas estilistas sonhando com as rendas de Paris. Sonhando com a renda delicada. O que vendia era florzinha amarela.

Luciano Pires: Então vocês iam começar a empreender. Vocês iam virar empreendedoras. Do artista, que é pago para inventar moda, você, de repente, ia virar uma empreendedora que, tudo bem, tem o lance do artista, mas tem todo um lado de gestão.

Denise Pitta: Tem que vender…

Luciano Pires: A venda, a gestão do negócio. Tem que pagar conta. Tem contabilidade. Se tiver funcionário, tem que comandar funcionário e tudo mais. Não passava pela cabeça de vocês, o tamanho que era essa encrenca?

Denise Pitta: Não.

Luciano Pires: Vocês estavam pensando na arte?

Denise Pitta: Exatamente. É que criar é uma partezinha. É uma parte importante. Mas você tem a venda, que é da onde vem o recurso. Então a gente fazia aquela coleção supertrabalhada. Naquele momento, a mulher estava descobrindo a sua feminilidade. A roupa íntima era feita pelo homem e não traduzia a mulher. Teve até uma novela da Globo nesse ano, chamada Belíssima, que falava desse universo da lingerie e dessa descoberta da mulher, da lingerie para a mulher. E essa era a proposta. A lingerie para a mulher. Então pensada na mulher, no cuidado com a saúde. Nas inseguranças da mulher. Então era bem legal. Eu tinha um cuidado com as costureiras. Você não pode… todo mundo tinha que ganhar na cadeia. Que é uma coisa que veio a popularizar hoje. Naquela época – a gente está falando de 2005 – não era. Então, o que acontecia? A gente fez um produto muito sofisticado e que ainda era perturbador. Então tinha lingeries mais sensuais minhas assim, tipo sex shop mesmo. Mas não com o olhar do homem, com o olhar da mulher. Então causava certa perturbação. Aí a gente fez um produto que era… a gente na verdade, viu uma oportunidade e precisava fechar o número de produtos. Que era uma coisa bem mais simples e dentro de um padrão estético que a gente considerava meio breguinha, usando essa palavra. E aí vendeu tudo. Eu falei: gente… enquanto que a outra, que era sofisticada, uma renda extremamente trabalhada, não vendeu tão bem. Eu falei: a gente tem que rever isso. Porque o que vende…

Luciano Pires: É o breguinha.

Denise Pitta: Exatamente. Era uma borboleta amarela. Um negócio assim. Aí minha sócia falou: eu não quero pôr o meu nome nesse tipo de produto. Aí eu já vi que tinha que manter o sonho. Porque as pessoas se encantavam com aquele outro produto. Eu fiz uma onça rosa na época. Onça estava fora de moda. E começou a aparecer naquele momento. Eu fiz essa onça pink. E tinha a mesma onça bege. Elas se encantavam. Elas ficavam apaixonadas por aquele conjunto de lingerie pink com aquela onça pink. Mas elas levavam – naquele período…

Luciano Pires: A borboletinha.

Denise Pitta: Mas era aquele sonho. Então eu já vi que tinha que ter uma alteração. Então a gente separou a sociedade. E nesse momento estava despontando a internet. E você vai lembrar disso. Tinham os sites em flash, lembra?

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Que tinha coisa que mexia; que voava. E era o sonho de consumo. Eu falei assim: já pensou as lingeries terem um site daquele? Era flash. Eu falava: porque daí eu vou alcançar o Brasil. Eu tenho que conseguir ter um site desses. Só que era uma fortuna. Era muito, muito caro. E aí nessa época me falaram que tinha essa ferramenta – foi até meu irmão – chamada blog. Mas o que era blog? Eu vou ter um site? É tipo um diário virtual. Eles falavam: é tipo um diário virtual. Mas ninguém entendia. Não existia blog naquela época. Mas eu vou ter um site? Você vai estar na internet de algum modo. Eu falei: então eu começo com essa coisa do blog e depois eu faço o site oficial. E daí nasceu Bastidores da Moda. Porque eu queria mostrar o que tinha por trás de todo aquele glamour. A indústria, a costureira, como que era feito, como que eram captadas essas tendências.

Luciano Pires: Ele nasce não com a intenção de ser um instrumento de venda dos teus produtos…

Denise Pitta: Também.

Luciano Pires: Mas isso estava embutido numa ideia de: eu vou gerar conteúdo a respeito desse universo…

Denise Pitta: E boto as lingeries lá.

Luciano Pires: E boto as lingeries. Isso é muito moderno.

Denise Pitta: Bastidores da Moda.

Luciano Pires: Isso é a discussão de hoje.

Denise Pitta: Exatamente.

Luciano Pires: Hoje em dia que você discute. Você não pode pensar no teu produto… pense em gerar conteúdo e o produto vai sair na sequência. Você já estava vendo isso lá atrás?

Denise Pitta: Isso em janeiro de… eu tinha feito o TCC lembra, sobre a Era da Imagética?

Luciano Pires: Sim, sim.

Denise Pitta: Que deu a maior confusão. Que os professores não queriam me deixar de jeito nenhum. Então eu falei: deem a nota que vocês quiserem dar. Mas eu já tenho um diploma. Eu não preciso desse. O que eu quero fazer é estudar isso.

Luciano Pires: Claro.

Denise Pitta: Então eu já comecei a andar junto de toda essa questão que estava acontecendo, da internet. Que depois criou esse conceito de redes sociais, universo virtual. Porque esse nome estava ruim mesmo. Porque não é imagético, da imagem, da imaginação. É uma segunda vida. É uma vida virtual.

Luciano Pires: Sim, sim.

Denise Pitta: Só que imagina que quando aquele livro foi escrito ele…

Luciano Pires: Não tinha internet.

Denise Pitta: Não.

Luciano Pires: Não tinha. Eu imagino.

Denise Pitta: Não. Ele deu os nomes que… era a Melinda Davis, na verdade. Ela deu os nomes que…

Luciano Pires: Que tinha à mão.

Denise Pitta: Mas tudo aconteceu. Ela falou das amazonas. Ela falou dos haters. Ela falou de uma época tão complexa, que você vai precisar de consultores para ensinar a fazer as coisas. Eu fico impressionada como ela… tudo dos últimos 15 anos está nesse livro. Eu falo: como é que ela conseguiu acessar tão…

Luciano Pires: Não. Têm coisas que são… são inexplicáveis.

Denise Pitta: Exatamente. Aí nisso, esse estudo, que eu acabei também pesquisando vários filósofos que andavam juntos. Inclusive entrei em contato com um livro chamado A Transparência do Mal, de Jean Baudrillard, que ele falava que a gente ia viver o mundo da pós-orgia. Onde tudo tinha… tudo podia. Tudo tinha sido destruído. Tudo podia… era a pós-orgia. Tudo pode. Quando tudo pode…

Luciano Pires: Nada faz sentido.

Denise Pitta: Nada faz sentido. Então, ele falava da reconstrução. Aí eu comecei a perceber que a gente, na verdade, estava passando por uma transição de cultura. Aí nesse período eu comecei a perceber que a gente, na verdade… está nascendo… eu vou usar essa palavra: uma nova consciência. Mas pode ser uma nova era. Uma nova forma de pensar.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: E aí o que acontece nessas horas? Aquela outra forma de pensar desconstrói. Aí eu encontrei outro livro, que falava assim: que a transição de consciência que a gente passa nesse momento é de magnitude. Sabe? Das ruínas de Roma nasceu o cristianismo.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Das ruínas da gente nasce uma nova forma de pensar. Então todos os valores caem, tudo fica líquido. E agora a gente começa a ver nascer uma [inint 00:36:30] ainda. E eu acredito que o coronavírus é um marco histórico para isso. Então eu comecei a ter contato com isso. Daí nasceu toda essa forma de pensar, dos bastidores da moda, de levar. Aí nesse momento, eu descobri que nessa nova… ainda tem uma nova economia também. Porque a gente estava vivendo a terceira revolução industrial. Terceira e quarta revolução industrial. E isso já é um pensamento do Vilém Flusser, que é um filósofo que viveu aqui no Brasil, inclusive. Tem um livro roxo dele que é fantástico. E aí ele assim: que a primeira revolução industrial, machadinho de pedra. Você estava na natureza, você ia com o gado. Onde tinha o alimento você ia. Gado não tinha nessa época. Então você era nômade. Segunda revolução industrial, da máquina. Você colocou todo mundo nos centros urbanos, porque era mais barato trocar o homem do que trocar a máquina. E aí a terceira revolução industrial, à época dos aparelhos eletrônicos, que agora você volta a ser nômade. Você não precisa mais estar aqui no centro urbano, todo mundo um em cima do outro. E aí os seres humanos vão morrendo e você vai trocando eles aí no… não. A gente vai poder se integrar à natureza de novo. Eu com telefone na mão e internet, eu posso produzir de qualquer lugar do mundo. Então eu já tinha entendido que ia mudar tudo. Então daí nasce os Bastidores da Moda. E aí dentro dessas coisas…

Luciano Pires: Era um blog chamado Bastidores da Moda?

Denise Pitta: Bastidores da Moda. Aí dentre essas coisas tem a economia da abundância, que ele fala. É onde você compartilha o seu conhecimento. A outra economia é a economia da escassez. Eu tenho lá 100 camisas. Eu vendo as 100 camisas, exaure esse estoque. Na economia do compartilhamento, quando eu compartilho é como uma vela que acende outra vela. A gente ilumina mais junto. Então eu montei o blog, chamei meus professores, o meu irmão. Todo mundo veio fazer parte. Ele já nasceu colaborativo. Então eu tinha uma professora que tinha feito um mestrado de tribos urbanas. Ela cedeu. E aí até os professores que tinham criticado, eu levei todo mundo para fazer parte do… aí meu irmão se encantou e meu cunhado, que você conheceu, Carlos Alberto Silva e Edgar Pitta, eles se encantaram como todo aquele… aí o Edgar que sempre também quis ter um blog veio junto. Começou a fazer a parte técnica. Só que ele falou: Denise, essa coisa de Bastidores da Moda é coisa de operário padrão. E ele trouxe esse nome: Fashion Bubbles, de bolhas da moda. Nessa época, eu pensava que moda era efêmera. Não é. Ela, em média, leva 15, 20 anos, nesse período. Mas antes ela era bem mais lenta para trocar as tendências. Moda não é… o que você muda, você precisa movimentar a indústria. Então agora é listra vermelha que está na moda. Não. Daqui a seis meses você fala que é o plissado, que é a mesma referência de listra. Não. Agora é [inint 00:39:10]. É isso que muda. Mas a tendência da listra permanece ali.

