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Luciano Pires -

 

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. Hoje a conversa é com Paulo Moura, estrategista político e especialista em marketing político e estratégia em comunicação. Paulo é um dos mais argutos comentaristas políticos em atividade no Brasil, com seu canal no Youtube, o Dextra. Um papo fascinante sobre posicionamento político, economia e o futuro do Brasil. Muito bem, mais um LíderCast. Como sempre eu começo contando como é que o meu convidado chegou até aqui. Estava eu navegando pelas ondas da internet, quando aquela coisa misteriosa, aquele sistema misterioso começou a me indicar algumas coisas. Eu não me lembro de onde chegou. Chegou de algum lugar. Eu não me lembro se foi na Confraria Café Brasil. Chegou uma indicação de um vídeo de um cara que eu nunca tinha visto. Eu fui assistir o vídeo ali e falei: que interessante. Umas análises políticas ali. Pouquinhos seguidores. Pouca gente. O cara está com começo, meio e fim. Eu estou gostando. E aí comecei a seguir devagarzinho. E, de repente, começou a ampliar. O pessoal da Confraria começou a gostar de montão. Eu comecei a gostar de montão. Eu falei: uma hora dessas, eu vou conversar com ele. Gravei um LíderCast com a Bruna Torlay, que me deu o contato. Então, cá estamos aqui, depois de… foi rápido. Topa? Topo. Já estou aí. Tem três perguntas aqui que são fundamentais. Eu abro o programa com elas. Com essas três, você não pode errar. Não pode nem chutar. Depois chuta à vontade. Mas essas três não. O seu nome, a sua idade e o que você faz?

Paulo Moura: O meu nome é Paulo Moura. Paulo Gabriel Martins de Moura. Conhecido como Paulo Moura. Eu tenho 61 anos de idade. E eu sou cientista político de formação. Eu tenho mestrado em Ciência Política e doutorado de Comunicação. Eu sempre trabalhei na interface da política com a comunicação.

Luciano Pires: Ótimo.

Paulo Moura: Fui professor universitário por 20 anos lá no sul.

Luciano Pires: Onde?

Paulo Moura: Em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Eu dava aula numa universidade grande lá, uma universidade privada, grande, pioneira na educação…

Luciano Pires: Pode falar o nome.

Paulo Moura: Universidade Luterana do Brasil. ULBRA. Que agora está falindo.

Luciano Pires: Eu já estive lá fazendo palestra umas quatro ou cinco vezes.

Paulo Moura: Em 2016, eles estavam mal das pernas lá. Eu precisei demiti-los da minha vida. E voltei para São Paulo. Eu já tinha morado aqui em São Paulo entre 86 e 92. Eu tinha voltado para o sul para terminar o meu mestrado lá. E quando eu estava terminando o mestrado, eu recebi o convite para dar aula na universidade. E terminei ficando 20 anos lá. E aí quando a universidade quebrou, eu já estava de saco cheio de sala de aula e tudo. Aquele modelo de cuspe e giz está superado. Embora eu trabalhasse com educação à distância. Eu sempre fui pioneiro nessas coisas de tecnologia. Eu sou aficionado. Eu sempre vou buscar. Sou curioso. Em 2001, quando eles começaram a mexer com educação à distância; eu me atirei de cabeça ali. A universidade chegou a ser uma das cinco universidades brasileiras que foi credenciada pelo MEC para oferecer sistema de educação à distância em âmbito nacional. Eles chegaram a ter 130 mil alunos.

Luciano Pires: Eu me lembro. Tinha indicativos lá, de que era um negócio maluco. Inclusive, o reitor foi o que montou o Museu do Automóvel.

Paulo Moura: Exatamente.

Luciano Pires: Que era uma coisa…

Paulo Moura: Ele lavava dinheiro com carro antigo.

Luciano Pires: Era inacreditável aquele museu. Eu estava na Dana na época. Eu patrocinei algumas coisas do museu. A recuperação de alguns carros. A gente fez em conjunto. Tanto que eu montei algumas coisas de programações da nossa empresa – que era de autopeças – com o museu. E o museu era um negócio de louco. Era um museu de primeiro mundo ali na…

Paulo Moura: Era um museu de tecnologia. Mas o acervo principal era carro.

Luciano Pires: Era carro.

Paulo Moura: Mas tinha relógios, tinha uma série de outras coisas.

Luciano Pires: E o que tinha ali dentro de carro era um negócio…

Paulo Moura: É. A universidade começou a falir por causa dele.

Luciano Pires: Então aí um belo dia, se descobre que tinha umas mutretas.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: E o museu implode e é vendido em lotes, para gente do mundo inteiro. E se perdeu aquela…

Paulo Moura: Isso. Estava lá o Copersucar Fittipaldi.

Luciano Pires: Perdeu. Aquela loucura…

Paulo Moura: Tinha muita coisa. Muito colecionador ali comprou.

Luciano Pires: Sim.

Paulo Moura: Mas a universidade nunca se recuperou. Quando ela estava levantando voo veio 2008. A crise financeira global. E aí nunca mais se levantou das pernas. Mas eu confesso – como eu disse – a sala de aula morreu. O aluno fica o tempo todo no celular, no notebook.

Luciano Pires: Não dá.

Paulo Moura: Você fica disputando atenção com os caras. Eu avisava os caras da universidade: os alunos não estão errados. Vocês é que têm que entrar no celular.

Luciano Pires: Exatamente.

Paulo Moura: Mas era uma educação à distância da internet 2.0, quando a coisa já estava no 3.0.

Luciano Pires: Sim. Você nasceu onde?

Paulo Moura: Eu nasci em Porto Alegre, na capital. Beneficência Portuguesa, em 1960.

Luciano Pires: Você tem irmãos?

Paulo Moura: Eu tenho uma irmã mais velha que eu e dois irmãos gêmeos abaixo de mim. Todos nascidos entre 58, 60 e 62.

Luciano Pires: Eu estou com 66. Não estou muito longe não. O que seu pai e sua mãe faziam?

Paulo Moura: O meu pai profissionalmente originalmente ele era aviador militar. Depois ele foi trabalhar para a Varig. Ele teve um problema no nervo ótico. Ele teve que parar de voar. E foi trabalhar no Departamento Aeroviário do Rio Grande do Sul. Fazia a supervisão dos aeroportos do estado. E a minha mãe era professora primária e professora secundária, dois contratos com o estado. Era uma mulher muito avançada. Morreu agora a pouco tempo, com 96 anos. Eu digo que era uma mulher feminista não no discurso, na prática. Ensinou os filhos homens a cozinhar, lavar louça, a pregar botão, a passar roupa.

Luciano Pires: Que legal.

Paulo Moura: Levanta da mesa, pega teu prato e vai para a cozinha e lava.

Luciano Pires: Que legal.

Paulo Moura: Para ir desonerando as mulheres do futuro, das tarefas domésticas. Então, nunca fez retórica feminista, nada. Mas ela tinha uma prática de mulher. E uma mulher que trabalhava fora de casa, isso nos anos 50. Então é isso.

Luciano Pires: Que legal. Qual era o seu apelido quando era pequeno?

Paulo Moura: Eu não tinha apelido.

Luciano Pires: Não era o Paulinho?

Paulo Moura: Paulinho na universidade.

Luciano Pires: Em criança?

Paulo Moura: Não.

Luciano Pires: Era Paulo?

Paulo Moura: Paulo sempre.

Luciano Pires: O que o Paulo queria ser quando crescesse?

Paulo Moura: Isso foi um problema desde o início. A questão da vocação. Eu me lembro que a minha mãe era psicóloga de formação. Me levou para curso vocacional. E lá apareceu jornalista ou advogado. E eu virei cientista político, sempre trabalhando com comunicação.

Luciano Pires: Você está no meio ali. Que legal.

Paulo Moura: É. O teste vocacional não errou completamente.

Luciano Pires: Mas era o que você queria fazer? Aquele sonho de ser jogador de futebol, astronauta, artista?

Paulo Moura: O meu sonho não. Esse sonho nunca existiu. Como eu nunca imaginei ser professor universitário. Eu fui descobrir o tesão de dar aula porque, por acaso, um colega de mestrado me indicou. A universidade tinha aberto um curso de graduação em Ciência Política.

Luciano Pires: Mas o teu diploma, do que é?

Paulo Moura: O meu diploma é de graduação em Ciências Sociais.

Luciano Pires: Ciências Sociais.

Paulo Moura: Depois eu fiz um mestrado em Ciência Política.

Luciano Pires: Mas com um diploma desses, ele te permite trabalhar com o quê? Você pode dar aula?

Paulo Moura: Na verdade, tinha a versão licenciatura e a versão bacharelado. Eu não fiz a licenciatura. Eu não tinha nenhuma perspectiva de dar aula no Ensino Médio. E o mercado era muito estreito também. Eu fiz o bacharelado, que é para trabalhar com pesquisa. Você vai trabalhar no IBGE. Vai fazer pesquisa social. Ou vai, depois, fazer mestrado e fazer pesquisa na universidade. Mas desde cedo eu comecei a mexer com política estudantil, eu fui cooptado pela esquerda com 17 anos, quando eu entrei na universidade. Tem uma curiosidade. O meu primeiro vestibular foi de Biologia. Não tinha nada a ver. Mas eu era encantado com a questão ambiental, com a questão da proteção do meio ambiente. O Rio Grande do Sul sempre foi muito forte nisso. O Lutzenberger, que foi ministro do Collor. Ele é praticamente um fundador do movimento ambientalista no Rio Grande do Sul. A minha mãe é de ascendência alemã. Os alemães todos têm esse pé na natureza. Uma coisa de cuidar. Mas era muito mais um romantismo em relação à questão da defesa do meio ambiente, do que um gosto pela Biologia.

Luciano Pires: Quando você fala do romantismo, quando você tinha 17 anos. Nós estamos falando de 43 anos atrás.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: Eu estava lá também, eu estava com 21.

Paulo Moura: 1977. Terminando o regime militar no Brasil.

Luciano Pires: Em 77 eu estava me formando no Mackenzie, em Comunicação. E a molecada escuta hoje: era uma visão romântica. Eles não fazem a menor ideia do que era a visão romântica em 77, comparada do que é a visão romântica hoje. São dois mundos completamente distintos. Estava tudo começando. Em 77 o mundo ia acabar congelado.

Paulo Moura: Ameaça de guerra nuclear. A gente tinha a guerra fria pesada.

Luciano Pires: Tudo acontecendo ali na hora.

Paulo Moura: Isso. Aliás, era parte das bandeiras do movimento ambientalista a luta contra a Usina Nuclear de Angra. Hoje os ambientalistas defendem a energia nuclear. Naquela época, eu fiz manifestação na Usina de Angra.

Luciano Pires: Você fez contra?

Paulo Moura: Eu participei. Contra.

Luciano Pires: Eu fiz cartuns com os caras todos transformados em jacarés.

Paulo Moura: Mas é o romantismo daquela coisa do jovem, que acha que vai mudar o mundo.

Luciano Pires: Que é aquela coisa, cá entre nós – agora os dois velhos falando – a raiz desse romantismo todo está calcada numa ignorância. Mas não é a ignorância da burrice…

Paulo Moura: É uma ingenuidade e um desconhecimento da realidade da vida.

Luciano Pires: Nós não sabemos direito o que vem pela frente. A gente não sabe direito o que é uma usina nuclear. Ninguém sabia na época. Hoje já se sabe muito mais. Já se aprendeu o nível de segurança que ela tem. Naquela época, calcada na ignorância, todo mundo é contra. Por isso que quando eu olho hoje essa gritaria que você vê e tudo. Eu falei: os caras estão discutindo. E ninguém sabe se essa porra desse vírus reage assim ou não. E já estão tomando decisões e tudo mais. Então, nada como a história para colocar as coisas no seu devido lugar. Mas aí você é convidado para dar aula. Vai dar aula. Entra em sala de aula. E curte?

Paulo Moura: E curte. Devia estar no sangue. Porque minha mãe é professora. Então tinha algum bichinho ali dentro, um viruzinho que…

Luciano Pires: Que ano era isso?

Paulo Moura: 1997.

Luciano Pires: 97.

Paulo Moura: É. Eu na verdade, por causa da militância política de esquerda na universidade, eu entrei na universidade em 77 em Biologia. Aí eu vi que aquele negócio de ficar com o olho no microscópio vendo célula não era comigo. Eu fiz outro vestibular. Entrei nas Ciências Sociais. Mas com a militância política, eu só fui terminar a universidade em 1991.

Luciano Pires: Você era um daqueles?

Paulo Moura: Eu era estudante profissional. Eu entrava e saía. Eu fiz serviço militar nesse meio tempo. Imagina: eu era ativista de organização clandestina da esquerda.

Luciano Pires: Você estava em algum grupo trotskista?

Paulo Moura: Trotskista, Libelu.

Luciano Pires: Você era Libelu?

Paulo Moura: Era. Grupo do Palocci, do Reinaldo Azevedo. Vários jornalistas famosos aqui em São Paulo. O Demétrio Magnoli, que é analista internacional da Globo. Era presidente do DCE da USP. Eu fui parte daquele grupo. Mas é um grupo que não pegou em armas. E também era final do regime militar. O governo Figueiredo. Então, a barra pesada do regime já tinha passado. Ainda se apanhava da polícia em manifestação. Eles prendiam os caras deixavam dois, três dias e soltavam. Eu nunca fui preso.

Luciano Pires: Falava que era o caminho da… como que era? Como é que o Figueiredo falava? Distensão…

Paulo Moura: Abertura lenta, gradual e…

Luciano Pires: E progressiva.

Paulo Moura: Isso aí.

Luciano Pires: Lenta, gradual e progressiva. Era isso aí.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: A gente já sabia. Eu estava em São Paulo, com o cabelo aqui, andando com um cartaz na mão, pedindo a volta do irmão do Henfil e tudo mais. Escrevi um livro a respeito. Eu lancei um livro chamado Me Engana que Eu Gosto. Que eu começo o livro falando exatamente isso: eu fui para a rua. Eu estava segurando cartaz. Pedindo a volta do irmão do Henfil. Contra aqueles velhos que não sabiam de bosta nenhuma. Eu sabia o que tinha que ser feito. E eu consegui tirar os velhos. Eu consegui a liberdade de volta. Eu consegui democracia. E fiquei feliz da vida. 40 anos depois, eu olho para trás e descubro que aquele porra daquele Brasil que eu queria não aconteceu. A minha geração não fez. E pior, um monte dos caras que estavam comigo na rua estão todos presos. Corruptos, bandidos. E eu pergunto: que porra aconteceu?

Paulo Moura: É. Eu fui um dos poucos daquela geração que rompeu. E vim para a direita. Porque a maioria dos caras…

Luciano Pires: Mas você rompeu quando?

Paulo Moura: Foi um processo lento, gradual e dolorido. A primeira ruptura foi com o trotskismo. Por convivência com outros grupos trotskistas. Porque o trotskismo rachou. É uma corrente dissidente dos Partidos Comunistas, que rompeu com Stálin. Com o stalinismo de extração soviética. Denunciando a burocratização e o autoritarismo. O autoritarismo não. Porque eu acho que se Trotski chegasse ao poder seria igual ou pior que Stálin. Mas ele foi ludibriado pelo Estado. Perdeu poder. E dali surgiu…

Luciano Pires: Tomou uma martelada na cabeça.

