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Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. Hoje a convidada é Geovana Conti, que é sócia fundadora da Yougers, uma startup social com foco no desenvolvimento das comunidades locais. Geovana coordenou o desenvolvimento de um modelo de educação empreendedora para atender empresas em busca de programas de desenvolvimento das comunidades locais em seu entorno. Mais uma história de iniciativa individual que muda vidas. Muito bem, mais um LíderCast, como sempre, eu começo contando como é que essa pessoa chegou aqui. Fabiano Kalil, querido amigo com que eu já gravei um LíderCast manda para mim uma mensagem bem lacônica, dizendo assim, Luciano fala com essa moça, fim. Se vem uma indicação assim de alguém que eu respeito e gosto de montão. Eu falei: eu não vou nem perguntar. E mandei uma mensagem para ela: olha aqui. Como é que é? Uma hora que eu estiver aí. Pronto, chegou, está aqui. Tem três perguntas que são fundamentais, que são as únicas que você não pode errar.

Geovana Conti: Ok?

Luciano Pires: Então não chuta. Não erra. Uma das três, eu até abro mão pelo fato de você ser mulher.

Geovana Conti Muito obrigada.

Luciano Pires: Ok? Se você quiser pode até pular, mas se não quiser manda bala. Então eu quero saber seu nome, sua idade e o que você faz.

Geovana Conti: Meu nome é Geovana Conti. Eu tenho 43 anos de idade. E hoje eu comando uma startup social.

Luciano Pires: Startup social?

Geovana Conti. Isso.

Luciano Pires: Muito bem. A Geovana é daquelas que ela entrou aqui. No que ela entrou aqui, parece que eu já conheço ela há 20 anos, não é? Então fui foi bem legal e a gente vai bater um papo bem interessante aqui. Você nasceu aonde?

Geovana Conti: Eu nasci, em Vitória, no Espírito Santo.

Luciano Pires: Capixaba.

Geovana Conti: Sou capixaba.

Luciano Pires: Sim. E nasceu numa família grande? Pequena?

Geovana Conti: Eu nasci numa família de italianos. Geovana Conti. Uma galera, que fala com as mãos. E é uma família de gente muito trabalhadora. Então meu pai conseguiu garantir uma coisa muito importante que foi o estudo de altíssima qualidade, né? Então ele é engenheiro, dono de uma empresa. Então cresci bem né gente? Morei bem, comi bem, viajei bem.

Luciano Pires: Que legal.

Geovana Conti: E aí consegui uma vaga na Universidade Federal. E aquilo era muito importante na família, né gente? Assim, uma pessoa na época que eu tenho 43, nós estamos falando de 20 anos atrás, mais um pouco, 25 anos atrás, era isso que tinha que fazer, né?

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: Então eu estudei lá e tive essa infância, adolescência e juventude com muitos privilégios.

Luciano Pires: Que legal. Sua mãe faz o que? Fazia, o quê?

Geovana Conti: Minha mãe trabalhou na Caixa Econômica Federal o tempo inteiro. Se aposentou na Caixa; foi quase o segundo ou terceiro emprego dela e dali ela foi bancária numa época em que não tinha internet. Então as pessoas da cidade tinham que ir no caixa falar com ela. E ela ficava um tempinho a mais. Ela ajudava as pessoas. Calha de ter metade da cidade devendo um favorzinho para ela, né?

Luciano Pires: Que legal né? Mas aonde? Lá em Vitória isso?

Geovana Conti: Lá em Vitória isso.

Luciano Pires: Como é seu apelido? Você tem irmãos?

Geovana Conti: Tenho mais três irmãos.

Luciano Pires: Como era seu apelido, quando era pequenininha?

Geovana Conti: Não, todo mundo só chamava de Gê. E o meu pai era o único que chamava de Zô. Por que ele faz isso até hoje eu não sei. E ele escreve  Zô com Gô acento circunflexo

Luciano Pires: E chama Zô?

Geovana Conti: Mas escreve Gô. Eu sei que é Zô. Ele fala Zô, mas ele escreve com G.

Luciano Pires: Que coisa estranha, né? O que a Zô queria ser quando crescesse?

Geovana Conti: Então? Eu queria trabalhar com o computador. Eu era criança e ganhei um Pense Bem que era um brinquedinho que tinha uma revistinha de matemática.  E era uma grande calculadora. Você tinha que fazer a continha, digitar a resposta pronto. Ali eu falei: eu quero mexer com o computador quando eu crescer.

Luciano Pires: É lá que você queria. Até um monte de gente que vem aqui e tem essa mesma história com você, só que é um videogame. Ele entra em contato com videogame, daí parte para fazer. Mas queria ser isso, queria mexer nisso quando crescesse? Você fez alguma coisa a respeito? Foi buscar estudar, isso foi atrás ou…

Geovana Conti: Eu fiz vestibular para Ciência da Computação na Universidade Federal. Eu era uma das melhores alunas da escola do Ensino Médio e a Gazeta eu não sei como é que é o nome do jornal impresso aqui; mas lá na época ligou na escola e falou assim: me passa o nome de uma aluna, um aluno muito bom, porque a gente quer fazer uma série de reportagens antes do vestibular, da pessoa fazendo vestibular, depois sendo aprovada. O colégio nem titubeou. Faça com a Geovana. Conti. Então foram lá em casa. Eu saí em meia página de jornal contando que ia fazer prova para a Ciência da Computação. Era um curso novo devia ter só uns dois, três anos que estava lá. E eu para realizar meu sonho. Notas boas. Chego no vestibular e na hora que sai o resultado também não tinha ainda a internet. Não era muito difundida. A gente tinha que ir lá na universidade, ler a lista na parede. E com câmera. Foto; não sei o que; repórter. Eu vou letra: A, B, C, D, E, F… H, I, J. Mas não tinha um Gabriel na lista para me dar um pouquinho de esperança. Não tinha nada. Um George não tinha um a letra G. E eu reprovei no vestibular. E eu não frustrei só a minha família. Foi uma frustração, assim: pública, para a cidade inteira, mas dois anos depois, eu consegui entrar na Universidade Federal. Fiz Ciência da Computação. Só que aí conheci um rapaz de Curitiba. E aí casei. Fui para Curitiba.

Luciano Pires: Que ano isso?

Geovana Conti: Em 97, quando nós nos conhecemos. Em 98 a gente começou a namorar. Em 2002 eu estava me casando com ele e indo para Curitiba.

Luciano Pires: Que idade você tinha?

Geovana Conti: 23 anos. E fui para lá. Ao invés de concluir na Federal, eu concluí na PUC do Paraná, Sistema de Informação.

Luciano Pires: Você sai da praia, do sol e vai para o frio e chuva.

Geovana Conti: Isso. Foi isso que aconteceu. Aquele céu cinza. Por causa do amor. Aquela coisa romântica, aquela coisa idealizada.

Luciano Pires: Foi legal?

Geovana Conti: Foram os melhores 20 anos. Tá. Não foram tão bons assim em tudo. Tanto que hoje nem estamos mais casados. Mas foi muito importante naquela época. Naquele momento aquilo. Somos hoje bons amigos ainda. Temos duas filhas. E essa mudança foi o que me libertou dessa família minha, italiana e me mostrou um mundo que eu não conhecia. Porque até então, eu estava na bolha dos privilegiados. A gente sabe que tem pobreza, mas a gente nunca viu a pobreza. Você sabe que tem gente que passa fome, mas nunca tinha visto essas pessoas. Apesar de elas estarem no semáforo pedindo dinheiro, elas estarem dormindo na porta do comércio às oito horas da manhã. E é uma coisa muito longe. E esse meu namorado, então marido, morava num bairro chamado Sítio Cercado, em Curitiba; é um bairro na periferia geográfica na cidade, consequentemente, uma periferia social na época. Hoje é um bairro superestruturado. E ele conhecia a história toda.

Luciano Pires: O que ele fazia?

Geovana Conti: Ele era missionário de uma igreja evangélica. E queria mudar o mundo a partir da bíblia.

Luciano Pires: Caramba. E você vem com a computação na cabeça. Você é evangélica?

Geovana Conti: O meu pai se tornou pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, depois que eu já estava casada. Mas eu cresci nessa Igreja Presbiteriana do Brasil. Então foi assim que…

Luciano Pires: Mas você conheceu ele lá?

Geovana Conti: Sim. Nós nos conhecemos lá. Nós nos conhecemos num Congresso Nacional de Jovens. Mas de uma organização paraeclesiástica. Não era na igreja. Era uma juventude que queria mudar o mundo. E vamos todo mundo junto. Eu liderava a equipe de Vitória, no Espírito Santo e ele liderava a equipe de Curitiba.

Luciano Pires: Que legal. E aí vocês vão para Curitiba. Deu match nessa ideia de: vamos mudar o mundo juntos?

Geovana Conti: Deu match por algum tempo. E aí a gente concluiu que era difícil. Porque a realidade, as histórias e o passado da gente faziam com que as oportunidades que surgiam para eu mudar o mundo, eram diferentes das oportunidades dele. Vou dar um exemplo: ele queria construir uma carreira dentro da igreja. E para isso, eu precisava ser a esposa do pastor: bela, recatada e do lar. Fui de certa forma, criada para isso? Fui. Mas também recebi a melhor educação. Então, se por um lado, eu sabia sorrir e acenar. Por outro lado, eu sabia gerir uma empresa. Eu tinha habilidades de liderança, de comunicação. Eu tinha inglês. E aí eu tinha feito a PUC. Quando eu vi foi orgânico. Eu consegui estágio numa empresa internacional. Crescer nesse estágio. Ser promovida. Quando eu vi, a minha carreira na área de TI começou a se tornar internacional. E aí já ficava meio estranho a esposa do pastor viajar para trabalho. Porque aí as pessoas viam o meu cargo e falavam assim: ela ganha mais do que ele. E aí a gente tem um carro melhor. A gente tem um apartamento melhor. E aí aquilo era muito estranho. Então eu ia me engarrafando, me engarrafando, para não atrapalhar o sonho dele. E a gente fez essas escolhas na vida por muito tempo. Então assim, era eu que escolhia: não. Não quero essa promoção. Não. Vou recusar agora. Para que ele pudesse exercer o ministério, o chamado, o propósito dele. Ou, como agora, no final do nosso casamento era ele que saiu da igreja, que foi convidado gentilmente a se retirar desse ambiente eclesiástico. Porque com uma mulher que lidera, que comanda, que faz isso tudo, certamente ele não era homem. E ele não acredita nisso. Então, ele abriu mão do sonho, do propósito, do chamado, para que eu pudesse exercer um sonho. E aí quando a gente olhou e falou: não vai dar mais para a gente ficar junto. Porque se para eu exercer o meu sonho você precisa se anular. E para você exercer o seu, eu preciso me anular. Tem alguma coisa errada aqui. Então não dá.

Luciano Pires: Você é confortável com palavrões e tudo mais?

Geovana Conti: Sou.

Luciano Pires: Não dava para dar um foda-se a comunidade e vamos nós juntos crescer nosso negócio em outro lugar, de outro jeito? E foda-se quem está preocupado com isso?

Geovana Conti: É e não é. Porque como o sonho dele exige essa comunidade eclesiástica, não… obviamente hoje já não é mais a tradicional. Mas é uma versão eclesiástica que eu inclusive gosto, que ela é operante, que ela entende o seu papel na sociedade: de transformação, de apoio, de crescimento, sem proselitismos. Então é bem bacana. Mas você precisa dessa comunidade. Não tem como realizar o dele sozinho. E pensa eu, que acabei sendo dona de uma empresa social. Eu não tenho sócios. Eu vou dar spoilers aqui do futuro.

Luciano Pires: Não. A gente chega lá. Fica tranquila. Eu só estou tentando entender isso. Vocês sacrificaram uma vida em comum…

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Em função de uma imposição de regras da sociedade?

Geovana Conti: Foi. Essa imposição minou a relação. A origem dessa coisa toda foi essa imposição social.

Luciano Pires: Mas ela teve força para minar…

Geovana Conti: Teve.

Luciano Pires: Para liquidar uma…

Geovana Conti: Teve.

Luciano Pires: Você amava ele? Ele amava você?

Geovana Conti: Sim.

Luciano Pires: É. Esse sim… esse sim meio assim. Se amasse de verdade, ele tinha dado um foda-se…

Geovana Conti: É. Eu acho que foram 20 anos…

Luciano Pires: E vamos tocar adiante…

Geovana Conti: Eu acho que a gente chegou. Porque foram 20 anos. Então, eu acho que nós chegamos a dar esse foda-se várias vezes. Mas chegou uma hora que cansou. E a gente sempre procura dentro da gente o motivo. É isso que a gente quer? É para lá que a gente vai? É isso que a gente quer fazer na sua vida? E para a gente foi muito complexa essa… pensar nessa possibilidade de separação. Porque nós dois fomos criados, educados para nunca, jamais considerarmos essa possibilidade. Então, eu queria uma identidade. Eu casei com 23. Eu namorei com ele quatro anos antes disso. Então assim, eu era muito nova. Quem é a Geovana, antes de ser a esposa do Cléber? Como é essa pessoa? Então eu sempre… eu acabei – nos últimos 10 anos – criando essa vontade de me conhecer. Essa curiosidade de saber: como eu vou dar conta, eu por mim, nessa versão em que eu me amo, que eu me respeito? Que eu me cuido e que eu vivo por mim, por uma coisa que eu acredito, que eu… parece egoísmo. Mas se você continuar conversando…

Luciano Pires: Não. Mas eu não sei se é egoísmo. Eu estou imaginando você acordar de manhã, olhar no espelho e falar: eu sou a mulher do pastor. Eu não sou a Geovana.

