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Luciano Pires -

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer. Hoje o convidado é a Giovanna Mel. Comunicadora e jornalista, que atua num dos maiores veículos de comunicação do Brasil. Giovanna tem se dedicado ao ensino da oratória. E a conversa vai de comunicação à política, passando pela visão conservadora e muito mais. Muito bem, mais um LíderCast. Como sempre contando como essa pessoa chegou até aqui. Esse caso aqui é antigo. Foram tentativas mais tentativas. Mas têm agendas que não batem. Hora é a dela. Hora é a minha. Eu a conheci… não lembro.

Giovanna Mel: Faz tempo hein Luciano.

Luciano Pires: Faz tempo.

Giovanna Mel: Faz muito tempo.

Luciano Pires: Foi antes do Sidney?

Giovanna Mel: Não. Foi com o Sidney. Em 2016, talvez? 2015, 2016.

Luciano Pires: Eu não sei quanto tempo faz. É que você é muito novinha. Essa perspectiva de tempo: faz tempo. Foi há três anos atrás. Para mim faz tempo foi há 30 anos. Mas eu a conheci porque eu gravei duas entrevistas com o marido dela, com o Sidney Oliveira que é um dos raros participantes duplos. Ele veio duas vezes ao LíderCast. Tem uma baita história para contar. Eu a conheci. Não sabia nem o que ela fazia. Depois eu fui entender o que ela fazia, com o tempo. E o trabalho dela na área de comunicação e tudo mais. E ela andou pegando firme recentemente com alguns temas que me são muito caros. Falar em público, essas coisas todas, oratória. Uma pegada liberal conservadora. Juntou o pacote todo. Eu falei: Gi vem falar comigo aqui então. Bem-vinda ao LíderCast.

Giovanna Mel: Muito obrigada. Um prazer.

Luciano Pires: Você sabe que a gente começa com aquelas três perguntas fundamentais. Mulher não precisa responder as três. Tem uma que você não precisa responder. Mas as outras, você tem que responder. E, por favor, não erre. Seu nome, a sua idade e o que você faz?

Giovanna Mel: Giovanna Mel. Eu sou formada em Jornalismo. Especialista em oratória e comunicação. Que é o que eu faço hoje. Eu ensino comunicação para as pessoas saberem se comunicar bem e também não serem manipuladas, que é um assunto que eu sei que vocês também gostam muito aqui no LíderCast. E eu falo sim a minha idade. Por que não? Se está na chuva, a gente tem que se molhar. Eu tenho 28 anos, completo 29 agora em janeiro.

Luciano Pires: 28 anos. Essa idade é obscena.

Giovanna Mel: Retorno de Saturno.

Luciano Pires: Para quem tem 65, 28 é obsceno. Entendeu? É obsceno.

Giovanna Mel: Você vai viver até os 100, Luciano. Olha que Sidney Oliveira está ali nos bastidores, ouvindo essa gravação.

Luciano Pires: Eu pretendo passar dos 100. Eu não sei em que condições. Mas eu vou passar dos 100. Eu vou passar sim. Vamos lá. Vamos conversar um pouquinho aqui sobre… 28 anos é anteontem. Você nasceu anteontem. Tudo começando.

Giovanna Mel: Eu não vi nem Fred Mercury cantar direito.

Luciano Pires: Não deu nem tempo de ver.

Giovanna Mel: Não deu nem tempo.

Luciano Pires: Você nasceu onde?

Giovanna Mel: Em São Paulo. Mas eu fui para Vitória, no Espírito Santo com dois, três aninhos. Nem lembro a data. E cresci lá. Eu voltei com 17 para São Paulo.

Luciano Pires: Tem irmãos?

Giovanna Mel: Tenho dois irmãos mais novos. E também outro irmão de criação, como se fosse um irmão. Então eu considero três. Os meus pais casaram de novo. Aí no meio do caminho surgiu o filho da minha madrasta. Que é como se fosse irmão. Então nós somos quatro.

Luciano Pires: O que seu pai e sua mãe faziam? Ou fazem?

Giovanna Mel: É uma história muito engraçada. Meus pais são formados em Moda. E eles se conheceram na faculdade, estudando Moda. A minha mãe, porque ela sempre quis seguir carreira artística. E o meu pai queria fazer uma faculdade para mudar a história dele. Ele vem de uma família muito, muito pobre. Ele vendia picolé com sete anos, na praia de Copacabana. Então ele acreditava que fazendo uma faculdade, ele iria crescer na vida. Só que quando ele entrou na faculdade de Engenharia, ele não tinha base de Matemática. E aí falaram para ele: Ricardo você desenha muito bem. E lá tem um monte de mulher. Então vai fazer a faculdade de moda, que você vai conhecer um monte de mulher. Você vai arrumar uma namorada. E aconteceu isso mesmo. Ele conheceu a minha mãe. Eles se casaram. A minha mãe, num determinado momento virou dona de casa, para cuidar de três filhos. Não era simples. E o meu pai – não sei por qual motivo – caiu em vendas e foi trabalhar vendendo automóvel. E é o que ele fez a vida inteira. Então eu conheci meu pai já quando eu nasci. Ele já era um grande vendedor de carros. Depois virou gerente de grandes marcas. E ele é um exímio vendedor. Chega em Vitória, no Espírito Santo, você fala Ricardo Giovani, todo mundo conhece.

Luciano Pires: Ele é o cara.

Giovanna Mel: Ele é o cara.

Luciano Pires: Como era seu apelido quando você era menininha, pequenininha? Gio?

Giovanna Mel: Eu tive vários apelidos. O meu irmão me chamava de Nana quando ele era bebezinho. Porque ele não conseguia falar Giovanna. O meu segundo nome, que todo mundo acha que é sobrenome. Mas não é. É nome mesmo. Eu sou registrada assim, só eu tenho esse nome Giovanna Mel. Muita gente sempre me chamou de Mel. Mas isso em Vitória. Aqui em São Paulo todo mundo chama de Gi, Gio. Porque o paulista tem essa mania de abreviar o início.

Luciano Pires: Gio. Então vamos usar Mel. O que a Mel queria ser quando crescesse, quando era pequenininha lá em Vitória?

Giovanna Mel: Artista famosa na Globo. Esse sempre foi o meu sonho, desde criança. Eu já nasci com ele. Eu queria muito. Muito mesmo.

Luciano Pires: O que você fez a respeito, para buscar esse sonho?

Giovanna Mel: Quando eu era criança, eu fiz o meu primeiro teste, das Chiquititas. Só que eu não fui aprovada. Eu não lembro direito da história. Teria que perguntar para a minha mãe. Eu não sei se eu não fui aprovada…

Luciano Pires: Naquele esquema da mãe pegar você, enfiar num avião ou num ônibus. Vim para São Paulo…

Giovanna Mel: Isso. É porque na verdade…

Luciano Pires: Ficar naquela fila gigantesca, com aquele monte de mãe?

Giovanna Mel: Isso. Exato. Eu morava em Vitória. Só que eu tenho parte da família em São Paulo. Tanto que eu nasci aqui. Então eu vinha muito para São Paulo. Vira e mexe eu estava em São Paulo. Então em algum momento – eu não lembro direito, porque eu era muito criança mesmo. Eu tinha uns cinco anos – em algum momento fiz o primeiro teste, das Chiquititas. E até hoje – tenho até que perguntar isso para a minha mãe – eu não sei se eu passei ou se eu fui reprovada. E a minha mãe falou que eu fui reprovada. Porque o meu pai não queria. O meu pai sempre foi contra eu estar na televisão. Mas eu sempre quis. Sempre. Para você ter uma ideia Luciano. Tem um vídeo da minha avó me pegando no colo, quando eu nasci, na maternidade, na Santa Joana, aqui em São Paulo. E a minha avó fala: acorda Gigi, acorda, acorda, você vai aparecer no Canal 4. Aí ela corrige: Canal 4, SBT. Ela corrige: Canal 4 não. Canal 5, na TV Globo. A minha avó fala isso para a câmera, 93. Eu acho que isso foi ficando na minha cabeça. Não sei. Quem acredita em espiritualidade vai falar que eu já vim com essa missão espiritual. Sei lá. Isso ficou na minha cabeça. E eu cresci acreditando que eu tinha que estar na televisão. Quando eu era criança, o que fazia sucesso? Chiquititas. Era a Fernanda Souza, a Milie lá na televisão. E eu queria isso. O meu sonho era conhecer a Fernanda Souza. O tempo passou. As coisas foram acontecendo. Eu tive uma vida bem complexa com os meus pais. Não foi nada fácil. Que a gente pode até contar alguns causos aí no meio do caminho. E eu vi que não dava para ser atriz, porque eu não tinha recurso financeiro. Eu não tinha como seguir essa carreira. A minha mãe precisaria abrir mão da vida dela ali naquele momento. Eu tinha dois irmãos muito pequenos. A minha irmã era muito doente. Então a vida foi acontecendo e eu falei: vou ter que escolher outra coisa para fazer. E aí eu comecei a pensar em outras coisas. Eu pensei em Medicina, Direito. Clássico. Que a escola já vai colocando a gente na forma. Você sabe como que é. Mas a vida deu uma volta e aí eu cheguei aonde eu cheguei.

Luciano Pires: Eu acompanhei um pouco essa questão toda dos pais levando os… aliás, tem uma indústria disso. Tem uma indústria que vive…

Giovanna Mel: Tem. Tem uma indústria. Com certeza.

Luciano Pires: Vive do sonho dos pais. Que nem sempre é a criança. Na maioria das vezes não é a criança. É a mãe ou o pai que acha que o filho tem que ir para a televisão. E vai atrás. E tem uma indústria toda. Os caras oferecem: eu vou exibir você. Vai ter um evento. Leva a criança lá. Ficam aquelas mães, esperando o momento que aparece em cena. Tem um teste. Paga pelo teste. É um negócio meio…

Giovanna Mel: E books e mais books…

Luciano Pires: É meio estranho…

Giovanna Mel: Gravações. Vídeos.

Luciano Pires: É uma coisa meio estranha isso aí. E de cada dois milhões que vão lá, dois aparecem na televisão, dão certo. Eu tenho uns amigos que a filha era assim. A filha – bonita de montão – estava em novelinhas e tudo mais. E tentou a carreira até os 20 e tantos anos de idade. Até que um dia ela falou: não dá. Aí foi fazer o negócio dela, que era ser advogada. Mas é uma vida bem complicada, especialmente para quem está fora do eixo Rio/São Paulo. Você estava em Vitória?

Giovanna Mel: Eu estava em Vitória, no Espírito Santo.

Luciano Pires: Teria que começar por lá. E aí é mais complicado ainda.

Giovanna Mel: Eu tenho uma prima que avançou um pouco mais nessa época. Porque era eu e essa minha outra prima. E a minha mãe – como era de São Paulo – a minha mãe sempre viveu no meio dos artistas. A minha mãe fez balé. Ela foi convidada para ser a primeira bailarina do Municipal. Só que a minha avó tolheu ali no meio do caminho. Falou: não, você não vai. Porque a minha avó era uma cabeça muito dos anos 40. Então ela achava que a minha mãe ia ser prostituta se ela virasse bailarina. A minha mãe tinha uma visão mais madura da situação. E ela sabia que não era fácil. E ela tinha muito medo também. Eu acho que por causa da minha avó, aquela coisa toda. Então a minha mãe também não deixou eu seguir tanto. Só que eu tinha uma prima que seguiu. Ela fez tudo isso que você falou. Ela fez book. Ela gravou vídeo. Os pais investiram muito. Os pais tinham muito mais dinheiro do que os meus pais. Engraçado. A vida deu tanta volta. Hoje ela faz uma coisa completamente diferente. E eu, de certa forma, estou nesse ambiente, na comunicação. Eu passei pela televisão. Eu trabalhei na Globo. Então é muito engraçado. Porque também esse caminho. Às vezes, você faz o caminho tradicional e você não chega lá. Agora, se você realmente quer. E eu vejo isso em várias pessoas. O Sidney, meu marido, que queria tanto ser escritor. E foi diretor de banco. Então se você realmente quer, não importa o caminho. Você acaba chegando lá, você consegue.

Luciano Pires: É. Tem que fixar o norte ali e seguir. Você pode até fazer um arco. A minha vida foi assim. Eu fiz um grande arco. Cheguei onde eu queria com 17 anos. Eu cheguei aos 52. Então tem que ter paciência e tudo mais.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: Mas aí você resolveu então que… você foi estudar o quê? Você foi fazer o quê?

