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Luciano Pires -

Você reparou como tá cheio de gente tolerante doidinha para calar sua boca para que você não expresse suas ideias e opiniões, se forem diferentes das deles? No discurso eles defendem a liberdade de expressão, mas na prática… Olha, eu acho que está havendo uma confusão de conceitos, viu? Essa turma não sabe bem o que está defendendo. Vamos nessa hoje?

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você está no Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Posso entrar?

Então… já tem gente incomodada porque eu estou falando demais nesse assunto de liberdade de expressão. Olha! Deve ser gente que me acompanha há pouco tempo. Se fosse há mais tempo, saberia que eu sempre falei sobre esse assunto. E eu acho que vou continuar falando por um bom tempo. Eu nem me lembro mais quantos Café Brasil já gravei sobre esse tema…

Mais recentemente tem sido uma série de Cafezinhos. Por exemplo, o 303, que diz assim ó:

“O cérebro médio é naturalmente preguiçoso e tende sempre a escolher o caminho onde encontra menor resistência. O mundo mental do homem médio consiste de credos que ele aceitou sem questionar e aos quais ele está firmemente fixado. Ele é instintivamente hostil a qualquer coisa que ameaçar a estabilidade do mundo que lhe é familiar. Uma nova ideia, inconsistente com seus credos, representa a necessidade de rearranjar a mente e esse processo é trabalhoso, requer um gasto doloroso de energia mental. Para ele e seus amigos, que formam a grande maioria, novas ideias e opiniões que causem dúvidas nos credos e instituições estabelecidas, parecem malignas, pois são desagradáveis.”

Olha! Se eu sou esse homem médio, e tenho poder, fico tentado a não permitir que ideias que considero malignas e desagradáveis sejam expressas. E para isso posso lançar mão do conceito do “bem comum”, “da proteção aos mais fracos, pobres e desamparados”, “da sobrevivência da humanidade” e tantos outros argumentos lindos, imbatíveis, que se tornam pretextos para verdadeiros crimes contra as liberdades individuais.

Escolha um tema quente, dê sua opinião e em seguida olhe em volta pra ver quanta gente altruísta e bondosa assanhada para cassar a sua liberdade de manifestar a discordância.

Essa gente tem medo de suas ideias. Você sabe o que isso significa, hein? Que temas importantes que deveriam estar sendo discutidos, analisados e compreendidos, não estão.

Ah, o texto que eu usei na abertura deste podcast é de autoria do historiador e filólogo irlandês John Bagnell Bury num livro precioso chamado A HISTÓRIA DA LIBERDADE DE PENSAMENTO, escrito em 1914.

1914, cara…

Não temos problemas novos.

“Eu sou o Edson Bobadilha. Falo daqui de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

Luciano: eu sou professor e esse episódio A pátria dos bobos felizes, eu tive a sensação que você abriu meu cérebro e leu cada palavra que tem dentro dele. Essa sensação, Luciano, de emburrecimento, de empobrecimento intelectual eu vejo todos os dias nas minhas salas de aula.

Desde março a palavra educação ela não é falada. Qualquer esfera de governo não está preocupada com a educação. Aqui em Campo Grande, a prefeitura daqui de Campo Grande tem um projeto aqui, que não existe reprovação. O aluno até, se não me engano, até o quinto ano primário, ele não pode reprovar. Então ele chega no terceiro, quarto ano, sem saber a leitura. E é óbvio que logo após a leitura é a leitura brasileira, que é o analfabeto funcional. Junta letras, junta palavras, forma frase, mas não entendem o que está sendo dito.

Imagina você  tentar explicar pra qualquer aluno a importância dele entender, dele aprender, sendo que tudo que ele quer é receita pronta. Ele só precisa saber como que é o macete pra ele passar  no vestibular, ele quer abrir o edital do concurso e ele só quer ler o que é que ele vai precisar estudar. E eu vejo isso como uma contramão do ensino, uma contramão tão grande, uma contramão tão triste, porque eu falo por mim. Eu sou um professor tão dedicado, eu sento com os meus alunos e eu procuro entrevistá-los antes de começar minha aula. Eu pergunto: o que você quer aprender? E por que você quer aprender? 

E é triste ouvir que o aluno fala: eu quero aprender o que vai me deixar rico, e eu quero aprender porque eu quero ficar rico. É de uma pobreza de espírito tão grande, uma falta de educação tão grade. Os pais mostrando pros filhos que eles precisam ser médicos porque o médico vai fazer ele ser rico. Ele não vai ser médico pra salvar vidas. Ele vai ser médico porque o médico é a profissão que dá dinheiro. E isso é contramão da educação.