Geovana Conti: É isso. Perde o nome, o sobrenome.

Luciano Pires: Eu vou desempenhar o meu papel de mulher do pastor ao longo do dia…

Geovana Conti: É isso.

Luciano Pires: Com o tempo, essa coisa pode… se você não se conformar com isso, isso pode realmente criar um problema.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: E para ele não. Para ele não. Porque ela é a minha mulher. Ela é a minha mulher.

Geovana Conti: Exato.

Luciano Pires: Interessante isso. É engraçado. Se fossem anos 50, 60, a história seria diferente. Como você já está numa outra pegada, essa coisa…

Geovana Conti: Que ainda assim é desafiador.

Luciano Pires: Quanto tempo faz que vocês se separaram?

Geovana Conti: 25 dias. Mas a família sabe. As filhas sabem. Então faz 25. Porque foi uma decisão tomada em janeiro deste ano. Então já tem 11 meses.

Luciano Pires: Uma decisão madura, que já vinha… por isso que você está tranquila assim… você não está…

Geovana Conti: Isso. Já vivenciamos todo esse luto. A decisão tomada. A gente foi acompanhado. Aconselhado. Aí tem os amigos. Aí tem um acompanhamento psicológico. Tem o acompanhamento das crianças. Tem tudo… eu já passei por tudo isso. Então agora eu estou naqueles 25 dias de alívio. Eu até brinquei com umas amigas aqui em São Paulo, que a gente vai se encontrar mais tarde, eu falei: será que eu tenho que me sentir culpada por eu estar bem? De repente, eu estou tão bem. Porque eu já estou no fim da história, da decisão.

Luciano Pires: Ele está bem?

Geovana Conti: Ele está bem. As meninas estão bem. Graças a Deus.

Luciano Pires: Menos mal então.

Geovana Conti: Isso. Exato.

Luciano Pires: Estar tão bem assim, depois de 20 anos. Foram 20 anos.

Geovana Conti: Exato.

Luciano Pires: Que legal. Boa sorte.

Geovana Conti: Muito obrigada. Eu sei que não vai ser fácil. Mas…

Luciano Pires: É. Pois é. Mas vamos lá. Você então muda para Curitiba com ele.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Você vai. Lá você pega o certificado?

Geovana Conti: Pego o diploma. O certificado.

Luciano Pires: Lá você pega. Você termina lá?

Geovana Conti: Lá eu pego.

Luciano Pires: E vai para o mercado buscar uma posição na área de TI?

Geovana Conti: Na área de TI.

Luciano Pires: E ali você consegue. E fica claro para você que a tua carreira seria em TI?

Geovana Conti: Ficou claro.

Luciano Pires: E você cresce; como você já falou etc. e tal?

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Muito bem. Só que um belo dia, você tromba com essa outra realidade. Como é que essa coisa de você ver a pobreza e pensar: preciso fazer alguma coisa a respeito? Eu ainda não sei o que você faz. Atenção: eu não sei. Eu não fui pesquisar. Eu não fui atrás. Eu conto sempre para a turma aqui: exercer essa curiosidade legítima me permite falar qualquer bobagem aqui. Porque como eu não sei, eu posso falar qualquer ignorância.

Geovana Conti: À vontade.

Luciano Pires: Se eu tivesse estudado você, eu teria pautado a conversa aqui. Mas eu não sei. Eu vou fuçar aqui para entender como é que funciona. Quando é que você tromba com essa coisa de falar: tem outra coisa, de outro mundo aqui. Pela primeira vez eu estou vendo de perto. É quando você vai visitar a família dele? Visitar ele? Morar junto com ele? Como é isso?

Geovana Conti: Enquanto eu crescia na vida corporativa. Exatamente como você narrou. Ele crescia no mundo eclesiástico em projetos sociais. Nós nos casamos, ele era faixa azul de jiu-jítsu. E quando ele se tornou faixa roxa, ele abriu um projeto de jiu-jítsu na comunidade carente lá em Curitiba. Uma que, nos jornais, era a mais violenta da cidade. Então ela era famosa pela guerra das facções e tudo mais. E ele começa um projeto de jiu-jítsu ali. O que eu faço? Levo lanche para as crianças. Vou lá ver se está tudo certo. Pego. Busco. Entendeu? Eu faço uma logística que acaba me incluindo dentro daquele contexto.

Luciano Pires: Por tua iniciativa? Ele não pegou você pela mão, e falou Geovana: vem comigo? Vem ver como é.

Geovana Conti: Por minha iniciativa.

Luciano Pires: Você falou: deixa eu ir lá ver isso.

Geovana Conti: Deixa eu ir lá ver como é. E era em horários que eu poderia estar presente. Então eu acabei indo lá. E eu olhava para aquela situação e eu falava: meu Deus, mas esse menino chegando descalço aqui? Não tem um chinelo. Vamos arrumar um chinelo. Vai tomar banho, menino. Que estava no rio, chega com o pé cheio de lama. E você vai olhando para aquilo e aquilo vai fazendo parte. Aí tem final de ano. Vamos fazer então a festa de fim de ano, de encerramento das aulas. Chama os pais. Aí você conhece os pais. Aí vê a realidade. Aí é um que precisa de remédio. É outro que precisa de roupa. Outro que precisa de uma cesta básica. Aí você começa a participar dessas necessidades e movimentar a sua rede de contatos para atender essas necessidades de alguma forma. Quando nasceu a minha primeira filha eu lembrei algumas coisas. Por exemplo, da minha reprovação no vestibular. A cena é: eu num shopping de Curitiba, sozinha, almoçando, grávida, já barriguda. Chegam adolescentes de um colégio ali perto, para comer numa lanchonete dessas de fast food. Eu olhei para aqueles jovens e chorei. E pensei: quem vai cuidar desses jovens para que eles alcancem a vida que eu tenho? Quem vai mostrar para eles qual é o caminho entre onde eles estão e onde eles podem ir? E aquilo começou a mexer comigo. A minha filha tem 13 anos. Então, há 13 anos atrás foi quando eu comecei a questionar como a gente constrói uma ponte entre esse universo do Cléber e o meu. Então, há 13 anos. E há 10 com uma ideia na cabeça e um propósito nas mãos surgiu a Youngers.

Luciano Pires: Antes de chegar na Youngers. Deixa eu explorar um pouquinho mais você. Essa tua iniciativa, essa coisa nascente, que na parte da iniciativa individual. Você olhou para aquilo e falou: eu vou ter que dar um jeito aqui. Vem cá, ô Dona Igreja, ajuda eles aqui. Mas você começou seu polo ali. O que foi? Acendeu uma luzinha?

Geovana Conti: Sim.

Luciano Pires: Um belo dia você acordou de manhã, a janela se abriu e uma voz falou: Geovana vá cuidar das crianças.

Geovana Conti: Não.

Luciano Pires: Como é que foi?

Geovana Conti: É muito mais orgânico do que a gente imagina. Porque um dia é um que está sem chinelo. Aí você vai na sua casa, você pega o seu chinelo entrega para ele, depois você arruma outro chinelo. Ai no outro dia tem uma menina que está com um casaco rasgado. Aí você vai na sua casa, pega o teu casaco entrega para ela e vai passando. Quando você vê você entrou nesse movimento de suprir essas pequenas necessidades cotidianas, que você não está nem vendo. Eu estou narrando isso para você. Mas no dia a dia, você não vê que você está fazendo isso. Que você está tirando o seu casaco e dando o seu casaco. Você está resolvendo aquele problema pontual ali. Entende?

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: Aí você está conversando com uma mãe que está chorando porque o marido dela foi preso, porque a filha foi abusada. Aí você vai ouvindo aquilo e vai pensando: espera aí que o buraco é muito mais embaixo. Eu preciso entender mais para ver como é que eu faço para atender essa comunidade. E lembro que a intenção minha era ajudar. Eu falava: eu preciso ajudar essas pessoas. Ainda estava numa posição de que eu tinha alguma coisa. E que eles não tinham. E o processo era via de mão única. Eles pediam, eu entregava. Eu achava – na minha cabeça – no início de tudo, que era esse o processo. Eles pediam, eu entregava. E aquilo me fazia bem. Então hoje, muita gente que doa, que participa de caridade, de coisas de solidariedade compartilha desse sentimento: eu tenho, eu doo.

Luciano Pires: Tem uma tese até que diz que isso é uma coisa meio egoísta. Porque você dá para se sentir bem…

Geovana Conti: Sim.

Luciano Pires: Na verdade, eu estou ajudando. Mas a intenção é que eu me sinta bem. Eu estou acertando as contas com os homens lá em cima.

Geovana Conti: Exatamente.

Luciano Pires: Eu estou dando um jeitinho aqui. Então é uma coisa meio assim.

Geovana Conti: Exatamente. E aí o tempo foi passando e a situação nunca mudava. E os pedidos eram os mesmos.

Luciano Pires: E aumentava a fila de gente pedindo.

Geovana Conti: E aumentava a fila de gente pedindo. E aquilo chegou a ser uma obrigação. As pessoas vinham para mim como se eu fosse obrigada a entregar o que eles estavam precisando. E aí eu olhei para aquilo e falei: não está funcionando. Então, entendo o papel da caridade e da solidariedade. Entendo.

Luciano Pires: Isso tudo dentro do negócio de jiu-jítsu do teu…

Geovana Conti: Só do projeto de jiu-jítsu. Exatamente.

Luciano Pires: Como é que o teu marido via isso?

Geovana Conti: Superbem. Fundamental. Trazia para junto. E amava essa parte toda.

Luciano Pires: Que legal.

Geovana Conti: Então ia ter campeonato. E aí queria levar 30 crianças. Aí precisava de uma Van para levar as 30 crianças para o campeonato. Aí a gente sai que nem doido ligando para patrocinador, para não sei o que, para arrumar roupa, para arrumar Van. Então a gente ia desembolando a parte logística da coisa toda. E dando o que a gente achava que era suporte. Como é que eu levo criança de comunidade para participar de um campeonato de jiu-jítsu sem comer? Para ficar lutando o dia inteiro? Não. Aí arruma dinheiro para comprar comida, para não sei o quê. E tinha que ser uma comida com sustança, para levar para essa criançada. Eu tenho duas. Quando a Thaís era bebê, enfiava ela no carrinho de compra. Ela entrava no corre junto comigo. Só que é muito cansativo você fazer essa caridade toda e olhar para a situação e ela continuar igual. Exatamente igual. Então, eu comecei a me questionar sobre: o que mais a gente pode fazer para a gente precisar de menos caridade nesta região? E aí eu usei uma estratégia de Jesus. Porque Jesus encontra com um cego de nascença. E faz uma das perguntas mais óbvias – na minha cabeça – que é: o que queres que eu te faça? Eu falei: porra, se o cara que era Deus perguntou: o que queres que eu te faça? Quem sou eu na fila do pão para dizer que a menina que está sem chinelo precisa de um chinelo? Eu preciso perguntar: o que você quer? Porque, às vezes, o andar descalço não era um problema para ela. Ela ia dizer: eu quero um absorvente higiênico, porque eu estou menstruada. E eu não tenho absorvente. As pessoas olham para os moradores, para as pessoas em situação de rua – trocou o nome agora – e querem tirar as pessoas da rua. Eu sempre pergunto: você já perguntou se essas pessoas querem efetivamente sair da rua? Infelizmente – eu sei que eu vou dizer aqui, a coisa mais louca do universo – algumas pessoas, por uma série de motivos, elas escolheram isso no início da jornada. Muitas não. Mas muitas escolheram. E ao invés de tirar da rua, se você perguntasse: o que você quer? Ele ia dizer: dinheiro para comprar droga, bebida. Uma coberta. Ele ia dizer alguma coisa que ele quer e que ele…

Luciano Pires: Eu não quero mudar dessa vida aqui.

Geovana Conti: Eu não quero sair dessa vida.

Luciano Pires: Eu quero deixar ela um pouco mais confortável.

Geovana Conti: Exato. Eu quero a pinga para aquecer meu frio. Eu não quero sair daqui. E a gente se ofende quando a gente ouve essa resposta. E eu parei de me ofender com isso. Eu falei: eu estou tirando o direito de escolha dele, quando eu obrigo o cara a vim para uma casa de recuperação ou para alguma coisa. Sendo que ele não escolheu aquilo. Não é uma coisa que ele quer. É tudo muito complexo. A pobreza é complexa. A miséria é complexa. E aí eu comecei a pirar. Porque eu falei: comunidade o que queres que eu te faça? E a resposta que eles me deram era alguma coisa que eu podia fazer. Eles podiam dizer qualquer coisa. Eles disseram: Geovana a gente quer trabalhar. Aí eu parei e falei…

Luciano Pires: Nós não queremos esmola. A gente quer ter a chance…

Geovana Conti: Exato.

