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Café Brasil 550 – Carnaval revisitado

Café Brasil 550 – Carnaval revisitado

Luciano Pires -
Download do Programa

ILUSTRAÇÃO DA VITRINE: VITO QUINTANS 

Mais um carnaval. O programa de hoje revisita outro que publicamos em 2010. Você sabe que nós temos um compromisso de manter nossa cultura viva, não é? E a história do carnaval brasileiro e suas músicas, é preciosa…

Posso entrar?

Amigo, amiga, não importa quem seja, bom dia, boa tarde, boa noite, este é o Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Antes de começar o show, um recado: preparamos um resumo do roteiro deste programa com as principais ideias apresentadas. Um guia para você complementar aquelas reflexões que o Café Brasil provoca. Para baixar gratuitamente acesse o roteiro deste programa no portacafebrasil.com.br/550.

E quem vai levar o e-book Me engana que eu gosto é o Wagner.

“Fala Luciano! Meu nome é Wagner, eu sou aqui de Curitiba, sou empresário. Eu tenho uma dúvida, uma questão que eu gostaria de ver você abordando, que já vi mais de tempo, mas agora ficou mais evidente, ganhou um destaque muito grande nos jornais e eu sei que você é uma pessoa que também dá bastante valor pra cultura. 

Eu sempre vi a cultura como algo… como entretenimento, como algo mais pra divertir do que pra elevar uma nação, pra ser o centro de uma política nacional ou algo do gênero. Mas agora, com toda essa mobilização que todo mundo diz que é a extinção do Ministério da Cultura mas, que na verdade, é a junção com o Ministério da Educação, que é algo que já existia há muito tempo atrás mas que está longe de ser uma extinção do ministério, eu queria saber: qual é a importância da cultura para o país, qual é a importância da cultura para a população, o que isso traz de grande valor pra sociedade?

Eu estou assistindo o Jô Soares agora, e ele falando que as coisas que levam uma nação pra frente são a alta tecnologia produzida dentro do país e a cultura. Eu sou uma pessoa de tecnologia e eu entendo muito bem porque a tecnologia pode elevar o status de um país. Mas a cultura, por mais que eu dê importância, por mais que de vez em quando eu vá ao teatro, por mais que eu assista filme, por mais que eu escute uma boa música, eu não consigo entender toda essa importância que a cultura tem. E seria muito bom eu escutar da sua voz, esquecendo toda essa polêmica atual do Ministério da Cultura, explicar: por que a cultura é tão importante?”

Vixe Wagner… essa pergunta merece um programa inteiro. Uma hora dessas eu farei um. Por enquanto fique com isto: a cultura de um país é importante porque ela transmite valores, histórias e objetivos de uma geração para outra. E são essas tradições que encorajam os vários grupos a compartilhar uma identidade coletiva, que termina por forjar a identidade individual. A cultura de um país reforça nosso senso de comunidade. Veja só o exemplo do carnaval, quando milhões de brasileiros saem às ruas para celebrar um espírito festivo brasileiro. Quem dera tivessem essa mesma disposição para ir às ruas por justiça, honestidade, segurança ou saúde, não é?

Mas a cultura muda com o tempo, e estamos assistindo com pesar uma onda de esquecimento do passado e de negligência em relação à nossa herança cultural. Mas de novo: isso é papo pra outro programa. Por hoje, vamos celebrar o carnaval…

Muito bem. O Wagner receberá um KIT DKT, recheado de produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculino e feminino. PRUDENCE é a marca dos produtos que a DKT distribui como parte de sua missão para conter as doenças sexualmente transmissíveis e contribuir para o controle da natalidade.  O que a DKT faz é marketing social e você contribui quando usa produtos Prudence. facebook.com/dktbrasil.

Vamos lá então! Hoje tem visita aqui. Lalá, Itamar, por favor. Hoje eu quero carnavalesco tá bom?

Na hora do amor…

Lalá: Ei! Você aí! me dá um Prudence aí, me dá uma Prudence aí….