Giovanna Mel: Com sete para oito anos, eu comecei a vender. Por causa do meu pai e da minha mãe. Eu tinha essa mania de vender. Eu queria vender. Eu queria me comunicar. Eu comecei a vender bijuteria de porta em porta e ganhar meu próprio dinheiro. Até porque a gente não tinha nenhuma condição.  E eu estava com essa ideia do sonho de ser atriz e estudar teatro. Eu fui vendendo. Fui trabalhando. Eu fui ganhando o meu dinheirinho. Em algum momento eu foquei nos estudos. Porque também eu era uma criança. Meus pais pegavam muito no meu pé para eu estudar. Mas eu não queria estudar. Eu queria mesmo era fazer teatro. Com 13 para 14 anos abriu um processo seletivo para fazer um curso de teatro em Vitória, no Espírito Santo, da escola FAFI que é uma escola estadual. E é uma escola muito famosa e muito boa lá no Espírito Santo. Claro que não chega aos pés de Macunaíma aqui em São Paulo. Não tem nem comparação. Mas para o Espírito Santo era uma escola muito boa. O meu pai não queria deixar de jeito nenhum. E ele ficava no meu pé. Eu perdi uns dois ou três processos seletivos. Abria a cada seis meses. Era um negócio superconcorrido. Quando eu fiz 15 anos, eu fugi de casa. Eu peguei uma bolsa. Deixei na escada de incêndio. E saí de madrugada. Troquei de roupa na escada de incêndio. Eu peguei a bolsa e saí fora. Eu fugi. Eu falei: eu vou fazer teatro, os meus pais apoiando ou não. Eu fui para a fila lá da FAFI. Fiquei lá no Centro da cidade. Quem conhece o Espírito Santo sabe. É uma rua bem comprida. Eu fiquei lá naquela fila com todo mundo, esperando o processo seletivo. Eu fiz o processo seletivo. E fui aprovada em 3º lugar. Eu falei: e agora? O que eu faço com essa bomba? Eu volto para casa e conto para o meu pai? Assumo a responsabilidade e vejo se dá certo? Ou eu vou viver a minha vida. Eu estava com a minha bolsinha lá. Eu falei: eu vou tentar. Eu vou conversar com o meu pai. Eu vou voltar para casa. Eu vou conversar com o meu pai. Eu estava sumida o dia inteiro. E aí vamos ver o que ele…

Luciano Pires: E eles te procurando?

Giovanna Mel: Me procurando. Desesperado. Desesperadíssimo. Eu fiz isso umas duas vezes já. Três vezes. Na minha adolescência. Mas sempre com o objetivo de focar naquilo que eu queria. Nunca fugi para ir para a balada. Nunca fugi para encher a cara. Eu sou capricorniana. Então eu sou chata, Luciano. Eu nunca fui aquela adolescente louca. Eu tinha dois irmãos mais novos, eu cuidava deles e tal. Então nunca foi aquela coisa rebelde. Sempre foi focada no meu objetivo. Eu queria trabalhar com comunicação. Eu queria estar na Globo. E eu sabia que se eu ficasse esperando fazer 18 anos. Esperando passar na faculdade. Eu não ia conseguir isso. Especialmente por causa dessa indústria. Porque eu via as pessoas crescendo na carreira. Eu falo: eu tenho que correr atrás. Porque eu estou ficando velha. Com 15 anos eu já me sentia velha. Porque eu sabia de toda essa indústria. Voltei para casa e falei pai, o seguinte: eu fui aprovada na FAFI em 3º lugar. E eu vou fazer teatro, você querendo ou não. Só que a gente vai ter que chegar num acordo. Ou a gente encontra um ponto aqui de equilíbrio e eu fico em casa e sigo a minha vida e vou estudar e faço teatro. Ou eu vou sair de casa. Ele falou: tá bom. Beleza. Faz teatro. Só duas coisas: não reprova. E não volta grávida. Ele falou isso para mim. Virou as costas e foi embora. Assim, meio rabugentão. Não aceitando a situação. Para mim, eu tinha ganhado o mundo. Finalmente o meu pai aceitou. E eu vou correr atrás de não reprovar na escola por que…

Luciano Pires: Sua mãe deu força?

Giovanna Mel: Nessa época os meus pais já eram separados. Os meus pais se separaram quando eu tinha 11 para 12 anos. Ali no meio do caminho eles se separaram. E a gente foi morar com o meu pai. A minha mãe foi morar em outro estado. Aconteceu uma confusão aí no meio do caminho. Por isso que eu tenho esse terceiro irmão, que é filho da minha madrasta. Nessa época meus pais já tinham casado pela segunda vez. E a minha madrasta tem um filho, que é o Guilherme. E ele morava comigo, com o meu pai, com o João e com a Luiza. Que são os meus irmãos mais novos. E no final das contas, eu sei que eu fiquei fazendo teatro na FAFI por mais de um ano. Eu me formei lá no Curso de Teatro Básico. Me formei no curso de Teatro e Dança, que era outra modalidade. E quando começou o profissional – que eram três anos – eu tive que tomar uma decisão. Porque eu estava no ensino médio, numa boa escola lá no Espírito Santo. Eu sempre estudei em escola pública, a vida inteira. Mas consegui uma bolsa no Ensino Médio, numa escola muito famosa lá, São Paulo, que só estuda filho de deputado, gente muito rica. E essa escola começou a me colocar nessa forma que eu comentei mais cedo: Direito ou Medicina? E meu pai queria muito que eu fizesse Direito. Porque ele falava que eu era muito boa de argumentação. Quando os meus irmãos aprontavam, eu defendia os meus irmãos. Era eu, meu pai e meus irmãos. Depois veio a minha madrasta. E ele me chamava de advogada do diabo. Porque ele falava que os meus irmãos aprontavam e eu estava lá defendendo. E que eles eram uns capetas e eu estava lá defendendo os meus irmãos. Então o meu pai enfiou na cabeça que eu tinha que fazer Direito. E eu olhei para a inscrição do vestibular e falei: e agora? O que eu faço da minha vida? Eu sou boa no teatro. Eu sou boa como atriz. Eu cheguei a ganhar prêmio no estado de São Paulo. A minha primeira apresentação séria foi no Teatro da USP, para 600 pessoas. E eu era a atriz principal. Eu falei: o que eu faço agora?  Eu faço isso ou eu pego essa bagagem que eu tive da escola e faço um vestibular e sigo uma carreira tradicional da faculdade? Porque a gente tem que lembrar que por mais que não faça muito tempo, em 2010, a gente não tinha o Instagram. A gente não tinha essa galera toda falando de empreendedorismo, crescer na vida e tal. Então eu tinha essa visão que se eu me formasse na faculdade, entrasse numa grande empresa, fosse CLT, eu teria uma estabilidade para o resto da vida. Que era o que o meu pai, a minha família falavam para mim. Eu tinha uma escolha: fazer uma faculdade, Direito ou Medicina, que era o foco. Que todo mundo ficava na minha cabeça. Ou fazer Teatro. E seguir para uma vida menos estruturada. Eu olhei para essas duas situações e falei: quer saber? Eu vou fazer Jornalismo. Aí eu mudei de ideia no meio do caminho, na hora de me inscrever ali no ENEM. Eu coloquei Jornalismo. Porque eu pensei assim: se eu quero entrar na Globo não importa se eu vou entrar como atriz ou como jornalista ou como qualquer outra coisa. Se eu entrar como jornalista, eu consigo trabalhar para pagar a minha faculdade. Morar em São Paulo. Quando acabar a faculdade de Jornalismo eu vou ter uns 21 anos, 22 anos no máximo. Aí eu faço Macunaíma. Eu faço um Wolf Maya. Então esse era o meu plano. Quando eu contei para o meu pai, ele surtou. Porque ele achava que eu tinha me inscrito para Direito. E eu coloquei Jornalismo. E eu passei em Jornalismo. E eu contei para o meu pai, Eu falei, pai é o seguinte… eu fui para São Paulo fazer o vestibular da USP. Só que quando eu estava lá no vestibular da USP – eu sabia que eu não ia passar na USP, porque tinha discursiva de química. Eu não estava preparada para aquela prova. Eu tinha sido treinada para o ENEM. Eu falei: eu não vou passar na USP – e quando eu estava lá no vestibular da USP uma moça me parou e perguntou se eu queria fazer faculdade numa faculdade “x”, que eu nunca tinha ouvido falar. E eu me inscrevi. Passei. Fechei redação. Consegui uma bolsa. Estou indo morar em São Paulo, daqui a alguns dias. O meu pai surtou. E eu fui. Peguei a minha bolsa. Fiz as minhas malas. Eu não tinha nem 18 anos ainda. Faltavam uns dois meses para completar 18 anos. Foi a segunda vez que eu saí de casa. Eu falei: pai, eu estou indo para São Paulo. Ele falou: mas você é doida. Como é que você vai morar? Como é que você vai sobreviver? Eu não tenho dinheiro para te sustentar lá. Eu falei: pai, eu não sei. Eu vou dar um jeito. Eu trabalhei um mês com…

Luciano Pires: Que ano era isso?

Giovanna Mel: 2010. Eu estava terminando o 3º ano, com 17 anos.

Luciano Pires: Então dá uma pausa aí. Chegou em São Paulo. A gente vai continuar. Eu vou voltar atrás lá, para fazer uma especulação. Que idade você tinha quando seu pai e sua mãe separaram?

Giovanna Mel: Eu falei 12 anos. Mas com 12 eu fui morar com os meus pais. Eu tinha oito para nove anos. Eu morei com a minha mãe um tempo. E com 11 para 12 anos eu fui morar com o meu pai e a minha madrasta.

Luciano Pires: Como é para uma menina de nove, 10 anos de idade essa sensação de que: minha mãe foi embora. A minha mãe…

Giovanna Mel: Luciano, eu não tenho muito essa memória. Eu não sei explicar. Eu tive que lidar com tantos problemas desde cedo, que eu não tenho essa coisa assim: nossa… a minha mãe me abandonou. Era assim, a vida estava acontecendo. E eu tinha dois irmãos para cuidar. Eu converso muito isso com as pessoas, quando eu conto. Todo mundo fala: você é tão bem resolvida. Eu falo: quando você não tem outra opção, você encara. Você lida com a situação. Eu tinha uma irmã de três, quatro anos, que não falava. E que não conseguia sair da fralda. Eu tinha que cuidar disso. Então realmente eu não ficava pensando muito se a minha mãe tinha ido embora ou não. Até porque eu tive uma estrutura ali de pessoas que foram me ajudando no meio do caminho. Em Vitória nós conhecemos uma família muito querida – que eu já considero minha família – eu amo tanto eles que eu chamo da avó e de avô e de tio. E eles nem são do meu sangue. Toda vez que eu falo: minha avó Marli. É essa família que acolheu a gente lá em Vitória. Então eu não tenho essa coisa muito nítida: a minha mãe foi embora. Foi. Foi embora.  A gente se via uma vez por ano. A cada seis meses. Mas também não se construiu uma relação sólida. Isso é fato. Eu não tenho uma relação…

Luciano Pires: Essa era a próxima pergunta que eu faria a você.

Giovanna Mel: Eu não tenho uma relação muito próxima. Tanto que essa família que me acolheu lá em Vitória, eu convivo muito mais com eles. Eles são muito mais a minha família. Porque se construiu um relacionamento. Do que com a minha mãe.

Luciano Pires: Você nunca sentou com a sua mãe? Senta aí. Vamos trocar uma ideia?

Giovanna Mel: Ela não concebe isso. A minha mãe é uma pessoa muito avoada. Ela é muito sonhadora. Artista. Então ela não concebe. Ela não entende o processo. Tanto que ela conversa comigo, como se eu fosse criança ainda. Então não dá para exigir de alguém uma coisa que a pessoa não tem. Então é muito tranquilo nesse sentido, porque eu acho que eu já resolvi isso. Essa é a minha mãe. Ela é assim. Ela fez as escolhas dela. Ela seguiu a vida dela. E eu segui a minha.

Luciano Pires: Os teus irmãos têm a mesma cabeça?

Giovanna Mel: A minha irmã não. A minha irmã sentiu muito mais do que eu. Isso eu percebo muito forte. Porque a minha irmã – quando os meus pais se separaram – ela tinha uns dois, três anos de idade. Então ela não sabia o que estava acontecendo. E aí num determinado momento, ela teve como referência o meu avô e a minha avó. Depois de um tempo nós fomos morar com o meu pai e com a minha madrasta. Então ela já não sabia mais se a referência dela era a minha mãe, era o meu avô, era a minha avó, o meu pai, a minha madrasta. Ficou uma confusão na cabeça dela. Por isso que ela não falava. A Luiza ficou muda. Muda mesmo. Por uns dois anos. Eu era porta-voz dela. Porque ela não abria a boca para falar nada. Ela apontava as coisas que ela queria. E eu tinha que falar por ela. Depois de um tempo, ela fez terapia. Tinha uma psicóloga lá na escola que cuidava dela. A minha madrasta acolheu muito. Então a minha madrasta fez esse papel de cuidar da minha irmã. Proteger a minha irmã. E aí ela foi se soltando. Só que hoje a gente vê a consequência disso tudo. Porque a minha irmã até hoje sente. Até hoje ela sofre com algumas coisas. E não é à toa, que ela acabou caindo em movimento social. E hoje ela está nos movimentos sociais. Hoje eu vejo nitidamente que o fato de ela não ter tido uma referência, como eu tive… porque por mais que os meus pais tivessem se separado, eu tive os meus pais até os meus oito anos. E eu tinha a minha avó. E a minha avó era muito católica. A religião ali fez a diferença na minha criação. Então, por mais que hoje eu não tenha uma religião, eu tenho valores…

Luciano Pires: Os valores estão lá.