Luciano Pires: A gente quer ter a chance de produzir nosso sustento. O que vai contra o que a média imagina.

Geovana Conti: Exato.

Luciano Pires: Esses caras são tudo folgados. Eles querem o governo dando, dando, dando. E não querem ter o trabalho de produzir. E você está me dizendo que é o contrário?

Geovana Conti: Isso. Não foi o que aconteceu comigo na minha história, no meu pequeno universo. Quando eu fiz essa pergunta, a resposta veio com força. De dezenas de pessoas com as quais a gente já trabalhava. Eu quero trabalho, porque eu quero salário, porque eu quero pagar as minhas contas. E quando eu olhei para isso, a gente morava numa casa. A gente morava num apartamento lá em Curitiba, com churrasqueira na varanda, condomínio com piscina. E aí o Cléber falou: vamos morar na vila, para a gente tentar trabalhar essa questão do trabalho, do emprego, da geração de renda? E a gente achou uma casa. Alugou. Embaixo, a gente fez o co-working.

Luciano Pires: Espera aí. Vocês mudaram para a comunidade?

Geovana Conti: Nessa época, a minha mais velha tinha seis anos, a mais nova tinha três. Pegamos nossas coisinhas e nos mudamos. Fomos morar nesta comunidade. Porque a pergunta reverberou na comunidade. As pessoas se empolgaram. E elas queriam co-construir a própria solução de trabalho e renda.

Luciano Pires: Vocês moravam num bairro classe média…

Geovana Conti: A gente morava num bairro classe média.

Luciano Pires: Tudo legal. Tudo certinho…

Geovana Conti: Tudo certinho.

Luciano Pires: E decidiram se mudar para uma favela?

Geovana Conti: Nós nos mudamos para uma favela. A mais violenta da cidade. Foi isso que a gente fez. Com duas crianças: uma de seis e uma de três.

Luciano Pires: Como é que nasce essa ideia? Você e ele, os dois chegam a uma conclusão? Como é isso?

Geovana Conti: Nós…

Luciano Pires: Porque você está carregando as suas filhas junto…

Geovana Conti: Isso…

Luciano Pires: Não é uma decisão só sua?

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Como é?

Geovana Conti: Nós nos casamos em janeiro de 2002. Em junho de 2002, ele começou o projeto social com jiu-jítsu. Em julho de 2002 ele disse: vamos morar na favela? Eu fiquei de 2002… todo ano ele repetia a pergunta. E eu sempre disse: você está louco? Você bebeu? Você comeu coco? Como é que você vira para mim… e pensa: eu crescendo profissionalmente. E ele cada vez mais apaixonado pela favela, querendo ir morar lá. Quanto mais eu me envolvia… então foram anos até eu também ceder e concluir: nós não vamos ser efetivos se a gente não estiver aqui dentro. A gente não vai conseguir mudar. Eu vou conseguir fazer caridade. Eu vou conseguir fazer solidariedade.  Eu vou conseguir trazer coisas para cá. Mas eu não vou conseguir mudar a realidade.

Luciano Pires: Nessa época você era Clark Kent e Super Homem. Você como Clark Kent estava trabalhando numa empresa de TI, crescendo, etc. e tal…

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: E como Super Homem, fazendo esse trabalho todo teu no teu dia a dia.

Geovana Conti: Na comunidade lá.

Luciano Pires: Em algum momento, essa coisa desequilibra.

Geovana Conti: Sim.

Luciano Pires: Se você fala que você vai mudar para a comunidade, desequilibrou.

Geovana Conti: Sim.

Luciano Pires: Caiu para segundo plano o teu trabalho de TI.

Geovana Conti: Sim.

Luciano Pires: Que era o que te sustentava.

Geovana Conti: Sim.

Luciano Pires: Que era o que dava grana para vocês.

Geovana Conti: Sim.

Luciano Pires: E foi para o primeiro plano esse outro ponto aí. Existe uma mudança brutal na tua vida, que até bota em risco o teu trabalho na TI. Como é que você botou na balança essa coisa? Como é que você foi: eu estou mudando a minha vida, não em função daquilo que me sustenta, mas em função daquilo que me… como foi isso.

Geovana Conti: Foi a partir do momento em que eu comecei a ceder para a mudança até a gente efetivamente mudar. Nesses dois anos eu já olhava para o meu emprego de outra forma. Era uma coisa que trazia dinheiro, mas não preenchia o meu coração. Era uma coisa que pagava as minhas contas, mas que eu colocava a cabeça de noite para dormir. E aquilo me dava crises de ansiedade. Foi exatamente isso: tela azul. Porque eu falava: não tem nada a ver com o que eu quero para a minha vida. Mas era muito dinheiro.  Eu comprei um carro no débito. Eu entrei numa concessionária da Nissan e falei: eu quero aquele ali. Passa no débito? Porque eu realmente ganhava bem. Eu tinha um cargo internacional. Comandava uma equipe em mais de 20 países diferentes. E enquanto eu fazia isso o meu coração estava na Ediléia, que estava lá precisando de uma cesta básica. Estava lá na Dona Maria, que precisava… então aquela coisa. Esses dois anos dentro da empresa foram sofridos, foram chorados. Eu comecei a passar mal fisicamente. Então eu tinha tremedeira. Coração acelerado. Suava. Passando mal. Até que chegou um ponto, que eu confesso que foi uma decisão mais emocional do que racional. Eu fiz um pé de meia. Guardei um dinheiro. E conversei com o meu chefe na empresa falando: eu não aguento mais. Eu preciso que você me mande embora. E ele um gringo. Eu vou te mandar embora por que, Geovana? Eu falei: por qualquer motivo. Mas eu não quero pedir para sair. Porque eu quero a grana para me sustentar.

Luciano Pires: Claro.

Geovana Conti: E vai explicar. Eu falo: se você me mandar embora, por favor. Aí ele disse: então tá bom. E aí foi tudo conversado. Tudo planejado. Porque eu tinha feito muita coisa pela empresa. Eles escolheram o dia…

Luciano Pires: Quanto tempo você tinha de empresa?

Geovana Conti: Eu tinha uns 13 anos de empresa. E aí chegou num dia determinado. Na véspera saí com toda a equipe. Sem falar nada. Saímos, tomamos um café, nos abraçamos. Juntei todas as minhas coisas. Guardei todas as minhas coisas. No dia seguinte vêm os supervisores e dizem: você está sendo desligada por mau comportamento e baixa performance. E eu: uuuiii… aí eles: então? A gente precisa mandar você embora.

Luciano Pires: Mas isso não dá justa causa?

Geovana Conti: Não dá. Era isso. Entendeu? Esse era o ponto. Era: como que a gente… era isso. A gente não quer uma justa causa. Mas ninguém é mandado embora porque é bom. Você sempre é mandado embora, porque você fez uma coisa ruim. Então eles: os motivos pelos quais você está sendo mandada embora é baixa performance e mau comportamento. Chorei. E eles me olhando, do tipo: não é isso. E aí quando cai a ficha, num primeiro momento, eu fiquei bem insegura. Eu tinha o meu pé de meia. Consegui encher ele mais um pouquinho. E saí romântica, idealista: vou mudar o mundo. E pensei: agora eu vou abrir a minha empresa. Vou prestar alguns serviços para fazer o caixa oxigenar.

Luciano Pires: Na área de TI?

Geovana Conti: Não. Na área de palestra, comunicação, na área de consultoria para grandes empresas que queriam incluir jovens aprendizes. Porque o jovem aprendiz é esse meu menino.

Luciano Pires: Então você já tinha mudado. Você já tinha abraçado outra…

Geovana Conti: Já.

Luciano Pires: O teu background na TI você deixou de lado?

Geovana Conti: Deixei de lado e passei a trabalhar com inclusão de jovens no mercado de trabalho.

Luciano Pires: Sem ter uma ONG, sem ter nada por trás?

Geovana Conti: Tendo uma empresa Ltda./ME.

Luciano Pires: Era sua?

Geovana Conti: A minha.

Luciano Pires: A sua. Você não se agregou a nada?

Geovana Conti: Eu não me agreguei. Eu não me associei a ninguém. Eu fiz a minha empresa. E comecei a prestar esse serviço com a rede que eu tinha de contatos. E aí foi caótico. Foi uma porcaria. Porque a gente não vive de romance, a gente não vive de ideal, de propósito. Então eu que comprei carro no débito, que férias era questão de escolher destino, que tinha as filhas numa escola particular cara. De repente, começo a descapitalizar. Aí você vai tirando dinheiro de fundo. Aí você vai… mas sem ver. Porque a balança era da ansiedade profunda para o mundo cheio de propósito. Aí eu colocava cabeça no travesseiro. Dormia. E falava: eu estou fazendo o que eu devia estar fazendo. Era isso mesmo. Então, eu não vi o rolo compressor financeiro que estava vindo. Porque eu estava em êxtase com a possibilidade de incluir jovens no mercado de trabalho, mães, mulheres. Eu falava: era isso mesmo. Porque Deus vai honrar. Porque Deus vai me ajudar. E eu largo essa vida corporativa para fazer trabalho com os pobres, o Cléber volta para a igreja. Tipo: rei magnânimo. E aí finalmente, eu sou a esposa do pastor. Mas aí cadê a grana para sustentar a casa.

Luciano Pires: E as duas filhas?

Geovana Conti: E as meninas lindas, maravilhosas, curtindo tudo. Super inseridas nessa nova realidade. Elas eram muito tchutchus, muito pequenas também. Então nunca faltou nada. A gente fala que elas tiveram uma experiência raríssima. Porque estudavam em escola particular e viviam na favela. E sair da nossa casa para a escola delas, até hoje eu não me acostumei com a transição de cenário. Até hoje eu entro e saio e falo: que coisa.

Luciano Pires: Vocês continuam morando?

Geovana Conti: Faz 25 dias que eu saí de lá. Mas ele ainda está lá. E elas ainda estão lá.

Luciano Pires: Elas cresceram dentro…

Geovana Conti: Isso. Dentro da comunidade.

Luciano Pires: Com dois mundos…

Geovana Conti: Dois mundos diferentes. Então você tem falas da minha mais velha, do tipo: quando eu crescer, eu vou ser presidente de Curitiba. Sem entender os cargos ainda. Mas por que filha, que você quer fazer isso? Porque o Vladi precisa de uma casa. Então, com uma percepção. Nós inclusive tiramos elas dessa escola por isso. Quando a professora de Geografia falava sobre a cidade, elas tinham uma visão e uma percepção da cidade que “atrapalhava” a professora. As meninas entendiam da pobreza. Elas viam. E não era uma coisa diferente. Era natural. Tipo: existe. Não era uma questão de escola. Era uma questão de: eu estou vendo. Mãe, a Bel está aqui. Ela precisa de um prato de comida. E você desce com um prato de comida. Então é uma coisa que você faz. Não é um assunto, uma bandeira que você levante. É uma rotina de cuidado com as pessoas. E aí passou a ser uma troca. Porque aí a gente entendia que… o Cléber tinha viajado. Eu estava com as meninas. Elas queriam comer um bolo. E aí eu não tinha três ovos para bater o bolo. E aí o vizinho me viu. Porque as casas muito próximas. Eu: meninas não têm ovos. E o Seu Antônio, do lado: tem ovo aqui. E aí você desce no vizinho e pega três ovos. Se a gente viaja, ele olha a nossa casa. Se ele viaja, a gente olha a dele. Se o correio chega, todo mundo recebe. Mas não é para passar a mão no negócio. É tipo: tem esse cuidado. A nuvem de crianças na rua correndo, desenfreada. E você olha: meu Deus, não tem nenhum adulto. Tem. Nós mães estamos na janela. A gente está ali olhando. Se está na frente da minha casa, a responsabilidade é minha, de descer, de brigar, de gritar, de pôr ordem. Se está na frente da outra; a outra está de olho. Mas seja lá quem for tem essa co-responsabilização coletiva, comunitária. E essas crianças vão crescendo. E aí a coisa virou na minha cabeça. Eu falei: meu Deus, como o meu universo era pequeno. Porque eu achava que eu ia ajudar alguém. Mas certamente, eu fui muito mais ajudada. Não vou me emocionar. A vida real na comunidade, ela mexeu comigo. E eu falei: que ousadia. Quem sou eu na fila do pão para achar que eu podia ajudar alguém? Quem sou eu na fila do pão para achar que era eu que vinha trazer alguma coisa? Quando são eles que me trazem a realidade sobre cuidado? Deixa que eu vou lá. Deixa que eu faço. De estar junto. Porque, às vezes, você mora num prédio…

Luciano Pires: Você está descrevendo para mim Bauru, a minha cidade natal, quando eu era um moleque. Que era isso. Não havia diferenças. Você sabia que havia diferença social, mas ela não era como é numa cidade como São Paulo ou como Curitiba, por exemplo. Que está muito claro. Você ia falar agora, eu te cortei. Você está num prédio. E no prédio tem alguém que faz alguma coisa. Eu contrato. Alguém faz. Mas eu não tenho esse sentimento de… eu estou num prédio que eu não conheço. Às vezes, você não sabe quem é.