Paulo Moura: É. Várias correntes – quatro pelo menos, grandes correntes políticas – internacionais do trotskismo. E ali no convívio da universidade, eu via os caras brigando por vírgulas. Mas brigando de passar horas discutindo sobre coisas. E eu comecei a perceber que não tinha tanta diferença.

Luciano Pires: As assembleias intermináveis.

Paulo Moura: Intermináveis. E aquelas coisas ali e eu disse: não. Eu vou sair desse negócio. E vou ficar só no PT. Porque o meu grupo – quando o PT surgiu – era tão radical, tipo o PCO hoje, que dizia que o PT era um partido burguês. Mas depois eles mudaram de posição e resolveram entrar no PT. E eu entrei nessa leva, no início dos anos 80. Eu acho que em 81. O PT surgiu em 79. Eu me filiei em 81. E de lá, eu já comecei uma militância cultural, que é onde eu fui parar com a comunicação. Eu comecei a trabalhar com vídeo no Brasil, em 1982, quando o VHS estava chegando.

Luciano Pires: Você trabalhava com Umatik? Você estava com Umatik ainda?

Paulo Moura: Umatik é profissional.

Luciano Pires: Mas você estava no amador?

Paulo Moura: Eu estava no amador. Era uma produtorazinha. Tinha um deputado de esquerda – esquerda que eu digo aqui, era do PDT – que tinha vindo dos Estados Unidos com uma câmera VHS. E uma assessora dele era nossa amiga. E ele emprestou a câmera. Porque ele não sabia usar. Ele trouxe dos Estados Unidos. Para a gente gravar algumas coisas que ele fazia lá na área habitacional. Ele disse: vocês fazem isso aqui para mim, eu libero. Vocês ficam com a câmera aí e vão fazendo os trabalhos de vocês. A gente criou uma produtorazinha. E eu comecei a fazer vídeo para movimentos sociais. Vídeos para sindicatos, essa coisa toda. Eu virei um gramsciano na origem. Eu fui fazer marxismo cultural com audiovisual. Ali, meu pezinho para a comunicação, está lá. E aí eu tinha passado num concurso para a Universidade Federal. Um concurso para uma função administrativa. Mas coincidentemente, na universidade tinha lá na área de educação, um setor que mexia com audiovisual. E descobriram que eu – apesar de ter passado para ser uns funcionários administrativo – eu trabalhava com vídeo. E me puxaram para lá. E tinha no porão da Universidade de Odontologia tinha um estúdio Umatik, que tinha sido doado pela Fundação Kellog americana, para gravar cirurgia odontológica. E ali eu tive contato com equipamentos profissionais. Aí me mandaram fazer um curso aqui na Unicamp, que tinha uma central de produções de material audiovisual bem profissional. Eu fiz um curso ali. Eu fiz curso de editor de vídeo na Fundação Padre Landell de Moura, lá no Rio Grande do Sul, que era uma Fundação voltada para formar técnicos de emissoras de rádio e emissoras de televisão. Mas como eu era funcionário da universidade, eu entrei num espaço onde eu não entraria se não fosse isso.

Luciano Pires: Para você que não é gaúcho e que não sabe das coisas. Há uma corrente gaúcha que disse que quem inventou o rádio foi o Landell de Moura.

Paulo Moura: Uma corrente gaúcha não. É a mesma discussão do Santos Dumont.

Luciano Pires: Eu acho que essa está mais documentada que a do Santos Dumont. O Santos Dumont parece que já não foi ele, foram os americanos.

Paulo Moura: Mas eu vi um documentário internacional…

Luciano Pires: Dando o Landell?

Paulo Moura: Dando o Landell.

Luciano Pires: Pois é. Que ele inventou. Fez uma transmissão antes do…

Paulo Moura: É. E o primeiro curso de vídeo profissional que teve no Rio Grande do Sul, eu que produzi. Eu tinha uma amiga que tinha vindo dos Estados Unidos. E ela conheceu um brasileiro que morava no Rio, que tinha feito. Que estava entrando no vídeo profissional nos Estados Unidos. Vídeo fora de emissora de televisão. Nós levamos o cara para o Rio Grande do Sul e oferecemos um curso usando a estrutura desse estúdio da Faculdade de Odontologia. Então ali eu botei o pé no vídeo. Mas eu nunca me adaptei no setor público. Um dia eu cheguei, era um feriado de Carnaval. Eu cheguei depois do feriado. O estúdio era no porão da faculdade. E tinha caído um toró. Estourou o esgoto. E o estúdio estava inundado, um metro e meio de água.

Luciano Pires: Meu Deus do céu, de água de merda.

Paulo Moura: Não. Esgoto. Tu abria a porta do estúdio. A porta é vedada, tipo essa que tem aqui. Você abria. Aquela água toda. Imagina: equipamento eletrônico de vídeo ficou quatro dias num feriado, com água. Destruiu. Destruiu os equipamentos.

Luciano Pires: Puta merda.

Paulo Moura: Aí eu pedi a conta. E, coincidentemente, eu fui convidado por um cara que era um ambientalista daqui de São Paulo que queria ser candidato a deputado federal pelo PT. Ele disse: me ajuda a entrar no PT. E eu ajudei. O cara entrou no PT aqui e ele disse: vem para cá para São Paulo para…

Luciano Pires: Quem era? O Peninha?

Paulo Moura: Não. Ele se chamava Valdo França. É um cara que tinha uns cursos de educação à distância no papel, com cartilha, à moda antiga. Vai pelo correio. E mexia com agricultura orgânica. Orientava pequenos agricultores a mexer com agricultura orgânica e tal. E ele disse: vem para cá. Tu te hospeda na minha casa e coordena a minha campanha. E eu vim. Eu me hospedei lá.

Luciano Pires: Que ano foi isso?

Paulo Moura: Foi em 86.

Luciano Pires: Em 86 estava chegando no governo Sarney. Ou foi depois do Sarney?

Paulo Moura: O Sarney saiu em 85.

Luciano Pires: Então quem era depois?

Paulo Moura: O Collor foi em 92. Não. Era Sarney.

Luciano Pires: Era Sarney.

Paulo Moura: Era Sarney. Exatamente. Em 85 o Tancredo.

Luciano Pires: Isso aí. Tancredo eleito. Morre. O Sarney entra. Isso aí.

Paulo Moura: Exatamente. Aí o cara se filiou ao PT. A gente começa a organizar a campanha. E quando a campanha já tinha começado, ele descobre que a turma do Zé Dirceu tinha dado sumiço nos documentos de registro da candidatura. A candidatura não foi registrada na justiça. De sacanagem. Porque naquela época, a esquerda achava que ambientalismo era coisa de viadinho de classe média. Não davam bola para isso. E o cara deixou de ser candidato por causa disso.

Luciano Pires: Puta merda.

Paulo Moura: E essas sacanagenzinhas eu fui vendo acontecer na política. Só que eu disse: agora eu vou voltar para o sul e vou terminar o meu curso. Eu tinha entrado lá…

Luciano Pires: Nem começou a campanha?

Paulo Moura: Nada.

Luciano Pires: Você veio. Se preparou…

Paulo Moura: No começo, os caras do partido chamaram: aconteceu algum problema. Os teus documentos foram extraviados. A tua candidatura não foi registrada.

Luciano Pires: Casseta.

Paulo Moura: Hoje quando eu presto consultoria para candidato eu digo assim: primeira coisa, tu tem que ter um advogado teu, que vai cuidar da tua papelada. Não larga na mão do partido. Vai lá e cuida de todos os detalhes jurídicos da tua candidatura contigo e com o teu advogado. Não larga na mão de terceiros. Mas sacanagenzinhas dessas, que eu fui perdendo a ingenuidade com a política. Na hora de vim embora… por esse trabalho que eu fazia lá no Sul, eu conheci uma associação que se chamava Associação Brasileira de Vídeo do Movimento Popular, que tinha conseguido uma doação da Fundação Ford e montado aqui no Bexiga, uma ilhazinha de edição VHS, que dava suporte para os movimentos. Então os movimentos tinham suas camerazinhas, faziam seus vídeos e iam editar lá a um precinho de custo.

Luciano Pires: Como distribuíam esses vídeos na época?

Paulo Moura: Rodava em vídeo cassete de reunião de esquerda.

Luciano Pires: Rodava em vídeo. Aí botava aquele monte de vídeo cassete copiando…

Paulo Moura: Fita de vídeo cassete copiando, em VHS…

Luciano Pires: E distribuía as fitas?

Paulo Moura: Distribuía manualmente e era exibido em reuniões em sindicatos, movimento popular.

Luciano Pires: Vocês que estão nos ouvindo aí…

Paulo Moura: Isso aqui é a pré-história…

Luciano Pires: Que está acostumado a gravar o videozinho no celular, apertar um botão e o mundo receber. Naquela época… e copiar uma fita de vídeo… se você tinha uma fita de VHS com duas horas de vídeo, para copiar essa fita levava duas horas igual. Porque era uma fita passando para a outra.

Paulo Moura: Exatamente. E perdia qualidade.

Luciano Pires: Claro. Cada vez que passava ia ficando pior.

Paulo Moura: Era analógico, o negócio.

Luciano Pires: Falava: vou copiar 10 fitas. Se você não tivesse 10 aparelhos copiando ao mesmo tempo, ia levar 10 horas cada um. E aí tinha que mandar. Levar em mãos. Tinha que ter outro aparelho lá na ponta.

Paulo Moura: Isso. Na sala de edição tinha uma [inint 00:23:54] com cinco vídeo cassete só. Fazia cinco cópias de cada vez.

Luciano Pires: Cacetada.

Paulo Moura: E quando eu ia voltar para Porto Alegre, o pessoal me disse: nós temos uma vaga para editor aqui. Mas tem um negócio aqui que é o seguinte – agora o povo da direita vai me matar – vai ter aqui uma greve geral da CUT. E o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema comprou uma câmera profissional Umatik. E eles estão precisando de um cinegrafista. Tu quer fazer um freelancer de cinegrafista para eles na greve? Eu digo: topo. Um equipamento profissional. Eu tinha trabalhado lá no sul. Mas era um pagamento de tabela de mercado. Um guri, 27 anos, 28 anos. 86? 26 anos. Aí eu digo: topo. Vamos lá. Faço o freelancer. E fiz o freelancer. Terminou a greve. Porque eu era faz tudo. Porque na verdade o seguinte, quando eu comecei a trabalhar com vídeo lá no Sul não existia curso de vídeo. Eu fiz curso de Cinema Super8. Eu fiz curso de Fotografia na Kodak, fotografia still. Eu fui aprender iluminação e coisas, por vias alternativas. Então, se precisasse segurar uma câmera e gravar, eu seguro. Não sou um fotógrafo. Mas eu sustento…

Luciano Pires: Mas você tem noção. Você sabe do que está falando.

Paulo Moura: Eu entendo a linguagem.

Luciano Pires: Sabe como funciona.

Paulo Moura: Sei fazer e tal. Essa coisa toda. E aí terminou a greve e disseram: nós estamos comprando uma ilha de edição Umatik aqui. Tu quer vir trabalhar aqui? É tanto. O salário melhor que lá. E a essa altura, eu tinha transferido o meu curso da UFRGS, lá da Federal do Rio Grande do Sul para a PUC aqui. Eu estava cursando aqui. Imagina: eu morava numa república em Perdizes. Estudava na PUC de noite. E trabalhava em São Bernardo da manhã ao final da tarde. De ônibus ainda. Depois eu consegui comprar um Fusquinha. Mas era tudo de ônibus. E tinha uma namorada na zona sul, em Santo Amaro. Só com 20 e poucos anos tu faz essas coisas.

Luciano Pires: É verdade.

Paulo Moura: Aí fui trabalhar de dezembro de 86 a fevereiro de 89, véspera da campanha do Lula.

Luciano Pires: Só para rememorar aqui. Então nós temos um trotskista, de 20 e poucos anos…

Paulo Moura: Que foi cinegrafista e editor de vídeo do Lula, durante dois anos e meio.

Luciano Pires: Exatamente. Fazendo propaganda. Montando a…

Paulo Moura: A TV dos Trabalhadores.

Luciano Pires: Montando narrativas para convencer as pessoas.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: De que aquela visão esquerdista é a visão melhor?

Paulo Moura: Na verdade, eu vou te dizer o seguinte: quando eu fui convidado para trabalhar no sindicato, eu já não acreditava mais em Papai Noel. Os meus castelinhos de areia já tinham, todos, desmoronado.

Luciano Pires: Você falou para mim que isso foi uma coisa progressiva. Não teve um acontecimento que…

Paulo Moura: Não, não…

Luciano Pires: Virou a tua chave? Não?

Paulo Moura: Não, não…

Luciano Pires: Isso foi…

Paulo Moura: Teve alguns momentos mais… mais…

Luciano Pires: Você foi olhando aquilo…

Paulo Moura: Mais marcantes. Eu digo: porra. Tem um negócio de errado aqui. Os caras falam um negócio e fazem outra. Tem uma incoerência entre o que eles fazem e o que eles dizem. E aí sacanagenzinhas, como essa que fizeram com o cara que eu botei para dentro do partido, é café pequeno. Um dia, se eu virar alguém importante, eu escrevo um livro e conto, de fato, coisas que eu não vou contar aqui ainda. Tem que esperar passar 30 anos ou mais.

Luciano Pires: O Gurgel esteve sentado aí onde você está – nessa mesma cadeira – e contou uma história muito parecida com a sua. O Gurgel também era um cara de sindicato, sindicalista e brabo. E ele contou uma história muito parecida com a sua. Que ele foi enxergando. Ele foi vendo.  E ele vira a chave.

Paulo Moura: É. Como eu era ativista ambientalista ainda, nessa época, eu tinha um amigo que era um jornalista teuto-brasileiro. Tinha sido VPR. E ele se exilou na Alemanha. Quando ele voltou para o Brasil, ele era o correspondente da Deutsche Welle no Brasil. E quando os deputados do Partido Verde alemão vinham ao Brasil – ele morava no Rio – ele ligava para mim e dizia: os caras estão vindo ao Brasil. Tu faz um meio de campo aí com os caras do sindicato? Que a gente queria fazer a cabeça dos sindicatos para a questão ambiental.

Luciano Pires: Sim. Esse lado você não perdeu nunca? Você estava…

Paulo Moura: Não. Continuava. Perdi a visão romântica. Mas sempre…

Luciano Pires: Do trotskismo. Mas o ambientalismo estava lá presente?

Paulo Moura: O ambientalismo estava lá. A militância cultural estava lá. A militância cultural com vídeo. Eu cheguei a organizar no Rio Grande do Sul, chamado Cio da Terra, em 82. Que botou 15 mil jovens acampados nos pavilhões da Festa da Uva, num festival multicultural, com show à noite, teatro, cinema, uns happenings meio que feito pelos anarquistas espanhóis. Era um Woodstock, só que não era só de música. Tinha teatro, cinema, debates, uma série de coisas ali. 15 mil pessoas, quatro dias, num parque.

Luciano Pires: Que legal.

Paulo Moura: Foi um evento marcante ali. Toda aquela nova geração da nova música paulista aqui.