Giovanna Mel: Valores muito fortes. Tanto que no meio do caminho, quando eu comecei a conhecer o movimento feminista. Eu conheci por causa da minha irmã. A minha irmã caiu tão forte no movimento feminista que eu falei: eu vou descobrir o que é isso. Eu nunca ouvi falar nisso. Eu vou descobrir o que é para eu me aproximar da minha irmã. Porque a minha irmã precisa de alguém. E se esse é o movimento que ela está deixa eu conhecer. Inocente. Eu falei: deixa eu conhecer para ver se isso é legal e me conectar com a minha irmã. Quando eu comecei a conhecer o feminismo, eu até repetia coisas do feminismo. Teve uma época que eu fiquei achando que o feminismo era um caminho. Até porque imagina: eu saí de casa com 17 anos. Vim para São Paulo. Eu apanhei muito na cabeça. Eu levei muita porrada na cabeça. Então eu achava mesmo que o feminismo era uma forma de me proteger. E que as mulheres eram oprimidas. E que o caminho era o feminismo. Ia me salvar e salvar as mulheres. Só que isso num primeiro momento, na superfície. Quando você começa a aprofundar. E eu via que a minha irmã não estava bem. Eu via que a minha irmã estava infeliz. Porque um ser humano que xinga o presidente. E fala que é contra o presidente por causa da liberação das armas. Só que chega em casa no dia seguinte com uma tatuagem do ombro até o cotovelo. Eu não lembro agora se é um coração ou uma flor. Eu acho que é uma flor que ela tem. É uma flor. E dentro dessa flor está fincada uma espada gigantesca. Então você imagina a tatuagem. É uma flor com uma espada fincada no meio. Só que no dia anterior ela estava xingando o presidente porque ele é a favor da liberação das armas. Eu falei para ela: você não está bem. Esse ser humano, esse espírito não está bem. Concorda? Porque alguma coisa não bate. Como é que você é contra a liberação das armas. Mas você tatua no seu braço inteiro esse símbolo de uma arma branca cortando uma flor no meio.

Luciano Pires: É a revolta.

Giovanna Mel: É a revolta. Então hoje eu vejo que eu não sei se eu fui forte. Eu não sei se foi Deus. Eu não sei se foi a minha avó. Eu não sei se foi a religião. Eu não sei o que fez a Giovanna… ou não ter opção. Porque eu fui muito mais cobrada que os meus irmãos. Eu era a mais velha. Então eu assumi a responsabilidade por eles. Eu não sei o que foi que me forjou de fato.

Luciano Pires: Eu sei.

Giovanna Mel: Você sabe?

Luciano Pires: Chama boleto.

Giovanna Mel: É verdade. Eu sempre tive boleto para pagar.

Luciano Pires: Chama boleto. Boleto é um remédio fantástico para isso tudo aí.

Giovanna Mel: Eu nem me lembro qual foi o primeiro.

Luciano Pires: Deve ter sido em São Paulo…

Giovanna Mel: Mas foi há muito tempo…

Luciano Pires: Porque você chega aqui em São Paulo e…

Giovanna Mel: Mas antes eu já fazia o meu dinheiro. Com nove anos o meu pai me deu 100 reais. Foi comigo na 25 de Março. Comprou um monte de bijuteria. E me botou para fazer bijuteria. Porque eu gostava. Só que você acha que eu não ia vender? Capricorniana? Fui de porta em porta vendendo. Já fazendo o meu dinheiro ali. E teve situações em que a minha mãe não tinha dinheiro e eu dava dinheiro para ela. Então eu nem lembro quando foi a primeira vez que eu falei: comprei alguma coisa minha. Porque eu estou nessa desde sempre. Então eu não lembro o marco. Alguém fala assim: quando virou a chave? Quando que você amadureceu? Eu falo: eu não sei. Eu acho que desde sempre.

Luciano Pires: Você chega em São Paulo de olho na Globo?

Giovanna Mel: Sim.

Luciano Pires: Tua meta era a Globo?

Giovanna Mel: Desde pequena. Quando eu vinha passar férias aqui, eu tinha 12, 13 anos. Eu passava ali na Marginal. Olhava para aquela torre da Globo, colorida. E eu pensava. Eu falava: tem uma cadeira ali me esperando. E eu mentalizava a cadeira. Eu falava: tem uma cadeira ali me esperando. Um dia eu vou trabalhar. Eu não sei como. Eu não sei quando. Mas um dia eu vou trabalhar ali.

Luciano Pires: Você foi fazer onde aqui, na Cásper?

Giovanna Mel: Na Anhembi-Morumbi. Eu tinha vontade de fazer Cásper. Tem uma história boa com isso também. Eu tinha vontade de fazer Cásper. Só que meu pai não queria que eu fizesse Jornalismo e não queria que eu viesse para São Paulo, lembra?

Luciano Pires: Sim.

Giovanna Mel: Então, o que ele fez? Ele me matriculou na USP. E ele achava que ele estava me inscrevendo para Direito. Só que eu me inscrevi para Jornalismo sem ele saber. E eu vim fazer a prova. Uma semana antes foi a Cásper. Eu pedi. Eu falei: pai, por favor, deixa eu ir uma semana antes fazer o vestibular da Cásper. Eu juntei o dinheiro. Eu tinha o dinheiro para pagar a Cásper. E a Cásper era – eu me lembro até hoje a data – 21 de novembro de 2010. Enquanto que a USP era 28 de novembro de 2010, no domingo seguinte. O meu pai comprou a passagem de avião para o dia 26 Luciano. Ele não queria que eu fizesse o vestibular de jeito nenhum. Então eu ia tentar a Cásper. Eu queria muito a Cásper. Só que meu pai não deixou eu vir para São Paulo. Foi aí que eu estava no prédio. Alguém parou na porta e falou: você quer se inscrever para o vestibular dessa faculdade aqui? Tem Jornalismo e tem Teatro. Eu olhei, eu falei: eu não sei nem onde eu estou. Tá bom. Me inscrevi. Fiz o vestibular. Passei na Anhembi-Morumbi. Tinha acabado de conhecer a faculdade. Eu não sabia se era boa, se era ruim. O que era? Eu não sabia nada da faculdade. Eu sei que na hora eu fiz o vestibular ali, no dia seguinte. Eu me inscrevi. Fui no dia seguinte fazer o vestibular. Fiz de manhã cedinho, no primeiro horário, seis da manhã. O meu voo saía umas 10. Eu voltei para Vitória. Três dias depois eu tinha sido aprovada com bolsa. Eu falei para o meu pai: estou indo morar em São Paulo.

Luciano Pires: Fala uma coisa aqui agora. Deixa eu entender como foi esse foco na Globo. Você foi estudar Jornalismo. Quando você começou as aulas de Jornalismo você viu que era aquilo? Você curtiu?

Giovanna Mel: Nem um pouco.

Luciano Pires: Nada?

Giovanna Mel: Nem um pouco.

Luciano Pires: Estava longe do teatro?

Giovanna Mel: Nem um pouco. Eu gostava muito das aulas de literatura. Porque envolvia teatro. Então a gente lia algumas peças de teatro. E eu gostava muito das aulas de telejornalismo. Porque eu já cheguei na faculdade indo para o estúdio. Eu tive a sorte – ou não, ou foi Deus – de cair numa faculdade que tinha um estúdio de TV muito bom. Eu não sei se você conhece lá? Se você for lá você vai ficar doido.

Luciano Pires: Eu sou da pré-história disso tudo. Eu fiz Comunicação Visual no Mackenzie numa época que não existia. O estúdio de televisão do Mackenzie estava encaixotado no subsolo. E a gente eu acho que desencaixotou a primeira camerazinha lá. Eu estou falando de 75, 76. Então eu nem consegui pegar o começo. Mas escapou da minha mão o estágio na Globo. Eu optei. O pessoal me ligou. Eu ganhei o estágio na Globo. E, ao mesmo tempo, a oportunidade de fazer o Projeto Rondon, que ia ser na Bahia.

Giovanna Mel: Eu não sabia disso.

Luciano Pires: 30 dias em Irecê, na Bahia. Sabe o que eu fiz? Fui para a Bahia.

Giovanna Mel: Foi para a Bahia.

Luciano Pires: Eu liguei para uma amiga minha e falei: estou com um estágio na Globo. Quer? Pega. Ela foi. Eu fui para a Bahia. Fui fazer Irecê. E não fiz Globo.

Giovanna Mel: Escolhas. Faz parte.

Luciano Pires: E não me arrependo não.

Giovanna Mel: Claro.

Luciano Pires: É tudo: e se? Eu não sei o que teria acontecido . Mas eu acho que a troca foi muito legal aí. A experiência foi fantástica lá. Mas aí você entra na faculdade. Eu quero saber como você começa a pegar. Puxar o fio da Globo. Como é o negócio?

Giovanna Mel: Foi assim: eu entrei na faculdade e já entrei gravando vídeo. Do jeito que eu sou, eu falava assim: eu estou aqui para gastar tudo que eu tenho para gastar. Eu não estou aqui de brincadeira. Então eu montei um grupo na faculdade, de amigos, que não queriam estar na frente das câmeras. Então todos os trabalhos da faculdade, sem exceção, eu era a repórter, a apresentadora. Ou a diretora, quando era um documentário, por exemplo, que eu não aparecia. Eu sempre estava na frente. E na faculdade, eu levava muita bronca do meu reitor e dos meus professores. Porque eles queriam que eu testasse outros projetos. Eles falavam assim: Giovanna, você está muito focada em televisão. E se você não passar na Globo? E se você não entrar? Eles ficavam muito preocupados. Porque eu deixava claro para todo mundo o que eu estava fazendo ali. Eu falava: eu vim fazer faculdade de Jornalismo, porque eu vou trabalhar na Globo. E os meus professores ficavam muito, muito, muito preocupados. Porque eu era muito dedicada. Então eu era aquela CDF capricorniana. Eu sentava na primeira cadeira. A primeira cadeira que eu sentei, no primeiro dia de aula foi a cadeira que eu sentei todos os dias, até o último dia. E eu tirava boas notas. Eu ganhei prêmio. Eu ganhei bolsa para congresso ABRAJI que era de jornalismo investigativo. Então eu espremi a faculdade para tirar todo o suco que tinha ali dentro, até a última gota. E quando chegou no 3º ano, 7º semestre, eu já tinha feito de um tudo naquela faculdade, que envolvia audiovisual. Revista, jornal, sabe o que eu fazia? Eu tinha um grupo de pessoas que trabalhava comigo – que estava fechado comigo do começo até o fim – eu botava eles para fazer aquilo. E eu ficava com o audiovisual. E a gente trocava os nomes nos trabalhos. Porque eu não queria perder tempo com revista, jornal, com nada. Rádio eu fiz muito também. Eu gravei vários programas de rádio. Eu queria tudo que fosse audiovisual. Quando chegou num determinado momento lá da faculdade, fazia dois anos que eu estava trabalhando numa assessoria de imprensa. E essa assessoria de imprensa era da Patrícia Limeira, que é uma grande assessora de imprensa, que trabalha com médicos, na área da saúde. Ela é bem conhecida. E o marido dela era editor chefe do Jornal Hoje. Só que olha que engraçado. Nesses dois anos de assessoria de imprensa, eu trabalhava com a Patrícia como estagiária na assessoria. Eu fui funcionária 01. Ajudei ela a montar uma equipe. Ela contratou mais cinco funcionários. Nós crescemos juntos. Ela alugou um escritório, montou um escritório. E ela queria que eu fosse sócia dela. Eu tinha 20 anos. Eles tinham planos de voltar para o Rio. O Paulo estava para se aposentar na Globo, 30 anos de Globo. E eles queriam que eu fosse sócia da empresa. E eu falei: não vai rolar. Porque eu quero entrar na Globo. Uma proposta com muito dinheiro no meu colo. E eu falei: não vai rolar. Porque eu tinha esse foco e nada me dispersava disso. Num determinado momento, eu conheci quem? O senhor Sidney Oliveira, meu atual marido. Lindo, maravilhoso, que eu amo e que está aqui nos ouvindo, ali dos bastidores. Eu conheci o Sidney. Eu fui entrevistar o Sidney para um documentário da faculdade – porque eu só fazia isso, gravava vídeo pra caramba – para falar de geração Y, jovens, gerações e tudo mais. E quando eu cheguei lá – depois, no final da entrevista, ele viu eu com esse meu jeito de: pega, faz, acontece; dirige; fala com um, fala com outro – ele falou: você não quer vir trabalhar aqui no escritório? Eu falei: não sei. Porque eu quero entrar na Globo. Eu falava isso para todo mundo: Porque eu quero entrar na Globo. Eu quero entrar na Globo. Ele falou: tá bom. Sai lá desse escritório que você está. Porque eu já estava lá há dois anos. Eu trabalhava muito. E era um trabalho muito complexo. Porque eu acabei virando babá dos filhos da Patrícia e do Paulo nos finais de semana, para completar renda. Então virou um relacionamento simbiótico. Eu ia dormir, às vezes, quarta-feira à noite, na casa da Patrícia, trabalhando até tarde. E as crianças em cima de mim. Eu, deitada na cama. Porque já tinha misturado as relações. Aí o Sidney falou: você precisa focar um pouco em você. Você já trabalhou dois anos lá. Você já aprendeu tudo que você tinha para aprender. E agora seria muito bom se você conseguisse focar na sua carreira e crescer. Falta um ano para você se formar. Por que você não vem trabalhar aqui no escritório? Você ajuda um pouco as meninas. Eu preciso de alguém com energia para impulsionar o escritório aqui. E se você fizer o processo seletivo da Globo, eu te ajudo. Como nada é por acaso, aconteceu um negócio muito louco, Luciano. Eu conheci o Sidney em agosto, gravando esse documentário. Ele quis fazer mentoria minha, para validar o processo dele. Para validar o método dele, de um livro que ele estava escrevendo. Eu topei. Eu falei: vou fazer a mentoria. Eu quero focar em crescer na carreira. Eu falei: vou fazer a mentoria. E um tempo depois – semanas depois, ali – quando ele me chamou para fazer parte da equipe, eu topei. Dois dias depois, eu descobri que estava aberto o processo seletivo de estágio da Globo. Tinha acabado de abrir. Uma amiga me mandou. Falou: Gi, abriu o processo de estágio seletivo da Globo. Eu falei: e agora? Eu me inscrevo ou não me inscrevo? Aí você deve ficar pensando: mas como assim, você teve dúvida ainda? Tive. Sabe por que eu tive dúvida? Porque eu ganhava muito bem. Eu tinha montado uma equipe com cinco pessoas na outra empresa. Eu tinha acabado de receber uma proposta para ser sócia. O Sidney me chamando para trabalhar com ele. Eu não sabia se eu ia trabalhar com ele, se eu ia continuar onde eu estava. O que eu ia fazer? Todo esse cenário. E eu assim: e se eu não passar? Porque eu tinha esse medo. O problema não era trabalhar fazendo outra coisa. Eu sabia fazer outra coisa. Eu já estava começando a ganhar bem com 20, 21 anos. Só que eu não ia saber lidar com o não. Eu não ia saber lidar com a frustração de ser reprovada. Porque era uma coisa que eu queria a minha vida inteira. Quase não me inscrevi. Quase perdi o processo seletivo. Sem brincadeira. Era a última semana do processo seletivo. Uma amiga me mandou mensagem: Giovanna você já se inscreveu? Porque todo mundo sabia que eu queria entrar na Globo. Então, todos os meus colegas de trabalho. Eu trabalhei em assessoria de imprensa. Jornalistas da Record me ligavam falando: Giovanna, você já se inscreveu?

