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Podcast Café Brasil com Luciano Pires
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Luciano Pires -

 

A Perfetto patrocina o Café Brasil e você a esta altura já sabe muito bem o que eles fazem, não é? Sorvetes! Sorvettes com dois tês cara!

No site deles, em perfetto.com.br – você tem que lembrar sempre, esse perfetto tem dois “tês” também. A gente  enlouquece. Tem lá o Light Chocolate e Coco, que é sem açúcar e com 50% menos calorias, quando comparado com o alimento convencional. Produto adoçado com sucralose.

Cara! Eles tem toda uma preocupação ali de atender a todo tipo de gosto. Cara! Sorvete é um negocio fantástico. Se você pensar que os maiores reis da humanidade, lá atrás, Tutancâmon, nunca tomou um sorvete, você vê o poder que você tem em mãos. Especialmente se for Perfetto.

Tá vendo só, Lalá? Você não tem nem que ter medo de ficar gordinho…

Com sorvete #TudoéPerfetto

A “Internet das Coisas” é um termo que nasceu no final dos anos 90, para tratar de uma revolução tecnológica que conectará os itens usados no dia a dia. Eletrodomésticos, meios de transporte, tênis, roupas e até maçanetas conectadas à Internet e a outros dispositivos, como computadores e smartphones, vão mudar nosso jeito de ser, fazendo com que os mundos físico e digital tornem-se um só.

A velocidade e segurança dessas conexões será papel do 5G, a quinta geração das redes móveis, que vem sendo desenvolvida desde os anos 2000, para ser a sucessora da rede 4G. O 5G está chegando para mudar o mundo.

E a Motorola larga na frente com os primeiros 5G do Brasil – Motorola Edge e Motorola Edge +. E também com os primeiros aparelhos do segmento intermediário a permitir esse tipo de conexão, o Moto g 5G Plus e Moto g 5G, linha “G” da Motorola.

A Motorola coloca o 5G em suas mãos. Para saber mais, acesse motorola.com.br.

Há muito tempo eu tinha a ideia de trazer para o LíderCast uma dupla sertaneja que estivesse no auge da fama. E depois de um bom tempo tentando casar agendas, eis que surge a oportunidade de um bate-papo com o Cesar Menotti, que em parceria com seu irmão Fabiano, compõe uma das duplas de maior sucesso no Brasil. Como dois bons caipiras, mandamos ver num proseado bão, com direito a viola, coxinhas e muitos causos. Vamos nessa?

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você está no Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Posso entrar?

“Fala Luciano. Tudo bem? Eu vim aqui pra mandar esse áudio, porque eu preciso dividir com você uma coisa, cara. Eu até nem tinha me tocado que a última mensagem que eu mandei pra você no dia 30/12, era elogiando o episódio 750, do Rocket man.

E essa semana aqui, os nossos filhos têm estado em casa, por conta das escolas fechadas, o meu filho mais velho que tem 12 anos, ele estava fazendo a aula pelo computador e eu passei ali na frente do escritório que a gente tem em casa onde eles costumam fazer a lição dele e eu ouvi que estava tocando Rocket man. E aí eu parei, não entrei, fiquei ouvindo do lado de fora e o André, esse meu filho, estava, em dinamarquês, né? Explicando pros colegas dele de classe, falando, cara, de todos os detalhes da música. Ele falava assim, ó: a música começa sem introdução, já começa cantando. De repente aqui, ó, vem um reloginho, parece que o foguete vai decolar, ó. E esse baixo aqui ó, que traz a lembrança dele da terra… ele estava no carro junto comigo. A gente ouviu junto. A gente estava fazendo uma pequena viagem, nesse dia 30 de dezembro e ele ouviu o programa, cara!

Eu fiquei até emocionado de ver assim como tocou ele, sabe? Esse programa, esse tema, ao ponto dele passar pra frente, pros coleguinhas dele a sua interpretação, a explicação que você deu sobre a música. É fascinante cara! Fascinante! Acho que esse tipo de conteúdo me dá muita alegria de ouvir, sabe? Porque nós precisamos de coisas bonitas, eu acho.

Hoje em dia tá… eu sou artista visual, né? Eu sinto um vazio profundo. Eu não aguento mais ir a museus, especialmente pra ver trabalho mais contemporâneo, porque tudo parece que é lixo, lixo, lixo, lixo. Tudo está… perdeu o sentido da beleza das coisas.

E é nisso que eu tenho trabalhado bastante com eles. E eu vejo que ele já tem essa sensibilidade de perceber a beleza das coisas. Um abração, Luciano. Valeu! Até mais.”

Muito bem! Esse foi o Felipe Romano cara, lá da Dinamarca, com um relato delicioso de como uma pedrinha jogada no lado, produz ondas…  Cara! eu fiquei imaginando a cena do garoto explicando, um garoto de 12 anos, brasileiro, explicando em dinamarquês pros coleguinhas como é que era a música do Elton John. Muito legal, Felipe, manda um abração pro André! Diga pra ele ouvir nossos outros musicais, que ele vai aloprar a molecada dinamarquesa.

Muito bem. O Felipe, se mandar um endereço no Brasil, receberá um KIT DKT, com alguns dos principais produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculinos. Basta enviar seu endereço para contato@lucianopires.com.br

A DKT distribui a maior linha de preservativos do mercado, com a marca Prudence, além de outros produtos como os anticonceptivos intrauterinos Andalan, géis lubrificantes, estimuladores, coletor menstrual descartável e lenços umedecidos. Mas o que realmente marca na DKT é sua causa de reverter grande parte de seus lucros para projetos nas regiões mais carentes do planeta. A DKT trabalha para evitar gravidez indesejada, infecções sexualmente transmissíveis e a AIDS. Ao comprar um produto Prudence, Sutra ou Andalan você está ajudando nessa missão!

facebook.com/dktbrasil.

Vamos lá então!

Luciano – Lalá, hoje o papo é caipira. Cê tem algum recado bão?

Lalá – Ô sô…use Prudence, uai!

LíderCast 218 – César Menotti

Luciano Pires: Bom dia, boa tarde, boa noite. Bem-vindo, bem-vinda a mais um LíderCast, o PodCast que trata de liderança e empreendedorismo, com gente que faz acontecer.

César Menotti: César Menotti, meu nome de registro. E eu tenho 38 anos, eu sou de 24 de março de 82. E eu sou um cantador, e tocador de viola.

Luciano Pires: Meu caro, você… deixa eu dar já um aviso no começo aqui. Quem quiser ouvir a história de vida do Menotti, com detalhe, ele acabou de gravar um flow PodCast, tem 2 horas aí, que ele contou um monte de história, e eu vou tentar aqui não repetir o que ele falou lá, embora eu não tenha ouvido o programa, e eu ouvi um trechinho dele. Mas, eu vou tentar então não tecer muitos detalhes aqui, mas, mergulhar em alguns temas que são importantes para esse momento que nós estamos vivendo aqui, agora.

César Menotti: Antes de mais nada, eu quero dizer que talvez eu não fique tão à vontade aqui com você, porque é difícil você tratar com quem você admira, né? Só depois de muito tempo. Diz que a convivência mata o ídolo, né? Então, a gente precisava passar uns três anos juntos, para eu me ambientar e conseguir tratar com normalidade aqui. Para mim, é um prazer muito grande, porque até ontem eu estava lá no meu telefone te ouvindo. Hoje, eu estou aqui falando contigo.

Luciano Pires: Você sabe que era uma pergunta que eu ia fazer para você, que era essa. Cara, como que você foi parar no PodCast, como que você foi cair no Café Brasil, o que que te levou a encontrar o meu trabalho?

César Menotti: PodCast, eu já sou um ouvinte há muitos anos. Ainda quando ninguém conhecia PodCast. Porque eu viajava muito de ônibus, fazendo muitos shows pelo Brasil a fora, eu passava praticamente 10 horas dentro de um ônibus todo dia. Eu precisava de uma forma de ouvir as músicas no telefone, ouvir algo que fosse off-line. E naquela época, só o PodCast dava essa possibilidade de baixar, e ficar off-line.

Luciano Pires: Quando você fala, “naquela época”, estamos falando de quando?

César Menotti: Ah, sei lá, uns oito anos atrás, dez anos. O PodCast era o que dava a possibilidade de baixar no próprio telefone. Aí eu comecei a baixar vários PodCasts, e conhecer vários PodCasts bacanas. E dentre eles, eu conheci o Café Brasil, que eu fiquei encantado já.

Luciano Pires: Então, como é que você chega no PodCast? Alguém te deu uma pista? Falou, “César, tem um treco aqui que você consegue baixar”.

César Menotti: Mexendo no telefone, eu achei um aplicativo, e descobri. Aí, na minha cabeça, na época, ainda era uma espécie de como se fosse um rádio.

Luciano Pires: Então, você acabou virando um ouvinte de PodCast?

César Menotti: Ouvinte de PodCast.

Luciano Pires: Então, e caiu no Café Brasil. Cara, Café Brasil, é um programa chato, cara.

César Menotti: Não, pelo contrário. Eu já…

Luciano Pires: Ele é pentelho cara. O cara falando com aquela vez, parece que tem um ovo na boca. Aquelas músicas velhas, aqueles assuntos de velho. Como é que é?

César Menotti: É tão assim, interessante, que eu pensava que você tinha umas cinco pessoas na edição aqui. Pela qualidade de edição, pela qualidade do repertório das músicas que você apresenta, eu achei incrível. Obvio, que não é aquele programa que eu escuto quando eu vou dormir. Quando eu vou dormir e quero ouvir um PodCast, eu coloco um que não me chame a atenção muito, porque o Café Brasil, eu me prendo muito. E sei, que toda vez que eu escuto, eu aprendo alguma coisa.

Luciano Pires: Que legal, cara. Eu não sei nem te dizer a minha satisfação, mas é muito legal cara, muito legal saber. Vamos voltar um pouquinho na sua história. Você se apresenta agora, como um cantador.

César Menotti: Sou um cantador.

Luciano Pires: E cantador, evidentemente, não é um cara que sobe no palco e canta na frente de um microfone. É todo um ambiente, um contexto. E esse contexto, passa pelo seu interesse pela música, pelo estudo de quem veio antes, pela composição, pela produção, e até a entrega. A entrega, é um momento… é os 100 metros rasos, do boat, né?

César Menotti: Exatamente. Mas, falar a verdade, o show, ele é o mais fácil, né? É uma hora e meia, muito fácil. O difícil é o conteúdo. Eu acho que o que eu carrego para as pessoas ouvirem hoje, foi o que eu vivi na minha infância, adolescência, juventude. Porque ali dos meus 12, aos meus 17 anos, eu não fiz outra coisa, a não ser ouvir música caipira. Então, obvio, que a música que eu canto hoje, não é caipira. Eu tenho um trabalho também, e eu gosto, e respeito muito.

Luciano Pires: Você está citando música caipira, você não falou sertaneja, você falou caipira.

César Menotti: Mas, o Dino Franco, que foi um dos maiores poetas da música sertaneja, ele foi um cara revolucionário, porque ele trouxe uma música sertaneja com o português falado correto. Porque tinha uma linguagem caipira, daquele que “nóis vai, nóis foi”. E, de repente, ficou um pouco pejorativo, no momento. O Dino Franco, trouxe uma linguagem que fala no português correto, com palavras que a gente não estava acostumados a ouvir. Mas, ele disse uma coisa uma vez. Ele disse que a música sem origem, ela é fraca, vulgar e fria. Então, eu sempre tive interesse de saber de onde vinha a música que eu estava cantando.

Luciano Pires: Você estava falando para mim aí, eu estava me lembrando, pelo que você está me dizendo, o Dino Franco, para a música caipira ou sertaneja, está para o Cartola, para o samba.

César Menotti: Exatamente.

Luciano Pires: Que é um cara que bota uma letra, que se ler a letra dele hoje, fala, “cara, isso é uma peça de literatura cara”.

César Menotti: Exatamente.

Luciano Pires: Isso não é uma letrinha de música, isso é literatura.

César Menotti: Exatamente. Isso é o que o Dino Franco fazia.

Luciano Pires: Isso traz valor, isso tudo valoriza.

César Menotti: Claro.

Luciano Pires: Vamos explorar um pouquinho essa história que a gente comentou agora, que o show é mais fácil, e que atrás dele tem todo um environment aí. Evidentemente, quando você começou, você falou para mim que você passou dos 12 aos 13 anos, ouvindo só música caipira. Você ouviu porque alguém te colocava isso para ouvir, seu pai adorava, alguém te empurrou para esse caminho? Ou, foi um interesse que nasceu?

César Menotti: Não, meu pai era o cara que mais gostou de moda de viola que eu conheci na vida. Então, isso vem do meu pai. Era a discografia que eu tinha acesso, era o que eu tinha em casa para ouvir, era música caipira. Até na minha época de escola, eu não falava que ouvia, porque as pessoas tiravam sarro, chacota. Mas, a minha infância toda, que eu me lembro, eu não me recordo de ter curtido outro estilo musical.

Luciano Pires: E você está falando de anos 80.

César Menotti: Estou falando de anos 80. Nasci em 82.

Luciano Pires: E tinha um cenário no rock brasileiro, pegando a molecada toda. E você não estava…

César Menotti: Isso. Eu ouvia nessa época, eu ouvia muito Dino Franco e Moraí, Zilo e Zalo, Liu e Leo, Zico e Zeca. Então era assim, a influência que eu tinha ali.

Luciano Pires: E a outra música, o rock, os anos 80, o pop.

César Menotti: Não ouvia.

Luciano Pires: Nada disso?

César Menotti: Não que eu não goste. Hoje eu gosto, até regravo muito. Mas, não era meu ambiente naquela época.

Luciano Pires: Você, nessa época, com 12 anos de idade, 13 anos de idade. Você pensou que isso poderia vir a ser o seu futuro? Era isso que passava na sua cabeça? Que cara, gosto tanto que eu vou trabalhar para isso. Ou não?

César Menotti: Bom, o meu pai tinha muito desejo que a gente fosse artista. E ele nos criou para isso. Mesmo naquela época, nos anos 90, que a gente era criança, onde a família e outras pessoas diziam que tinha que estudar, ter uma formação, que ser artista não era coisa de gente descente, o meu pai já brigava para que fossemos artistas. Então ele meio que deixou o terreno preparado para a gente. Quando a gente começou a tocar profissionalmente, aí eu já tinha um histórico de afirmação, que era aquilo que a gente tinha que fazer mesmo.

Luciano Pires: De zero – miserável com o pé no chão. E dez – bilionário, dono de supermercado. Sua escala, onde é que você estava quando você era moleque? De zero a dez?

César Menotti: Tá. Aí é o mais incrível. Nós estávamos de zero a dez, porque eu sou filho de um garimpeiro. Então, meu pai em um dia estava “bamburrado”, e no outro dia estava “brefado”, que é o termo que a gente usa no garimpo.

Luciano Pires: Cara, seu pai era garimpeiro?

César Menotti: Garimpeiro.

Luciano Pires: Mas garimpeiro mesmo, de dono de garimpo, é isso?