Luciano Pires: Itamar Assumpção…

Paulo Moura: Itamar Assumpção, Tetê Espíndola… o outro lá…

Luciano Pires: O jacaré lá. Como que é?

Paulo Moura: É. O jacaré. A gente lembra o jacaré e não lembra o nome do cara. Mas era esse mesmo. Levamos para lá, produzimos shows e tal. Mas eu fui me fixando no vídeo.

Luciano Pires: Clara Crocodilo.

Paulo Moura: É. Então, o que acontece? Na véspera da campanha do Lula de 89, os caras ali da direção do PT, o Wladimir Pomar, aqueles caras sabiam. Eu já tinha trazido duas levas de deputado federal. Eu levava no diretório nacional do PT. Eu levava no sindicato. Disseram: o Lula vai fazer um giro internacional da pré-campanha, para fazer imagens com ele se reunindo com líderes políticos internacionais, para fazer propagando depois, dizendo que ele é um cara internacionalmente bem relacionado. A gente quer que tu vá junto, na parte da Alemanha do giro, para fazer esse meio de campo com o verdes lá. Topa? Topo. Eu era um reles cinegrafista. E o responsável por um arquivo de 500 fitas lá da TV dos Trabalhadores. Estava nascendo a TV dos Trabalhadores. Só que a jornalista que coordenava essa produtora, ela enlouqueceu, stalinista, ficou paranoica de poder. Achando que eu queria o lugar dela. Porque ela sonhava ser a big boss da campanha do Lula em 89, na TV. Porque essa produtora quando tinha os programas nacionais de TV, aqueles de uma hora naquela época. Os partidos tinham direito a dois programas nacionais em rede, de uma hora. E a gente que produzia. Só que aí assim, a produtora tinha essa jornalista que comandava. Eu, que era cinegrafista e editor. Outro estudante de Jornalismo, ligado à esquerda da igreja, que era repórter de frente de câmera. Fazia os roteirinhos. E tinha uns dois peões lá do sindicato, que eram deslocados da fábrica para trabalhar no sindicato, que eram meio que faz tudo, operador de VT, aquela coisa toda. Só que quando tinha esses programas de televisão, os caras contratavam uns 30 profissionais de mercado, que tinham uma experiência profissional do caralho. Era um troço. Alugava duas produtoras, uma para edição, outra para finalização. Finalizava aqui em São Paulo. Três, quatro equipes de jornalismo viajando pelo Brasil. Se montava um programa de uma hora. Tinha que entregar na Rede Globo às 17 horas do dia. Então eram experiências profissionais que eu, mesmo decepcionado com a esquerda, eu disse: eu estou aprendendo uma profissão aqui. E estudando de noite na PUC. Mas esse negócio deixou a mulher doida. Ela disse: esse guri vai viajar com o Lula. Vai voltar e vai querer o meu lugar. E eu totalmente ingênuo. Eu não estava nem sonhando. Eu queria só a oportunidade. Finalmente eu vou convencer o PT que a questão ambiental é um troço importante. Ainda meio bobo. Eu estava com 28 anos. E a gente estava produzindo um programa do PT que ia ao ar em fevereiro. E foi uma loucura. Porque eu era o único que dominava o arquivo de fitas. Eram 500 fitas, das quais, pelo menos umas 450 eu tinha sido cinegrafista. Eu tinha decupado as fitas, numerado. Eu sabia que imagens tinham, em que lugar de que fita, sem precisar consultar as planilhas. Eu ia lá e pegava. Então, eu fiquei fazendo o background do programa. Eu sei que eu estava há umas cinco noites sem dormir. Eu já estava delirando. Eu dormia num colchãozinho na produtora. Encostava a cabeça, dormia 15 minutos. Levantava a cabeça. Achei assim: terminou? Terminou? Eu achava que eu tinha dormido um dia inteiro. A noite inteira. E aí o programa estava terminando. E faltava encaixar cinco imagens. E eu disse: fulano, eu não aguento mais. Eu tenho que ir para casa. Eu tenho que tomar banho. Eu tenho que dormir. Me alimentar direito. Posso ir? Pode. Só me diz onde estão as imagens. Eu peguei as cinco fitas onde estavam as imagens. Marquei, etiquetei. E disse: a imagem tal está no minuto tal dessa fita aqui, assim, assim, assado. Botou lá do lado da ilha, onde os caras estavam finalizando o programa. Eu fui embora para casa. No outro dia, eu me acordei. O programa estava no ar há cinco minutos já. Eu dormi 24 horas seguidas. E aí eu disse: vou tirar folga de dois dias aqui. Vou ficar em casa, tranquilamente. Quando eu volto para o sindicato, essa mulher me dá um esporro com a porta da produtora aberta, para o sindicato inteiro ouvir. Ela tinha armado para me demitir, antes da viagem para a Alemanha. Ela queria me tirar do jogo de qualquer jeito. E ali foi definitivo.

Luciano Pires: Mas esporro alegando o quê?

Paulo Moura: Alegando que eu tinha saído antes do final do programa e que quase não tinha dado tempo de ficar pronto o programa, porque eu tinha ido embora, sem dizer onde é que estavam as imagens necessárias para finalizar. Depois eu fui saber que não era verdade. Ela deu aquele esporro porque ela queria me tirar do jogo. Aquela foi a sacanagem definitiva. E essa mulher, ela era pica grossa, porque ela traduziu o Lula no primeiro aniversário da Revolução Nicaraguense, na Praça Central de Manágua. O Lula discursava em português, ela traduzia em espanhol. Ela era muito ligada aos caras. Professora da USP aqui.

Luciano Pires: Estou louco para perguntar o nome dela. Mas tudo bem.

Paulo Moura: Deixa quieto.

Luciano Pires: Deixa quieto. Eu vou no Google depois.

Paulo Moura: Eu conto em livro isso. Tem mais detalhes, que não dá para contar. Aí eu avisei os caras, eu digo: eu estou saindo. Eu vou me dedicar à causa ambiental. Esgotei o meu ciclo aqui. E saí de lá. E terminei convidado para trabalhar…  naquela época era o governo da Erundina aqui em São Paulo e tinha uma produtorazinha de vídeo dentro do Anhembi, um caminhão com vídeo walk, alugava para feiras. Mas tinha um programa de televisão de rua. Eu trabalhei mais um ano em vídeo ali. Aí deu uma briga política lá. A Erundina entregou o Anhembi para o MDB, para fazer maioria na Câmara.

Luciano Pires: Atenção: a Erundina, prefeita pelo PT.

Paulo Moura: Eleita em 88. Entregou o Anhembi, uma estatal da prefeitura de São Paulo, para o MDB.

Luciano Pires: Que é o centrão.

Paulo Moura: Que é o centrão. Exatamente.

Luciano Pires: Que é o centrão. Para poder fazer maioria…

Paulo Moura: Na Câmara dos Vereadores…

Luciano Pires: Se você que está ouvindo a gente está achando parecido com alguma coisa. Não é coincidência não. Isso é método. Isso é método.

Paulo Moura: Aí deu desentendimento com o pessoal do PT que estava na equipe de vídeo e a nova direção do MDB. E eu fui demitido. Eu; e a equipe inteira foi demitida. E, coincidentemente, quando eu entrei na PUC para concluir o meu curso, a PUC estava em greve. Então, a PUC aceitou o meu ingresso sem analisar o meu currículo. E naquela altura do campeonato, eu tinha três anos e meio de curso lá no sul. Se eu tivesse feito mais um semestre lá no Sul, eu teria me formado. Aí eu entrei na PUC. Eu fiz um ano na PUC e disse: agora eu tenho crédito suficiente para me formar. Pedi a colação de grau. E a PUC: não, negativo. O teu currículo é muito diferente lá do sul. Tu vai ter que cursar pelo menos, mais um ano. Pagando. Aí eu tranquei a PUC. Eu digo: não. Eu vou voltar para o sul e vou terminar a minha graduação lá. Eu consegui reingresso na universidade lá. Eu consegui o aproveitamento das disciplinas que eu tinha feito na PUC aqui. E aí os caras só disseram o seguinte: faz mais duas disciplinas aqui e tu está formado. E aí foi o que eu fiz. Eu voltei para o sul e concluí o curso de Ciências Sociais, graduação. E já engatei o mestrado. Eu consegui bolsa da CAPES naquela época, que eram uns trocadinhos. Mas ali começa a minha ruptura com o PT, propriamente dita. Ruptura pública.

Luciano Pires: Até então, você estava na militância?

Paulo Moura: Eu estava porque eu era profissional.

Luciano Pires: Mas você não estava frequentando assembleia, cargo diretivo, nada?

Paulo Moura: Não. A minha juventude toda foi na universidade, com a esquerda. As gurias que eu comia eram da esquerda. Os amigos que eu tinha feito eram da esquerda. O dinheiro que eu ganhava era do sindicato, era do governo da Erundina aqui. Quando eu voltei para lá, eu comecei a dar cursos de vídeo para ativistas do movimento. O PT tinha a prefeitura lá. Eu editava vídeo como freelancer para a prefeitura de Porto Alegre. Tinha um centro cultural lá que dava cursos de formação cultural. Então eu fazia freelancer de curso de vídeo. Mas era tudo na órbita da esquerda. Então a minha ruptura, se ela fosse abrupta e radical, ela me custaria a sobrevivência. Eu comecei a fazer uma migração lenta e gradual.

Luciano Pires: Entendi.

Paulo Moura: Como eu disse: mesmo trabalhando no sindicato aqui. Já se roubava dinheiro do sindicato naquela época. Certo?

Luciano Pires: Sim.

Paulo Moura: O Sindicato de São Bernardo naquela época tinha 140 mil metalúrgicos, com bons salários. Então, um metalúrgico torneiro-mecânico – nem sei se essa profissão existe ainda – naquela época o Lula era um torneiro-mecânico. Com mais de 10 anos de fábrica, o cara tinha salário de dois, três mil dólares. Assembleia do sindicato lá era tudo carrinho 1.0, novinho. Os caras tinham as casinhas deles. Um operário qualificadíssimo ali. Rolava mais grana. 80% das prefeituras do Brasil não tinham o orçamento que aquele sindicato tinha. Eu nunca testemunhei nada. Mas eu não sou trouxa. Eu ficava vendo…

Luciano Pires: Sim.

Paulo Moura: Eu via as coisas acontecendo.

Luciano Pires: Sim.

Paulo Moura: Então eu disse: o negócio desses caras aqui é dinheiro e poder. Deixa eu cuidar da minha vida. Só que eu montei uma estratégia de afastamento gradual. Então lá no Sul, quando eu entrei no mestrado e ganhei uma bolsa, foi a primeira fonte de renda que não vinha diretamente de pagamentos da esquerda. Coincidentemente, eu tive um professor de mestrado que tinha sido de esquerda nos anos 60. Ele tinha sido reitor da Universidade Federal lá. E nos anos 60, ele ia ser presidente da UNE na vez que o Serra foi. Só que como ele rompeu com a esquerda, ele se decepcionou, ele foi fazer mestrado em Princeton. Então quando ele volta para o Brasil, ele não conseguiu fazer o doutorado em Princeton, porque a Polícia Federal não deixou ele sair do Brasil. Ele fez o mestrado. Quando ele voltou, família, aquela coisa. Vou voltar; fazer o doutorado. Não, tu fica aqui. Porque ele tinha sido líder estudantil. E ele só não foi presidente da UNE porque o Serra foi na vez dele. Mas esse cara trouxe para o Brasil o viés da ciência política americana. O marketing político. Pesquisa de opinião. Porque o resto da universidade na área de humanas no Brasil inteiro é completamente viés marxista. Não tem nada a ver com a lógica da ciência política americana. E esse cara me viu e me puxou para ser pupilo dele. Então…

Luciano Pires: Ali você começou a tomar contato com…

Paulo Moura: Ali ele…

Luciano Pires: Com os livros que não… que não entravam aqui, de jeito nenhum?

Paulo Moura: E com um professor que dava aula com outro viés. E…

Luciano Pires: Ele não era perseguido não?

Paulo Moura: Não… ele… completamente isolado na universidade. Completamente. Ele foi o cara que criou a pós-graduação em Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Francisco Ferraz, ele se chama. Eu devo a ele – do ponto de vista da minha formação acadêmica – muito, mas muito do que eu sei e do que eu aprendi. Porque ele tinha uma consultoria. E ele me puxou para a consultoria dele. Então eu fui trabalhar em campanhas eleitorais. Eu fui aprender a fazer análise de pesquisa com ele, na prática. Porque isso não se aprende em sala de aula. Num curso que ensina marxismo, você não aprende a fazer pesquisa. Você aprende a interpretar a pesquisa. A analisar pesquisa. A fazer a análise política. E a operar com consultoria independente. E ali veio outra fonte de renda. Porque ele me pagava um percentual do que ele cobrava dos clientes. E os clientes não eram só políticos. Era a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul. As federações empresariais. Eram grandes empresas, para fazer…

Luciano Pires: Você conseguiu a tua independência financeira da esquerda. É isso?

Paulo Moura: É. E aí, o que acontece? Como professor ali, eu comecei a dar aula na universidade lá. E, de vez em quando, as emissoras de rádio e TV, os jornais, ligam lá para o Departamento de Ciência Política: a gente precisa de uma opinião aqui. E eu comecei a ser chamado para a mídia lá no Rio Grande do Sul para opinar sobre questões políticas. E comecei a descer o pau no PT. Aí eu comecei a fazer a minha terapia. Eu era chamado. E tinha uns programas de debates lá, tipo assim, no rádio: eram dois caras de esquerda, dois de direita. Para gerar polêmica…

Luciano Pires: E para gerar audiência…

Paulo Moura: E tinha lá uma emissora comunitária da RBS, chamava TVCOM, onde de noite tinha um programa chamado Conversas Cruzadas, que era pilotado pelo atual senador Lasier Martins.

Luciano Pires: Sim. Grande Lasier.

Paulo Moura: E eu era habitué ali.

Luciano Pires: Eu sei tudo que você está falando. Porque eu trabalhava na Albarus, que depois virou Dana. 26 anos eu fiquei lá. Então eu frequentava direto lá. Inclusive, eu tenho algumas histórias com o Rio Grande do Sul. Eu assistia a cena cultural do Rio Grande do Sul, riquíssima, dos anos 80, anos 90, começar a cair. E de repente, o Rio Grande do Sul se desmanchar…

Paulo Moura: Umas das coisas que eu tenho o meu ativismo de direita até hoje é para pagar os meus pecados. Porque eu ajudei a fazer isso. A formar uma geração culturalmente de esquerda lá no sul. Foi marxismo cultural na veia. Formou-se ali duas, três gerações de profissionais de esquerda na universidade, por influência do ativismo cultural que a gente fazia.

Luciano Pires: Sim. Que tem gente que diz que é besteira. Tem gente que diz que…

Paulo Moura: Não. Isso é o centro da estratégia da esquerda.

Luciano Pires: Vamos dar um pause aqui agora. O programa aqui, ele dá umas voltinhas. Eu vou pescando coisa. Eu vou dar uma pausa aqui.

Paulo Moura: Tá.