Luciano Pires: Olha o insight importante aqui, que é esse que eu falo para todo mundo: se você tem um sonho na vida, conte para as pessoas. Tem muita gente que diz o seguinte: esconde. Não fala para ninguém. Não. Conte: eu quero estar em tal lugar. E conte para todo mundo que você puder. Isso você cria uma rede de gente pensando em você.

Giovanna Mel: Isso.

Luciano Pires: Se essa tua amiga não está conectada e não sabia disso, ela não tem mandava o aviso.

Giovanna Mel: Exatamente.

Luciano Pires: E assim vai.

Giovanna Mel: Todo mundo me avisou. Foi muito engraçado. Jornalistas da Record me avisaram: Giovanna, o processo seletivo da Globo está aberto.

Luciano Pires: Chegou a tua hora.

Giovanna Mel: Chegou a tua hora. Você já se inscreveu? Eu sei que eu fiquei postergando me inscrever. Eu não queria me inscrever. No domingo, às 11 da noite, essa amiga que tinha mandado primeiro mandou de novo: e aí, você já se inscreveu? Está fechando. Eu falei: eu não me inscrevi. Taís é o nome dela. Eu falei: Taís, eu não vou fazer. Ela falou: você está louca? Se inscreve agora, senão, eu vou te inscrever. Beleza. Me inscrevi faltando alguns minutos para fechar à meia noite. É muito louco falar isso. Porque é autossabotagem total. O nosso cérebro fode com a gente, às vezes. Eu me inscrevi quase meia noite. Morrendo de medo de ter perdido. Mandei uma mensagem. Era pelo vagas.com. Mandei uma mensagem no Facebook do vagas.com: por favor, confirma se eu estou inscrita. Porque eu fiz um pouco antes da meia noite. Eu acho que não foi. Aí me confirmaram. Eu estava inscrita mesmo. E começou o processo seletivo. Foram cinco etapas, durante três meses de processo seletivo. 18.226 candidatos…

Luciano Pires: Vixe…

Giovanna Mel: Para 11 vagas. Eu não sabia quantas vagas tinham. Mas eu fui no processo seletivo assim mesmo. Foi bem puxado. Graças a Deus, eu tive esse homem maravilhoso, que me ajudou: o Sidney. Ele me ajudou em todo o processo seletivo. Ele me orientou. Ele foi meu mentor. Essa é a verdade. Antes de ser o amor da minha vida, ele foi meu mentor. Então ele me orientou falando: Gi, aqui você faz assim, aqui você faz assado. E agora é com você. Que tem uma parte que é muito você mesmo. Não tem técnica de comunicação, de RH, de carreira que resolve. Chega uma hora que é você com você mesmo ali no processo seletivo. E eu fui aprovada. Até hoje eu não sei como. Porque uma das exigências era inglês fluente. E eu não falava inglês fluente, como ainda não falo, até hoje. Eu sei alguma coisa de inglês. Sei ler e escrever muito melhor do que falar. Só que eu passei. Porque eu acredito que eu mostrei alguma coisa ali, essa minha garra…

Luciano Pires: Tem a questão do vídeo. O pessoal olha. Vê a luz. Deve falar: pô…

Giovanna Mel: Alguma coisa que eu mostrei ali, que foi diferente dos demais. É até engraçado Luciano. Todos os jovens que se apresentaram… você falou do vídeo agora. Todo mundo que foi se apresentar – tinha um minuto, que você tinha que contar a sua história lá no processo seletivo – todo mundo fez vídeo. Todo mundo fez Power Point. Teve uma menina que gravou a tela do Facebook e contou a história dela com a timeline do Facebook. Foi tudo muito criativo e tecnológico. Eu fui a única que não usei nenhum recurso tecnológico quando eu fui me apresentar. Sabe o que eu fiz? Você já viu aquele filme, De Repente 30? É um filme da minha geração, bobinho, adolescente.

Luciano Pires: Eu acho que não.

Giovanna Mel: É uma menina que é editora de uma revista. Ela é jornalista. Mora em Nova Iorque. E ela quer reformular a revista. Então ela faz uma apresentação, uma oratória – já caiu na oratória – ela faz uma apresentação usando um quadro, fotos e um monte de objetos. E como eu tinha que me apresentar, qual foi a orientação do RH da Globo para os jovens se apresentarem? Fazer um storytelling contando: quando foi que você deixou de acreditar em Papai Noel? Quando foi que você descobriu que as princesas não eram as princesas da Disney? Que as princesas não existiam? Quando foi que você descobriu que heróis não existiam? Quando foi que você descobriu que dinheiro não é o dinheiro do Banco Imobiliário? O que eu fiz? Eu falei: eu vou contar essa história contando a minha história. E tudo isso que eu acabei de falar aqui no PodCast. Tudo que eu passei para chegar até aqui. Então eu coloquei uma foto da minha avó. Eu contei essa história da minha avó, de quando eu era criança, que a minha avó falou que eu ia trabalhar na Globo. Coloquei uma…

Luciano Pires: Quanto tempo você tinha de apresentação?

Giovanna Mel: Dois minutos.

Luciano Pires: Dois minutos?

Giovanna Mel: Dois minutos. Claro que eu passei do limite. Com certeza. Eu fiz um quadro. Eu peguei dinheiro de verdade e colei no quadro. Infelizmente, na época, eu não tinha um celular bom para fazer uma foto. Eu tenho que reproduzir esse quadro um dia. Mas em cima eu coloquei uma nuvem gigantesca, branca e escrevi: Giovanna Mel, de vermelho. Para eles fixarem o meu nome. E no fundo, eu pintei tudo de azul. Eu peguei uma Barbie da Gabi, filha da Patrícia, que eu era babá. Então eu coloquei uma Barbie ali. Então ele perguntou: quando você deixou de acreditar em bonecas ou em princesas? Eu falei: quando eu tive que passar a ser a boneca da minha irmã. E depois eu virei babá. Então eu fui contando toda essa trajetória que eu contei aqui. E a primeira pergunta – eu não vou lembrar o nome dela agora, mas era uma jornalista da Globo News, ela era diretora na Globo News – a primeira pergunta dela para mim foi: quando que você relaxa? Quando que você descansa? Eu falei: eu não sei. São 20 anos trabalhando para estar aqui. Talvez eu vá relaxar depois que eu entrar.

Luciano Pires: Legal.

Giovanna Mel: Eu falei: me contrata que eu relaxo. Eu falei para ela.

Luciano Pires: Quantas pessoas estavam? Esses diretores fazem esse processo. Eles não falam com 18 mil, evidentemente.

Giovanna Mel: Não.

Luciano Pires: A peneira já deixou no caminho um monte de gente.

Giovanna Mel: Já passou.

Luciano Pires: Você sabe quantos foram nessa reta final?

Giovanna Mel: Nessa reta final eu não sei. Eu sei assim: essa apresentação eu fiz com 60 estagiários. 60 jovens pleiteando a vaga de estágio, numa sala. Só que desses 60, só eu passei. Então, provavelmente foram várias salas de 60. Porque para 11 vagas. E não tinha ninguém do estágio no meu processo seletivo…

Luciano Pires: Isso é um negócio brutal. 60; dois minutos cada um; duas horas. Mais entra e sai da sala. Mais dois minutos. Já deu quatro horas. Essa diretora está sentada lá durante o dia inteiro.

Giovanna Mel: Começou às 11 e foi até sete da noite.

Luciano Pires: Cacetada.

Giovanna Mel: Porque eles fazem isso para…

Luciano Pires: Isso, para pegar estagiário.

Giovanna Mel: É.

Luciano Pires: Para pegar um estagiário?

Giovanna Mel: É. A pressão psicológica do processo seletivo é muito ruim. Tanto que eu saí de lá chorando. Arrasada. Achando que eu não tinha sido aprovada. Porque eu estava conversando, imagina: com pessoas que tinham feito intercâmbio, que falavam cinco línguas. Segunda ou terceira formação.

Luciano Pires: Você está falando. Você está me lembrando desses programas de televisão: dos cantores, da molecada que vai cantar.

Giovanna Mel: A mesma coisa.

Luciano Pires: Todo mundo sentado. Um conversando com o outro. Aí tem um minuto: sobe lá e canta uma música.

Giovanna Mel: A mesma coisa.

Luciano Pires: Vai lá e seja destruído ou… e o cara vê o sonho da vida dele ali desaparecer.

Giovanna Mel: A mesma coisa.

Luciano Pires: Isso é ruim.

Giovanna Mel: Muito. Muito. É massacrante. Tanto que eu fui para casa chorar. Eu chorei a madrugada inteira vendo filme, comendo sorvete. Bem filme americano. E no dia seguinte me ligaram falando que eu tinha sido aprovada, porém tinha mais uma etapa. Foram cinco etapas. E assim: cinco etapas sendo que já tinha passado por uma peneira da inscrição. Então na verdade foram seis etapas. Mas foram cinco etapas presenciais.

Luciano Pires: Depois da 5ª etapa, alguém te liga e fala: Giovanna você passou.

Giovanna Mel: Foi assim: depois da 5ª etapa, eu liguei para lá. Foi numa sexta-feira antes do Natal. Então eu estava desesperada. Porque eu sabia que segunda-feira era Natal. E se eles não tivessem me ligado, eu provavelmente, não tinha sido aprovada. Então na sexta-feira, às 18 horas ali mais ou menos, ninguém tinha me ligado. Eu estava com o Sidney. Eu estava desesperada. Eu dizia: eu não vou passar. Eu não fui aprovada. Eu não vou passar. Ai o Sidney falou: Giovanna liga. Porque você tem que saber. Mesmo que a resposta for que você foi reprovada, a hora é agora. Você esperou a vida inteira por isso. Eu liguei do telefone fixo do escritório. Nessa época eu estava trabalhando com o Sidney. Eu tinha saído da Patrícia. Eu liguei do escritório. Não chamava. Aí eu peguei o celular dele para ligar. Ele tinha acabado de comprar um iPhone novinho em folha. Ele tinha acabado de pegar. Tinha tirado da caixa. Eu liguei do iPhone, aí chama, chama, chama. A menina atendeu: tudo bem? Quem está falando? É a Giovanna. Fala o CPF, RG. Parabéns, você foi aprovada. Eu taquei o celular do Sidney no teto Luciano. E me joguei no chão e comecei a chorar. Foi o dia mais feliz da minha vida, até hoje. Eu acho que felicidade igual só quando eu tiver filho. Se eu tiver. Porque não dá para explicar. Foi uma vida mesmo, batalhando por isso. E eu sinto muita pena, muita dó dessa minha geração, que não sabe o que é isso. Porque eles estão frustrados. Não querem nada com a vida. Porque não tem um objetivo. E não pagam o preço para chegar lá. Eu sei o preço que eu paguei para sentir essa felicidade, essa alegria.

Luciano Pires: Você então conquista o sonho. Entrou na Globo. Uma coisa é o sonho. É aquilo que você via do lado de cá da tela. Aquela coisa maravilhosa, glamorosa.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: No dia seguinte você entra dentro desse ambiente.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: E vai descobrir que o sonho não é tão colorido assim.

Giovanna Mel: Não. Não mesmo.

Luciano Pires: É preto e branco. É complicado. Eu tenho uma tese. A vida inteira eu circulei por redações. Eu nunca trabalhei em nenhum órgão de comunicação. Mas eu sempre estive conectado com todos eles: redação de jornal, de revista, de televisão, de rádio. Sempre. A vida inteira. Mas nunca sentei para ser funcionário de um lugar desses. Eu já fui ao ar de várias formas. Mas nunca trabalhei lá dentro. E os contatos que eu tenho com as pessoas que eu conheço, trabalham e tudo mais, me botaram claramente que aquilo, ao mesmo tempo, que é um holofote maravilhoso, que pode pegar a tua carreira e botar você no céu. É uma máquina de moer carne, que não tem pena de ninguém.

Giovanna Mel: Sim. Não mesmo.

Luciano Pires: Ela te tritura do mesmo jeito que ela te bota no ar. E os que vão para brilhar é muito menos gente do que os que são triturados.

Giovanna Mel: Com certeza.