César Menotti: Dono de garimpo. Mas ia junto, meu pai chegou a ficar 1 ano fora de casa, no meio da mata. Era assim, uma aventura, e a gente sempre admirava muito aquilo, gostava demais daquela vida. Portanto mudamos, moramos no país inteiro. Moramos no Pará, Mato Grosso, Paraná, Minas Gerais, São Paulo, Tocantins, Goiás, tudo a nossa família morou.

Luciano Pires: Se eu perguntar para você qual é a sua raiz, você vai dizer que é mineiro? O que que é?

César Menotti: Não, a minha raiz, é uma mistura de Minas e Paraná, que foi onde eu passei mais tempo. O lugar que nós mais moramos, foi Minas Gerais, 5 anos. Depois disso, era 1, 2 anos em um lugar, depois ia para outro.

Luciano Pires: Tua mãe fazia o que?

César Menotti: Minha mãe, cuidava da gente. Dona de casa.

Luciano Pires: Vocês são em quantos?

César Menotti: Somos em 3 irmãos.

Luciano Pires: Me fala uma coisa, eu sou absolutamente ignorante desse mundo do garimpo, e tudo mais. A imagem que eu tenho, que eu acho que é a imagem que o mundo tem, é que é um segmento pesado, violento. Ali não tem, ali escreveu não leu, o pau comeu. Tem uma justiça própria, tem todo um… Até porque, ele está meio que abandonado no meio do interiorzão. É um negócio meio rude. É isso, estou certo?

César Menotti: Tá, mais ou menos. O garimpeiro, naquela época do meu pai, ele era movido por sonhos, por lendas. Ouvia falar que há 100 anos atrás, alguém garimpou lá no meio da selva amazônica em tal lugar, eles iam. Meu pai pegava ali 25, 30 homens, e ia para dentro da mata, desbravar, levando equipamentos, abrindo estrada para passar. Eles faziam assim. Hoje, eu atuo na área da mineração. Mas, já é um pouco diferente, já não tem aquele sonho do meu pai, de ficar rico da noite para o dia. Isso aconteceu várias vezes com meu pai. Agora, dentro do garimpo, existe realmente uma lei própria. Esse tempo todo do meu pai, 40 anos dentro de garimpo, de mata, lidando com todo tipo de gente, eu nunca ouvi falar em roubo. Dentro do garimpo, o cara deitava na rede, e colocava seu potezinho ali com 1 quilo de ouro ali do lado, enfiado em um bambu, e dormia. Ninguém roubava lá dentro.

Luciano Pires: Tem uma ética própria ali.

César Menotti: É. Fora do garimpo, acontecia. Mas, ali dentro daquele ambiente, era um ambiente seguro.

Luciano Pires: Deixa eu te contar uma história fantástica que eu vivi, cara. Eu fui para Macapá, fazer uma palestra, estou lá em Macapá. Para quem está me ouvindo aqui, e não sabe onde fica Macapá, Macapá fica 6 quilômetros depois do fim do mundo. É muito longe, e longe no sentido de longe, de dificuldade de acesso. Você não tem muito caminho para chagar lá. E eu cheguei lá em Macapá, fui lá fazer a palestra, quem me recebeu foi o presidente da associação comercial, alguma coisa assim. E aí vamos jantar à noite, me levou para jantar, comi um peixe maravilhoso em um restaurante, estamos ali sentados. Dali a pouco, ele, “Luciano, espera aí que eu vou te apresentar uma pessoa”. E foi, trouxe até mim, eu levantei e fui com ele até o cara, e chegando lá tinha um cara, ele estava, deixa eu ver se eu consigo descrever. A tés da pele dele, ele não era negro, ele não era branco, ele era uma tés de pele, que para ter aquele tom, tinha tanto sol ali, que o cara chegou, era um couro. E o cara tinha pulseiras de ouro, do pulso até o meio do braço, nos dois braços, pulseiras que não acabavam mais. Colares de ouro, que não acabavam mais, era um volume gigantesco. E a hora que ele me apresenta, eu dou a mão para o cara, o cara abre um sorriso, e todos os dentes eram de ouro. Ele me apresenta o cara, esse cara era o cara do garimpo da região, era o cara do ouro da região, e tudo mais. E a hora que eu olhei para aquela figura, falei, “cara, eu estou em outro mundo. Isso aqui parece coisa de ficção. Não é possível que exista alguém assim”. E aí, reforçou mais em mim aquele estereótipo de que cara, esse é um mundo muito separado do mundo que a gente conhece aqui. Deve ter uma ética própria, ele deve ter um modelo próprio. Mas, onde eu quero chegar. Como é que esse mundo, bate na sua educação? Como é que 3 garotos, com o pai vivendo essa coisa, e depois chega em casa, tem filhos e tudo mais. Como é que isso bate na sua educação?

César Menotti: Só a título de comentários, você falou que você foi longe, em Macapá. Um dos últimos garimpos que meu pai trabalhou, foi no Jari, que é 60 quilômetros depois do Oiapoque, a última cidade do Brasil. Aí você pensa na dificuldade para chegar. E chegar lá, ainda ia para dentro da mata ainda. Bom, meu pai passava para a gente uma imagem de herói, porque no garimpo existia uma coisa…

Luciano Pires: …ele está vivo ainda?

César Menotti: Não, meu pai é falecido. 2011. No garimpo, existia uma coisa assim, “quem pode mais, chora menos”. Então, as vezes o cara para lidar ali com tantos homens, para poder coordenar aquilo no meio da mata, sem lei, com outras pessoas querendo empurrar ele do lugar que ele estava trabalhando, ele tinha que ter uma certa… como que eu vou dizer para você.

Luciano Pires: É o macho Alfa, cara. Ele tem que se impor.

César Menotti: É, ele tem que se impor um pouco, ele tem que se colocar. E é aquela velha história. Você quer me tirar daqui, vem tirar então, se você for homem. Então, era mais ou menos assim que acontecia. E a gente achava meu pai um herói. E meu pai passava essa imagem para a gente de guerreiro, de batalhador, de ir para cima, de resolver. Eu nunca passei, vi um problema que meu pai não resolvesse. Nunca. E até quando eu perdi meu pai, eu fiquei um pouco perdido, porque eu estava tão acostumado com ele resolvendo as coisas, ele tinha uma leitura, pelo falo de lidar com tanta gente, lidar com tantos negócios. Ele fazia uma leitura das pessoas. Às vezes, a gente estava em uma discussão de trabalho, ele participou muito da nossa carreira também. Ele viveu os melhores momentos da carreira com a gente. Participava de uma reunião de trabalho, e quando acabava aquela reunião, uma coisa tensa, cada pessoa que estava na mesa, ele falava o que aquela pessoa ia fazer. Esse cara vai tomar essa decisão, vai fazer isso, se preparem para isso. Então, meu pai, passava essa imagem para a gente. A nossa educação foi baseada em saber que não importa como as coisas começam, e sim como elas terminam. Então, as vezes o dia começa ruim, levanta, mete a cara, vai para cima, que vai terminar bem. Ele era muito otimista.

Luciano Pires: Cara, que legal. Você está falando para mim, eu estou lembrando dos 2 filhos de Francisco, com aquela construção toda. Por isso que eu te perguntei, naquela escala que você estava. Porque é lá que aquele filme começa. É a miséria, é o padrão do cinema brasileiro. Uma puta miséria, um sofrimento, quando os caras dão certo, acaba o filme.

César Menotti: Exatamente. Mas a gente nunca esteve nesse ponto da miséria não, nunca nos faltou nada. Nós nunca passamos fome. Já passamos vontade de comer as coisas que a gente queria.

Luciano Pires: Alias, você…

César Menotti: Exatamente. Mas fome, nunca passamos. Mesmo com as loucuras do garimpo. Garimpo já era muito investimento, muito pesado, nunca tivemos, meu pai sempre resolvia. Minha mãe, é aquela imagem da santa protetora.

Luciano Pires: Pois é, fiquei imaginado que tem um contraponto. Você tem teu pai com essa figura do super-homem, tudo mais, e em casa devia ter mamãe…

César Menotti: …que era guerreira também.

Luciano Pires: Agasalhando, e tudo mais. E meio que amortecendo essa coisa toda.

César Menotti: Exatamente, suprindo as faltas, suprindo ausência. E enfim, nós tivemos uma infância feliz. Meu pai foi um cara notável no meio do garimpo, até hoje ele ainda é conhecido. Para você ter uma ideia, em 89, meu pai ficou 12 minutos no ar no Fantástico. Quer dizer, hoje ninguém fica mais esse tempo em TV nenhuma, falando sobre garimpo. Então, ele foi bem-sucedido. Mas garimpeiro não tem medo do risco, ele topa o risco.

Luciano Pires: Sim, e como é que teu pai… deixa eu voltar atrás agora. Eu já entendi o impacto que ele teve, e tudo mais. Mas, eu tinha feito uma pergunta para você lá atrás. Em algum momento, esse lance de você gostar da música, te apontou como o caminho. Porque é natural, teu pai ia falar, “eu não quero essa vida para os meus filhos, porque é uma vida dura, eu quero que meu filho seja doutor, engenheiro. Eu quero que meu filho seja empreendedor, eu quero que ele seja dono de uma empresa de XPTO”. Qual era o sonho… aliás, qual era o seu apelido quando você era criança?

César Menotti: Meu apelido, me chamavam muito de alemãozinho, né?

Luciano Pires: Alemãozinho. O que que o alemãozinho queria ser quando crescesse?

César Menotti: Eu tinha uma tendência já artística. Eu queria ser artista.

Luciano Pires: Seu irmão também?

César Menotti: Meu irmão não. Meu irmão, ele sempre foi muito vendedor. E meu irmão do meio, sempre foi muito para o lado do Direito, queria ser advogado. Mas eu, como meu pai incentivava muito, eu era mais novo, meu pai incentivava muito a gente a ler, apesar de a gente não ter conseguido estudar. Essa foi uma das maiores tristezas do meu pai, foi a gente não ter estudado.

Luciano Pires: Essa era a próxima pergunta. Eu ia perguntar, você se formou em que?

César Menotti: Em nada. Eu tenho primário completo, eu brinco assim. Mas porque quando meu pai foi para o Amapá, a gente já não gostava de estudar. Eu era excelente aluno, sempre nota boa. Mas, eu não gostava do processo de ir para a escola. E quando meu pai foi para o Amapá, que ele ficou muito tempo longe da gente, naquele período a gente desvirtuou da escola, não voltamos mais. E quando meu pai voltou do Amapá, a gente já estava cantando, e a carreira estava começando a embalar. Então, meu pai fazia a gente ler livros, estudar teatro, estudar violão, canto, isso ele incentivava a gente a fazer. Então a gente fazia isso a infância inteira, a gente esteve envolvido com isso, eu e meus irmãos. Eu estudei 4 anos de teatro, foi a única formação que eu tenho, é como ator. Mas, e quando eu me lembro, aos 13 anos exatamente, no Paraná, quando eu vi pela primeira vez um cara tocando viola, pessoalmente, na minha frente, viola caipira, um violeiro chamado Nor da Viola.

Luciano Pires: Que idade você tinha?

César Menotti: 13 anos. Que morava em uma casa de pau a pique, sem luz, sem agua encanada. Quando eu vi ele tocando viola pela primeira vez, eu falei, “é isso que eu quero para a minha vida. Eu não quero outra coisa”. Então dali, eu decidi que é isso.

Luciano Pires: Cara, que imagem que é essa. Eu sei o que você está falando perfeitamente, porque a primeira vez que eu vi um cara tocar viola na minha frente, eu não consigo te explicar o que que aconteceu ali. Primeiro, porque era viola, e não tem nada comparável. Para mim, nada se compara ao som da viola. Você pode botar um violão, bota uma guitarra, é tudo lindo e maravilhoso. Quando a bichinha chora, não tem. A primeira vez que eu vi, eu tomei um choque, que eu falei, “não consigo imaginar que essa coisa tão maravilhosa consiga”. Que mágica que é essa? Por que que a viola é assim?

César Menotti: Bom, para mim, tem motivo, porque eu cresci vendo a viola como algo mágico mesmo. Moda de viola. Hoje em dia, as pessoas chamam tudo de moda de viola. E não é. A moda de viola, é aquela música, a primeira e segunda voz fazendo dueto, e a viola ponteando só. Isso é moda de viola. O resto, é um monte de coisa.

Luciano Pires: Espera aí que você vai mostrar. Espera aí.

César Menotti: Jamais imaginava que o Luciano tivesse uma viola.

Luciano Pires: Eu fui ter aula de viola, e tudo mais. Mas, você começou a contar para a gente, como é que funcionava. Mostra como que é, o que que acontece.

César Menotti: Moda de viola, é aquela música que a viola ponteando, e as vozes fazendo dueto.

Luciano Pires: Isso é ponteado?

César Menotti: Isso é moda de viola. Aí pode tocar a guaranea. Pode tocar cururu. Mas, moda de viola, é só aquilo que eu mostrei primeiro. E o ritmo mais tradicional da viola, que foi criado em 1950, pelo Tião Carreiro, ele que inventou esse ritmo, que é o pagode caipira.

Luciano Pires: Tião Carreiro, é um nome endeusado. Todo mundo que toca sério viola, e tudo mais, quando fala em Tião Carreiro, os caras, meu, todo mundo endeusa ele.

César Menotti: É porque veio primeiro. Hoje, nós temos muitas referências. O Tião Carreiro não tinha. Ele tirou essas coisas da cabeça dele.

Luciano Pires: Pois é cara, isso que eu não consigo entender. Porque ele não tinha as referências, “ah, eu vou puxar um pouco da música clássica, francesa, mais um pouquinho do rock and roll, que não está rolando não sei onde, vou juntar isso tudo e vou fazer uma terceira coisa”. A referência dele era um mundo dos violeiros, e da viola onde ele vivia. E provavelmente ele estava ouvindo a coisa muito raiz ali. O que que leva um cara a brotar, essa criação, eu vou criar algo que se eu escuto, isso é Tião Carreiro. Eu estou ouvindo Tião Carreiro, não estou ouvindo uma viola. É Tião Carreiro, né.

César Menotti: Exatamente. Eu acho que algumas pessoas são escolhidas pela vida para fazer a diferença. E ele foi um desses caras, que ele criou um estilo musical dele, que hoje todo mundo faz. Mas, nasceu na mão dele.

Luciano Pires: O que que te pegou, cara? A história desse bichinho é fantástica. Vem de Portugal, crava, viola portuguesa. Chega no Brasil, ela recebe algumas adaptações. E transforma nessa coisa, que esse som metálico, que a trilha sonora minha, da minha infância, era o que tocava no rádio na época, sou de Bauru, tinha muita música caipira lá. Mas, quando eu cheguei na adolescência, 16/17 anos, eu fiquei conhecendo Só Rodrigues e Guarabira, rock rural, os caras que pegam a viola caipira, e enfiam dentro do rock, e faz uma coisa fabulosa. E aí você escuta a cozinha deles tocando, você ouve tudo. Quando a violinha toca no meio daquele puta monte de instrumentos, cara, ela dá um molho, ela dá um negócio que só ela tem.

César Menotti: É diferente.

Luciano Pires: Que mágica é essa? Essas cordinhas de metal? O que que é isso?

