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Luciano Pires -

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo com gente que faz acontecer.  A convidada de hoje é Flávia Zülzke, que é head de marketing branding, comunicação e crescimento, da Cultura Inglesa; com extensa experiência em marketing, Flávia está à frente de uma mudança cultural de uma grande e tradicional organização, que precisou se reorganizar rapidamente, em função da pandemia. Muito bem. Mais um LíderCast. Sempre começando contando como é que minha convidada veio parar aqui. Eu, de repente, estou trabalhando. Eu recebo um e-mail da máquina assessoria de imprensa, dizendo: tem uma pessoa interessante aqui, que está fazendo um trabalho meio de revolucionar uma cultura já estabelecida. E eu amo essas histórias. Porque a minha própria história de vida é assim: uma empresa grande, que fez uma série de… comprou outras empresas. Aí você tinha que integrar culturas. Era um negócio louco. E cada vez que aparece alguém com uma história assim, eu fico alucinado para ouvir. Eu falei: eu quero ela aqui. Então pronto. Foi rapidinho.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Entre marcar e estar aqui foi rapidinho.

Flávia Zülzke: Foi rápido.

Luciano Pires: Eu começo o programa com três perguntas que são fundamentais, que são a únicas que você não pode errar nem chutar. Das três, uma eu abro mão. Se você não quiser responder, não tem problema. Porque você é mulher. Então as mulheres têm certa coisa. Mas se você quiser, manda bala. Seu nome, sua idade e o que você faz?

Flávia Zülzke: Eu não tenho problema com nenhuma das três. Primeiro: eu agradeço pelo convite. O meu nome é Flávia Zülzke, germano, Itália ali. Eu tenho 48 anos. E a terceira era?

Luciano Pires: O que você faz?

Flávia Zülzke: Eu sou profissional de marketing.

Luciano Pires: Profissional de marketing?

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Então nós vamos aprender direitinho. Nasceu aonde Flávia?

Flávia Zülzke: Eu nasci em São Paulo capital. Mas de família caipira. Meu pai é de Piracicaba, minha mãe é de origem italiana. Então é uma mistura de alemão e italiano, dos dois lados.

Luciano Pires: Eu vou soltar umas porrta, uns porrtão que não vão doer no seu ouvido?

Flávia Zülzke: Não. A minha família vai gostar de ouvir.

Luciano Pires: Tem irmãos?

Flávia Zülzke: Tenho uma irmã mais velha, que é diretora hospitalar, da área de operações. Então outra área, outro mundo. Bioquímica farmacêutica. Então não é da mesma área.

Luciano Pires: O que seu pai e sua mãe faziam?

Flávia Zülzke: O meu pai teve indústria farmacêutica, o meu avô era farmacêutico. Fazia fórmulas.

Luciano Pires: Mas indústria mesmo?

Flávia Zülzke: Indústria. Era uma indústria nacional. Depois de muito tempo eles fecharam. Mas foram mais de 25 anos produzindo e criando fórmulas. E meu pai distribuindo principalmente para o sul. E minha mãe é pianista clássica de formação. Deu aula muitos anos. E é professora também. Então é bem diversificada a família. É bem heterogênea nos segmentos.

Luciano Pires: Para você é uma festa?

Flávia Zülzke: Para mim é uma festa.

Luciano Pires: O seu pai era químico?

Flávia Zülzke: Não. Meu avô. O meu pai era administrador. O meu pai administrava a empresa. Mas quem criava mesmo, quem era o bioquímico da família era meu avô. E minha irmã seguiu os passos do meu avô. Começou como farmacêutica bioquímica, mas sempre foi para a área hospitalar de operações e compras.

Luciano Pires: Eu acho fascinante. É uma espécie de um chefe. Um cara que mistura coisas e obtém uma…

Flávia Zülzke: É alquimia. Eram os nossos alquimistas.

Luciano Pires: O seu avô; imagina naquela época.

Flávia Zülzke: O meu avô, filho de alemães. Veio para o Brasil bebê, com 11 irmãos, todos Zülzke. E meu avô acabou vindo para São Paulo para estudar. Dos 11 irmãos, poucos acabaram conseguindo vir para São Paulo, se formaram. Muitos saíram de Corumbataí, interior de São Paulo, onde eles se instalaram ali. É uma colônia alemã até bem importante. Tem muito alemão lá. Veio para São Paulo estudar e se tornou farmacêutico. E começou a fazer remédio no fogão de casa. E aí começou a abrir o laboratório. Aí depois virou uma indústria. Eles tiveram uma escala. Eu acho que até meados dos anos 80, 90.

Luciano Pires: Que legal. Uma pianista clássica e um administrador.

Flávia Zülzke: É um mix.

Luciano Pires: É um bom arcabouço para crescer ali.

Flávia Zülzke: Por parte de pai. Por parte de mãe eram outros…

Luciano Pires: Como era o seu apelido quando você era criança?

Flávia Zülzke: Para a minha família sempre foi Fá. Não era nem Flá. Era Fá. Por vezes, pela nota musical. Não sei. Para os meus amigos de infância é Flavinha, todos os meus amigos me conhecem como Flavinha. Eu fui jogadora de vôlei, três anos federada. E para os meus amigos do vôlei e do esporte, sempre foi Zülzke. E no colégio, muita gente me conhece como Zülzke. E os meus sobrinhos levam isso. Esse sobrenome forte.

Luciano Pires: Mas eu quero saber da Fá. O que a Fá queria ser quando crescesse?

Flávia Zülzke: A Fá queria ser oceanógrafa. Era o sonho dela. Mas até aquele momento não existia faculdade de Oceanografia em São Paulo. Só tinha no sul. E eu era muito nova. Eu estava com 16, 17 anos, me formando. Eu acho que com 17. E não tinha condições de mudar de cidade, me bancar noutra cidade para fazer Oceanografia. Mas era um sonho.

Luciano Pires: Da onde veio isso? Dos filmes do Jacques Cousteau? O que era?

Flávia Zülzke: Era o que minha mãe falava: você vai trabalhar com o Jacques Cousteau? Porque ainda era um mercado muito pequeno. Hoje acredito que não seja nem tanto, porque é o estudo do oceano, não só do mar, mas de toda parte de terrenos…

Luciano Pires: Até porque, oito mil quilômetros de costa.

Flávia Zülzke: Tem bastante trabalho.

Luciano Pires: O que devia ter mais no Brasil é oceanógrafo.

Flávia Zülzke: Trabalhando numa plataforma. Eu não sei. Mas até hoje eu sou uma apaixonada, tanto por Oceanografia, quanto por Biologia Marinha.

Luciano Pires: Legal.

Flávia Zülzke: Então esse era o meu desejo. E ainda sou uma apaixonada. Consegui fazer alguns cursos pequenos depois disso, para entender um pouquinho mais. Fiz curso de Biologia Marinha. Eu fiz curso de Oceanografia. Sempre incentivada. Mas aí, obviamente, a carreira já estava num degrau que eu não conseguia mais voltar. Não sei se eu acertei ou se eu errei. Mas eu ainda gosto.

Luciano Pires: Você sacou que não ia dar, por questão de logística? O curso era longe e…

Flávia Zülzke: O curso era longe. Era um momento econômico complicado da família. Eu tinha que me bancar. A gente não sabia direito o campo que ia ter. Não sabia se eu realmente ia conseguir ter uma receita vinda daquela profissão. Ou se era só um sonho. Talvez eu, com 17 anos, não tive coragem suficiente para peitar o meu sonho de ser.

Luciano Pires: E aí, o que você foi fazer? Falou: já que não dá.

Flávia Zülzke: Aí eu fui fazer Economia. Eu sou economista de formação, da PUC.

Luciano Pires: É uma bela decisão. Porque quem se forma em Economia pode fazer qualquer coisa.

Flávia Zülzke: Sim. A gente estuda o mercado.

Luciano Pires: Se formando em Economia, você pode fazer qualquer coisa.

Flávia Zülzke: Na época não existia marketing. Na época existia Economia, Administração, com ênfase em marketing. Então eu optei pela Economia, pelo estudo ali do mercado, a distribuição dos bens de consumo, que nada mais é do que a mãe do marketing, onde tudo começou. Então, eu trabalhei três anos no mercado financeiro. Eu operei em Bolsa de Valores. Ainda subsistia todo aquele pregão e toda aquela Bolsa. Eu trabalhei numa corretora três anos. Foi meu primeiro estágio, o meu primeiro emprego. Depois fui efetivada. Era superlegal.

Luciano Pires: Isso nos anos 90?

Flávia Zülzke: Isso em 93, 94. Eu acho que foi quando eu comecei ali. Eu me formei já em estágio numa empresa que existe até hoje, doutor Paulo José Possas era o meu chefe. Foi meu primeiro chefe, o meu mentor ali. Eu falei dele outro dia no Linkedin. E comecei. E gostava da brincadeira renda variável. Eu gostava.

Luciano Pires: Como é que um bicho de marketing se origina da Economia? Hoje em dia é mais fácil. Hoje a gente já consegue ver. A Economia Comportamental tem tudo a ver.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Estão se misturando as coisas. Estão muito bem equacionadas. Mas nos anos 90, o bicho do marketing era um bicho que se pegava de porrada com economista. Porque era tapa para todo lado. Um olhava a planilha e falava: um mais um tem que dar dois. E o outro falava: não. Vai dar 2,5; 1,8.

Flávia Zülzke: Talvez. Média ponderada.

Luciano Pires: Esse é um negócio que não dá para medir. Porque lá na frente a gente consegue. Era uma luta.

Flávia Zülzke: Eu acho que a gente é muito jovem. A gente decida as coisas muito jovem. Eu tinha 17 anos, quando eu tinha que decidir o que eu queria fazer para o resto da minha vida.

Luciano Pires: Sim.

Flávia Zülzke: E a Economia ela tem sim uma origem de estudo de mercado, de distribuição de produto, de preço de praça, que é… basicamente originou aí… era uma Economia Moderna. Depois virou Marketing 1.0, depois da Revolução Industrial, depois da 2ª Guerra. Tinha que desovar aqueles produtos que eles faziam em escala. Aquela coisa maluca ali. O fordismo, que a gente falava. E aí começou sim a dividirem as coisas em segmentos. E o marketing e a Economia. Mas eu acho que em relação à minha vida, eu acho que, talvez, eu não tivesse achado ainda o que eu queria na Economia. Eu falei: legal renda variável. Aquela loucura. Mas eu falei: gente… com a idade que eu tenho hoje, eu estaria totalmente morta. Porque era uma rotina muito intensa. Não que de marketing não seja. Mas o pregão. Operar dentro do pregão era realmente uma coisa intensa. Aí eu viajei. Fiquei um tempinho fora. Eu fui para a Itália. Depois fui para Londres. Voltei e falei: é marketing. Agora eu vou me especializar. Me especializei em comunicação depois. Fiz MBA em Marketing. E aí fui ficando, desde 92, eu acho.

Luciano Pires: Você tomou a decisão lógica de migrar para outra área?

Flávia Zülzke: Exato.

Luciano Pires: Você falou: vou migrar para o marketing.

Flávia Zülzke: Vou. Sair o do financeiro e vou para o marketing.

Luciano Pires: O que te atraiu para o marketing?

Flávia Zülzke: Campanha. Eu sempre fui uma aficionada em campanhas, em publicidade. Eu canto jingles desde a balada de leite Kids até a Varig: estrela brasileira desse céu azul. Eu sei de cor todos os jingles. E, talvez, naquela época de escolha eu não soubesse que eu sou uma apaixonada por publicidade. E por vender. Então eu acho que tudo aquilo, eu comecei a racionalizar já um pouquinho mais madura, no auge dos meus 21 anos. Superexperiente. E aí eu falei: não. Pode ser isso. E teve uma oportunidade bacana de recomeçar. Até um downgrade em termos financeiros. Eu já tinha lá meus 22 anos. Mas eu já estava bem no mercado financeiro. Porque você cresce muito rápido. Mas eu voltei para ser assistente de marketing na Sony Music. Foi a primeira vaga…

Luciano Pires: Logo na Sony Music?

