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Luciano Pires -

Você acha que a música popular brasileira acabou, hein? É? Quando? Então venha conosco nesta viagem pelas catacumbas do mercado fonográfico brasileiro. A gente vai tentar entender o que é que anda acontecendo.

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você está no Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Posso entrar?

“A gente se conforma ao sucesso, né? Uma vez eu estava falando com um sujeito que deu uma grande lição sobre velhice. Ele estava explicando o que que é velho. Velho é se repetir. No sucesso ou no fracasso. Ele deu uma grande matada nisso pra mim. Ele entortou minha cabeça. Porque às vezes você fica exatamente assim. Você acha que a única maneira de fazer as coisas é aquela que você está fazendo e você não consegue fletir com coragem, arrebentar as suas seguranças falsificadas e sair pra uma coisa importante. Eu não fiz isso…

A hipocrisia e a falsificação estão mais do lado de quem tem sucesso. Eu acho que é mais….o sucesso produz uma estupidificação mais acelerada, acho eu. Quando você está se ferrando você abre o teu olho e…… no plano inclinado você tende a enxergar as coisas de um jeito menos onipotente.

Tem outra frase bacaninha que um sócio meu, um alemão, aliás, um oficial do exército austríaco anexado ao exército nazista na Segunda Guerra invadindo a Rússia. Foi muito meu amigo. Amava esse sujeito. Chamava-se Otto Schurp. Ele dizia que havia um provérbio alemão que apontava assim: cuidado com as cabeças que você pisa quando você está subindo porque você vai vê-las todas na descida. 

No tipo de avião que a gente voava, os pilotos sempre levavam uma correntinha, uma correntinha que eles botavam pendurada, porque dependendo da posição do avião, você não percebe quando você está no meio da camada, se você está nessa atitude, nessa atitude, independentemente do horizonte artificial. É exatamente assim na vida. Você precisa ter uma correntinha que te mostra o caminho de baixo. O centro de gravidade. Você tem que andar, você tem que olhar pra baixo”

Ao som de NAQUELE TEMPO, com Dominguinhos e Yamandu Costa, abro o programa com esta homenagem ao publicitário, escritor e jornalista Enio Mainardi, detentor de uma coragem criativa como poucas que eu conheci na vida.

Olha! O Enio era anárquico, muito longe de ser unanimidade, tem gente que odeia ele, dono de língua tão ferina quanto solta, o Enio deixou uma marca profunda na propaganda brasileira e nos círculos que frequentava. Era daquele tipo de gente pela qual podemos sentir tudo, menos indiferença. E do alto de seus 85 anos estava sendo um combatente feroz contra a destruição do Brasil.

Essa homenagem aqui é porque ele morreu no dia 8 de agosto de 2020. Que siga em paz. Na  verdade eu acho que ele vai fazer uma bagunça, onde estiver, viu?

Em seu penúltimo tuíte, menos de um dia antes de sua morte, ele escreveu assim:

“A maioria dos pais que dá apoio ao tal Felipe Neto, cresceu assistindo a babá eletrônica da época. Ou seja o Show da Xuxa. Os outros preferiram a Tiazinha com o chicotinho na mão e o narigudo atrás.

Deu na merda que estamos vendo.”

Pois é. O tuíte do Enio resume o programa de hoje.

“Luciano. Boa noite, bom dia, boa tarde. eu me chamo Ventura, eu sou da cidade de Arapiraca, Alagoas, conheci o seu programa,, podcast Café Brasil  através de Tibério que é um advogado que quando eu estagiava em direito, passei cinco anos na faculdade, mas confesso a você, ao longo desses dois anos, eu confesso, sinceramente, eu confesso.

Alguém pode até rir, é um direito de rir, mas os cinco anos que eu passei na faculdade, eu adquiri tanto conhecimento, tanta cultura o quanto eu conheci o seu programa. Na realidade, fico até medonho de dizer que eu saí inculto da faculdade e me tornei um culto.Agradeço muito a você. Isso aí, o mérito é seu. Não foi de professor universitário. Universidade eu aprendi Direito. A gente aprende Direito. Não é um lastro dessa forma não. Jamais vista.

Eu passei pra minha filha Isadora, até porque ela aprendeu muita coisa comigo, né? Espero que o David, meu filho com cinco anos pegue o gancho também, né?  Mas eu estou tendo aula que jamais tive na minha vida.