Luciano Pires: Quando que dá o click em vocês, de que o business não era a roupa ser vendida, mas o business era o Fashion Bubbles?

Denise Pitta: Então, aí o que aconteceu? Antes, nessa primeira fase que eu montei as lingeries, a gente fazia os bazares lá na casa do meu irmão e do meu cunhado, das lingeries e tal. Só que tinha que produzir as peças. E produção ocupa um tempo enorme. Produção ocupa muito tempo. Então lembra que eu tinha feito iniciação científica lá na faculdade, que eu sou filha de historiadora e de…

Luciano Pires: Sim, sim.

Denise Pitta: E que era super ruim a imprensa da época? Eu peguei esses trabalhos que eu fiz na iniciação científica e dividi em capítulos e ia postando. Porque eu não tinha tempo de escrever. E não tinha aquele conteúdo. Foi um negócio impressionante. A gente começou a crescer, crescer, crescer. A gente chegou a estar entre os 800 sites mais acessados do Brasil e entre os 4 mil de Portugal. Foi um negócio. Aí chegou uma hora que eu tive… aí começaram a aparecer anunciantes. Aí o meu irmão… aí a gente trocou de nome para Fashion Bubbles. Aí a gente descobriu um nicho. Não havia conteúdo para pesquisa de moda mesmo. A não ser aqueles artiguinhos, aqueles artigos com aquela visão mais comercial.

Luciano Pires: Comercial. Sempre comercial. Sim.

Denise Pitta: É. O hit da moda. Não havia estudos. Então aí os professores vieram com esses mestrados, tinha até doutorado publicado no Fashion Bubbles. Então assim, o Brasil inteiro começou a acessar. E aí o Brasil virou o país com mais faculdades de moda no mundo. E aí a gente virou uma referência de pesquisa de estudo.

Luciano Pires: Foi quando eu conheci vocês.

Denise Pitta: Exatamente.

Luciano Pires: Como é que a gente se conheceu? Você lembra?

Denise Pitta: Num evento. Que eu fiquei encantada. Era para ser tipo Epicentro não era? Era chamado Epicentro. Então era [inint 00:41:01] então eu te conheci lá. Me apresentei.

Luciano Pires: No Epicentro?

Denise Pitta: No Epicentro. O primeiro Epicentro que teve.

Luciano Pires: Não. O primeiro Epicentro foi aquele que foi um horror. Foi no alto de um prédio.

Denise Pitta: Isso.

Luciano Pires: Não cabia ninguém na sala. Foi lá?

Denise Pitta: Lá mesmo. Eu te conheci na cara dura lá. Fui lá e me apresentei. A gente fez amizade. Eu sou bem cara dura. Eu chego nas pessoas. Eu acho que o mundo não é um estilo. Se a pessoa tiver ou não. Eu já tenho. Se a pessoa me destratar também, paciência, problema dela.

Luciano Pires: A fila anda. Vamos para o próximo.

Denise Pitta: Tenho amigos maravilhosos, na cara dura assim.

Luciano Pires: Eu me lembro que depois eu fui visitar vocês lá na sede.

Denise Pitta: Na Vila Olímpia.

Luciano Pires: Vocês estavam com mil planos, que a coisa ia fluir.

Denise Pitta: Isso.

Luciano Pires: Eu falei: essa molecada…

Denise Pitta: É porque foi àquela época do gigante acordou. Sabe? O gigante. O Brasil vai ser o país do futuro.

Luciano Pires: Sim, sim.

Denise Pitta: Aí o que aconteceu nessa época? Aí bombamos. E sempre com essa veia do compartilhamento. Eu nunca quis trabalhar a minha imagem. Eu como blogueira. Não. A gente era compartilhamento de conteúdo. Tanto que todo mundo sempre assinou os seus artigos. É um orgulho. Que agora isso está na moda agora. Os jornalistas assinando os artigos, os autores e tal. Mas a gente já começou isso lá… a gente está falando, o Bastidores da Moda nasceu em janeiro de 2006. Ninguém nem sabia o que era blog. A gente divulgava no Orkut. E daí todo dia eu tinha o trabalho de divulgar em cinco comunidades. O Orkut tinha o negócio das comunidades. A gente ia e eu divulgava lá. E aí foi uma onda. E aí, de repente, o mundo se abriu. A gente nunca imaginou. A gente estava nos eventos. Inaugurações de exposição. Eu viajei para a França, para Milão, para feiras internacionais. A gente estava, de repente, nos principais… de repente, eu estava vivendo tipo um mundo que eu não tinha ideia. Então hotéis de luxo, eventos de helicóptero, limusine.

Luciano Pires: Era finalmente o glamour da moda, por um caminho que você nunca pensou que seria esse o caminho a ser traçado. Eu me lembro que me chamou a atenção quando eu fui conversar com vocês. Primeiro você, espevitada lá. Eu falei: essa menina tem energia. Ela vai fazer acontecer. Mas aquele modelo que vocês colocaram do Fashion Bubbles me interessava bastante. Porque eu tinha começado o meu site, que era o lucianopires.com.br, que nasceu assim também. Nasceu o site. Eu botei o site em pé e falei: esse site tem que ter vida. Eu não posso botar um site aí para, de vez em quando, aparecer alguma coisa. E aí eu fui buscar iscas intelectuais. Um monte de gente escrever para mim.

Denise Pitta: Isso.

Luciano Pires: Eu me lembro que ele tinha um modelinho parecido com o teu. E você estava focada num mundo e eu estava focado num outro mundo, que era o mundo do conteúdo provocacional, de cultura e tudo mais. Quando eu vi o modelo de vocês, eu falei: esse modelo é interessante. Eles estão conseguindo monetizar algo que para mim está muito distante ainda.

Denise Pitta: A gente foi um dos primeiros blogs a se monetizar na história.

Luciano Pires: Sim, sim.

Denise Pitta: Eu fui das primeiras blogueiras. Eu nasci em 2006. Montei o blog. Eu fui das primeiras blogueiras. Mas eu não trabalhei tanto a minha imagem. Aí naquela época a gente se você pega as revistas desse período, o gigante acordou. É um milionário a cada minuto no país. O Brasil vai ser as maiores economias do mundo. Então a gente se preparou para esse mundo. Todo mundo contratado, na CLT. A gente criticava os outros veículos: imagina, eles têm um negócio chamado freela fixo, que é contra a lei. Aí a gente arrogante. Porque a gente sabia mais que a Abril. A gente sabia mais que todos os veículos que estavam aí. Porque você fica inflacionado. De repente, você acessa uma energia que você não tem ideia. Então a gente ia para as festas dos quatrocentões paulistanos. Eu comecei a circular num mundo. Eu conheci a Milu, que é a maior herdeira do país. Eu comecei a circular num mundo que eu nunca imaginei. E você fica arrogante. Então todo mundo na CLT. A gente contratou. Fez uma estrutura para esse… só que aí…

Luciano Pires: 2008.

Denise Pitta: Estourou a primeira crise. A gente já ficou…

Luciano Pires: Claro.

Denise Pitta: Mas foi uma crise… gente foi um sufoco. Parou tudo. Todos os contratos cancelados. Todos os… e a gente fez aquela estrutura. A gente pegou e investiu. Aí a gente fazia Bubbles Times, espumante, porque era Fashion Bubbles. Porque era para sempre. Você fica tão arrogante que você não se estrutura. Você pensa que… então gente: muito cuidado com a inflação. Porque sempre que vem uma inflação, vem um movimento de igual proporção para fazer o ajuste do ego, o ajuste das estruturas, que é a deflação.

Luciano Pires: Você sabe que a gente, só agora, 12 anos depois, nós estamos conseguindo dimensionar o impacto que foi aquela crise de 2008.

Denise Pitta: Nossa… foi um negócio…

Luciano Pires: Na época foi uma crise, etc. Mas a gente não tem dimensão do impacto cultural daquela crise. Agora que nós estamos vendo. Eu publiquei agora essa semana, um pod sumário. O Encantador de Millennials é o nome. E lá o autor explica. É um livro lançado nos Estados Unidos, The Millennial Whisperer, o nome do livro. Ele explica essa geração millennials. Ele fala: essa geração você divide em dois. Ela tem o millennial mais antigo e o mais novo. O pessoal que nasceu de 1986 até 1994. Mas ela está dividida em duas partes. Então tem os millennials mais antigos, que eram os caras que fizeram tudo que os pais mandaram direitinho, arrumaram seus empregos. Em 2008 estoura a crise e esses caras foram todos mandados embora. E eles olham para aquilo e falam: fiz tudo certinho e essa é a minha recompensa? Eu quero que esse mundo se foda. Eu vou cuidar da minha vida. Eu quero fazer que nem o Mark Zuckerberg. Eu quero que dane-se isso tudo. Eu não vou querer me aposentar em lugar nenhum. E aí tem a geração dos millennials novinhos, que era a molecada adolescente, que viu isso acontecer com o irmão mais velho. Viu os pais perderem o emprego. E essa molecada olhou e falou: esse mundo eu não quero. Eu quero o meu outro mundo. E essa molecada já nasce com smartphone na mão e tudo mais. Então, a crise de 2008, 2009 foi um momento de impacto, que mudou a história da humanidade. Então tem uma geração inteirinha que não quer aquilo de novo.

Denise Pitta: Aí você começa a lutar pelo seu sonho. Você começa a abdicar da estabilidade.

Luciano Pires: E não quer depender daquilo. Eu não vou depender desse negócio, que a hora que der errado, eles puxam o meu tapete. A mim pegou na decolagem. 2008 foi o ano que eu saí da empresa, depois de 26 anos e montei o Café Brasil Editorial. Ele nasce com a ideia de ser uma editora. Nasce lançando 4 livros. E eu saio. Eu monto o projeto inteiro e começo a trabalhar em abril. E setembro tem a crise. E aí aconteceu comigo o que aconteceu com você. 70% do meu negócio desaparecem. Acaba palestra. Acaba investimento. Não tem mais dinheiro. E eu passo três anos pagando para trabalhar.