Ah, carnaval, carnaval… quem é que não tem uma história de carnaval pra contar, hein? Olha! Eu parei de curtir o carnaval depois que mudei para São Paulo, em 1975. Mas até os meus 18 anos, o Carnaval foi uma referência, nos salões da Associação Luso Brasileira de Bauru…

luso

Máscara negra
Zé Keti

Tanto riso, oh quanta alegria

Mais de mil palhaços no salão

Arlequim está chorando pelo amor da Colombina

No meio da multidão


Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano

Foi no carnaval que passou

Eu sou aquele pierrô

Que te abraçou

Que te beijou, meu amor

Na mesma máscara negra

Que esconde o teu rosto

Eu quero matar a saudade

Vou beijar-te agora

Não me leve a mal

Hoje é carnaval

Hummm…Máscara negra, composta por Zé Kéti e Pereira Matos, para o carnaval de 1967….e aqui com Dalva de Oliveira… dá pra sentir o confete no rosto, não dá?

Cheguei a pegar o final dos carnavais de rua em Bauru, quando formávamos blocos e desfilávamos pela avenida, uma coisa que não existe mais, viu? Eram  famílias fazendo isso. As escolas de samba tomaram conta, depois veio o sambódromo e, por fim, pelo menos em Bauru, um final melancólico, sem dinheiro, sem desfiles, sem a festa popular que eu aprendi a curtir quando eu era garoto.

O que é o carnaval de hoje? Uma festa, que deixou de ser popular para transformar-se num grande negócio…

Jardineira
Benedito Lacerda
Humberto Porto

Ó jardineira por que estas tão triste
Mas o que foi que te aconteceu
Foi a Camélia que caiu do galho
Deu dois suspiros e depois morreu
Foi a Camélia que caiu do galho
Deu dois suspiros e depois morreu

Vem jardineira
Vem meu amor
Não fique triste
Que este mundo é todo teu
Tu és muito mais bonita
Que a camélia que morreu

E essa, hein? A Jardineira, composta por Benedito Lacerda e Humberto Porto para o carnaval de 1939, e aqui quem  canta é Orlando Silva… vai dizer que você não dançou essa aí, hein?

Um e-mail que eu recebi um dia, citava a situação hipotética em que no desfile das escolas de samba, cada uma fosse coordenada por um país. Eu fiquei imaginando…já pensou a escola de samba alemã ? E a japonesa ? E a norte americana ? Provavelmente teriam um orçamento de vários milhões de dólares. Um controller para cuidar dos gastos. Consultores para motivar a equipe. Generais para cuidar da logística. Técnicos de Hollywood para os efeitos especiais. Coreógrafos da Broadway para a dança. Uns 25 roteiristas para o samba enredo. E computadores. Milhares… Milhares de computadores. O resultado seria um espetáculo tecnicamente perfeito. Visualmente deslumbrante e preciso.

La nuit des masqués
Chico Buarque

Qui êtes-vous?
Si tu m`aimes, tu dois deviner
Aujourd`hui tous les deux on se cache
Derrière nos masqués
Pour se demander:
Qui êtes-vous? Dites vite!
Dis-moi à quel jeu tu m`invites
je voudrais me fondre à ta suite
je voudrais qu`on prenne la fuite
Moi, je vagabonde, poéte et chanteur
J`ai perdu la ronde qui mène au bonheur
Moi, je cours les routes
Je reste chez moi
L`amour me déroute
Je n`y croyais pas…moi, dans la fanfare
Je porte un drapeau
Modestie à part, je joue bien du pipeau
Je suis si fragile
J`ai douze ans de trop
je suis Colombine
Je suis Pierrot
Mais c`ést Carnaval et qu`importe aujourd`hui qui tu es
Demain tout redeviendra normal
Demain tout va finir
laissons le temps courir
laisse au jour sa lumière
Aujourd`hui je suis ce que tu attends de moi
Si tu veux laissons faire, on verra
Peut-être que demain on se retrouvera
Peut-être que demain on se reconnaîtra…

E quando Chico Buarque decide compor para o carnaval, hein? A gente ganha Noite dos Mascarados, que aqui interpretada por Elis Regina e Pierre Barouh… Carnaval em francês, não é fascinante, hein?