Luciano Pires: Vamos falar um pouquinho de gramscismo? Você que estiver nos ouvindo aí, eu recomendo que se você não souber muito bem o que é, para agora, procura o Café Brasil Gramsci e os Cadernos do Cárcere. Ouve e depois você volta aqui, para continuar o papo aqui. Você está contando as histórias, você vai falando assim: aquele professor era isolado. Ele era único. Você estava sozinho. Então, havia o isolamento por quê? Porque tem um domínio…

Paulo Moura: A universidade é dominada. Ainda mais na área de humanas. Mas não só. Inclusive nas privadas. Não é só nas federais.

Luciano Pires: No ambiente acadêmico…

Paulo Moura: Acadêmico geral.

Luciano Pires: Ele é todo assim.

Paulo Moura: É.

Luciano Pires: Isso vem dos anos 60. Isso não começou anteontem e não começou nos anos 50. Isso foi nos anos 60.

Paulo Moura: Os militares cometeram um erro. Eles deixaram a universidade para a esquerda brincar.

Luciano Pires: Exatamente.

Paulo Moura: Durante o regime. É teoria da panela de pressão. Deixa uma válvula ali…

Luciano Pires: O Golbery. Tem a história do Golbery. Nós estamos dominados aqui. Esses caras vão nos encher o saco. Então, deixe eles com aquilo que não tem importância.

Paulo Moura: Que não tem importância.

Luciano Pires: Entregue para eles o cinema…

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: Teatro, cultura…

Paulo Moura: Educação.

Luciano Pires: Eles tomaram conta disso. E durante 50 anos eles trabalharam…

Paulo Moura: Formando profissionais, que hoje estão no poder, inclusive dentro das empresas.

Luciano Pires: Que tomam conta de tudo. Então, buscam aquela hegemonia. Ao ponto de que, se você for um artista que se manifesta – não vou nem dizer a favor – se você é um artista que não é contra a visão de direita, etc. e tal, você está ferrado.

Paulo Moura: Isolado.

Luciano Pires: Você está isolado.

Paulo Moura: Você perde a sua fonte de trabalho.

Luciano Pires: E a gente tem assistido perseguições históricas acontecendo. Essa coisa começa a mudar um pouco a partir de 2013, por aí, quando a direita: opa, espera aí.

Paulo Moura: É. A minha saída da universidade privada lá no Sul tem a ver com isso também. Não foi só a falência da universidade.

Luciano Pires: Então? Me fala um pouquinho dessa mecânica. Vamos lá no Gramsci. Você leu Gramsci?

Paulo Moura: Vamos lá. Existem… digamos assim, o marxismo, ele tem vários pensadores, várias correntes. Mas do ponto de vista de estratégia de poder existem duas grandes visões. Uma é a visão leninista e outra é a visão do Gramsci. Antônio Gramsci foi um teórico italiano, um comunista italiano. Passou boa parte da vida dele preso. E escreveu boa parte das obras dele na prisão. O Lênin… os marxistas dizem que a teoria marxista da revolução socialista, o materialismo histórico dialético é uma ciência. Por que é uma ciência? Porque eles estudaram as revoluções anteriores e sistematizaram o método de tomar o poder e transformar a sociedade capitalista numa sociedade, num primeiro momento, socialista e depois, comunista. Certo? Só que o Lênin é um cara que se focou na tomada do poder, no assalto ao poder, no golpe de estado. Então é…

Luciano Pires: A qualquer custo…

Paulo Moura: Então é a teoria de como insuflar as massas contra o poder, para derrubar este poder e sentar no trono do Nicolau II.

Luciano Pires: Na porrada, no tiro…

Paulo Moura: Na porrada. É.

Luciano Pires: No tiro, porrada e bomba.

Paulo Moura: É. No tiro, porrada e bomba. Exatamente. A teoria marxista original era greve geral insurrecional. Toma conta de todas as fábricas. Para a produção. Aí você tem o poder econômico na mão. E depois derruba o poder político na prática. Que é o assalto ao poder. Que é a fase final da tomada do poder. O Gramsci, ao contrário, ele foi estudar não a tomada do poder. Mas como a burguesia se manteve no poder depois, transformando e convencendo a maioria da sociedade de que os valores da liberdade, da propriedade privada e outros, que fazem parte do ideário liberal capitalista eram os valores que deveriam perdurar na sociedade, substituindo os valores da sociedade feudal. Tomar o poder é uma coisa. Preservar o poder é outra. O Gramsci é o cara que se dedicou à teoria da preservação do poder. E ele descobriu que você faz isso conquistando corações e mentes da sociedade, através da guerra cultural.

Luciano Pires: Ele já não está falando de tiro, porrada e bomba.

Paulo Moura: Você tem que conquistar…

Luciano Pires: Ele está falando de…

Paulo Moura: Os artistas, os intelectuais, os professores. E você tem que convencer a maioria das pessoas que socialismo não é uma coisa do capeta, não é uma coisa do demônio. Que é uma coisa boa, para que as pessoas desejem o socialismo. E depois que você toma o poder, você consegue sobreviver no poder. A revolução então, ela ganharia perenidade, como ganhou a revolução liberal capitalista lá do século 17, 18. Então, quando a União Soviética vai à falência, o marxismo soviético vai à falência, em 89 cai o Muro de Berlim. Em 91 cai a União Soviética. Os marxistas se voltam para o gramscianismo, para as ideias do Gramsci. E aí o Gramsci vai ser atualizado pelos caras da Escola de Frankfurt, que era composta de marxistas judeus alemães. Pensadores alemães. Marx era alemão. Vários filósofos são alemães. Para o bem ou para o mal. Os alemães fizeram isso com a sociedade do século 19, 20. Aí eles vão analisar a indústria cultural. Vão analisar o fenômeno cultural pós século 19. Estudar a indústria cultural americana. E em função da 2ª Guerra Mundial e o fato de que alguns deles eram judeus, eles se exilam nos Estados Unidos e vão dar aula na Califórnia. Vão formar os cineastas de Hollywood. Vão formar os jornalistas. Vão formar…

Luciano Pires: Isso anos 60?

Paulo Moura: Anos 60. Razão pela qual hoje a esquerda tem o poder que tem. Não foi um processo só brasileiro. O Brasil teve uma especificidade. Mas isso aconteceu no mundo inteiro. E a Escola de Frankfurt é a atualização do Gramsci para uma sociedade moderna, industrial, capitalista do século 20. E é isso. Então…

Luciano Pires: Eles tomam conta então dessas posições que são estratégicas. Então você domina o jornal. Você domina o meio de comunicação. Domina a escola. Domina as artes e vai fazendo a cabeça da garotada, da molecada…

Paulo Moura: Isso. Exatamente.

Luciano Pires: E aí elas crescem…

Paulo Moura: Na verdade, a concepção do século 19 é de que o poder tinha um endereço, que é o palácio do rei. Então, quando você tom o palácio do rei e decapita o rei. Toma o poder. Revolução Francesa. O Nicolau II, o czar da Rússia. Você mata o governo.

Luciano Pires: Mata a família inteira… é isso aí.

Paulo Moura: O que os pós-marxistas ou os neomarxistas foram descobrir – não só eles, hoje isso é estudado e é consenso acadêmico – é que o poder tem vários centros de poder. O poder está nas empresas. Está nas igrejas. Está no sistema educacional. Está no sistema de comunicação. Está em parte no sindicato. Está nos grupos de pressão.

Luciano Pires: E olha onde nós estamos chegando hoje. Está na hora de fazer uma revisão desse processo todo, porque quando você fala que o poder está em vários lugares você continua localizando geograficamente. Eu chego no Brasil, o poder da indústria está aqui, o da igreja está aqui, dentro do Brasil.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: E agora nós estamos num momento em que surgem entidades supranacionais.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: Você pega um Facebook…

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: Que teoricamente é uma empresa privada…

Paulo Moura: Querem governar o mundo sem serem eleitos.

Luciano Pires: E ele não está em lugar nenhum.

Paulo Moura: São empresas com interface na política.

Luciano Pires: Se dinamitar a sede dele, ele continua. Porque ele está no éter. Ele existe no éter. E não tem fronteira. Ele fura qualquer barreira.

Paulo Moura: Exatamente. Isso é outro fenômeno contemporâneo que é decorrente da globalização. Que é o surgimento do globalismo. A globalização é um fenômeno econômico e cultural, de interligação do mundo pelas tecnologias.

Luciano Pires: Por isso é tão difícil…

Paulo Moura: Só que esse fenômeno deu origem a grupos de interesse na área econômica, empresarial e na área política, que querem governar o mundo sem ser escolhido por ninguém. Eles se acham os donos do mundo e querem governar.

Luciano Pires: Se cria um capitalismo misturado com totalitarismo. É uma coisa maluca…

Paulo Moura: É.

Luciano Pires: Ainda vão inventar um nome para isso aí, logo mais.

Paulo Moura: Hoje é globalismo. É isso.

Luciano Pires: O nome é globalismo?

Paulo Moura: É a ideologia que defende esta visão de que o mundo precisa de um governo único. Tudo bem. Mas quem é que escolhe esse governo? Quem é que manda nesse negócio? Quem é que é mandado? Como que é isso?

Luciano Pires: É muito louco isso.

Paulo Moura: E os conservadores hoje lutam para quê? Para preservar a soberania nacional. Para preservar o poder de o povo controlar os seus governos. Porque em âmbito nacional, isso ainda é possível. Em tese. Com eleições, com democracia.

Luciano Pires: Mais ou menos.

Paulo Moura: Exato. Porque os caras vão tentando cercear essa liberdade para controlar o poder.

Luciano Pires: Isso explica muito, o que nós estamos vendo agora.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: Quando você, contra toda a lógica, contra a Constituição, contra aquilo que está escrito na lei. Você vê acontecer coisas que você fala: não é possível. Esse cara não podia ter sido preso. E ele é preso. Esse processo não pode andar. E o processo anda. Está escrito que não é permitido. Mas alguém dá um jeito de dar um balão. E aquilo passa a ser permitido à revelia do que quer a gente. Muito bem. Você está no LíderCast. O LíderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e Café Brasil Premium têm acesso imediato à temporada completa, assim que ela é lançada. Os não assinantes receberão os programas gratuitamente, um por semana. Para assinar, acesse mundocafebrasil.com e conheça nosso ecossistema do Café Brasil Premium através do site ou pelos aplicativos para IOS e Android. Você pratica uma espécie de MLA, Master Life Administration, recebendo conteúdo pertinente, de aplicação prática e imediata, que agrega valor ao seu tempo de vida. São VídeoCasts, sumários de livros, PodCasts, e-books, eventos presenciais. E a participação em uma comunidade nutritiva, onde você faz um networking com gente como você, interessada em crescer. Como é essa tua transição? Eu quero chegar no teu momento agora, quando você vira um empreendedor.

Paulo Moura: Aí o Rio Grande do Sul, ele apesar de ser responsável por uma grande merda feita no país, que é produzir Dilma Rousseff, Tarso Genro, Olívio Dutra. Desculpem. Eu saí de lá. Vim para cá para São Paulo. Que aqui tem algo de capitalismo de fato, que me encanta.

Luciano Pires: Pausa. Pausa. Você me deu um gancho maravilhoso. Eu preciso entender isso aqui. Quando você olha uma sociedade norte-americana, ela é marcada pela transição de poder entre dois grupos ali, historicamente assim.

Paulo Moura: Sim.

Luciano Pires: Os republicanos tomam conta. Depois democratas. Depois republicanos. Então há uma alternância. E o país não deixa de ser o que é. O país continua. Ele vai aos trambolhões, mas vai. E essa alternância é uma coisa que durante muito tempo foi considerada positiva.

Paulo Moura: Está se perdendo isso.

Luciano Pires: Está dançando porque a base dela, o Partido Democrata norte-americano hoje não tem nada a ver com o do Bill Clinton, lá atrás. Pega esse mesmo conceito…

Paulo Moura: Não. O Bill Clinton e a mulher foram os que começaram a fazer…

Luciano Pires: Sim. Começaram, mas quando começou…

Paulo Moura: É anterior a eles.

Luciano Pires: É anterior a eles. Pega esse mesmo conceito e vamos trazer para a tua terra, o Rio Grande do Sul. E a gente assistiu lá uma curiosa alternância de poder. Se você pega o governo do Rio Grande do Sul. PT. Não PT. PT. Não PT. Durante seis ou sete mandatos aconteceu isso.

Paulo Moura: Exceto Porto Alegre, que o PT governou por 16 anos seguidos.

Luciano Pires: Mas eu me referi ao estado. E lá não houve essa coisa positiva do que a alternância faz bem. Porque você pegava um governo que ia lá e limpava, arrumava tudo. Ele perdia. Ele nunca era reeleito. Nenhum governador é reeleito lá. Ele perde. E entra outro que destrói tudo.

Paulo Moura: São duas coisas diferentes. Os Estados Unidos…

Luciano Pires: Deixa eu só perguntar. Deixa eu só terminar. E o Rio Grande do Sul é conhecido como a terra… a pessoa de lá é aguerrido. É um pessoal que tem um nível cultural…

Paulo Moura: Mito. Isso é mito.

Luciano Pires: Isso é mito?

Paulo Moura: Isso é mito.

Luciano Pires: E você fala: dali deveria haver uma inteligência lá que sacasse isso. Mas não é o que acontece.

Paulo Moura: Vamos lá. Primeira coisa: os Estados Unidos são o que são, entre outras coisas, porque o que une a nação americana é a Constituição. Ou seja, os Estados Unidos é um país construído… os Estados Unidos nasce ao mesmo tempo que o Brasil. Declara a Independência ao mesmo tempo que o Brasil. Têm dimensões territoriais condizentes com a do Brasil. Tem uma colonização multicultural como o Brasil. Mas ele tem valores e raízes opostas. Em que sentido? Os Estados Unidos foi colonizado por gente que estava fugindo da perseguição política na Inglaterra e na Europa. Então, o colono americano vem para fundar uma nação de homens livres. E é uma nação fundada no empreendedorismo individual. Aquela imagem do colono americano no carroção, indo para o Velho Oeste, com uma espingarda, um barril de farinha, um barril de sal, um barril de pólvora, a mulher, um cachorro, uma vaca. Lutando. Matando um monte de índio. Aquela coisa toda. Mas o cara vai lá e monta a sua propriedade. Passa a vida inteira no tiroteio para manter aquela propriedade. E a comunidade surge depois das propriedades. Ela é o resultado do surgimento de várias propriedades, que são resultado do espírito empreendedor dos caras. Então lá a riqueza é uma coisa que você conquista produzindo com o trabalho. E aí é que vai surgir a igreja, o cabaré, o xerife, o juiz. Isso tudo escolhido pela comunidade. A Federação nasce depois dos estados, por decisão voluntária do povo, em plebiscito. Eram 13 estados, que quando eles ganharam a Guerra da Independência, eles submeteram ao plebiscito a decisão: vamos virar 13 nações ou vamos virar os Estados Unidos da América? Vamos virar os Estados Unidos da América. Aí veio a Constituição. Mas já existiam as legislações estaduais. O Brasil é fundado… Portugal era um dos cinco Estados mais poderosos, burocráticos e modernos do século 16. O índio do trópico não precisa trabalhar para viver. O cara deita na rede. Eu estou com fome? É só eu ir na árvore. Eu pego uma fruta. Você vai pegar os índios aqui da Cordilheira, você vai ver que são civilizações muito mais organizadas. O frio te força a te organizar, a trabalhar. E, consequentemente, daí veio a tecnologia da guerra. A tecnologia da arquitetura. A tecnologia da agricultura e tudo mais. O índio americano era índio do frio. Então, quando os portugueses chegam aqui nos trópicos, o domínio é muito fácil. O genocídio das populações indígenas. Naquela época eram quatro milhões e meio, cinco milhões de índios. Hoje se tiver 200 mil… aculturados. A esquerda ainda faz questão de confinar eles no zoológico. O índio americano hoje é um índio empreendedor, rico. Aqui são raros. Você vai encontrar ali no Mato Grosso, umas etnias que estão no agronegócio. Lá em Rondônia, os caras que estão metidos em garimpo de diamante. Índio rico. Índio empreendedor. Mas é exceção. Então os portugueses chegam aqui, eles fundam o Estado antes de existir economia e sociedade.