Denise Pitta: Eu tive que vender carro. Aí eu tive que me desfazer daquela estrutura. Tinha meninas que estavam comigo há cinco anos. Só que para demitir, para desfazer a estrutura…

Luciano Pires: Então? Deixa eu explorar um pouquinho isso em você. Porque esse programa aqui é liderança e empreendedorismo. E tem algumas coisas que são muito importantes de a gente entender como é que aconteceu, até porque pode, a qualquer momento, acontecer de novo. Você está ouvindo LíderCast, que faz parte do Café Brasil Premium, a nossa Netflix do conhecimento, que redefine o termo estudar, ao transformar o seu smartphone em uma plataforma de aprendizado contínuo. Para assinar acesse confraria.cafe. De novo: confraria.cafe. Lá você conhecerá os planos para se tornar um assinante. E terá acesso exclusivo aos bastidores da temporada do LíderCast e a muito conteúdo original. Além disso, contribuirá ativamente para que este conteúdo chegue para muito mais gente gratuitamente. Tem um plano lá que custa 12 reais por mês, cara, 12 reais. Uma latinha de cerveja quente. Todo mês, esse dinheiro fará com que você nos ajude a continuar crescendo e fazendo com que nossa voz seja ouvida por mais gente. Você estará contribuindo ativamente com a nossa causa, pela defesa da liberdade e da independência individual. De novo, vem para cá: confraria.cafe. Vocês estão lá a milhão, crescendo. A coisa está indo à milhão. Que maravilha. E, de repente, estoura uma crise como essa, que a gente começa assistindo a crise. É lá. O negócio é nos Estados Unidos. É um banco que quebrou. Aqui não vai parar. Vai continuar, vamos tocar.

Denise Pitta: Vamos manter a estrutura.

Luciano Pires: E pouquíssimas pessoas sacam a encrenca que vai ser lá na frente. E a gente continua tocando os negócios, fechando contrato e tudo mais. Como que é aquela… quatro jovens. Vocês estavam em quatro?

Denise Pitta: Três.

Luciano Pires: Três jovens construindo o negócio todo. E, de repente, o tapete é puxado.

Denise Pitta: O primeiro impacto foi exatamente isso. A gente pensou: é lá. Vai voltar ao normal. Então a gente não mudou a estrutura. A gente continuou tentando, aos trancos e barrancos. Só que a gente começa a se culpar também: você podia fazer isso. Você podia ter feito aquilo. Então a gente optou por desfazer a sociedade. Porque não estava mais sustentável. Mas a gente pensava que era uma coisa que ia passar. A gente pensava que todo aquele Brasil… até que quando… veio uma revista com o Brasil para baixo. E a gente entendeu que era… que não ia passar. Que era diferente. Que tinha tudo mudado. Isso foi 2012. Desde 2008 a gente segurou a estrutura, bancando, até 2012. Que foi quando a gente resolveu separar. Só que para separar para tudo. Para tudo. Vamos reorganizar. Então a gente optou por separar, porque não era sustentável. Não tinha como manter todas aquelas pessoas. E aí o que acontece? O comércio virtual, que era quem deveria sustentar o site, ele não cresceu no Brasil como cresceu lá fora. Ele teve resistência. Tanto que antes da pandemia, a maior parte dos grandes grupos, por exemplo, Netshoes estava para ser vendido. Eu nem sei se foi vendido ou não, como é que ficou. Mas as revistas começaram a fechar, nessa transição do virtual, começou a fechar. Grandes revistas, grandes sites. Eu lembro que tinha um site chique da Glória Kalil, ele fechou nessa época. Os maiores sites começaram a fechar. E aí o que aconteceu? A gente separou a sociedade. Foi superdelicado. Porque tinha uma história ali. Aí eu tentei manter…

Luciano Pires: Tinha o irmão.

Denise Pitta: Irmão. É difícil trabalhar com família viu? Conseguimos. Foi um ano para separar a sociedade. Mas aí o que acontece? Eu tive que me desfazer daquela estrutura. Então eu fiquei sem nada. Eu vendi, porque tinha que demitir. Tinha que reestruturar tudo para encaixar. A gente tinha montado escritório. Você chegou a conhecer.

Luciano Pires: Sim, sim.

Denise Pitta: Então eu voltei a trabalhar em casa. As meninas aí já eram freelas.

Luciano Pires: Então, mas o business que vocês anteviram ali, que vocês olharam: a gente está desmontando isso aqui para surgir algo novo. Esse algo novo era algo diferente ou era o mesmo negócio? Era o mesmo negócio num formato diferente, com sufixo menor? Como que era?

Denise Pitta: O que acontece? A gente fica pensando que a tecnologia é completamente diferente. Não. A tecnologia é uma nova forma de fazer aquilo que você já fazia. Então a gente mandava carta não mandava?

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Vem a tecnologia. Agora você manda e-mail. Você tinha as revistas, não tinha as revistas e livros?

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Vem a internet e você monta os sites. Então de fato, era diferente. Porque era muito mais rápido. Por exemplo, quando eu surgi como blogueira, olha a confusão, os veículos tinham um jornalista que escrevia. Eles iam com um fotógrafo que fotografava e tudo. E eles tinham um editor que juntava tudo. Então cada pessoa… quando a gente chegou era a gente que fazia tudo, a gente fotografava. Então a gente…

Luciano Pires: Numa máquina digital.

Denise Pitta: Numa máquina digital.

Luciano Pires: Imagina. Quando você fala assim é um negócio absolutamente anacrônico. Eu me lembro que eu briguei a vida inteira. No tempo que eu estava na empresa, a gente fazia muito vídeo. E tinha um pessoal amigo meu – eu preciso trazer o Élder aqui ainda – que tinha uma produtora. E eles trabalhavam para a gente; a produtora. E eu pegava no pé dos caras. Eu falei: eu tenho que gravar um vídeo institucional. Mas bicho, vocês chegam aqui com caminhão de externa. Vocês me estendem cabo pela empresa inteira. Vocês botam iluminação. Isso aqui vira um inferno, para você gravar quatro minutos. Para com essa merda. Você não tem como trazer uma câmera pequenininha? Mas não havia tecnologia para isso na época. Para obter a qualidade que eles precisavam lá na ponta, o [matick] eles tinham que ter essa estrutura.

Denise Pitta: Fazer tudo aquilo.

Luciano Pires: Eu falei: isso é muito caro. Esse negócio é horroroso. Eu estou falando de 1997, 98. Eu falava: esse negócio é anacrônico. Eu não quero esse tipo de coisa. Para com essa merda toda. E resisti de fazer muita coisa. E eu brigava com ele. Ele falava: não tem tecnologia ainda. A câmera pequenininha ainda custa muito caro.  E a tecnologia quando chega e bate para valer, ela destrói toda essa indústria anterior.

Denise Pitta: Tudo que tinha. Quando a gente chegava, a gente já tinha a nossa câmera. Então a gente ia lá, a gente entrevistava. Então os jornalistas achavam um horror, porque a gente ia destruir aquele outro…

Luciano Pires: Claro. Esses amadores. Cadê a iluminação? Não. Espera um pouquinho. Com essa camerazinha aqui vai tremer. Vai tremer. Ela treme. E houve uma resistência.

Denise Pitta: Foi uma revolução. Eu tinha preconceito. Eu era destratada. Era assim…

Luciano Pires: Claro. Mas era aquela história. Nós fomos criados para o padrão de qualidade Globo. A gente foi criado assim. A minha geração nunca aceitou menos do que padrão de qualidade Globo. E essa tecnologia trouxe a quebra disso tudo. Aliás, a pandemia é o cúmulo da quebra. A pandemia ensinou para a gente que live cai, cachorro late. E não tem problema nenhum.

Denise Pitta: Faz parte.

Luciano Pires: Passa o marido pelado lá atrás. Faz parte do jogo.

Denise Pitta: Vamos que vamos. Até entender isso…

Luciano Pires: Isso. E aí a gente olhou e falou: o que me interessa? Me interessa o conteúdo que está sendo veiculado lá.

Denise Pitta: Aí essa foi a revolução. Esse foi o grande barato. Por que lembra que eu sou do interior do interior da Bahia? E eu pensava diferente. Eu vim dessa família, dessa mãe. Então assim, eu não me achava. Eu olhava aquelas roupas daquele lugar, eu não me achava. Eu não me achava muito. A gente foi criado por uma cultura muito maior. E quando eu vi a internet, eu falei: gente, a gente tem que compartilhar conteúdo, para que todo mundo tenha chance igual. Então hoje olha o tamanho da revolução. Hoje eu posso estar de qualquer lugar. Tem Barreiras, que é o interior da Bahia. Mas também tem o interior de Barreiras, que chama Riachão das Neves, Cariparé, Catolândia. A pessoa está lá em Catolândia. E isso foi o que a gente viu. Essa foi a grande… o que me fez brilhar e o que me manteve nesse… o propósito que me manteve animada de não desistir em cada uma dessas crises, que foram muitas desde lá. Então eu falava assim: a pessoa está lá em Catolândia e hoje ela tem acesso ao conhecimento. Todo mundo.

Luciano Pires: Um dos maiores digital influencer do Brasil, que é o Carlinhos Maia, se eu não me engano…

Denise Pitta: Sim.

Luciano Pires: Esse cara veio do interior, do interior, do interior, gravando com um celularzinho horroroso. Pegando aquela realidade deles, que era uma realidade de pobreza. Quando que esse cara conseguiria…

Denise Pitta: Olha o poder disso. Olha o poder hoje de você ter o conhecimento do mundo na palma da mão. E não importa mais onde você estiver. Hoje, por exemplo, a pessoa que faz a parte técnica do Fashion Bubbles hoje está em Goiânia. Eu tenho jornalistas no Rio de Janeiro. Meu braço direito mudou para a Índia. A Fran está morando na Índia vai fazer um ano.

Luciano Pires: Na Índia?

Denise Pitta: Na Índia. Então ela continua escrevendo. E assim, não importa mais onde a gente está. Não importa. E eu me encanto. Eu sabia que cada artigo que eu disponibilizava na internet, eu estava fazendo diferença para alguém. E quando a luz da minha vila acende a luz de outra vela, a gente ilumina muito mais juntos. É a economia do compartilhamento. Não é mais a economia da escassez. Agora quando você compartilha o seu conhecimento, você está fazendo diferença no mundo. E ao compartilhar, a riqueza está aí. A gente, ao compartilhar… por exemplo, eu tive professores que já estavam numa fase meio decadente. Já não era mais convidado. Me cedeu o mestrado. Esse professor foi dar palestra no Brasil inteiro. Essa pessoa, depois de ceder esse conhecimento, ela virou coordenadora de curso.

Luciano Pires: A internet tem uma coisa fabulosa, que é a seguinte: não tem coisa velha na internet. Sabe o livro que foi editado em 1992 e foi parar num Shelter, enfiado num canto lá, aí ninguém nunca mais lembra daquilo. A internet não tem isso.

Denise Pitta: Não.