E é triste olhar as coisas de maneira tão explícita e ver que, talvez, grande parte dos profissionais da educação estão se sentindo tão desmotivados que no fundo, no fundo, só querem ensinar o aluno a receita do bolo, receber o salário no começo do mês ali, no final do ciclo e continuar formando a pátria dos bobos felizes.

Por muitas vezes durante essa pandemia me peguei chorando dentro da minha casa, minha esposa me ajudando e eu tentando explicar isso pra mim, de que por mais que eu me sinta tão triste, tão desmotivado, que eu não posso desistir, eu não posso deixar de tentar plantar uma semente, de que eu não posso desistir da educação. Dentro da minha casa, com os meus filhos, com os meus sobrinhos, em sala  de aula.

É muito triste, Luciano. Isso acaba chegando aí como um desabafo, Um desabafo sincero de um grande amigo. Boa vida pra você, meu irmão. E aos nossos grandes ouvintes do Café Brasil”

Grande professor Edson…olha, não sei se há uma imagem mais triste do que a de um professor chorando por desilusão com sua missão de formar a criançada. Eu entendo sua luta, pois embora eu não esteja em sala de aula, de certa forma meu trabalho é parecido com o seu. E dá realmente uma desilusão trombar com a quantidade imensa de comentários que mostram que nossa missão não tem dado certo. Há todo um país a ser consertado, meu caro. E se os professores não abraçarem essa causa, nós estamos fritos. Continue, meu caro, faça com que sua voz seja ouvida. Ele são muitos, mas não podem voar…

Muito bem. O professor Edson  receberá um KIT DKT, recheado de produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculinos. Basta enviar seu endereço para contato@lucianopires.com.br.

A DKT distribui as marcas Prudence, Sutra e Andalan, contemplando a maior linha de preservativos do mercado, além de outros produtos como anticonceptivos intrauterinos, géis lubrificantes, estimuladores, coletor menstrual descartável e lenços umedecidos. A causa da DKT é reverter grande parte de seus lucros para projetos nas regiões mais carentes do planeta para evitar a gravidez indesejada, infecções sexualmente transmissíveis e a AIDS. Ao comprar um produto Prudence, Sutra ou Andalan você está ajudando nessa missão!

facebook.com/dktbrasil.

Vamos lá então!

Luciano – Ô Lalá, use sua liberdade de expressão!

Lalá – Na hora do amor, use Prudence!

Pois é… como os problemas não são novos, deixa eu voltar lá para as origens do conceito de democracia.

Ao fundo você ouve uma melodia de Sacha Amback, chamada Liberdade, Liberdade, que foi trilha da novela de mesmo nome que passou na Globo em 2016. Cara! Isso é lindo!

Em Atenas, na Grécia, uma grande praça chamada Ágora era um espaço público onde os cidadãos se reuniam para trocar ideias. Era o lugar do compartilhamento da opinião pública. Um condutor perguntava: “quem quer falar para a audiência?”, e as pessoas se voluntariavam para subir até a berna, a plataforma de onde o palestrante lançaria suas ideias. Na teoria, qualquer cidadão ateniense podia pedir a palavra e tentar convencer seus concidadãos sobre algum ponto específico. Mas na prática não era bem assim. As mulheres e os escravos, por exemplo, não tinham direito à palavra. Só nos filmes de Hollywood é que isso acontece. Esse comportamento, que nos deixa indignados hoje, era a realidade em praticamente todas as sociedades antigas. Aliás, nem tão antigas assim.

No entanto, naquela Atenas da nascente democracia, os pobres não só tinham direito à palavra, como a sociedade os ajudava a participar das assembleias.

Não é curioso, hein? Incentivo e liberdade para os pobres, mas não para mulheres e escravos…

Vieram daquela democracia antiga dois conceitos relacionados à liberdade de expressão, a isegoria e a parresia.

Isegoria se forma pela junção de ISOS, “igual”, com AGOREÚEIN, “falar”, derivado de Ágora, a “reunião”. É o princípio da igualdade do direito de manifestação na assembleia dos cidadãos, onde se discutiam os assuntos importantes para aquela sociedade. A todos os participantes era dado o mesmo tempo para falar sem ser interrompido.

Isegoria é, portanto, a igualdade do direito de expressão. Lá no caso de Atenas, para o rico ou para o pobre.

Já parresia, foi um termo cunhado mais tarde, que diz respeito ao direito de dizer o que você quer dizer, como, quando e para quem quiser. Vem da combinação dos adjetivos gregos pas, passa e pan, que querem dizer todo, cada um,  o verbo eiro, que quer dizer “eu falo” e o sufixo sis, que quer dizer ação.