César Menotti: É um instrumento tão simples, mas tão complicado ao mesmo tempo, que só quem é músico vai entender o que eu estou dizendo. Por exemplo, na viola, quando você toca corda solta, nessa afinação, ela dá um acorde MI Maior. Porém, a primeira corda dela, é um SI. Então, qualquer acorde que você faz na viola, ela tem o baixo invertido. É muito estranho. Mas, ao mesmo tempo é um instrumento fácil, que uma criança pega a viola, ela bate a mão, e já deu um som.

Luciano Pires: Já deu um acorde.

César Menotti: Exatamente. E eu fui assim. Quando eu ouvi pela primeira vez, era isso que eu queria.

Luciano Pires: Você com 13 anos ouviu, falou cara, eu vou aprender. E você foi estudar viola?

César Menotti: eu fui estudar com esse mesmo cara que tocava lá, esse que estava tocando no dia. Todo final de semana eu ia na casa dele, andava ima trilha a pé longe, para chegar na casinha dele. Eu comecei a ter ali os primeiros acordes.

Luciano Pires: Sem métodos. Como é que ele ensina?

César Menotti: Ele aprendeu com o rádio, ouvindo rádio, e foi aprendendo. Ele não ensinava, partiu do princípio de decorar mesmo. Dele tocar, e eu repetir. Então, ali foi o start. Mas, para isso virar comércio, para entender que a viola dava um faturamento, aí eu já estava com 17 anos, trabalhando como office boy em Belo Horizonte. E ia ter um show aqui no SESC Pompéia, em São Paulo, um show do Almir Sater, do Zé Mulato e Cassiano, e do Zé Coco do Riachão, que é um violeiro tradicional.

Luciano Pires: Eu já toquei muito no Café Brasil.

César Menotti: E eu não podia perder esse show. Isso para mim era imperdível. E eu falei…

Luciano Pires: Para quem não está vendo, eu estou batendo uma foto aqui agora, porque ele está abraçado na viola, que parece que ele está com um filho no colo. Ele não está só abraçado com a viola. Como ele é uma pessoa um pouco assim, generosa nas carnes, ele encaixa a viola de uma forma tal, que parece um bebe no colo dele, que não quer largar. Eu ia até pegar para botar lá fora, mas você está tão confortável.

César Menotti: Mas é esse sentimento mesmo, deixa aqui. Mas eu pedi ao meu patrão, ele me autorizou para vir assistir a esse show, eu vim. E eu já frequentava São Paulo, porque São Paulo ali no centro, na região da praça Júlio Mesquita, tinha a padaria dos artistas. E o meu pai era tão apaixonado com música caipira, que ele acabou ficando amigo de todos os artistas. Meu pai era amigo do Tião Carreiro, do Dino Franco, Liu e Leo, Zico e Zeca, todo mundo. E esses artistas tosos, frequentavam esse ambiente. E a gente quando criança, começou a frequentar ali também. E eu quando vim para São Paulo dessa vez, ver esse show, fui lá na padaria dos artistas, que eu queria ver se encontrava algum famoso. E eu já tocava viola. E ali eu conheci um sanfoneiro.

Luciano Pires: que idade você tinha?

César Menotti: 17 anos. Ali eu conheci um sanfoneiro, “pô, você vai ficar aí até quando? Fica até segunda, vamos fazer um som final de semana”. Tá bom, e fomos para os bares. Naquela época, no centro da cidade, tinha uma tradição de tocar de mesa em mesa. Chegava, tocava em uma mesa, na outra, em troca de gorjeta. Naquele fim de semana, eu faturei duas vezes o que eu ganhava como office boy.

Luciano Pires: Seu irmão não estava junto?

César Menotti: Não estava junto. Meu irmão trabalhava ainda vendendo carro.

Luciano Pires: Tá. E você experimenta ali uma coisa que vai dar dinheiro.

César Menotti: Falei, “caramba, quer saber, eu não vou trabalhar de office boy nunc mais na minha vida”. Dali eu já voltei com coisa de fazer dupla na cabeça, de cantar com alguém. Comecei a ensaiar com um parceiro daqui, outro parceiro dali. De repente deu um start do meu irmão, a minha dupla está dentro de casa, e eu procurando parceiro na rua.

Luciano Pires: Seu irmão curtia também?

César Menotti: Sim, meu irmão já cantava muito bem, mas, nada profissional também. E ali deu o start. Eu falei, “Fabiano, vamos fazer uma dupla e começar a cantar?”. “Vamos”. Pronto. Ali começamos a viver profissionalmente da música. Depois do primeiro show, nunca mais fizemos outra coisa.

Luciano Pires: Fabiano, vamos fazer uma dupla, e começar a cantar. Bom, eu acho que esse diálogo deve acontecer no Brasil, 2 milhões de vezes por dia, com gente do Brasil inteirinho. “Zé, vamos fazer uma dupla e começar a cantar? Vamos”. Para cada Neymar, tem 2 milhões de jogadores de futebol, que ganham bosta nenhuma, que vão morrer pobres, que não vão conseguir chegar lá. E não é porque jogam mal. É porque não conseguiram juntar tudo. O talento certo, na hora certa, visão certa, tudo verto. Aquele brilho. Então, muita gente fala isso. “Zé, vamos juntar, fazer uma dupla, e começar a cantar”. Como é que vocês deram certo? Por que vocês deram certo, como deram certo?

César Menotti: Eu, cada dia mais, eu tenho acreditado que não é sorte, e nem acaso. Existem motivos. Nós encaramos um desafio. A música sertaneja, na nossa cidade, em Belo Horizonte, na época, era uma música periférica. Se você quisesse ouvir um sertanejo, você tinha que ir para os bailões, onde o pessoal tocava para dançar, tocava muito forró, e tal. E a gente…

Luciano Pires: Não tinha as duplas já começando a explodir no Brasil? Chitãozinho e Xororó, já eram…

César Menotti: não, sim… Já eram, Bruno e Marrone, Edson e Hudson, eram tudo estourados essa época. Nós começamos a rodar o Brasil em 2007. Então quer dizer, não é tão antiga, é recente. Mas, em Belo Horizonte, a música não tinha, o povo da zona Sul não ouvia. As galeras que iam `para a boate, os universitários, não ouviam sertanejo. E nós topamos esse desafio. Na cabeça da gente, era colocar música sertaneja, onde ela não entrou ainda. Aí tocando com alguns amigos, cavalgada, churrasco, essas coisas, até que um dia conseguimos através de um amigo, uma casa na zona Sul. O cara nos deu a terça-feira, que era o pior dia da semana. Uma casa anexo a uma faculdade onde só ia universitário. Começamos a tocar ali. A gente começou a tocar música romântica, só ao vivo. O pessoal tinha muita coisa de teclado, programação, aquela época, a gente tocava só ao vivo. E começamos ali, fazer o movimento. 20 pessoas, 30, foi aumentando, e aquilo virou uma explosão. A gente chegou a um tempo, que nosso show começava 11 da noite, 7 horas a casa já estava lotada, não cabe mais ninguém.

Luciano Pires: O pessoal ia lá para ouvir vocês.

César Menotti: Ouvir a gente.

Luciano Pires: Deixa eu te perguntar uma coisa aqui. Ficou claro para vocês, vocês chegaram a falar sobre isso? Vocês chegaram a conversar sobre esse tema, de que, para dar sucesso, para você conseguir alcançar esse público, você não podia falar de boi. Não podia ser música falando de boi. Falando, minha vaquinha, meu boi, do menino empurrando a porteira, etc. e tal.

César Menotti: Não, isso não passou pelo seguinte, porque a gente só cantava música dos outros naquela época. Era um trabalho de cover mesmo. A gente gostava de tocar as músicas românticas, porque a gente pensava quando tocava uma música dançante, a pessoa começava a dançar, e parava de assistir nosso show. Então, a gente só cantava música romântica, que as pessoas assistiam o show inteiro. Então, não foi uma coisa nossa, a gente começou meio pegando trabalho dos outros, repertório dos outros.

Luciano Pires: Mas, passava pela sua cabeça de que vocês estavam em uma transição. O que vocês estavam fazendo, não era música caipira. Mas, era um… eu não sei o que é. É um sertanejo pop. O que que era aquilo?

César Menotti: Isso, era um pop. Para começar, Belo Horizonte, é um celeiro do rock, da música pop. Os músicos, a influência dos músicos, até por causa de Skank, Jota Quest, Pato Fu, várias bandas legais que saíram de BH. Então, a nossa banda, já era uma banda que não era banda sertaneja. Uma banda que tocava pop, e a gente foi chamando a galera, e adaptando. Então, a gente sabia que a gente estava fazendo um trabalho diferente. E esses universitários, começaram a curtir a gente, galera que nunca tinha ouvido música sertaneja. E essa galera, muitos deles, estudavam em BH, mas, não moravam lá. Então, quando iam embora de férias, ou acabava a faculdade, acabavam levando nosso trabalho, espalhando, divulgando. Ali em 2004, que a gente já estava muito bem em Belo Horizonte, Minas Gerais, já estava tocando muito bem, a gente falou, é hora de dar um passo mais alto agora. Vamos fazer um CD. E a gente quis fazer um CD dos sonhos. O que que era um CD dos sonhos? Era um CD com a ficha técnica que a gente via nos CDs dos outros. Pegava o CD do Zezé, do Chitão, do Leonardo, Daniel. Produtor é esse, eles gravam nesses estúdios, nós vamos fazer igual. Arrumamos uma verba, na época R$ 100 mil reais custava um disco.

Luciano Pires: Espera aí. O que que significa arrumamos? O que que é arrumamos? Vendi meu carro, ou pedi para o meu pai, emprestei do meu tio. O que que você fez?

César Menotti: Sempre meu pai apoiando, sempre meu pai resolvendo.

Luciano Pires: Foi “paitrocínio” então.

César Menotti: Não foi “paitrocínio”, porque o dinheiro também não era dele. Ele deu um jeito.

Luciano Pires: Tá.

César Menotti: E viemos para São Paulo, na época, quem que era o produtor top? Pinocchio. Fomos atrás dele, conseguimos contato. Qual estúdio que os sertanejos gravam? Os sertanejos gravam no [Mochi], ou no [GravoDisc]. Fomos para o [GravoDisc]. E fizemos aquele disco maravilhoso, com cordas, orquestras.

Luciano Pires: Autoral o disco?

César Menotti: Não. Todos de outros compositores.

Luciano Pires: Com músicas de sucesso?

César Menotti: Não, músicas desconhecidas. E vou te falar, o disco foi um fracasso. Não aconteceu nada, nada. Mais uma vez eu querendo dizer que eu não acredito muito na sorte. Voltamos para BH, aquela labuta, tocando na noite.

Luciano Pires: Então espera, antes de dar continuação aí. Hoje em dia acho que você já consegue olhar para trás, e entender porque que aquele disco não rolou.

César Menotti: Perfeitamente.

Luciano Pires: Eu imagino que você devia ter…

César Menotti: …eu sei exatamente porque ele não funcionou.

Luciano Pires: Eu imagino que você devia ter em mãos um material tecnicamente irreconhecível, com um conteúdo top, de primeira linha, bem produzido, bem feito. Eu não sei se tinha distribuição bem-feita, talvez tenha disso isso, e não deu certo. O que que foi?

César Menotti: Não deu certo, e continuamos nessa labuta na noite. Eu levei um funcionário nosso do financeiro, um cara que já era amigo nosso, trabalhou para o meu pai por muitos anos, um senhor já mais de idade, no show com a gente, que a gente tocava na boate na noite. E ele foi lá, ficou do lado do palco. E no intervalo do show, ele falou, “César, vocês têm que gravar isso aqui. Tem que registrar esse momento, porque esse momento vai passar”. Eu, como assim? “As pessoas estão pagando caro, e chegando cedo, para ver isso aqui, vocês cantando desse jeito, tocando assim. Você tem que registrar isso”. Ali, foi o start, da gente gravar aquele momento. Viemos em São Paulo, chamados o Pinocchio. “Pinocchio, a gente quer gravar outro disco, lá em Belo Horizonte, com a nossa banda”. “Como assim, banda de vocês? Nem (inint) [00:33:58.00], nada?”. Cara, tem que ser daquele jeito, porque o povo está gostando daquilo. Beleza, voltamos lá, e gravamos o show que a gente tocava na casa noturna, e que os universitários adoravam, que a galera mais nova adorava, que gente que nunca tinha ouvido música sertaneja estava ouvindo. Gravamos esse show. E isso projetou a gente. Na saída, já saiu com 100 mil cópias. 5 meses, 500 mil. Fechamos o ano com 1 milhão de discos vendidos. Então, eu saquei.

Luciano Pires: Eu vou fazer uma provocação contigo, antes de você explicar o porquê. Se você tivesse gravado esse disco, com a mesma banda, no mesmo lugar, tudo igualzinho, sem público. Tinha estourado?

César Menotti: Não.

Luciano Pires: Aonde eu quero chegar? Imagino que aquela energia, daquele público entregue a vocês, alimentando vocês, aquilo volta para o público, forma uma roda, que passa pelo microfone, e chega em… e está nos ouvidos…

César Menotti: Aí foi a sacada, ao vivo. E erramos, por termos um conceito de que artista nenhum gravava um disco ao vivo, após o outro. E na época, ninguém gravava um disco após o outro. Geralmente, gravava um disco de estúdio, criava uma base de repertorio, e fazia um ao vivo depois. E quando a gente foi gravar o segundo, depois desse, a gente não queria fazer ao vivo. E não fizemos ao vivo. Mas fizemos assim, entramos com a banda para dentro do estúdio, ensaiada, e cantamos como se fosse ao vivo, sem o público. E quando gravamos a primeira música, fomos para a técnica ouvir. Todo mundo arrepiado, os músicos, a gente está bom demais, tá bom demais. Dessa vez, eu perdi o conselho. E eu falei, “e aí Pinocchio, como que tá?”. Ele falou, “Tá bom demais”. “que bom, uai”. Ele falou, “não, mas isso não é bom. A verdade que isso é bom demais, para vocês agora, mas isso não é bom. Tá ruim. Vamos para um boteco, vamos com a banda para um boteco, encher de gente, e gravar esse trem de qualquer jeito. Que não é isso que vocês estão precisando fazer agora”. Mas, a gente não acreditou naquilo. Não, vamos fazer no estúdio, vamos fazer, fizemos. E novamente, erramos. Se tivesse ouvido ele naquela época, teria acertado.

Luciano Pires: Cara, você está querendo dizer para mim então, que a entidade César Menotti e Fabiano, é composta de 2 caras, uma banda, e um público. Você não consegue dissociar essas coisas?

César Menotti: Não.

Luciano Pires: Se você tirar um desses três elementos, ele não roda?

César Menotti: Não. E dessa época para cá, de 2007 até agora, nunca foi gravado tanto projeto ao vivo. Dentro do sertanejo, praticamente todo mundo gravou ao vivo. Há uma energia, há uma explicação para isso. Essa roda que você falou.