Pois é. Mas eu prefiro em português, viu? Com a mesma Elis e com o Chico…

Noite dos mascarados
Chico Buarque

Quem é você, adivinha se gosta de mim
Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim
Quem é você, diga logo que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco, que eu quero me arder no seu fogo
Eu sou seresteiro, poeta e cantor
O meu tempo inteiro só zombo do amor
Eu tenho um pandeiro, só quero um violão
Eu nado em dinheiro, não tenho um tostão
Fui porta-estandarte, não sei mais dançar
Eu, modéstia à parte, nasci prá sambar
Eu sou tão menina, meu tempo passou
Eu sou colombina, eu sou pierrô
Mas é carnaval, não me diga mais quem é você
Amanhã tudo volta ao normal, deixa a festa acabar, deixa o barco correr
Deixa o dia raiar que hoje eu sou da maneira que vo…cê me quer
O que você pedir eu lhe dou, seja você quem for
Seja o que Deus quiser

Pois é. Carnaval de gringos, correto e tecnicamente perfeito… Mas…cadê o sorriso contagiante das baianas hein? E o suor de pura adrenalina ? E aquelas mãos cheias de feridas, sangrando de prazer, dos meninos da bateria, hein? E os seios de deusas das morenas perfeitas ? E as lágrimas de desespero do destaque em cima do carro quebrado, hein? E o povo nas arquibancadas derramando-se sobre a pista ? E o tesão, hein?

Olha, me desculpem os certinhos, mas não posso negar minha natureza. Eu sou mais o Joca da Bateria e o Paulinho Fumaça que, sem dinheiro, sem MBA, sem computador, sem falar inglês, fazem o maior espetáculo da terra.

Daquele jeito brasileiro: nas coxas.

Quando o carnaval chegar
Chico Buarque

Quem me vê sempre parado, distante
Garante que eu não sei sambar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando
E não posso falar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e não posso pegar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Há quanto tempo desejo seu beijo
Molhado de maracujá
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando
Que eu vou aturar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar
Tou me guardando pra quando o carnaval chegar

Pois então, o Chico Buarque compondo sobre o Carnaval é coisa séria, não é? Esta é QUANDO O CARNAVAL CHEGAR, que ele lançou em 1972, cara… Uma delícia… Aqui você ouve Marcia Salomon, que vem de Londrina direto pro Café Brasil!

Sobre a saudade dos antigos carnavais, vai aqui um poema de Cruz e Sousa, Carnaval de Ontem e de Hoje.

Ao fundo você ouvirá o clássico VASSOURINHAS,  frevo composto por Matias da Rocha e Joana Batista Ramos. Mas aqui cara, é o piano de Antonio Adolfo…

Do apartamento de Dora
Ouve-se o ruído lá fora
Do carnaval que já vem.
O samba do morro desce
E a gente do morro esquece
Do gosto que a vida tem.
A Vovó fica alarmada!
Que terror esta enxurrada
De gente suja e brutal!
As mulheres, quase nuas,
Homens de saia, nas ruas,
– Meu Deus, isto é carnaval?
“No seu tempo”, felizmente,
Era tudo diferente
À neta ela explica, então:
– Gente distinta, educada,
Batalhava na calçada
Do Jockey, que animação!
O corso era uma beleza!
Que elegância, que riqueza
De confeti e serpentinas!
Sobre as capotas descidas
Moças bonitas, vestidas
Das fantasias mais finas.
Nos bailes, que brincadeira!
Nem pulos, nem bebedeira,
Todos podiam dançar.
Mas de outro modo, distinto:
Se era “família” o recinto,
Ninguém mais podia entrar.
Dançava-se o tempo todo.
Brincava-se mesmo a rodo,
Sem mal, contente e feliz.
E o lança-perfume, eu penso
Não era usado no lenço
E abusado, no nariz!
Às vezes, um mascarado
Chegava, alegre e engraçado,
Metido num dominó.
Passava, dando os seus trotes,
Depois lá ia, aos pinotes,
Brincalhão, como ele só!
E a Vovó contava à neta…
Dorinha ouvia, bem quieta
Mas, de repente diz: – Qual,
Vovó, desculpe o que eu digo
Mas que chato é o tempo antigo!
Meu Deus, isso é Carnaval?

A minha renúncia
J. Maia

Não adianta gritar.
Quando a coisa fica preta,
O melhor é renunciar.

Eu gostava tanto dela,
Ela gostava de mim.
A fofoca foi tão grande
Que eu nem cheguei ao fim!