Isegoria é a igualdade de expressão, todos têm o mesmo tempo e oportunidade.

Parresia é a liberdade de expressão da ideia que você quiser, para quem você quiser, como você quiser.

Igualdade e liberdade são coisas diferentes. E é o conflito entre esses dois conceitos que explica o que está acontecendo nestes tempos bicudos.

Da cultura grega, o conceito da parresia chegou até o meio cristão, onde ganhou uma força nova, conjugando a dimensão política da liberdade de falar e a dimensão filosófica da busca pela verdade: anunciar a todos os povos a Boa Nova da verdade com total liberdade é agora uma missão dada pelo Deus Único de Israel.

O apóstolo Paulo escreveu assim, em Efésios, Capítulo 6, versículos 19-20:

“Orai também por mim, para que, quando abrir os lábios, me seja dada a palavra para anunciar com ousadia o mistério do evangelho, do qual sou embaixador em cadeias: que fale ousadamente como importa que fale.”

Entendeu? Falar com confiança e ousadia as verdades duras.

No mundo cristão, a parresia é mais que uma palavra ou forma de falar. É uma virtude que acompanha o fiel e o prepara para o encontro com o Eterno. É liberdade, é coragem e é confiança.

Que tal, hein?

Os verdadeiros democratas querem ouvir vozes diferentes na ágora, aceitam que ideias contrárias às suas sejam ouvidas, para que grandes temas sejam discutidos, escrutinados e compreendidos pela sociedade.

Os democratas de araque, na verdade, verdadeiros fascistas, não aceitam que determinadas ideias sejam trazidas para a ágora. E para isso calam as vozes dissonantes. É só ver o que aconteceu em diversos países, especialmente nos Estados Unidos, com a mobilização violenta nas universidades para impedir palestras que representantes de ideias liberais ou conservadores tentavam fazer. No Brasil também assistimos esse tipo de reação. Quem é que não lembra da dissidente cubana Iaoni Sanchez sendo impedida de falar num evento, por um grupo de simpatizantes da ditadura cubana? Ou de filmes sendo impedidos de serem apresentados em festivais?

Para os fascistas, não interessa a discussão das ideias, mas a imposição de um pensamento único.

E a situação está tão grave que além das universidades, empresas privadas e das mídias sociais estão substituindo o Estado na censura às ideias que deveriam circular livremente. Sem contar os fascistas que atacam em hordas destruindo reputações, ofendendo e ameaçando nas mídias sociais.

Essa gente enterra qualquer discussão sobre liberdade de expressão.

Nascer horrendo, triste, cego e louco
Sem mãe, sem pai, sem fé, sem nada
Um pouco de lama, abandonado no caminho
Sem ter de meu, um gesto de carinho
Nascer assim, até aguento
Desde que eu possa
Nascer livre, nascer livre
Viver desconhecido, iludido, desprezado
Beber do ódio, amargo vinho
Viver sem um amor, viver sozinho
Viver assim, até aguento
Desde que eu possa
Viver livre, viver livre
Morrer ser o momento da partida
Brotar uma lágrima mesmo que fedida
Morrer abandonado no caminho
Sem ter de meu um gesto de carinho
Morrer assim, até aguento
Nada me importa
Mas tem que ser livre
Tenho que ser
Tem que ser livre
Tenho que ser
Tem que ser livre
Você ouviu Liberdade, de Celso Blues Boy e Raul Seixas, com o próprio Celso. A letra dessa canção foi encontrada por Kika Seixas, a viúva do Raul, em seus pertences, endereçada ao Celso. Foi musicada e gravada por Celso Blues Boy em 1994 e lançada em seu álbum Indiana em 1996.

Ah, que delícia, cara… Você ouve Blues for Iolanda, com Ben Webster e Coleman Hawkins, que está na trilha sonora do filme Moscow on the Hudson, que no Brasil se chamou Moscou em Nova Iorque,  com o Robin Willians.

Robin faz o papel de um saxofonista de um circo Russo que pede exílio enquanto faz uma turnê pelos Estados Unidos. Esse filme trata da liberdade por quem a experimenta pela primeira vez… E sabe dar o valor que quem nunca a perdeu, não sabe.

O conceito da isegoria é poderoso. Ele ajudou a definir o que viria a ser conhecido como democracia, que para mim tem um significado único, que eu já usei em outros episódios:

Democracia, mais que a participação da maioria, é o direito das minorias poderem dizer não, sem serem eliminadas por isso.