Luciano Pires: Gente que entra e desaparece dali, num instantinho. A gente tem visto isso acontecer agora direto, com essa coisa de cancelamento. Então é pior ainda. Como é que foi a hora que você… quando você passou…

Giovanna Mel: Foi um choque de realidade.

Luciano Pires: Quando você passou a roleta? Estou indo para a Globo.

Giovanna Mel: Foi um choque de realidade muito grande. O primeiro choque foi com os estagiários. Porque eu era a única estagiária de uma faculdade mais pobrinha, mais simples. Todo mundo ali tinha uma condição financeira muito boa. Uma das meninas que foi aprovada – para você ter uma ideia – era formada em Economia. Tinha trabalhado anos na Ásia. Ela fez um ano da faculdade em Vancouver. Falava cinco línguas. Os pais moravam em Alphaville. E ela tinha um apartamento na Paulista. Ela tinha sido estagiária da Gazeta. Então olha a discrepância. A menina capixaba, do interior do Brasil. Porque ninguém lembra que o Espírito Santo fica no sudeste. Todo mundo acha que é no nordeste. Ali do interior, que não falava inglês. Que nunca tinha saído do país. Que estava se ferrando para pagar a faculdade. Nessa época eu tinha feito FIES. Porque imagina: chegou uma hora que a conta não fechava. Então eu estava no cheque especial. Morando de aluguel. Aquela coisa toda. Eu fiz o FIES faltando dois anos para encerrar a faculdade, porque eu não estava dando conta de pagar mesmo. Então essa era a situação. Os estagiários iam almoçar e não me chamavam. Então eu comecei a sofrer ali certo…

Luciano Pires: Preconceito? O que é?

Giovanna Mel: Eu não acho que é preconceito. É um desalinhamento. Porque eu não tinha conversa com eles. Como é que eu ia almoçar com eles, se eu não conseguia conversar com eles? Só que aí isso foi bom, de certa forma. Porque eu comecei a almoçar com a produção. Porque os jornalistas viam que eu era diferente. Que eu era mais madura. Que eu tinha um papo mais cabeça. Que eu era realmente interessada naquilo. Eu não queria sair para almoçar para contar que no feriado eu tinha ido para Miami, para a casa da minha família, passar o feriado em Miami. Eu estava conversando sobre os problemas da sociedade mesmo. Que eram os problemas que a Globo estava discutindo ali: o que ia virar notícia? O que não ia virar notícia? Então isso foi muito bom. O lado ruim nessa história foi o financeiro. Porque eu fui trabalhar na Globo ganhando muito menos do que eu ganhava na assessoria de imprensa. E a Globo paga muito mal. Isso não é novidade. Eu ganhava 1.400 reais como estagiária. Só que como eu tinha que pagar aluguel, eu morava perto da Globo. Então eu pagava num quartinho de fundo – que eu morava com mais duas meninas – 950 reais, ali na Rua Bacaetava, no Brooklin, perto da Chucri Zaidan, que é onde fica a Globo aqui em São Paulo. Era muito sofrido. Era muito difícil mesmo. Ah, Giovanna, mas você podia morar num lugar muito mais longe e pagar a metade, se eu morasse na Zona Leste. Ok. Só que aí eu não ia ficar 12 horas dentro da Globo. Porque essa era a verdade. Acabava o meu tempo de estágio, seis horas. Eu fingia que eu ia embora. Eu me escondia no banheiro. Esperava a coordenação ir embora. E ficava. Eu cansei de focar até de madrugada no Jornal da Globo. Assistindo à gravação do Jornal da Globo. Porque nenhum estagiário podia acompanhar o Jornal da Globo. Então eu ficava lá escondida. Eu ajudava. Eu trabalhava. Então eu era vista. Eu era lembrada. Tanto que quando acabou o estágio, eu fui a primeira a ser recontratada. Eu fui direto para o Fantástico. Daí eu tive que pagar um preço. Eu morava num bairro mais caro. Só que eu consegui ficar lá mais tempo.

Luciano Pires: Sim. Muito bom. Essa estratégia é perfeita. E aí você vai para o Fantástico. A menininha que queria entrar na Globo.

Giovanna Mel: Foi para o Fantástico.

Luciano Pires: É contratada para ir para um dos principais programas da casa. Você vai para o Fantástico fazer o quê?

Giovanna Mel: E um dos mais difíceis. Em produção. Porque o meu cargo não existe. Eles assinaram a minha carteira como assistente de edição e produção. Se você puxar lá… pelo menos na minha época não existia ainda esse cargo. Existe produção, que é o cargo quando você se forma. Mas eles me colocaram o cargo XPTO, que não existia. Para pagar menos, obviamente. Porque o piso salarial era 4.500. Eu ganhava dois mil reais. Eu fui para ser assistente da editora do Medida Certa e dos programas especiais ali do Fantástico. Tem o Fantástico. E o Fantástico é dividido em três áreas. O Fantástico semanalmente, conteúdo semanal. Tem o Fantástico Investigação, que pega aqueles casos bem cabeludos: Suzane von Richthofen e tal. E tem os Especiais. Esses Especiais fazem Dráuzio Varella, Medida Certa, Bem Sertanejo. Aqueles programas de moda do Fantástico e tal. Eu fui para esse núcleo. Pensa que o Fantástico é o programa e é o grupo mais importante da casa. Porque é o que mais tem audiência. São os melhores profissionais. É o que paga melhor. É o que mais tem verba para fazer superproduções. Dentro do Fantástico tem um núcleo de superproduções. Então eu fui para o lugar mais difícil da Globo. Que mais exigia. Cansei de virar noite lá trabalhando. Entrava à uma da tarde e ia embora à uma da manhã. Grava de madrugada. Faz especial. Correria. Quando eu fiz o Medida Certa eu era assistente de edição/produção. Então eu tinha desde decupar… para quem não sabe o que é decupar: são várias televisões que ficam numa sala. Você tem que assistir aquela cena por vários ângulos, várias câmeras. E escrever detalhadamente o que acontece na cena. O que a pessoa fala; como ela se movimenta; qual é o sentimento dela; qual é a expressão facial.  E detalhar isso. Por isso que quando tem aqueles especiais de final de ano, a Globo faz assim: na novela tal tiveram tantos mil beijos. Falaram obrigado tantas vezes. Porque tem um estagiário…

Luciano Pires: Que ficam anotando onde estava cada coisa daquelas.

Giovanna Mel: É trabalho de corno. Ficou escrevendo cada um, detalhadamente.

Luciano Pires: Muito bem. Você está no LíderCast. O LíderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e Café Brasil Premium têm acesso imediato à temporada completa, assim que ela é lançada. Os não assinantes receberão os programas gratuitamente, um por semana. Para assinar, acesse mundocafebrasil.com e conheça nosso ecossistema do Café Brasil Premium através do site ou pelos aplicativos para IOS e Android. Você pratica uma espécie de MLA, Master Life Administration, recebendo conteúdo pertinente, de aplicação prática e imediata, que agrega valor ao seu tempo de vida. São VídeoCasts, sumários de livros, PodCasts, e-books, eventos presenciais. E a participação em uma comunidade nutritiva, onde você faz um networking com gente como você, interessada em crescer. Sabe o que me chamou a atenção? Minhas experiências na Globo. Eu estive lá algumas vezes. Eu gravei várias participações em vários lugares lá. E ali, o que me chamou sempre a atenção. Eu não sei. A minha experiência na Globo é muito mais no Rio do que aqui em São Paulo. E todo mundo muito educado. Todo mundo te recebendo muito bem. Qualquer pessoa: bom dia. Boa tarde. É até excessivo. Mas eu não sei se é coisa de carioca ou é coisa da Rede Globo. Mas o que me chamou a atenção foi aquela coisa: tudo é excessivo.

Giovanna Mel: Sim.

Luciano Pires: Não é uma mesa de edição. São mil mesas de edição.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: Não tem um cara na iluminação. Tem oito caras na iluminação. Não é um microfone. São 12 microfones. Então é tudo excessivo. Isso é custo. Isso é dinheiro que não acaba mais.

Giovanna Mel: Sim.

Luciano Pires: A minha experiência lá é numa época, que da mesma forma como isso tinha um custo muito alto, também entrava muita grana. Então, um lugar onde passa dinheiro desse jeito, nego com rei na barriga é o que mais tem.

Giovanna Mel: Total.

Luciano Pires: Só tem cacique. Os caras que são os bons do pedaço. Mas como eu não trabalhei com relação de subordinação com ninguém, eu não senti nenhum tipo de pressão. Mas foi a minha impressão de fora. Eu falei: deve ser um terror isso aqui.

Giovanna Mel: Essa é a cultura da empresa. A cultura da empresa é: você está na TV Globo. Você sabe com quem você está falando? Eu sou jornalista da Globo. E onde você chega você é bem visto. Você é benquisto. As pessoas querem estar perto de você. Vou dar um exemplo: carnaval. No carnaval eu tinha que entrevistar algumas pessoas ali no aquecimento das escolas de samba para virar reportagem na Globo no dia seguinte. Quando você chega com o colete da Globo, tudo para. Tudo para. Tudo se abre. A CNN, que é da Globo. A CNN, a Record, o SBT. Qualquer empresa que não seja de fato, a TV Globo. Não é o G1. Eu não estou falando do G1 e não estou falando da CNN, da Rádio Globo. Não. TV Globo.

Luciano Pires: Não CNN. CBN. Você falou…

Giovanna Mel: CBN. Desculpa. Isso. CBN. Até a CNN também. Porque na época não tinha CNN. Mas a CBN. As portas não se abrem como abrem quando você é TV Globo. Tem uma diferença muito grande entre você ser Rádio Globo, Jornal Globo, G1 e você ser TV Globo. Tem uma diferença gritante.

Luciano Pires: O impacto cultural da Globo no Brasil é um negócio fabuloso.

Giovanna Mel: E também a exposição. Então, todo mundo quer aparecer na Globo. Até hoje não é a mesma coisa…

Luciano Pires: A Globo é um case de branding psicológico como eu não sei se tem coisa igual no mundo. Não tem.

Giovanna Mel: Não tem.

Luciano Pires: Não deve ter isso em lugar nenhum.

Giovanna Mel: Tanto que se a Globo acabar, não é a marca. É uma ideia.

Luciano Pires: Pois é.

Giovanna Mel: É uma ideia. É manipulação mesmo.

Luciano Pires: Isso que você está falando é uma coisa importante. Porque essa situação que você conta, hoje está muito diferente. Hoje, se bobear…

Giovanna Mel: Muito. Muito.

Luciano Pires: Os caras estão tampando microfone.

Giovanna Mel: Então? Mas aí é que está. Depende. Porque quando eu entrei lá já era assim.

Luciano Pires: Que ano era?

Giovanna Mel: 2014. Eu já levei pancada na rua por causa do microfone.

Luciano Pires: Isso começou a mudar em 2013.

Giovanna Mel: Isso. As manifestações que eu fui ainda. Porque eu era esquerdista para cacete. É importante dizer isso. Hoje por mais que as minhas ideias sejam mais liberais conservadoras, quando eu entrei na Globo, eu era muito esquerdista. A minha redação para entrar na Globo era falando sobre os 20 centavos. A manifestação dos 20 centavos. E eu super a favor da manifestação. Os ônibus; não sei o quê. Isso que eu quero dizer: a Globo é uma ideia. E por mais que você estar com um microfone da Globo seja mal visto por algumas pessoas – ou pela grande maioria dos brasileiros hoje – em 2014, ainda é a Globo. E em 2014, ainda tinha um peso. Vou dar um exemplo: famosos, artistas. Eles só querem aparecer na Globo. E não importa. Por mais conservadores que eles sejam. Por mais que eles tenham votado no Bolsonaro. Na última eleição? Eu não lembro agora.

Luciano Pires: Na última foi Haddad com Bolsonaro.

Giovanna Mel: Isso. Mas é que o Lula estava por trás, tentando se colocar.

Luciano Pires: O Haddad era o poste do Lula.

Giovanna Mel: É. Ele estava tentando se colocar. Então, por mais que tenha sido Haddad e Bolsonaro. E as pessoas votaram mais no Bolsonaro. O Bolsonaro ganhou. Não importa. Se o artista votou no Bolsonaro, ele não quer saber se a Globo está apoiando o Lula. Essa briga: direita, esquerda. Ela é muito atual e ela é muito superficial. A Globo sempre se manteve jogando dos dois lados. Ela sempre se manteve jogando dos dois lados. Eu cansei de ver a Dilma parar no heliponto da Globo e ir lá fazer reunião – várias vezes – com a diretoria. Então é um negócio que vai muito além do que a gente consegue entender e do que a gente tem controle. Como que a gente está mudando isso? Com a internet. Enquanto a internet existir, a Globo vai continuar perdendo força. Só que se ela acabar, a ideia continua. Porque é como você disse: é uma coisa que vai muito mais profunda, brasileira. É cultural.

Luciano Pires: Vai precisar de uma geração para apagar. Eu coloquei no curso do Camp, que eu fiz. Tem um momento que eu estou falando exatamente disso. E eu solto na entrada de um módulo – eu não lembro mais qual foi o módulo – eu solto a vinheta do Urgente.

Giovanna Mel: Plantão Globo.

Luciano Pires: A vinheta. Eu solto a vinheta. Soco o som dela. Aí termina e eu falo: o que você está sentindo? Você que ouviu. Espera aí, eu vou soltar aqui. Espera aí.