Luciano Pires: A internet traz para você a possibilidade de reaproveitar esse material todo. O que eu publico de textos antigos meus. Toda hora. Eu busco um texto de 2012 e trago, dou um tapa nele. E ele volta, ele roda e ele tem de novo alcance. As pessoas comentam: que coisa legal. Eu falo: mas esse é um texto… eu até brinco, eu boto o texto e no final: esse artigo é de 2007.

Denise Pitta: A gente faz isso também.

Luciano Pires: Isso que você falou do professor. Tem um cara que é gênio e está esquecido, porque o sistema não…

Denise Pitta: Não. Ele ficava esperando um livro. Não. Mas se ele compartilha esse conhecimento com o mundo. E hoje não é só com o Brasil é com o mundo. Ele, de repente, enriquece de novo, ele faz diferença.

Luciano Pires: Claro.

Denise Pitta: Aquilo que estava lá na gaveta esperando para virar um livro, ele traz riqueza de outra forma. E aí que é o barato. Uma das coisas mais bacanas de estudar moda, além de ser identidade de um indivíduo e de uma época, o mais fascinante que eu gosto da moda é a manifestação do novo na cultura. Lembra que eu falei das tendências, que é tudo muito adiantado?

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Então, dos aspectos mais interessantes da moda é a manifestação desse novo. Então, eu sou apaixonada por tudo que é futuro. Às vezes, eu entro em contato com uma tendência 15 anos antes. O povo me chama de maluca. Eu tenho fama de louquinha viu gente? Imagina eu lá no TCC. Eu descobri que, em média, eu consigo captar 15 anos antes. E aí quando você está antenado com aquilo, as coisas aparecem. Os livros, os embasamentos, começam a aparecer. E aí estudando esse novo na cultura, eu descobri todo esse novo mundo que vinha. De que a riqueza não é mais só o dinheiro. Uma das grandes tendências é que o dinheiro vai desaparecer. Então você tem que descobrir qual que é o seu valor e ele que vai ser uma moeda de troca. Então nos momentos em que eu fiquei sem dinheiro nenhum – que aconteceu – que eu tive que vender carro e tive que acertar; botar a vida em dia. Eu tinha que ter muito claro isso. Até porque algumas pessoas te humilham. Porque as pessoas falavam para eu desistir o tempo inteiro: mas isso não dá dinheiro. Como não dá dinheiro? Isso me dava viagens. Se eu colocasse tudo que o site me dava em dinheiro. Eu nem teria a mentalidade. Eu fiz algumas viagens internacionais, que nem se eu tivesse dinheiro, eu conseguiria fazer uma viagem daquelas.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Porque eu não teria a cabeça daquilo, o mundo que se despontou para mim. Então eu falava assim: me dá muito mais do que dinheiro. Eu conheci executivos do mundo inteiro. Eu fiz contatos com pessoas. Conheci você através do blog. Quantas pessoas maravilhosas eu conheci através do blog. Então ele dá acesso a um mundo que é muito mais que dinheiro. Tanto que hoje um dos efeitos colaterais da pandemia é que o comércio virtual ganhou energia.

Luciano Pires: Nossa…

Denise Pitta: Ele está bombando. E o dólar está a cinco. E quem paga…

Luciano Pires: Derrubou todas as barreiras.

Denise Pitta: E quem paga as propagandinhas é o Google. É em dólar. Então voltou com uma força assim… sites que tinham quebrado estão voltando. Os veículos estão voltando. Então a gente está a mil por hora. A gente está fervilhando novamente.

Luciano Pires: Eu estou tendo contato com muita gente que está abismada. Fala: a gente retomou agora aqui, com números superiores ao que era pré-pandemia.

Denise Pitta: Olha o que aconteceu. Em novembro do ano passado eu fui invadida. Quem trabalha com tecnologia, com site, o tempo inteiro tem que aprender. Uma das coisas, uma das principais habilidades, todo dia eu tenho que aprender coisa nova.  Uma ferramenta nova, uma forma de calcular. Você escreve um artigo de uma forma. Aí o Google faz uma atualização de SO, que são as técnicas para alavancar o artigo nas páginas do Google. Não é mais daquela forma que você está acostumado a escrever a vida toda, inteira. Agora você tem que escrever de outra… você tem que aprender o tempo inteiro. É bom que eu não vou ter Alzheimer, porque todo dia eu tenho que aprender.

Luciano Pires: Não para. Não dá tempo.

Denise Pitta: Bota o cérebro para trabalhar. E aí, o que acontece nesse processo todo? Quando veio essa coisa da pandemia, aí eu fui invadida. Colocaram 66 mil robozinhos, levando toda a audiência, autoridade. Eu fui para quase zero. Assim, eu tive risco de perder a empresa.

Luciano Pires: Como é que foi? Repete. Como é que foi?

Denise Pitta: Eu fui fazer uma atualização de tema e teve uma brecha. E aí nessa brecha, tinha uma entrada remota. E aí colocaram robozinhos.

Luciano Pires: Fazendo o quê?

Denise Pitta: Por causa da audiência.

Luciano Pires: Roubando a tua audiência?

Denise Pitta: É. Audiência e autoridade. Então, aí quando eu descobri, eu tirei daquela estrutura que eu estava. Mas os robozinhos continuavam. A gente não descobria da onde. Então, nada rodava. Porque os robozinhos consumiam toda a banda. Então a gente mudou de servidor. Imagina que é um tera de imagem. São 10 mil artigos. A gente mudou três vezes de servidor até descobrir que era nesse tema que estavam esses robozinhos. Então eu fui para zero de audiência.

Luciano Pires: Você sabe… eu não quero perder esse lance aqui. Eu botei a minha lojinha. Uma pequena lojinha no ar, um tempo atrás. Mas ficou naquela: eu vou arrumar a loja. Só vou fazer barulho com ela, na hora em que ela estiver prontinha, redondinha. E deixei. Aí resolvi agora, no meio da pandemia, eu falei: eu vou dar um tapinha nela. E preparei a loja, arrumei o que faltava lá e botei ela no ar. Em agosto, eu tenho um ataque na loja. Do dia para a noite, começa a vender e-book que é uma loucura. E eu olhei aquilo e falei: não é possível. Entrando assim: venda de e-book que não acabava mais. Eu falei: algum grande influencer deve ter falado dos meus e-books. O povo está vindo comprar. E os números não paravam. Oito mil pedidos de e-books. Eu falei: eu vou ficar rico vendendo e-book. Até eu bater o olho naquele negócio e falar: deixa eu ver essas vendas. Aí eu fui olhar a venda e comecei a ver um padrão. Os e-mails com número. O prefixo do telefone não batia com o lugar. Então, o cara era de Salvador com o telefone de São Paulo. Eu olhei e falei: esse negócio está estranho. Foi uma invasão, como você teve. Robôs que entupiram a minha loja de pedidos e explodiram a minha conta na Cielo. A Cielo me tirou do ar. A Cielo me botou numa blacklist lá e falou: esses caras estão com fraude. Era fraude.

Denise Pitta: O Google me colocou. Eu saí do Google.

Luciano Pires: Puta merda. E para limpar isso?

Denise Pitta: E para limpar isso?

Luciano Pires: A tristeza. Outro dia também. Eu estou até agora com rolo na Cielo, porque os caras: não, não. Então foi um horror. E é isso que você falou. Quando que eu poderia imaginar que ia entrar um ataque desse tipo? Eu falei: eu já recebi ataques…

Denise Pitta: Eu não imaginava também.

Luciano Pires: De hacker querendo algumas coisas. Mas politicamente eu estava… mas na loja, com excesso de pedidos eu não imaginava. Foi um trabalhão.

Denise Pitta: Então? Só que, o que acontece nesse período todo? Eu já aprendi que a minha riqueza não está só associada… e a minha família também sabe disso. Por exemplo, o meu marido vai para os eventos – eu envolvo ele também – ele vai para os eventos, ele viaja pelo Fashion Bubbles. Eu trouxe ele para escrever. Todo mundo escrevia, a família toda. Minha mãe virou escritora. Porque era essa ideia de compartilhar conteúdo de qualidade, desde que você tivesse… moda é o novo na cultura, como eu falei aqui: manifestação do novo na cultura. Então tudo que é uma atualização de consciência, tudo que é novo me interessa. Não importa se é de roupa, se é de tecnologia, se é de viagem, se é de liderança. Você também virou nosso colaborador.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Eu tenho alguns artigos seus lá. Então assim, eu descobri que o valor não está só no dinheiro. Tanto que hoje, quando eu tenho algum contato, o dinheiro é a moeda mais pobre que tem. O que essa pessoa tem a me oferecer? Porque, às vezes, a moeda que ela tem é muito mais valiosa que dinheiro. O mundo que ela vai me despontar e as oportunidades deste mundo. Então tem algumas pessoas que eu não cobro. Eu faço tudo de graça, porque ela vai me levar para esse mundo e quantidade de oportunidades que vão ter ali são muito maiores do que se eu cobrasse para fazer uma divulgação ou um post. Então eu já dissociei o site do ganho só do dinheiro em si. Ele tem um mundo de oportunidades. Então eu também faço uma moeda de troca. Por exemplo: o meu marido. A gente conheceu um alto executivo. Ele estava inclusive responsável pelo 5G da Itália. Só que ele tinha trabalhado muito tempo numa varejista imensa dos Estados Unidos, em autopeças. Ele tem loja de autopeças. A gente fez amizade com ele num evento. Ele já veio, fez uma consultoria na loja do Vinícius. Vocês não fazem ideia. Um cara daquele, primeiro: a gente nunca ia ter acesso. Ele trouxe. Ele passou um dia, ele redesenhou a loja do Vinícius. Quanto custaria uma consultoria daquela? 50 mil reais?

Luciano Pires: Pois é.

Denise Pitta: Então, eu já combinei com o meu marido. A gente já sabe qual que é o valor do site. Qual que é o valor não só financeiro. Então quando tem… e aí, claro, eu perdi toda a receita. Foi um investimento alto para poder reorganizar, até descobrir… só que tem que lembrar sempre que quando o site perde dinheiro, tem que lembrar de todas as outras moedas que ele nos traz.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Então assim, o site hoje nos abre um mundo que de outra forma a gente não teria acesso.

Luciano Pires: Você já começou a transicionar para comunidade? Trabalhar comunidades? Montar comunidade para você?

Denise Pitta: Preciso fazer isso. Está na minha lista fazer isso.

Luciano Pires: Isso que você está falando, na comunidade vai ao cubo. A comunidade é isso tudo…

Denise Pitta: Potencializa. É uma das macrotendências. É com o sistema rede comunidade.

Luciano Pires: É uma coisa impressionante.