Voltemos à isegoria. O conceito trata de igualdade e não de liberdade. E aí está a armadilha. Tem isegoria, mas não tem parresia. Dou a você a liberdade de poder falar, mas não dou a liberdade de poder falar o que, como, onde e para quem você quiser.

Bem, aí não se trata de liberdade, não é?

Para tratar de liberdade, temos de abraçar o conceito da parresia, que implica em atributos como honestidade, abertura para novas ideias e coragem de falar a verdade, mesmo quando ela seja ofensiva.

Agora estamos falando de liberdade.

Sócrates foi um entusiasmado praticante da parresia, que não media esforços para jogar na cara de seus colegas de ágora as verdades mais cruas. Bom, e a gente sabe como é que isso custou caro para ele, não é? Num dos maiores lances de hipocrisia da história, o berço da democracia fez com que o filósofo tomasse um copo de veneno por conta de suas ideias…

A democracia calou a voz que incomodava.

Outro que não abria mão da liberdade de dizer o que quisesse para quem quisesse era Diógenes, o filósofo que vivia num barril e que quando foi perguntado pelo poderoso Alexandre, o Grande, o que queria, respondeu: “Sai da frente que você está tapando o sol”.

Ao longo da história, grandes mobilizações apoiadas no conceito da parresia mudaram a sociedade. Você quer um exemplo? A mobilização estudantil nos anos 60 a 80 nos Estados Unidos, que começaram em 1964 com um movimento chamado Free Speech Movement na Universidade de Beckerley na Califórnia e desembocaram em protestos que deram força aos movimentos pelos direitos civis e contra a Guerra do Vietnan.

Aqueles estudantes pediam tempo para falar e liberdade para falar.

Você quer um exemplo de parresia atual? Assista a um show de David Chapelle, ou do Louis C.K ou qualquer dos grandes humoristas norte-americanos. Eles dizem barbaridades para a plateia, coisas ultrajantes envolvendo temas cabeludos como estupro, drogas, crime, misoginia… e sabe qual a reação da plateia? Ela ri. Nervosamente, mas ri.

A parresia implica num contrato informal entre quem pagou para estar ali no teatro e a pessoa que fará a performance. A plateia dá a essa pessoa a liberdade de dizer o que quiser, como quiser, sem que tenha de pagar caro por isso.

E aí é que está um ponto crucial. Para a prática da parresia é preciso haver uma licença. Quem se sentiria ofendido concorda em ouvir as ofensas. E quem as profere sabe que pode fazê-lo sem sofrer as consequências. Você sabe o fnde isso leva? À discussão das ideias, ao confronto de argumentos, ao conhecimento de pontos de vistas diferentes.

Mas a sociedade hoje anda muito sensível.

Pois é, cara… A sensibilidade justiceira da sociedade faz com que a liberdade de expressão sirva apenas para calar a expressão de quem pensa diferente. Grupos fascistas intitulam-se antifascistas e descem o porrete em quem diz algo que possa ser minimamente ofensivo. Carreiras são destruídas nas mídias sociais por conta de palavras mal colocadas. Jornalistas arrotam tolerância e defesa da liberdade enquanto pedem a cassação da palavra de colegas que estão fora da patota. Artistas de bondade infinita pregam o cancelamento de outros artistas que rezam uma cartilha diferente. Empregos são perdidos, empresas são destruídas, bocas são caladas.

E o pano de fundo é: negar a liberdade de expressão é necessário para garantir a igualdade de expressão.

Sacou? É a mesmíssima jurássica postura das lutas de classe que diz que para que haja igualdade é preciso tirar de quem tem para dar a quem não tem.

Para a igualdade de expressão, é preciso criar abstrações como “lugar de fala”, que nega a voz a alguns para que outros possam falar. Cria-se então a censura do bem. Que é irmã do ódio do bem.

Você reparou que em momento algum eu me referi ao conteúdo do que está sendo dito, hein? Eu trato neste programa da liberdade de poder dizer. E se o que for dito quebrar a lei, que quem disse sofra as consequências. Ouça o Café Brasil 703 – Fogo no hall para complementar este programa.

E o Itaú Cultural, com a suspensão temporária de suas atividades presenciais em tempos de quarentena, leva uma programação muito especial com aulas de dança para crianças e de técnicas de desenho para que o público possa criar as suas próprias histórias ilustradas. Acesse o canal do Youtube IC,  IC para crianças. IC de Itaú Cultural.

Mas tem mais. Toda semana, uma seleção nova da Mostra de Filmes Online.

Acesse itaucultural.org.br. Agora você tem cultura entrando por aqui, por aqui. Pelos olhos e pelos ouvidos.