Estou falando emocionado, minha voz tá um pouco, você pode perceber mas, sinceramente, eu nunca adquiri tanto conhecimento na minha vida como adquiri com você, Luciano. E o que eu posso lhe dizer, vida longa ao Café. Pra que mais pessoas tenham acesso a esse conhecimento. Que não é qualquer conhecimento. É um conhecimento vasto, lastro, não é linear. É amplo, é tudo de bom.

As pessoas do Brasil que ouvirem esse áudio agora, podem saber:  conhecimento e cultura se aprende com Luciano Pires. Muito obrigado Luciano por você existir. Eu também dou um beijo estalado na sua testa. Um forte abraço, meu irmão”

Graaaande Ventura de Arapiraca cara! Eu não sei que idade você tem não, mas a voz é de um cara já maduro. E eu sempre fico emocionado e com o peso da responsabilidade aumentado quando recebo uma mensagem como essa de alguém maduro. Olha, meu caro, eu fiz uma escolha muito tempo atrás, seguindo uma frase deliciosa de Rubem Alves: “Só abra a boca se for para melhorar o silêncio.”

Se eu tenho algum poder de fala, de produção e de distribuição de conteúdos, é minha responsabilidade fazer com que os minutos de vida que você investe em mim, valham a pena.

Que pena que nem todo mundo pense assim. Seja sempre bem-vindo, meu caro!

Muito bem. O Ventura receberá um KIT DKT, recheado de produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculinos. Basta enviar seu endereço para contato@lucianopires.com.br.

A DKT distribui as marcas Prudence, Sutra e Andalan, contemplando a maior linha de preservativos do mercado, além de outros produtos como anticonceptivos intrauterinos, géis lubrificantes, estimuladores, coletor menstrual descartável e lenços umedecidos. A causa da DKT é reverter grande parte de seus lucros para projetos nas regiões mais carentes do planeta para evitar a gravidez indesejada, infecções sexualmente transmissíveis e a AIDS. Ao comprar um produto Prudence, Sutra ou Andalan você está ajudando nessa missão!

facebook.com/dktbrasil.

Vamos lá então!

Luciano – Lalá, hoje a gente vai falar de algumas coisas que não podem ser deixadas de lado, né? Qual é o exemplo que você dá?

Lalá – Ora, meu caro, na hora do amor, use Prudence.

Olhaí, o grande Nikolas Krassik com Lamento Sertanejo seguido do Último Pau de Arara… música brasileira da melhor qualidade, que você só escuta aqui ó, no Café Brasil.

Esta semana fiz um post meio indignado para a turma da Confraria Café Brasil, mostrando o post no Twitter no qual anunciei o lançamento do Podcast Café Brasil 729. Eu vou atualizar os números aqui ó: 247 pessoas clicaram, 68 deram likes e 14 compartilharam. 14 compartilhamentos de 68 likes. A pessoa diz que gosta, mas não compartilha… como é que espera que a gente cresça, hein? Ou será que é pra não crescer mesmo, hein?

Quem nos escuta e gosta do que a gente faz, tem de se mexer, pô. Mídias sociais não andam sozinhas e eu não pretendo investir em estratégias para buscar seguidores no atacado. Não, cara. Não vou pintar o cabelo não vou sair fazendo treta para obter engajamento em meu conteúdo e ter milhares de likes e compartilhamentos. Eu já passei da idade pra isso.

Se você vê valor, no trabalho que a gente faz aqui meu, contribua! Dê um like, comente e principalmente, compartilhe. Se não cara, fica complicado…

E se quiser ir mais longe, ajudando a gente a manter a independência, torne-se um assinante do Café Brasil. Acesse confraria.cafe e faça uma assinatura, o plano mais em conta custa 12 reais por mês.

Cara, a gente precisa de você!

confraria.cafe.

A música brasileira entrou, nos anos 90, num impressionante processo de decadência. Errado. A música brasileira continua, desde os anos 90, boa como sempre. Há grandes compositores, cantores, instrumentistas. Mas não é possível dizer que estejam em atuação. Tentam atuar. Não têm onde. Tentam viver da arte – tolice. São dentistas, fiscais do INSS, professores, motoristas de táxi, balconistas, colunistas de jornais – essas atividades garantem a sobrevivência. Tomam tempo – a criação artística, que é a atividade principal (estamos falando de artistas) acaba sendo deixada para as horas possíveis.