Denise Pitta: É uma das macrotendências de trabalho.

Luciano Pires: Eu montei as minhas no Café Brasil Premium.

Denise Pitta: Eu tenho que… você sempre foi da comunidade, na verdade.

Luciano Pires: Então, mas quando eu montei a comunidade, a minha ideia era o seguinte: eu vou juntar um lugar, onde as pessoas possam ter uma interação comigo. E ali eu tenho facilidade para conversar com elas. Eu não tinha a menor ideia que a comunidade é um organismo vivo.

Denise Pitta: Sim.

Luciano Pires: Ela tem vida própria. Ela…

Denise Pitta: E hoje como que é essa estrutura da comunidade? É lá no próprio Café Brasil?

Luciano Pires: É. Então, o que eu fiz? Eu fui buscar… na época, quando você me conheceu, que a gente se conheceu lá, que eu tinha o site Luciano Pires. Eu tinha um fórum.

Denise Pitta: Eu lembro. Eu fiz parte.

Luciano Pires: Era uma loucura aquele fórum. Tinha dois mil e tantos participantes. Mas era um negócio… era muito louco aquilo. Porque ali era um esquema de fórum. É um negócio que hoje é absolutamente anacrônico. Hoje não funciona mais. Mas aquilo era uma loucura. Então as pessoas tinham uma interação. Era um negócio muito louco. Você botava um tema. Entrava um cara… era um negócio muito louco. Esse fórum acabou. Primeiro com uma mudança que eu fiz no site, que alguém iluminado veio com a ideia de mudar o site. Passou para um esquema [inint 01:07:39]. Fodeu com o meu fórum. O fórum foi desmontado. Foi um horror aquilo lá. Só que enquanto o fórum estava sendo desmontado, estavam surgindo com muita força as redes sociais. Então, aquele esquema do fórum, ele migrou para redes sociais, independente do que eu fizesse. Automaticamente as pessoas passaram a… então, reduziu comentário em site.

Denise Pitta: É. Site as pessoas não comentam. É Facebook e Instagram.

Luciano Pires: Foi todo mundo para lá. E eu estava vivendo essa transição. E aí no meio do caminho eu falei: eu preciso trazer esse pessoal de volta. Então, o que eu vou fazer? Eu vou partir para comunidade. Aí começaram: faça uma comunidade no Facebook. Eu falei: não, eu não gosto da dinâmica do Facebook.

Denise Pitta: Me cobram para fazer lá.

Luciano Pires: Eu falei: eu não gosto de lá. A dinâmica dele não me interessa. E outra: eu não quero estar na mão do Facebook. Não me interessa. Faça um grupo no WhatsApp. Não. O WhatsApp também é muito complicado. E aí vai. E aí eu fui para o Viper. Eu montei no comecinho. E daí eu migrei para o Telegram, quando o Telegram surgiu. E aí o Telegram foi uma loucura.

Denise Pitta: Eu tenho alguns grupos, que eu acabei não cuidando.

Luciano Pires: Foi uma loucura. Foi uma loucura.

Denise Pitta: Eles também falaram para abrir o grupo do Fashion Bubbles.

Luciano Pires: É fabuloso. É fabuloso. E aí eu montei o grupo. E o grupo começa a nascer. As pessoas chegam. Só que ele ganha vida. E ele começa a promover. O Telegram é caótico. Se você não souber lidar, o pessoal chega, assusta e vai embora. Quem sabe lidar entra lá e já começa a funcionar. Como funcionam as hashtag e tudo mais. Vira uma ferramenta maravilhosa aquilo ali.

Denise Pitta: Eu vou criar. Aprender com você viu?

Luciano Pires: À vontade. E ele ganha uma vida própria ao ponto de interações entre as pessoas ali. Assumirem um caráter que você fala: tem gente mudando a vida, porque está naquela comunidade. Então eu tenho mil exemplos. O pastor Rony Cleiton, que faz parte lá, ele chega, bota um comentário assim: pessoal, vendi um apartamento. Estou com 200 mil reais na mão e preciso aplicar. Como é que eu posso aplicar esse dinheiro? Durante 48 horas aquela comunidade vira uma consultoria de investimento financeiro, porque lá dentro têm cinco, seis, 10 caras do segmento de finanças. Então os caras entram lá: espera aí que é assim que funciona. Pega o teu dinheiro e põe em tal lugar. Não, não é bem assim. Põe ali. Mas como é que funciona isso?

Denise Pitta: Você amplia a consciência.

Luciano Pires: Todo mundo assistindo.

Denise Pitta: Você compartilha e o grupo todo evolui.

Luciano Pires: Todo mundo assistindo aquilo. Então o pessoal – eu fico até arrepiado – o pessoal olha aquilo e começa a seguir aquela hashtag. Vira um trabalho de consultoria que você não teria como ter a não ser chamando um consultor. Todo mundo de graça. Todo mundo fazendo aquilo pelo prazer de fazer aquilo. Recentemente agora, semana passada, um dos caras que está lá há bastante tempo pegou COVID. E aí ele começou a fazer o diário dele dentro da… o diário da COVID. E contando o que estava acontecendo com ele. Peguei a COVID. E ele foi ficando mal, mal, mal e foi parar numa UTI. E de dentro da UTI ele: estou numa UTI, a situação está complicada e tudo. Nasceu uma mobilização na comunidade. Esse cara recebeu um PodCast só para ele. Ele recebeu vídeo de todo mundo. Chegou cesta de café da manhã na casa dele.

Denise Pitta: Olha que acolhimento.

Luciano Pires: A família dele. Precisa de alguma coisa? Aquele grupo inteirinho, que não se conhece, se mobiliza à revelia. Eu não estava lá coordenando coisa nenhuma. Isso nasceu à revelia.

Denise Pitta: Espontaneamente.

Luciano Pires: Espontaneamente.

Denise Pitta: Olha a beleza da nossa época.

Luciano Pires: E aí você bota uma pergunta lá dentro: eu estou com um problema aqui na área de moda. Alguém conhece alguém, que conhece alguém, que conhece a Denise. Espera aí que eu vou te botar em contato com ela. Ontem nasceu um PodCast de uma das figuras. O que você faz? Nasce o PodCast dele. Então a comunidade começa a se autogerir. E ela ganha vida própria. E tem um valor fenomenal, que os grandes anunciantes ainda não sacaram. Porque eles olham com desdém ainda. Eles falam: a comunidade dele tem mil caras. Eu vou lá na mulher do Instagram que tem 11 milhões de seguidores. É lá que eu vou botar meu dinheiro. E esse cara não sacou que o engajamento que essa comunidade de mil tem é muito maior do que aquele…

Denise Pitta: É muito mais potente, muito maior do que aquele…

Luciano Pires: Com 11 milhões de caras.

Denise Pitta: Que boa parte não vai entregar. E que hoje já é pago.

Luciano Pires: Exatamente. Então é mais ou menos… é o que você falou ao cubo. Porque entra essa coisa do engajamento do público que está lá porque quer estar. Nenhum deles… não foi imposto por ninguém. Aliás, para estar na comunidade, os caras pagam para estar lá. Então eles estão porque querem estar. Eles olham aquilo como: a minha comunidade. Isso tem um valor… não tem nada a ver com dinheiro. Tem um valor absurdo.

Denise Pitta: É inestimável. É maior que o dinheiro.

Luciano Pires: Que é o caminho por onde a tecnologia está levando a gente.

Denise Pitta: Exatamente.

Luciano Pires: Isso aconteceu porque o Telegram – no meu caso – ele serviu perfeitamente para eu usar. Tem gente que faz alguma coisa com grupo diferente.

Denise Pitta: Vou entrar para a sua comunidade.

Luciano Pires: Vem. Será um prazer.

Denise Pitta: Me passa depois.

Luciano Pires: Será muito bem-vinda. Mas eu estava colocando isso para você, porque é fascinante a forma como a gente está assistindo essa revolução de mídias que está acontecendo nesse exato momento.

Denise Pitta: Tem muita coisa ruim. As pessoas falam e tal. Mas é poderoso. E tudo… é uma ferramenta. É o uso que você faz dela.

Luciano Pires: Exatamente.

Denise Pitta: E você leva. Você amplia a consciência. Olha esse caso que o Luciano nos narrou. E não é só esse. Você, por exemplo, está lá em Barreiras ou está lá na Índia e você potencializa. Você…

Luciano Pires: Está tudo conectado.

Denise Pitta: Exatamente. Você amplia a consciência de uma forma. Por exemplo, você tem um dado que é bem interessante. Por exemplo, a COVID era muito mais mortal. Hoje 30% das pessoas que vão para a UTI, elas já saem, simplesmente, porque os médicos aprenderam a lidar com ela.

Luciano Pires: Claro. Claro.

Denise Pitta: E como nasceu esse aprendizado? Médicos do mundo todo compartilharam conhecimento. Então a aceleração… tanto que vai ter… tem uma outra macro… eu sou apaixonada por macrotendência. É a convergência de tecnologia. Que antigamente teve um salto tecnológico. Mas cada um do seu lado. Agora vai ter a convergência. Justamente nessa questão das comunidades, o conhecimento vai se convergir. E assim vai ser… a curva de evolução agora vai ser exponencial, que nem a da COVID.

Luciano Pires: É assustador.

Denise Pitta: A gente vai ter uma curva aí, absurda, porque vai todo mundo… e aí vai aumentar o processamento dos computadores com…

Luciano Pires: E inteligência artificial vai fazer uma porrada de atividades que nós que temos que fazer hoje. Ela vai fazer sozinha.

Denise Pitta: Vai dar um salto. A gente pode se preparar. Olha: o coronavírus vai ser o marco histórico. E a gente vai ter um salto sem precedentes na tecnologia. Mantém o cérebro vivo. Comunidade, rede, ecossistema vai ser uma das poucas formas de a gente conseguir superar. Porque o cérebro é piloto automático. O cérebro não quer trabalhar. O cérebro quer acomodar. E a gente vai precisar ter esse apoio de comunidade para conseguir passar mais rápido. Tanto que tem… eu sempre associo. Eu tenho um trabalho chamado Moda Simbólica, que pega as tendências e descobre o significado. E você vai ver muitos colares de corrente. Umas correntes bem pesadas. Desde o clip da Beyoncé, do funkeiro. Aí se você for lá na alta joalheria você vai ver a senhorinha lá, com aquele colar de corrente. Eu fui pesquisar. Eu fui na etimologia da palavra corrente. Corrente é currere, vem do latim, que significa correr. Carruagem vem de corrente. E aí é seguir a correnteza. Por isso que corrente está tão forte em todos os aspectos da sociedade. E outro aspecto importantíssimo desta tendência é o elo. Você vai ter que estar em elo para conseguir alcançar, para conseguir superar. Seguir a correnteza junto. Senão você vai ficar no terceiro significado da corrente, que é: preso às margens. A corrente também é acorrentado, quando você junta com A de abster. Então é comunidade, rede, ecossistema é uma das principais macrotendências.