Geovana Conti: Às vezes, você não conhece o vizinho de baixo. O da porta eu até acredito que você conheça, porque sobe no elevador e você vê. Mas o vizinho de baixo, o vizinho de cima, você não sabe quem é.

Luciano Pires: Não. Tem um distanciamento gigantesco.

Geovana Conti: Gigantesco.

Luciano Pires: E na comunidade não tem essa…

Geovana Conti: Não tem isso.

Luciano Pires: Não tem essa questão. Todo mundo está na draga, logo, vamos nos ajudar. E essa coisa da generosidade do pobre. Eu tenho um pouco. Mas eu divido com os outros.

Geovana Conti: Isso sempre. Eu cometi muitas gafes naquele lugar. E descobri que se você tem um bolo e tem 10 pessoas para comer o bolo, você parte o bolo em 10 pedaços. Se você tem um bolo e tem 20 pessoas para comer o bolo, você parte o bolo em 20 pedaços. É simples assim. Então as nossas ações e reações com a comunidade começaram a mudar, porque eu comecei a mudar, porque o Cléber começou a mudar. Porque a gente começou a entender que não é nada disso. Ou a gente…

Luciano Pires: O teu círculo de amizades fora da favela achou que você estava louca?

Geovana Conti: Sim. Então?

Luciano Pires: A tua família? O teu pai não veio te buscar abaixo de porrada para você criar vergonha na cara?

Geovana Conti: Ele ficou numa sinuca. Porque como ele pastor e, teoricamente, um dos papéis da igreja é a caridade. Bem teoricamente. Ele ficou numa sinuca, porque ele não podia fazer isso. Certo? E aí ficou uma coisa difícil para ele. Eu imagino.

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: A minha mãe, ao contrário, ela foi à Curitiba. E ela quis ajudar de alguma forma. Eu falei: sabendo que você vai fazer isso, então vamos ver o que precisa aqui. Vamos ver de infraestrutura, como que a gente pode fazer para ajudar aqui de alguma forma. E ela também se tornou muito solícita com a questão toda. E ela até hoje fanzaça. Ela veio à Curitiba muitas vezes. O meu pai veio uma vez. Eu acho que ele passou em Curitiba umas duas, três vezes. Uma delas para ver a casa da comunidade.

Luciano Pires: Quanto tempo faz que você saiu da empresa?

Geovana Conti: Eu saí em 2014.

Luciano Pires: Já está com sete anos aqui. Sete anos que você saiu.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Aí você olha para essa confusão toda e fala: eu como indivíduo, sozinha, dando um prato de comida, não vou chegar muito longe. Eu preciso de uma organização para isso aí. Você monta a tua ME, que era uma empresa focada em quê? Qual é a razão social dela? ME, mas o objeto do… o que é? Uma empresa?

Geovana Conti: Treinamento profissional.

Luciano Pires: E a partir disso, qual é a tua estratégia? O que você vai fazer?

Geovana Conti: A gente treinava a comunidade para vagas de emprego.

Luciano Pires: Ok. E você ganhava dinheiro com isso?

Geovana Conti: Esse era o problema. Eu descapitalizei. Porque eu esqueci que eu tinha que monetizar para me sustentar. Então a gente começou a treinar jovens para vagas de aprendiz. E dava certo. Pessoas para conseguir emprego. E dava certo. Mas eu não cobrava de ninguém. Porque a comunidade não podia pagar. Então eu falava: o que eu vou fazer com isso? E aquilo me fez cair de volta no limbo. Eu falei: ainda está errado.

Luciano Pires: Você falou: nós treinávamos. O teu marido estava nisso?

Geovana Conti: Não exatamente. Mas eu tinha mais gente que acreditou nisso junto comigo e que veio para me ajudar, no começo. Então eram duas, três pessoas. Eu abri a parte de baixo da casa para que tivessem esses espaços, aonde tinha alguém que revisava currículo. Tinha alguém que falava de entrevista. Tinha alguém que olhava documentação. E eu ia dando umas dicas de onde que a gente pode encontrar emprego. O que a gente pode fazer. Então, a gente ficava ali tentando fazer esse meio de campo. E as pessoas efetivamente conquistavam seus empregos. Então, das nossas primeiras iniciativas tem o Marcelo – que mora lá na comunidade, que trabalha até hoje – ele fala: vocês… aí fazem sete anos então, que ele trabalha. E aí ele diz: ainda bem que vocês apareceram. Porque estava feia a coisa. Isso foi em 2014. Então pensa: em 2014, 2015 a gente foi fazendo isso. Quando foi em 2016, eu estava com uma dívida de 100 mil reais. Porque eu não conseguia fazer dinheiro de volta. Em 2016, eu dei uma surtada. Porque naquele ponto, eu pensava: o que eu estou errando? E aquela coisa de igreja na minha cabeça era: se eu estou fazendo o bem, eu devia ser recompensada pelo universo, por causa disso. Por que Deus não está fazendo a parte Dele? Que era o que diziam para a gente: se você for bonzinho, você ganha o… como se ser cristão fosse esse toma lá, dá cá. É muito raso isso.

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: O universo vai te recompensar. E não tem.

Luciano Pires: Não tem.

Geovana Conti: Eu provei esse: não tem. E com todas as minhas habilidades, eu tinha deixado tudo de lado, de gestão. Eu mesma poderia fazer o meu próprio currículo. Voltar para o mercado de trabalho.  Eu poderia fazer um monte de coisa. Mas eu não tinha cabeça. Porque eu estava frustrada casada. Deprimida com aquela história toda. E um grande amigo virou para mim e falou assim: Geovana – ele é dono de uma escola profissionalizante – nós estamos aqui querendo abrir uma startup, que é um site onde os jovens se cadastram. E as empresas pagam para ter acesso ao nosso banco de talentos. Você não vem coordenar isso para mim? E aí em 2016, 2017 aquilo foi me enchendo de novo. Quando ele começou a me pagar por isso e eu fui dando uma acalmada na coisa toda, aí eu comecei: é verdade, eu preciso de um modelo para o meu negócio. Eu preciso entender. Se não é o meu beneficiário que vai pagar essa conta, quem vai pagar essa conta? Da onde que vai vim esse dinheiro? Aí, de volta à minha mente estratégica, de gestão, de tudo, ela foi reativando. E em 2018, eu reestruturei, peguei a Youngers de volta, o meu CNPJ, eu peguei o dinheiro e paguei, mas ainda estava endividada.

Luciano Pires: O que é Youngers.

Geovana Conti: Youngers é o nome da minha empresa, que é na favela. Eu tenho o nome em inglês por quê? Porque eu não trabalhava com o Brasil. Então, eu montei uma empresa com o nome em inglês. Peguei a Youngers. Estruturei ela toda. E aí minha mente já funcionando, eu aberta às possibilidades, descobri que existiam editais, chamamentos públicos, para que empresas e ONGs atendessem com projetos escritos. Eu falei: escrever projeto eu sei. Escrevi um projeto e submeti para a Aliança Empreendedora. Porque em 2018, o ponto foi o seguinte: o Brasil estava numa crise, que não havia emprego. Então, não adiantava mais eu treinar a comunidade para o mercado de trabalho desaquecido. E naquele ponto, eu falei: se a pessoa não vai gerar renda, porque ela tem carteira assinada, só tem uma forma: ela precisa produzir alguma coisa, um produto ou um serviço e monetizar a partir disso: empreender. Então a gente submeteu para a Aliança Empreendedora. Ganhamos o edital. E a gente foi treinado pela Aliança Empreendedora numa metodologia que se chama Effectuation, de uma norte-americana chamada Saras Sarasvathy, para ensinar empreendedorismo na comunidade.

Luciano Pires: Interessante.

Geovana Conti: Então eu estava sendo paga para gerar renda ali para a minha comunidade. Ali a minha cabeça explodiu. Eu olhei para aquilo e falei: é isso. Nós vamos estruturar a Yougers para a gente sair da dívida. Para a gente crescer. Para a gente fazer aquilo, a partir de empreendedorismo na comunidade, bancado pelas grandes empresas, com uma metodologia forte. É isso. Porque aí já estamos avançando.

Luciano Pires: Não. É legal.

Geovana Conti: Está fazendo sentido a virada de chave?

Luciano Pires: Está fazendo sentido. Faz todo o sentido lá. Isso muda tudo.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Porque você começa a infectar a comunidade com esse vírus do empreendedorismo.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Porque até então, o empreendedorismo lá é necessidade.

Geovana Conti: É necessidade. Bala no sinal.

Luciano Pires: Eu vou para o sinal, porque senão, eu morro de fome.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Mas quando você traz uma consciência do empreendedorismo para crescimento e tudo mais é outra história. Você muda a razão dele. E aí aquela molecada toda que vinha pedir orientação para arrumar emprego, deve ter mudado a faixa etária, mudou tudo?

Geovana Conti: Isso. Mudou tudo. Cresceu. A gente conseguiu colocar um monte de gente. Mas aí começou a sobrar muita gente. E a gente começou fazer uma pergunta mágica: que tal ganhar dinheiro enquanto o seu emprego não vem?

Luciano Pires: Boa.

Geovana Conti: Porque a gente não podia tirar a perspectiva do CLT deles, visto que o brasileiro pobre é criado em série, para ser funcionário colaborador. Esse negócio de mente empreendedora, isso não funciona. Não é assim. O desejo e o sonho dessas pessoas é ter uma carteira de trabalho. A mãe, aquela senhorinha, a avó em casa, o desejo profundo da alma delas para os seus filhos, os seus netos é que eles arrumem um emprego. É isso. Porque vender bolo, marmita, cachorro quente não é emprego.

Luciano Pires: Não tem segurança nenhuma.

Geovana Conti: Não tem segurança. E aí você entra num universo de pessoas que não têm escolaridade para fazer uma planilha financeira. Então, muita calma nessa hora. O que é empreender na comunidade? Não tem como você dizer que o empreendedorismo é para todos da comunidade. Porque não é. Você pega a mãe de quatro filhos. O marido está preso. Um de cada pai. E nenhum dos pais está presente. Essa mãe vai fazer a marmita dela para vender que hora, com esse monte de criança em casa? Aí vem a pandemia. As casinhas minúsculas. A gente teve uma aluna, que o forno dela funcionava pela metade. E ela queria vender bolo. Como você assa um bolo no seu fogão? Então tem uma série de barreiras, de empecilhos ali. Fora a criação. A estima baixíssima dessas pessoas. Empreender já não é fácil para quem tem instrução, para quem tem dinheiro e para quem tem condição. Vai dar errado. Você vai tentar um negócio e não vai conseguir. Pensa para essa galera que tem muito menos, para errar. Então a gente chega com esse desafio de trazer o empreendedorismo para tentar fazer a economia girar. Encontra essa série de barreiras. Respira fundo e diz: eu entendo que algumas empresas querem bancar. Mas antes de eu dizer que eu trabalho com empreendedorismo na comunidade, eu preciso resolver algumas questões. Porque muita gente diz que. Mas eu falo: está? A pessoa que você ensinou a vender brigadeiro está vendendo há quanto tempo? Porque empreender para mim é uma atividade recorrente, contínua. Então não é que você vai num fim de semana vender brigadeiro para pagar a tua conta de luz. Você vai viver de vender brigadeiro. É diferente. Uma coisa é fazer bico. E ok com isso. Ok para a caridade. Ok para a solidariedade. Ok para o bico. Agora, se eu Geovana ia falar de empreendedorismo, eu falei: pausa. Para quem é? Como a gente vai fazer isso? Que tipo de infraestrutura eu preciso trazer? E vamos colocar a nossa expectativa no lugar. As pessoas que virão são jovens. Eles estudaram na escola pública, mas eles chegaram no Ensino Médio. Ou seja, eles são capazes de processar informação. E eles têm energia para fazer o erra e acerta. Erra e acerta. Então a gente chegou com esse negócio lá e foi muito bacana, porque as pessoas entenderam o processo. Espera aí. Então eu começo vendendo bolo aqui. Essa é a história da Ediléia, quatro anos desempregada. Estava no CRAS, que é o Centro de Referência de Assistência Social da prefeitura. E aí o CRAS – que é nosso parceiro – ela falava: CRAS, por favor, me dá emprego. Aí eles disseram: emprego não tem. Mas vai lá no Le Fave, fala com a Geovana que você quer trabalhar.

Luciano Pires: Le Fave?

Geovana Conti: Le Fave.

Luciano Pires: Explica o que é Le Fave.

Geovana Conti: O Le Fave é o nome do nosso co-working.

Luciano Pires: Chama-se Le Fave?

Geovana Conti: Maison Le Fave, para todo mundo que quer empreender.

Luciano Pires: Maison Le Fave. Que maravilha. Muito bem. Você está no LíderCast. O LíderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e Café Brasil Premium têm acesso imediato à temporada completa, assim que ela é lançada. Os não assinantes receberão os programas gratuitamente, um por semana. Para assinar, acesse mundocafebrasil.com e conheça nosso ecossistema do Café Brasil Premium através do site ou pelos aplicativos para IOS e Android. Você pratica uma espécie de MLA, Master Life Administration, recebendo conteúdo pertinente, de aplicação prática e imediata, que agrega valor ao seu tempo de vida. São VídeoCasts, sumários de livros, PodCasts, e-books, eventos presenciais. E a participação em uma comunidade nutritiva, onde você faz um networking com gente como você, interessada em crescer. Mas aí você monta então? Há um espaço físico para isso?