Flávia Zülzke: Na Sony Music.

Luciano Pires: Caramba. É o que havia de mais brilho…

Flávia Zülzke: De mais brilho…

Luciano Pires: Que legal.

Flávia Zülzke: Uma garota de 21, 22 anos. Vou trabalhar Skank, Cidade Negra, Planet Hemp, Michael Jackson, Mariah. E tudo aquilo que a gente mais queria. Obviamente, eu entrei como assistente, numa função bem administrativa. Eu dominava planilha. Eu dominava budget. Eu dominava essas coisas todas. Então eu era uma ótima assistente. E evoluí bem rápido ali dentro da Sony.

Luciano Pires: Que legal.

Flávia Zülzke: Eu evoluí para a parte de analista de marketing, etc.

Luciano Pires: Aqui a gente dá voltas.

Flávia Zülzke: Claro.

Luciano Pires: Eu vou e volto.

Flávia Zülzke: Mas pode ir.

Luciano Pires: Eu vou buscar no que você está falando. Eu vou voltar ali atrás. Você deu um insight interessante ali, que é um negócio que eu estava conversando semana passada com alguns amigos meus. Que você falou da coisa da campanha, de você cantar jingles e tudo mais. E você cita, por exemplo um jingle: estrela brasileira…

Flávia Zülzke: Desse céu azul…

Luciano Pires: Que tem 40 anos, esse jingle.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Se não for mais. Se não for 50.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: 40, 50 anos esse jingle tem. Eu sou um pouco mais velho que você. Eu tenho 65 já. Então, eu vou mais atrás ainda.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Eu no jingle dos cobertores Parahyba, aquela coisa lá atrás.

Flávia Zülzke: Mas eu ouvi todos esses.

Luciano Pires: Que ficou gravado…

Flávia Zülzke: Eu não vivi, mas eu ouvi.

Luciano Pires: Que ficou gravado na minha cabeça. E eu vou morrer com esses jingles gravados na minha cabeça. Hoje em dia deram um nome pomposo para isso, hoje chamam de branding.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Alguém construiu lá atrás um treco tão forte que faz parte da minha cultura popular. Eu tenho uma relação emocional com isso. Se bobear eu choro ouvindo este jingle. E isso tem um poder fabuloso. Ocupar um espaço desse tamanho no coração das pessoas é complicado. E acho que aí está o mérito dos caras que fizeram a propaganda que te conquistou.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Os caras criavam coisas que o mercado…

Flávia Zülzke: É o desejo…

Luciano Pires: E a semana passada eu estava conversando com uns amigos meus. Eu sou oriundo do mercado de autopeças. Então, eu trabalhei durante muito tempo na indústria de autopeças. E essa semana, eu estava dando uma olhada numa revista e apareceu um anúncio lá da Cofap, com o cachorrinho da Cofap. Você lembra o cachorro salsicha?

Flávia Zülzke: Lembro do salsichinha.

Luciano Pires: É um investimento que tem 40 anos. Há 40 anos alguém…

Flávia Zülzke: Nossa… ele tem 40 anos?

Luciano Pires: É por aí. 40 anos. Washington Olivetto que criou o lance do amortecedor com o cachorro salsicha. Fez um baita investimento. Aquilo levou o nome da Cofap lá para cima. E mesmo que eles não tenham mais investido daquele jeito nos últimos 30 anos, aquilo mora…

Flávia Zülzke: É o cachorrinho…

Luciano Pires: Na geração nova não diz nada. Mas para a minha geração, aquilo diz muito. Ou seja, essa importância. A pessoa pergunta: porque a Coca Cola ainda anuncia? Se o negócio deles é tão conhecido, por que os caras ainda gastam dinheiro com propaganda?

Flávia Zülzke: É um argumento quando a gente precisa de mais verba. Todo mundo já sabe. Não. Tem que continuar sabendo.

Luciano Pires: Até porque, a moçada nova que está vindo não sabe.

Flávia Zülzke: Exato. Tem que rejuvenescer.

Luciano Pires: Perde a referência toda.

Flávia Zülzke: Exato.

Luciano Pires: Mas esse é um ponto interessante. Você devia ser muito criança na época do jingle da Varig.

Flávia Zülzke: Muito. E da bala de leite Kids…

Luciano Pires: E mora com você…

Flávia Zülzke: Das Pernambucanas.

Luciano Pires: Olha o residual de marca que fica. Por isso que é importante…

Flávia Zülzke: E eram muito mais fortes os jingles.

Luciano Pires: Sim.

Flávia Zülzke: Tinha muito mais música.

Luciano Pires: E a qualidade dos caras que faziam. Eu trabalho muito com música aqui também, como você trabalhou lá. Era Zé Rodrix compondo jingle. Era Sá e Guarabyra compondo jingle.

Flávia Zülzke: Grandes compositores compunham jingle para as marcas.

Luciano Pires: E os filmes também eram sensacionais.

Flávia Zülzke: Eram cineastas fazendo filmes e compositores consagrados já fazendo jingles.

Luciano Pires: Eu dei essa voltinha, porque quando você fala que migra para o marketing; o marketing tem esse poder todo de, não só dizer que um produto é bom, mas que ocupa um lugar no coração da gente. E a gente nem percebe isso. Faz parte da minha cultura.

Flávia Zülzke: E eu acho que é menos… para mim, eu acho que essa é uma parte que eu sou mais emoção do que razão. Eu estava num mercado muito razão. E eu gosto muito mais de branding. Você vai falar: você gosta mais de Media KPI ou você gosta mais de branding? Eu gosto mais de branding. De fazer sentir. De trazer essa emoção. De contar uma história. De fazer que essa história chegue; que seja ampliada. Então eu acho que foi uma escolha sábia. Porque eu gosto mais dessa parte do storytelling mesmo, que a gente chama hoje. De contar essas histórias de marcas e fazer aquilo tomar uma proporção. Então, o que me faz mudar. O que me fez mudar até de segmento. Porque eu mudei muitas vezes na minha carreira é a história que a gente tem para contar. Então você já contou uma história. Vamos começar e contar outra. E assim vai. Eu acho que foi a mudança da razão para a emoção. Eu acho que basicamente, eu sou muito mais emocional do que razão.

Luciano Pires: Você tem uma vantagem tremenda, você tem o background da razão, da lógica e da planilha. Então…

Flávia Zülzke: O meu time que fala: tudo você quer medir. Ainda tenho o DNA da economista ali. Está lá.

Luciano Pires: Marqueteiro que consegue medir. Esse é o melhor dos mundos.

Flávia Zülzke: Com um diploma na parede, que me faz lembrar que eu preciso mensurar as coisas.

Luciano Pires: Aí você cai na Sony. Música.

Flávia Zülzke: Garota…

Luciano Pires: Garota. Os seus ídolos ali e tudo mais. E você bateu ali e falou: é aqui. É isso que eu quero. É isso que eu quero?

Flávia Zülzke: Foi. Eu acho que foi um amor. Eu fiquei quase quatro anos na Sony Music. Era uma época ainda que, obviamente, as gravadoras não tinham perdido tanto mercado para a pirataria, para o streaming, etc. Ainda era um momento de auge. A Sony tinha lançado há um ano – antes de eu entrar – Chico Science, Planet, Skank, Jota Quest. Então era a gravadora pop ali do momento. E tinha os selos, Columbia. Zezé di Camargo, Roberto Carlos. Era um casting brilhante que a Sony tinha. Depois, nos anos 2001, a gente realmente foi sentindo, sentindo… e acho que quando eu saí – não lembro o ano – realmente as gravadoras já tinham perdido muito com a pirataria. E ainda eram muito poucos esses sites de download, de pirata e tal. Mas era muito ainda o CD pirata. Então ali começou realmente a reduzir, reduzir. Eu vi uma fábrica fechar em Acari, que era gigantesca. Eu vi tudo aquilo já não funcionar mais. Então isso teve um impacto também para eu falar: será que esse segmento? E a internet começando ainda, a internet das coisas, fazendo distribuição de videoclipe em Betacam, mandando para a MTV, mandando para o Uol, Aol na época. Eram três, quatro sites que tinham. E para conectar 15 segundos de videoclipe do Skank no Aol, por exemplo, com discador. Então eram outros momentos. Eu comecei a fazer TV, era a área de internet que chamava. E aí sim. Para mim, eu me achei no marketing. Eu acho que a Sony me dava esse brilho de um produto vivo. Artista tem alma ali. Então, obviamente, ele sente tudo que você está fazendo. Não é um produto que você trabalhe em outras empresas. Porque ele está vivo ali, no sentimento, na ação e colabora também com opiniões. Não só o empresário, mas o próprio artista. Mas eu falei: é isso. Se é artista ou se é gravadora? Eu não sei. Mas é isso. É fazer esse brilho. É fazer vender. É fazer as coisas darem certo. E contar uma história. Quando você começa a trabalhar um artista do zero. Ou você relança um artista que estava mais apagado. Isso te traz um orgulho enorme. De falar: ele está brilhando de novo. Eu trabalhei com pessoas consagradas. Eu estou falando dos pops. Mas eu trabalhei com Agnaldo Rayol, que é um mestre, um exemplo de artista.

Luciano Pires: Qual foi o mais legal? Que você pegou um case e falou: esse foi.

Flávia Zülzke: O Agnaldo era maravilhoso. Ele tinha voltado com a trilha da novela Terra Nostra, com a Charlotte Church. A gente relançou. E ele…

Luciano Pires: Italiano…

Flávia Zülzke: É Martírio tormento d’amore… era uma coisa maravilhosa. E uma pessoa que eu tive uma grata surpresa. No começo eu fiquei um pouco assustada. E depois, eu acho que foi uma grata surpresa. Foi o Reginaldo Rossi. Porque no meio daqueles pops todos que a gente trabalhava, rock e etc. O Reginaldo já era um ídolo no norte e nordeste. Ele já era uma pessoa muito conhecida. Já vendia shows. Já era um artista muito bem remunerado pelos shows. Porque ele tinha um público muito fiel ali no Nordeste. Só que no sul e sudeste, ninguém conhecia ainda Reginaldo Rossi. E a gente teve uma reunião de marketing e falaram: a gente precisa renovar com esse cara. E ele quer fazer sucesso no sul e sudeste. Ele quer transcender ali. Tudo que ele fez lá, ele quer ser conhecido nacionalmente. E a gente quer que ele continue. Porque é interessante para a gravadora. Façam uma agenda de marketing, para esse cara virar pop no sul e sudeste, com uma música de trabalho.

Luciano Pires: Aí vem Garçom?

Flávia Zülzke: Garçom, aqui, nessa mesa de bar…

Luciano Pires: Só um segundo aqui. Para quem não lembra qual é. Você vai ouvir aqui.

Música tocando [00:20:37]

Flávia Zülzke: Maravilhosa. Só quando eu escutei o CD, eu confesso que no auge dos meus 20 e poucos anos, eu falei: meu Deus, o que faremos com isso? Porque era o brega. E a gente não tinha a cultura do brega ainda em São Paulo e no sul. Não tinha. E a gente: o que poderíamos fazer? E a gente começou a trabalhar aquilo. Eu lembro que a gente conseguiu na MTV, o programa da Soninha, que era o Território Nacional, que era VJ ali. E ela falava das regionalidades do Brasil, de vários ritmos de música. A gente gravou o Território. Aí pegou o filme do Território e mandou para o Serginho. O Serginho Groisman marcou no Festival de Verão. E dali foi.