Luciano Pires: Eu estou te perguntando isso, porque eu sou palestrante profissional. Eu tenho, eu não sei se eu tenho tantas horas de palco, como vocês tem. Mas, eu tenho 30 anos de palco, tá? E eu sei perfeitamente o que é meu desemprenho quando eu estou no palco, e tem 800 caras na plateia. Eu sei o que acontece comigo. Aquilo é completamente diferente de mim sozinho, falando na frente de uma câmera aqui. Não tem nada a ver, porque existe esse feedback. Eu entrego, o público devolve isso em forma de energia, aquilo é processado e volta multiplicado para o público. Então, aquilo vai crescendo, né? Quando o cara que está no palco é bom e sabe disso, ele, cara, é um Mick Jagger, que bota na palma da mão 150 mil pessoas, e faz o que quiser com elas. Porque o cara entende isso, e ele precisa daquilo. E eu me lembro, fiz um programa sobre o Queen, Fred Mercury, e o Fred Mercury falava, “cara, eu não sou o Fred Mercury. Eu sou a plateia. Eu sou o público, o que sai de mim aqui, é esse público”. Ele é que vem. Então, essa mistura, essa simbiose, é um negócio fabuloso. O que me leva, inevitavelmente, para uma pergunta que para mim é fundamental. Cara, pinta uma pandemia, e tira de vocês esse terceiro elemento fundamental que é o público. Ninguém esperava por isso. Todos nós achávamos, “cara, daqui a pouco passa isso aí. 15 dias, depois volta ao normal”. E de repente, não tem mais show, e quando tem, é você na frente de uma câmera fria, uma câmera te filmando, e não tem mais esse elemento, né? Cara, como é que isso impacta no cara que vive dessa simbiose?

César Menotti: Bom, você quer saber artisticamente, ou financeiramente?

Luciano Pires: Cara, o financeiro, eu acho que dá até para deduzir como é que pode ser. Eu quero saber do ponto de vista artístico, e dessa… eu to quebrando um elemento. Eu acabei de falar que vocês são… essa entidade é uma massa, e eu tiro um pedaço. É como se morresse alguém querido da minha família, e eu sou separado dessa pessoa, e tenho que continuar a minha vida faltando alguém. Como é que é isso?

César Menotti: Bom, muito frio, porque diferente de você, você ainda está acostumado aqui a produzir um programa, sabendo que ninguém está te vendo naquele momento. A gente não estava acostumado a isso. A gente não sabia o que era sentar para cantar uma música, sem ter um feedback imediato sendo bom, ou ruim. Porque no show, o público nos respondia isso imediatamente. A gente sabia como conduzir. Quando a gente tocava uma música, e o público ficava muito eufórico, aquilo te dava uma energia, te dava um up de fazer mais, e tal. Quando você errava uma música, que você via que aquilo, o povo não estava para aquilo, você via que caminho tomar para resolver. De repente você diante de algumas câmeras, meia dúzia de pessoas trabalhando, você cantando para ninguém. Então, obvio que foi impactante para a gente. A gente ficou manco naquele momento, sabe? Faltava alguma coisa. Depois a gente começou a aprender a lidar com feedback digital. O que que as pessoas estão comentando, quantas pessoas tem assistindo.

Luciano Pires: Então, mas antes de você chegar nesse feedback digital. Eu acho que tem um momento, desculpe se eu errar, porque eu realmente não acompanho muito de perto, eu ouvi meio de orelhada. Mas, houve um momento na pandemia, que para mim, foi um momento chave, que deu uma virada, que foi aquela live do Gustavo Lima, não foi?

César Menotti: Sim.

Luciano Pires: Aquela primeira live, que ele fez, que foi um negócio que ninguém entendia direito o que era aquilo. O cara está na casa dele, enchendo a cara, tocando umas coisas, falando merda, tirando a camisa. Porra, de um jeito que a gente nunca viu, e aquilo fez um sucesso estrondoso. Acho que grande parte, porque o público estava carente de alguma coisa, e ele entregou algo que eu não sei de onde vem aquela ideia, não sei de onde veio aquilo. E dali para frente, começou a pintar aquela coisa da live. E acho que aí a gente começa a aprender a lidar com ela.

César Menotti: Exatamente. A live em um primeiro momento, ela tinha uma motivação especial, que eram as arrecadações. E a gente arrecadou muito. Eu e meu irmão arrecadamos em espécie, quase R$ 1 milhão de reais, em alimentos, e EPIs, não tenho nem ideia de quantos foram, muita coisa. E obvio, que depois, sem querer eu vou entrar na parte financeira aqui. Obvio que depois começou a virar um business, porque o seguinte, não por mim e pelo Fabiano, porque a gente conseguiu passar esse ano parado. Se precisar passar o próximo, talvez a gente consiga também. Mas, nós temos toda uma equipe, toda uma galera, que eles dependem que o show aconteça, é gente que vive de cache, que não tem salário. Os que tem salário, a gente conseguiu segurar a onda um pouco, sabe. Os que dependiam do cache, esse pessoal está sofrendo muito, ainda está sofrendo muito. Que é equipe de segurança, garçom, produtor, carregadores, que envolve muita gente isso. E a gente começou, as últimas lives que fizemos, foi toda para essa galera trabalhar. Até mesmo, obvio que não podia ir todo mundo para live, mas, até mesmo quem não trabalhava, recebia o cache, para poder movimentar um pouco o mercado, para elas se sentirem úteis. E também para a gente poder manter a empresa aberta, senão, ia ter que começar a demitir.

Luciano Pires: Eu entendo o que você está falando, cara. Meu mundo da palestra, foi muito igual. Porque os meninos que alugavam a tela, equipamento de som, garçom, pessoal do buffet, segurança, o cara lá na frente que pegava os carros, e tudo mais. Tem todo um ecossistema aí, que não é um artista que está brilhando lá. É aquele povo. Então, no momento que você liquida com esse mercado, cara, o que que essa turma vai fazer?

César Menotti: A gente é só a ponta da corda lá na frente. É só a ponta da corda. Então, a gente pensou muito nessas pessoas, que são pessoas que estavam com a gente diariamente. A gente fazia 3, 4 shows por semana. E quando você faz 3 shows por semana, você passa a semana fora de casa, porque o Brasil é muito grande. Um cara que faz sucesso no Brasil inteiro, se ele tivesse na Europa, ele fazia sucesso em 10 países, por questões de tamanho.

Luciano Pires: Eu conversei com um cara que trabalhava com livro, na Alemanha, distribuição de livro na Alemanha. Ele falava, meu trabalho é o seguinte, de manhã, eu ponho na minha van, eu encho a van de livros, e no final do dia, eu distribuí por 25 cidades, botei livros em 25 cidades. Cara, aqui no Brasil, como é que eu vou levar livro no Pará, é tudo complicado.

César Menotti: E a gente encarou muito essas logísticas.

Luciano Pires: Mas, me fala uma coisa. Começou então a pintar esse mundo do live, e você teve que aprender a conviver sem esse público. Aí você falou agora há pouco, que aprendeu a começar a receber o feedback do digital. Como é que é isso, cara?

César Menotti: Porque nas lives, as pessoas podiam falar com a gente em tempo real, você sabia exatamente quantas pessoas estavam te vendo naquele momento. Então, achei até interessante a live, e entendi o interesse das marcas em estarem na live, porque só para te posicionar. Antigamente, o nosso dinheiro vinha do público. Qualquer cidade do interior que você fosse, tinha 10 mil pessoas para te ver. Essa renda sumiu, esse ponto sumiu. O dinheiro passou a vir da associação com as marcas.

Luciano Pires: Patrocínio, são marcas que fazem marketing.

César Menotti: E de entender que as marcas se interessavam muito pelas lives, porque as marcas sabiam exatamente para quem que elas estavam oferecendo os produtos dela. Quando ela participa de uma live de música sertaneja, por exemplo, uma marca de cerveja, ela sabe exatamente para quem ela está falando. Para quantas pessoas estão consumindo aquela ideia naquele momento. Então, a gente começou a fazer essa transição do negócio, fazer virar para esse lado. Mas, o público ainda nos faz muita falta, muita falta.

Luciano Pires: Você passa de, sua área comercial, que eu não sei como que é, você tem alguém… esse cara que fazia negócio com o dono da loja de show, da casa de shows do interior, com a gente da região. Agora, é o cara que faz negócio com o diretor de marketing, gerente de marketing, ou, com o cara representante da marca XPTO. São dois mundos, completamente distintos.

César Menotti: Exatamente isso. A gente, foi essa transição. Mas, sem ainda virar o negócio totalmente para esse lado, porque a gente viveu o tempo da expectativa. Vai voltar, vai voltar, não é daqui uma semana, mas, daqui um mês, daqui dois. E essa volta nunca aconteceu, e para te falar a verdade, a gente ainda vive a expectativa.

Luciano Pires: Eu entendo o que você está dizendo, porque cara, as imagens que eu vejo dos shows, dos grandes shows que vocês fazem, cara, o povo está se lambendo lá no meio. O que eu quero dizer, não é a sacanagem. Ele está tão grudado no outro, tá todo mundo pulando, tá todo mundo abraçando, tá voando perdigoto para todo lado lá, aquilo, é o mundo onde o vírus vai fazer a festa lá. Eu não consigo rever essa volta no médio/curto prazo. Eu não consigo ver um show com as pessoas distantes 2 metros, porque isso é uma merda, né? Você chegou a fazer show para, com o pessoal no automóvel? Você chegou a fazer isso?

César Menotti: Não, o tal do drive-in, não fizemos. Tínhamos um marcado, acabamos não realizando. Porque, para falar a verdade, drive-in é muito legal, mas, à conta dele não fecha. Porque você consegue colocar pouca gente assistindo. E outra coisa, o cara que paga para ver um show no drive-in, ele quer de fato ver um show. A live não, a live eu posso fazer um negócio mais acústico, mais barato, com menos gente. Agora, o cara que sai de casa e vai ver, ele quer ver aquele espetáculo. Então, você acaba tendo que proporcionar aquilo para ele. E tem um custo de um show normal, onde você está recebendo um cache bom, onde tem um monte de gente pagando bilheteria, tal. Então, a experiência foi legal, mas, não funcionou. Agora, eu imagino que a volta vai ser assim. Shows com mesa, distante uma da outra, pouca gente. Vamos ter que readaptar. Agora, é hora de ser artista mesmo.

Luciano Pires: Você está dizendo para mim, que quando voltar, você vai estar fazendo show para 200 pessoas. Cada uma vai pagar R$ 3.500,00 reais por cabeça, porque vai ser um negócio tão exclusivo, tão exclusivo, ele é tão… E não é exclusivo por frescura, porque as medidas vão exigir que sejam assim. Eu só consigo subir no palco para cantar, para 200 pessoas, 300 pessoas. Mil, esparramadas em um ambiente para 5 mil, é uma merda, porque a energia vai embora.

César Menotti: Fica muito frio.

Luciano Pires: É muito ruim. E isso vai valorizar de tal forma aquele evento, quer dizer, o que vai acontecer. Eu chamo do fenômeno TED. Sabe o TED, das palestras. O TED é uma palestra de 12, 15, 18 minutos, onde tem uma plateia pequena. Para você estar lá naquela plateia, assistindo um TED, é foda, porque você sabe que você corre o risco de sentar do lado do Bill Gates ali. Então, é muito complicado, para conseguir estar lá. Se for pagar, vai pagar uma nota. Aquilo é valorizado de uma forma brutal. Mas, aquilo é filmado, e depois vai para 3 bilhões de pessoas. O mundo inteiro viu. Mas, ali presente naquele momento, só 100, 200, 300, mil caras que viram aquilo lá. O evento presencial, valorizou de uma forma brutal. Que é o que vai acontecer agora, eu pago qualquer coisa, para ver vocês ao vivo, pelo fato de poder vê-los ao vivo.

César Menotti: E também a censura, tudo que é proibido, as pessoas querem mais. Então, a dificuldade de não ter o evento, eu acho que quando tiver a possibilidade de ter, elas vão estar muito sedentas de sair de casa, e apreciar alguma coisa. Eu acho que nós, como artistas, vamos ter que nos adaptar também, tentar acoplar junto com o dinheiro do público, outras fontes de renda, outras formas de ganhar dinheiro. Porque, nós passamos 17 anos da nossa vida, sem passar uma semana inteira dentro de casa.

Luciano Pires: Você vai gostar de ouvir o Café Brasil Rocket Man.

César Menotti: Eu vou ouvir.

Luciano Pires: Eu pego a música do Elton John, eu conto a história de um pai, que passa a vida no espaço. É o Rocket Man, o cara do foguete. E quando ele está no espaço ele está em casa, e quando ele está em casa, ele quer estar no espaço.

César Menotti: Exatamente. E foi exatamente o que aconteceu com a gente. Nós começamos a ficar em casa, nunca tínhamos passado uma semana inteira em casa, nesses últimos anos. Padrão de vida, não financeiro, mas, a forma de viver mudou completamente. Eu dormia de dia, e ficava acordado à noite, sempre, era normal para mim. Isso vai mudando, transformando. Aquelas coisas de sair de viagem. Para você ter uma ideia, eu senti tanta falta, eu parei de voar alguns anos. Então, há alguns anos, eu andava só de carro e de ônibus. Que para eu dormir, eu colocava no Youtube, barulho de ônibus, porque eu perdi o costume daquele quarto, do silencio, de dormir cedo. Então, não é só questão do trabalho. É toda uma readaptação de vida mesmo.

Luciano Pires: E você passa a valorizar algumas coisas, que você não valorizava. Na hora de voltar, vai ser difícil. Cara, vão me tirar daqui para dormir fora.

César Menotti: Isso foi bom Luciano, pelo seguinte. A gente vivia dentro de uma engenhoca de trabalho, que a gente não imaginava, para a gente não tinha aniversário, não tinha comemoração nenhuma. E a gente pensava…

Luciano Pires: E você tinha um contrato informal com a sua família, de que era assim. Tua esposa falava para os filhos, papai é assim.

César Menotti: A festa é sem o papai. Às vezes, natal, ano novo, normal, sempre fora de casa. E a gente pensava que não tinha como parar aquilo. Não, não podemos parar, temos que continuar, fazer, virar. De repente estamos há 1 ano e 2 meses sem trabalhar, e estamos sobrevivendo. Então, a gente entendeu, esse foi o lado bom. Porque quando o trabalho nosso voltar, eu nunca mais vou fazer as loucuras que eu fazia. Eu vou voltar mais com o pé no chão, mais devagar, priorizando um tempo para a família, priorizando um tempo em casa. E não mais aquela coisa de ficar fulltime no serviço.

Luciano Pires: Eu acho que esse vai ser o tal do novo normal. É a percepção de que tem coisas que a gente vai ter que valorizar de forma um pouco diferente. Deixa eu te perguntar uma coisa aqui, cara. Você falou bastante aí sobre o processo de entrega da sua arte. O que você entrega, através de um show, um CD. Você vai lá, canta, encanta, etc. e tal. Esse é o processo, é a entrega. Mas, antes disso, tem o fazer arte. Você compõe, você constrói, ou mesmo quando você não vai compor, mas, vai gravar música de alguém, tem um puta de um trabalho lá, que é de preparar música para vocês, de adaptar, etc. e tal. Tem todo um trabalho de arte. Esse trabalho do fazer arte, como é que isso impactou, mudou? Porque eu fico imaginando o seguinte, nos áureos tempos da loucura toda, você devia estar compondo no ônibus, conversando dobre o arranjo, mas, a caminho, com todo mundo. Agora, não tem mais. Como é que é isso, como é que é o fazer arte?