Tocando vinheta Plantão Globo [00:59:35]

Luciano Pires: Pronto. O que você está sentindo? Todo mundo responde: meu deu frio na barriga.

Giovanna Mel: Pânico…

Luciano Pires: A hora que eu ouvi esse… então você está entendendo que você está tendo uma reação física a um estímulo sonoro, que foi implantado na tua cabeça? Está na tua cabeça.

Giovanna Mel: Sim.

Luciano Pires: Se você ouvir essa música… são os cães de Pavlov.

Giovanna Mel: Claro.

Luciano Pires: Você foi treinado para isso aí. Toda vez que aparecer a vinheta da Globo é porque as Torres Gêmeas caíram. Eu fico apavorado. Paro tudo que eu estou fazendo. E corro ali para olhar. Esse é o nível de impacto. Você traz isso para outras coisas que não são tão evidentes assim, que entram por baixo do pano, tem aquela sutileza toda. Então você muda a cultura do país usando uma ferramenta como a Globo. E o que aconteceu com o surgimento de redes sociais e tudo mais é que, de repente, a versão única passou a ter contrapontos. Mas aí você lá dentro, quando é que você sentiu que era moedor de carne?

Giovanna Mel: Nas primeiras semanas. Tanto que eu lembro que eu liguei para o Sidney e falei: o que eu estou fazendo aqui? Como eu saí dessa situação, de uma situação muito melhor financeiramente e caí lá na Globo, com uma dificuldade financeira maior do que eu estava. Não que antes era rica. Nada disso. Só que eu ganhava mais. Eu era assessora de imprensa. Eu liderava uma equipe. Então eu senti no bolso. Beleza. Isso pesou. O que pesou muito também foi estar numa empresa com dois mil funcionários. Um crachá ali. Muita gente não me conhecia. Estagiária. Então, num cargo muito abaixo. E não ser importante. Essa é a verdade. Eu tenho um espírito de liderança. Eu gosto de estar em destaque. Eu gosto de estar na frente. Eu entrei como estagiária. Você é a última bolacha do pacote, quando você é aprovado. É um choque. É um contraste muito grande. E ainda por cima, com uma empresa que já estava falindo, que já estava mal das pernas. E com os funcionários brigando por cargo, com medo de ser mandado embora. Eu entrei num ano de Copa. E já sabia que depois da Copa ia ter cortes. E teve mesmo. Então é uma disputa. É um querendo puxar o tapete do outro. E é muito engraçado, que eu já trabalho com oratória, com comunicação. E lá no meu perfil do Instagram eu faço muitas análises. E eu lembro essas análises sendo feitas dentro da Globo. Só que não era uma análise para te levantar. Para te impulsionar. Era sempre um falando mal do outro. E pelas costas. Então, como você falou: o rei na barriga. E isso é muito comum. E se você não entende isso e se você não joga esse jogo. Se você tenta lutar contra isso, você é engolido. Você não fica ali.

Luciano Pires: Sim. Qualquer lugar é assim. Qualquer sistema. Inclusive o político.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: Você entra naquela de: vou quebrar tudo. Vão te derrubar.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: Você vai cair rapidamente. Quanto tempo você ficou na Globo?

Giovanna Mel: Quase três anos. Foram três contratos.

Luciano Pires: Em que período foi?

Giovanna Mel: 2014, 2015 e 16.

Luciano Pires: Então você pegou uma eleição e um impeachment?

Giovanna Mel: Peguei uma eleição. Peguei um impeachment. E peguei Copa.

Luciano Pires: Três momentos…

Giovanna Mel: Foi bem interessante.

Luciano Pires: E uma Olimpíada.

Giovanna Mel: Não. Olimpíada eu já tinha saído. Olimpíada eu estava no Uol.

Luciano Pires: Houve um momento em que você chegou em casa, olhou no espelho e falou: o que eu estou fazendo naquele lugar? Eu vou cair fora. Ou você saiu? Saíram com você? Como é que terminou o teu namoro com a Globo?

Giovanna Mel: Foi um processo. Teve uma situação – eu até contei já em outro programa – que foi muito chocante para mim. No processo seletivo de estágio, uma das diretoras lá, uma das editoras virou para a gente e perguntou assim: quantas vezes vocês acham que nós conseguimos abrir um jornal com factual? O que significa isso? Você abre com o factual. Você dá esse pânico – que a gente acabou de comentar – nas pessoas. Ativa a amídala, que é o nosso detector de perigo, que está ali no cérebro falando: luta ou foge. Quantas vezes vocês acham que a gente consegue abrir com esse factual para prender a atenção da audiência? Para manter a audiência do jornal? Aí todo mundo respondeu: 50%, 80%, 90%. Ela falou: 20%. O que significa isso? Que 80% dos jornais nós temos que batalhar; lutar para abrir com impacto e prender a atenção das pessoas. Isso ficou na minha cabeça. Eu falei: 20% de factual é pouco para uma TV Globo, que parece que está sempre mostrando uma coisa emergencial, urgente. Beleza. Corta. Um ano depois, eu estava lá na produção, trabalhando no jornal. Eu vi a diretora de jornalismo correr pela redação, sem salto, empolgadíssima porque nós tínhamos um factual para abrir o Jornal Hoje. Qual era esse factual? Um homem roubava um jornal do vizinho, de um senhorzinho de idade. Um dia, o senhorzinho de idade resolveu ir lá, bater na porta dele e falar: me devolve o jornal. Lê o jornal. Mas me devolve. E ele foi esquartejado e colocado dentro de uma mala. E o cara levou ele embora e ficou com o jornal, obviamente. E a diretora de jornalismo estava muito feliz por isso. Não feliz pelo esquartejamento, pelo crime em si. Mas feliz, porque fazia semanas que não tinha um factual para abrir o jornal. E ela estava muito feliz, porque a audiência ia subir. E eles estavam precisando de verba, enfim. Porque a verba dos anunciantes está diretamente ligada à audiência do jornal. Quando eu vi aquilo Luciano, eu falei: para o mundo, que eu quero descer. O que eu estou fazendo aqui? Eu lembro que isso foi um marco. Isso foi um marco muito forte. Mas eu já vinha me arrastando. Eu já vinha muito infeliz na Globo desde o começo.

Luciano Pires: Sim. Eu quero o seu dinheiro. Eu quero a sua atenção. E não tenho nenhum compromisso moral com essa troca.

Giovanna Mel: Exatamente.

Luciano Pires: Eu faço o que eu quiser para ter. Vendo até a mãe.

Giovanna Mel: Exatamente.

Luciano Pires: E isso é complicado. Porque quando a empresa aceita isso, ela passa a endossar esse comportamento. Todo mundo está olhando aquilo.

Giovanna Mel: Total.

Luciano Pires: Eu falo: velhinho esquartejado. O próximo vai ser uma criança esquartejada. E depois vai ser uma família esquartejada. E assim vai.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: E aí chega nesse ponto que você olha para aquilo e fala: não tem ninguém… aliás, vamos agora… estamos agora num enterro. Lá está a viúva. Dá um zoom na viúva. Bota o pianinho no fundo. E o zoom vem bem devagarzinho na viúva. E o pianinho tocando. E o pessoal torcendo: vi lágrima. Sai lágrima. E isso é de uma manipulação emocional do mais baixo nível. E pior que funciona.

Giovanna Mel: Funciona.

Luciano Pires: Porque as pessoas caem nessa…

Giovanna Mel: Muito…

Luciano Pires: Armadilha de montão.

Giovanna Mel: Muito. E agora a nova modalidade de manipulação são os jornalistas chorarem. Você já viu? O Tralli chorou porque saiu do jornal local e foi para o jornal de rede. O outro chorou porque finalmente o hospital zerou não sei o que, do Covid. O outro chorou… ah gente… eu fico vendo esses jornalistas chorarem. Eu falo assim: que absurdo. Porque nos bastidores eles dão risada. Nos bastidores eles estão felizes porque tem audiência.

Luciano Pires: Tem uma série chamada Morning Show.

Giovanna Mel: Sim.

Luciano Pires: Você já assistiu?

Giovanna Mel: Sim. Eu não terminei a 1ª temporada ainda não.

Luciano Pires: Eu acabei de ver a 2ª temporada agora.

Giovanna Mel: Muito boa.

Luciano Pires: Se você puder. Estiver nos ouvindo aí: assista. Chama-se Morning Show, com a Reese Witherspoon. Como é o nome da menina do Friends?

Giovanna Mel: Jennifer Aniston.

Luciano Pires: É a série mais cara já feita na história.

Giovanna Mel: Eu não sabia disso.

Luciano Pires: É a mais cara de todas, por causa do tamanho do cachê dos artistas lá. É caríssima aquela série. E ela conta a história de um programa de televisão. Bastidores. Aquilo é uma aula.

Giovanna Mel: Sim. Maravilhoso.

Luciano Pires: Teve um momento lá que eu marquei muito. Vou até dar um spoiler para você. Na 2ª temporada. Tem as duas âncoras. No caso, eram duas âncoras diferentes. A Reese com a outra mulher que estava lá. Elas estão fazendo uma brincadeira. Estão experimentando uma comida. E aí começa uma a tirar sarro da outra. E você olha aquela coisa: que legal. Elas estão inventando tudo. Aí a câmera vira. E está no teleprompter tudo que elas estão falando.

Giovanna Mel: Sim.

Luciano Pires: Está escrito no teleprompter.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: E aquilo que você pensa que foi uma iniciativa. Não foi nada. O cara está lendo o script que está lá e está interpretando.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: Eles são atores interpretando aquilo ali. E o potencial que isso tem de criar narrativas e mexer na cabeça da gente, nós estamos assistindo agora. Esse lance todo que passou agora de… vamos pegar 2018 para cá. A bomba estoura em 2018. Quando o Bolsonaro ganha a eleição. E aí máscaras começam a cair. Porque os caras assumem lado.

Giovanna Mel: Total.

Luciano Pires: Direto. E aí chega a pandemia. E aí o bicho vira de ponta cabeça. Porque a pandemia quando surge, ela surge associada ao Bolsonaro. Não como culpa dele. Mas tudo aquilo que ele dizia que podia… vira… então a lógica desaparece e passa a ser a lógica do ódio. E aí começa-se narrativa, narrativa, narrativa. E você muda a história de uma nação. Eu tenho cases históricos de… eu tenho um case – eu botei no curso também – uma história na época da AIDS. Um problema seriíssimo num país da África. Tinha um problema seriíssimo com a AIDS. E os caras reduzem a AIDS no país com um programa de rádio.

Giovanna Mel: Olha.

Luciano Pires: Com um programa de rádio que eles criam. Botam um motorista de caminhão sacana, que sacaneia a mulher e não sei o quê. E a história desse programa domina o país inteirinho. E os caras levam todo mundo a tomar cuidados que não tomavam, por causa de um programa de rádio. Agora, leva isso para uma rede como a Globo, que domina 80% do país.

Giovanna Mel: Sim. Têm vários estudos que mostram isso. Quando a Globo colocou meninas adolescentes ali na Malhação transando cedo, aumentou o número de gravidez na adolescência. Depois ela veio e colocou aquela novela Senhora do Destino, que conta a história de uma mulher que sofreu porque engravidou muito cedo, teve filho muito cedo. Depois ela acolheu mulheres grávidas. Pronto. Diminuiu o índice de gravidez na adolescência. Tem estudos na USP, em tudo quanto é canto. Isso é muito fácil de mensurar. Porque você vê os índices. Você vê a história acontecendo. E você vê a consequência daquilo. O feminismo hoje, essa lacração toda. Eu brinco que eu fiz a primeira reportagem feminista na Globo. Porque quando terminou o meu TCC lá no estágio. A gente fez uma reportagem – eu e mais duas jovens – sobre o Chega de Fiu-Fiu. Que era um movimento social pra parar o fiu-fiu na rua. Aquilo ali não estava na Globo. A Globo jamais faria uma reportagem sobre aquilo. Só que quando os estagiários trouxeram e montaram a reportagem, a Globo olhou e falou: interessante. Está nas redes sociais. Está todo mundo falando. Vamos falar também. Eu não ligo mais televisão. Eu nem tenho mais televisão em casa. Outro dia alguém me mandou: a Globo falando sobre [inint 01:10:52], que é a nova língua do feminismo querendo enfiar na cabeça das pessoas comportamentos por meio de novas palavras. Eu falei: a Globo está fazendo uma reportagem sobre isso? Olha só o mal que eu fiz. Eu era feminista. Hoje eu não sou mais.

Luciano Pires: Mas faz parte. Por que ela não fez isso antes? Porque Os Trapalhões faziam fiu-fiu. Eles faziam. Como é que ela ia botar?

Giovanna Mel: É verdade. Mas você sabe que a Globo é tida como conservadora no meio jornalístico. Você deve saber disso. Mas para os jornalistas que são realmente de esquerda e os comunistas declarados – e que me deram aula na faculdade – a Globo é conservadora.

Luciano Pires: O PCO considera o PT centro-esquerda.

Giovanna Mel: Exato. Depende da perspectiva.

Luciano Pires: Vamos chegar no ponto onde você está hoje. Então em algum momento você resolveu se dedicar a trabalhar a questão de oratória, falar em público, etc. e tal. Define oratória para a gente aqui.