Luciano Pires: Colou.

Flávia Zülzke: Aí todo mundo começou a querer. Porque saiu no Serginho. Saiu na MTV.

Luciano Pires: Ele como produto, ele é uma delícia. Ele é uma figuraça.

Flávia Zülzke: Mas ele virou cult. Ninguém queria. Nem os programas populares. A gente teve muita dificuldade de emplacar até nos populares. Depois que ele virou cult, porque ele estava na MTV, ele estava no Programa Livre, aí todo mundo queria. E aí foi aquela coisa, rádio… obviamente o departamento de rádio trabalhando bastante o produto. Mas ele não saiu do popular para ir para o mainstream, para ganhar audiência. Ele saiu do cult. Ele saiu das TVs mais jovens da época, que era MTV e Programa Livre. Na época, o Programa Livre no SBT, se não me engano. Então é isso. A gente fez o movimento meio que inverso. Ele virou uma coisa descolada. Eu acho que – sinceramente – têm vários cases na Sony, que a gente trabalhou nomes, do time em si. Mas eu acho que o Reginaldo, eu participei desde olhar o CD na minha mesa e falar: o que é isso? E um cara sensacional.

Luciano Pires: Ele é uma figuraça.

Flávia Zülzke: Uma figura. Humano, bacana. Um trabalho social importante. Um cara que ajudava muita gente em torno dele. Era muito legal. Dona Cileide, a esposa dele, estava sempre com ele, comprando as jaquetas. Então era uma coisa família. A gente trabalhava com a família dele. O Sandro, que era o empresário, o Roberto. Eu lembro de todo o entorno dele ser muito legal. E um cara super já bem-sucedido lá.

Luciano Pires: É um case interessante. Porque quando você vive essa intimidade dessa turma toda e você vê o ser humano que está ali, ele é bem diferente da imagem que é…

Flávia Zülzke: É. Bem diferente…

Luciano Pires: Que é projetada. Eu publiquei um…

Flávia Zülzke: Ele era engenheiro, se eu não me engano.

Luciano Pires: Eu publiquei essa semana um post recuperando uma entrevista de 1994 – se não me engano – do programa da Bruna Lombardi com os dois caras do Kiss.

Flávia Zülzke: Eu lembro. Eu lembro a entrevista. E não lembro o conteúdo.

Luciano Pires: A entrevista é maravilhosa. Senta os dois na frente dela. Os dois de heavy metal. Aquela cabeleira toda…

Flávia Zülzke: E a Bruna toda princesa…

Luciano Pires: E o Kiss explodindo. E a princesinha na frente deles. E o papo dos caras é família. Valores. Não tem nada de…

Flávia Zülzke: E ela entrevista bem. Ela é um mulheraço.

Luciano Pires: E a entrevista com os caras é maravilhosa. O tempo todo eles foram de respeito. Um respeitando o outro. Um negócio. Eu fico arrepiado. Falando de profissionalismo…

Flávia Zülzke: Do rock and roll, de serem pessoas regradas.

Luciano Pires: Disciplina.  E quando você escuta os caras falando no palco. Eles são monstros. Vomitando sangue. A molecada alucinada. Quando você vai falar com o ser humano, o cara: não. Isso aqui é um negócio. E é um negócio de respeito.

Flávia Zülzke: Eu trabalhei um pouquinho com o Sepultura na Roadrunner – bem pouquinho – eu tive algumas gravações com eles. Eu lembro ter gravado um Vídeo Show no Rio. Eles estavam em estúdio. E era o Derrick já, como vocal. É um gentleman. Um artista muito educado. Muito, mas muito educado. Muito profissional. Muito disciplinado. Então, às vezes, o que passa não é exatamente. Eram pessoas muito incríveis de trabalhar.

Luciano Pires: Legal.

Flávia Zülzke: Eu trabalhei com todo tipo de artista que você pode imaginar.

Luciano Pires: Eu invejo. Mas aí você faz uma temporada lá na Sony, fica lá quatro anos. É isso?

Flávia Zülzke: Fico em torno de quatro anos. Aí já estava me sentindo um pouco velha, com 20 e poucos anos. Eu precisava empreender. Naquela idade a gente tem pressa.

Luciano Pires: Tinha um bichinho ali de empreendedorismo?

Flávia Zülzke: Tinha. Empreendedorismo. Eu tinha uma amiga que estava abrindo uma agência. Era uma agência mais de BTL, de eventos.

Luciano Pires: O que é BTL?

Flávia Zülzke: Below the Line. Tudo que era promoção.

Luciano Pires: Eu chamava de undervertising.

Flávia Zülzke: Undervertising. É boa também. É o Below the Line. É tudo que está baixando da linha ali do on e do off line. E a gente abriu uma agência de eventos. Eu tinha muita facilidade de contratar shows, por causa dos contatos que eu fui adquirindo. Eu fiquei na agência em torno de cinco anos, se eu não me engano. A gente atendeu grandes clientes: Natura, Unilever.

Luciano Pires: Você era sócia?

Flávia Zülzke: Eu era sócia. Porque eu já estava numa idade, que eu precisava empreender. Porque eu precisava pensar no meu futuro, com 25, 26 anos. Mas foi legal. Hoje quando eu escuto aquela palavra, ownership – que as empresas gostam – senso de dono. Quando você tem o seu negócio, você entende: não é que você é dono. Porque você não é. Quando você vai para uma empresa, você é um colaborador. Mas senso de pertencimento. De olhar e respeitar os valores e os bens daquela empresa. Eu acho que quando você tem a sua empresa, você fala: vou imprimir frente e verso. Quanto custa isso? Não vou jogar 10 quilos de papel fora. Então eu acho que você vai tendo aquilo. E a preservação do cliente, de saber que aquilo é importante para a roda funcionar, para você manter equipe.

Luciano Pires: Como é que foi esse choque seu de…

Flávia Zülzke: É um choque mesmo.

Luciano Pires: De repente, você sai de uma estrutura…

Flávia Zülzke: Gigante…

Luciano Pires: Toda montada, onde você faz um pedaço. Você faz uma parte daquilo…

Flávia Zülzke: Especialista…

Luciano Pires: Tem um monte de gente fazendo ali. De repente, você cai num lugar que se você não for no banco pagar a conta, ninguém vai por você.

Flávia Zülzke: É. Não tem luz.

Luciano Pires: E aí você tem funcionários que dependem de você. Se não vier grana, você não tem como pagar a pessoa.

Flávia Zülzke: Eu acho que eu sempre fui muito organizada e muito responsável. Então essa parte, eu acho que eu consegui administrar bem, até pelo meu DNA financeiro, de economista e tal. Para mim o que mais pegava ali, de sair de um cargo que eu era uma analista sênior, que no máximo eu tinha alguém para delegar ali, um estagiário, um assistente. Mas eu não tinha equipe. Eu era eu por mim. Para virar chefe. Eu acho que essa foi a maior transição. A maior dificuldade. Porque quando você vira chefe no sentido mais pesado ali da palavra, às vezes, você é o assunto do almoço. Você não ganha bem. Você vai reclamar de quem? Do chefe. Do dono da empresa. Então você sai daquela coisa do queridão, amigo de todo mundo ali; vamos tomar um chope; para aquela pessoa, às vezes, que é o motivo da…

Luciano Pires: Vamos mudar de assunto, porque o assunto chegou.

Flávia Zülzke: É. Então? E não que…

Luciano Pires: Têm coisas que não pode falar perto dela…

Flávia Zülzke: Eu tenho muitos amigos até hoje, que foram meus funcionários, foram meus colegas. Gente que virou até meu chefe em algum momento. Não tem problema nenhum. Mas a gente sabe como que nós seres humanos somos. A gente tem que ter um objeto ali para falar: meu salário; não consigo pagar as minhas contas. Eu preciso sair. Eu preciso arranjar outra coisa. Eu preciso crescer.

Luciano Pires: Você não foi treinada para assumir liderança?

Flávia Zülzke: Não. Eu fui empurrada.

Luciano Pires: O que você usou? Na hora que caiu de você ter que liderar, o que você usou? Exemplo de…

Flávia Zülzke: Além do desespero?

Luciano Pires: Do desespero. É. Exemplos que você teve? Você teve modelos do que não fazer, por exemplo?

Flávia Zülzke: Sim. Do que não fazer foram mais do que fazer. Mas o meu primeiro chefe – eu citei ele aqui – o doutor Paulo, que me veio muito na cabeça. O mês passado até – o doutor Paulo – conversei com ele por mensagem. Fazem mais de 20 anos que eu não o vejo. Era uma pessoa muito inteligente. Ele tinha propriedade do que ele estava falando. Então eu acho que é isso, quando você tem segurança e propriedade no que você está falando. Eu acho que isso acalma as pessoas que estão com você. Quando você tem um líder que desconhece o que está fazendo ou passa uma insegurança, eu acho que tudo vai ruindo. E eu acho que muito brilho no olho. Eu tenho certa paixão pela entrega, pelo resultado e pelas empresas que eu passo. Eu não consigo ficar num lugar… e já tive transições de lugares que eu falei: vixe gente, isso não tem nada a ver comigo. E eu acho que isso contamina. Eu estava conversando com o meu time agora, da Cultura, semana passada. Eu falei: eu tive uma ideia. Aí eles: não, não, não. Pelo amor de Deus. Por quê? Porque é ideia demais, às vezes. Então, eu acho que eu aprendi. Eu confesso que eu só amaciei muito tempo depois. Eu acho que como eu tinha vindo de empresas muito voltadas para venda, meta, resultado, etc. Eu acho que eu era uma líder meio trator. Então eu era muito focada, muito obstinada com resultado, com entrega, etc. Mesmo a agência sendo minha. Eu consegui uma carteira de clientes – para uma agência nova – incrível. Eu atendia Natura, eu atendia INOVATES. Eu atendia Le Postiche. Eu atendia Pfizer. Então eu tinha grandes contas ali para aquele trabalho de Below the Line ou de eventos e até, às vezes, de comunicação. E a gente conseguiu grandes contas com uma menina de 26 anos. Então eu aprendi diversos segmentos. E até me profissionalizei vendo essas empresas todas, que me instruíram. Só que eu era muito no resultado deles. Eu acho que eu só fui amaciar depois. Eu não sei se a gente já pode pular.

Luciano Pires: Vai. À vontade.

Flávia Zülzke: Depois da agência, eu fui para a Swatch, relógios. Fiquei quase três anos também. Foi incrível. Aí quando você fala de branding, eu falo: foi a Swatch que realmente me treinou e me especializou. Eu acho que a forma que eles trabalham marca é incrível, no grupo Swatch em si, não só na marca Swatch. E quando eu falo grupo Swatch, eu falo tudo: Ómega, Tissot, Rado, Breguet. Além da marca Swatch, que é onde eu trabalhava. Mas chegando no Great Place to Work, eu fiquei um pouquinho mais… eu acho que foi me amaciando.

Luciano Pires: Você foi trabalhar lá?

Flávia Zülzke: Eu fui trabalhar lá no Great Place.

Luciano Pires: Que legal.

Flávia Zülzke: Pouquíssimo tempo. Eu sou mais produto, mais varejo, etc. Mas conheci pessoas incríveis, consultores incríveis. Mas o Great Place me deu muito treinamento com parceiros que eles tinham. Eu fiz processo de mentoria, processo de coach, contratar e receber. Eu acho que eu fui olhando um lado da gestão, que eu nunca tinha olhado em todas as multinacionais que eu tinha passado, na minha própria empresa.

Luciano Pires: Gente.