A música brasileira que toca nos rádios, na televisão, nos grandes palcos, nos estádios, nas festas de São João, no carnaval, nas convenções de criadores de gado é que está em decadência. E só ela que aparece. A outra música, a boa, existe, mas não aparece. A culpa é dos radialistas, dos que montam trilhas sonoras de televisão, dos executivos das gravadoras, dos produtores de discos e espetáculos, dos marqueteiros da indústria de entretenimento. Essa gente criminosa está transformando, conscientemente, coração em tripa. É responsável pela seleção do que você ouve e deixa de ouvir. Essa gente está assassinando o que há de mais rico em nossa produção cultural. E ganhando muito, muito, muito dinheiro.

É essa a ideia. Ganhar dinheiro e dane-se o resto. Um disco, na indústria, não é chamado de disco, mas de “produto”. O produto precisa vender. Para que o produto venda, precisa ser exibido. Até agora, apenas regra de mercado, nada demais. No entanto, para que seja exibido, paga-se ao exibidor – ao programador de rádio, ao apresentador de programa de auditório televisivo. Como são muitos os produtos, sobe o cachê do exibidor. É uma prática antiga, tem até nome: jabá. Paga-se o jabá para que a música toque, sempre foi assim. Mas o mecanismo perverso foi ficando mais perverso. Quem pode pagar mais, consegue maior número de execuções. Isso é reproduzido no país inteiro. Quem pode pagar mais, escolhe o que você vai ouvir. E você fica achando que é só aquilo que se produz de música. Porque é só aquilo que está ao seu alcance. Quem não paga, não toca. Não existe.

Vamos assumir
Tim Bernardes

Tanta gente sofrendo sozinha
Tanta gente sofrendo a dois
Esperando fazer com que a vida
Seja idêntica ao que se sonhou

A gente tem tempo
Mas o pensamento
Viaja mais rápido que a nossa ação

E a gente machuca
E é machucado
Apegado à uma ilusão

E eu fiz de tudo pra gente dar certo e não deu
Meu bem
Vamos assumir

Tem vez que a gente acredita que era pra ser
Mas a gente tem pressa
E vê o que quer ver

Tantas expectativas frustradas
Cada uma numa direção
Projetando uma imagem no outro
Ficou preso na imaginação

A gente tem tempo
Mas o pensamento
Viaja mais rápido que a nossa ação

E a gente machuca
E é machucado
Apegado à uma ilusão

E eu fiz de tudo pra gente dar certo e não deu
Meu bem
Vamos assumir

Tem vez que a gente acredita que era pra ser
Mas a gente tem pressa
E vê o que quer ver

Você está ouvindo uma amostra da música de primeira qualidade que é feita no Brasil, e que você provavelmente não conhece, pois não toca nas rádios e TVs. Este som é Vamos Assumir, de e com o Tim Bernardes, compositor, produtor musical e multi-instrumentista da cena musical paulistana. Com sua banda O Terno, é um sopro de qualidade no meio das baixarias que querem que você engula…

Há algum tempo, uma igreja evangélica comprou a rádio FM Musical, de São Paulo, capital. Era uma rádio que só tocava música brasileira. Praticava o jabá, como todas, mas como a audiência era menor, o preço era menor. O que permitia o acesso às ondas sonoras a alguns artistas menos conhecidos – os tais que são dentistas ou fiscais do INSS. Às vezes até sem pagamento de jabá programava a execução deles. Misturava um pouco de “música de mercado” e de música de verdade. Talvez por isso não tenha resistido. Há práticas alternativas de jabá. Um famoso letrista fez um disco independente, comemorativo de tantos anos de idade e de carreira. Armou pequeno esquema, alternativo, de distribuição do disco. Fiou-se, talvez, no nome famoso. Ouviu dos intermediários dos programadores de várias rádios: “Ô meu! Dá um iPhone para ele que ele toca o seu disco.”

O retorno do investimento dos que pagam mesmo o jabá, o dinheiro alto, sai da venda de discos e shows, da venda de bonecos, camisetas, roupinhas para crianças, sorvetes, biscoitos, bicicletas, sandálias, lancheirinhas, pegadores de cabelo, batons, perfumes, roupas de cama e banho, coleções de lápis de cor ou o que se possa imaginar que possa ter estampada a marca do “ídolo”. O “ídolo”, por seu turno, cumpre a maratona de estar presente em todos os programas televisivos de auditório, garantindo audiência que vende os anúncios que sustentam os programas e fazendo a roda rodar, o preço subir. A presença do “ídolo” pode mesmo ser indireta: o apresentador Raul Gil, da TV Record, preparava novos consumidores da bunda-music promovendo concurso de imitação do rebolado da Carla Perez, ex-É o Tchan. As candidatas tinham 5, 6, 7 anos de idade.