Giovanna Mel: Oratória é a arte de falar bem em público. E arte é uma junção de técnicas do que é belo. Eu entendo pelo menos assim: do que é certo, do que é errado. Algumas pessoas hoje dizem que por causa da internet, por essa espontaneidade dos PodCasts, das lives do Instagram, que tudo é certo. Que está tudo certo. E que tudo funciona. Não é bem assim. Se tudo fosse certo, a Globo não teria feito o que fez. Se tudo fosse certo você não teria essa estrutura maravilhosa que você tem aqui. Inclusive, obrigada pelo convite. Eu não agradeci no começo. Estou muito feliz com esse bate-papo que gente teve aqui hoje. E não existiria essa arte. Existe uma arte. Existe uma forma de falar, de se comunicar. E que você pode usar para o bem e informar. Nós temos aí o TED Talks, que é uma plataforma de palestras que circula no mundo inteiro e que conta histórias incríveis. Ou você pode usar isso para o mal e manipular, como a Globo tem feito, faz e continua fazendo. Eu ensino essas técnicas. Por que eu ensino essas técnicas? Quando eu comecei a despertar e ver de fato a manipulação que rolava ali dentro. E que muitas coisas que eu via ali dentro não batiam com os meus valores, eu saí da Globo. Fiquei ainda um ano no Portal Uol fazendo entretenimento, para ver se dava uma aliviada. Saí um pouco dos temas mais cabeludos.

Luciano Pires: Saiu da Globo e caiu no Uol?

Giovanna Mel: Caí no Uol. Mais lacração ainda. Foi aí que eu fiquei muito mais esquerda. Eu fiquei por um tempo muito esquerdista mesmo. Levantando pautas do feminismo, que eu nem sabia que eu estava defendendo. Ainda bem que foi por um período curto, 11 meses, quase um ano ali, 12 meses. E quando eu saí do Uol, eu falei: eu vou empreender. E aí quando eu comecei a empreender. Eu comecei a andar nesse universo. O Sidney me ajudou muito. Porque nessa época a gente já estava junto mesmo. Fomos morar juntos. Casamos logo depois que eu saí do Uol. Foi nessa virada que eu falei: o mundo não é bem assim. E eu não acredito que o mundo seja assim. Isso que é louco, Luciano. A manipulação é tão profunda, que eu sempre tive valores de família. Foi isso que me ajudou a crescer. Eu sempre acreditei no capitalismo, para trabalhar, ganhar dinheiro. Eu tive uma avó que me orientou nesse sentido. O meu pai era um cara muito trabalhador. Ainda é. Hoje ele está aposentado. Mas meu pai sempre foi um cara muito trabalhador, muito dedicado. Até hoje, aposentado por invalidez, porque ele está doente. Ele ainda trabalha. Ele não precisa trabalhar. E ele continua trabalhando. Por quê? Porque o trabalho tem um valor muito forte. Em algum momento ali, eu me perdi, porque eu estava nesse ambiente. Como a gente diz: não dá para lutar contra esse ambiente, porque senão você é esmagado. Quando eu saio desse ambiente, em 2017 e eu vou trabalhar no RH das empresas, com comunicação, ensinando oratória. Foi aí que eu comecei a ver essa manipulação. E quando eu decidi ensinar oratória, eu decidi que eu não ensinaria só tecnicazinha. Então se você vai no meu Instagram, eu não fico lá: três dicas para falar bem em público. Três dicas para gravar uma live. Eu não consigo fazer isso. Porque eu preciso ensinar para abrir a cabeça das pessoas. Se elas quiserem, claro. Porque também tem gente que não quer. É liberdade. A gente tem que defender. Tem gente que não quer. E liberdade é isso: é livre para todos os lados. Mas para quem quer enxergar a técnica e ver que: será mesmo que a Ivete Sangalo está lá na casa dela com uma roupa de pijama e fazendo uma live super espontânea. Será que isso é espontâneo mesmo? Será que o Zuckerberg fazendo uma festa super simplesinha para os filhos, sem nada de luxo é isso mesmo? Não. Não é espontâneo. Tem uma manipulação por trás. Tem um tom de voz. Tem um jeito. Tem uma forma de comunicar. E se esses caras grandes que estão no poder, dominando a narrativa, têm uma técnica para se comunicar, então vamos aprender essa técnica. Vamos aprender essa técnica para não sermos manipulados. E, claro, usar para comunicar aquilo que a gente acredita. Os nossos valores.

Luciano Pires: Nós estamos em sintonia. Eu acho que foi em abril desse ano aqui. Eu fiz três aulas. Chamada: As Mídias e Eu. E depois eu fiz, dentro do Camp, o curso que eu lancei que é: produtividade, planejamento, inovação, liderança. Tem um módulo de comunicação. É um curso inteirinho de comunicação ali. E eu abro aquilo com um statement. Eu falo o seguinte: eu não vou ensinar você a se comunicar de coisa nenhuma. Eu estou preocupado em ensinar você a se proteger com o que você está ouvindo. Qual e a matéria prima que você está pondo na cabeça…

Giovanna Mel: Perfeito.

Luciano Pires: Para depois usar. Você quer fazer? Tem um monte de curso de oratória. Você vai aprender num monte de lugar. Eu quero discutir com você o filtro que você tem que ter para receber a matéria prima, que depois, você vai transformar em alguma coisa para as pessoas. Eu acho que esse é o grande problema que nós estamos tendo aqui. As pessoas estão sem filtro.

Giovanna Mel: Sim.

Luciano Pires: Porque um cara poderoso falou está aí. Porque apareceu na Globo está aí. Eu vi uma manchete num jornal. Eu vi um tweet. Porque apareceu. Não. Espera um pouquinho. Cadê a filtragem toda?

Giovanna Mel: Sim.

Luciano Pires: E acho que as pessoas estão entendendo isso. Cada vez mais a gente está vendo o pessoal questionar. E esse é um momento que está todo mundo atarantado. Eu não queria fulanizar. A gente está falando muito da Globo aqui. Mas, de repente, essas redes; a grande mídia tradicional percebe que ela já não tem mais o impacto que ela tinha antigamente. E acho que o grande momento da realidade brasileira é o momento em que o Bolsonaro é eleito.

Giovanna Mel: Sim.

Luciano Pires: Porque estava todo mundo contra o cara. Estava todo mundo contra ele. Então a lógica dizia o seguinte: esse cara não vai ter força para aguentar.

Giovanna Mel: Eu ouvia isso em 2014. Ele teve 1% em 2014. Eu ouvia isso dentro da Globo. Todo mundo: ele não vai ganhar. Teve um cientista político lá dentro que falou: esse cara vai ganhar a próxima eleição. Aí a gente viu tudo acontecer. Os analistas políticos. Você já tem o porquê isso acontecer. Mas é muito engraçado. Porque lá dentro, mesmo esse cientista falando, ninguém acreditava.

Luciano Pires: E com o Trump foi a mesma coisa.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: Então, o que aconteceu? A sociedade começou a se posicionar de uma maneira que ela conseguiu evitar essa manipulação que historicamente acontecia. Por quê? Porque houve outros caminhos. Espera um pouquinho. Eu tenho um case maravilhoso. É a minha filha. Completamente avessa à política. Não quer nem saber de política. E aí ela chega um dia na mesa, senta comigo e fala: pai me conta a história. Como que é essa história do Bolsonaro. Porque eu só escuto horror. Eu falei para ela: ao invés de você perguntar para mim entra no Youtube e assista os vídeos.

Giovanna Mel: Pronto.

Luciano Pires: Pega o vídeo inteiro. Quando alguém disser: ele foi homofóbico. Então ache o vídeo inteirinho. Assista o vídeo todinho e tire…

Giovanna Mel: Perfeito.

Luciano Pires: No dia seguinte ela: pai, fiquei até às seis horas da manhã. E eu não acredito no que eu vi. Porque o que eu estou vendo é o contrário do que estão me dizendo aí.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: Por quê? Porque eu estou assistindo o vídeo inteiro.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: Eu não estou nem defendendo. Já deve ter neguinho gritando: passador de pano.

Giovanna Mel: Não tem… assim Luciano, eu recebo muitos ataques por causa disso também. O óbvio está ali. Você pode não votar no Bolsonaro. Você pode ser contra o Bolsonaro. Eu justifico o meu voto há 11 anos. Vou continuar justificando para sempre. Eu acho que eu vou morrer justificando. Porque não tem nenhum político que realmente me representa. Só que não tem como você falar contra o cara da forma que a Globo fala ou que a grande mídia fala, que a esquerda fala, a manipulação fala. Quando você escuta o que ele está falando. Quando você vê o óbvio. Não tem como. Se você investiga. Se você vai atrás. E você é honesto intelectualmente. Não tem como.

Luciano Pires: E aí não é nem a questão de ser a favor ou contra o cara.

Giovanna Mel: Exato.

Luciano Pires: E só: existe um fato. O fato está aqui. Quando você pinçar. Eu pincei um pedacinho. Eu tirei do contexto. Você manipula. Você muda a história todinha.

Giovanna Mel: Exato. Oratória é isso. Oratória, de certa forma é isso. Porque você tem 15 minutos. Como é que eu vou contar a minha história em 15 minutos? Você viu. A gente conversou pra caramba aqui. Mais de uma hora de LíderCast. Beleza. É um retrato. Eu poderia dar várias versões para essa narrativa. Eu podia chegar aqui, me vitimizar e falar: a minha vida foi horrível. Porque eu passei por isso, isso e isso. Não. Eu escolho contar a minha história, a minha narrativa por outra ótica. Então toda a história, toda a palestra, toda a aula, toda a apresentação, todo o LíderCast, toda a vez que você vai se comunicar. Você tem que escolher: qual é a narrativa que eu quero contar? Qual é o tom que eu vou dar para essa conversa? A mídia escolheu o tom dela em relação ao Bolsonaro e a tudo que a gente está vivendo.

Luciano Pires: Fala do teu curso agora. Vamos entender o que você anda fazendo. Você decidiu montar um curso de oratória. É isso?

Giovanna Mel: Sim. Desde 2017 eu dou aulas de comunicação e oratória. Foi uma coisa super espontânea. Eu nunca imaginei fazer isso na minha vida. Algumas pessoas foram me chamando e falando: Giovanna me ensina a gravar um vídeo, me ensina a fazer alguma coisa para a mídia, para assessoria de imprensa. Eu já dava alguns treinamentos em assessoria de imprensa, antes de entrar na Globo. Eu aprendi com a minha chefe, com a Patrícia. Então uma coisa foi levando à outra. De repente, um dia, me falaram: Giovanna dá um curso mesmo, dentro de uma empresa, um curso organizado, estruturado. Como o meu marido já é um cara que faz isso há muito tempo, ele me apoiou; me incentivou. Falou: vai Giovanna, que você vai dar muito certo. Você tem o jeito. Você tem o feeling. Você sabe ensinar. Você sabe se comunicar. Começa a estruturar o teu conteúdo. Então foi ali em 2017 que eu comecei a estruturar o meu conteúdo. Claro que eu fui ver um pouco do que faziam. Eu nem sabia que esse nome oratória existia. As pessoas que vinham mesmo: me dá um curso de oratória? Oratória? O que é isso gente? Eu nunca ouvi falar. Porque no Jornalismo a gente chama de media trainning. Mas é a mesma coisa. Então eu comecei a estruturar em 2017. Dei treinamentos em Nestlé, McDonalds, em outras empresas gigantes aí do mercado. Dei em 2018. Dei em 2019. Estourou a pandemia no começo de 2020. Eu tinha alguns treinamentos engatilhados para dar. Só que eu falei: quer saber? Eu vou focar na internet. Porque eu já tinha que ter feito isso há muito tempo. Só que eu olhava para os gigantes da internet e falava assim: quem sou eu para estar aqui no meio de um monte de peixe grande? Imagina. Eu vou começar agora. Tem gente com um milhão de seguidores. Eu fiquei enrolando. Até que um dia eu falei: não. Chega de enrolação. Vamos encarar isso aqui e vamos testar. Vamos ver qual é. Então no final de 2019, no início de 2020, logo quando estourou a pandemia, eu já estava produzindo conteúdo. Mas eu decidi focar. Porque com a pandemia, eu tive mais tempo. Nesses últimos dois anos eu ensino oratória no Instagram. Hoje eu estou com 55 mil, eu acho. Alguma coisa assim, de seguidores, que, na verdade são pessoas. A gente tem que lembrar isso. Não é só um número. São pessoas que estão ali me acompanhando. Gente que eu ensino como se comportar. Como falar em público. Como participar de uma entrevista de emprego. Como crescer na carreira. Como conseguir uma promoção. E como não ser manipulado.

Luciano Pires: Sempre usando a oratória?

Giovanna Mel: A oratória. Sempre comunicação e oratória. E também, como não ser manipulado. Porque isso é muito importante. Então eu falo muito sobre mídias lá também. Você já deve ter visto. A gente tem uma sinergia muito grande, Luciano.

Luciano Pires: Sim.

Giovanna Mel: E no final das contas, eu criei um curso chamado Direto ao Ponto. Oratória, Direto ao Ponto. Para ensinar as pessoas a não serem enroladas e não enrolarem ninguém. Eu já tenho mais de mil e não sei quantos alunos. O meu marido vai saber mais. Já está com 1.100, 1.200 alunos.

Luciano Pires: Legal.

Giovanna Mel: Está crescendo cada vez mais. Estou fazendo um trabalho muito interessante com a Brasil Paralelo. Eu estou sempre lá com o pessoal da Brasil Paralelo também. Agora eu estou dando aula no Novo Mercado, do Ícaro de Carvalho. E assim eu vou criando novas conexões. Eu vou aprendendo muito.

Luciano Pires: Oratória e tudo mais. Oratória serve para todxs?

Giovanna Mel: Para todxs. Para todos. Para tolos.