Flávia Zülzke: Gente. Eu não olhei gente até então. Eu olhava resultado. E você não chega lá. Então eu acho que quando você é muito garota, você sai de uma posição de analista para coordenador, depois para gerente, você vai… você vai… só que…

Luciano Pires: É. E ser garota te dá um superpoder que maduro você não tem. Garota pode tudo.

Flávia Zülzke: É. A garota pode…

Luciano Pires: Jovem manda ver. Eu posso tudo. Eu vou dominar o mundo. Nada me atinge. Sai da frente, que eu passo por você.

Flávia Zülzke: E quando a gente é mulher líder. É aquele eterno achar o tom certo. Porque, às vezes, você tem que pegar mais pesado porque você é mulher ou porque não vão te escutar ou porque tem alguma coisa no meio. Ou porque acham que você não é técnica o suficiente para saber aquilo. Você pode fazer campanha e evento, mas você não pode fazer conta. Eu tive algumas situações durante o meu desenvolvimento de liderança, que, às vezes, a gente acaba endurecendo demais. E não é necessário. É só uma questão hoje, de posicionamento. Então eu fui aprendendo a me posicionar também como mulher líder. Porque eu já tive colaboradores homens mais velhos do que eu. Às vezes, mais experientes do que eu naquele segmento. Porque eu acabei deixando de ser uma especialista, para virar uma generalista, conforme você vai indo. E tive empresas em que eu passei que os meus pares eram todos homens. Todos. Eu sentava numa mesa com 14 homens. Então você vai aprendendo que você não precisa ser grosseira para ser líder mulher. Mas que você tem que achar o seu tom. Mas não é fácil tá? Minhas amigas sabem do que eu estou falando, nesse ponto. Então eu acho que eu endureci muito em algum momento. E depois eu comecei a amaciar. Apesar de ter uma personalidade forte, eu não nego. Eu comecei a amaciar para entender o outro. Que a gente tem que chegar, mas a gente não pode deixar ninguém sangrando. Então é esse ponto de suavizar o caminho. O caminho é mais importante do que a chegada. Eu acho que é isso que eu aprendi. Que o caminho tem que ser leve.

Luciano Pires: Até porque, se você… se você tem a imposição pela força, pela porrada, pelo: eu sou o chefe e cala a boca…

Flávia Zülzke: E no resultado também…

Luciano Pires: Você tem a imposição pela admiração.

Flávia Zülzke: Exato. É o chefe o líder da coisa.

Luciano Pires: Dos 100 chefes que você teve na tua vida, você falou duas vezes já do doutor Paulo.

Flávia Zülzke: É.

Luciano Pires: 20 anos atrás.

Flávia Zülzke: É.

Luciano Pires: O que esse cara fez com você para ele estar tão gravado assim?

Flávia Zülzke: Eu vou falar de outro, que é meu querido também. É o Tarcísio. O Tarcísio foi meu chefe, meu líder na Avianca. Eu fiquei sete anos na Avianca. O Tarcísio entrou. Eu já estava lá há alguns meses, oito meses. E Tarcísio me ensinou muito. Ele já era muito experiente na aviação. Tinha mais de 30 anos de carreira, foi Vasp, foi fundador da Gol, junto com os fundadores da Gol. E ficou na Avianca comigo sete anos também. E Tarcísio entrou de outra cultura, claro. E ele me ensinou demais. Talvez pela experiência dele, com a larga experiência dele em aviação e na vida, ele me ensinou também que briga comprar. Ele falou: vale a pena você fazer isso agora? Ele ia me suavizando. Eu acho que nessa trajetória ele me guiou muito. Ele já não era especialista no que eu precisava entregar em social, em performance, em group market. Não era mais essa… a cabeça do digital, do e-commerce. Eu tinha um e-commerce de bilhão ali na minha mão. Mas era uma pessoa que sabia me guiar. Cobrava resultado, óbvio, era exigente. Mas eu acho que após essa passagem pelo Great Place, após a minha entrada na Avianca, também foi uma pessoa que me ensinou as batalhas.

Luciano Pires: Você está falando um negócio que é absolutamente fundamental. Porque a garotada tem aquela impetuosidade de que: sai da frente, que eu passo por cima. Eu vou fazer acontecer.

Flávia Zülzke: E a gente era assim.

Luciano Pires: E tromba com coisas que não valem a pena. Para que perder tanto tempo assim? Dá a volta. Engole o sapo. Dá uma voltinha. Bota a tua energia noutro lugar.

Flávia Zülzke: Exato.

Luciano Pires: E orientar a garotada para canalizar essa energia é um desafio. Porque eles querem é passar por cima mesmo.

Flávia Zülzke: É. É um perfil diferente.

Luciano Pires: Nós já fomos assim.

Flávia Zülzke: Então? É isso que eu estava te falando: eu era essa pessoa. Sem passar por cima de pessoas. Mas, às vezes, a gente passa sem ter percebido. Então eu acho que é esse reconhecimento que não era legal. Eu acho que esse amadurecimento de pensar: não. Eu sempre fui uma líder. Uma vez, uma pessoa “x” chegou para mim – era uma garota de 30 e poucos anos, bem poucos – veio conversar comigo para resolver uma questão mais difícil de relacionamento ali. E falou: é que eu sou uma líder nata. Eu nasci para gerir. Eu entendo de pessoas. Eu sei delegar. Eu falei: eu vou morrer tentando. Porque é isso. Eu acho que o grande aprendizado é que a gente lida com pessoas muito diferentes. Eu tenho uma equipe muito heterogênea. Eu tenho 10 pessoas se reportando a mim. E eles, as suas equipes. Uma equipe de mais de 40 pessoas. E totalmente diferentes. Se eu colocar os 10 e fizer cinco perguntas, eu vou ter 50 respostas diferentes. Então, eu acho que é essa a nossa evolução: reconhecer que a gente não é perfeito. Reconhecer que, às vezes, a gente não sabe. Reconhecer que, às vezes, a gente erra. Eu tenho que acertar mais, porque senão aí é um problema. Mas que cada um recebe o seu feedback de uma maneira. Se eu der o mesmo feedback para os 10, um vai chorar. Outro vai falar: tá bom Flávia. Beleza. Vamos resolver. O outro vai refletir. O outro vai ficar P da vida. Então assim, são seres humanos. E a gente tem que observar cada um. Por isso que eu falo: a gente não vai atingir esse ápice – como ela me falou – eu sou a melhor líder, o melhor skill, a gestão. Não é.

Luciano Pires: Você tem que ter a consciência de que as decisões que você tomar, você vai agradar alguns…

Flávia Zülzke: E vai desagradar…

Luciano Pires: E é assim que funciona. Não tem jeito.

Flávia Zülzke: Demitir. Que eu falei: é uma coisa que eu vou morrer aprendendo demitir alguém. Porque pelo motivo certo ou errado. Você sabe o que você tem que fazer e o porquê. Como executivo você sabe que as decisões, às vezes, precisam ser tomadas. Mas isso não quer dizer que é fácil.

Luciano Pires: O desenho que eu fiz para isso na minha carreira, na minha vida é um iceberg. Fica com a pontinha de fora. E a parte de baixo toda escondida. Essa pontinha são aquelas formulazinhas que funcionam para todo mundo. Ser educado vale para todo mundo. Tratar a pessoa com respeito vale para todo mundo. Conversar olhando no olho vale para todo mundo.

Flávia Zülzke: Exato.

Luciano Pires: Mas embaixo da água têm coisas…

Flávia Zülzke: Tem um mundo…

Luciano Pires: Não adianta. Se eu não souber o teu momento, eu não vou ter como tratar você.

Flávia Zülzke: É. Eu tive um chefe também, que falava: essa coisa de: na minha vida pessoal eu sou assim, na vida profissional eu sou assado. Óbvio, você tem relações mais polidas em alguns momentos, porque você está num ambiente corporativo. Mas você é a mesma pessoa. A não ser que você tenha uma bipolaridade absurda e esquizofrênica. Porque não dá para você ser uma pessoa aqui e uma pessoa ali. Você tem…

Luciano Pires: Em algum lugar você vai estar fingindo.

Flávia Zülzke: Exato.

Luciano Pires: E hoje em dia é transparência. É o que mais vale.

Flávia Zülzke: É. Eu tenho feito muito isso ultimamente, de falar: gente, eu não sei. Deixa eu pensar.

Luciano Pires: Isso.

Flávia Zülzke: Não sei. Não sei. Não sei. O que vocês acham? Não sei.

Luciano Pires: Essa é a coisa mais difícil hoje em dia.

Flávia Zülzke: É. Não sei.

Luciano Pires: Porque o que tem de garotada que sabe de tudo. A internet entrou. Então todo mundo fala de tudo.

Flávia Zülzke: Sim. Mas como especialistas. E aí o especialista é aquele que sabe cada vez mais de menos coisas.

Luciano Pires: O cara não é nem especialista. Porque eu tenho uma grande audiência me ouvindo, eu posso dar a opinião de qualquer coisa. Eu falo de política, eu falo de… e não é.

Flávia Zülzke: Não dá.

Luciano Pires: E essa coisa do: espera que eu não sei. Alguém sabe? Traz aqui. Vamos discutir. Legal.

Flávia Zülzke: Traz e vamos refletir. E, às vezes, tem que dormir pensando.

Luciano Pires: Economista, mercado financeiro, companhia aérea, discos, show, uma companhia de relógio. O negócio está ficando rico aí. E aí?

Flávia Zülzke: Eu não falei da Live Nation que foi onde eu estava antes de ir para Cultura Inglesa. A Live Nation chegando aqui no Brasil há um ano.

Luciano Pires: O que é a Live Nation?

Flávia Zülzke: A Live Nation é a maior empresa de entretenimento do mundo, ela tem Ticketmaster, por exemplo, é uma empresa do grupo Live Nation. A Live Nation já distribuía conteúdo no Brasil, mas distribuía por outras produtoras, por exemplo, Lola, que a Live Nation nos Estados Unidos é dona. Parece que eles têm uma parte também já do Rock in Rio. Enfim, compram festivais.

Luciano Pires: Que ano nós estamos?

Flávia Zülzke: Em 2019.

Luciano Pires: Ontem.

Flávia Zülzke: 2019. É. Eu fiquei um ano e meio na Live. A gente fez uma turnezinha ali, Sandy e Junior.

Luciano Pires: A volta de Sandy e Junior foram vocês os responsáveis?

Flávia Zülzke: A Live Nation. É. Foram 18 shows. Ninguém esperava que fosse daquele tamanho. Eu acho que nem eles, nem os meninos, nem os empresários.

Luciano Pires: De onde nasceu essa ideia de trazê-los?

Flávia Zülzke: Pelo que eu entendi ali do contexto, deles, da família, deles. E de um trabalho de construção também, emocional, de: vamos ou não vamos? Porque obviamente, eles já estavam separados, cada um com a sua carreira consolidada e etc. E trazer tudo aquilo de volta traz um monte de sentimentos de novo. Eu acho que foi a melhor coisa…

Luciano Pires: Eu tenho uma filha e sobrinhos de 30 anos…

Flávia Zülzke: Que eles fizeram.

Luciano Pires: Eu vi a loucura dessa molecada de 30 anos quando surgiu a possibilidade de…

Flávia Zülzke: Foi muito bacana ter vivido…

Luciano Pires: Vê-los. Que legal.

Flávia Zülzke: E ver o Junior também. Ele foi um showman ali na turnê, o que ele fez ali também, todo mundo falava: o Junior está sensacional. A Sandy, obviamente, a gente sabe a estrela que é. E como é bom trabalhar com uma família, desde o marido da Sandy até os pais e etc. Você vê ali muito… o Raoni, que foi o diretor do show. Todo mundo ali. É trabalhar com uma família. Eu já trabalhei com muito artista. Mas eles são especiais. Eles merecem tudo isso.