César Menotti: Arte, agora, ela virou praticamente digital. Nosso relacionamento com produtores, com compositores, é pelo celular, pelo vídeo, a gente tem tocado assim. E a demanda também, mudou. Que antigamente a gente estava fazendo muita arte pelo palco. Agora, a gente está fazendo arte pela internet. Então é diferente. Dá para testar, é mais fácil, porque você também testar uma coisa com 20 mil pessoas te vendo, é uma coisa. Se você testar para 1 milhão te vendo, mas, que não está pessoalmente com você, é um pouco mais fácil.

Luciano Pires: Você acha mais fácil?

César Menotti: É como você ser valente na internet. Tem tanta gente brava na internet, pessoalmente, não é. Então, eu acho mais fácil. Você experimenta, se não deu certo, já muda para outro lado.

Luciano Pires: E você descobriu, não descobriu. Você entrou de cabeça nas redes sociais. Você transformou seu Instagram em uma coisa única, e não por causa da sua música, por causa do seu sendo de humor, a forma com que você abraçou, sou gordo mesmo, e lançou uma camiseta agora, um sarro. Seu humor é uma delícia, muito legal seguir você ali. Aquilo foi uma surpresa para você? Como é que você tratava esse canal de comunicação com seus fãs?

César Menotti: Bom, na verdade, eu fui fazer uma piada com uma amiga minha, e acabei apanhando muito de algumas pessoas. Mas, só que a maioria achou engraçado, eu não parei mais. Minha amiga, é uma blogueira, e ela estava, postou um vídeo fazendo um suco detox, para passar o dia. Só que isso no auge da pandemia, quando todo mundo estava desesperado. Aí eu brinquei, mandei para ela, “filha, o mundo está acabando, vai fritar um bacon”. E daí começou a virar piada o negócio, e eu comecei a fazer piada comigo mesmo.

Luciano Pires: Os justiceiros sociais não arrancaram sua pele não, cara?

César Menotti: Muito, inclusive os veganos. Porque fazer piada com bacon, incentivando consumo de bacon. Então, apanhei muito.

Luciano Pires: Você é irresponsável, tem gente te seguindo, você não pode falar uma coisa dessas. Você está influenciando as pessoas.

César Menotti: O tal do cancelamento, vieram com tudo para cima de mim. Mas, acabou que para mim, me deu mais força. E eu comecei a fazer só piada, baseada nisso aí, na questão da obesidade. Eu procuro assim, nunca fazer uma piada, com algo que a pessoa não possa mudar, sabe? Agora, se eu fizer uma piada com coxinha, como eu fiz várias, eu sei que a pessoa tem o direito de comer coxinha ou não, se ela não quiser. Mas, deu muito certo, deu muito engajamento, e as pessoas ficaram esperando isso de mim. Só que agora, eu parei um pouco, porque é muito difícil. Eu não sou comediante. E a comédia, é exatamente o contrário da música. Porque por exemplo, quando eu faço uma música muito boa, quanto mais ela toca, mais as pessoas querem ouvir. Às vezes a pessoa vai no show, esperando você tocar aquela música que mais tocou no rádio, que elas estão cansada de ouvir, mas elas estão cantando. A piada não. A piada, você conta uma vez, ela está morta, acabou. E, se ela for boa, pior ainda, porque o tempo dela é menor de vida. Ela anda muito rápido. Então, esse processo de criar piadas, eu não sou bom, eu não consigo fazer. 90% das coisas que eu postei, foram coisas que eu ouvi. Grupo de WhatsApp, alguém falou alguma coisa, você pesca uma frase aqui, não foi nada que eu criei. Eu criei não, na verdade, eu modifiquei. Então, a criação de um humor para mim, foi muito difícil. E as pessoas começaram a me cobrar muito. Então, eu resolvi colocar no modo de marcha lenta, e desacelerar um pouco. Eu não estava conseguindo suprir a demanda.

Luciano Pires: Você sabe que o Leonardo vai nessa pegada também, é um grande tirador de sarro. Mas, ele acha que ele é assim na vida real. E é normal, ele é o tirador de sarro normal.

César Menotti: Exatamente. Eu sou um tirador de sarro na internet, mas, pessoalmente, sou supertímido. Pessoalmente, eu não sou aquela pessoa.

Luciano Pires: Como é que você lidou com a… você é gordo há um tempo.

César Menotti: Eu nunca, para te falar a verdade, eu nunca fui magro.

Luciano Pires: Seu irmão também é.

César Menotti: Também.

Luciano Pires: Ou seja, o teu corpo já sabe que é assim. Ele vai carregar isso, e durante um bom tempo, nem sei se você tem que emagrecer cara. Talvez, ao emagrecer, até perca o modial. Sabe, o emagrecer. Você lidou sempre bem com isso, com bullying. Isso te incomodou em algum momento? Quando alguém fala de gordofobia, tudo mais, como é que essa coisa bate em você, cara?

César Menotti: Depende do discurso. Às vezes, eu acho muito chato. Eu vivi uma outra época, o bullying era diferente. Não era como é hoje, eu acredito que tenham pessoas que sofram muito com isso. Que isso pode abalar psicologicamente muitas pessoas. Mas, no meu tempo, era diferente. Se alguém, por exemplo, na escola onde nós estudamos por muito tempo, que estudamos por 5 anos, só me chamavam de gordo, nos primeiros 2 meses, brincaram de piadas. Porque meu irmão era muito maior que todo mundo, e a gente resolvia isso na porrada. Não quero incentivar ninguém a fazer isso, mas, funcionava assim. Então, quando alguém tentava fazer alguma chacota comigo, o meu irmão vinha, defendia, ia para dentro, e ninguém podia com ele naquela época. Então, isso acabou. Hoje, as coisas não são mais como eram. Então, eu não saberia lidar hoje. Então, eu sei falar por mim. Quando fazem piadas, não me incomoda, não ligo, acho graça. Eu nunca fui magro, eu não tenho lembranças de ter sido magro na minha vida. É obvio, faço exames de6 em 6 meses, faço academia, faço acompanhamento nutricional. Tenho muita dificuldade para emagrecer. Mas, procurei levar na brincadeira, procurei enquanto eu não chego no meu peso ideal, que eu tenho vontade também, eu vou rir de mim mesmo, eu vou levar isso com alegria, sabe, sem o sofrimento. Agora, ser gordo é ruim para caramba bicho. Ser gordo é terrível. Amarrar um sapato, você vai tomar banho, sai do banho suando.

Luciano Pires: Eu sei como é.

César Menotti: Então, não tem vantagem nenhuma.

Luciano Pires: Cara, eu tive durante um bom tempo da minha vida, 56 quilos.

César Menotti: Mas, teve uma situação, um grande amigo nosso, que ele é ator, o Jackson Antunes, ele nos levou no Rio para fazer uma apresentação ali na Orla da Lagoa Rodrigo de Freitas, em uma casa muito chique, para apresentar a gente para alguns artistas, e para um presidente de gravadora. Nós fizemos, eu me lembro que foi um show espetacular, a galera toda que não curtia sertanejo, achando o máximo, tal. E quando acabou o show, ele perguntou para o presidente da gravadora, “e aí, o que você acha?”. “Fantástico, nunca vi nada igual. Mas sinceramente, com esse físico, eles não vão a lugar nenhum”. Foi a única vez que nós tivemos uma coisa diretamente com a gente. Depois, eu te confesso que isso ajudou muito, porque nós viramos uma referência. “Ah, já viu o show dos gordinhos de Belo Horizonte?”. Isso nos ajudou a ser diferentes no mercado.

Luciano Pires: Sim, é isso aí cara, você transformou o que podia ser… que é uma puta de uma bobagem. O que está me incomodando nesse mundo que nós estamos vivendo agora, é a facilidade que o pessoal rotula as coisas, e gruda o rotulo nas pessoas. Faz uma redução, bota um rotulo, falou duas coisas, você já é fascista, você já é negacionista, você já é um “ista” qualquer.

César Menotti: A facilidade do julgamento, que hoje se tem, né? Assim, essa questão de cancelamento, são duas ciosas. Cancelamento, lacrar, eu até escrevi isso no Twitter ontem, que eu acho de uma arrogância muito grande, porque quando você fala “lacrei” para uma pessoa, você está tendo a arrogância de querer dar a última palavra, e calar a boca do outro. E geralmente quando há um cancelamento, também é arrogante, porque a maioria das vezes você está cancelando uma pessoa que não merecia ter sido cancelada. É injusto. Então, é um movimento que eu tive um pouco de medo quando eu passei perto de acontecer comigo, por causa da questão dos veganos. Eu era criador de pônei, eu parei agora. E uma época eu sorteei um pônei no meu Instagram, e eu apanhei demais da conta, todo mundo para cima de mim. Então, hoje é até engraçado. Então, é um negócio que eu descartei da minha vida. Eu não tenho nenhum relacionamento com isso, eu não ligo para cancelamento, lacração, para nada. Isso nunca vai acontecer comigo, porque é um movimento que eu não faço parte.

Luciano Pires: “Ah, não vou te ouvir mais”.  Foda-se.

César Menotti: Até um comediante falou uma coisa interessante. Ele falou, “eu não faço parte desse movimento”. É como você sair do seu estúdio aqui, e ir ali da rua demitir um mendigo. Ele não trabalha para você, não tem diferença nenhuma para ele.

Luciano Pires: Isso é verdade. Você veio de um mundo, foi lega porque você falou, nosso sonho foi ir lá fazer o primeiro CD. Você veio do mundo do CD, onde se ganhava dinheiro vendendo CD. Hoje, nem sei se passa pela cabeça de um artista gravar um CD. CD deve ser, o que sobrou aí, faz também. Sei lá, nem sei se quer fazer. Não tem mais aquilo, aquela coisa da física, mídia física. A bolachinha na minha mão, eu comprei, eu sou o dono do CD do Menotti e Fabiano, é meu, eu vou levar para eu ouvir no meu carro. Tinha todo um lance de pertencimento, e tudo mais. Isso acabou, entrou no mundo digital. Onde, se a gente tinha um problema de distribuição, anteriormente, que era complicado, eu consegui distribuir um CD, era um rolo, etc. e tal, nós falamos, agora acabou o problema, porque agora está tudo resolvido. E nós estamos descobrindo nesses dias agora, que não é bem assim, que continua tendo alguém tomando conta da distribuição. E agora está tendo gente até dizendo, “eu não gosto de você, não vou distribuir seu conteúdo”. Já está chegando nesse ponto. Como é que isso atingiu vocês? Essa transição de um mercado estabelecido, de um sistema estabelecido, um processo, tinha um funcionamento que todo mundo dominava. Isso foi rompido, entrou um treco do digital, onde qualquer um copia, qualquer um pirateia. Como é que isso bateu em vocês?

César Menotti: Não foi tão complicado, porque a gente já veio na era da pirataria. Quando aconteceu, já tinha música digital, e nós só vendemos de forma expressiva, o primeiro projeto.

Luciano Pires: Aquele ao vivo?

César Menotti: Isso. Porque nos outros, a gente nasceu na era do Orkut. Então, a música já era distribuída gratuitamente na era da internet. E outra coisa, no nosso pensamento, naquela época, falsificação, pirataria, era você ir na rua e comprar um CD falsificado. Uma capa igual ao seu, e comprar aquilo. E isso acabou muito rápido para a gente também. Logo virou a questão do site que distribuía música gratuitamente. Não teve como lutar contra isso. Quem foi inteligente, usou a seu favor. Porque a pirataria, com a mesma velocidade que ela te falsificava, ela também te divulgava. Seu projeto chegava no Pará, Rio Grande do Sul, chegava em lugares muito rápido, que não sei como, mas a distribuição convencional não tinha logística para isso. E eles conseguiam. Então, nós tivemos que, de certa forma, usar o lado bom que ela tinha, que era deixar a gente conhecido. E virou um termômetro para muitos artistas. O cara quando era pirateado, era um sinônimo de sucesso.

Luciano Pires: Como é que vem o dinheiro? Porque eu consigo entender, vendeu X mil CDs. Vendeu X mil ingressos. Tem ali uma forma palpável de você medir essas coisas. Quando você lida com download, cara, é um treco meio esquisito, porque não está na sua mão. Você não botou na prateleira, olha, tinha 15, foram 10, sobrou 5. Download é download, cara. Alguém vai dizer para você, “baixaram X mil, vou te pagar alguma grana”. É isso, ou vocês descartaram, isso não é mais uma fonte de renda relevante para vocês, a quantidade de downloads, e música digital vendida? Negócio de você estar no show, era o show que era o dinheiro, e agora nas lives. Como que estão lidando comisso hoje?

César Menotti: Bom, é uma fonte de renda ainda interessante, importante. Mas, a gente descartou a possibilidade da fiscalização, fiscalizar isso aí, não tem como. O que falarem que foi, é isso mesmo. A gente não tem acessos, não tem formas de ainda acessar fonte disso, e saber quem comprou, quanto foi. Mas na época do CD já era assim.

Luciano Pires: Você lembra da briga do Lobão, tentando numerar CD.

César Menotti: Lembro. Mas, a gente apoiava essa ideia. O CD tinha que ser numerado, com selo e tudo. Porque a gente nunca teve, na verdade, como saber. E hoje, com digital, ainda menos. É o que te falarem, você tem que acreditar.

Luciano Pires: Então, isso está se transformando então, na construção da sua marca, para que algumas daquelas marcas importantes olhem, eu não quero estar perto desses caras, porque eles estão fazendo muito sucesso.

César Menotti: E teve outro motivo também Luciano, que a gente ficava muito confortável com o dinheiro que vinha dos shows. Na verdade, a grande fonte de renda nossa, era o show. Então era mais um motivo de você não se importar muito com o que acontecia no digital. Estavam te pagando ali, tudo bem, você não questionava. Agora talvez, seja a hora de começar a questionar, e achar que você pode ter uma arrecadação melhor.

Luciano Pires: Eu não sei como que você vai controlar. Deixa eu te perguntar uma outra coisa aqui, agora. Vamos para o seu segmento agora dos artistas que estão em uma onda. Tem uma onda do sertanejo que começou, cara, faz 30 anos, quando sai do caipira, para virar o sertanejo pop, estourar na rádio e tudo mais.

César Menotti: Anos 80.

Luciano Pires: Já deu 30, 40 anos. E eu, pelo menos, consigo ver uma metamorfose acontecendo ao longo do tempo, e aquilo que tem uma raiz caipira, ele se transforma em um pop, que é completamente pop. Eu escuto hoje, cara, o que tem de sertanejo ali é uma viola, alguém botou uma viola lá. Mas o resto, a temática não é, a estética está forçada, porque o cara entra com uma calça apertada, com um cinturão, botina e chapéu, e aquilo representa um universo que não é mais o dele. Ele está tocando aqui, em São Paulo, em uma puta casa de show aqui. Na plateia só tem mauricinho, só tem gente urbana. Não tem ninguém que sabe o que é cheiro de um boi ali. Isso foi uma onda. Paralelo a ela, vieram as outras ondas. Tem a onda do funk, tinha onda do pagode, tinha onda, cada hora aparece uma onda dessa. Que de certa forma, me parece meio que fabricada. A pessoa vê um negócio, está dando certo aqui, o forró universitário. E aí, de repente, no dia seguinte, tem 25 grupos de forró universitário, todos iguais, 3 dão um sucesso tremendo, outros duram um pouquinho, depois acabam. E uma hora essa onda passa, e depois volta. A do sertanejo, não. Ela se segura. Ela vem se segurando, e cara, não sei se houve tanto sucesso sertanejo, como tem hoje. Cara, é uma coisa. Todo lugar, se você pegar a lista das 10 músicas mais tocadas no Brasil ano passado, 8 são sertanejos. O que que é isso cara? É pela temática, é porque vocês migraram do boi para o amor urbano, o que que é isso?