Luciano Pires: Sim. O Estado vem antes.

Paulo Moura: E o brasileiro se cria com a ideia de que a ascensão social se dá sendo amigo do rei. Eu fico rico aqui, tendo um cargo no governo ou sendo amigo do cara que tem um cargo no governo. E o enriquecimento não vem do trabalho. Eu tiro da natureza ou eu tiro dos outros. Essa é a mentalidade nacional, chamado isso conceitualmente, de patrimonialismo. O Rio Grande do Sul, curiosamente, é o único estado do Brasil que é brasileiro por opção. Era para ter surgido ali uma nação cisplatina, que uniria o sul do Brasil, o Paraguai, o Uruguai e o pampa argentino, numa nação. Mas as guerras de fronteira, aquela coisa toda ali, optou por ser parte do Brasil. E como os conflitos de fronteira historicamente ali são conflitos com a Argentina e o Paraguai, o gaúcho se criou guerreando. Então é a população mais armada do Brasil. Eu estou falando de armas legais. E é uma população que, pela tradição da guerra, não é politizada como se pensa. Ela é partidarizada. Assumiu-se ali uma raiz cultural de tomar parte no conflito. Nós contra eles. É Grêmio contra Inter. E eu que sou gremista sou mais anti colorado do que gremista. Então você é ximango ou maragato.

Luciano Pires: É isso aí.

Paulo Moura: Ximangos eram os federalistas e os maragatos eram os separatistas. O gaúcho comemora uma revolução derrotada, que foi a Revolução Farroupilha. O Império ganhou. O gaúcho canta o Hino do Rio Grande do Sul com mais orgulho. E sabe de cor, melhor do que o Hino Nacional brasileiro. Diz lá: sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra. Eu prefiro uma versão mais atual: sirvam nossos modelos de façanha a toda Terra. Então o gaúcho é passional, ele é posicionado, ele é partidarizado. Mas há muito tempo que o Rio Grande do Sul perdeu. Porque a educação lá era uma educação feita por padres. Por escolas confessionais comunitárias. Getúlio começou a destruir isso. Então, o padrão educacional do passado, o Rio Grande do Sul ainda bebe da fonte de uma imagem construída sob padrões educacionais do passado, que não existem mais. Outra: o Rio Grande do Sul só governou esse país em ditadura. Os cinco generais do regime militar estudaram no Colégio Militar de Porto Alegre, inclusive o cearense. Entendeu? Foram formados lá. Por quê? Porque o Rio Grande do Sul até hoje ainda é a maior concentração de quartéis da América Latina, por causa dos conflitos de fronteira. Então agora estão transferindo muitos quartéis para a Amazônia. A questão geopolítica mudou. O Mercosul. A Argentina. Não tem mais risco de guerra ali com o Paraguai. Está tudo certinho. Itaipu forçou o Brasil e o Paraguai a serem sócios para o resto da vida e tal. O problema agora é proteger as fronteiras da Amazônia. Então, gradativamente vão se transferindo. Mas o Rio Grande do Sul ainda é a maior concentração de quartéis da América Latina. E é uma mentalidade. O Rio Grande do Sul é berço do positivismo. Os fazendeiros mandavam os filhos estudarem Direito na França e os caras trouxeram o positivismo. Porto Alegre tem um Templo Positivista, que é ponto turístico. Entendeu?

Luciano Pires: Sim.

Paulo Moura: Então toda essa ideologia da ordem, do progresso…

Luciano Pires: O amor à ordem, o amor ao progresso…

Paulo Moura: Que orientou os militares brasileiros na estrutura da formação da identidade nacional, da delimitação das fronteiras é influência de uma formação que veio de lá.

Luciano Pires: Essa pergunta que eu te fiz então, da dualidade, dessa coisa da alternância de poder…

Paulo Moura: Tem a ver com a raiz bélica, nacional e partidária ideológica.

Luciano Pires: Mais bélica do que política, digamos assim?

Paulo Moura: É.

Luciano Pires: Não é um partido…

Paulo Moura: É a versão da política. Ela existe no futebol.

Luciano Pires: Sim.

Paulo Moura: Ela existe em tudo lá. O gaúcho é assim. E isso se reproduz de geração a geração. E é impressionante, porque o gaúcho que fica lá. Lá existe mesmo uma linguagem. É o balaio de caranguejo. Entendeu? Você vai montar um negócio, o gaúcho fica pensando como é que ele vai te tirar o dinheiro. Como é que ele vai fazer para o teu negócio dar errado. Entendeu? Você pega um balaio de caranguejo, você puxa um caranguejo, os outros vem tudo pendurado atrás, puxando o caranguejo de volta para o balde. Porque em São Paulo, você chega para um paulista e chega assim: vamos fazer um negócio? É assim, assim, assado. Onde é que eu vou levar o dinheiro? Quando é que a gente começa? Como é? Entendeu? É outra cabeça. É outra mentalidade.

Luciano Pires: Se você faz isso nos Estados Unidos, a turma em volta está aplaudindo.

Paulo Moura: É.

Luciano Pires: Vai. Vai.

Paulo Moura: Isso. Vai que dá certo. Vai gerar emprego.

Luciano Pires: É isso aí.

Paulo Moura: Onde é que você vai achar o gaúcho empreendedor? Você vai achar no Paraná, Santa Catarina, no Mato Grosso, no Pará, no sul da Bahia, no oeste da Bahia, no Paraguai. O cara vai conquistar o Brasil. O gaúcho tem esse lado imperialista, mas tem esse lado funcionário público, burocrático, atrasado, autoritário.

Luciano Pires: Interessante.

Paulo Moura: Culturalmente é isso.

Luciano Pires: Interessante. Eu quero chegar no teu empreendedorismo agora na internet, essa coisa toda ali. Você volta para São Paulo. Como professor, quando é que você encerra a tua atividade?

Paulo Moura: Em 2016. Aconteceram duas coisas ali. O fato de eu ser de direita na universidade lá era tolerado, primeiro, porque era uma universidade luterana. Então, a universidade luterana também está infiltrada pela esquerda. A igreja luterana está infiltrada pela esquerda. Eu tenho educação católica. Hoje eu acredito em Deus. Mas não sigo nenhuma religião. Mas a burocracia intermediária da universidade, as pedagogas do planejamento educacional, tudo comunista. Tudo petista. Mas eu tinha uma inserção diferenciada na universidade, porque como eu levava a marca da universidade para a mídia, era o professor Paulo Moura, cientista político da ULBRA. Eu era tolerado, inclusive do ponto de vista de não precisar prestar 40 horas cuspe e giz, bunda na cadeira na universidade. Eu podia fazer as minhas consultorias. Então criei um patrimônio legal ali, fazendo consultoria. Eu virei consultor da Federação das Indústrias, consultor dos principais partidos quando tinha candidato. Eu pegava os candidatos contra a esquerda, essa coisa toda. Eu tinha uma penetração na mídia. Eu era chamado para escrever artigo, para dar entrevista. Uma inserção legal ali. Mas quando eu me envolvi com o movimento do impeachment da Dilma, a sociedade brasileira toda ficou radicalizada. As pedagogas começaram a me perseguir. Então eu virei coordenador do curso que eu dei aula durante muito tempo. E chegou lá num determinado momento, elas disseram: tu não vai mais ser coordenador do curso. Tu vai voltar a ser professor horista. Porque como coordenador do curso, eu tinha 40 horas garantidas. Como professor horista você tem que ficar…

Luciano Pires: Às 40 horas…

Paulo Moura: Beijando mão de coordenador de curso para pedir disciplina, para formar 40 horas. Então o teu salário é um salário que pode subir ou descer. E o meu curso era um curso muito pequeno. Eu não conseguia formar 40 horas só dentro dele. Eu tinha que dar aula no curso de Direito, no curso de Administração. Eu tinha que ministrar, sei lá, Teoria Geral do Estado no Direito. Ciência Política na Administração. Análise da Sociedade Contemporânea em outros cursos. Eu tinha que pegar essas disciplinas. Só que para você pegar essas disciplinas, você tem que sair puxando o saco de outros coordenadores de curso. Tem uma disputa entre os professores. E as minhas 40 horas viraram uma hora, de um semestre para o outro.

Luciano Pires: Ou seja, eles usaram a velha técnica de atingir o teu bolso, tirar teu financiamento…

Paulo Moura: Isso. Exatamente.

Luciano Pires: A tua capacidade de se…

Paulo Moura: Aí eu falei: gente, isso aqui não paga… que universidade fica assim, tipo: São Paulo, Guarulhos. Porto Alegre, Canoas. Eu tinha que… eu disse: isso aqui não paga nem a pensão do meu filho. Não vale nem a pena eu pegar o carro para sair de casa e vir aqui. Vocês me demitam. Não. A universidade está mal de grana. Fica aí. Vai te virando com mil reais por mês e tal. Aí eu entrei na justiça e forcei a me demitir. Como eles não estavam pagando o salário em dia, não estavam pagando FGTS, eu fiz uma demissão indireta. O empregador não cumpre o contrato. Eu ganhei na justiça. Mas também me deram um calote. Até agora, eu não recebi nada. Então eu com 57 anos, me vi desempregado. O Brasil em recessão. O mercado de educação privada não estava contratando. E eu já estava de saco cheio da sala de aula. Porque a qualidade dos alunos caiu muito. O interesse dos alunos em obter conhecimento se reduziu ao máximo. O aluno quer o diploma para chegar na empresa e pedir aumento de salário. Ele não quer o conhecimento. E o professor de vocação, tu te alimenta com o aluno que faz pergunta inteligente. Claro que numa sala de aula tu tem ali…

Luciano Pires: Tem tudo.

Paulo Moura: 20% são top. Mais uns 50% que são intermediários. E mais uns 30% que é a turminha do fundão, aquele pessoal ali. Mas a aula te dá tesão. E eu trabalhando na educação à distância, eu via isso acontecer nas interações. Os alunos iam lá, baixavam os PDFs e ninguém interagia em nada. E as pedagogas dizendo que a gente tinha que todo semestre preparar trocentos exercícios novos. Refazer todas as provas, para não ter prova igual de um semestre para outro. E os alunos nem aí. Então eu já estava perdendo o tesão. Mas o meu salário era muito bom. Eu estava lá há 20 anos, com gratificação de mestrado, gratificação de doutorado. A cada quadriênio tinha mais uma gratificação. O meu salário estava totalmente fora do mercado. Eu disse: vou embora para São Paulo de novo. Lá circula dinheiro. E eu calculava me reposicionar no mercado em dois anos. Então eu vendi o meu patrimônio lá. Eu morava num belo apartamentinho de cobertura. E tinha mais um apartamento para negócio, para locação. Vendi o meu patrimônio. Apliquei. E vim embora para São Paulo.

Luciano Pires: Em 2016?

Paulo Moura: Em 2017 eu vim.

Luciano Pires: Já depois do impeachment e tudo mais…

Paulo Moura: Eu pedi demissão em 2016 e já comecei a preparar. E vim. Eu conheci muita gente no ativismo do movimento do impeachment. E eu fiz um documentário sobre o movimento do impeachment, quem quiser ver. Chama-se movimento do Impeachment: o Brasil nas Ruas. Está no Googleplay. Está no NOW da NET também. Então eu conheci todas as principais lideranças do movimento do impeachment. Eu vinha para São Paulo no movimento do impeachment. Eu tinha reuniões com os grupos. Eu conheci empresários. Eu fiz relações. E digo: vou embora para São Paulo. Aí vim para cá. Aluguei um flatzinho ali na Alameda Loureiro enquanto eu procurava apartamento para alugar. E comecei a minha estratégia de reposicionamento profissional. Eu fui procurar algumas universidades. O salário de entrada de 40 horas aqui era 1/3 do salário de saída que eu tinha lá. E eu na beira dos 60 anos. A minha paciência para ficar 40 horas falando numa sala de aula foi para o saco. Mesmo assim, eu procurei. Quando eu disse: não, esse salário inicial aqui não dá. Não vai dar. Aí eu comecei a pensar em como é que eu vou sobreviver aqui no mercado. Então apareceram algumas parcas consultorias. Mas foram quatro anos gastando as minhas economias.

Luciano Pires: O patrimônio. Sim.

Paulo Moura: Mas eu comecei a estudar marketing digital. Como eu te disse: eu sou aficionado em tecnologia. Mexendo com comunicação. Eu comecei a estudar marketing digital por conta própria. Furungar na internet. Fazer os cursos online de graça. Achei uns cursos presenciais aqui em São Paulo. Eu fui me posicionar. Na campanha eleitoral passada, no finalzinho do ano de 2020 foi um faturamento zero. Só nos últimos dois anos da campanha eleitoral, eu peguei uns bons contratinhos ali de consultoria. E agora esse ano, 2021, engatou. Eu consegui fechar umas consultorias. E muito tem a ver com o canal.

Luciano Pires: Isso. Quando é que você bota o canal no ar.

Paulo Moura: Eu botei o canal no dia 1º de maio de 2020.

Luciano Pires: No começo da pandemia?

Paulo Moura: No começo da pandemia.

Luciano Pires: Começa a pandemia e você põe um canal no ar?

Paulo Moura: Porque, o que eu saquei? Primeiro: existe uma enorme falta de qualificação nessa nova direita. Essa nova direita que emergiu das ruas é composta de um pessoal com alto poder aquisitivo, uma classe média alta. O Bolsonaro entra em classe popular. Mas o povo que fez o impeachment da Dilma é classe média, com alto poder aquisitivo, que se politizou e que tem interesse em política. E eu comecei a olhar essa primeira geração de youtubers e ver a lacração, ver um troço de um padrão… não vamos generalizar. Tem gente muito inteligente. Gente muito qualificada que teve sucesso por mérito seu. Eu reconheço. Mas o padrão geral… por exemplo, eu conheço o pessoal do Brasil Paralelo, que é lá de Porto Alegre. E eu vi eles darem um tiro certeiro. O que eles começaram a fazer? Eles começaram a fazer produção audiovisual para formação política e informação, para esse público. E constituíram uma empresa de sucesso. Ou seja, eu descobri que nós temos um nicho de mercado no Brasil, cerca de 30% do eleitorado brasileiro é composto de conservadores politizados. A maioria de classe média, que se interessou por política e que está com vontade de aprender. Então eu tenho mercado. Eu tenho aqui uma iniciativa que deu um tiro ali, que era o Brasil Paralelo. Deu um tiro nesse mercado e deu certo. Eu digo: eu vou fazer um canal com o seguinte conceito. Eu como professor 20 anos, eu aprendi falar sobre ciência política numa linguagem que as pessoas entendem. Sempre foi a minha preocupação. Se você pegar um sociólogo hoje, eles falam sociologuês. É um troço. Os caras usam 500 palavras, que dava para dizer em 10.