Luciano Pires: Que legal.

Flávia Zülzke: E eles não vão mais longe porque eles ganharam esse dinheiro. Eles não vão trocar os filhos de colégio. Eles não vão trocar de casa ou de carro. Foi uma coisa mesmo de emoção. Ah, ganharam muito dinheiro. Ah, ok.

Luciano Pires: Mas eles sabem de onde vieram.

Flávia Zülzke: Mas tem que ganhar mesmo.

Luciano Pires: Tem uma coisa interessante que você está colocando. Você não precisa nem gostar da música deles.

Flávia Zülzke: Não. Claro que não.

Luciano Pires: Isso eu já escrevi várias vezes. Alguém que consegue causar um impacto, uma emoção, mobilizar cinco, 10, 15, 20, 30 milhões de pessoas, o cara não faz isso por acaso.

Flávia Zülzke: Venderam – se não me engano – quase 500 mil ingressos. Eles fizeram…

Luciano Pires: Que doideira. Eu me lembro que lotavam o show em minutos.

Flávia Zülzke: Eu me lembro que uma das conversas. Era para fazer o show num espaço pequeno aqui de São Paulo, que cabia sete mil pessoas. Mas será? Um ou dois dias. Aí eu lembro muito o Alexandre falando: não, tem que ser Allianz.  Se não a gente faz meio Allianz, 25 mil pessoas. A gente fez quatro Allianz inteiros, 45 mil pessoas por show.

Luciano Pires: Só no Allianz. Mas viajou. Eu me lembro.

Flávia Zülzke: Foram 18 cidades. Eu acho que foram 18 cidades, 18 shows. Eu já não lembro mais. Foi lotação… é absurdo. Eu nunca vi isso na vida.

Luciano Pires: Quer fazer uma conexão interessante? Vamos fazer uma conexão com: estrela brasileira…

Flávia Zülzke: Ah sim.

Luciano Pires: De novo: o que é?

Flávia Zülzke: É branding.

Luciano Pires: Tem Sandy e Junior na cabeça da moçada. Quando você traz de volta, todo mundo. Eu pulava com seis anos de idade. Agora com 30 eu quero ver de novo.

Flávia Zülzke: Eu acho que foi uma decisão muito sábia da Rogéria, que é a empresária deles, do Pietro. Eram três ali junto com eles. E eles participaram da construção, desde o logo, desde o nome da turnê, desde o cenário. Eles montaram palco na fazenda deles para fazer todos os ensaios. Foi uma construção dessa volta da memória afetiva, trabalhando com os fãs famosos deles. Que eram maiores nas redes sociais, até do que eles mesmos. Você pegar uma Fernanda Gentil, uma Tatá Werneck. São pessoas que são gigantes em redes sociais. E são fãs famosas deles. Eles selecionaram e ganharam golden tickets para entrar em qualquer show, enfim. E aquilo foi de uma forma espontânea. E aí eu confesso que o meu trabalho de marketing ou de divulgação daquilo foi pífio. Não é o meu case pessoal, porque foi um prazer ter participado de tudo isso.

Luciano Pires: Legal.

Flávia Zülzke: E ter visto isso de perto. Muito pelo contrário, o que eu tive que fazer foi tirar a mídia da rua. Porque a gente entrou com um plano de mídia para vender. E vendeu tudo em uma hora. E aí o que você faz com a mídia? Frustra quem não consegue comprar? Então a gente teve que tirar. Mas ao mesmo tempo, a gente tinha uma série de patrocinadores que queriam a visibilidade daquilo e que você colocou em contrato, que você tinha que entregar aquela visibilidade. Então a gente teve que criar outra campanha, mas de agradecimento, para aparecer as marcas, para as marcas figurarem ali como uma patrocinadora do show.

Luciano Pires: Gerenciar o sucesso.

Flávia Zülzke: Gerenciar o sucesso. Foi um case bem interessante. Eu surfei na onda deles.

Luciano Pires: Vamos chegar na Cultura?

Flávia Zülzke: Vamos chegar na Cultura.

Luciano Pires: Como é que surgiu o convite? Como é que surgiu a oportunidade?

Flávia Zülzke: Eu falo que Deus foi bom para mim. Porque quando começou a pandemia, eu estava na Live Nation. A gente já estava com uma série de shows marcados. Eu tinha Billy Elliston, Hair Stylist, turnê de Metallica. Estava tudo marcado já para 2020. Obviamente um headhunter me procurou. Eu estava em dois processos: um de uma rede de hotéis e o da Cultura Inglesa. Eu falei: Cultura Inglesa. Que interessante. A minha mãe foi aluna da Cultura Inglesa. Que legal. Eu sei que é grande e tal. Eu não entendia direito como funcionava. E estava participando dos processos, mas como porta aberta. Começou a pandemia. Obviamente a rede de hotelaria parou o processo. E a Cultura Inglesa eu achei que ia parar também. Ficou uns 15 dias sem me ligar. Mas continuou o processo.

Luciano Pires: Foi um headhunter que te achou?

Flávia Zülzke: Foi um headhunter que me achou

Luciano Pires: Então pausa aqui. A gente continua daqui a pouquinho.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Muito bem. Você está no LíderCast. O LíderCast é lançado por temporadas. Os assinantes da Confraria Café Brasil e Café Brasil Premium têm acesso imediato à temporada completa, assim que ela é lançada. Os não assinantes receberão os programas gratuitamente, um por semana. Para assinar, acesse mundocafebrasil.com e conheça nosso ecossistema do Café Brasil Premium através do site ou pelos aplicativos para IOS e Android. Você pratica uma espécie de MLA, Master Life Administration, recebendo conteúdo pertinente, de aplicação prática e imediata, que agrega valor ao seu tempo de vida. São VídeoCasts, sumários de livros, PodCasts, e-books, eventos presenciais. E a participação em uma comunidade nutritiva, onde você faz um networking com gente como você, interessada em crescer. Volta uma coisa atrás aqui, que eu acho que também dar uma conversada é interessante. Eu conversei com um monte de gente que quando começou a pandemia, os caras: que mundo é esse? Dono de restaurante, quem tinha empresas de eventos…

Flávia Zülzke: Surtaram…

Luciano Pires: E essa turma foi vendo o negócio deles desmanchar de uma forma que eles não podiam imaginar. Não é possível que isso vai acontecer.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: A última pessoa que sentou aqui foi o Giba, que tinha uma empresa que faz trabalho de promoção. Promotores. Então a Sony contrata promotores. Eles vão no ponto de venda, ficam mostrando o equipamento e tudo mais. E ele tinha quase dois mil funcionários. Que eram caras que ficavam em ponto de venda. Então quando a coisa parou. Parou 15 dias. Ele, tranquilo. De repente, os clientes começaram a ligar e falar: eu não vou conseguir te pagar. Ele: mas eu tenho 300 promotores…

Flávia Zülzke: Não tem salário…

Luciano Pires: Não importa. Eu não posso te pagar. E ele começou a assistir a empresa dele quebrar na frente dele. Ele com uma folha de pagamento de seis milhões. Ele falou: eu não tenho como segurar. Aí não dorme mais. Foi uma loucura. Amigo meu que tinha restaurante. E de repente o cara…

Flávia Zülzke: Eu vi uma série…

Luciano Pires: Mandar embora o meu funcionário que tem 30 anos comigo.

Flávia Zülzke: Na área de marketing também.

Luciano Pires: Como que é isso numa multinacional? Você está lá dentro de uma multinacional, que é um negócio gigante. Todos esses shows milionários contratados. Cai um. Cai dois. Cai três. Quando é que cai a ficha de que o bicho vai pegar?

Flávia Zülzke: Eu não consegui ficar até esse ponto. Porque eu acabei saindo no começo de abril. Então a pandemia tinha acabado de começar. Fazia um mês. O que eu fazia ali na gestão das campanhas, dos shows era suspender as campanhas. E fazer um mapeamento do que tinha. Tinha muita permuta também, de ingresso. E deixar. E avisar. Só que eu acho que nesse caso, pelo menos a parte de marketing teve muita parceria das rádios, das emissoras. Todo mundo que tinha esse tipo de contrato, eu acho que acabou somando. Óbvio, tem um problema ou outro para resolver, de coisas que já tinham sido rodadas e tal. Mas o fato é que o dinheiro que ia entrar não entrou. Então eu imagino que eles devam ter sofrido muito. Sei pelos meus colegas. Óbvio. Parou. Tem uma parte do mercado que é CLT e uma parte do mercado é por job. Você vai pôr show. Então foi um mercado que sofreu demais, como todo o mercado de eventos e de entretenimento, um dos, senão o mais afetado ali. Porque não tinha nem meio termo. Live. Mas live não emprega nem um centésimo desse povo todo que vendia show e teatro e musical e etc. Foi muito sofrido. Eu vivi isso, porque eu tenho muitos amigos no entretenimento. Mas eu fiquei depois, acompanhando de fora, porque eu entrei na Cultura no final de abril.

Luciano Pires: Em abril. Logo no começo da pandemia.

Flávia Zülzke: Então eu comuniquei eles no começo. Fiz ainda uma transição ali de entrega. Mas não tinha o que fazer. Porque a minha conversa com eles era: a gente segura seu contrato até maio. Mas devem voltar os shows em julho. A gente ainda estava com essa cabeça. Em julho volta tudo. Isso lá em março. E eu falei: entre sair e ficar esperando para depois tentar voltar. E eu tive uma proposta da Cultura muito interessante. Num momento importante de transformação empresarial que a empresa vem tendo. Empresarial mais do que digital. Eu acabei aceitando a proposta, porque também tinha um desafio de marca muito interessante.

Luciano Pires: Que legal.

Flávia Zülzke: De uma marca mega charmosa. Então eu acho que foi essa movimentação. Eu estava na Live Nation há um ano e meio, nem isso. A gente estava começando a bombar no Brasil. Eu acho que a gente fez 60 shows em 2019. Em 2020 ia fazer muito mais. Então foi um momento de transição, pela crise global.

Luciano Pires: Voltemos ao branding. O que me atraiu em chamar você aqui foi quando eu li Cultura Inglesa. Eu falei: opa. Tocou um sininho aqui. Quando eu li Cultura Inglesa, eu: opa. Veio tudo que tem acumulado aqui de Cultura Inglesa. Tradicional. Idiomas. Aquela coisa grande. Eu falei: o que está acontecendo lá? Qual era a proposta da Cultura Inglesa para você chegar? O que estava acontecendo lá?

Flávia Zülzke: Primeiro: eles agindo rápido para mudar até então, dezenas de filiais, para o ensino remoto. Então o presencial saindo das escolas e indo para o remoto. Uma escola que tradicionalmente…

Luciano Pires: Já tinha remoto?

Flávia Zülzke: Não.

Luciano Pires: Isso é que nem restaurante. Você tem que montar um delivery.

Flávia Zülzke: É igual escola. A escola presencial foi para o remoto.

Luciano Pires: Você tem que montar um delivery do dia para a noite.