César Menotti: Vamos começar pela metamorfose então. Os primeiros registros de música sertaneja, se trata mais ou menos dos anos 30. E já tinha música romântica naquela época. Mas, as músicas caipiras naquela época, falavam mais do que o que estava próximo do povo. Então, o cara vivia aquela situação do carro de boi, a situação do berrante, do gado, da fazenda. Eles cantavam para aquele público. E esse público foi mudando. Nos anos 70, e 80, teve uma forte influência da música mexicana. Começava a tocar muitas rancheiras, e começaram a falar muito do amor, do sofrimento. Acho que aí veio essa pegada de dizer que música sertaneja era música de corno, não sei o que. Porque dizia, porque as pessoas já não viviam mais em ambiente rural. Era uma música urbana. Os anos 90, veio uma grande influência da música americana, até nas roupas, aquelas roupas de franja, e tal. Então, a música veio sofrendo mutações. Eu acho que hoje, o que a música sertaneja tem de mais identificação com a sua música original, é a questão de cantar em dupla, dueto, de primeira e segunda voz. E algumas duplas, mantem uma identidade nessa forma. Por exemplo, você pode gravar qualquer base de pop rock, se eu e Fabiano cantar em cima, você vai saber que é sertanejo, pela assinatura da voz. Mas, de fato, perde-se quase todos os elementos. Principalmente na parte instrumental, basicamente é uma música pop.

Luciano Pires: Se mantem o rótulo sertanejo, porque cara, isso vende.

César Menotti: Eu acredito assim, que a maioria dos que cantam no mercado sertanejo, tem uma origem, tem uma identificação. Já gostavam, a maioria tem seus ídolos na música sertaneja mesmo. E porque quando não é assim, muda muito pouco. Você identifica rápido no mercado. O povo não compra mentira por muito tempo, é muito passageiro. Os caras que estão durando no mercado, é gente que realmente tem uma identificação com a música. Obvio, canta música mais moderna, porque o público mudou. A geração de hoje, não sabe o que é um berrante, não sabe o que é um transporte de boiada. Eles cantam a linguagem da pessoa de hoje.

Luciano Pires: Nós temos que encontrar uma classificação para isso, para ver o que que é isso. Já que não é mais o sertanejo, não pode ser mais sertanejo. Isso é apropriação cultural, eu vou ficar puto com isso, eu vou cancelar. Você pega lá o Gustavo Lima, cara, não é sertanejo, aquilo é pop. E aqui não estou desdizendo nada. O cara faz sucesso, e não lembro quem falou… Foi o Maurício Pereira, em uma entrevista. Ele falou, “cara, alguém que consegue mobilizar milhões de pessoas, tem algo de sagrado nisso”. Quando você olha para Lady Gaga, e vê ela mobilizar 30 milhões de pessoas, cara, tem algo sagrado ali. Você não pode dizer, isso é uma bobagem, é uma besteira. Ela está mobilizando 30 milhões de pessoas. Há um sagrado ali.

César Menotti: O Gustavo é um cara sertanejo, como pessoa. Ele é um cara de uma simplicidade. É um cara, que você vai na casa dele na hora de almoçar, é um cara que pega o prato com a mão e com a colher, e como arroz, feijão e frango caipira. Quando você chega em uma roda, esses dias a gente chegou numa roda de viola para fazer umas modas, o Gustavo cantava Raul Torres e Florêncio, cantava Tião Carreiro, cantou Zé Fortuna e Pitangueira.

Luciano Pires: A origem está lá.

César Menotti: Tem a origem, tem a sementinha plantada. E outra coisa, por mais que o arranjo dele seja pop, a voz tem uma assinatura sertaneja, não tem jeito.

Luciano Pires: E essa parece que se tornou a música brasileira de referência.

César Menotti: Com certeza, isso já há muitos anos. A música sertaneja, é uma música que nunca teve em baixa. Ela demorou a entrar na FM. Depois que entrou, até hoje, ela se manteve.

Luciano Pires: Como é que você está vendo o futuro agora? Existe essa previsão de que talvez volte, uma hora, uma hora talvez os shows voltem a acontecer, tudo mais. Mas, nós estamos incorporando numa porrada de ferramentas, que a gente não tinha. Eu imagino que o show volta, mas, a live continua. Os projetos que você está fazendo aí digitais, continuam todos. E vem um futuro que é alguma coisa híbrida, que vai juntar tudo, uma coisa com a outra. E provavelmente, eu não sei se é o caso para vocês, que vocês, por conta da televisão, da mídia, já têm um alcance nacional brutal. Mas, muita gente que tinha um alcance regional, vai passar a ter um alcance brutal. Porque, no momento que virou digital, o cara da Indonésia vai estar me vendo. Então, tem um outro lance. Eu perco uma presença física, perco energia, mas o cara da Indonésia passa a me ver, porque até então ele não me via. Como é que você está enxergando? Vocês estão se preparando para isso? Estão imaginando que vão precisar de uma estrutura diferente? Vocês estão se equipando de alguma outra forma? Vendeu o ônibus, o que que vocês fizeram?

César Menotti: Eu penso que a gente, mais do que nunca. Porque pensa bem, quanto mais tempo de carreira tem o artista, mais longe ele está da internet. Quem está mais perto da internet, é quem começou agora, que já começou nesse mundo. Então, a gente está buscando formas de adaptação. Por exemplo, trabalhar com escritório, como eu trabalhava cheio de gente. Isso para mim, está descartado. É uma briga que hoje eu tenho com meu irmão, porque ele ainda pensa um pouco que tem que ter. Eu tenho, por exemplo, hoje eu já acho que marcar reunião é a maior perda de tempo que pode ter. Vamos sentar, para reunir. Aí desfoca, começa um assunto que não tem nada a ver. Então, eu já não participo mais de reunião nenhuma presencialmente. Eu acho que está tudo com decisões rápidas. Qual que é o nosso problema hoje? É isso? Então, é sim ou não. Vamos resolver. E digitalizar 100%, ficar só com o essencial. Hoje, a gente precisa de um comercial ainda, porque o tete a tete, o negócio, ligar para as pessoas, tem que ter alguém que faça isso.

Luciano Pires: Vocês têm uma ação proativa, para vender o negócio de vocês?

César Menotti: Temos.

Luciano Pires: Porque eu imaginei que quando chegasse no nível que vocês estão, o telefone toca sozinho.

César Menotti: O show sim, o show o telefone toca. Mas, publicidade, você ainda precisa estar mexendo um pouquinho. Estar cavando isso aí. Mas, confesso que não é tão difícil. É um mercado que sorri para a gente.

Luciano Pires: é por aquilo que a gente falou, vocês estão no topo de uma onda, que economicamente ela é muito atraente, para qualquer marca que quiser, está perto de vocês lá.

César Menotti: Mas a mudança. Você falou do ônibus, por exemplo. O nosso ônibus está parado há mais de 1 ano. Eu não sei se vou voltar a rodar com ele. Talvez, os shows voltem com uma equipe reduzida. A gente viajava em 30 pessoas. Chegava na cidade, mais uma porção de pessoas contratadas no local.

Luciano Pires: O que que muda nos 30, cara? Você vai mudar a quantidade de músicos na banda?

César Menotti: Isso é o mínimo. O músico não é a parte pior. É um esquema todo de cenário muito grande, de iluminação muito grande, de tecnologia. Porque, o seu colega fazia isso. Então, se o seu colega ia em uma feira de exposição na sexta, e apresentava um espetáculo, com fogos, puta luz, com tecnologia, você não podia vir no sábado, e fazer menor. Então, você tinha que apresentar um espetáculo também.

Luciano Pires: Cara, eu fui diretor de marketing de indústria de autopeças, e a gente participava das feiras de automóvel, autopeças e tudo mais. E acontecia exatamente isso. O concorrente chegava em uma feira, e comprava um stand de 350 metros, e fazia um puta stand. E a gente chegava do lado dele, com um stand de 250, pequenininho. Pô não pode. Na próxima feira, o nosso stand tinha 450, e tinha mais brilho que o dele. Ele falava, “pô, não pode”. Na outra feira, o dele tinha 500 metros. Então chegou em um momento cara, que nós olhamos um para outro, bicho, nós criamos um monstro. Nós criamos um negócio tão grande, que não tem mais como entrar em uma feira dessa aqui, sem largar 1 milhão de cara, porque agora eu tenho que comprar 500 metros quadrados. Eu não preciso disso cara. Eu era feliz por 250. E o que empurrou, foi um empurrando o outro, e implodiu a feira. Chegou um momento que ela ficou tão cara, que não podia mais fazer acontecer.

César Menotti: Era inviável. Mas, dentro do nosso mercado, não era tão agressivo. A gente fazia não pensando no colega, a gente fazia pensando no público que estava vendo. A gente queria apresentar um bom espetáculo. E sempre com o princípio o seguinte, eu falava assim com meu irmão, nós temos que ter um princípio assim. Que se acabar o som, acabar a luz, a gente dá conta de pegar o violão, descer, fazer uma roda, e cantar. Começa daí. Isso já aconteceu várias vezes, de acontecer de acabar a luz, em festa de exposição com 20, 30 mil pessoas, a gente segurar a onda. Nunca perder esse princípio, nunca depender da tecnologia. E dentro do mercado sertanejo, por incrível que pareça, há uma união. Eu acho que isso é uma coisa que ajuda muito o mercado a funcionar. O mundo sertanejo, nunca rejeita o novo. Sempre quando chega um artista que está começando, o mercado abraça, dá oportunidade. Quer cantar junto com a gente, canta. Quer fazer televisão com a gente, faz. Quando você pega um festival de música sertaneja, um Villa Mix, um Festeja, tem lá o artista que está na crista da onda, mas também tem o mediano, e tem o que está começando, e tem o antigo. Então, você pega as lives hoje. Vai fazer uma live, tem o cara que está estourado no momento, mas, tem a dupla dos anos 80, que fez sucesso. Tem o artista que ninguém conhece, que está começando. Isso foi um negócio que eu senti desde que eu comecei na música sertaneja. A gente nunca foi rejeitado. Sempre foi abraçado.

Luciano Pires: Isso é uma cultura desse segmento?

César Menotti: É uma cultura do nosso meio.

Luciano Pires: Não é uma cultura de marketing, deixa vir, porque nós precisamos de sangue novo para explodir.

César Menotti: Não, é normal. Eu acho que é uma forma inteligente de trabalhar. Porque quanto mais o cache do meu colega subir, mais eu posso pedir no meu também. Vai virando uma referência. Quanto mais sucesso o meu colega sertanejo fazer, mais abertura nós vamos ter na mídia, e nas rádios também. As pessoas vão olhar para o nosso segmento. Então, eu acho que um dos segredos do sertanejo funcionar bem, é esse. É sempre acolher quem está chegando.

Luciano Pires: E você acha que o público, o coração do público, tem espaço para todo mundo? Ele não tem que eliminar vocês dois, para substituir por uma dupla nova?

César Menotti: Não tem, porque é o seguinte. Se você for analisar friamente, quando a gente faz um evento para 10 mil pessoas, e amanhã tem um evento, tem outro artista, as pessoas que vão são praticamente as mesmas. O público que vai no show do Gustavo, ou que vai no show do Fernando e Sorocaba, vai no nosso também. Tem o grupo de fãs fanáticos daquele artista, mas, isso não é o geral. Isso é pouco.

Luciano Pires: Como é que vocês trabalham essa percepção do seu ciclo de vida? Porque tem duplas que estão aí, que já passaram pelo auge do sucesso, continuam tocando, continuam aparecendo. Mas, já não são, não é a meia dúzia que faz aqueles shows ultra chamados. E esse grupo, cara, se você pegar o mundo dos artistas, acho que tirando Roberto Carlos, todo mundo passa.

César Menotti: É, porque o Roberto Carlos teve uma particularidade que nenhum outro artista teve. O público dele, envelheceu com ele.

Luciano Pires: Junto, né?

César Menotti: A menina que quando tinha 20 anos, era tiete dele, hoje é uma senhora e vai no show dele, e paga caro na mesa para assistir.

Luciano Pires: Ele só vai perder o sucesso, quando morrer a plateia dele.

César Menotti: E o repertorio é o mesmo, da mesma época.

Luciano Pires: E a turma, se não for, o povo fica puto da vida. E quer a florzinha no final, e quer Emoções, e por favor, cante igual ao disco. Vocês chegaram a conversar a respeito disso aí, do ciclo de vida da dupla. Vocês chegaram a estudar isso, chegaram a ver como é que isso funciona no mercado?

César Menotti: Estudar não. Mas, a gente conversa muito sobre isso, sobre chegar um tempo em que a gente não precise. Que a gente faça shows, mas não dependa do show mais. Para que possa fazer coisas mais pontuais, viver um pouco, né? Porque a verdade, o mundo artístico, é como o mundo do futebol. Muita gente termina a vida mal financeiramente, precisando muito trabalhar. Então, a gente pensa nisso, em ter um projeto de vida, que daqui a pouco, a gente não precise mais depender do show exclusivamente.

Luciano Pires: Então, isso do seu ponto de vista, do seu interno. Nós vamos nos organizar, para gerenciar bem o dinheiro que a gente ganha, e poder lá na frente, escolher o que vai fazer. Eu me refiro ao ponto de vista do mercado dar a vocês essa atenção. Então, sabe, olha, vocês começaram, cresceram, chegaram no topo, estão lá, estão fazendo um puta sucesso, e vai chegar uma hora que por alguma razão…

César Menotti: Natural, ninguém fica no topo o tempo todo.

Luciano Pires: Exatamente. Então, é desse ciclo que eu me refiro. Vocês hoje, continuam no topo. Vocês estão lá. Se botar o nome dos 10 mais do Brasil, vocês certamente estão entre os 10 mais ali.

César Menotti: Mas, eu acho que a gente entrou em uma fase de estabilização já. Que, de repente, não está o pico batendo lá o tempo todo, mas, está em uma linha reta.