Luciano Pires: O ambiente acadêmico é hermético. Para a sociedade ele é hermético.

Paulo Moura: Ele é hermético. Completamente. Principalmente no Brasil. O conhecimento que se produz lá, fica isolado lá. E ele utiliza uma linguagem que é feita para ninguém entender, que é justamente para fechar, para restringir, para negar o acesso. Então, como eu trabalhei em comunicação, eu como editor eu aprendi os times das falas. Eu vendo profissionais na frente da minha câmera, eu via como é que eles operavam. Eu funciono bem. Quando eu era chamado para programas de televisão lá, os caras gostavam por duas razoes. Primeiro: porque eu dava ponto de corte para o editor. Eu falava frases curtas, raciocínios curtos, que cabiam em blocos de televisão, sem ocupar muito tempo. Eu tinha um posicionamento contundente, que gera polêmica. Eu sempre me posiciono. Se for pegar um cientista político desses que fala para a imprensa, esses padrões de mercado, academia, esse pessoal do INSPER, da USP. Eles querem aparentar uma neutralidade que não existe. Eu não. Eu acho que a minha isenção vem do fato de que eu assumo que eu tenho lado. Eu tenho posição. E você é inteligente o suficiente para dar um desconto para o que eu estou falando. Você não precisa concordar comigo. Eu vou te entregar o que eu penso.

Luciano Pires: É a postura do comentarista esportivo que esconde o time para quem ele torce.

Paulo Moura: É.

Luciano Pires: Ou o cara que diz: eu sou corintiano. E vou comentar Flamengo e Corinthians. E aí? Entendeu? Todo mundo está assistindo. Todo mundo está vendo o que está acontecendo.

Paulo Moura: É. Exatamente.

Luciano Pires: E eu vou dar um aspecto técnico, que, talvez, você não tenha sacado aqui.

Paulo Moura: É. E você acredita na inteligência desse espectador…

Luciano Pires: Exatamente. Esse é o ponto.

Paulo Moura: Para ele dar o desconto. Se ele quer ou não quer. Eu acho mais honesto isso.

Luciano Pires: Desde que você deixe claro de que janela você está posicionado. Esse é o ponto.

Paulo Moura: Então eu digo assim: eu vou fazer um canal em que eu vou… é óbvio que eu não estou fazendo ciência política no canal. Eu estou fazendo jornalismo de opinião, no qual eu uso a ciência política ou a teoria da comunicação, que é o mestrado em ciência política e doutorado em comunicação. Eu fui estudar essas duas áreas. Eu vou botar o conhecimento para interpretar os fatos para as pessoas à luz da teoria. Tanto que eu digo em toda a abertura do meu vídeo: esse é um canal que faz análise política com um viés conservador, à luz da ciência política e da teoria da comunicação em vídeos curtos. Esse é o conceito do canal. Às vezes eu faço uns vídeos mais longos. Eu vou lá e pego um texto teórico. Lógico que o texto teórico está relacionado com algum acontecimento da conjuntura. Domingão; está com tempo aí? Então tu vai ficar uma hora me ouvindo aqui. E eu – por muita sorte – casei com uma mulher que tem o dom do design e da edição.

Luciano Pires: Legal.

Paulo Moura: Então eu combinei com ela. Tu vai fazer um curso de edição profissional e tal. E botei ela num curso aqui. Mas ela já debulha no celular. O Instagram dela. Ela já faz a ediçãozinha ali. Ela editava os vídeos dela no celular. Ela tem o dom. então eu moro num apartamento de dois quartos…

Luciano Pires: Você definiu que esse é o teu negócio? O teu business é esse?

Paulo Moura: Não. Não porque o canal, com 60 mil seguidores, ele não dá. Ele não paga…

Luciano Pires: 60 mil ainda. Mas é uma coisa que pode…

Paulo Moura: É. Eu vou chegar lá.

Luciano Pires: Pode chegar lá.

Paulo Moura: 60 mil com um ano e meio de canal.

Luciano Pires: Sim. Mas você está trabalhando isso de forma séria?

Paulo Moura: Sim.

Luciano Pires: Não é uma coisa diletante. Eu boto ali que é para fazer barulho.

Paulo Moura: Eu posto um vídeo por dia. Sábado, domingo, feriado.

Luciano Pires: Eu vou te dar um exemplo, quando eu comecei o meu canal, a minha ideia era a seguinte: eu vou fazer um canal para que ele exponha a minha imagem, para que eu ganhe dinheiro sendo contratado para fazer palestras. O canal era só um canal de: conheçam as ideias do Luciano. E o chamem para fazer palestras. O canal nunca foi gerador de receita. Eu nunca pensei no canal para ele gerar. Eu vou botar um patrocinador.

Paulo Moura: É o que acontece. As consultorias que eu consegui, elas decorrem do sucesso do canal.

Luciano Pires: Sim. Mas eu estou pegando a mecânica que foi a seguinte aqui: eu nunca pensei no canal como um gerador de receita.

Paulo Moura: Eu também não.

Luciano Pires: Ele sempre foi um canal de comunicação.

Paulo Moura: Eu também não.

Luciano Pires: O teu pensamento foi esse também?

Paulo Moura: Sim.

Luciano Pires: Porque tem muita gente que está colocando canal no ar. E o canal é o gerador de receita. Pega essa molecada desses PodCasts, novos aí, essas lives que eles estão fazendo na internet. Os caras fazem nove programas por semana. Dois por dia, com três horas cada um. E dá um volume gigantesco. E o dinheiro vem do Youtube. Ou vem do patrocinador que está ali. Então, o canal é a geração de receita.

Paulo Moura: Eu penso assim: voltando a ganhar dinheiro agora. Recuperando o que eu perdi, eu penso em ir para uma estrutura melhor. Eventualmente, até ir morar no litoral, desde que tenha fibra ótica de alta velocidade.

Luciano Pires: Qualquer lugar.

Paulo Moura: E aí botar um estúdio legal dentro de casa. Porque hoje eu moro num apartamento de dois quartos. Um quarto é um quarto de hóspede, que o meu filho quando vem do Sul para ali. Mas é meu escritório e meu estúdio. Eu viro a câmera para cá. Num espacinho de 12 metros quadrados.

Luciano Pires: E manda ver.

Paulo Moura: E mando ver. Eu trabalho no computador. Hoje eu faço uma entrada diária também num canal do agronegócio chamado Tempo e Dinheiro, de um jornalista sênior, o João Batista Oliva. Ele foi o criador do Canal Rural. A família dele é de Campinas.

Luciano Pires: Internet também?

Paulo Moura: Internet. Eles têm uma empresa na área de comunicação voltada para o agronegócio se chama Notícias Agrícolas. Agora ele criou o canal chamado Tempo e Dinheiro. Como ele diz: Notícias Agrícolas é voltado para dentro da porteira. E ele criou um canal e um site para fora da porteira. Vai falar de preço de commodity. Bolsa de mercadorias e essa coisa toda.

Luciano Pires: Que legal.

Paulo Moura: E eu sou comentarista político ali. Como é um público bolsonarista, o cara me descobriu e me convidou. E isso está entrando uma graninha. E estão aparecendo consultorias, decorrentes também… que esse pessoal do agronegócio financia candidatos. Tem gente ali que vai ser candidato, essa coisa toda. E eu faço a consultoria de marketing e comunicação política.

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar. Que produto você vende para esses caras que vêm buscar consultoria? É um só produto? Eu vou te orientar para você ganhar uma eleição?

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: O teu produto é esse aí?

Paulo Moura: É. E agora em parceria com o João, a gente vai oferecer ali um pacote de comunicação completo. Com produtora, com equipe, essa coisa. Montar toda uma estrutura de comunicação para fazer a campanha.

Luciano Pires: Esse é um trabalho que explode em época de eleição e depois ele fica dois anos…

Paulo Moura: É. Exatamente.

Luciano Pires: Ele vai por picos.

Paulo Moura: Isso. Lá no Rio Grande do Sul, nos intermezzos, eu me mantinha porque eu era consultor da Federação das Indústrias. Fazia análise política…

Luciano Pires: E era professor. Então…

Paulo Moura: E o salário da universidade era um bom salário. Me mantinha. E eu, de vez em quando, fazia uns freelancer de análise de pesquisa de mercado e outras coisas e as consultorias políticas. Mas era sempre um sobe e desce.

Luciano Pires: Isso me interessa muito agora. A tua estratégia. Eu vi que você cresceu o teu canal. Foi legal. Você começou em 2020, você está com 60 mil seguidores.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: Você usou algum artifício para isso? Nada ilegal. Artifício tipo assim: eu fiz propaganda paga em algum lugar…

Paulo Moura: Não. Eu recentemente, depois que o canal fez um ano, que eu já tinha montado um público orgânico forte. Aliás, a Bruna Torlay me deu uma baita força lá, quando eu estava com os meus mil seguidores. Ela me levou para fazer uma live no canal dela. E meu canal pulou de mil para 10 mil.

Luciano Pires: Que legal.

Paulo Moura: E desde ali ele vem crescendo, regular e periodicamente, todo mês. Quando o presidente agita a rede dele, causa alguma treta, o pessoal fica excitado, o canal cresce mais rapidamente. Quando as coisas estão calmas como estão agora, cresce mais lentamente. Mas sempre cresce. Mas durante uns dois ou três meses ali, eu impulsionei os vídeos do canal, usando a segmentação do Google. Eu listei mais de 200 canais da direita; e umas 50 palavras chave relacionadas com a direita. E eu segmentava. Botava ali, 10, 20 reais por vídeo. Para forçar o Youtube a distribuir o meu vídeo para quem está vendo os outros canais da direita ver os meus vídeos. Só que o meu Google ADS foi suspenso. Porque na época da pandemia, para não falar, para não usar as palavras que geravam cancelamento, ao invés de falar vacina, eu falava remédio. Eu avisava: pessoal, eu vou falar em linguagem cifrada. Vocês sabem o que eu estou falando aqui.

Luciano Pires: Ao invés de falar China, você falava: grande país asiático.

Paulo Moura: Ou falar da eleição do Trump, eu falava aquele presidente do hemisfério norte que a gente gostaria de ver eleito. Eu falava dessas coisas. Só que o Google criou uma regra de que esse tipo de subterfúgio era punido depois. Então eu fui cancelado no Google ADS. Nunca mais eu posso pagar publicidade no Google. A não ser que isso seja feito por terceiros.

Luciano Pires: Você de novo está sendo perseguido?

Paulo Moura: Perseguido.

Luciano Pires: Você foi perseguido na escola.

Paulo Moura: Isso. É a minha sina. É. Na universidade. Eu fui perseguido no ambiente político do Rio Grande do Sul. E agora, de novo, pelas big techs. Eles não me cancelaram. Eu consigo monetizar os vídeos. Os meus vídeos têm publicidade. E isso para mim é claro. Eu não vejo nenhum objetivo. Nenhum mérito, nada a ganhar, atacando pessoas. Ameaçando pessoas, ameaçando pessoas, dizendo que eu vou invadir isso, invadir aquilo. Que eu vou te pegar na rua.

Luciano Pires: Isso tem prós e contras. O contra disso aí é que você demora muito para crescer. Porque na treta. Treta é uma maravilha. Cresce. Arruma treta aí. Eu ia até combinar com você.

Paulo Moura: Mas eu não quero crescer com treta.

Luciano Pires: Mas eu ia combinar com você, da gente entrar em treta nós dois.

Paulo Moura: Para ver se a polêmica gera…

Luciano Pires: Olha: os dois estão se pegando lá. E os dois crescem juntos.

Paulo Moura: Isso. Eu digo: não, eu quero crescer com qualidade. Eu quero um público que quer conhecimento, que quer qualidade.

Luciano Pires: Perfeito.

Paulo Moura: Que quer análise política. Que quer entender a política a partir de uma visão um pouco mais sofisticada do que a análise rasteira dos fatos superficiais. E eu análise política. Porque com esse professor lá do Sul, na eleição de 1994, quando existia o pavor do Lula ganhar, antes do Plano Real. Ele criou um produto, era uma newsletter diária para empresários top. Custava mil dólares por mês, a assinatura, para 30 empresários das maiores empresas brasileiras. Naquela época, a internet estava recém começando. O cara chegava no escritório de manhã e tinha no fax dele, um texto de duas laudas, explicando o principal fato político do dia anterior. Ou fazendo um prognostico do que acontecia. Análise de pesquisa, essa coisa toda. E para o cara pagar mil dólares por mês, ele não pode chegar no escritório, abrir o Estadão e encontrar um negócio igual.

Luciano Pires: Não. Claro.

Paulo Moura: Tinha que ser um troço altamente diferenciado e num texto… você imagina um executivo da Gerdau, do grupo Ultra, da Ericsson. O tempo desse cara custa um caminhão de dinheiro. O cara tem que chegar ali. Lauda jornalística.

Luciano Pires: Direto ao assunto.

Paulo Moura: É isso. O cara lê. E aí ele vai chegar na mesa do almoço com os outros e vai falar como se fosse ele.

Luciano Pires: Detonar.

Paulo Moura: Que era ele que estava dizendo aquilo. Não precisa dizer que ele comprou aquilo ali.

Luciano Pires: No fundo, tudo se resume à vaidade pessoal.

Paulo Moura: É. E ali eu adquiri uma disciplina de texto. De colocar um argumento, bem explicada a coisa. Se você tem dois temas, faça dois vídeos. O vídeo tem um tema. A unidade analítica é o principal fato político do dia anterior ou um fato que se destaque no dia anterior. Uma pitadinha de projeção. O ser humano quer sempre saber o futuro. Às vezes, eu brinco lá no canal: eu não sou a Mãe Diná. Mas… porque quando você faz análise política sistematicamente, tem uma disciplina de análise. A minha disciplina é rigorosa. Todos os dias de manhã, além da disciplina de viralização. O vídeo entra no ar às sete. Eu gravo o vídeo no final da tarde. A minha mulher edita. Eu publico, programado para entrar às sete horas da manhã. O cara levanta, vai tomar café, 10 minutos. Vou ver o Paulo Moura ali. Depois, quando o vídeo entra no ar, eu meto em lista de transmissão. Eu meto em 100 grupos bolsonaristas. Eu boto em quatro páginas do Facebook. Eu meto no canal do Telegram. E no Facebook você não pode botar em 100 grupos, um atrás do outro, porque eles te bloqueiam. Eles vão te tratar como spam. Eu meto em duas contas do Twitter. Tu tem que botar de cinco em cinco grupos. Bota cinco. Dá uma paradinha. Vai fazer alguma coisa. Bota mais cinco. Até completar 100 grupos. Então eu começo às sete horas da manhã. Uma pausinha para o café. Às vezes, tomo café na frente do computador. Então eu ou terminar lá pelas nove e meia, 10 da manhã.

Luciano Pires: Você tem um tempo do teu dia dedicado à distribuição do teu conteúdo?