Flávia Zülzke: E ali você tem criança, jovem e adulto. E aí você tem professores que sempre deram aula no presencial. E tem a ferramenta. E tem que adaptar. Quando eu entrei no final de abril, em maio mesmo, no game, eles já tinham feito essa transição para o remoto. Obviamente que as plataformas ainda não estavam prontas. Mas o pessoal do acadêmico, sensacional. Eles fizeram muito rápido, uma plataforma que eles colocaram no ar – se não me engano – em agosto. E começaram a criar uma série de atividades extraclasse. Porque a gente tem muito esse DNA do Cultural. Então criaram várias atividades síncronas, ao vivo, pela internet, de canto, de atividades até com crianças, para ter mais do que a entrega além da aula, além da sala de aula. E aí construíram a plataforma, que a gente chama de plataforma gameficada, de experiência gameficada. Que é uma plataforma hoje que já evoluiu nesse ano e meio, ela inteira. É maravilhosa. E aí o remoto não virou uma…

Luciano Pires: Uma alternativa…

Flávia Zülzke: Um jeitinho ali. Ela é um produto hoje. Porque a gente começou a perguntar: você vai voltar? Você não vai voltar? Você quer voltar para o presencial? Você quer ficar no remoto? E a gente viu que tinha um percentual que queria ficar no remoto, que se adequa ao modelo. Então a gente tem um produto remoto hoje muito bem construído. Com uma plataforma de experiência gameficada que vai para o presencial e vai para o remoto, porque você pode usar nos dois ambientes. Porque é uma atividade assíncrona, que você pode fazer o tempo inteiro. E passamos por uma transformação digital a fórceps ali no início da pandemia.

Luciano Pires: É difícil falar assim. Mas tem um lado positivo da pandemia, que foi obrigar a gente a mudar…

Flávia Zülzke: A situação nos levou…

Luciano Pires: Nós derrubamos todas as barreiras. Porque até então: eu não gosto de fazer reunião online. Pega o avião e vem aqui. E, de repente, você é obrigado a fazer e descobre: não é tão ruim. Funciona.

Flávia Zülzke: Eu acho que já estava no pipeline a transformação. O time do Marcelo Dalpino, que é o diretor acadêmico, já estava no processo da plataforma. O que teve que fazer é um Plano A, mais simples, para antecipar e começar. Uma coisa que, talvez, fosse dali a um ano, virou uma coisa dali a meses. Ou dois anos. E agora a gente coloca ela sempre. Cada ciclo, a gente coloca ela melhor.

Luciano Pires: O dia que voltar ao normal possível, vocês vão ter o presencial mais o online.

Flávia Zülzke: Já temos. Já estamos no presencial e já estamos no remoto. A gente percebe uma adesão maior das crianças para o presencial. Porque tem toda a parte de sociabilização, da professora, dos amiguinhos. E você se sociabilizar em inglês, das atividades extraclasse; do entretenimento ali, ao vivo: o teatro, o canto, etc. O que é muito bacana para a criança. Os adolescentes também. Agora, eu tenho adultos. Por exemplo, eu tenho dois no meu time, dois coordenadores, que estão fazendo presencial. Não gostam do remoto. Eu já sou uma pessoa do remoto.

Luciano Pires: Até porque o remoto exige um lance de disciplina que é complicado. Porque o presencial eu tenho dia e hora para estar lá. Eu tenho que estar numa sala obedecendo a regra do jogo. Então me guia que eu vou seguir.

Flávia Zülzke: Eu acho que tem que respeitar. Eu acho que agora a gente entender que eu posso ter 40 anos e me dar bem no remoto. E pode ser um cara que tem 40 anos e quer presencial. É o estilo dele.

Luciano Pires: Lembra do iceberg?

Flávia Zülzke: É. Então? E eu acho que aí respeitando cada um. Como que a pessoa se desenvolve. E eu acho que o que a Cultura obviamente tem de melhor sempre foi o ensino, a qualidade dos professores, que são incríveis. E é por isso que tem toda essa tradição.

Luciano Pires: A Cultura te trouxe para isso?

Flávia Zülzke: Para quê?

Luciano Pires: Para essa migração? Ela falou: precisamos de alguém agora para conduzir essa mudança, essa migração?

Flávia Zülzke: Eu acho que sim. É uma mudança de plataforma. Porque eu acho que é um time bacana. Mas a gente também ainda tinha uma área muito analógica. A gente era muito mais off do que on. E no momento que você não capta nas unidades que estão todas fechadas, você tem que captar online. Então tinha também uma mudança importante de investimento.

Luciano Pires: É franquia?

Flávia Zülzke: Não.

Luciano Pires: Não é franquia são escolas próprias?

Flávia Zülzke: São Paulo, Santa Catarina e Bahia, que é até onde a gente estava em 2020. São todas próprias. As unidades são todas próprias. Os prédios, etc.

Luciano Pires: Quantas eram?

Flávia Zülzke: Eu acho que era 48, alguma coisa assim. Temos 40. Só que no meio da pandemia também, o que aconteceu? A oportunidade da aquisição do núcleo do Rio de Janeiro. Que é: Rio de Janeiro, Brasília, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Tocantins. Compramos do grupo Spot, mais esse núcleo. E hoje já somos nove estados. Oito estados de distrito federal.

Luciano Pires: Vocês compraram outra empresa…

Flávia Zülzke: De culturas inglesas. Eram núcleos. Então muito mais fortes agora, com mais de 70% do território. E obviamente para competir. A gente compete muito melhor.

Luciano Pires: Isso aconteceu quando, essa aquisição?

Flávia Zülzke: Março.

Luciano Pires: Agora?

Flávia Zülzke: O [inint 00:57:04] foi em março.

Luciano Pires: Em dois anos a empresa vira de ponta cabeça. Porque ela…

Flávia Zülzke: É. Eu estou lá há um ano e sete meses. A gente mudou tudo.

Luciano Pires: Ela muda plataforma e adquire uma…

Flávia Zülzke: O que fica é a qualidade. É o ensino. São os professores que estão com a gente, que a gente sabe que é o nosso maior (inint 00:57:25]. Ali realmente é a qualidade do ensino, que perpetua: o meu filho vai fazer Cultura Inglesa, porque eu fiz Cultura Inglesa. Eu faço Cultura Inglesa. Mas aí entra no proud to be, do orgulho de ser Cultura Inglesa.  Eu me arrisco a dizer – desculpem os meus concorrentes – que é aquela coisa do aluno que fez Cultura Inglesa, eu encontro em mesa de bar: eu fiz Cultura Inglesa, adorava. Eu tenho amigos da Cultura até hoje. Porque a gente tem dentro das unidades esse espaço de convivência, espaço multimídia, jogos, etc. A Cultura Inglesa é realmente um life style. A gente passa por ter isso. Tem gente que nem fala onde estudou inglês. Fala: eu fiz inglês. Quem fez Cultura Inglesa fala: eu fiz Cultura Inglesa. Então está aí a resposta. Quem faz Cultura Inglesa fala que fez. E aí é o nosso próximo slogan, que a gente vai lançar agora em janeiro, que é: quem faz Cultura Inglesa fala. E a gente sempre fecha: eu fiz Cultura Inglesa. E junto com isso, a gente entra com uma linha de produtos de fan store. Agora a gente vai ter uma fan store nossa de produtos de merchandising. Mas não só com o logo da Cultura Inglesa. A gente vai ter essa linha, que é a traditional, que vai trazer o logo desde 1920. A Cultura tem quase 90 anos. Vai ter todas as coleções de logo. Vai contar essa história para os ex-alunos, para os alunos e para os colaboradores, que estão doidos para comprar. Aí você vai falar: Flávia, mas você está querendo vender seu produto. Não. Toda a receita da loja vai ser revertida em causas sociais. Sócio culturais. Porque aí entra a Cultura Inglesa que ainda pouca gente conhece. Eu tenho certeza que você não conhece. A Cultura Inglesa não é uma multinacional. A Cultura Inglesa é uma instituição, uma associação sem fins lucrativos. Onde a receita é revertida em causas sociais e culturais.

Luciano Pires: Já é assim hoje?

Flávia Zülzke: Sempre foi aqui em São Paulo. Então, quando você vai numa unidade de Paraisópolis, que você mais de 1.300 alunos estudando gratuitamente, com as mesmas condições de todas as outras unidades. Uma unidade lindíssima que a gente tem em Paraisópolis. Quando você pega, além disso, mais centenas de bolsas que a gente oferece, graças aos nossos alunos e aos nossos ex-alunos, que conseguiram construir tudo isso. São milhares de bolsas sociais. E o festival que a Cultura sempre foi famosa, dá shows grandes, Lily Allen… também. É gratuito. A gente não cobra por isso. Toda essa entrega cultural, de atividades culturais nas unidades, teatros, etc. É tudo gratuito. Porque fez parte do nascimento da divulgação da língua e da cultura.

Luciano Pires: Era isso que eu queria pegar. Eu posso aprender a falar muito bem inglês numa escola. E não preciso dizer onde foi. Não tenho interesse nenhum em dizer onde foi. Eu estudei lá e aprendi a falar inglês. Mas você está me dizendo que a Cultura tem toda uma ambientação ali. Da onde vem isso aí? Alguém teve essa visão um dia lá atrás e falou: é aí que nós vamos…

Flávia Zülzke: Sim. É a nossa missão. Ampliação e divulgação da língua.

Luciano Pires: Mas da onde vem isso aí? Vem os gringos falando e dizendo o seguinte: a gente quer…

Flávia Zülzke: São eles mesmos, os britânicos. Nós temos um Conselho britânico até hoje. Ou seja, eles não recebem nada por isso. A gente tem um Conselho maravilhoso, que mantém essa missão. Porque foi criada a associação para a divulgação da língua.

Luciano Pires: Se eu for na África tem uma Cultura Inglesa na África, igual?

Flávia Zülzke: Não. No Brasil sim, mas…

Luciano Pires: E na Argentina?

Flávia Zülzke: Não.

Luciano Pires: É só no Brasil?

Flávia Zülzke: É no Brasil. Tanto que no prédio da Cultura Inglesa. Não sei se você conhece. Ali na Ferreira de Araújo. Tem o Consulado Britânico.

Luciano Pires: Eu acho que eu nunca fui lá.

Flávia Zülzke: Tem o Consulado, tem o British Council, tem a BBC, ficam todos dentro do prédio da Cultura Inglesa. A gente chama Centro Brasileiro Britânico.

Luciano Pires: Entendi.

Flávia Zülzke: Ou Centro Britânico Brasileiro. Enfim. É o nosso prédio. O prédio da Cultura. Então tem todas as empresas lá dentro trabalhando realmente com esse objetivo de divulgação da língua. Não o inglês britânico. A gente dá aula de inglês. Não é o britânico. É o inglês. A língua inglesa. E eu acho que essa associação, essa causa, esse é o meu maior desafio como branding. Porque pouca gente conhece. Que escola pode falar – como a gente – que a sua matrícula vai reverter numa oportunidade de transformação?

Luciano Pires: E isso está sendo valorizado muito hoje.

Flávia Zülzke: É escolha consciente, total.

Luciano Pires: Isso aí. Uma coisa interessante. Quer dizer, você quando chega na Cultura Inglesa, você se depara com um desafio ali que é uma mudança – não é modelo de negócio – é uma mudança da forma como o ensino vai chegar nas pessoas.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Se era presencial, agora vai ter aqui o online, eu vou ter que te explicar que o online tem vantagem, como funciona, que o nosso é muito bom. Então tinha um trabalho teu de criar esse branding lá para fora. E, de repente, a Cultura compra outra parte gigante. E aí o desafio é interno.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Não é mais lá fora. Agora é interno. Agora eu vou ter que fazer o tal do endomarketing, aquela história toda.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Está com você isso também? Essa coisa de levar a cultura interna para alguém que foi adquirido?

Flávia Zülzke: Sim. Então? Agora entra o meu desafio. Eu há dois meses assumi esse núcleo do Rio de Janeiro, que tem uma marca, um logo, totalmente diferente do nosso.

Luciano Pires: Quando você fala assumir o núcleo é assumir o marketing?