Luciano Pires: Então, é disso que eu quero saber, quero ver com você aqui. Eu tenho a impressão, eu não sou do seu mundo. Mas, eu tenho a impressão, que quando chega nesse ponto que você vai começar a cair, não tem o que ser feito. Você pode, “me virei, refaço, vamos fazer uma puta música”, e parece que o mercado que diz isso. Não, chegou a hora deles terminarem. Então, você pega eu. Se o Caetano Veloso fizer um puta disco, maravilhoso agora, não vai acontecer nada com o disco dele, vai vender para os 14 mil caras que compram os discos dele. Ele não vai mais explodir, como explodiu lá atrás. E não é porque o trabalho dele é ruim. É porque parece que o mercado define. Não, agora é hora da novidade, e deixa os velhinhos para lá. Não tenho nada contra eles, continuam sendo legais. Vocês chegaram a pensar nisso? Deixa eu melhorar essa pergunta, com… eu vou te contar uma coisa que eu vi recente. Eu assisti um documentário, foda, dos Bee Gees. E os Bee Gees, são 3 irmãos, que começam a carreira os 3, são 3 moleques, que vão, crescem, e fazem um sucesso estrondoso. E a hora que o ciclo passa, e os caras começam a cair, eles retomam, eles dão uma virada, e de novo. E a hora que o negócio é destruído, e começa a cair, eles dão outra virada, e de novo. Então, eles têm uma história de, pelo menos 3 ciclos, em que quando era para terminar, os caras voltam. Começa com aquela coisa dos Bee Gees fazer um sucesso tremendo. Quando estava acabando, vira o Disco Music, e eles entram puxando a Disco Music, com uma qualidade brutal. Quando esse negócio vai explodir, eles começam a compor para outros artistas, compõe músicas que são tudo número 1. E arrebentam de sucesso. E o grupo só termina, quando morrem 2 irmãos, né? Parece que esses caras conseguiram de alguma forma, ler a queda da curva, e fazer uma mudança. Se você pegar os Bee Gees, do segundo ciclo, eles são diferentes do primeiro ciclo. E são diferentes do terceiro ciclo, né? Continuam sendo Bee Gees, continuam sendo um grupo vocal fantástico. As músicas são maravilhosas. Mas, respeitando o que o mundo pedia naquele momento, né? Eles fazem uma mudança. Seria equivalente a você dizer que você vai sair do sertanejo romântico, para o sertanejo metálico, sei lá que porra, que o mercado quer agora, né? Vocês chegaram a pensar nisso, assistiram isso acontecer, examinaram a carreira de gente que veio antes de vocês, para pensar nisso?

César Menotti: Sim, assistimos isso acontecer. E assistimos o inverso também. Pessoas que tinham ido no pico, voltado, ter caído, e voltar novamente. Eu não sei muito te dizer como lidar com isso. Eu acho que a melhor forma de lidar com isso, é você não depender muito de estar no pico. Você não precisar estar lá. Eu preciso estar no mercado. Agora, no nosso mercado, funciona assim. Sempre que você consegue estourar uma música, estourar uma música hoje é muito difícil, porque é muita concorrência. Mas, sempre que você consegue estourar uma música, o mercado te traz de volta.

Luciano Pires: Isso que eu ia te perguntar. Você falou, o cara caiu e voltou. Ele voltou porque acertou em uma música.

César Menotti: Porque acertou repertório. Dentro do nosso segmento, é repertório. E com a pandemia, esse tempo de lives, não sei porque, mas, o mercado voltou para as coisas antigas. A música antiga voltou com muita força. Quem mais ganhou dinheiro nesse tempo de pandemia, foram as duplas tradicionais, são as pessoas que faziam sucesso nos anos 90. Não sei porque, se é um saudosismo das pessoas, as pessoas não estão muito abertas para a novidade. Quando você vai fazer uma live, que você canta uma música nova, você vê o feedback imediato ali. “Não, canta modão, canta as antigas”. Essa é a frase. Não sei explicar o motivo. Mas, você falou de mudar o estilo. A nossa tendência agora, é voltar cada vez mais, para o raiz. E voltando, lógico, não vou conseguir fazer um disco de moda de viola. Vou conseguir fazer um disco de guarania, de rancheira, de polca. Isso é muito interessante, o público virou de mais para esse lado.

Luciano Pires: Deixa eu voltar agora para os Bee Gees. Evidentemente, que a sua história de vida, é você cantando com seu irmão. Você não foi cantar com outro cara, para experimentar como que é, depois voltou com seu irmão. E os Bee Gees, colocaram claramente, eles contam na entrevista. “Cara, irmão, tem um lance de sangue aqui, que não dá para fazer com ninguém mais. É só irmão. E a gente conseguiu isso aqui, porque nós somos 3 irmãos. A gente cresceu junto, e a gente quando entra, e…”. Cara, você tem que assistir esse documentário. Eles compõem uma música na hora. “Vamos gravar? Vamos”. Entram no estúdio, sentavam os 3, como que é? Assim, assado, tá pronta. Vamos gravar. Era assim que os caras faziam. E não tinha essa de ficar pensando. Não, cara. Saía na hora. E, era uma bomba atrás da outra que os caras faziam. A gente só consegue isso, porque nós somos irmãos. Então, como é que é isso cara? Você cantar com seu irmão. O sertanejo tem um lance assim, que é Zezé de Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, vocês dois. O que que é isso? Você já pensou nisso? Tem essa química especial?

César Menotti: Eu tenho certeza que tem. Até porque você conviver com uma pessoa mais do que você convive com a sua esposa, você vive mais com o seu parceiro, do que com a sua esposa. Tem que ter algo muito forte. Muita coisa se releva por ser irmão. Existe uma comunhão, que para quem não é irmão, acho que é mais difícil. Também não sei te explicar porque. Mas, eu enxergo dessa maneira.

Luciano Pires: Isso se reflete nas músicas que vocês compõem? Vocês compõem juntos?

César Menotti: Não, a gente não compõe juntos. Eu escrevo, mais separado. A maioria das canções que são nossas, fui eu quem fiz.

Luciano Pires: Quem faz a música?

César Menotti: Faço a música e a melodia.

Luciano Pires: A letra e a melodia, você faz?

César Menotti: Isso. Então, esse fato de… e lá é um tripé, porque tem o irmão do meio, que é o Fabio. E o Fabio, é um cara que ele acessa a minha intimidade, e ele acessa a intimidade do Fabiano, em uma profundida que o Fabiano não acessa a minha, e nem eu a dele. Então assim, é um negócio muito amarrado. Eu penso assim, se tirar o Fábio do negócio, não dá certo mais.

Luciano Pires: Qual é a função do Fabio lá?

César Menotti: Fábio hoje é geral, ele empresaria a gente. Gerencia a carreira toda.

Luciano Pires: Os Bee Gees eram assim também. Eram 3, e 1 deles falou, o grupo não teria durado, se não fosse esse do meio. Porque ele é que segura a ponta dos outros 2. Falou, tem 2 geniosos, e tem 1 que equilibra os dois ali.

César Menotti: Exatamente, equilíbrio. Essa é a palavra que eu queria colocar. Ele, como intermediário, gera esse equilíbrio. Então, acho que isso garante muita longevidade para a gente, solucionou muitos problemas. Quando era uma coisa de opiniões muito divergentes, minha e do Fabiano, ele conseguia acessar os dois, e chegar em um consenso. Então, para a gente…

Luciano Pires: …e tem outro lance cara. Teu irmão não vai te trair, e nem você vai trair a ele. Tem um lance de sangue aí, que tem que ser muito canalha para trair o irmão, né?

César Menotti: É verdade. E o melhor de tudo, trabalhar em 3 irmãos é bom, porque o dinheiro vai para um lugar só, né?

Luciano Pires: Isso é bom. Agora falando o negócio dos irmãos, você me tocou num assunto lá na frente, que eu quero retomar ele aqui, agora. Que foi o fato do seu pai querer que vocês seguissem o caminho, e vocês terem a felicidade dele ter visto vocês em sucesso. Ele viu vocês explodindo.

César Menotti: Viu, teve com a gente nos melhores momentos.

Luciano Pires: Então cara, me conta, quando é que vocês subiram no palco para um show foda, com muita gente, que o velhinho estava lá, e que ele viu vocês no palco, e falou, “Meu Deus do Céu, isso está muito além do que eu podia imaginar”.

César Menotti: Cara, nós fizemos um show em 2007, ou 8, eu não me lembro mais.

Luciano Pires: Já estourados.

César Menotti: Já estourados, em Jaguariúna, uma cidade aqui próximo. Esse show, nós fechamos a bilheteria 1 semana antes do evento. O recordo do evento era do Creedence. A gente bateu esse recorde.

Luciano Pires: Que Creedence? A banda?

César Menotti: A banda. Nós vendemos 76 mil convites antecipados. E deu um congestionamento, de Campinas, até Jaguariúna. Foi algo assim, que foi muito feliz apara a gente, por ter a nossa família com a gente naquele momento, sabe. Poder chamar nosso pai no palco, tirar uma foto. Porque quando chegava visita em casa, que a gente era criança, era até chato as vezes, porque a gente queria brincar, fazer outras coisas. Chegava uma vista, a gente tinha que cantar, declamar poesia, e fazer uma encenação, fazer um esquete. Isso era uma exigência do meu pai, tinha que fazer, não tinha uma opção. Fazia em uma má vontade total, mas, fazia. Então, de repente, imaginar meu pai olhando a gente, a criança, e olhando a gente já para aquele público que pagou para ver um show só nosso. Eu acho que meu pai foi um cara realizado. Meu pai, foi um cara que morreu novo, teoricamente, morreu com 64 anos. Mas, ele viveu uma vida assim, que uma pessoa tem que viver 120 anos, para poder, como garimpeiro, acompanhando a gente. Então, a gente é muito bem resolvido, e feliz com isso.

Luciano Pires: Que legal cara. Que puta sorte para vocês, e para ele. Me fala uma coisa, quando é que você começou a diversificar os seus negócios? Porque você falou que criava pônei, você tem fazenda, comprou fazenda e tudo mais. Fazenda produtiva, com produção? Isso é um negócio para vocês?

César Menotti: Eu acho que isso é uma coisa, um lado bom o sertanejo, que a maioria deles parte para o lado da terra, do agronegócio, e é o negócio que tem menos chance de dar errado. Porque a terra, por mais que você compre uma terra mal comprada hoje, se você puder segurar um pouco, ela vai se corrigir o preço. Então, meu irmão, ele é adepto do gado. Meu irmão é um criador de gado, e é dedicado. Acho que ele dedica mais ao gado, do que a música, hoje. E eu parti…

Luciano Pires: Onde? Em Minas?

César Menotti: Ele trabalha, cria em Minas, e no Paraná, que é onde ele nasceu. E eu parti hoje para o lado da mineração, que é mais o lado do meu pai. Mas, temos as nossas aplicações, outros negócios, investimentos em terra mesmo.

Luciano Pires: Você minera na sua terra, ou você tem uma companhia de mineração, que vai minerar em lugares?

César Menotti: Não, hoje eu minero no meu solo, e no meu subsolo. Que há essa diferença hoje. Hoje, eu posso comprar um subsolo que não é meu, de outra pessoa. Como uma pessoa pode registrar um subsolo, de uma terra minha.

Luciano Pires: Eu não entendi porra nenhuma. Subsolo…

César Menotti: É assim, vamos supor que você tenha uma fazenda. Uma pessoa pode requerer o direito do seu subsolo. Nem você que é o dono da fazenda, pode trabalhar o seu subsolo.

Luciano Pires: Mas cara, qual a lógica disso?

César Menotti: É um negócio que precisa mudar, mas, funciona assim. Então hoje a gente, graças a Deus, a gente minera no nosso solo e subsolo.

Luciano Pires: E mineração é um puta negócio?

César Menotti: Nessa pandemia foi muito interessante, porque o preço do ouro disparou. O preço do óleo diesel não mudou muito, que é o nosso principal gasto. Então, acho que para quem tem dedicação, eu foco muito no trabalho, procuro aprender muito, estar sempre atento. Eu acho que todo artista, tem que ter uma outra fonte de renda. Porque a fonte de renda da arte, ela é muito instável, tanto para o pequeno, quanto para o grande. Você pode estar ganhando dinheiro em um ano, não estar no outro. E muitas vezes, a maioria dos artistas, demoram muito para perceber isso, para pensar que podia ter feito isso no passado. Eu demorei, meu irmão demorou. A gente não nasce sabendo das coisas, vai aprendendo ao longo do caminho.

Luciano Pires: Você consegue se imaginar daqui há 40 anos, vindo gravar um LíderCast aqui com meu neto. E quando o menino pedir para começar o programa, você se apresentar como eu sou, César Menotti, 85 anos de idade, garimpeiro?

César Menotti: eu consigo me imaginar daqui 40 anos, vindo aqui conversar com você, com 120.

Luciano Pires: Mas, você vai se apresentar como garimpeiro?

César Menotti: Com muito orgulho. Eu tenho orgulho imenso.

Luciano Pires: Seu pai está batendo palmas de novo.

César Menotti: De carregar esse título, de defender essa classe, que é uma classe extremamente marginalizada. E garimpeiro, não é bandido. Garimpeiro, é responsável por grande parte do progresso do nosso país.

Luciano Pires: Cesar, garimpeiro é o cara que mata índio. É o cara que destrói rios, é o cara que acaba, desmata. É o cara que invade terra dos outros. É o cara que só vem notícia ruim, não vem notícia boa de garimpeiro. E eu estou falando com você, em termos de que o que o mercado acha. Quando o brasileiro médio olha para isso, a notícia que a mídia traz para ele, é essa. Só chega do garimpo, tragédia, coisa ruim.

César Menotti: Infelizmente, é a imagem que é passada, a imagem que a gente tem que conseguir mudar. Não é nada disso. Hoje, quando você monta um garimpo, você tem que ter um pronto projeto para apresentar depois, de florestamento, como que você vai entregar essa área. Obvio, que toda a profissão, tem as suas ilegalidades, tem gente que trabalha na marginalidade. Mas não é isso que pinta. O que falam das poluições de mercúrio, na verdade, é um grande exagero. Se um dia você tiver o privilégio de conhecer um garimpo, você vê que não é nada disso.

Luciano Pires: Mas é legal você falar isso, porque você atua no segmento que hora apanha porque é agro, hora apanha porque cria boi, hora apanha porque é garimpo. Só não apanha quando está cantando no palco.

César Menotti: É verdade, a música dá esse acalento, né?

Luciano Pires: Tá certo. Meu caro, volta agora para a sua infância, lá atrás, quando você era moleque lá atrás. Você está vivendo o sonho de moleque? Ou, o que você está vivendo hoje, é além, é outra coisa? Você imaginava que seria legal fazer sucesso, mas, você não tinha a menor ideia de que seria isso que você vive hoje? Como é que…?

César Menotti: Eu já sonhava com o palco. Mas, o sucesso foi muito além do que eu esperava. Foi infinitamente além. Eu não imaginava como era esse mundo que eu ia entrar, e teoricamente foi rápido. A gente, nós começamos em 2002, em 2007 já estávamos viajando o Brasil inteiro. Então, é muito mais do que eu sonhei, o que eu alcancei. Mas, estar no movimento do palco, eu sempre quis estar. Sempre que eu via um show de outro artista, que eu ia em um show assistir, eu queria estra lá, nem que fosse de carregador, para estar no meio do movimento. Eu gostava daquilo.