Muito bem. A isegoria não ameaça ninguém. A parresia sim. A história da humanidade está repleta de exemplos de gente que, dizendo verdades duras e cruas, inspirou outras pessoas a praticar ações que foram moldando o mundo como o conhecemos hoje. Para o bem e para o mal.

Muitos perderam as cabeças. Outros foram incendiados. Alguns receberam um balaço. Um, talvez o mais famoso, foi parar numa cruz. Tudo porque com suas palavras, ofenderam não apenas os poderosos, mas seus iguais. No caso mais emblemático, o poderoso lavou suas mãos quando o povo deu a sentença de morte ao profeta, cujas palavras incomodavam…

E então, surgem as redes sociais. E a isegoria se aplica de forma nunca vista antes. Todo mundo passa a ter espaço para falar. E a ser ouvido. E o mundo começa a celebrar a chegada da democracia através da tecnologia.

Sim, mas o que veio foi a isegoria e não a parresia. Você tem todo espaço para falar, mas não pode falar o que quiser, quando quiser, como quiser, para quem quiser. Mesmo que assuma responsabilidade sobre o que disser, perante a lei. Qual lei? Ora, aquela que foi feita para proteger nossos direitos e… peraí, cara. É justamente dos guardiões supremo da lei, que estão vindo, eles sim com os seus calabocas!

Pois é.

O exercício do discurso livre está sendo policiado e calado. E ele é só o caminho de entrada para calar o exercício do pensamento livre, da troca de ideias e de argumentos.

Chegamos ao ponto em que liberdade de expressão se aplica apenas a expressão de ideias escolhidas.

E isso, meu caro, não é liberdade.

Cala a boca Zebedeu
Sérgio Sampaio

Que mulher danada essa que eu arranjei
Ela é uma jararaca meu Deus
Com ela eu me casei
Quando está desesperada fala fala pra chuchu
E quando abre a matraca logo vem o sururu
Ontem eu falando com ela ela gritou
Cala a boca Zebedeu
Não se meta comigo
Porque na minha vida quem manda sou eu

Ontem quando eu cheguei em casa – às sete horas
Tava com a mala na mão – às sete horas
Dizendo que ia embora – às sete horas
Nas garras de um gavião
Olhou pra mim e me disse sem pestanejar
Eu vou pro Rio de Janeiro ver o scretch brasileiro jogar
Eu vou pro Rio de Janeiro ver o scretch brasileiro jogar

Muito bem! É assim, com o grande Sérgio Sampaio e seu Cala a Boca Zebedeu, que vamos saindo… preocupados.

Olha, o ponto crucial desta nossa conversa de hoje é: se você está feliz porque estão sendo caladas as vozes da patota do outro lado, aquela que diz coisas com as quais você não concorda, se está pensando assim,  “bem feito”, é porquê você não entendeu nada do que está acontecendo.

Talvez seu pensamento esteja preso no século 19. Talvez você esteja encantado com um canto de sereia. Talvez você não valorize a liberdade de expressão por nunca ter sido privado dela. Abra a mão de um pedacinho de sua liberdade, em troca de alguma conveniência e você nunca mais a terá de volta. E um dia sua hora há de chegar. Basta mudar o equilíbrio de forças. E aí, meu caro, não vai ter pra quem chorar.

De novo: se você está nervoso aí, ouça o Café Brasil 703 – Fogo no Hall. Ele ajudará você a não pagar o mico de achar que tudo que eu quero é poder chamar meu amigo negro de macaco, o gordo de rolha de poço e a loira de burra. Pagar o mico de achar que liberdade de expressão se limita à liberdade de ofender os outros.

Meu, como é que você pode se contentar com tão pouco, hein?

O Café Brasil é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí ó, completando o ciclo.

De onde veio este programa tem muito mais, e você pode agora fazer parte do time. Acesse o link confraria.cafe, de novo: o link é confraria.cafe, conheça os planos para se tornar um assinante e contribuir ativamente para que conteúdos como este que você acaba de receber, gostando ou não, cheguem semanalmente para mais e mais gente. Tem um plano lá, de doze reais por mê caras. Meu! É menos do que duas latinhas de cerveja quente na balada, cara! Por mês. Todo mês esse dinheiro vai fazer com que você ajude a gente a continuar crescendo, a continuar com a nossa voz sendo ouvida, a continuar a trabalhar pela liberdade. De novo: confraria.cafe.

O conteúdo do Café Brasil pode chegar ao vivo em sua empresa através de minhas palestras. Acesse lucianopires.com.br e vamos com um cafezinho ao vivo.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Para terminar, uma frase do filósofo e economista político inglês John Stuart Mill

Para os males da liberdade só existe um remédio: mais liberdade.