Flávia Zülzke: É uma BU, é uma Business Unit. É uma unidade de negócios. Porque se você for comparar São Paulo e Rio, os núcleos são vários estados em cada um deles. A gente tem produtos diferentes. Com duração diferente, com nome diferente, com livros diferentes. O que nos une é a qualidade de ensino. Porque lá no Rio ou aqui em São Paulo, as duas são muito premiadas. São top of mind. São as marcas mais lembradas. Ganha prêmio todo ano. Mas quando você olha as características do produto oferecido para o aluno é muito diferente. É isso que eu te falei: o logo é diferente. O produto é diferente. O sistema é diferente. Então agora a gente passa por uma mudança gigante, de alinhamento de sistemas. Alinhamento de logotipo, de marca, de propósito. Leva mais essa missão sociocultural para o Rio – que não tinha – porque era uma empresa privada. Então a gente vai fincar uma bandeira sociocultural lá em breve. Então a gente leva toda essa cultura e faz um branding a partir de abril, da marca Cultura Inglesa no Rio. Ou seja, a gente sai a marca das setinhas. Entra para a história.

Luciano Pires: Não tinha nada da Cultura Inglesa?

Flávia Zülzke: Aonde?

Luciano Pires: No Rio de Janeiro?

Flávia Zülzke: Tem. Fortíssima.

Luciano Pires: O que tinha lá? Já tinha uma operação dela grande lá?

Flávia Zülzke: Sim. Centenas de milhares de alunos. Dezenas de unidades. Era tão grande quanto a de São Paulo. Só que agora eu preciso contar para os cariocas, para os gaúchos, que essa marca da setinha vai entrar para a história. Ela vai desaparecer. Mas ela vira história. E o leão da Cultura Inglesa, que é tão tradicional aqui… a marca da setinha lá é tão tradicional quanto o nosso leão aqui. Só que o nosso leão faz parte da história de evolução da marca. Então a gente leva o leão para o Rio de Janeiro em abril. Em abril unificamos campanha. Unificamos toda a parte de comunicação. E é um trabalhão. Você tem que pegar dezenas, milhares de alunos e falar: agora não é mais essa. Agora é essa.

Luciano Pires: Mas aí você está conversando com os alunos.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Como que é o povo que foi comprado? A turma toda que veio, que está acostumada a atender o telefone e falar o nome de uma empresa. E, de repente, ela vai ter que falar o nome de outra empresa no telefone.

Flávia Zülzke: É Cultura Inglesa. É a mesma empresa.

Luciano Pires: Sim.

Flávia Zülzke: Esse é o menor problema. Porque é Cultura Inglesa. Vai continuar sendo Cultura Inglesa. O que vai mudar realmente é a marca. A aplicação do logo. Mas tem um grande processo de transformação também, porque a gente está num momento hoje de olhar o que cada um faz de melhor e escolher. Então: quem tem o melhor sistema? É aqui para o financeiro. Para o marketing. Ferramenta de CRM. Vai mudar? Não. Vai permanecer. Então agora a gente fez uma integração aí que já passa de seis meses. E agora a gente passa para o ano que vem já definindo como vai ser. Então todo o mapeamento de processo, operação, sistema, fornecedor já foi feito. E agora a gente começa. Para a pessoa, para os colaboradores, o que eu convivo agora com o meu time – eu tenho um time, eu acho de 18 pessoas lá – no começo é assustador. Porque você foi adquirido. E eu, como que eu fico? Já tem gente que faz o que eu faço lá? Quem que vai ficar? Primeiro: a transparência. Eu falo: nós vamos precisar de todo mundo. É uma operação que vai permanecer ainda com produtos diferentes no decorrer de dois, três anos, ainda, para frente. A gente não tem essa obrigatoriedade agora de redução. Então, tranquilizar. Eu acho que a minha missão lá – e eu acho que consegui, pelo menos na minha área, eu estou falando – é tranquilizar as pessoas e falar: gente, eu preciso de vocês aqui. E a BU do Rio de Janeiro vai continuar assim. O que a gente vai passar é por um processo de otimização de processos e recursos. Eu não preciso ter duas ferramentas de pesquisa. Eu não preciso ter duas plataformas de inbound. Eu não preciso.

Luciano Pires: Claro.

Flávia Zülzke: Então agora a gente vai escolher e vai seguir. E tem uma equipe muito boa lá. Comprou bastante o meu propósito. E gostam. O leão é simpático. A gente já fez pesquisa. O leão é uma marca simpática, que a gente pode fincar bandeira agora. E agora levar o propósito sociocultural, mais importante. A gente: está aqui. A gente quer vender matrícula. A gente tem metas agressivas, como qualquer multinacional. Porém, esse retorno é sociocultural.

Luciano Pires: Voltando para aquele assunto que você falou logo no começo lá, da visão das pessoas. Numa aquisição como essa aí – eu passei por algumas, cinco ou seis no meu tempo – aquilo que o dinheiro pode comprar, a gente consolida.

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Tudo que você faz com dinheiro, consolida. Agora, tem coisa que o dinheiro não compra. Então, um sujeito talentoso…

Flávia Zülzke: Muitas…

Luciano Pires: Alguém muito talentoso.

Flávia Zülzke: Retenção…

Luciano Pires: Você fala: esse dinheiro… não vem… esse aí… então esse é o momento em que as pessoas têm que aprender a… eu fiz um trabalho grande de revisão de planejamento estratégico brutal com um banco. Eu não vou falar qual é o banco agora. Mas era um banco conhecido. O processo andou. Na hora de eu entregar o trabalho. Estava assim: pronto para entregar. Esse banco tinha sido recém adquirido por um banco internacional. E aí os caras pegam e vêm conversar comigo. O diretor falou: a gente foi adquirido. Eu não sei o que vai acontecer. Eu falei: agora é hora de você entender a língua desses caras aí e começar a falar na língua deles para mostrar que…

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Não deu tempo. Eles me ligaram antes da entrega e falaram: cancela tudo. Por que… uma semana depois tinham passado o rodo. E não houve tempo de você falar: olha quanta gente talentosa tem aqui.

Flávia Zülzke: Eu acho que no começo o medo era maior. Agora já passou. A gente publicou em março a aquisição. Passou aí uns oito meses. Eu acho que as pessoas já entenderam que não ia passar o facão. Eu também trabalhei numa empresa que foi adquirida. E você fala: e agora? Eu fico até quando? Então eu acho que esse momento de instabilidade das pessoas, no começo, eu sentia mais. Hoje eu sinto bem menos.

Luciano Pires: Quais são os truques, Flávia? Conta para mim. Quando você vê acontecer uma coisa dessas. Você foi adquirida. O que passou na tua cabeça? O que eu preciso fazer agora para não ser só mais um número, onde vão passar o rodo aqui e eu vou dançar. O que você fez? Você como indivíduo agora.

Flávia Zülzke: Eu acho que num primeiro momento, talvez, por causa da imaturidade, eu me encolhi. Isso lá no meio da minha carreira. Eu não estou falando de agora. Eu estou falando lá no meio da minha carreira. Eu acho que eu falava: tem gente melhor. Porque chega gente nova. Gente supermoderna. Mais novos do que eu. Eu falava: eu vou ficar em desuso aqui. Eu acho que num segundo momento, quando realmente a coisa tem que acontecer, você percebe o quanto você é importante na estrutura. Você toma mais força. Então, eu acho que esse primeiro momento que eu passei nessa outra empresa – eu não vou citar o nome – eu me encolhi durante uns dois meses. Depois eu falei: não. Deixa eu ver o que vai acontecer. Você se acua. Por isso que eu sei o que os meus colaboradores estão passando. Eu percebo. E aí eu chego e a gente vai para conversar. Porque ele fala: vem gente nova do mercado. Falando diferente da tua língua, falando inglês. Um termo técnico novo. E a pessoa se recua e se encolhe. Num segundo momento que eu vi que ou entrava no game ou o negócio não ia andar. Porque eles precisavam do meu know-how ali, da minha resiliência de decisões e etc. Eu cresci.

Luciano Pires: De novo isso: hoje você se encolheria outra vez ou não?

Flávia Zülzke: Não. Eu acho que hoje não. Eu acho que depois dessa primeira situação teve uma segunda, na mesma empresa, anos depois. E eu acho que já foi totalmente diferente. Entendendo os movimentos de mudança como parte do game.

Luciano Pires: Certo.

Flávia Zülzke: É o jogo. Você está numa empresa. Você está numa multinacional. Você está numa empresa. E tudo vai mudar o tempo inteiro. Essa coisa de: não, não vai. Mexeram no meu negócio. Vai. Vai mudar. É o business. Tem que progredir. É um todo. É maior do que a gente. Então você tem que entender. Não adianta desesperar. Eu acho que eu fiquei muito mais calma para esse tipo de coisa. Não me assusto. Me preocupo dependendo da condução do negócio. Mas é mais do que se encolher. Eu acho que a gente se encolhe, quando a gente fica inseguro. Mas eu acho que a gente vai ganhando. Como eu falei para você que eu suavizei. Eu acho que eu também aprendi que não adianta se encolher. Se eu estou ali é porque eu tenho know-how. É porque eu tenho anos de mercado. Eu tenho alguma coisa para contribuir. Eu posso não ser a melhor. Mas sou boa no que eu faço. Então é isso. Eu acho que é ser humilde para escutar quem está entrando, para saber o que vai acontecer. Encarar aquela situação com humildade. Mas também se colocar ou bater de frente, quando é necessário, para a coisa sair do jeito certo. Não se encolher mais. Eu passei por dois momentos muito diferentes na mesma empresa. Porque eu fiquei muitos anos. Então ali foram dois momentos muito tensos. E eu acho que o segundo, eu reagi melhor.

Luciano Pires: A minha só comprou. Até ser comprada.

Flávia Zülzke: Aí você sentiu. Aí é o duet. Duet.

Luciano Pires: De ponta cabeça. E teve um lance interessante lá, que a gente tinha uma operação aqui no Brasil. Era o lugar que mais ganhava dinheiro no mundo. Uma operação de venda para o mercado de autopeças, de reposição de autopeças. E aí um belo dia veio uma ordem de lá: nós vamos vender a área de reposição de autopeças no mundo. E vocês vão junto. E a gente: como assim? Era o melhor negócio aqui. Vai vender.

Flávia Zülzke: Então? Apesar de você ter um super cargo, você nem estava sabendo.

Luciano Pires: E a gente brigando: mas não pode. Não pode. Veio uma ordem de lá. Eu falei escuta: vocês no Brasil são um negócio de 180 milhões de dólares. Nós estamos vendendo esse negócio de 2 bi. Então a decisão é em 2 bi. Seus 180 não valem nada. Então cala a boca. E segue adiante.

Flávia Zülzke: É. É maior que a gente. Não tem jeito. É maior.

Luciano Pires: Olha o tamanho disso.

Flávia Zülzke: Eu lembro uma vez na Swatch, uma pessoa lá da Suíça, porque reportava. Ela falou: Flávia, o Brasil é duas horas de um dia de produção… assim, que a nossa representatividade no grupo era duas horas de um dia de produção. Ou seja, nada. Vamos fechar o Brasil. Fecha. São 40 lojas. Fecha. Você entende?

Luciano Pires: Sim.

Flávia Zülzke: Então, você tem que entender o tamanho que você é no todo. Fala: mas são pessoas. São. São pessoas. Mas você está dentro de um negócio. Não dá para eliminar o fato de que você está dentro de um negócio.

Luciano Pires: Sem dúvida. Fala um pouquinho para mim, para a gente caminhar para o nosso fechamento aqui. A gente começou falando do bichinho do empreendedorismo que estava dentro de você lá. E pelo que eu estou vendo a tua marca é o intra-empreendedorismo. Você é uma empreendedora interna?