A minha renúncia…

Rararraa… você lembra do Tutuca? Usliver João Baptista Linhares é o Tutuca, que criou aquele inesquecível faxineiro que vivia lá na praça de olho na mulherada e dizia: “como é boa essa secretária. Ah, se ela me desse bola…”. Pois é… aqui ele canta A MINHA RENÚNCIA, de J.Maia, gravação de 1961. Tutuca no Café Brasil!

Foi nos anos 1920 que surgiram as marchinhas, que Bruno Kiefer, no livro História da Música Brasileira – dos Primórdios ao Início do Século XX, define como “uma invenção da classe média, opondo-se ao samba, produto nitidamente proveniente das camadas mais humildes, com batidas de raízes negro-africanas. Descendente das marchas militares e das marchas populares portuguesas e ainda misturadas aos acordes das músicas one-steps, ritmo musical que teve origem nos Estados Unidos em fins de 1800 e que  consistia em um único passo repetido inúmeras vezes sem haver troca rítmica, as marchinhas carnavalescas acabaram se consagrando como o gênero carnavalesco por excelência (prevalecendo até sobre o samba) entre as décadas de 1920 e 1960, quando entraram em relativo declínio. Com compasso binário e andamento acelerado, as melodias das marchinhas eram simples cativavam rapidamente o ouvinte, ao mesmo tempo em que as letras debochadas, irônicas, ambíguas ou sensuais eram fáceis de entender e memorizar.

No resumo deste programa que você pode baixar em portacafebrasil.com.br/550 coloco um link para um interessante estudo sobre esse tema.

E do site  cifrantiga.hpg.ig.com.br vem um saboroso texto sobre as marchinhas de carnaval.

Pelo telefone
Donga

O Chefe da polícia
Pelo telefone manda me avisar
Que na carioca tem uma roleta para se jogar

Ai, ai, ai
Deixe as mágoas pra trás, ó rapaz
Ai, ai, ai
Fica triste se és capaz e verás
Ai, ai, ai
Deixe as mágoas pra trás, ó rapaz
Ai, ai, ai
Fica triste se és capaz e verás

Tomara que tu apanhes
Pra nunca mais fazer isso
Roubar amores dos outros
E depois fazer feitiço

Olha a rolinha, Sinhô, Sinhô
Se embaraçou, Sinhô, Sinhô
Caiu no lago, Sinhô, Sinhô
Do nosso amor, Sinhô, Sinhô
Porque este samba, Sinhô, Sinhô
É de arrepiar, Sinhô, Sinhô
Põe perna bamba, Sinhô, Sinhô
Mas faz gozar, Sinhô, Sinhô

Ser folião, Sinhô, Sinhô
De coração, Sinhô, Sinhô
Porque este samba, Sinhô, Sinhô
É de arrepiar, Sinhô, Sinhô
Põe pernas bambas, Sinhô, Sinhô
Mas faz gozar, Sinhô, Sinhô

Vó Maria canta aqui aquele que é tido como o primeiro samba gravado: PELO TELEFONE. De autoria de Donga, este samba tem uma história complicada sobre quem realmente o compôs, qual é a letra correta e outras questões que a história só complica…mas é uma delícia. Detalhe: Vó Maria é a viúva de Donga e gravou esta faixa em 2003, aos 92 anos. No coro, todos os filhos e netos…

O samba, gênero musical que data de 1916, ano da gravação de Pelo telefone, de Donga, passou a ser sinônimo de Brasil.

Mas na disputa entre os dois gêneros, o samba e a marchinha, durante bom tempo, ao menos na época do carnaval, o segundo, a marchinha, reinou soberano nos salões de baile. Por isso, contar a história das marchinhas é, de certa forma, narrar a história do Carnaval. Por baixo do pó-de-arroz, as marchinhas faziam sucesso desde os primeiros anos do século. Espécie de embrião das escolas de samba, os cordões de foliões agitavam as ruas do Rio de Janeiro. E nas festas, eles cantavam e tocavam marchinhas. A fórmula de sucesso era razoavelmente fácil. Compasso binário, como a marcha militar, andamentos acelerados, melodias simples e de forte apelo popular, e lógico, letras irônicas, sensuais e engraçadas. As letras, aliás, agradavam demais os foliões.