Não há questão moral a ser considerada. O negócio é dinheiro.

Um bom compositor, cantor, instrumentista vai ter de se submeter a determinados imperativos (ditados pelos que pagam a execução) ou fica de fora. Quem não entrar no esquema não aparece. Quem quer entrar no sistema precisa ter muito dinheiro – precisa pagar mais ainda, porque as “vagas” são limitadas. Se entra um, sai outro. Por isso existem as vogas, as ondas – um ano de música sertaneja, um ano de axé music, um ano de falsas louras bundudas, um ano de pagodeiros de butique, um ano de funk deformado… Olha! E o preço vai subindo, a cada nova etapa da substituição.

Só quem entra no esquema, claro, é a grande indústria, que tem o dinheiro – e que inventou o esquema, afinal.

Essa é a versão de Mello Jr. para Vieste, de Ivan Lins que, com seu parceiro Vítor Martins, no início da década de 1990 fundaram a gravadora Velas, para dar voz a uma quantidade imensa de músicos que eles conheciam, mas que estavam fora do mercado.

Nomes como os de Edu Lobo, Fátima Guedes, Almir Sater, Pena Branca e Xavantinho, Guinga. Aliás, o primeiro disco da gravadora foi o primeiro disco de Guinga. A Velas tinha uma proposta musical alternativa ao padrão imposto pela grande indústria. Montou estrutura, divulgação e distribuição nacionais. O vendedor da Velas ia ao lojista oferecer o produto. Ouvia: “Quero, mas não vou pagar agora,  eu pago se vender.” Três meses depois, voltava o vendedor, para oferecer novo produto e cobrar o outro – que havia sido vendido. E ouvia assim: “Eu quero o novo, mas não pago o antigo, porque tenho de pagar à multinacional Tal, ou ela não me entrega a dupla sertaneja Qual & Pau.”

Acontece que a dupla sertaneja Qual & Pau (pense na que quiser: Leonardos, Chitãozinhos, ou substitua a dupla sertaneja por grupo de pagode ou por banda de axé ou de funk) tem música na trilha da novela, paga para tocar em todos os programas de auditório e em todas as rádios – como é que o lojista pode ficar sem a dupla? Então, o lojista paga a gravadora que tem sob contrato a dupla sertaneja e não paga nunca a Velas, que tem o Edu Lobo (que infelizmente não tem música em novela nem toca em programa de auditório, muito menos no rádio). Perda por perda, o vendedor da Velas deixa o novo disco, sem receber pelo antigo – e assim a coisa seguiu. Aos trancos e barrancos a Velas seguiu, premiadíssima, revelando artistas como Guinga, Chico Cesar, Lenine, Rita Ribeiro e Vânia Abreu, até que em 2007 a gravadora Galeão assumiu seu catálogo, que depois foi parar nas mãos da Sony Music Entertainment.

Ou seja, estamos falando de economia, de lobbys, de pressões e não de música. Disco é negócio, todos sabemos. Precisa pagar-se, dar lucro. A questão é que os executivos do mundo do disco concluíram que o povo é burro e só vai consumir música burra. Então, o executivo da fábrica X inventa um grupo de pagode, paga para que ele apareça muito, etc. O da fábrica Y diz: “Este filão dá certo, vou nele”, e inventa um grupo de pagode que imita aquele primeiro. É só o que eles fazem. Clonam-se uns aos outros. Se o Chico Buarque fosse bater à porta de uma gravadora, hoje (o Chico sabe disso, ele já disse que sabe disso) ouviria que sua música é “difícil” e não se enquadra nos “padrões da companhia”. O mesmo com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Egberto Gismonti, Edu Lobo, Tom Jobim, Noel Rosa, Cartola, Nélson Cavaquinho, Wagner Tiso: todos “difíceis”, fora do padrão.