Luciano Pires: Isso exige uma mudança de postura, de atitude. Por exemplo, os velhinhos de 60 anos da minha geração. Que é uma geração que cresceu: retém a informação. Você não conte para ninguém. Não fala nada. A gente cresceu assim: não conte, porque o concorrente vai ficar sabendo e você vai dançar. E a gente está propondo uma coisa nova agora que é: não, conte cara.

Denise Pitta: Compartilhar.

Luciano Pires: É.

Denise Pitta: Que a riqueza… lembra que eu falei que eu fui invadida? Só que eu já descobri qual é o meu valor. O meu valor é compartilhar. Não importa. O meu valor é compartilhar o conhecimento. É trazer pessoas. É unir essas pessoas e compartilhar esse conhecimento. Então quando eu fui invadida, que o Google me puniu. Como botou 66 mil robozinhos levando autoridade e audiência, eu sumi do Google. Nem digitando www.fashionbubbles.com aparecia. Mas eu sabia que com o trabalho que eu faço o meu valor não está nas entradas. Eu não me apavorei hora nenhuma. Então se eu demorei… eu já sei qual é o valor. Então você tem que saber qual que é a sua moeda de troca. E qual que é o seu valor além do dinheiro. A gente vai estar entrando num mundo, onde vão ter vários caminhos. Então não é só… por exemplo, hoje não é só mais… antigamente se você quisesse marcar o sucesso de alguém, você verificava o sucesso de alguém pelo tanto de dinheiro que ela juntou. Não. Isso é uma das mudanças que a gente vai ter. então não adianta, por exemplo, essa pessoa que fez… ela hoje é milionária explorando, escravizando. Não. Não é esse o caminho. Então, qual que é o seu valor? Qual que é a sua riqueza? Eu já sei qual que é a minha riqueza, qual que é o meu valor. Então eu não me apavorei. Aí resultado: eu consegui consertar o site. Aí eu já estava em 300 mil visitas. Estourou a pandemia.

Luciano Pires: Deu a pandemia.

Denise Pitta: Aí eu zerei de novo de audiência. Porque um site de moda numa época de pandemia, eu estava meio tonta ainda, me recuperando da invasão.

Luciano Pires: Essa é uma pergunta que eu ia fazer para você agora, com a questão da pandemia, que é a seguinte: está tudo lindo, funcionando, os pilares. Está tudo certinho. Quando a crise chega, várias coisas são colocadas imediatamente na prateleira do supérfluo. Nós estamos em crise. Eu não vou gastar dinheiro com roupa de jeito nenhum. Tira tudo isso aqui, porque eu preciso sobreviver. Eu quero comida e quero minha proteção. E nessa hora vira pó o trabalho que a gente…

Denise Pitta: De 300 foi para quase zero. Porque eu estava com bem menos de 100 mil.

Luciano Pires: Caramba.

Denise Pitta: Eu falei: ferrou. Eu nem consegui me recuperar ainda e já tocou outra cacetada. Mas de novo: calma. Pensa. Aí eu tinha um artigo de máscaras de carnaval. Eu era muito forte no Google em máscaras. Aí eu já tinha consertado. Já tinha conseguido voltar para o Google. E aí começou a ter uma procura por máscara, máscara. Mas é porque o robozinho do Google não sabia disso.

Luciano Pires: Que máscara era.

Denise Pitta: É. Que máscara era. E ele botava no meu artigo. Aí eu mais que rápido fiz um especial sobre máscara de proteção. Como fazer em casa, quais as medidas, os critérios do governo. Esse artigo tipo deu 100 mil visitas. E eu já estava bem ranqueada no Google por causa das máscaras de carnaval que eu tinha feito. O robozinho não… e aí eu descobri que eu não poderia continuar. Moda estava com rejeição. E aí tudo que eu colocava: imunidade. Tudo que eu colocava crescia. Aí eu comecei a fazer alimentos curativos. Moda não é o novo na cultura. O novo na cultura é a pandemia. Você tem que se adaptar. Então eu fiz um artigo de alho que bombou. Alimentos curativos, receitas curativas. Aí todo mundo começou a olhar para a casa. As pessoas ficaram trancadas em casa novamente. Então elas queriam… aí começou a entrar decoração. Porque elas queriam redecorar. Tornar o seu ambiente… então, o que eu fiz? Continua entrando moda, porque eu sou bem ranqueada na moda. Não posso perder. Mas eu tive que adquirir, estudar um monte de outras coisas. Eu trabalhei tanto esse ano, que vocês não fazem ideia. Eu tive que aprender artigo de saúde. Pesquisa de imunidade, de vitamina D. Fui fazer toda essa gama. Aí o que aconteceu? Com a volta do comércio virtual, bombou o meu segmento. E hoje eu invisto em reais e eu recebo em dólar. Multiplica por cinco. Mais que cinco. Nem sei quanto que está o dólar agora. Mas você vê que multiplica por cinco. E aí com esse novo conteúdo… lembra que eu tinha quase zerado de novo em março? Eu já estou nos 600 mil. Eu estou crescendo muito rápido. Eu vou bater um milhão ainda esse ano, de volta, que era a audiência que o Fashion Bubbles tinha, era uma média de um milhão de visitas/mês. Então assim, imagina se eu tivesse ficado pensando que quando teve a invasão, eu tinha perdido alguma coisa?

Luciano Pires: E outra coisa importante: quando passar essa loucura toda da pandemia, você está melhor. Você ampliou o teu escopo.

Denise Pitta: Eu ampliei meu escopo.

Luciano Pires: Você tem muito mais conteúdo. Você não é mais um site de moda. Você é um site de…

Denise Pitta: Virou um portal.

Luciano Pires: De estilo de vida…

Denise Pitta: É. Exatamente.

Luciano Pires: E tudo mais. Aí você virou um portal. Você está maior e melhor do que era antes de começar.

Denise Pitta: Aí vem uma grande… tem um livro – vocês deveriam ler esse livro – chama O Futuro como Um Bom Negócio, Daniel Burrus. É Burrus, mas ele é bastante inteligente. Ele é muito inteligente.

Luciano Pires: Daniel?

Denise Pitta: Burrus.

Luciano Pires: Burros? Se escreve Burros mesmo?

Denise Pitta: É. Burrus. Com U. Mas ele é muito inteligente. E o livro, ele fala assim, que na hora da crise, a grande sacada é olhar para o lado oposto. Então não olha… olha para o lado oposto. Olha para onde estão as oportunidades.

Luciano Pires: Sim. O Jeff Bezos tem uma frase deliciosa, que eu estou usando até na minha palestra, que ele fala o seguinte: o segredo do sucesso no mundo dos negócios é olhar para as coisas que não vão mudar. Porque ele fala o seguinte: está todo mundo ofuscado, vai mudar. Para onde está indo? Para onde está indo? Esquece que tem uma porrada de coisa que vai se manter. Ele falou: olha para elas. E foca nas coisas. Porque está todo mundo olhando para o que vem pela frente. O que vem de novo aí? Investindo para aproveitar o novo, quando tem coisas que estão do outro lado. Espera, mas isso não muda. E se eu investir em relacionamento com o meu cliente?

Denise Pitta: E se eu fizer a mesma coisa que não vai mudar, mas com uma nova ferramenta, nova?

Luciano Pires: Sim. Eu vou investir em relacionamento com o cliente. Isso não vai mudar nunca. Relacionamento com o cliente não muda nunca. E eu estou preocupado aqui em fazer loucuras, quando… espera um pouquinho, e se eu aproveitar e… eu fiz agora. Eu participei de uma live. Eu entrevistei o Rony Meisler, que é o cara da Reserva, a indústria de roupa masculina do Rio de Janeiro. Eles fazem roupa masculina.

Denise Pitta: Ah tá, eu fui num evento deles. Muito legal.

Luciano Pires: Isso. E ele contou, contando a história, ele falou: quando começou essa coisa da pandemia foi um problema. Porque nós vivemos de vender camisa, vender bermuda. E a pandemia fechou as lojas. E o nosso número são lojas multimarcas. A gente oferece para o pessoal. De repente, eu não tinha mais loja. Aí o nosso povo da área comercial, a gente se juntou. Nós temos um esquema muito sofisticado lá de CRM lá dentro. Pegamos a relação de todos os clientes. E a gente foi ligar para os clientes. Só que na hora de conversar sobre o que ligar, veio a sacada do cara comercial. Ele falou o seguinte: nós vamos ligar, mas o script da ligação não é vender nada. O script da ligação é saber se o cara está bem. É dizer que nós estamos bem. E dizer que se ele precisar de alguma coisa nós estamos aqui. Se um dia ele precisar de camisa, nós vamos ter aqui para vender. E ele falou: e a gente colocou isso de tal forma. Botamos toda a nossa equipe para ligar para as pessoas para demonstrar a nossa preocupação para com elas e dizer que nós estamos disponíveis. Ele falou: em setembro nós vamos fechar com 130% a venda, acima do que a gente fez no ano passado inteirinho. Em plena pandemia, quando ninguém teoricamente vende nada, os caras que vendem camisa. Porque ele olhou para um negócio que não vai mudar. Sacou que as pessoas, naquele momento, não queriam comprar camisa, mas queriam sentir…

Denise Pitta: Acolhimento…

Luciano Pires: Eu quero sentir segurança, acolhimento. Ele ofereceu isso tudo. E na esteira, as camisas foram vendidas ali.

Denise Pitta: Fantástica a estratégia.

Luciano Pires: Tem muita gente tirando muito proveito disso aí.

Denise Pitta: E na hora da crise olha para as oportunidades.

Luciano Pires: Exatamente.

Denise Pitta: Porque cada dor que tem é uma oportunidade. É lá que você vai encontrar. Então assim a gente, tipo, está crescendo muito rápido. A velocidade de… imagina que em março a gente estava zerado. Hoje a gente já está com 600 mil visitas. Bateu ontem, 600 mil visitas.

Luciano Pires: Legal.