Geovana Conti: Há um espaço físico.

Luciano Pires: Você montou um espaço físico?

Geovana Conti: Montamos.

Luciano Pires: Que tem cara de quê? É um co-working? É uma escola?

Geovana Conti: Co-working. Tem espaço. Têm mesas de trabalho. Tomadas. Tem internet. Tem uma área de café. Tem uma mini sala de aula. É um co-working. Tem banheiro.

Luciano Pires: E as pessoas vão lá e pagam.

Geovana Conti: Não.

Luciano Pires: Ninguém paga nada?

Geovana Conti: Eles não pagam nada. Nós conseguimos encontrar grandes empresas que queriam aquecer em torno. E queriam trabalhar com impacto social como contrapartida. Uma das grandes empresas que voltou como cliente, foi a empresa da onde eu saí. Da onde eu pedi demissão. Essa empresa volta depois e fala: Geovana a gente está olhando o seu trabalho. E a gente quer dar uma contrapartida social. Afinal de contas, dentro da empresa existem pessoas, seres humanos. E uma das coisas que a empresa no caso, prezava e zelava era por trazer um ambiente adequado de trabalho. E nas pesquisas internacionais uma das coisas é propósito. Então se a pessoa não tem propósito diretamente no que ela está fazendo, a empresa precisa proporcionar para esses funcionários outra maneira de ter propósito. E aí você vê essas grandes empresas fazendo reforma em asilo e pegando os funcionários como mentores de programas de qualificação profissional. Então a gente começou a vender esses programas de voluntariado para essas grandes corporações. Então as empresas bancavam. Tinha grana. O que aconteceu? Paguei a dívida. Contratei pessoas. Sistematizamos a metodologia. Criamos um cronograma de ação. E aí eu comecei a vender isso para as grandes empresas. Todo mundo ganhava. A empresa ligava o funcionário num negócio bacana. Gerava impacto social. A comunidade ganhava de graça. O negócio começou a monetizar. Os nossos alunos começaram a faturar recorrentemente a partir da jornada empreendedora ali no Le Fave. E veio a pandemia.

Luciano Pires: Isso tudo foi 2018 e 19. Você cria Le Fave quando?

Geovana Conti: O Le Fave existe desde antes. Foram as nossas tentativas de emprego. Ele já existia.

Luciano Pires: Esse ambiente? Esse local físico?

Geovana Conti: Esse ambiente tem sete anos, quando nós nos mudamos. É a nossa casa.

Luciano Pires: Você falou: é a parte de baixo da nossa casa. Eu comecei a fazer ali.

Geovana Conti: É isso.

Luciano Pires: Ali nasceu?

Geovana Conti: Ali nasceu.

Luciano Pires: Ali continua?

Geovana Conti: É lá até hoje. É um sobrado. A parte de baixo é o co-working. A parte de cima é a casa. A entrada para os dois é a mesma. Não tem como entrar na minha casa sem passar pelo Le Fave. Há sete anos que ele está lá operante, que ele funciona. Antes focado em emprego. E agora focado em empreendedorismo.

Luciano Pires: E essa palavrinha é mágica. Como você faz quando você está pensando no teu modelo de negócio? Fica claro que se as pessoas que estão frequentando não vão pagar, esse dinheiro tem que vir de algum lugar. Pode vir da igreja, por exemplo.

Geovana Conti: Por exemplo. Tentamos.

Luciano Pires: Pode vir do exército. Pode vir de sei lá. E aí você bate o olho e fala: eu vou buscar isso no mundo…

Geovana Conti: No setor privado.

Luciano Pires: No setor privado. Como é isso aí? Como é que você abre esse caminho? Você vai lá, bate na porta e fala: alô. Eu sou a famosa quem. Eu tenho um buraquinho ali na favela, aonde as pessoas vão lá para arrumar emprego. Me dá uma grana aí para eu… como é que foi isso?

Geovana Conti: Primeiro com as empresas do próprio entorno. E a conversa era: te ajudaria se a gente mudasse a realidade da comunidade que está aqui em volta? Faz sentido para você ter mais pessoas da comunidade trabalhando ao invés de pedindo dinheiro ou roubando ou passando necessidade? Você quer participar dessa mudança aqui no seu entorno?

Luciano Pires: Você mapeou as empresas que estavam ali em volta?

Geovana Conti: Isso. Mapeei. E bati esse papo com eles.

Luciano Pires: Batia na porta e falava: posso conversar com alguém do RH? Como que é isso?

Geovana Conti: Posso conversar com alguém do RH? A gente começou com RH.

Luciano Pires: O que eu quero entender é o seguinte: uma coisa é você chegar na esposa do diretor, que estava fazendo a unha. Eu conheço a esposa do diretor, converso com ela. Ela me põe em contato com o marido. E eu sou recebida pelo diretor lá. Outra coisa é você chegar na portaria e fazer: alô? Eu sou a famosa quem, e quero falar com alguém do RH. Pode me atender?

Geovana Conti: Exatamente.

Luciano Pires: Qual foi o caminho? O que você fez?

Geovana Conti: Exatamente isso. Aí algumas empresas dizem não. Outras dizem sim. É simples assim. Não tem segredo. Não têm atalhos. Se eu não conheço, eu ligo e pergunto. Então eu vou dar um exemplo real. O grupo Marista, nós batemos lá no primeiro ano. Porta na cara. No segundo ano, eles olharam e falaram assim: é aquela menina lá, que tem um trabalho aqui perto. Não também. Não toparam. Mas aí já sabiam que era aquela menina. E aí eles começaram a estalquear a gente nas redes sociais. E assistiam os nossos vídeos. E ver os nossos eventos. E não tem como, uma hora você acaba conversando com um, com outro. E tem alguém que conhece alguém, que conhece alguém. Então a gente conseguiu com a Unimed Curitiba. Assim, desse jeito, por indicação. Então uns vieram por indicação. Outros batendo na porta. Quando a Unimed Curitiba fechou com a gente e a gente fez um trabalho de integração dos jovens aprendizes da comunidade com a Unimed, aquilo chancelou a nossa existência na comunidade. Ela sabe o que ela está falando. Ela conhece o pessoal da comunidade. Ela está fazendo um trabalho muito legal. Então a Unimed, em outras rodas, ajudou a levar o nosso nome. Então, uma coisa era bater na porta anonimamente. Outra coisa era através dos contatos. E a gente acabou descobrindo outros, que eram editais de aceleração. Porque aí as startups começaram a cair na moda. E a gente olhou. Será que o processo que a gente sistematizou pode ser uma startup? A gente começou a se inscrever para acelerações. Qual era o intuito? Se fazer conhecer. Porque como ninguém conhecia, a gente tinha que estar publicamente em alguns lugares. A gente precisava aparecer em alguns lugares. Então a gente se inscreveu para alguns editais. E eu fui contar a nossa história para um cara da igreja, que tinha uma agência de comunicação. E eu falei: Sérgio, a gente pode conversar? Eu sei que você não me conhece. Mas… aí ele disse: conheço sim. Eu conheço o seu marido e o trabalho que ele faz na comunidade. E o Sérgio abriu o coração e falou: que massa isso que você está fazendo. O nosso pró-bono, da NQM Comunicação vai ser colocar vocês na mídia. Em 2019, aquilo foi fantástico. A gente saiu até no Jornal Nacional. E aí a gente tinha endosso e chancela para falar com EBANKS. Aí a gente foi crescendo. Mas começou assim mesmo, batendo cabeça. Recebendo não.

Luciano Pires: E aí pinta um vírus chinês.

Geovana Conti: Pinta um vírus chinês.

Luciano Pires: Eu imagino que você vai me dar uma visão agora que a gente daqui, não tem. Porque nós temos uma discussão muito grande. Eu que moro aqui em Moema, num belíssimo apartamento. Sou classe média para alta. Estou aqui tranquilo, preocupado com a pandemia e tudo. Mas estou muito longe do lugar onde você morava. Você estava dentro da favela. Dentro da comunidade. Quando explode a pandemia, como é que isso bate lá com vocês? Porque eu imagino o seguinte: tem uma coisa que é o medo de ficar infectado e morrer. Que é o que nós da classe média alta temos. Aqui esse é o nosso medo. E tem o outro que fala o seguinte: eu não posso ir trabalhar. Foda-se o vírus. Eu não posso ir trabalhar. Eu não tenho dinheiro para comprar comida para almoçar amanhã. E isso infecta a comunidade como um todo. Quando é que essa coisa começa a aparecer? Quando é que cai a ficha para vocês que o bicho vai pegar? Como é que é? As pessoas começam a chegar lá e falar: escuta…

Geovana Conti: Você tem toda a razão. Eu acho que lá na comunidade o medo não era do vírus. Era da falta de dinheiro e da falta de emprego. Então é muito maior. Tipo: morrer de Covid era ok. Viver passando fome não. Então foi muito difícil. O presidente da Associação de Moradores fez uma campanha massiva para a galera usar máscara, porque o número de mortes era altíssimo. Covid mata. E aquilo foi muito complexo. Porque as pessoas começaram a morrer. Casos dramáticos. A gente tinha uma pessoa que ajudava a gente trazendo alunos para as nossas jornadas e tal. Estava grávida de oito meses. Pegou Covid. Antes de ser entubada o pessoal fez o parto. Salvou a menina. E ela morreu um dia depois de estar entubada. Aí você fica: que planeta é esse que a gente mora? De repente é muito perto. Aí você fala: como é que eu lido com essa informação? Com esse pai com esse monte de criança? Foi caótico. E a comunidade precisava trabalhar. Eu não sei se você percebeu. Mas eu parei de assistencialismo. Não tinha mais caridade. Não tem mais caridade na minha conversa.

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: A gente estava só fazendo a economia girar. E aí as pessoas que trabalhavam com limpeza de shopping, que trabalhavam vendendo pipoca no centro da cidade. Acabou tudo. E a galera começou a passar fome. Aí a gente parou tudo. E a gente rapidamente sentou em grupo e criou o vale quarentena. Porque a gente achava que era só uma quarentena. Onde as pessoas doavam dinheiro. A gente fracionava esse dinheiro em tíquetes que só poderiam ser consumidos nos mercadinhos das comunidades que a gente atendia. Que, apesar de morar em uma, a gente também atendia outras comunidades na cidade. E aí isso oxigenava o mercadinho.

Luciano Pires: Vocês criaram um dinheiro.

Geovana Conti: A gente criou um dinheiro.

Luciano Pires: Vocês criaram um dinheirinho ali.

Geovana Conti: Um dinheirinho ali.

Luciano Pires: Você distribuía conforme a necessidade?

Geovana Conti: Exatamente.

Luciano Pires: Porque aí mudou tudo. Você voltou a fazer assistencialismo.

Geovana Conti: Voltamos a fazer assistencialismo. A gente elegeu curadores para dizer para a gente: como é que está aí na ponta? Quem está precisando mais? Esses curadores eram ex-alunos da Youngers, gente com a qual a gente já se relacionava, empreendedores e tal. E aí eles mandavam por WhatsApp: Geovana, aqui a gente está precisando de 20 vales. A situação está muito difícil. E aí a gente mandava por WhatsApp. O cara gastava no mercadinho “x”. A gente fazia o PIX para o mercadinho, já no fim da conta. As pessoas doavam dinheiro e a gente fazia isso. Assim os mercadinhos não precisaram demitir 45 pessoas. Porque ninguém que era de fora da comunidade entra na comunidade para fazer compra no mercadinho da comunidade.

Luciano Pires: É só lá.

Geovana Conti: É só lá. E se não tem dinheiro lá, porque a galera perdeu o emprego. É uma bola de neve. Então a gente fez com que essa economia voltasse a circular de alguma forma. E aí quando a gente viu não era uma quarentena. Aí passou um ano.

Luciano Pires: Era a quarentena de 600 dias.

Geovana Conti: É. Foi bem complexo. Porque na sequência a gente falou: nós voltamos ao ponto zero. Voltamos para a caridade. A gente precisa de novo virar a nossa chavinha na nossa cabeça. A gente voltou para o assistencialismo porque precisava. É por isso que eu digo: há espaço para o assistencialismo. Se a pessoa está com fome, primeiro você alimenta. Depois você questiona. A pessoa está com frio. Primeiro você cobre. Depois você questiona. Há espaço. Mas ele não é a solução.

Luciano Pires: Ele não é sustentável.

Geovana Conti: Ele não é sustentável. Rapidamente, o que a gente vai fazer agora? E a equipe falou: vamos gravar a jornada. Tudo a gente fazia presencial. Vamos gravar. E aí a gente parou. Fez uma maratona de gravação. E começamos a lançar as turmas de jornada digital.

Luciano Pires: Gravação do quê? De um curso?