Luciano Pires: Como é que você está vendo essa coisa do pessoal tentar arrumar uma linguagem? Já é difícil…

Giovanna Mel: Péssimo…

Luciano Pires: Já é difícil você praticar a boa comunicação com o uso rudimentar do português que nós temos aqui. E agora os caras querem mudar o idioma para atender uma determinada…

Giovanna Mel: Será que é para atender mesmo? Não deve ser. Porque eles falam que é por inclusão. Mas na verdade, eles estão excluindo quem não tem uma base gramatical boa. Quem não sabe se comunicar bem. Eles estão excluindo aquelas pessoas que são surdas. Não conseguem se comunicar bem e têm quer fazer leitura labial. E também estão excluindo as pessoas cegas, que precisam daquela leitura especial nos aplicativos nos celulares. E quando você coloca o X o todxs. O aplicativo não identifica. Ou todes com E. Então é na verdade, uma manipulação. Eles querem gerar ruído na comunicação. Porque pensa: uma jovem que chega em casa e fala para o pai e para a mãe que eles têm que falar todes. O pai e a mãe falam: eu não quero falar isso. Mas a jovem insiste. Ou o jovem. Quem quer que seja. Insiste. Isso gera um atrito. Gera uma briga dentro de casa por um negócio sem cabimento. Então você quer falar todes? Fala. Não obriga que eu fale. E não oficialize isso.

Luciano Pires: E não brigue comigo porque eu vou dar risada. Porque eu vou rir de você. Eu vou dar uma risada. Você vai ver que eu vou estar segurando o riso. Porque eu acho ridículo.

Giovanna Mel: Ridículo. E é um problema muito sério quando você vai falar em público. A gente vê muitas pessoas agora que estão usando essa palhaçada. Porque não tem outro nome para isso. E eles abrem assim: bom dia, boa tarde a todos, a todas e a todes. Além de ser um erro gramatical, porque todos já engloba todos os seres humanos. O O, o masculino, ele já faz esse papel. Gera um ruído na comunicação. Porque você já perdeu a atenção. Você é palestrante, Luciano. Você sabe. Os primeiros segundos de uma palestra, de uma apresentação; é quando você conecta com o público e traz o público para perto de você. Se você usa esse pronome neutro e faz uma abertura tão longa, que diz, diz e não diz nada, você desconecta com o público. Então, o que eles querem é gerar ruído na comunicação. Eles querem nos desconectar da realidade. Romper os relacionamentos. Porque comunicação é relacionamento também. E quando eles fazem isso, pronto. Têm pessoas individualistas, estressadas, ranzinzas, sem família, sem relacionamentos. E são muito mais fáceis de serem manipuladas. Porque estão carentes.

Luciano Pires: Mas isso tudo tem um preço. Quando você começa a escolher um lado você vai se indispor com o outro lado. Eu tenho um amigo que está em redes sociais há bastante tempo. E ele sempre está focado no negócio dele, que é trabalho, business. Ele nunca se envolveu em momento algum com nada de política. Não é a praia dele. Ele não entende nada disso. Ele entende muito do trabalho que ele faz ali. E essa semana ele botou um post falando bem de um lado político. E a área de comentários dele… ele mandou uma mensagem para mim…

Giovanna Mel: Explodiu…

Luciano Pires: O que está acontecendo? Você acha que eu errei? Eu falei: você simplesmente escolheu um lado. E ao escolher um lado, o outro lado vai para cima de você. É um ou outro.

Giovanna Mel: Perfeito.

Luciano Pires: Você vai apanhar de qualquer jeito. Mas eu não sabia que estava assim. Eu falei: tá. Está assim. E está muito pior. Você está vendo as lacrações. Você está vendo cancelamentos. Eu até brinco com uma frase da música do Vandré: é a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar. Eu dei a lapada e recebi de volta a lapada.

Giovanna Mel: Perfeito.

Luciano Pires: Que é o que está acontecendo agora. Quem lacra não lucra. Você tem vivido isso?

Giovanna Mel: Tenho vivido isso. Eu passei por uma situação esse último final de semana que foi bizarra. Eu tenho uma amiga muito querida, que é uma super médica. Trabalha com oncologia. E é uma das maiores especialistas no assunto no Brasil. Ela cuida de crianças com câncer. E ela veio me visitar aqui em São Paulo. Ela mora hoje em outro estado, trabalha num grande hospital. E quando ela chegou, ela falou Giovanna: vamos nesses cafés diferentes da Paulista para ter essa experiência do café? Café coado. Quem gosta de café sabe como é. Cada café é uma experiência nova. É um descobrimento. É uma descoberta. Quando a gente chegou no café. Eu fui tentar entrar no café. Nós fomos barradas. Porque essa minha amiga é cadeirante. A funcionária do café virou para mim e falou assim: se vocês quiserem ficar aqui, vocês têm que sentar ali. Esse ali era: do lado de fora tinha um toldo. E o chão de madeira. E esse chão tinha um degrau e várias mesas. Passa esse toldo do lado de fora. Tem a calçada. Foi na São Carlos do Pinhal isso. Eu acho que é paralela com a Paulista. Tem a calçada onde as pessoas passam. E tem outro pedaço da calçada que tem uma árvore e os postes. Ela colocou a gente embaixo dessa árvore, numa mesinha. Literalmente com o ônibus assim, passando colado em mim. Eu sentindo o vento do ônibus passar ali, quase pegando a gente. Nós sentamos ali. Eu olhei para a minha amiga e falei: você quer entrar? Porque se você quiser entrar a gente vai entrar. Aí ela já sabendo que eu sou brava ela virou para mim e falou: não Giovanna. Deixa quieto. Vamos sentar aqui mesmo. Fica aqui fora. E está tudo bem. Nós sentamos. Olhamos o cardápio. Fizemos um pedido. 30 minutos depois, nada de o pedido vir. Estava vazio o lugar. Eram umas oito da manhã do domingo. Veio a gerente lá de dentro, desesperada, aos berros: vocês não podem ficar aqui fora. Porque aqui fora eu não tenho autorização. Eu vou ser multada. Eu virei para a cara dela e falei assim: você está doida? Eu estou sentada aqui porque a sua funcionária mandou a gente sentar aqui. Ela nem deu a chance de nós entrarmos. Ela falou: não. É porque eu vou ser multada. Eu falei: você não ouviu. Eu vou repetir: nós só estamos aqui… no final ela pediu desculpas. E chamou um cara lá dentro. Ela falou: eu vou chamar o rapaz para ajudar vocês. Eu fiquei olhando em volta. Nessa parte externa de madeira tinha vários homens sentados, cada um numa mesa. Aquele clássico homem de geleia. Sabe o homem de geleia da minha geração? Magrinho, ranzinza, com cachorrinho. Aquele bem clichê. Tinha esse tipo de homens ali. Todo mundo vendo o que eu estava parada com a minha amiga, segurando atrás na cadeira de rodas dela. Nenhum dos homens ofereceu ajuda, Luciano. Eles olhavam para mim, abaixavam a cabeça, fingindo que não estavam vendo. Veio o rapaz lá de dentro, que trabalha no restaurante. E tentou puxar a minha amiga pela frente. E eu fui atrás para segurá-la. Ele segurou ela de uma forma tão leve, que ela caiu em cima de mim. Eu estou com um roxo na perna do meio da coxa até o joelho. Eu dei um berro na hora. E falei: segura quem nem homem. Beleza. Ele segurou. Nós entramos. Quando eu entrei no café só tinha mulher no café. Todas mulheres bem naquele estilo feminista que a gente já está acostumada a ver. Todas mulheres bem feministas. Aí na hora eu fiquei olhando. E era um café bem alternativo, bem lacração. Eu olhei e falei: olha que engraçado. Só tem mulher fazendo lanche. Mulher fazendo café. Mulher servindo. Limpando a mesa. Fazendo a conta. Só mulher. Mas na hora de pegar a minha amiga chamaram o único homem, que era o cara do lixo. Olha que engraçado. Nessa hora o feminismo não funciona. Quem lacra não lucra. Não é mesmo? Porque eu não volto mais nesse restaurante. E na hora de ir embora, a mesma coisa. Nós fomos embora. Conseguimos descer com a minha amiga. Todo mundo olhando. Nenhum dos caras ofereceu ajuda. Nenhum. Bizarro. Que geração de homens fracos. Ninguém ofereceu ajuda.

Luciano Pires: Ou tem medo.

Giovanna Mel: Ou tem medo.

Luciano Pires: Ou estão com medo: não quero ajuda. Sai daí. Não quero ajuda de homem.

Giovanna Mel: Eu não sei se é medo. Sabe por quê? Eu acho que eram uns caras bundão mesmo. Aqueles que ficam no videogame o dia inteiro e não querem saber de nada da vida. Porque na hora de sair o zelador do prédio do outro lado ofereceu ajuda. Veio um senhorzão assim, fortão. Esses ponta firme.

Luciano Pires: Que idade o velho? 40? 50?

Giovanna Mel: Muito mais.

Luciano Pires: 60?

Giovanna Mel: 60 anos. Daí ele falou assim: vocês precisam de ajuda? Com aquele vozeirão dele, de homem. Eu falei: por favor. O senhor pode ajudar a gente?

Luciano Pires: Gio, eu voo de montão. Eu voo direto. E se eu estou sentado e chega uma mulher puxando uma mala, a hora que ela vai levantar a mala, toda vez eu vou lá: posso ajudar? E sempre foi ela: muito obrigada. Agora não querem mais.

Giovanna Mel: Elas acham ruim?

Luciano Pires: Não querem mais.

Giovanna Mel: Azar o delas. Porque eu amo ser mulher. E eu amo ser paparicada. E eu amo ser ajudada. E eu vou continuar sendo assim. Porque é um privilégio ser mulher e ter homens que nos ajudam. E que cuidam da gente. E que nos amparam. Eu só sei que no final das contas, eu nunca mais volto nesse café. Não indico para ninguém. Não falo para ninguém. Que experiência ruim. É ridículo Luciano. Porque é feminismo na porta. Lacração na porta, no marketing, nas redes sociais. Mas quando você chega lá na prática, quem é que bota a mão na massa? Quem é que recolhe o lixo? Quem é que carrega a outra no colo, que está pesado? Quem é que carrega o saco de lixo? É o homem. Essa função as mulheres não querem. Olha que engraçado. É igualdade até certa parte.

Luciano Pires: Fique tranquila. Semana passada eu vi uma matéria que diz que as mulheres vão estar se reproduzindo dentro de alguns anos. Não sei se você viu isso? Mas elas vão se reproduzir. Não vão precisar mais de homens. Nós vamos ter o mundo perfeito que é só mulheres. E não vai ter homem mais.

Giovanna Mel: Que absurdo. A gente tem muita luta pela frente ainda.

Luciano Pires: Se tem. Fala para mim. Se quiser encontrar você? Quiser fazer teu curso? Quiser saber como é que funciona? Onde é que você está?

Giovanna Mel: No Instagram: @giovannamel.

Luciano Pires: O curso como é que chama? Repete de novo?

Giovanna Mel: Direto ao Ponto. É o meu curso de oratória. Lá eu ensino em seis semanas, em seis módulos todas as técnicas de comunicação e oratória que eu aprendi no teatro, que eu aprendi no Jornalismo, que eu aprendi estudando, treinando, colocando em prática. Para as pessoas aprenderem a falar bem em público. Crescerem na carreira. Não serem manipuladas e não dependerem do Estado.

Luciano Pires: Maravilha. Que bom. Eu adorei o papo aqui.

Giovanna Mel: Muito obrigada. Eu também.

Luciano Pires: Eu espero que você continue pregando essa… tem uma turminha interessante gravitando por aí. Eu acabei de conversar com o Danilo.

Giovanna Mel: Meu queridíssimo amigo.

Luciano Pires: Gravei o Danilo também.

Giovanna Mel: Devo muito a ele.

Luciano Pires: Tem uma molecada jovem fazendo um papel interessante, que é o que dá esperança para a gente, de que nós vamos conseguir. Não precisa ser hegemonia não.

Giovanna Mel: Sim. Liberdade de pensamento.

Luciano Pires: Isso. Existir. Exista o outro lado. Existam opções diferentes. E você ter a liberdade de ouvir. Ouvir o outro.

Giovanna Mel: Perfeito.

Luciano Pires: Vou tomar as minhas decisões e escolher. Sem querer eliminar um dos dois lados. Esse é o momento que nós estamos chegando aqui, de muita preocupação. Quando você começa a interditar o debate. Aí é terrível. Porque você não consegue nem debater as ideias ruins. Nem o ruim você consegue. É terrível. Onde nós vamos chegar?

Giovanna Mel: Perfeito. Nós temos muito trabalho pela frente ainda. Mas eu estou otimista. A gente está conseguindo. Graças a caras como você, que abriu um caminho para a nossa geração. Porque se não fosse você, Luciano. Se não fosse o Sidney. Se não fossem tantos caras que estão aqui lutando pela liberdade de pensamento. E que viram na frente, abrindo caminho, nós não conseguiríamos. Então, muito obrigada. Obrigada pelo PodCast. Obrigada a todo mundo que acompanhou aqui até o final. Eu espero vocês lá nas minhas redes sociais. No meu Instagram. E continue esse trabalho. A gente está junto. Porque é só o começo.

Luciano Pires: Seja bem-vinda. Obrigado.

Giovanna Mel: Obrigada.

Luciano Pires: Tchau, tchau. Muito bem. Termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa você encontra no lidercast.com.br.