Paulo Moura: É. Enquanto isso, eu tenho nos meus favoritos do navegador todos os principais sites de notícias do Brasil. Então eu passo por todos os jornais. Lista de prioridade. Folha de São Paulo, Estadão, O Globo, tudo. E alguns blogs independentes. E eu tenho também um serviço que eu recebo WhatsApp.

Luciano Pires: Você não tem duas caixas de Rivotril na mesa?

Paulo Moura: Não. Eu fiz análise já. Eu não preciso de medicação. Eu já sofri de ansiedade. Mas é a idade. Eu estudei Filosofia Oriental durante um bom tempo. Aprendi a ficar zen. Durante muito tempo eu fui muito ansioso. Mas hoje não. E eu recebo por WhatsApp um serviço que fica metendo notícia, uma atrás da outra, o dia inteiro. Inclusive sábado, domingo e feriado. Então eu tenho uma visão. Porque análise política é uma técnica. Então, no momento em que você começa a receber informações de todo lado. E, às vezes, a mesma informação escrita por diferentes jornalistas. E que você estudou o comportamento político pela teoria. E que você estudou comunicação, você enxerga coisas que as pessoas não enxergam. Você faz conexões que as pessoas não fazem. E você consegue dizer: esse cara está dizendo isso aqui, porque ele quer chegar lá.

Luciano Pires: Essa é a tese do Olavo. O Olavo fala: os caras falam que eu adivinho as coisas. Eu não adivinho nada. Eu só leio.

Paulo Moura: É isso.

Luciano Pires: Eu leio. Tinha um negócio que ele falava da Folha de São Paulo. Ele falava: quem além de mim leu as atas? Eu li. Eu falo o que está escrito lá. Eu não invento moda.

Paulo Moura: Isso. Exatamente. Então, quando você lê a imprensa. Você lê a mesma notícia escrita pelo Globo, pela Folha de São Paulo, pelo Estadão, você vê ali. Tem o lance do jornalista. Tem o jornalista que conversou com o cara. Você começa a ver certos personagens da política diariamente. Você começa a perceber o esquema mental dele, como ele se comporta. Quando ele diz isso, onde é que ele quer chegar. O que ele está escondendo. Mas isso decorre não é de nenhuma capacidade de adivinhação. É simplesmente.

Luciano Pires: É análise.

Paulo Moura: De análise sistemática, de observação sistemática do comportamento da informação. O que faz um analista de informações hoje? As pessoas falam: espião. Pensa no 007. Hoje o espião é um analista de informações. Os caras ficam coletando, agrupando, classificando e deduzindo informações.

Luciano Pires: Esse é o ponto.

Paulo Moura: Interpretando informações.

Luciano Pires: Esse é o ponto interessante. Quando você fala isso do ponto de vista… eu vou retomar algumas coisas que você falou lá atrás. Você falou: eu consigo fazer. Eu consigo ser isento, porque todo mundo sabe qual é o meu lado.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: Isso é importante.

Paulo Moura: Exatamente.

Luciano Pires: Então, se eu sei qual é o teu lado, por favor, me traga a tua análise que eu vou recebê-la e vou processá-la aqui, sabendo o teu lado. A questão hoje em dia é que esses caras estão fazendo as análises para adaptar à realidade àquilo que ele já acredita. Ele fala: então eu vou analisar, mas vou te dar a minha opinião. Não é porque eu cheguei nesta opinião a partir da análise. Não. Eu já tenho a opinião antes. Eu vou pegar a Globo. Já está definido. A pauta tem que destruir o Bolsonaro.

Paulo Moura: Isso. Exatamente.

Luciano Pires: Então, qualquer notícia que chegar aqui tem que ser trabalhada para que, se ela for positiva, dê a notícia positiva e põe um mas. E na sequência jogue alguma coisa que é para detonar o cara. E aí isso é manipulação. Isso não é análise. Isso é manipulação pura e simples.

Paulo Moura: Isso é subestimar a inteligência das pessoas. E você acha que as pessoas não percebem isso?

Luciano Pires: Pior que não.

Paulo Moura: Eles estão morrendo. Eles estão se suicidando e não percebem. Estão matando o negócio, por falta de credibilidade. Estão matando. Estão se destruindo. Então é isso.

Luciano Pires: Meu caro, grande papo aqui. Nós já estamos aqui há uma hora e trinta. Já bateu 10 minutos aqui de record. Mas eu vou fazer agora uma parte interessante, para a gente partir para os finalmente aqui.

Paulo Moura: Tá.

Luciano Pires: Nós estamos num sábado aqui, curtindo um bom papo. Atenção, se você é de esquerda, se você é anti governo que está aí. Nós vamos agora discutir um pouquinho o que deve acontecer nos próximos meses. Então prepare aí. Fique com os dentes rangendo todo. Que a coisa vem aí. Meu caro, que loucura que está esse… que loucura virou esse ambiente.

Paulo Moura: A loucura está no mundo.

Luciano Pires: No mundo. Mas eu vivo no Brasil. O mundo está… depois que tiraram o Trump. Depois que tiraram o presidente dos Estados Unidos das redes. Depois que manipularam a informação. Eu estou longe. Eu falei: ninguém percebeu. Eu estou acreditando que qualquer coisa é possível.

Paulo Moura: A ficção científica está virando realidade.

Luciano Pires: Eu até brinquei. Eu falei: eu acho que eu moro num episódio de Black Mirror, a série. Eu moro naquele episódio. Tudo é possível ali. É um cenário complicado. Eu vi teu vídeo hoje falando das pesquisas. Interessantíssimo aquele lance de: está chegando a hora dos caras registrarem as pesquisas. E agora a pesquisa tem que dizer a verdade. E mostrar. Então os números mudam. Então aquela história de que perde de todo mundo, o outro está em primeiro. Agora vai ficar pertinho.

Paulo Moura: Dá para manipular pesquisa mesmo assim.

Luciano Pires: Claro. Pesquisa é um negócio…

Paulo Moura: Quem domina a técnica…

Luciano Pires: Faz.

Paulo Moura: Você tortura os números para eles serem o que você quer.

Luciano Pires: Nós estamos num período completamente atípico. Foram dois anos de pandemia. Virou tudo de ponta cabeça. Foi uma loucura essa CPI. Eu não vou perder tempo com isso. Mas agora se avizinha um ano muito complicado, que é um ano de campanha eleitoral. E é um ano em que é preciso cortar as asas do Bolsonaro. Ou você não vai conseguir nem a terceira via; que eu acho que não vai ter nenhuma. Você não vai conseguir combatê-lo, a não ser combatendo os canais que ele tem de se comunicar. Ou tira o povo da rua ou tira o cara das redes. Cala a boca dele de alguma forma. Então, as narrativas a cada momento estão aumentando. Ontem caçaram o Francischini lá no Paraná. Eu não consigo entender…

Paulo Moura: É recado.

Luciano Pires: É recado. Já criou-se ali uma…

Paulo Moura: Uma jurisprudência para os próximos.

Luciano Pires: E esse é um jogo que não é um jogo natural. Não era assim. A menos que eu me engane, não era assim. Há um tempo atrás, você tinha três ou quatro redes de TV que dominavam o que ia acontecer no país. Você tinha três ou quatro jornais que dominavam. O que acontecia ali estava definido. E agora isso se perdeu. Mas porra, se isso fosse verdade, o Bolsonaro tinha perdido de todo mundo no segundo turno. Todo mundo batendo no cara. E o cara é eleito. Então tem um componente novo aí que ninguém entendeu direito. Mas que se deveu muito ao poder que as redes sociais tinham naquela época, na eleição passada. Os caras já perceberam e vão tentar mudar esse jogo agora, para que isso não aconteça. O que você está vendo. Eu sei. É muito cedo ainda. Mas eu acho que já dá para entender alguns movimentos. O que você está vendo?

Paulo Moura: Primeiro é preciso entender o conflito histórico de fundo, desse jogo das aparências. Eu falei aqui num determinado momento do vídeo que o Brasil é um empreendimento estatal. É uma nação que foi criada pelo Estado, que, consequentemente, as elites que dominam o país historicamente foram formadas a partir da ideia de que controlar o Estado, viver dentro do Estado ou gravitar em torno do Estado e ter canais com o Estado é a forma legítima de se ganhar dinheiro, de se enriquecer, de ascender socialmente. O que aconteceu no movimento do impeachment da Dilma e na eleição do presidente Bolsonaro é que pela primeira vez o Brasil que não vive do Estado, que nunca precisou do Estado, que sempre viveu do bom trabalho, que carrega a mochila nas costas e paga as contas, esse outro Brasil se rebelou. Muito por culpa do PT. O PT exagerou na coisa. O PT exagerou na mão. E aí é um conjunto de exageros. Não é sói a roubalheira. É o negócio do politicamente correto, da ideologia de gênero. Isso começou a mexer com a educação dos filhos da classe média. Você começou a… o povo, no mundo inteiro, ele é predominantemente conservador no sentido de: valoriza a família, valoriza o trabalho. O povo brasileiro é religioso. Eles exageraram na mão. Eles acharam que tinham poder para fazer a revolução. E eles não receberam delegação para isso. E isso provocou a rebelião. E essa rebelião é desestruturadora. Porque ela ameaça o poder de todos esses caras. Ameaça o poder disso que a gente chama de Estado. Aliás, o meu primeiro vídeo que viralizou no canal, de maior sucesso, ele acabou com 180 mil visualizações. Eu tenho vídeos posteriores, até menos consistentes, com mais de 200 mil. Mas esse chama-se: Abaixo o Antigo Regime. Em que eu falo isso. Que eu explico exatamente isso. E o Bolsonaro é um cara que, com todas as limitações que ele tem, ele encarnou o representante desse movimento. Então esse é o conflito de fundo. É como se fosse um exorcismo. Tem gritos. Ranger de dentes. Porque é uma briga de poder de fundo. É uma briga pesada. Tirar o poder desse…

Luciano Pires: Esse grupo que elege o Bolsonaro não é um grupo estruturado. Não é um grupo que tem uma inteligência, que tem um think tank.

Paulo Moura: Não, não. Se tivesse já estava resolvido o assunto. A eleição do Bolsonaro foi um acidente da história. Foi um atalho da história. Nós chegamos no governo sem ter o poder. Eles têm as universidades. Eles têm as igrejas. Eles têm a mídia. Eles têm os bancos. Eles têm as direções de muitas das grandes empresas brasileiras. Eles têm a Faria Lima. Eles têm um conjunto de interesses ali que sempre controlou o jogo. E esses interesses e este poder foi desestabilizado. E agora é o seguinte, o padrão histórico brasileiro não é de ruptura. O Brasil já tangenciou situações parecidas, nunca tão graves quanto. Mas toda vez que isso aconteceu na história do Brasil havia… os paulistas em 30. Sai lá um fazendeiro do Rio Grande do Sul, amparado nos milicos.

Luciano Pires: E vem amarrar o cavalo dele aqui.

Paulo Moura: O cavalo no Obelisco. Toma o poder. E faz a revolução que os paulistas iam fazer. Ele industrializa o país. Urbaniza o país. Moderniza as relações de trabalho. Mas tudo a partir do Estado. Isso é um padrão histórico no Brasil. Os militares de certa forma fazem isso também. E dessa vez nós estamos arriscando a possibilidade de ser uma ruptura de outra natureza. A ruptura não aconteceu ainda exatamente por isso. Porque essa direita é uma bagunça. Você não tem intelectuais com a capacidade… tira o Olavo de Carvalho. E uma parcela pequena dos seus alunos da primeira geração, que não foi para o governo. Porque se tivesse ido, muita coisa, talvez, fosse diferente, principalmente na área da cultura. O Bolsonaro puxou exatamente um bando de lacrador da internet para dentro do governo. E depois teve que tirar. Porque começaram a fazer loucura lá dentro. Mas você olha para dentro desse governo ali, é um deserto. A turma do Paulo Guedes, que tem um monte de PhD ali, mas que não são conservadores. São liberais. Mas faz parte da aliança.

Luciano Pires: Mas há uma consistência ali. Você vê consistência ali.

Paulo Moura: Você vê consistência ali.

Luciano Pires: Você vê consistência na agricultura.

Paulo Moura: Na agricultura. É isso. Mas assim, do ponto de vista de uma estratégia de país, de conceito…

Luciano Pires: Onde o Gramsci botou a mão é uma bagunça.

Paulo Moura: Exatamente.

Luciano Pires: A educação não se acerta. A cultura até hoje não se acertou. Mas nas partes de execução de política econômica tem uma consistência.

Paulo Moura: Tem.

Luciano Pires: Não estou nem dizendo se está certo ou errado. É consistente.

Paulo Moura: É consistente. São caras técnicos, bem formados, qualificados, entendem do que fazem. Estão fazendo um excelente trabalho.

Luciano Pires: Sim.

Paulo Moura: Um dos melhores governos que esse pais já fez. Mas falta ao governo – porque falta ao movimento – a visão estratégica intelectual de nação. Um projeto gramsciniano de direita.

Luciano Pires: Perfeito.

Paulo Moura: Que Brasil nós queremos e o que nós temos que fazer para chegar nisso e em quanto tempo? O Bolsonaro ganhou a eleição, mas nós não estamos no poder. Então certas dores vão ter que acontecer. Entre outras coisas, o meu canal nasceu. A contribuição que eu posso dar é essa. Vamos tentar qualificar esse pessoal. Vamos tentar fazer pensar diferente. Vamos tentar valorizar conhecimento e não lacração.

Luciano Pires: Perfeito.

Paulo Moura: Vamos estudar gente. Vamos ler. Vamos se informar. Vamos aprender. Vamos formar um partido conservador de fato, para não ter que ficar entrando em partido de centrão, para dar sustentação para o nosso governo. Coisas desse tipo que eu acho que têm que ser feitas. E o meu canal tem este conceito.

Luciano Pires: Você acha que dá tempo de fazer isso até as eleições?

Paulo Moura: Não. Isso é coisa para 10 anos.

Luciano Pires: Tem que fazer o que der.

Paulo Moura: É que está acontecendo uma revolução silenciosa. Tem uma série de institutos nascendo. Os caras estão dando curso. Estão formando gente. Mas não dá para competir com as universidades. O próprio professor Olavo de Carvalho cometeu um erro de meio… ele não disse isso explicitamente, mas ele foi entendido como sendo alguém que desprezava a universidade. E vários dos seus alunos, muitos dos mais qualificados não foram para dentro da universidade disputar espaço. Fazer mestrado. Doutorado. Fazer pesquisa com verba oficial do governo. Conquistar poder. Ocupar os espaços nos departamentos. Produzir conhecimento teórico. Formar alunos. Hoje isso está sendo feito informalmente, por pequenos institutos, com autofinanciamento. Neguinho tirando dinheiro do próprio bolso. O empresário brasileiro não financia isso. Não bota dinheiro nisso. Não vê. Não é que nem empresário americano que mete tantos milhões de dólares na universidade aqui. Mas eu quero que vocês façam isso e aquilo. Falta essa cultura no Brasil. Então o grande problema é esse. Se o Bolsonaro se reeleger será outro acidente da história. Mas eu acho possível. Eu acho que vários elementos que levaram à vitória dele estão presentes. E o movimento amadureceu. Apesar de ainda faltar muita coisa para fazer na parte de qualificação e organização. Houve um amadurecimento bastante significativo. E o presidente Bolsonaro é o que temos. É o líder popular. Pela primeira vez a direita brasileira tem um líder que faz voto no povão. Isso é um problema para a esquerda. Porque a esquerda se achava dona do povão. O Lula vai ter que disputar voto com um cara que circula hoje com mais naturalidade e amor do povo, do que ele, Lula. Ele não se arrisca a fazer o que o Bolsonaro faz. Eu tenho trocentas críticas ao Bolsonaro. Eu não faço elas no canal. Quando eu faço; faço muito sutilmente. Porque o pessoal ainda é muito imaturo.