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Não está lá fora. Esteve lá fora já. Com essa história de: tudo depende de mim. Eu tenho que me virar. E agora você está dentro de outro ambiente lá. Mas você vai ser bem-sucedida se você for uma intra-empreendedora. Que é ter algumas características do empreendedor e aplicar dentro do negócio. E tem gente que acha que não dá. Fala: empreendedor é o cara que está sozinho. Eu tenho uma imagem que eu escrevi há um tempo atrás. Que eu falo que a diferença do bungee jump para o wingsuit. Os dois caras pulam do alto de um morro. E se jogam num buraco. Um deles tem uma corda presa no pé. Esse é o cara do interno. Se quebrar tudo, tem uma empresa em volta de mim. Tem o nome da empresa. Segura as pontas. Tem o jurídico.

Flávia Zülzke: E vai embora.

Luciano Pires: O outro bota o wingsuit e não tem nada prendendo. Se ele errar, ele bate na parede e morre. Os dois se atiram. Um está por si. E o outro tem a corda segurando ele ali. Mas são dois… eu preciso ter o mesmo esquema, eu preciso ter coragem. Eu tenho que me atirar. Eu tenho que me jogar num buraco. Como é que você encara essa coisa aí? Você que experimentou o empreendedorismo…

Flávia Zülzke: Sim. Real.

Luciano Pires: O wingsuit. E durante muito tempo o empreendedorismo do bungee jump? Que diferenças você vê? Como é que você aproveitou o de um no outro? Como é que você fez?

Flávia Zülzke: O meu desafio de Cultura, de empreender internamente é realmente dizer o que é a Cultura Inglesa. Porque eu acho que pouquíssima gente sabe. Eu acho que a gente tem um desafio social, de transformação social. Quando a gente vai fazer uma entrevista de um estagiário ou de um assistente, que o inglês é um dos motivos de descarte ali no processo. A gente precisa dar essa oportunidade. A gente precisa contar para as pessoas que se você botar os seus filhos na Cultura Inglesa, você também vai estar dando uma oportunidade para outra pessoa. Eu acho que a gente tem que fazer essa mensagem chegar de alguma forma. Eu acho que a gente tem essa responsabilidade. Porque a gente é a única escolha consciente. E a gente tem qualidade para entregar. Então eu acho que eu tenho esse grande desafio agora em 22, agora que a casa está arrumada. A gente transformou a área realmente. Tem uma equipe de [inint 01:16:23] de inteligência de mercado. Coisas que a área não tinha e agora a gente tem. Como fornecer dados e inputs e ser produtivo e sustentável. Obviamente que a gente perdeu – como todo o mercado perdeu, no meio da pandemia – mas a gente já está em fase de recuperação. E agora recuperando, tirar a cabeça para fora e falar: a Cultura Inglesa tem o objetivo de transformação social, de igualdade de oportunidades.

Luciano Pires: Esse é o valor que vai ser trabalhado então? Porque ninguém vai perguntar para você se você sabe ensinar inglês ou não…

Flávia Zülzke: É o valor…

Luciano Pires: Ninguém vai perguntar: aqui dá para aprender inglês?

Flávia Zülzke: Está na missão, está na parede. Mas se eu perguntar para os milhões de alunos que já passaram pela Cultura Inglesa, milhões. Eu ainda quero chegar nesse número. Eu não consegui. De quantas pessoas já fizeram Cultura Inglesa no Brasil. Eu tenho certeza que não sabem que eles ajudaram centenas de milhares de pessoas a estudar inglês e ter oportunidades. A gente tem aluno nosso de bolsa, que está em Nova Iorque, fazendo Harvard. A gente tem um monte de aluno que é case de sucesso, porque teve a oportunidade da língua inglesa. A gente sabe o quanto limita e o quanto isso é importante. O que as pessoas não sabem é que se ela está considerando duas escolas, ela vai estudar numa que realmente tem um direcionamento social muito sério. E se isso for um valor dela também, ela vai nos escolher. Tenho certeza. Porque ela vai gerar essa oportunidade. É isso.

Luciano Pires: E tem tanta empresa que…

Flávia Zülzke: E é real…

Luciano Pires: Que tem esse poder na mão e…

Flávia Zülzke: E é real…

Luciano Pires: Eu tive um case de uma empresa chamada…

Flávia Zülzke: A gente tem e não fala.

Luciano Pires: Tem uma empresa chamada DKT. Fabrica preservativos, geolubarificantes na marca Prudence, que é uma marca muito conhecida no Brasil. Esses caras me chamaram para a gente conversar e patrocinar o PodCast. E eu fui sentar com eles para conversar. E o primeiro papo que veio é o papo de: camisinha, a Prudence…

Flávia Zülzke: Sim.

Luciano Pires: Eu falei: maravilha…

Flávia Zülzke: Sim. Mas tem uma causa também social…

Luciano Pires: Deixa eu ver esse teu case aí. A causa dos caras é um negócio impressionante. Parte do dinheiro vai para salvar vidas na Índia. Eu falei: você tem um case maravilhoso. Não vamos mais falar de Prudence. Fala da DKT. Conta para as pessoas que a hora que ela for comprar um preservativo, parte do dinheiro dela está indo salvar a vida das pessoas em ONGs, no mundo inteiro.

Flávia Zülzke: A gente não está distribuindo lucro para acionista. A gente está reinvestindo em educação. E é isso. Por isso que eu falo: tanta gente faz pouco e fala tanto. E a gente que faz muito… e a gente faz… é real.

Luciano Pires: Sempre foi assim?

Flávia Zülzke: Sempre foi assim.

Luciano Pires: Engraçado. E agora…

Flávia Zülzke: Eu sempre falo que é uma correção histórica. Eu falo para a Liliane, que é a head do Cultural. Eu falo: a gente tem que fazer uma correção histórica. A gente tem que contar. E a gente tem que começar a contar para os ex-alunos.

Luciano Pires: Até para não parecer que vocês estão seguindo a modinha. Porque agora que está na moda isso…

Flávia Zülzke: Não, não…

Luciano Pires: Vocês já estão…

Flávia Zülzke: E a gente tem que fazer isso, para a gente ter mais aluno que financie mais alunos. Que financiem… não é meta. Como eu falei: não é para bater meta. É muito mais que isso. É a gente falar que somos uma associação sem fins lucrativos e que a gente transforma o que a gente recebe de quem pode pagar em oportunidade para quem não pode, para ter condições iguais de competição no mercado. A gente tem que falar isso. A gente é obrigado a falar isso. Porque a gente faz. A gente tem como provar que a gente faz mais até do que a gente conseguiria pela lei.

Luciano Pires: Que legal.

Flávia Zülzke: Então assim: é realmente muito bacana.

Luciano Pires: Vou terminar aqui com uma provocação com você aqui.

Flávia Zülzke: Claro.

Luciano Pires: Agora eu quero falar com a Flávia que exerceu esse papel de liderança, que você aprendeu como é que faz. Você desenvolveu. Quais são os atributos que você julga que são importantes para você, para daqui a 20 anos, eu ou quem for meu sucessor…

Flávia Zülzke: Passar 20 anos. Hã?

Luciano Pires: Estiver aqui sentado, conversando com alguém que trabalha para você hoje e pergunte para a pessoa. E a pessoa vai falar: eu tive uma chefe que foi – que nem você falou do Paulo – vai falar assim: a Flávia foi… o que é? O que você acha que vai ter que ser feito para que grave desse jeito, na mente das pessoas. Dos 20 chefes que eu tenho, eu lembro dois nomes. Que nem você fez. Eu lembrei um e dois.

Flávia Zülzke: Eu quero que eles lembrem como uma pessoa que guiou eles para algum lugar. Que eles tiveram um problema e que eu consegui guiar. Nem sempre a gente consegue isso. E eu me cobro demais. Eu escuto isso de algumas pessoas da equipe: que legal. Você me conduziu. É isso. O que eu busco hoje é conduzir. E nem sempre a gente consegue. Ou por tempo ou por momento. Então se eu conseguir algumas pessoas que passaram por mim – nem todas, que deve ter gente que não gosta de mim – eu acho que para algumas pessoas que passaram no meu time – ou muitas – graças a Deus, eu tenho um timaço hoje tá? Eu gosto muito deles. Às vezes, eu brigo com eles. Mas eu gosto deles. Eu quero que eles lembrem como uma pessoa que conduziu eles e fez eles evoluírem e serem líderes também. Eu quero trabalhar com gente melhor que eu. Que amanhã eu chego: ah, diretor. Fulano é CMO. São essas pessoas que eu quero no meu time. Mas eu quero ter sido uma das pessoas que contribuiu para essa evolução deles. Se eles falarem: a Flávia era muito legal, porque ela me conduzia, porque ela me ensinava. Para mim já vai ter sido uma super vitória. Quando eu escuto isso – outro dia, um ex-funcionário postou isso no Linkedin, de chefes inspiradores – a gente fica super envaidecida. Essa é a resposta. Você falar: você me inspirou a tal coisa. Eu acho que a gente não vai acertar sempre. Ninguém. Eu não sou Jesus para ser unânime. Mas se grande parte das pessoas que passaram comigo, eu tiver conduzido elas para um degrau a mais, para uma evolução profissional ou pessoal, com propósito de liderança, estou feliz.

Luciano Pires: Você vê: é uma economista dizendo para mim que o que vai ficar lá na frente como legado, não é o que está na planilha.

Flávia Zülzke: Não. Não é.

Luciano Pires: Não é o resultado de venda. Não é o número no faturamento.

Flávia Zülzke: Não. Não é. Porque as empresas acabam. Eu trabalhei na Avianca. Não tem mais ninguém lá. Mas a gente tem grupo de Avianca Lovers, de ex-funcionários, espalhados por aí. O que fica são as pessoas. Não são as empresas. A gente não sabe. A gente trabalha por um propósito. Os meus grandes amigos hoje são amigos que vieram desde a Sony até a Avianca, Live Nation e hoje a Cultura Inglesa, que eu tenho certeza que eu fiz grandes amigos. Tem gente que fala: eu não vim aqui para fazer amigos. Ah, eu vou viu? Eu vou aglomerando eles, inclusive.

Luciano Pires: Legal. Quero estudar na Cultura Inglesa…

Flávia Zülzke: Ah, que bom.

Luciano Pires: Quero encontrar você. Como é que eu faço? Onde é que eu vou?

Flávia Zülzke: Se quiser contato profissional, o meu Linkedin é Flávia Zülzke. E o meu Instagram é igual: @flaviaZülzke. E aí, todas as redes sociais, eu estou lá. Só não estou publicando TikTok, porque não sei fazer dancinha.

Luciano Pires: Eu também não aprendi. Mas eu acho que não vou fazer.

Flávia Zülzke: Mas eu estou lá. Eu acho que eu estou lá, só para conferir.

Luciano Pires: Legal. Flávia, obrigado pela visita. Bom papo. Uma conversa legal.

Flávia Zülzke: Obrigada. Eu que agradeço. Obrigada mesmo.

Luciano Pires: Sucesso para você. E que essa integração aconteça em mais lugares ainda.

Flávia Zülzke: Sim. Vai. Muito legal.

Luciano Pires: Porque esse lance que você colocou aí da função social que a empresa traz é fundamental para mudar esse…

Flávia Zülzke: Um desafio. Porque é o primeiro da minha vida. Eu acho que trabalhar por uma causa tão nobre é a primeira vez que eu me deparo. Eu sempre tive metas para lucro. Para distribuição entre acionistas. Hoje eu tenho uma causa muito maior. Eu tenho uma causa da educação e das oportunidades. Então para mim, eu não podia estar mais feliz.

Luciano Pires: Dá para ver que você está satisfeita.

Flávia Zülzke: Então tá bom.

Luciano Pires: Obrigado.

Flávia Zülzke: Obrigada viu?

Luciano Pires: Muito bem. Termina aqui mais um LíderCast. A transcrição deste programa você encontra no lidercast.com.br.