Mamãe eu quero
Vicente Paiva
Jararaca

Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero mamar
Dá a chupeta, dá a chupeta
Dá a chupeta pro bebê não chorar

Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero mamar
Dá a chupeta, dá a chupeta
Dá a chupeta pro bebê não chorar

Dorme, filhinho do meu coração
Pega a mamadeira e vem entrar no meu cordão
Eu tenho uma irmã que se chama Ana
De piscar o olho já ficou sem a pestana

Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero mamar
Dá a chupeta, dá a chupeta
Dá a chupeta pro bebê não chorar

Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero mamar
Dá a chupeta, dá a chupeta
Dá a chupeta pro bebê não chorar

Você ouve o clássico Mamãe eu quero, na voz de Carmem Miranda…

Muitas das letras continuam atuais. Crônicas urbanas, elas tratam normalmente de temas cotidianos. Histórias do dia-a-dia dos subúrbios cariocas. Por muitas vezes, tinham conotação política. O ambíguo, o duplo-sentido, era muito explorado. Uma forma de dar leveza a temas que não eram assim tão “leves”. “Elas têm uma vertente jornalística. Por exemplo, foram feitas marchinhas para Hitler, para as duas fases do Getúlio Vargas, a do Estado Novo e a de sua volta nos braços do povo.”, explica Omar Jubran, vencedor do Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte.

Pirata Da Perna De Pau
João de Barro

Eu sou o pirata da perna de pau
Do olho de vidro, da cara de mau
Eu sou o pirata da perna de pau
Do olho de vidro, da cara de mau

Minha galera
Dos verdes mares não teme o tufão
Minha galera
Só tem garotas na guarnição

Por isso se outro pirata
Tenta a abordagem
Eu pego o facão
E grito do alto da popa
“Opa! Homem não!”

Mais um clássico, este de 1947, o Pirata da Perna de Pau, de Braguinha, pseudônimo de Carlos Alberto Ferreira Braga, também conhecido como João de Barro. Você ouve Nuno Roland em 1959…

As marchinhas de carnaval tiveram seu auge nos anos 30, 40 e 50. Depois deles, muito foi produzido, pouco aproveitado. Algo que perdura até os nosso tempos: muita quantidade, pouca qualidade. Jubran arrisca uma explicação: “O apogeu do gênero está relacionado à popularização do disco e do rádio.” Nomes como Almirante, Mário Reis, Dalva de Oliveira, Silvio Caldas e Carmen Miranda, os grandes cantores da época, gravaram marchinhas e com elas venceram muitos carnavais. Os principais compositores, que escreveram aclamadas músicas de festa, foram Noel Rosa, João de Barro (pseudônimo de Braguinha), Lamartine Babo e Ary Barroso.

Entre as muitas músicas, que até hoje estão no imaginário popular brasileiro, vale destacar Touradas em Madri, de João de Barro e Alberto Ribeiro, composta para a Guerra Civil Espanhola, que teve início em 1936.

Touradas em Madri
João de Barro
Alberto Ribeiro

Eu fui às touradas em Madri
E quase não volto mais aqui
Pra ver Peri beijar Ceci.
Eu conheci uma espanhola
Natural da Catalunha;
Queria que eu tocasse castanhola
E pegasse touro à unha.
Caramba! Caracoles! Sou do samba,
Não me amoles.
Pro Brasil eu vou fugir!
Isto é conversa mole para boi dormir!

E tem Chiquita Bacana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, lançada em 1949, era uma interpretação muito particular do existencialismo, mas que não se referia propriamente às idéias de Jean-Paul Sartre.

Chiquita Bacana
João de Barro
Alberto Ribeiro

Chiquita Bacana lá da Martinica
Se veste com uma
Casca de banana nanica

Chiquita Bacana lá da Martinica
Se veste com uma
Casca de banana nanica

Não usa vestido, não usa calção
Inverno pra ela é pleno verão
Existencialista (com toda razão!)
Só faz o que manda o seu coração

Também seria impossível não lembrar de: O teu cabelo não nega, dos Irmãos Valença e de Lamartine Babo, de 1932. Cara, essa está sendo proibida de ser cantada hoje em dia, pela letra de conteúdo preconceituoso;

O Teu Cabelo Não Nega
Lamartine Babo
Irmãos Valença

O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, eu quero o teu amor

Tens um sabor bem do Brasil
Tens a alma cor de anil
Mulata, mulatinha, meu amor
Fui nomeado teu tenente interventor