Luciano Pires: Se você tivesse que dar uma sugestão hoje, dar um… eu não quero falar conselho, porque conselho para mim é pretencioso. É você contar a sua experiência. Tem uma garotada que está ouvindo a gente aqui, que também quer sucesso, e provavelmente alguns vão chegar lá, e vão entrar nesse mundo maravilhoso que você atua. E precisam tomar alguns cuidados. Eu acho que grande parte dos cuidados, da proteção que eles podem ter para não descambar, é alguma coisa que você está falando desde o começo aqui. É os valores, é o pai, família, estar junto com o irmão. Cara, tem valores, tem princípios, tem coisas que botam você em uma trilha, que você não desvia dessa trilha à toa. Vou retomar os Bee Gees. Os Bee Gees têm um caso parecido. Em algum momento, eles desviam, entra droga no jogo, entra depressão, entra uma porrada de coisas ali, que acabam desviando os caras, e eles tem que retomar lá na frente. E isso custa a perda de 1 irmão. Eram 4, traz, o mais novo, o mais novo vem se agregar a banda, como uma forma de livrar, ele estava enlouquecido, estava fumando e cheirando tudo. Trazem o moleque para a banda, e antes do moleque estrear, 4 irmãos, o menino morre. Se você tivesse que dar um conselho para essa molecada toda que vai entrar aí, qual é o caminho? O que que eles vão encontrar, e que vai brilhar diante deles, e que…?

César Menotti: O sucesso, ele não tem receita e nem endereço. Mas, preservar os princípios, principalmente para quem está no meio da arte, é fundamental. Porque no meio da arte, essas coisas que te desviam do caminho, são oferecidas muito mais fácil, que qualquer outra profissão. É muito fácil. É uma oferta que está todos os dias, à sua disposição. E a outra coisa, é persistência. Nós demoramos 5 anos. Victor e Léo, tocou na noite 25 anos para acontecer. Então, persistir, é fundamental. Outra coisa que eu sempre digo, é que as pessoas falam, “cara, como é que faz para tocar em Barretos, para tocar no Brazilian Day?”. Só tem um caminho, você fazer sucesso no boteco da sua cidade. Se você não fizer sucesso na sua cidade, no seu local, no seu boteco, não almeja o maior, que você não vai ter também.

Luciano Pires: Eu gravei um PodSumário, chama-se O Caminho Para o Caráter. É genial, é um livro chamado O Caminho Para o Caráter, eu faço, levanto o livro. E lá ele conta um negócio interessante, ele diz o seguinte, “o que te leva para o sucesso, é o seu talento. A sua habilidade, seu talento, aquilo que você consegue construir, que encanta as pessoas, te leva para o sucesso. Mas, para se manter lá, é o caráter. Sem caráter, você não fica lá”. E ele dá exemplos. Vou dar um exemplo aqui, Mike Tyson. Cara, o cara vira o maior boxeador do mundo, bilionário, e chega lá em cima, e com a mesma velocidade com que ele chegou, ele cai. Cai a ponto de parar na cadeia, ele é preso por estupro e tudo mais, e nunca mais consegue retomar a carreira dele. E ele dá vários exemplos. Cara, o que mantem você lá em cima, é caráter. E eu consigo imaginar que nesse meio, que é um meio altamente disputado. Deve ter um lance de ego fodido. Você está em um show, vão entrar 8 atrações, 1 levanta o público. Se as outras não levantar, vai ser uma ciumeira do caralho, um vai querer matar o outro, aquela história. Imagino que seja assim. Porque tem, todo mundo que está em um palco, tem uma questão de ego ali. E o caráter nesses momentos, é um negócio importante. E você falou um negócio interessante, que quando você fala para mim, que esse meio do sertanejo, é um meio que recebe muito bem os novos, e recebe os velhos, e tudo mais, já tem um lance de caráter aí, que me parece que fica muito claro. Que esse tipo de gente que está onde você está, nesse segmento que tem essa raiz do interior, do interiorano, da família e tudo mais, ela já traz dentro de si um lance de caráter, que meio que facilita. Eu imagino que em outros segmentos seja mais complicado.

César Menotti: eu não conheço outros segmentos. Mas o sertanejo tem muito disso. De uma valorização mesmo de princípios, valorização da família. Não que não tenha as loucuras de quem bebe muito, ou usa outros tipos de coisas, loucuras. Mas, é aquela coisa de ter um ninho. A pessoa sabe que ela tem para onde voltar, em qualquer situação. Então acho que isso faz a diferença no nosso mercado hoje.

Luciano Pires: O fato de você ter…

César Menotti: Ter princípios familiares, principalmente.

Luciano Pires: É isso que eu queria chegar.

César Menotti: Aquela coisa de honrar pai e mãe, isso é muito precioso para nós.

Luciano Pires: Então, você está tocando num ponto para mim aqui, que é crucial para entender o Brasil de hoje, para compreender o Brasil de hoje. Vou dar um exemplo que aconteceu anteontem, eu ia até publicar, depois falei, cara não vou nem publicar, porque vai ser uma encheção de saco, deixa assim. Publicaram aí um vídeo de um Bispo, acho que lá de Natal. O Bispo, está tendo um puta evento em Natal, e aparece o Bispo. O Bispo vai lá, terminou o evento, ele está lá todo paramentado como Bispo, e vem um garoto entrevistá-lo, para um blog, para não sei o que que é. E o garoto chega para entrevistar, e gente, estamos aqui com o Bispo, um evento assim… o garoto totalmente deslumbrado, em um tom de voz e em um approach, que a hora que o garoto começa a gritar, o Bispo pega e fica olhando para ele. Fica olhando assim, sem entender o que está acontecendo. Quando o garoto termina, “eu queria saber do senhor o que o senhor acha de estar aqui nesse evento”, bota o microfone, e o Bispo fala, “eu não estou gostando dessa entrevista. Vocês me tiraram para tirar sarro?”. Não sarro, ele não fala sarro, mas, “para o que que é isso? Eu não estou gostando disso aqui não, eu não quero não. Olha, Deus os abençoe, não sei o que”. Aí fica um puta… “mas como o senhor quer que a gente fale?”. “Não, eu não quero não”. Aí vem o pessoal, “não, o senhor quer fazer sozinho?”. “Não, sozinho eu faço:”. Aí sozinho ele passa a mensagem dele, e vai embora. Bom cara, caiu o mundo. Foi de homofóbico para cima, o Bispo, todo mundo detonando Bispo, porque o garoto chega lá todo, e o garoto tem um jeitão afeminado. Não quer dizer que ele seja gay, parece que é. Mas, isso bastou para dizer que o Bispo, foi homofóbico, e que por isso vamos cancelar esse puto desse Bispo, etc. e tal. Eu vi aquele negócio todo, escrevi um post que eu não publiquei nas redes, publiquei na Confraria, porque lá eu publico, na rede não botei. Eu falei o seguinte, cara, o garoto não entendeu onde ele estava. Ele não sacou o ambiente, que era o ambiente de uma igreja, ele não tem a menor ideia do que seja a reverencia a uma autoridade. Mesmo que você não reconheça, cara, é o Bispo que estava lá. O Bispo tem 70 anos de idade. Tem um lance ali de autoridade, tem um lance de respeito, etc. O garoto entrou, como se tivesse apresentando o Big Brother Brasil, sabe? “Vou entrevistar aqui uma cantora…”. E fez uma zona, e criou um momento de constrangimento, que o Bispo olhou, falou, “cara, isso não tem nada a ver comigo aqui, não sou eu”. Eu estou contando essa história para você, porque me parece que essa falta de compreensão desse menino, para com esses ritos, essas coisas da sociedade, de você, “cara, deixa eu respeitar o mais velho. Cara, tudo bem, falou uma bobagem, mas, o cara tem 70 anos. Deixa eu entender o que está acontecendo aqui”. Isso meio que desapareceu. As pessoas estão tratando as outras de qualquer jeito, né? Não tem essa coisa do respeito. Foda-se quem falou. Eu achei que é bobagem, eu vou para cima. Como ontem, de novo, vão me encher o saco aqui, mas caceta. O Bolsonaro vai lá na primeira sessão da Câmara, com o novo presidente, e a hora que ele vai falar, começam os deputados a gritar, xingar, “fora, genocida”, em voz alta, gritando e xingando o cara de genocida. Cara, era a figura do Presidente da República. Não interessa quem é que está lá, quem é o cara. É o Presidente da República, entendeu? É o Bispo, caralho. É um senhor que está lá. “Ah, mas fez bobagem”. Tá bom, mas… E me parece que se perdeu muito desse respeito.

César Menotti: Com certeza. Mas aí, eu volto lá nos princípios de família, porque eu tinha uma aproximação com meu pai, que eu não tinha com outras pessoas. Eu não falava com meu pai, como eu falava com um colega meu.

Luciano Pires: Chamava de senhor?

César Menotti: Senhor, claro.

Luciano Pires: Eu chamo meu pai de senhor até hoje.

César Menotti: Às vezes bastava um olhar dele, para mudar meu comportamento. Então, acho que quando você não tem esse princípio desde o começo, ou você não respeitou isso daí, você tem chance de, de repente o menino lá com o Bispo, foi bem-intencionado. Foi deselegante talvez, fora do contexto. E as pessoas que cancelam também, usam muito o texto, fora do contexto. Não entende toda, como é que é a vida de um Bispo. O Bispo não está acostumado a ser entrevistado, ainda mais de uma forma daquela. De repente, mais bem-humorada, tal. Então, acho que tudo que a gente vai analisar antes de julgar, tem que entender o contexto daquela história. É o caso do Presidente da República, concordo plenamente com você. Gostando ou não, é uma autoridade. E a gente tem que respeitar autoridade. Eu parto desse princípio, as pessoas mais velhas, autoridades, eu respeito em qualquer ocasião. Eu não me aproximo, como eu me aproximaria de um colega cantor meu, por exemplo.

Luciano Pires: Claro. Mas então, essa percepção que você está falando, é uma das coisas que explica você se manter numa posição de sucesso. Manter você lá em cima. Porque você continua dando esse valor. Quer dizer, se você tem essa posição, eu imagino como é que você trata o teu Road. O cara que carrega o seu equipamento. Eu imagino que ao tratá-lo, o está tratando como um cara igual, um ser humano igual. Você não está tripudiando em cima do cara.

César Menotti: Exatamente. Isso acontece muito no meio artístico, quando chega um artista veterano, uma pessoa de uma dupla mais antiga. Há um respeito, a gente não trata eles como um colega de agora, um colega meu de agora. Trata ele com uma certa reverencia, sabe? Pô, o cara fez história, nosso ídolo, a gente ouviu as músicas do cara, é diferente.

Luciano Pires: Para mim, é isso que aconteceu. O Brasil perdeu meio que o respeito, cara. Cara, eu não gosto muito de falar disso aqui, porque os caras vêm, “conservador, velho do caralho, está querendo o que?”. Cara, eu estou querendo só que me respeitem, como eu respeito os outros. E acho que isso não vem de outro lugar que não seja da família, sabe. E o fato de vocês estarem lá tocando como irmãos, e falando desses valores, e tudo mais, isso para mim é fundamental. Tomara que dure muito.

César Menotti: Que bom, muito obrigado!

Luciano Pires: Meu amigo, comemos coxinhas, tocamos viola.

César Menotti: Que coisa boa.

Luciano Pires: Gostaria de ouvir mais viola, mas fica para uma outra oportunidade. Cara, quero agradecer de montão por você ter vindo aqui. Eu acho que deu para a gente dar uma ideia interessante de um mundo que só é visto pelo brilho. A gente só te enxerga como um brilho. Só vê você com o holofote em cima, e na televisão, e pá pá pá. Esse dia a dia, essa coisa do ser humano, é o que realmente me interessa, né? É saber que o cara é gente igual a gente. E por um caminho do destino, te botaram, você foi parar num palco, e tem uma luz brilhando em cima. Mas apagou a luz, estamos juntos, comendo coxinha juntos.

César Menotti: Eu que agradeço, estou muito honrado, muito feliz. E espero estar miais próximo de você, porque você é um cara que compartilha sabedoria. E eu admiro muito, as pessoas que compartilham sabedoria. Muito obrigado pela oportunidade, e pelas coxinhas.

Luciano Pires: Eu que agradeço de montão, e espero que realmente a gente tenha chance de trocar ideias. Porque você no seu caminho, faz a mesma coisa que eu faço, cara. De outro jeito, mas, você faz a mesma coisa que eu faço. Seja bem-vindo.

César Menotti: Valeu, obrigado Luciano Pires.

Luciano Pires: Obrigado, até mais.

E o Itaú Cultural continua com suas programações, mesmo em tempos de pandemia. A sede fica na Avenida Paulista, mas eles têm as experiências virtuais, as entrevistas no site, arquivos diversificados, podcasts… E se você entrar na área da Ocupação, verá a celebração de nomes de diversas personalidades de vários estados do Brasil  com suas biografias apresentadas através de livros, contos, crônicas, charges, poemas, músicas e filmes.

Dê uma olhada na agenda cultural e no acervo é um mundo de cultura que você acessa daí, do seu celular ou computador.

Acesse itaucultural.org.br. Agora você tem cultura entrando por aqui: pelo olhos e pelos ouvidos…

Pois então, cara… eu me sinto um privilegiado quando consigo me encontrar com pessoas simples, movidas por valores e que conseguem impactar outras pessoas. Você não precisa nem gostar de música sertaneja para apreciar quem consegue, com trabalho duro, inspiração e generosidade, mostrar que é possível emocionar sem apelar.

Fogão de lenha
Carlos Colla
Maurício Duboc
Xororó

Espera, minha mãe, estou voltando
Que falta faz pra mim um beijo seu
O orvalho das manhãs cobrindo as flores
E um raio de luar que era tão meu

O sonho de grandeza, oh mãe querida
Um dia separou vocês e eu
Queria tanto ser alguém na vida
E apenas sou mais um que se perdeu

Pegue a viola, e a sanfona que eu tocava
Deixe um bule de café em cima do fogão
Fogão de lenha, e uma rede na varanda
Arrume tudo, mãe querida
O seu filho vai voltar

Mãe, eu lembro tanto a nossa casa
E as coisas que falou quando eu saí
Lembro do meu pai, que ficou triste
E nunca mais cantou depois que eu parti

Hoje eu já sei, oh mãe querida
Nas lições da vida eu aprendi
O que eu vim procurar aqui distante?
Eu sempre tive tudo e tudo está aí

Pegue a viola, e a sanfona que eu tocava
Deixe um bule de café em cima do fogão
Fogão de lenha, e uma rede na varanda
Arrume tudo, mãe querida
O seu filho vai voltar

Espera, minha mãe, estou voltando

É assim ó, com César Menotti e Fabiano interpretando Fogão de Lenha, de Carlos Colla, Maurício Duboc e Xororó, que vamos saindo inspirados.

O Café Brasil é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, completando o ciclo.

O conteúdo do Café Brasil pode chegar ao vivo em sua empresa através de minhas palestras. Acesse lucianopires.com.br e vamos com um cafezinho ao vivo.

De onde veio este programa tem muito mais, especialmente para quem assina o cafebrasilpremium.com.br, a nossa “Netflix do Conhecimento”. Cara! Vai lá! Tem muito material, tem gente de primeira linha, tem um grupo no Telegram que é uma delícia, trocando ideias. Se você acessar confraria.cafe, vai conhecer todos os planos, cara. E o plano mais em conta custa o preço de duas latinhas de cerveja quente na balada, por mês. E se você assinar ainda a versão anual, custa mais barato do que uma lata de cerveja quente na balada por mês. E sabe o que que nós estamos dando? Conhecimento! Vem com a gente!

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Para terminar, vamos de Tião Carreiro?

No meio de ferro e fogo a luta é deliciosa
Bala bate no meu peito e vira medalha honrosa
Se alguém me atira pedra faço virar uma rosa
Quanto mais tombo eu caio acho a vida mais gostosa.