Geovana Conti: De um curso. A gente passou a fazer o curso que a gente fazia presencial para ensinar a estruturar um negócio, a gente começou a ensinar digitalmente. E a gente teve que fazer isso umas duas ou três vezes, porque a pessoa ia acessar só pelo celular. Não podia ter um aplicativo. Tinha que ser no Youtube. Tem que ser aonde ela já tem. A informação estava no WhatsApp, no Facebook. Não podia instalar mais nada ali. Então a gente começou a divulgar as coisas na internet. E ali eu achei que a gente ia morrer, financeiramente falando. Eu falei: quem vai me pagar para eu fazer? Porque as empresas que pagavam vinham para as minhas formaturas presencialmente. E não era eu que dizia que o negócio tinha dado certo. Eram 15, 20 alunos que estavam ali contando: antes de entrar aqui eu estava passando fome. Vim para cá e entendi que eu podia vender bolo. Posso contar uma história?

Luciano Pires: Claro.

Geovana Conti: A Giulia, uma das nossas alunas, com dois filhos que usam fraldas, bebês ainda. Assistindo as nossas aulas e falando assim: Geovana, eu preciso comprar fralda. Eu tenho 10 reais no meu bolso. Eu não sei aqui em São Paulo, mas lá em Curitiba em momento nenhum, 10 reais compra fralda. E ela disse: eu tive uma ideia. Eu vou fazer Danete caseiro. Que é um doce que a avó dela tinha ensinado ela a fazer. E ela pegou o dezão e queimou em insumos para fazer o Danete caseiro e vendeu em copinhos com um dedinho daquele doce de chocolate numa cestinha de vime que ela tinha na casa dela. Ela conseguiu fazer 50 copinhos com um dedinho de chocolate. E vendeu cada copinho por 1,50. Ela transformou o dezão dela…

Luciano Pires: Em 75 reais.

Geovana Conti: Numa tarde. Ela disse: 75 reais, eu compro fralda, pomada, lenço umedecido e sobra dezão para eu fazer tudo de novo amanhã. Eu falei: é disso que nós estamos falando. Então essas histórias de verdade, aí você fala: você vai dar um respiro para ela crescer com a coisa. Aí a irmã vê. Aí a prima vê. Aí vem para ajudar e faz também. Aí quando vê tem três, quatro, cinco que estão fazendo. Vamos controlar essa produção. Vamos ver o dinheiro que está entrando. Vamos aprender a comandar a coisa toda aqui. Vamos aprender a fazer marketing. Vamos aprender a divulgar para a vila saber. Que hora você sai para comprar? Que roupa que você veste? Vamos pôr uma touca branca? Vamos cuidar da sua cozinha? Aí você vem com as informações, em cima do que eles já estão fazendo. Então o nosso resultado era muito concreto. Porque ele era muito pragmático. E eu falei: como eu vou trazer pragmaticidade toda para o digital? Eu achei que não fosse dar certo. Mas foi aí que a gente se surpreendeu. E a gente descobriu que o nosso minúsculo canalzinho do Youtube com cinco mil pessoas, quatro mil pessoas era gente de tudo quanto é canto do Brasil que estava entendendo o que a gente estava falando. Porque a gente tinha desgurmetizado a coisa toda. E quando a gente lançou as turmas virtuais ao invés de 10, 15 alunos; a gente passou a ter 50, 60 alunos.

Luciano Pires: Que fazem gratuitamente?

Geovana Conti: E aí com esse argumento, eu fui nas empresas e falei: vamos continuar. A gente conseguiu chegar em 20 cidades organicamente. E as empresas continuaram a bancar. Então 2020, 2021, a Youngers cresceu 66%.

Luciano Pires: Que legal.

Geovana Conti: Eu quintupliquei o nosso faturamento. E quintupliquei o nosso impacto. Se em 2018 a gente tinha 30 negócios formados, em 2019 50 negócios formados. Em 2020 tinha 70 negócios formados. Este ano foram 186.

Luciano Pires: Que baita salto.

Geovana Conti: Se um ano tem 360 dias. É como se eu tivesse estruturando um negócio dia sim, dia não. Dia sim, dia não, tem um negócio estruturado, com plano de negócios, faturamento recorrente, formalização em processo e alguns, aptos ao microcrédito.

Luciano Pires: Se você pegar esses 185 a maioria é gente sozinha? São sócios, o que é?

Geovana Conti: Não. É gente sozinha.

Luciano Pires: Tudo família?

Geovana Conti: Tudo familiar.

Luciano Pires: Você pega 185 e multiplica por quatro, cinco, você já chega em mil pessoas.

Geovana Conti: Exato. Essa é a conta. Recorrente. Que tem ali uma esperança de continuar. Aí dá aquele suspiro. Como a gente faz desde 2018, então os nossos alunos mais antigos, o que a gente começa a ver? A casa com a pintura nova. A criança com roupinha nova.

Luciano Pires: Esse era o ponto que eu queria dizer para você. Quando você pega o pessoal na draga. Os caras estão na draga. É muito fácil você ver o progresso acontecendo ali.

Geovana Conti: Sim.

Luciano Pires: Quando você pega o pessoal na classe média, você tirar de um patamar que o cara está para cima é muito difícil você ver.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Você não enxerga.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Mas quando você pega a turma na draga, você vê diferença na roupa da criança.

Geovana Conti: Na cor das paredes. Na plantinha na porta.

Luciano Pires: E isso é uma injeção de autoestima em todo mundo.

Geovana Conti: Aí um que pintou. O outro pinta também. Então você vê outras cores pela vila. Você vê uma calçada aparecendo. Você vê uma florzinha aparecendo. Esses sete anos que a gente esteve lá, o nosso entorno ali, a gente fala: que massa. Os reflexos da geração de renda são reais. Mas sete anos é um médio prazo, longo prazo. Então é uma coisa que se constrói. É uma coisa que a gente vai fazendo.

Luciano Pires: Você consegue dizer – essa pergunta é meio sacana, mas ela é uma delícia – que a pandemia fez bem para vocês?

Geovana Conti: Eu entendo o que você quer dizer. E eu vou dizer que sim. Entendendo o que você está perguntando. No aspecto de poder difundir mais ainda a nossa metodologia e alcançar mais pessoas que precisavam desse empurrão. Sim. Neste momento foi muito importante. Se a pandemia não viesse, eu não teria digitalizado.

Luciano Pires: Eu não te fiz à toa a pergunta. Eu tenho feito um trabalho grande também com lives. E eu já perguntei isso para um monte de pessoas. E a resposta sempre é sim. Eu saí da pandemia melhor do que eu entrei.

Geovana Conti: É.

Luciano Pires: Se eu perguntar isso para um coitadinho que mora na favela e que está fodido lá é provável que ele vai dizer: não.

Geovana Conti: Não. Isso.

Luciano Pires: Eu estou ferrado.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Mas quando você pergunta para alguém que falou: espera um pouquinho. Eu vou entrar na onda desse movimento e vou surfar esse tsunami aqui. As pessoas vêm. Mas por que foi bem? Eu tive que me reinventar.

Geovana Conti: É. Eu tive que me reinventar rápido.

Luciano Pires: Então, se as coisas voltarem ao normal, eu vou conseguir fazer tudo aquilo que eu fazia. Mais tudo aquilo que eu reinventei e coloquei aqui.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: É aquilo que o pessoal fala: a necessidade é a mãe da invenção.

Geovana Conti: E a gente não volta mais. Eu acho que o ponto em que a gente chegou agora, ele é só para frente. Eu entendo que a crise econômica, social, política, tudo que o Brasil está passando agora, ele precisa de muita gente junto para resolver. Não é só a sociedade civil que vai resolver. Não é o 3º setor sozinho que vai resolver. O setor privado sozinho. Nem o governo sozinho que vai resolver.

Luciano Pires: Isso que você está falando é fundamental. É aquela história: estamos dentro de um navio, tem um iceberg ali. Nós vamos bater no iceberg. O que eu devo fazer? Ficar gritando e xingando o piloto, dizendo que tem que ir para lá e para cá. Espera um pouquinho. Vamos juntar todo mundo? Desvia daquela encrenca e depois dá um jeito na confusão aqui.

Geovana Conti: Depois.

Luciano Pires: E esse sentimento de conexão. O Brasil está todo quebrado. Está todo arrebentado.

Geovana Conti: Está todo arrebentado.

Luciano Pires: Eu não vou mais avaliar o mérito do teu trabalho pelo que você está fazendo. Eu vou perguntar em quem você votou. Eu vou se as suas ideias…

Geovana Conti: Está uma bosta isso.

Luciano Pires: É progressista. Eu vou falar: sai de perto. Eu não quero nem saber. Mas eu estou mostrando aqui. Tem gente. Olha aqui. Eu estou ajudando.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Não interessa a tua visão…

Geovana Conti: É isso mesmo.

Luciano Pires: De mundo não me interessa. Portanto, eu quero ficar longe de você. Isso é o rompimento dessa cola da sociedade. Ela não vai chegar longe com essa especificação…

Geovana Conti: Não vai. Não vai.

Luciano Pires: Ela está infectada por esse ódio político e tudo mais. E isso está meio complicado.

Geovana Conti: E o interessante é que as pessoas que problematizaram o Brasil por esse viés são as que estão fazendo menos. Tipo: eu estou lá no movimento. Certo?

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: Então, eu não vou entrar no mérito ou ficar discutindo nesse nível, que as pessoas que não estão fazendo, realizando, atuando estão discutindo. Então vamos fazer o seguinte: você fica discutindo aqui se é A, se é B. Eu estou muito ocupada mudando o Brasil. Entendeu? Se eu tenho uma galera que está precisando de mim, são centenas de famílias que estão precisando. E eu tenho um negócio aqui bacana. Então eu vou lá realizar enquanto vocês ficam discutindo aí. Porque eu não tenho tempo para isso. Eu olho para eles e falo: meu Deus. Não tem condição de vocês ficarem discutindo.

Luciano Pires: Você já ouviu falar em greenwashing?

Geovana Conti: Já ouvi falar.

Luciano Pires: O greenwashing é: a empresa precisa mostrar para a sociedade que ela tem uma preocupação com o meio ambiente e tudo mais. Então ela inventa umas coisinhas ali e pinta de verde. Continua hipócrita. Continua sacana e tudo mais. Mas deu uma pinturinha de verde para parecer para a sociedade que ela tem preocupações. E você tem contato com uma pancada de empresas. Eu usei o greenwashing só como um…

Geovana Conti: Um exemplo.

Luciano Pires: Um exemplo do que acontece. No teu caso, você vai trombar também com um monte de empresas. Quanto daquilo que você vê ali é genuíno? Deixa eu explicar melhor isso aqui, para não te botar até numa saia justa aqui. Empresas são constituídas por pessoas. Então se você tem a pessoa certa, no lugar certo, essa pessoa faz aquilo acontecer. Ela arrebenta. A pessoa certa, no lugar certo. Aí essa pessoa é demitida ou ela passa para outra área ou ela muda de função na empresa. E desfaz tudo que você estava fazendo. Então…

Geovana Conti: Aconteceu.

Luciano Pires: Então isso não é cultura da empresa?

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Isso é cultura do Zé.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Tirou o Zé, dançou tudo. Porque a empresa não tem essa cultura. Você deve ter trombado com isso de monte.

Geovana Conti: Sim. Com certeza. Hoje está na moda a gente falar do ESG, sigla em inglês Environmental Social and Governance. E as pessoas esquecem do G, que é justamente isso: governança. É da empresa. É o que é inegociável para a empresa. Então, se a empresa está falando que o S de social, que a gente vai cuidar das pessoas, significa que eu cuido dos meus funcionários. Eu cuido dos prestadores de serviços. E cuido do meu entorno. E todo mundo cuida. Todos os departamentos cuidam. Existem políticas públicas de proteger todos os níveis. Então é uma coisa de governança, na teoria. Então sim, têm empresas que estão pensando e estão tentando trazer para a sua governança, para a sua cultura, para o seu pensamento, implementar isso de maneira geral dentro das empresas. Mas você tem toda a razão quando você diz que é da pessoa. E a empresa é muito grande.  Vivemos isso. Vi isso. Vivo até hoje. E quanto mais eu tenho oportunidade de conversar com essas grandes empresas, mais a gente vai percebendo que é do Zé e não é da empresa. Porque o Zé, para onde ele vai, ele carrega gente.

Luciano Pires: Se ele mudar para outra empresa legal, ele vai chamar.