Denise Pitta: Então assim, antes… bateu anteontem. Ontem já estava com 610 mil visitas. Então eu estou estimando que ainda esse ano a gente volta para um milhão. E volta – como você falou – renovado, em outro patamar.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Eu tive que me renovar. Aí tem uma coisa: imagina que eu comecei como blogueira lá em 2005. E os jornalistas me olhavam com desconfiança, quando eu cheguei com… que eu escrevia. Eu cheguei com a minha máquina de fotografia. Eu mesma tirava as minhas fotos. Eu não precisava de um fotógrafo. Só que a roda anda. E aí eu já estava estabelecida. Aí eu própria virei um veículo. Nós tínhamos redação e tudo mais, equipe. E aí começou a vir outro… vieram as redes sociais. E aí, aquele olhar que eu tive dos jornalistas, eu comecei a olhar para a nova geração. Porque eles chegavam com os celulares e eles faziam tudo em vídeo, em tempo real.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: E eu falava assim: mas eu tenho que fotografar, escrever a matéria, editar. Agora eu vou ter que fazer stories ao vivo? E foi muito engraçado. Por que quem diria que eu estaria no papel do jornalista de antigamente, olhando com estranheza para aquela nova… só que você se acomoda. Então eu não fui muito para as redes sociais.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Eu me acomodei. Eu já tinha lá o site. Eu já tinha o meu valor. E aí eu me acomodei lá. O que aconteceu com a pandemia? Quando zerou… eu sempre tive Instagram. Mas eu nunca cuidei muito bem dele. Quando aconteceu todo esse problema, eu fiquei ativa de novo no Instagram. Então um monte de gente que tinha esquecido do Fashion Bubbles voltou a me seguir.

Luciano Pires: Pelo Instagram?

Denise Pitta: Pelo Instagram. Então acompanha as matérias por lá. Eu faço montagenzinhas mais de moda. Eu ainda não coloco todo o conteúdo do site lá. Mais de moda. Então assim, teve um contato e um fortalecimento de novo da marca e de reencontros e de histórias. Nossa… quando eu fiz faculdade. A gente hoje é profissional bem consolidada. Eu estudei com os seus artigos. Você me ajudou. Cada história fantástica. E aí me fez me renovar. Eu vou sair… eu tenho 43 anos, já estava meio entregue. Eu gosto de escrever meus artigos. Eu não vou para essa coisa de vídeo. Já cheguei aqui hoje fazendo stories.

Luciano Pires: Já chegou. Já entrou com tudo aqui.

Denise Pitta: Já cheguei filmando e já cheguei…

Luciano Pires: Eu preciso vencer essa ainda. Eu não estou me conformando. Mas eu preciso vencer essa…

Denise Pitta: É só perder o medo. E é aquilo que você falou: esquece o padrão Globo de qualidade. É na espontaneidade entendeu? É mostrar. É compartilhar a sua realidade. Eu estou permeando o tempo inteiro com macrotendência. Uma das macrotendências mais legais que tem é a da transparência e da cultura trans. Em 2015, estudando esses livros todos, eu descobri que a gente estava num momento trans. Lembra que eu falei que o mundo está em transição e passa por uma nova consciência? Então assim, nasce uma nova consciência. Você primeiro precisa passar por um período de transição. Trans… qual que é a comida que a gente come, quer queira, quer não? É transgênica. Trans é através de… é através dos genes, é através dos gêneros. Então, qual cantora que a gente ouve? É o Pabllo Vittar. Qual que é o brinquedo que a gente brinca? É o Transformers. Qual luta que a gente assiste? É o MMA, que é uma mistura de várias lutas. Então a gente está num momento trans. E uma macrotendência, ela vira macrotendência quando ela se espelha em todos os aspectos da sociedade. E esse momento trans, quem não ficar trans também, quem não se transformar, não vai conseguir. Vai ficar para trás. Porque vai ser uma curva muito íngreme. Vai ser uma curva exponencial de transformação agora, que nos aguarda. Então é comunidade, rede e ter coragem de esquecer os seus padrões Globo de qualidade. De esquecer e ser trans também. Sem medo. Sem medo do ridículo. Sem medo. Claro que você vai ter que adaptar o seu discurso para toda… hoje você tem que ter um respeito muito grande com as minorias, com a diversidade. Que é um choque. Mas assim e outra: se errou, pede desculpa. Eu errei. Estou aqui para evoluir. É muita mudança. O cérebro demora para incorporar.

Luciano Pires: É. Eu diria para você que o grande desafio nesse momento aqui é a gente estabelecer uma ética para esses tempos aqui. Essa ética ainda não foi…

Denise Pitta: Está nascendo ainda.

Luciano Pires: Ela não foi entendida. Como é que você se comporta numa rede social. Como é que você comenta numa rede social. Como é que você recebe os inputs. A ética não está ainda estabelecida. Ela é uma mistura. É um deslumbre…

Denise Pitta: Está começando ainda.

Luciano Pires: É um deslumbre do… eu tenho voz, portanto eu posso falar o que eu quiser.

Denise Pitta: O que eu quiser e pronto.

Luciano Pires: É o deslumbre. Ninguém sabe quem sou eu. Eu estou escondido aqui. Então no teclado eu sou o Super Homem. Eu posso falar a bobagem que eu quiser. E é uma ignorância total sobre o impacto que tem aquilo que você publica para as pessoas verem. Então está uma confusão muito grande agora, que é uma questão ética…

Denise Pitta: Mas tudo quando nasce, nasce meio que sem regra. Lembra a revolução industrial quando surgiu? Era criança trabalhando 15 horas. As pessoas morriam de trabalhar. Depois vai se regulamentando. Depois vai surgindo a ética disso. Mas voltando à cultura trans, Luciano, então eu recomendo para você, trans também. Tinha que ter uma camerazinha aqui filmando a gente…

Luciano Pires: Já está a camerazinha. Está aqui.

Denise Pitta: Ah…

Luciano Pires: Não. Mas eu não vou…

Denise Pitta: Põe no Youtube.

Luciano Pires: Sim. Mas eu não…

Denise Pitta: Por que não?

Luciano Pires: Eu desmontei o esquema aqui. Estava dando um trabalho tremendo aqui. Me deu um trabalho tremendo.

Denise Pitta: Mas você lembra que você tem que ser trans também. Porque esse trabalho aqui já vai para o Youtube entendeu?

Luciano Pires: Está voltando. Ele vai… eu cheguei a botar algumas coisas, mas eu não acertei ainda a parte técnica. Mas vai. A camerazinha está aí.

Denise Pitta: Por exemplo, que nem, demorou um tempão para fazer os stories. Aí no começo você se sente ridículo. Eu não gosto da minha voz. Eu fico o tempo todo preocupada: será que eu estou gritando com esse microfone? Será que eu estou com a voz aguda demais? Eu odeio me ouvir. Eu odeio me escutar. Então, demorou um tempo para eu acostumar. Porque a gente se imagina de um jeito.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Quando você se vê no vídeo não é aquilo que você imaginou. Eu acho a minha voz, uma voz de taquara rachada. Eu tinha horror daquilo. Fiz amizade. Já estou fazendo os stories, estou no Instagram. Eu já comecei a fazer os meus vídeos. Então assim, não precisa ter padrão Globo de qualidade. É você, do que você é; com a voz que você tem. A voz que eu tenho é estridente mesmo. E você fazer amizade com você e se aceitar. Porque tem um monte de gente que é parecida com você que vai gostar daquilo que você é.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Então o que as pessoas querem é verdade, transparência, que é outra macrotendência. Lembra que eu estava falando da macrotendência, que se espelha? Então você tem essa da transformação, da transição. Mas um dos aspectos mais importantes que a gente vai ter agora é a economia do compartilhamento. Então você vai ter que ser transparente. Então você vai ver as mocinhas com roupa transparente na passarela. Você vai ver referência de rendas e de transparência em todos os lugares. Mas você também vai ver transparência nos prédios de vidro. Outro dia fizeram uma madeira, que eles conseguiram tirar a cor da madeira. Ficou uma madeira transparente. A transparência, a Lava Jato, que o nosso querido presidente acabou de acabar com ela era macrotendência da transparência também. Os stories e o Big Brother. Você quer ver como é que são as pessoas reais vivendo. Você quer ver quem é o Luciano Pires real vivendo. Quem que é? Então quando você compartilha a sua história, a sua rotina, quem você é de fato, é isso que as pessoas querem. E você é generoso. Porque você tem que se dar em sacrifício. Porque você se expõe para toda essa falta de ética. Você vai receber…

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Mas você se dá em sacrifício e você enriquece a vida, não só de quem está aqui em São Paulo, que tem tudo. Mas de quem está lá na Amazônia, de quem está lá na Catolândia, de quem está lá no Cariparé. Entendeu? Então é um momento complexo. Mas é um momento de muita beleza. Porque você vai dar direito de competição para o mundo. Hoje você tem o conhecimento do mundo. É que a gente está aprendendo a incorporar. É transição. Mas a geração que vem vai saber o que fazer com isso aqui. Hoje a gente passa bom dia. Faz os grupos de família. Mas a potência do celular é muito maior que isso.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: É o conhecimento do mundo na palma da mão.

Luciano Pires: Mas isso vai mudar completamente. Nós não sacamos ainda o tamanho do impacto.

Denise Pitta: É porque a gente é transição. A gente está incorporando isso como uma ferramenta do cérebro.

Luciano Pires: Um exemplo que eu coloco: nós estamos jogando futebol e nós somos jogadores dentro do campo. A gente não está conseguindo olhar do alto da arquibancada.

Denise Pitta: Não.

Luciano Pires: Vai precisar de tempo. É o exemplo que eu te dei: precisamos de 12 anos para começar a entender o impacto de 2008. Mas vamos precisar de uns 20 para começar a entender o que aconteceu aqui, esse impacto da pandemia.

Denise Pitta: Só agora você falando, eu vim relembrar os fatos, relembrar. Em 2008 a gente pensava que ia ser passageiro, que era só uma crise. A gente não demitiu ninguém, ficou segurando. Tentar segurar aquilo, porque não tinha entendido o impacto da estrutura. Minou a sociedade, porque não era mais sustentável. Aí terminamos a sociedade em 2012. Quatro anos para entender o impacto daquilo.

Luciano Pires: Quatro anos. Hoje em dia, quatro anos é uma vida.

Denise Pitta: É uma eternidade.

Luciano Pires: É uma vida inteira.

Denise Pitta: Quatro anos é uma eternidade.

Luciano Pires: Muito bom o papo aqui. Denise, o que vem pela frente? Quem quiser ter contato com você como é que faz? Cadê o livro? Cadê o livro?

Denise Pitta: Me cobram.

Luciano Pires: O e-book. Cadê o livro? Fala um pouquinho disso.