Luciano Pires: Mas eu tomei a mesma decisão que você. Eu escrevi em 2018. Em outubro de 2018 eu publiquei um texto em três PodCasts. A minha vida virou um inferno a partir dali. Mas ali eu contei.  Naquela época eu dizia: o meu voto é do Amoedo. Eu vou votar no Amoedo porque ele tem as características que eu quero para alguém presidir o Brasil. Ponto. Mas a luta é de peso pesado. E o Amoedo é o campeão de peso leve. Ele é leve. E a briga é peso pesado. Ele não vai dar conta. Vai precisar de um peso pesado. E o peso pesado é o Bolsonaro. Então eu vou votar nele. E vou contar o que vai acontecer. E eu falei: vai acontecer o seguinte, ele vai assumir. Ele vai ganhar no 1º turno. Vai ser uma loucura. Ele vai assumir. E vai ter quatro anos infernais. Porque o que ele vai fazer é arrancar toco do chão. Ele vai aplainar terreno. Ele não vai conseguir construir nada.

Paulo Moura: É um exorcismo. Gritos e ranger de dentes.

Luciano Pires: E outra: ele não precisa de inimigo. Sozinho ele vai arrumar encrenca. Porque é a natureza dele. Ele vai abrir a boca. Vai falar um monte de bobagem. O meu medo é a entourage. São os filhos do Saddam. Eu falei: o meu medo são os filhos do Saddam. Mas eu estou torcendo para que ele, ao cair em si, haja um amadurecimento do Bolsonaro, para que ele entenda o que é a função do presidente. Mas eu não tenho esperança nenhuma que aconteça nada em quatro anos. É só arrancar toco. Daqui a quatro anos nós vamos ver. Depois de arrancar toco. Talvez possa surgir alguém que construa alguma coisa em cima daquilo.

Paulo Moura: A diferença aqui é que eu vi que o Amoedo era uma fraude…

Luciano Pires: Lá atrás…

Paulo Moura: Cedinho.

Luciano Pires: Eu não. Eu até…

Paulo Moura: Foi no programa Roda Viva, que ele foi. A bancada era de gente desqualificadíssima.

Luciano Pires: Aliás…

Paulo Moura: Mas era assim… era muito desqualificada. E ele tomou um baile. Eu disse: esse cara não vai nem ali na esquina. Tem que ser Bolsonaro. Não tem conversa.

Luciano Pires: Uma dica para você. Você já deve ter feito isso. Mas para o pessoal que está nos ouvindo aqui. Por favor, procurem algum programa Roda Viva que entreviste o Paulo Francis. Roda Viva entrevistando Paulo Francis. Eu acho que têm dois ou três. Botem para ouvir aí. Só prestem atenção na bancada. Quem são as pessoas que estão ali e o nível do questionamento que é feito. E comparem com essa coisa que virou. Essa coisa ginasiana hoje. Mas ali, quando eu escrevi aquele texto foi um inferno todo. E depois que começou eu falei: eu já contei o que vai acontecer. Eu já sei que vai ter cagada. Eu já sei que ele vai falar merda. Eu já sei o que vai acontecer. Eu não vou ser mais um aqui a entrar a bater panela na janela para reclamar de algo que eu já disse. Eu sei que vai ser assim. Vai ser um inferno. Está sendo um inferno. Por que eu vou ser usado pelos caras que querem atacar o governo por alguma coisa que eu já sei que vai acontecer? Então eu não vou bater mais.

Paulo Moura: É a mesma coisa que eu. Eu digo: eu não vou criticar o Bolsonaro. Ele comete vários erros. Ele carece de várias coisas sobre visão. Mas assim…

Luciano Pires: Se você me pedir o perfil do presidente do Brasil, nunca será o Bolsonaro.

Paulo Moura: O inimigo é o PT. E o cara pode voltar. Tu acha que eu vou brincar com isso? A minha crítica eu faço aqui no barzinho. Eu não vou bater. Eu quebro o pau. Eu estou em vários grupos. Mais de 100 grupos de Facebook, WhatsApp, Telegram. E alguns são grupos de liberais principalmente lá do Rio Grande do Sul. E os caras estão metendo o pau no Paulo Guedes. Eu digo: vocês não fazem a menor ideia do que é passar projetos liberais no Brasil, aliado com o centrão. Vão lá fazer vocês. Você acha que eu vou bater? Eu critico. Eu tenho visão. Mas primeiro vamos ganhar a eleição. Vamos derrotar o PT. Vamos destruir. E paralelamente vamos fazer esse trabalhinho de formiga.

Luciano Pires: Aos trancos e barrancos. Mas uma pequena vitória aqui, outra pequena ali.

Paulo Moura: Se Deus quiser a Rede Globo quebra antes da eleição. Porque o Brasil precisa disso. É uma pena dizer isso. É uma pena. Mas é necessário. Para esse Brasil mudar é uma das coisas que têm que acontecer.

Luciano Pires: Vamos elaborar um pouco em cima disso aí. A Rede Globo do ponto de vista de uma empresa de comunicação é uma coisa que é para dar orgulho em qualquer brasileiro.

Paulo Moura: Construída na carona do regime militar.

Luciano Pires: Eu digo como empresa. A qualidade dos caras. A capacidade técnica que eles têm.

Paulo Moura: São os melhores do mundo tecnicamente.

Luciano Pires: Melhor do mundo. Você entra lá dentro é de dar orgulho aquele negócio. É do cacete. Mas se deixa transformar em instrumento para uma porrada de coisa. É instrumento econômico. É instrumento de poder. E quando os caras perdem a capacidade… e você falou logo no começo da nossa conversa aqui, você falou lá atrás. Os caras estão se suicidando. Eles estão dando um tiro na cabeça. Não é porque eles não estão puxando o saco do Bolsonaro. É porque eles estão indo contra uma grande parcela da população brasileira.

Paulo Moura: Que pensa; que tem educação. E que consome. E que paga. Aliás, eu não entendo como é que não tem um canal de TV conservador no Brasil ainda. Com o mercado demandando isso há eras.

Luciano Pires: O mercado demanda. Mas quem poderia financiar não está aí. Não está financiando.

Paulo Moura: Está do outro lado.

Luciano Pires: Está do outro lado. Ou está cagando de medo. Manda o cara embora, porque o cara falou uma coisa qualquer. A patrulha vem para cima.  E os caras não estão aí. Comparando de novo lá com o modelo que a gente está usando desde o começo aqui, norte-americano. Lá você tem uma emissora como a Fox News. Já deu uma patinada. Andou dando agora também. Mas ela é claramente. Ela não é uma emissora democrata. E não tem problema nenhum nisso. Qual é o problema? Não tem problema nenhum. Desde que você fala…

Paulo Moura: Tem espaço para todo mundo. Por que não tem para nós?

Luciano Pires: Exatamente. Espaço para todo mundo. E deixa o cara falar. E você vai escutar e falar: tem um argumento ali que eu achei interessante. Deixa eu ouvir esse argumento de alguém não histriônico. Eu ouvi o teu argumento. Eu ouvi o Paulo Moura. Quem é o oposto do Paulo Moura, do outro lado, capaz de me dar uma argumentação sem grito, sem xingamento, sem acusação, sem dedo na cara? Mas o argumento que eu ouvi aqui, eu vou tirar a minha própria solução.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: Quando você cala um dos lados, o que você tem? Você só tem um lado tomando conta. Estão impedindo você de falar. Estão impedindo você de expor. Ou deve ser porque eu estou com medo. Se eu estou te impedindo é porque se você falar, você me convence.

Paulo Moura: É verdade. E isso é uma das coisas que derruba as pesquisas. Porque se eles achassem que o Bolsonaro estava derrotado, não precisava fazer isso.

Luciano Pires: Não.

Paulo Moura: Eles estão fazendo. Eles estão tentando sufocar os canais da internet. Estão fechando. Estão calando. Estão ameaçando de prisão. No julgamento da cassação da chapa Bolsonaro/Mourão. Tu visse o discurso do careca lá?

Luciano Pires: Sim.

Paulo Moura: Ele está inocentado por falta de provas. Mas se repetir em 2022 o que aconteceu em 2018 vai preso. Quer dizer que se o Bolsonaro ganhar nós vamos tudo preso? É isso? Vai prende o eleitorado brasileiro? O cara falou isso.

Luciano Pires: É impressionante.

Paulo Moura: O cara falou isso. É impressionante. É explícito. É sexo explícito.

Luciano Pires: Mas se você for ler o teu colega Reinaldo Azevedo, ele defende perfeitamente isso tudo com argumentação espetacular.

Paulo Moura: É o intelectual orgânico, como dizia o Gramsci. Ele está a serviço de uma causa.

Luciano Pires: É isso aí. Meu caro, podemos ficar aqui muitas horas.

Paulo Moura: Podemos.

Luciano Pires: Acho que deu. Está bom aqui. Se eu quiser tirar alguma coisa desse papo nosso aqui, tem um ponto para mim que é fundamental que você falou lá no meio, uma ou duas vezes. A coisa passou meio batida. Mas é: respeitar a inteligência da audiência.

Paulo Moura: Isso.

Luciano Pires: Respeitar a inteligência de quem me ouve, de quem me vê. Assim como esses caras deviam estar pensando: espera um pouquinho. Seu William Bonner, por favor, eu sei que o senhor pensa que é tudo Homer Simpson do outro lado lá. Mas já tem menos gente assim. Então porra, não me trata como idiota. Não me trata como imbecil quando abrir a boca. Me respeita.

Paulo Moura: Esses caras quando são demitidos da Globo não sobra nada para eles.

Luciano Pires: É verdade.

Paulo Moura: Vários deles estão… vão fazer o que da vida?

Luciano Pires: É verdade. Que é a diferença…

Paulo Moura: Eles vão trabalhar aonde?

Luciano Pires: Os caras demitem um Alexandre Garcia e ele vira uma potência na rede.

Paulo Moura: Exatamente.

Luciano Pires: Já o William Waack para mim foi uma baita decepção. Mas o William Waack acabou.

Paulo Moura: Ele chegou a ir para a rede estava indo bem.

Luciano Pires: Mas virou ao contrário.

Paulo Moura: Virou. Começou com um jornalismo isento e se foi totalmente. Virou uma Globo News 2. Tanto que a Jovem Pan entrou no ar aqui e engoliu ele.

Luciano Pires: Vai ser interessante lá. Meu caro, quem quiser encontrar então o Paulo Moura, que não seja o excepcional clarinetista brasileiro. Que se você botar no Google vai aparecer o Paulo Moura tocando que é uma maravilha.

Paulo Moura: Por muito tempo eu subia nos links do Google ao status do maestro lá. Muito bom.

Luciano Pires: Quem quiser achar o Paulo Moura? Como que te encontra?

Paulo Moura: O meu canal no Youtube. Chama-se Dextra. Direita em latim ou em italiano, que é o contrário de sinistra, que em italiano é esquerda. Eu criei a marca. Eu já tinha registrado marca. Na verdade, a marca foi criada para um projeto de comunicação de tentar juntar toda a direita num portal de notícias. E justo quando a gente ia lançar – tinha até um empresário financiador – a Gazeta do Povo entrou com esse viés editorial. E o cara disse: não vou botar dinheiro para competir com um negócio que já existe. E eu fiquei lá. Eu registrei a marca. Eu paguei para criarem a logomarca. Eu estou com ela na gaveta desde 2017. Eu digo: quer saber de uma coisa. Vou botar a marca. Eu tenho um canal no Telegram também. No Youtube e no Telegram chamado Dextra by Paulo Moura.

Luciano Pires: O nome inteirinho assim?

Paulo Moura: É. Mas se botar Dextra acha.

Luciano Pires: O teu canal do Telegram é gratuito?

Paulo Moura: É. Se você tiver o Telegram é só se cadastrar lá. Tem um grupo. Eu interajo muito. Por exemplo, eu leio todos os comentários de quem comenta no meu vídeo.

Luciano Pires: Legal.

Paulo Moura: No mínimo eu curto. Mas se o cara faz uma pergunta ou faz um comentário inteligente, eu vou lá e escrevo.

Luciano Pires: Que legal.

Paulo Moura: É claro que quando o vídeo vai a 200 mil.

Luciano Pires: Não dá.

Paulo Moura: Não dá. Aí eu perco o controle. Mas no primeiro dia, como eu posto um vídeo por dia. E o canal do Telegram tem um grupo associado. Então se a pessoa comentar uma notícia que eu posto no canal e fizer pergunta para mim no grupo, eu respondo. Eu interajo com o público.

Luciano Pires: O meu canal eu fiz assim também.

Paulo Moura: E agora eu fiz essa parceria com esse jornalista. Chama-se Tempo e Dinheiro. O João é um jornalista de 70 anos. Foi o criador do Canal Rural. Mas é um bolsonarista e conservador, ligado ao agro. E ele tem esse canal e nós criamos um site. Então eu fechei o meu site. Mas o site dava muito trabalho e dava prejuízo. Não tinha publicidade suficiente para remunerar o trabalho. Então eu fiz uma parceria com o João. E as notícias de política que eu publicava no meu site     , eu passei a publicar lá no site Tempo e Dinheiro. E quem quiser me ver, todos os dias entre uma e meia e duas horas da tarde eu entro online comentando dois ou três fatos da política brasileira, ali num bate-papo com o João.

Luciano Pires: Que legal.

Paulo Moura: Mas todo dia, às sete horas da manhã tem um vídeo novo no meu canal do Youtube.

Luciano Pires: Perfeito. Vão lá. Vale a pena. Não vai ter gritaria. Não tem ninguém histriônico. Não vai ter ninguém xingando ninguém. Não tem palavrão. É análise pura. Análise muito legal lá. Recomendação aqui. Se você escrever para cá perguntando se eu sou bolsonarista, mande junto a definição que você tem bolsonarista. Defina tá, o que é bolsonarista. Aí eu vou dizer para você se eu sou ou não. 99% é não. Porque vem uma caricatura. E se é uma coisa que eu não suporto é essa caricatura.

Paulo Moura: Eu sou um conservador. Eu não tenho ídolos. No sentido estrito eu não sou bolsonarista. Eu apoio o presidente Bolsonaro por razões bem objetivas. Não produzimos nenhum líder com a capacidade de ganhar a eleição e impedir a volta do PT. Então o presidente é um ser humano. Ele erra; como outros erram. E é isso. Eu apoio valores e ideias. E apoio este governo por razões bem objetivas.

Luciano Pires: Meu caro, muito obrigado.

Paulo Moura: Valeu.

Luciano Pires: Sucesso. Tamo junto aí.

Paulo Moura: É isso.

Luciano Pires: Um grande abraço.

Paulo Moura: Valeu.

Luciano Pires: Muito bem. Termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa você encontra no lidercast.com.br.