Geovana Conti: Ele leva gente. Fato. Já aconteceu também. Hoje Geovana, uma coisa minha, interna, que eu tenho, de maior desafio é o seguinte: depois de ver o que eu vi, de viver o que eu vivi, dos resultados que a gente colheu, eu me sinto feliz porque eu tenho uma operação que roda sem mim. Então as jornadas acontecem. O que falta para eu fazer é empregar dinheiro. Porque, às vezes, a boleira precisa de uma batedeira nova, precisa de um forno novo. É um capitalzinho. Nós estamos falando de microcrédito. Um carrinho de pipoca precisa ser trocado. É um microcrédito. Até 20 mil reais. É disso que eu estou falando, que essas pessoas precisam. E no ponto em que a gente entrega para esses microempreendedores, eles entendem de planejamento, ao ponto de saber quanto dinheiro está entrando, quanto dinheiro está saindo. E se eu pegasse esse dinheiro para trocar o meu carrinho, quanto eu ia faturar mais e em quanto tempo eu ia devolver. Então, calculando a carência e uma taxa de juros justa, esse empreendedor seria capaz de pegar esse dinheiro e fazer o crescimento para ele faturar sustentando a família. Porque senão demora demais. Sem dinheiro demora demais. Então eu estou com essa coisa na minha cabeça geovanística, de articular essas conversas com…

Luciano Pires: Alguma fintech ou alguém…

Geovana Conti: Fintechs, bancos, oscips creditícias. Sobre score de crédito, aval. Como que a gente vai fazer para pegar o dinheiro que existe e entregar isso para quem pode receber isso. Porque não é para entregar na mão da pessoa, que vai pegar esse dinheiro para pagar uma conta pessoal. É para o cara investir no próprio negócio, porque se o negócio crescer, ele fatura mais. Porque foi o que aconteceu comigo. Eu tinha uma dívida de 100 mil reais. Mas investi no meu negócio. Eu paguei a minha dívida. É a mesma coisa. E aí a gente começa essas conversas. A gente foi selecionado para uma aceleração da FEBRABAN, com o Banco Central.

Luciano Pires: Ótimo.

Geovana Conti: Das 20 startups que eles escolheram, só nós discutimos sobre microcrédito para microempreendedor. Todas as outras eram: educação financeira para crianças. Educação financeira para mães. Educação financeira para o pessoal da área de tecnologia. E isso fez com que eu conseguisse trocar mensagens no WhatsApp com essas pessoas. E o meu plano era sondar: vocês estariam interessados em viabilizar microcrédito para microempreendedores? Porque hoje não é viável, não tem como o microempreendedor chegar no banco. Porque ele tem o nome sujo. É ilusão você achar que você vai entregar microcrédito se você disser que o nome do cara não pode estar no SERASA. Eu falo: esse critério não pode valer para o nano empreendedor. A gente precisa considerar outras coisas. E hoje na nossa metodologia, eu termino com um evento chamado Tucunaré Tank.

Luciano Pires: Tucunaré Tank?

Geovana Conti: É um programa ao vivo, online, no nosso canal do Youtube. Aquele canalzinho que ninguém nunca viu.

Luciano Pires: Você trocou o shark por um tucunaré?

Geovana Conti: Troquei.

Luciano Pires: Certo.

Geovana Conti: E a gente trouxe amigos e parceiros brasileiros que moram no Brasil ou fora. E que, ou se aposentaram. Ou querem devolver de alguma forma para a sociedade. E não querem caridade. Eles querem desenvolver. E a gente fala com eles: nós vamos fazer uma seleção dos nossos alunos. E no Tucunaré Tank vão ter 10 pits. Pode escolher qualquer um, porque os 10 já passaram nos nossos critérios. São pessoas comprometidas. São pessoas que valem a pena. Você escolhe. Você ouve os 10 pits e você pode investir.

Luciano Pires: Isso é um sonho ou já aconteceu?

Geovana Conti: Isso já acontece. Você pode acessar o Youtube do Y na Web. E assistir qual Tucunaré tem o que você quiser.

Luciano Pires: Qual é o canal?

Geovana Conti: Y na Web.

Luciano Pires: Y na Web. Esse é o canal?

Geovana Conti: Esse é o canal.

Luciano Pires: E o Tucunaré Tank já…

Geovana Conti: Está rodando. Ele já acontece.

Luciano Pires: Já incentivou empresas?

Geovana Conti: Não. Se você assistir… não. Aí não são empresas. São pessoas físicas.

Luciano Pires: Indivíduos.

Geovana Conti: Isso. Exatamente.

Luciano Pires: Sim. Mas de qualquer forma, essa pessoa física chegou lá com uma startup, com um projeto qualquer que ela vai fazer acontecer. Não é isso?

Geovana Conti: Não. Aí os meus alunos – que não são startups – são alunos empreendedores da comunidade.

Luciano Pires: Mas ele vai com um empreendimento.

Geovana Conti: Ele vai com um empreendimento

Luciano Pires: Eu quero um carrinho de pipoca.

Geovana Conti: Isso mesmo.

Luciano Pires: É o modelo Shark Tank.

Geovana Conti: Igualzinho. E tem os sharks.

Luciano Pires: Os tucunarés.

Geovana Conti: Tem os tucunarés. E o tucunaré ele conversa. Porque aí tem o pit. E aí o tucunaré faz as perguntas que ele tem que fazer para entender se é para essa ou para aquela pessoa que ele vai investir. Para os tucunarés, nos bastidores, a gente tem todo um treinamento para explicar para eles o seguinte: você está fazendo uma doação. É um investimento a fundo perdido. Não tem condição de você entregar três mil reais para uma pessoa que está cagada. E se der alguma coisa errada você cobrar isso dela de volta. Se você não aceita isso como investimento a fundo perdido vai procurar outro lugar para você investir. Aqui a gente precisa aquecer. Eu estou entregando alguém que tem um plano de negócios, que é empreendedor. Mas a chance de ele errar existe. Ela é real. Eu não estou dizendo que ele vai. Mas eu estou dizendo que se você vier querendo retorno financeiro sobre o seu investimento, você veio ao lugar errado. Nós estamos aqui para aquecer a economia, para mudar o Brasil. É outra pegada. E ainda assim tem tucunarés.

Luciano Pires: Que legal.

Geovana Conti: Ainda assim tem a galera que chega lá e fala: não. Eu tenho grana para fazer isso. E eu quero injetar. Mesmo que eu perca todo o meu dinheiro, nunca se perde. Porque essas pessoas que a gente apresenta no tucunaré vão entrar num movimento empreendedor contínuo. Hoje eu estou vendendo roupa. Amanhã eu estou vendendo sapato. Depois está vendendo maquiagem. Depois está vendendo pipoca. Mas ela vai ficar produtiva para sempre. Então pode ser que você invista alguma coisa e a pessoa mudou.

Luciano Pires: É que você está proporcionando para ela um conhecimento.

Geovana Conti: Acompanhamento, mentoria. Tem tudo.

Luciano Pires: Que isso é o que vale mesmo. Não são os três mil reais que o cara vai dar.

Geovana Conti: Sim.

Luciano Pires: Essa é a sacada toda. E o conhecimento vale para: quebrei aqui, mas eu vou abrir outro negócio e vamos lá.

Geovana Conti: Porque sempre se aprende. Porque nós somos assim. Esse conhecimento tácito de você viver o negócio é muito importante. E para as pessoas vivenciarem isso, às vezes, elas precisam de dois mil reais.

Luciano Pires: Dois mil reais?

Geovana Conti: Dois mil reais.

Luciano Pires: Você fez uma conexão interessante com esse negócio do Shark Tank. Eu andei assistindo o Shark Tank. Legal. É legal o conceito. É legal de assistir. É muito bom. Mas é muito fácil você ver que o que está te prendendo ali não é o business do cara. Mas é o show.

Geovana Conti: É o show.

Luciano Pires: É o entretenimento. É o cara que chorou. É outro que falou. O business em si não é negócio lá. No teu caso, quando você leva essa garotada lá – eu estou falando garotada. Não é garotada – você leva lá essas pessoas, que vão lá para buscar dois mil reais.

Geovana Conti: Dois mil reais.

Luciano Pires: É tão ridículo.

Geovana Conti: É.

Luciano Pires: É tão pequeno. Como é o impacto disso? Quando é que você começou a fazer o Tucunaré Tank.

Geovana Conti: Desde as nossas primeiras turmas em 2018. A gente sempre teve na formatura. O que eu Geovana, doida da minha cabeça, comecei a fazer? Eu trabalhei numa grande empresa. Eu paguei carro no débito. Eu fui criada na classe A. Eu tenho meus contatinhos. Essa galera, quando acalmou o coração, porque viu que a gente fez essa virada e se estruturou falou assim: então agora me conta o que você está fazendo. Porque agora está dando certo. Eu falei: não vou só te contar. Quem vai te contar são os meus beneficiários. Vem com dinheiro na carteira. Mas vem. Mas traz um quinhentão no bolso para dar. E aí comecei a chamar essas pessoas para assistirem presencialmente. Então ele via. Aí a menina que vende sabão que ela fez na casa dela. Leva o sabão para lá e mostra o sabão. A galera pirava. Eles falavam: meu Deus. O que você precisa para aumentar a sua produção? Preciso fazer um curso de química não sei aonde, que custa 350 reais. E o cara sacava 350 reais. Tá. Toma. Quando a Giulia fez o pit de 10 reais dela, contando o negócio do Danete, levantou um cara na hora e falou: toma 100. Não faça uma fornada. Faz 10. Entendeu? Não fatura 75. Vai nos 750.

Luciano Pires: Olha que interessante o que você está falando. Outro dia aconteceu comigo. Entrando em contato por causa de um PodCast. Nós temos o WhatsApp do PodCast. De vez em quando entram umas mensagens muito estranhas de gente pedindo coisa. E aí vem aquela história: minha filha está doente. Entrou uma menina. Mandou para mim uma mensagem desse tamanho. Primeiro: chamou a minha atenção porque se está ouvindo o meu PodCast é diferenciada a pessoa. Porque o meu PodCast não é feito para entretenimento. Ele é chato. É papo de velho. A minha voz no PodCast é impostada. Eu toco música antiga. Então é chato. É muito chato o meu PodCast comparado com a palhaçada que tem por aí. Então, se alguém está ouvindo aquilo, já: opa, espera aí. E aí a menina manda um texto desse tamanho que dizia mais ou menos isso: estou fodida. Nessas letras. Estou fodida. Eu estou arrebentada. Luciano, eu queria que você me emprestasse 300 reais para eu poder comprar. Eu não lembro o que era. Mas era ameixa. Eu vou produzir “x” potinhos e vou vender os potinhos. Eu preciso para dar o pontapé inicial. Eu te mando foto. Eu mostro. Aí eu olhei aquilo.

Geovana Conti: É isso.

Luciano Pires: Eu olhei aquilo. É claro que eu dei o dinheiro. Mas antes, eu peguei a minha produtora e falei: sonda. Vê se é verdade isso. Ela sondou e falou: é verdade. Ela mandou as fotos. Eu estou vendo aqui. Então manda. Está aqui o dinheiro. Eu não quero nem saber se vai devolver ou não. E esse é o momento em que você para pra pensar e fala o seguinte: nós estamos tão impregnados das histórias do dono da empresa “x”, o dono da empresa “y”, aquele bilionário, que faz uma doação. Que a gente acha que essa coisa só acontece num nível muito alto. Eu não vou nem entrar. Porque é muita grana. Não. Espera um pouquinho. Eu posso mudar a vida de alguém com 300 reais. E quem sou eu? Eu. Esse Mané aqui.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Não é a instituição XPTO. É o Mané com 300 reais. Que é o que você está contando para mim aqui agora. Então, você já imaginou se a gente conseguisse espalhar pela sociedade essa coisa de que: você vai pegar esses 100, 200, 300 reais. E não vai fazer uma doação: toma dinheiro para comprar comida para você comer amanhã. Você vai pegar esse dinheiro e vai falar: toma uma grana para você abrir o teu negócio. Ampliar o teu negócio e fazer. Esse não é o dinheiro para consumir e pagar a tua dívida agora. É o dinheiro para você dar um lançamento nessa tua ideia. Você já pensou 10 caras pensando assim em cada município brasileiro? São 50 mil pessoas fazendo uma pequena doação para incentivar negócios. Mas qual é o problema? Por que não acontece? Porque eu não tenho confiança na pessoa que está pedindo. Eu não sei quem é. Eu não sei de onde veio. Quando pega uma entidade como a sua, opa, já passou por uma peneira. Está se expondo ali na hora. Tem mais gente olhando. Então é outro mundo. Muito legal essa ideia aí.

Geovana Conti: Eu penso nisso todo dia.   Eu falo: meu Deus, já pensou se a gente… porque hoje eu sou a pulga anônima. Eu sou aquela: quem? Hã? Oi? Então, eu não tenho esse alcance. Eu não tenho rede para isso. Mas o importante é saber que eu sinto que tem mais Geovanas por aí.

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: Que tem um monte de gente fazendo essa espécie de curadoria. O que aconteceu com a Youngers esse ano? Quando que esse PodCast vai ao ar?

Luciano Pires: Deve ir, talvez, o mês que vem.

Geovana Conti: Dezembro?

Luciano Pires: É.

Geovana Conti: Tá bom. Depois de toda essa confusão. Depois de fazer Tucunaré. Formatura. Fazer ao vivo. O que aconteceu com o Tucunaré versão online? Agora eu tenho brasileiro fora do Brasil que quer investir. Porque antes ele não podia vir. Mas agora ele vê tudo online. Então a gente começou a aumentar e tal. E a empresa começou a crescer. E a própria FEBRABAN e o Banco do Brasil perguntaram: você não quer escalar esse seu modelo, para a gente levar ele para tudo quanto é canto? Mas é uma conversa truncada com os bancos. Não é tão fácil. Não é tão simples. Eu hoje trabalho de domingo a domingo. Sete dias por semana.

Luciano Pires: Você tem que tomar cuidado para não glamourizar isso aí. De repente, alguém vai enxergar: é um baita canal para fazer barulho. Vai meter um puta de um glamour. Vai virar aquela store, coisa grandiosa. Vai entrar muita grana. Eu acho que a grande sacada sua é essa coisa ser tucunaré.