Denise Pitta: Me cobram. Porque o Fashion Bubbles vai fazer 15 anos em janeiro do ano que vem. E a gente foi um dos primeiros blogs de moda do Brasil. A gente fez parte dessa história. A gente criou formatos que hoje muita gente usa. Foi a gente que criou pautas, foi a gente que criou. A gente transformou a vida de muita gente nesse período, além das nossas próprias vidas. Imagina que a baianinha sai lá do interior da Bahia e vem fazer história aqui em São Paulo. Imagina o orgulho. Imagina: eu viajei para Paris, Milão, para tantos lugares pelo site. Conheci tantas pessoas maravilhosas. Então é uma ferramenta. Eu tenho que escrever esse livro. Mas assim, enquanto isso tem lá o Fashion Bubbles, www… não precisa nem do www. fashionbubbles.com. Eu sou das antigas ainda. Acostumei com www. fashionbubbles.com. A gente tem lá macrotendências. Moda simbólica. Na parte de macrotendências e sustentabilidade a gente traz essas macrotendências mesmo. Para onde está indo o mundo? Desde 2015 esse artigo do trans, da cultura trans, a gente fez ele em 2015. Já falando da transformação que vinha no mundo. E tem mais uma coisa: quando você… eu gosto muito de trazer o Fashion Bubbles como moda com consciência, moda com inteligência. A palavra inteligência tem a ver com escolher. E a moda, ela está em todos os aspectos da sociedade. Ela é um modo de ser daquela época. E quando você está atento às macrotendências, o que acontece? Você consegue surfar na onda e não ser atropelado por ela.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: Então a gente trabalha lá vários artigos de macrotendências. Tem lá a categoria. Além de, hoje você tem que ter imunidade, saúde. Tem que cuidar de si. Para sobreviver a uma pandemia, você tem que, primeiro, cuidar de si. Então, muito bem-vindos lá. Conheçam. Tem o nosso Instagram que é fashionbubblesoficial. E vem muita coisa aí pela frente sim.

Luciano Pires: fashionbubblesoficial tudo junto?

Denise Pitta: Tudo junto.

Luciano Pires: fashionbubblesoficial. Tá.

Denise Pitta: Fashion Bubbles. B-U-B-B-L-E-S de bolhas na moda. Eu estou pensando ainda como estruturar esse livro. Se vai ser tipo um especial dos artigos mais interessantes desse período. Um pouquinho contando essa história, que são quinze… olha: a quantidade de coisa que a gente passou de lá para cá. Por exemplo, aí em 2012 a gente separou a sociedade. Tudo bem. Aí o site voltou a crescer. Começou a onda das blogueiras. Eu estava em duas TVs. O meu cunhado, que era um dos sócios adoeceu. Aí você fica… só tem eu e meu irmão aqui. Eles me acolheram na casa deles. Aí você fica: ou eu sigo esse caminho. Agora é a hora. É a hora. Porque eu comecei muito cedo. A hora das blogueiras foi àquela hora. Mas eu tinha a minha família. E aí você faz o quê? Eu escolhi por dignidade. Então eu parei tudo. Saí das TVs, fiquei dois anos, quase três…

Luciano Pires: Cuidando?

Denise Pitta: Ajudando a cuidar o meu cunhado. Foi um ano e três meses de um câncer avassalador. Eu nunca vi tanto sofrimento. Depois eu precisei de um ano para me recuperar. Para ver quais os valores. Imagina que eu ia cobrir evento. Eu saía. Passava uma noite de tanto sofrimento e ia cobrir evento. E eu falava assim: mas quais os valores reais? O que vale de fato? Então a gente está preocupado com consumir, consumir, consumir. E o que, de fato, é real? Tanto que eu fiz neste ano, um artigo chamado Consumo só não Sacia. A gente precisa de mais do que isso. A gente precisa de perguntas mais sinceras e que tragam sentido. Então, quem somos nós? O que é que eu estou fazendo aqui? O que é que, de fato, tem valor? Então eu perdi a onda das blogueiras. Mas o que eu ganhei naquele período de reflexão, de dignidade…

Luciano Pires: Autoconhecimento…

Denise Pitta: De autoconhecimento…

Luciano Pires: E de valores.

Denise Pitta: Exatamente. Então, quando chegou a pandemia e, de fato, chegou a hora dessas questões, que todo mundo. É histórico. Mas tem uma coisa única. Lembra que eu falei que essa nova consciência era de igual envergadura das ruínas de Roma nasceu o cristianismo? Não. Essa é uma informação errônea. Porque ela foi feita lá, muito antes. Porque na verdade, nunca teve na história da humanidade, uma transição em que o mundo inteirinho passou ao mesmo tempo. E que cada ser com consciência nesse planeta, branco, rico, pobre, preto, oriente, ocidente, passou impune. Não. A pandemia veio para todo mundo e veio trazer essas reflexões. A natureza tem sua sabedoria. A gente tem que confiar na sabedoria da natureza.

Luciano Pires: E tem uma coisa interessante aí, que a gente quando vive uma situação de risco junto, cria uma ligação entre quem estava presente lá. Tem um problema com o avião, que pode se acidentar. Todo mundo que estava naquele avião acaba virando… nós estávamos lá. A gente vivenciou aquilo. Você pega a guerra, a 2ª Guerra Mundial. As pessoas que viveram aquele período, elas têm uma consciência: eu vivi aquilo. Eu estava lá. Passei o mesmo perrengue que você. Entendeu? Então nós, juntos…

Denise Pitta: Vocês sobreviveram a…

Luciano Pires: Lá na frente eu vou contar para os meus bisnetos que eu a pandemia de 2020. E vou estar me conectando com as pessoas que estavam também. A Denise também estava lá. A gente viu aquilo junto. Automaticamente tem uma ligação entre nós ali.

Denise Pitta: Sim.

Luciano Pires: E você está fazendo isso em escala humanitária. A humanidade inteira vivendo essa pandemia.

Denise Pitta: O mundo todo. E o que acontece? Como eu falei: já vinham várias questões, vários processos de mudança. Até porque, o que acontece? A gente vinha de uma cultura de domínio da natureza. Tem que dominar a natureza, incluindo a sua própria. Então: o que dá dinheiro? Eu tenho que fazer uma carreira. Aí 2008 acabou com isso. Em detrimento daquilo que você era, daquelas suas inclinações de si, da sua essência, você tinha que seguir o que dava dinheiro, o que foi estipulado pelos seus pais. Então isso já em 2008 acabou. Mas tinha um monte de mudanças que já estavam aí, que a gente não fazia. Então se a gente continuar nessa coisa de dominar a natureza, a gente explode o planeta. Desse domínio da natureza, nasceu uma aceleração científica sem precedentes. A gente chegou num ponto que a gente destrói o planeta. Então a natureza tem seus recursos. Por exemplo, uma floresta, quando ela fica muito velha, as árvores já estão imensas e já não dão mais frutos nem sementes. Mas ela toma toda a luz. Ela tem o mecanismo da queimada. A própria floresta tem o mecanismo da queimada. Claro que faz os sacrifícios, os bichinhos ali. Mas a floresta é renovada. Então eu vejo a pandemia como um recurso da natureza de renovação. Então, a gente, por exemplo, olha esse dado, eu comprovei esse dado, com um engenheiro, 35% do combustível fóssil do planeta é gasto parado no trânsito das grandes cidades. 35% do combustível fóssil que queima a camada de ozônio. Sendo que você já tem trabalho remoto. Sendo que você já tem carro elétrico. Então a pandemia, ela vai acelerar mudanças que seriam feitas em 15, 20, 50 anos, ela acelera. Olha a quantidade de empresas que conheceu agora o trabalho remoto, de uma vez só.

Luciano Pires: Sim.

Denise Pitta: A quantidade de coisa. Então é um outro mundo. É realmente um novo normal.

Luciano Pires: Empresas bilionárias nascem do dia para a noite. Você pega um Zoom hoje. Eu estava vendo outro dia. O valor do Zoom hoje é maior do que todas as companhias aéreas somadas, que me levavam para as reuniões. Eu tinha que ir a hotéis e tudo mais. O Zoom sozinho detonou isso tudo. Porque ele é a ferramenta do futuro.

Denise Pitta: Do momento. Então assim, a gente tem que andar junto com essa revolução. E agora é colaboração da natureza. É respeito com a natureza. Nasce uma outra forma de pensar. Respeito à diversidade, respeito ao próximo, respeito à sua própria natureza. Porque quando você domina a natureza externa, primeiro você tem que dominar a sua própria. Então é um período muito bacana de se viver com consciência. Então que fique aí: olhem para as oportunidades, porque tem muita coisa boa acontecendo também nesse momento.

Luciano Pires: Uma baianinha arretada. O pessoal pensou que a gente ia falar de moda aqui. E nós estamos falando de jeito de viver e tudo mais. Muito legal ver essa tua história.

Denise Pitta: Mas nós falamos de moda, modo de viver.

Luciano Pires: Exatamente. Muito legal ver essa história. Muito legal saber. Eu não sabia que vocês estavam de novo na escalada. Essa ideia de chegar no final do ano com um milhão. Tomara que dê certo sim. Parabéns pelo trabalho de vocês. E que bom a gente se reencontrar. Isso foi meio sem querer.

Denise Pitta: Foi uma conexão.

Luciano Pires: Uma conexão.

Denise Pitta: Eu pensei em você. Você pensou em mim. Adorei ter vindo. Sempre maravilhoso estar com você. Sabe que eu tenho um artigo seu de liderança, que volta e meia, eu leio. É um do cagão.

Luciano Pires: Os Cagonautas. Esse é histórico.

Denise Pitta: Quando eu vejo líder tipo humilhando e tal, eu lembro daquele…

Luciano Pires: Os Cagonautas.

Denise Pitta: Foi um dos artigos que mais me marcou. Têm vários. Mas esse eu tenho um carinho especial por ele.

Luciano Pires: Legal.

Denise Pitta: Então, muito bom estar aqui com você.

Luciano Pires: Obrigado pela visita.

Denise Pitta: Eu que agradeço.

Luciano Pires: Quando tiver uma chance, eu quero ir visitar vocês lá agora. Tá bom?

Denise Pitta: Combinado. Vamos fazer um vídeo juntos. Uma live.

Luciano Pires: Vamos sim. Vamos lá.

Denise Pitta: Para o Fashion Bubbles.

Luciano Pires: Um abraço. Um beijão, querida.

Denise Pitta: Beijo.

Luciano Pires: Muito bem. Termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa é exclusiva para assinantes da Confraria Café Brasil e do Café Brasil Premium. Lembre-se: confraria.café.