Quem te inventou, meu pancadão
Teve uma consagração
A lua te invejando faz careta
Porque, mulata, tu não és deste planeta

Quando, meu bem, vieste à Terra
Portugal declarou guerra
A concorrência, então, foi colossal
Vasco da Gama contra o batalhão naval

Tem também Allah-la-ô, de Haroldo Lobo e Antônio Nássara, sucesso de 1941;

Allah-la-ô
Haroldo Lobo
Nássara

Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor, ô ô ô ô ô ô
Atravessamos o deserto do Saara
O Sol estava quente, queimou a nossa cara
Allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô
Mas que calor, ô ô ô ô ô ô…

Viemos do Egito
E muitas vezes nós tivemos que rezar
Allah, Allah, Allah, meu bom Allah
Mande água pro iôiô
Allah, meu bom Allah

E teve também Yes, Nós Temos Bananas, de João de Barro e Alberto Ribeiro, destaque de 1938 que trazia uma crítica bem-humorada à empáfia dos norte-americanos.

Yes, nós temos bananas
João de Barro
Alberto Ribeiro

Yes, nós temos bananas
Bananas pra dar e vender
Banana menina tem vitamina
Banana engorda e faz crescer
Vai para a França o café, pois é
Para o Japão o algodão, pois não
Pro mundo inteiro, homem ou mulher
Bananas para quem quiser
Mate para o Paraguai
Ouro do bolso da gente não sai
Somos da crise, se ela vier
Bananas para quem quiser

Dos anos 60 em diante as marchinhas começaram a perder espaço para os sambas-enredo. As escolas de samba, agremiações de grandes sambistas, começavam a ditar quais eram os sucessos. Alguns compositores, como Caetano Veloso, se arriscaram no carnaval.

Atrás do trio elétrico
Caetano Veloso

Atrás do trio elétrico
Só não vai quem já morreu
Quem já botou pra rachar
Aprendeu, que é do outro lado
Do lado de lá do lado
Que é lá do lado de lá

O sol é seu
O som é meu
Quero morrer
Quero morrer já

O som é seu
O sol é meu
Quero viver
Quero viver lá

Nem quero saber se o diabo
Nasceu, foi na bahi …
Foi na bahia
O trio elétrico
O sol rompeu
No meio-dia
No meio-dia

Essa é ATRÁS DO TRIO ELÉTRICO, com Caetano flertando com o frevo, que anima em Pernambuco, tal qual as marchinhas no Rio de Janeiro, a festa de carnaval. Mas ficou nisso.

Nos anos 80 algumas regravações chegaram a fazer sucesso, como Balancê, de João de Barro e Alberto Ribeiro – talvez a maior dupla de compositores de marchinhas -, lançada por Gal Costa em 1980 e Sassaricando, de Luís Antônio, Jota Júnior e Oldemar Magalhães. Em 1951 o produtor de teatro musicado, Valter Pinto, e sua estrela preferida, Virgínia Lane, pediram a Luís Antônio e Jota Júnior uma música para “Jabaculê de Penacho”, uma peça que iam estrear. Era composta assim, de encomenda, “Sassaricando”, marchinha destinada a princípio a animar um quadro intitulado “A Dança do Sassarico”.

Aqui, a versão original com Virgina Lane:

Sassaricando
Luis Antonio
Jota Junior

Sassassaricando
Todo mundo leva a vida no arame
Sassassaricando
A viúva, o brotinho e a madame
O velho na porta da Colombo
É um assombro
Sassaricando

Quem não tem seu sassarico
Sassarica mesmo só
Porque sem sassaricar
Essa vida é um nó

E aqui a regravação por Rita Lee para a trilha sonora da novela Ti, Ti, Ti….

Pois é… Mas era muito pouco para um País que somente em 1952 produziu cerca de 400 músicas de carnaval, a maioria delas marchinhas alegres e divertidas. De lá pra cá, contam-se nos dedos da mão esquerda do Lula as músicas que se tornaram clássicos de carnaval…Parece que só o Silvio Santos…

A pipa do vovô
Manoel Ferreira
Ruth Amaral

A pipa do vovô não sobe mais
A pipa do vovô não sobe mais
Apesar de fazer muita força
O vovô foi passado pra trás!
Ele tentou mais uma empinadinha
A pipa não deu nenhuma subidinha
Ele tentou mais uma empinadinha
A pipa não deu nenhuma subidinha

Mas na garimpada aqui o Lalá descolou uma gravação instrumental fantástica de um disco de Silvio Santos de 1969, com uma orquestra e arranjos de maestro Potinho… Samba rock, meu! Esta eu dedico à Ciça.