Claro: é preciso contratar o pagodeiro barato porque ele é orientável. Faça isso, faça aquilo, cante assim, vista-se assado, vá ao programa tal, diga tal coisa, mexa as cadeiras desse modo – e, sobretudo, não faça música. Ninguém trataria assim o Chico Buarque – e já que ele não pode ser tratado assim, como coisa, como objeto, como ponta-de-lança de uma campanha de vendas, então afaste-se o Chico Buarque. Ele é “difícil”.

E Itaú Cultural sabe muito bem da cultura que está escondida por aí, que não aparece, por isso dá uma força. Eles tem três podcasts para quem se interessa por música, literatura e questões indígenas.

No podcast Escritores-Leitores, autores brasileiros falam de seu processo criativo. No Toca Brasil, artistas, produtores e pesquisadores do universo musical falam de seu trabalho. E no podcast Mekukradjá escritores, cineastas e lideranças de povos indígenas de várias regiões do Brasil tratam das questões indígenas. Ali tem cultura e cultura pesada, cara!

Acesse itaucultural.org.br , Agora você tem cultura entrando por aqui, ó:

Pelos olhos e pelos ouvidos…

Enquanto isso, o ouvinte vai acostumando o ouvido com as barbaridades criadas nos laboratórios de marketing das companhias de disco – padres cantores, traseiros cantores, sadomasoquistas cantores, falsas louras cantoras, negões vitaminados cantores. E perde a capacidade de comparar – comparar com o quê?  O padre cantor com o traseiro cantor? Não tem diferença. O ouvinte fica sem possibilidade de julgar (na verdade ele pensa que está escolhendo o grupo pagodeiro tal, quando, de fato, só sobrou para ele o grupo pagodeiro tal). E os criadores…Bem, os criadores, os artistas verdadeiros, que existem, quase ninguém sabe, vão resistindo o quanto podem. Um dia, desistem – os novos Chicos e Caetanos, as novas Elis Reginas e Nanas Caymmis, os novos Jobins e Fátimas Guedes um dia desistirão. Precisam comer, vestir-se, sustentar filhos. A ganância dos executivos está promovendo um massacre da cultura brasileira que talvez não tenha similar na história da humanidade. Estão matando de fome o que temos de mais rico – nossa música. Matando de fome a inteligência e a sensibilidade.

Olha! O texto que usei neste programa foi escrito por Mauro Dias, crítico de música que foi dono da Mauro Discos, uma daquelas lojas onde você só encontrava o melhor da música popular brasileira.

Mauro morreu em 2016. Este texto você ouviu neste programa aqui, no qual fiz pequenas adaptações, é o mesmo do Café Brasil 13, lá na pré-história, cara.

Este texto foi publicado no Caderno 2 do Jornal O Estado de São Paulo, em junho de 1999.

Paciência
Lenine

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo
Que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não

Será que é tempo
Que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida é tão rara
A vida não para não

A vida é tão rara

Pois é… é ao som de Paciência, com Lenine, a gente vai continuando nessa de olhar pra trás e pensar “pô, mas eu já vi esse filme…”.

Olha! Como escreveu Enio Mainardi naquele tuíte, estamos colhendo o que plantamos.

Tem saída, cara? Tem sim, mas você precisa se mexer cara, tem que valorizar quem produz conteúdo que presta. É pela pressão popular que a gente consegue inverter esse jogo. Mas é muito difícil, bicho! Todo mundo tem preguiça.

O Café Brasil é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, você aí  que completa o ciclo.

De onde veio este programa tem muito mais, e você pode agora fazer parte do time. Acesse o link confraria.cafe, de novo: o link é confraria.cafe, conheça os planos para se tornar um assinante e contribuir ativamente para que conteúdos como este que você acaba de receber, gostando dele ou não, cheguem semanalmente para mais e mais gente. Tem um plano lá, de doze reais por mê caras. Meu! É menos do que duas latinhas de cerveja quente na balada, cara! Por mês. Todo mês esse dinheiro vai fazer com que você ajude a gente a continuar crescendo, e continuar com a nossa voz sendo ouvida, a continuar a trabalhar pela liberdade, pela independência, cara! De novo, vem pra cá: confraria.cafe.

O conteúdo do Café Brasil pode chegar ao vivo em sua empresa através de minhas palestras. Acesse lucianopires.com.br e vamos com um cafezinho ao vivo ou online, cara!

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Para terminar, uma frase de Rita Lee e Roberto de Carvalho, lá em 1980, cara mas que é atualíssima…

Alô, alô, marciano
A crise tá virando zona
Cada um por si, todo mundo na lona