Geovana Conti: É tucunaré. E é simples. E a gente precisou inclusive, cobrar do tucunaré para manter a operação. E a gente conversar isso com o tucunaré, fala assim, eu vou te explicar: para o dinheiro ir para onde ele tem que ir eu preciso de um mentor de olho nesse empreendedor, nessa empreendedora. Porque a gente precisa acompanhar esse empreendedor. A gente precisa responder perguntas. A gente precisa fazer um acompanhamento. Isso custa. Eu não tenho esse cara… não pode ser um voluntário. Eu tenho mentores voluntários. Uma nuvem de mentores voluntários. Mas o mentor voluntário é na hora que ele pode. É do jeito que ele quer. Não é disso que eu estou falando. Para a gente garantir o investimento que está sendo feito eu preciso pôr uma taxa nesse negócio.

Luciano Pires: Um compromisso.

Geovana Conti: Porque senão, se eu não conseguir pagar a pessoa… tucunaré nenhum reclamou disso também. Porque a gente dá sempre a opção: se você quiser, eu te entrego o contato da pessoa. Você faz a gestão do que você está fazendo. Ou você pode contratar a nossa gestão. E aí você paga para a gente uma taxa.

Luciano Pires: O setor público entrou com você de alguma forma, em algum momento, de algum jeito? Você tentou? Ou quer distância?

Geovana Conti: A gente começou algumas conversas – até hoje, inclusive – e é muito difícil mesmo. É complexo, burocrático. Eu te contei a ideia do Tucunaré. Tu gostou.

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: Certo? Apesar de ela exigir uma série de coisinhas para um evento desse acontecer… pensa que eu estou fazendo curadoria de aluno. Eu estou fazendo contato com tucunaré, preparação de tucunaré. Preparação de tucunaré. Eu tenho infraestrutura tecnológica para juntar todo mundo. Sobe no palco. Desce do palco. Apresentação. Tem horário. Tem marketing. Então assim, apesar de eu ter um monte de coisa envolvida é uma coisa trabalhosa. Mas não é complexa. Ele é só trabalhoso.

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: Na hora que eu distribuo na minha equipe, cada um cuida de uma ponta. Rola um Tucunaré Tank. No setor público, no governo de maneira geral, as coisas são burocráticas. É o inverso. São coisas simples, mas…

Luciano Pires: Que ficam muito complexas.

Geovana Conti: Nossa… fica muito complexo. Eu falo: pô cara. Eu falei: a gente faz. Eu converso na ponta com as pessoas. Ela conversa na ponta com outra pessoa. E eu faço. Eu realizo. Eu não estou dizendo um negócio que eu nunca fiz. Eu faço. Mas é muito difícil. Demora. Eu, Geovana, fiz essas conversas e não deu em nada. Não é que não deu em nada. Fica todo mundo com tapinha.

Luciano Pires: Sim. Eu sei.

Geovana Conti: Nossa… o meu ombro chega a estar até doendo de tanta…

Luciano Pires: Nessa cadeirinha já sentaram uns três ou quatro, com uma história muito parecida com a sua.

Geovana Conti: Jesus. E o que aconteceu com a Geovana? Cansou. Eu estou exausta fisicamente, emocionalmente, socialmente, tudo. Eu cansei. Exausta. Porque o esforço que eu tenho que fazer para gerir essa coisa toda. Trazer esses patrocinadores que desejam impacto social. Porque eu estou vendendo impacto.

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: Não tem retorno sobre investimento. Não tem nada. Eu tenho impacto. É muito difícil. Muito complexo. Ao ponto de, esse ano então – já que vamos publicar isso no mês que vem – dia 04 de dezembro a gente anuncia o fim dessa história toda.

Luciano Pires: Que fim? Fim do quê?

Geovana Conti: O fim da Yougers. O CNPJ da Youngers. Com muita gratidão, com muito respeito, com muito tudo. Mas a gente encerra a nossa operação do jeito que a gente conhece.

Luciano Pires: Encerra para partir para outra coisa?

Geovana Conti: Sim. Nós recebemos uma proposta de venda de metodologia. Então, um grupo maior do que a gente, que cuida do mesmo público, conseguiu pagar para que a gente implementasse na plataforma deles toda a nossa metodologia. E a partir de março do ano que vem são eles que vão conduzir essa jornada. Tanto em versão gratuita, quanto em versões pagas, para os públicos que esse pessoal atende.

Luciano Pires: Eu já ia deixar o teu e-mail, o teu contato.

Geovana Conti: Não. É por isso que eu estou contando essa história.

Luciano Pires: Já brochei aqui agora. Então…

Geovana Conti: É por isso que eu estou te contando isso. É pesado.

Luciano Pires: Quem ficou animado e quiser participar tem que esperar então, para ver o que vem pela frente?

Geovana Conti: O que vem pela frente.

Luciano Pires: Você vai ser uma executiva desse…

Geovana Conti: Não. Não vou. Eu não tenho nada. Eu não tenho proposta nenhuma. Eu não tenho nada, nada, nada. As pessoas que estão ouvindo isso são as primeiras a ouvir. Hoje o mercado, nem sei se tem espaço para mim. Eu não estou nesse pacote. Eu não faço parte desse pacote. Apesar de ter contrato lá. Dinheiro, financeiramente é uma venda mesmo. Como eu tenho uma startup, eu vendi a minha startup. Então eu ganho com isso recorrentemente ainda por alguns anos. Mas eu não tenho para onde ir. Então eu vou ser a nova desempregada, depois de ter feito uma carreira no mundo corporativo. Depois ter feito uma carreira no mundo empreendedor. Eu me pego aqui assim. Quem me faria uma proposta? Ninguém. Porque as pessoas sabem da Youngers. E ninguém é doido de vim. Porque sabe que o meu coração se dividiria. Eu não faria essa divisão. Então primeiro, eu preciso encerrar a Youngers. Fechar. Entregar. E aí depois… eu brinquei falando assim: eu preciso de um ano sabático. Aí o pessoal: aham. 15 dias no máximo. Porque com o dedo na tomada que eu sou, de pura energia. E também, eu não tenho dinheiro para sempre. Não consegui ficar rica fazendo o que eu faço. Só dá para pagar minhas continhas mesmo. Eu vou ter que voltar aí. Ver se eu volto para o mercado. Se eu empreendo em alguma outra área. Eu preciso descobrir ainda o que vai acontecer com a Geovana, com tudo o que eu sou; com tudo o que eu fiz. O que eu faço com essa história toda?

Luciano Pires: Não cabe outra Youngers, focada de alguma outra forma? Pegar um nicho, por exemplo? Eu vou me dedicar a garotas de 15 a 18 anos de idade. Não cabe uma coisa assim? Eu estou chutando aqui agora.

Geovana Conti: Eu sinto que não…

Luciano Pires: Ou começar do zero não é uma possibilidade para você?

Geovana Conti: Não. Eu gostei da coisa. Eu sinto que esse modelo e o fato de eu não ser de São Paulo, não estar aqui, isso me mantém muito pequena para trazer sustentabilidade a qualquer projeto. Entende? E olha que Curitiba/São Paulo são 45 minutos de voo. E se eu dormir meia noite num ônibus lá, seis da manhã eu estou na rodoviária. Oito horas da manhã, eu estou atendendo reunião aqui. Mas parece que é um abismo entre a gente. E o dinheiro está aqui em São Paulo. Então é muito complexo você querer fazer uma coisa que precisa de investimento financeiro. Porque não tem como atender esses beneficiários carentes sem grana. E não é dos meus beneficiários. Então eu preciso de clientes que queiram pagar por isso. Este modelo comigo, fora de São Paulo, é muito custoso, pesado. E acabou com a minha saúde. Então eu falei: esse modelo – não importa o nicho, mulheres, adolescentes – não quero mais. Porque a Geovana não aguenta mais o modelo. O que a Geovana não consegue se livrar nunca mais na vida dela? A causa social. Eu não me vejo aceitando um emprego. Eu não me vejo trabalhando em um projeto que não seja para continuar na mesma toada. A minha primeira proposta na verdade… não vou dizer que não tem proposta nenhuma. Tem uma. Acabou nosso tempo?

Luciano Pires: Não, não.

Geovana Conti: A proposta que eu recebi foi da Aliança Empreendedora, aquela lá do início de todas as coisas.

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: Eles vieram para mim falando assim: Geovana, a gente está desde 2019 tentando montar um Hub de crédito, que nada mais é do que o seu Tucunaré Thank. Como é que você está fazendo para plugar o dinheiro dos tucunarés nos seus empreendedores? A gente quer plugar fintech, oscip creditícia, banco, nos nossos 120 mil empreendedores. Mas a gente não está conseguindo. E aí eu disse para a Lina, que é a presidente lá. Eu falo: Lina, eu acho que eu tenho alguma coisa para contribuir. Sinto que pode haver essa contribuição. E calha de ser exatamente o mesmo tema, na continuidade, na coisa toda.

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: E eu falei: vamos ver no que dá. Então agora a gente está escrevendo o projeto. Eu falei assim: se você quer o norte, eu vou dizer como que faz. Faz assim, assim, assim. Até dezembro eu entrego para eles a informação. O que vocês têm que fazer. E aí ela disse: volta depois para coordenar a implementação. Eu falei: posso pensar nessa possibilidade.

Luciano Pires: Você me brochou no final aqui agora. Mas vamos lá. Então primeira coisa aqui: quem quiser conhecer a Youngers hoje?

Geovana Conti: Y na Web. Em qualquer lugar, Instagram, Facebook, Youtube.

Luciano Pires: Quem quiser entrar em contato com você? Se alguém que está me ouvindo aqui agora falar: essa é a moça que eu queria para o meu negócio aqui. Como te acha?

Geovana Conti: Geovana Conti. Em qualquer lugar.

Luciano Pires: @geovanaconti?

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Você está no Instagram?

Geovana Conti: Estou no Instagram.

Luciano Pires: Está no Twitter?

Geovana Conti: Estou no Linkedin. Estou em todos os lugares.

Luciano Pires: @geovanaconti. Muito bom. Têm várias pessoas que já estiveram aqui comigo conversando sobre essas coisas de empreendedorismo social e tudo mais. Eu acho que o tem empreendimento escondido, acontecendo no Brasil, em tudo quanto é canto. Tem muita gente trabalhando com isso. E para mim isso é uma questão de tempo para esse tsunami começar a chegar aqui.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Porque é tanta gente. Têm tantos núcleos fazendo coisas acontecerem que uma hora essa coisa vai se conectar.

Geovana Conti: Vai.

Luciano Pires: E aí o barulho vem. E é legal, porque com internet, com tudo isso que aconteceu agora, você não tem mais fronteira.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Você pode trabalhar em Curitiba e ter um impacto social lá em Picos…

Geovana Conti: Lá no nordeste.

Luciano Pires: Lá no fim…

Geovana Conti: Uma das nossas turmas de jornada foi na tríplice fronteira Brasil/Peru/Colômbia, com quatro etnias indígenas diferentes.

Luciano Pires: Que legal.

Geovana Conti: Aquilo foi muito legal. Foi a partir de lá que nasceu a primeira Casa de Artesanato de Cunha em São Gabriel, lá em cima.

Luciano Pires: Que legal.

Geovana Conti: Então a gente ficou… Santo Antônio. São Gabriel é outro lugar. Lá em Santo Antônio, perto de Benjamin Constant. Então experiências bem legais. Mas eu, a Geovana, como pessoa, indivíduo é menor do que a Youngers como propósito, impacto e tudo.

Luciano Pires: Sim.

Geovana Conti: Eu morri. Eu acho que eu preciso de um tempinho para dar uma descansada. Mas eu tenho certeza que eu volto encabeçando alguma outra coisa. Pulga lá também, na minha casa, no meu canto, no meu lugarzinho lá. Mas chacoalhando a vida ali das pessoas que estão em volta. Porque depois que esse bichinho do propósito te pica. Acabou.

Luciano Pires: Não tem mais jeito.

Geovana Conti: Acabou.

Luciano Pires: Maravilha. Então, boa sorte a você.

Geovana Conti: Obrigada.

Luciano Pires: Boa sorte com esses contatos que você está vendo. Eu estou sabendo que você está conversando com gente de alto nível e tudo mais. Eu espero que dê muito certo aí.

Geovana Conti: Eu também espero.

Luciano Pires: E que novas Youngers apareçam.

Geovana Conti: Isso.

Luciano Pires: Essa coisa do microcrédito é fundamental. Quem sabe você monta uma cooperativa, inventa um negócio diferente lá. Porque fazer o dinheiro fluir para essa moçada é fundamental.

Geovana Conti: Claro.

Luciano Pires: Tem um nicho interessante aí. Que bom adorei tê-la aqui. Muito obrigado pela visita.

Geovana Conti: Um prazer.

Luciano Pires: Espero que esse programa aqui ajude a você receber muitos contatos legais aí. E fazer a mudança que o Brasil precisa.

Geovana Conti: Isso. Tamo junto.

Luciano Pires: Obrigado.

Luciano Pires: Muito bem. Termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa você encontra no lidercast.com.br.