Pois é, o politicamente correto tem combatido as antigas marchinhas, por seu conteúdo que é considerado ofensivo às minorias nos dias de hoje. As músicas de carnaval são reflexos de movimentos sociais, políticos e econômicos. Representam a cultura, o Zeitgeist de uma era. Julgá-las com os olhos e a moral de hoje… não pode dar certo mesmo.

Como escreveu a socióloga e antropóloga Daniela Zupiroli no estudo BRINCADO COM VERSOS: “Não é à toa que se diz que ‘no Brasil, tudo acaba em festa’. Isto é compreensível, já que uma festa como o carnaval pode comemorar acontecimentos, reviver tradições, criar novas formas de expressão, afirmar identidades, preencher espaços na vida dos grupos e dar voz aos assuntos interditos na vida popular. A festa concentra além dos recursos econômicos, os recursos sociais e culturais dos grupos, os redistribui e, nesse caso, o carnaval deixa de ser a simples “válvula de escape”, como afirmaram muitos teóricos, para ser momento de autoavaliação dos grupos sociais. As marchinhas estão aí para provar tudo isso.”

Então,  para terminar o Café Brasil de hoje, retomo um clássico. Mamãe eu Quero, de Jararaca e Vicente Paiva. Na gravação que você vai ouvir, realizada em 1936, aconteceram coisas não programadas como o curioso prólogo em que Almirante dialoga de improviso com Jararaca. Esse diálogo foi acrescentado para alongar o tempo de gravação, que na tomada inicial havia ficado muito curto. Outra curiosidade foi a presença do casal Ciro Monteiro e Odete Amaral, além do citado Almirante, no coro.

Então é isso, mais um carnaval, milhões de brasileiros nas ruas, festejando… festejando… festejando… é assim ao som de MAMÃE EU QUERO que vamos saindo no embalo.

Mas eu vou chutar o pau da barraca…hoje em dia, Carnaval termina em pancadão. Já que estamos esculhambando tudo mesmo,

Lalá, manda aí o O Pancadão das Marchinhas com a Waleska Popozuda…

Com este pierrô apaixonado Lalá Moreira na técnica, essa exuberante colombina Ciça Camargo na produção e eu, um folião perdido num escritório, Luciano Pires, na direção e apresentação.

Estiveram conosco o ouvinte Wagner e uma visita lá de Matupá, onde o mato Grosso encontra o Pará veio o Itamar Linhares aqui conosco. Também: Dalva de Oliveira, Orlando Silva, Caetano Veloso, Carmem Miranda, Marcia Salomon, Jararaca, Almirante, Elis Regina, Pierre Barouh, Vó Maria, Chico Buarque, Antonio Adolfo, Tutuca, Emilinha Borba, Jorge Goulart, Silvio Santos… se você acessar o roteiro deste programa, a gente colocou lá as músicas com os links do Youtube, tá?

O Café Brasil só chega até você porque a Nakata, também resolveu investir nele.

A Nakata, você sabe, é uma das mais importantes marcas de componentes de suspensão do Brasil, fabricando os tradicionais amortecedores HG. E tem uma página no Youtube repleta de informações interessantes para quem gosta de automóveis. Dê uma olhada lá que vale a pena. Tem até os videocasts que eu fiz pra eles: youtube.com/componentesnakata.

Tudo azul? Tudo Nakata!

Este é o Café Brasil. De onde veio este programa tem muito mais. Visite para ler artigos, para acessar o conteúdo deste podcast, para visitar a nossa lojinha no … portalcafebrasil.com.br.

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E não esqueça: tem um resumo deste programa aqui esperando por você, gratuito, você pode baixar em em portalcafebrasil.com.br/550.

E para terminar, versos de Aldir Blanc e João Bosco:

Custei a compreender que a fantasia
É um troço que o cara tira no carnaval
E usa nos outros dias por toda a vida….