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Luciano Pires -

E a Perfetto patrocina o Café Brasil e você já sabe, sabe o que tem ali? Sorvetes!

Para inovar com oferta de novos produtos, eles fizeram uma parceria com uma startup chamada Lowko, ele-o-dábliu-ká-o, lowko, que faz um sorvete impossível, com ingredientes de origem natural, sem adição de açúcar, nem adoçantes artificiais. Baixíssimas calorias, portanto. Tem avelã com chocolate, banana com creme de avelã, brigadeiro, chessecake de goiaba, chocochips…ah meu Deus do céu… com os produtos da Lowko, a Perfetto dá ainda mais prazer. E com um produto ainda mais saudável!

Dê uma olhada lá em lowko.com.br: l, o, w, k, o – lowco.

Com Perfetto é que você conhece o sorvete.

E quem ajuda este programa a chegar até você é a Terra Desenvolvimento, que é especializada em gestão de empresas agropecuárias. E faz isso suportada por diversas técnicas, pesquisas, tecnologia e uma equipe realizadora. A Terra levanta todos os números de sua fazenda em tempo real e auxilia você a traçar estratégias, fazer previsões e, principalmente, agir para tornar a fazenda eficiente.

Para a Terra, é o olho do dono que engorda o boi, e esse olho precisa ser cada dia mais inteligente.

terradesenvolvimento.com.br – inteligência a serviço do agro.

Da mesma forma como o Youtube joga no colo da gente um monte de lixo, também joga pérolas. Tudo depende de como filtramos os conteúdos. E uma descoberta importante foi o Alessandro Santana, do Canal do Negão, um empreendedor que sai do mundo da sucata para se tornar uma referência entre os Youtubers. E para isso, ele usa duas ferramentas irresistíveis: a transparência e o bom senso. O papo de hoje é com ele.

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você está no Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Posso entrar?

“Bom dia Luciano. Bom dia, boa tarde, boa noite.  Eu sou Ingrid Kaper, eu sou gaúcha, moro em Porto Alegre e eu queria comentar a decisão do governador de tirar  das prateleiras produtos não essenciais. Mas, na verdade, eu quero agora, não só fazer um comentário, Luciano, do aspecto político disso. Eu quero comentar porque que as pessoas concordam com esse tipo de coisa. É o que mais me assusta, não é ele tomar essa decisão. É as pessoas dizerem: opa, que legal. Aplaudirem esse tipo de atitude.

Deixa eu te falar: como psicóloga, acho que eu tenho o dever de olhar pra essas coisas e ver a lucura que as pessoas… porque que as pessoas apoiam isso, né? Então assim: vou começar com um exemplo meu.

No ano passado eu tive um câncer, muito agressivo e raro. Por sorte ele estava inicial e eu fiz cirurgia, fiz químio, fiz rádio e obviamente, pelos próximos cinco anos, por ele ser muito agressivo, eu vou ter que ficar olhando pra isso, pra ver se ele não volta. E aí eu comecei a buscar diversas maneiras  de buscar controlar aquilo ali. E uma das coisas que me disseram é que açúcar dava cancer e que eu comer açúcar podia fazer com que voltasse.

E aí, numa sessão de terapia, depois de descobrir um nódulo na tireóide, que não tinha nada a ver com toda a história, eu falei: puxa, mas eu estou aqui fazendo… sem comer açúcar, o que houve? E a minha terapeuta olhou pra mim e falou assim: é, né, Ingrid? Deve ser muito difícil mesmo, olhar pra situação e dizer: não tem nada que eu possa fazer. Ainda que sim, reduzir açúcar pode melhorar a tua imunidade, não é só aquilo isoladamente vai fazer com que nunca mais volte.

E aquela sensação, Luciano, ela me deixou num desamparo tremendo. Então assim, o que eu eu estou querendo dizer com tudo isso: que o que está acontecendo agora, tu entende? As pessoas elas estão se sentido super desamparadas. Então elas compram narrativas com a intenção de preencher essa sensação de descontrole sobre a doença.

Então assim, quando um governador disse: calma pessoal. Fiquem todos em casa, nós vamos fazer lockdown, nós vamos tirar os ítens essenciais do supermercado, elas olham pra si  e dizem: ufa! Agora eu estou protegida. Porque é muito difícil, Luciano, assumir que a gente não tem controle sobre tudo.

E eu não estou querendo dizer com isso que a gente tem que se aglomerar, que a gente não tem que usar máscara, eu não sou assim. Eu não penso assim. Eu estou dizendo que as narrativas, elas tem muito mais a ver com a incapacidade do indivíduo de lidar com situações incontroláveis, do que de fato uma medida que vai funcionar.

Tá bom, Luciano? Um abraço pra ti e vida longa aí ao  Café Brasil Premium e ao Cafezinho. Até mais, tchau, tchau.”

Guerreira Ingrid! Eu espero que sua recuperação seja total! O tema que você traz pra nós é fundamental: a total perda voluntária de liberdade diante de problemas complexos. Transferimos para outros as decisões sobre nossas vidas, o que é até natural, quando a gente está inseguro. Mas quando se coloca o Estado, as ambições políticas e uma certa dose de psicopatia no balaio, dá nisso que estamos vendo. Um país há mais de um ano em dúvidas, sem confiar em suas lideranças, sem horizontes, sem transparência… O resultado só pode ser mesmo a desesperança. E aí colocamos nosso destino no colo do primeiro que aparecer com uma conversinha envolvente. A saída? Encontrar outros como você, que não se conformam, que estão indignados, e formar grupos  de…conspiradores. Capazes de discutir o que acontece, se proteger do que acontece, ensinar a outros que se protejam e, em algum momento, partir para a ação. Olha! Não é fácil. Mas você já venceu uma baita batalha, não é?

Muito bem. A Ingrid receberá um KIT DKT, com alguns dos principais produtos PRUDENCE, como géis lubrificantes e preservativos masculinos. Basta enviar seu endereço para contato@lucianopires.com.br

A DKT distribui a maior linha de preservativos do mercado, com a marca Prudence, além de outros produtos como os anticonceptivos intrauterinos Andalan, géis lubrificantes, estimuladores, coletor menstrual descartável e lenços umedecidos. Mas o que realmente marca na DKT é sua causa de reverter grande parte de seus lucros para projetos nas regiões mais carentes do planeta. A DKT trabalha para evitar gravidez indesejada, infecções sexualmente transmissíveis e aAIDS. Ao comprar um produto Prudence, Sutra ou Andalan você está ajudando nessa missão!

facebook.com/dktbrasil.

Vamos lá então!

Luciano – Lalá, vamos pra cima?

Lalá – Ôpa…na hora do amor eu vou pra cima, mas sempre usando Prudence!

Luciano Pires: Então? Eu acho que você vai notar que esse programa é levemente diferente dos outros LíderCast. E a razão é muito simples. A gente começou a conversar antes do programa. Sentamos lá e já deu uma liga na hora que um encontrou com o outro. A gente sentou e começou a conversar. E foi para o estúdio e a conversa continuou, exatamente como estava acontecendo no lado de fora do estúdio. Então, derrubaram-se quaisquer barreiras de formalidades e de gravação, inclusive. E a gente conversou. Eu acho que foi a conversa que eu tive, mais próxima de uma mesa de bar. Os dois sentados ali, de coração aberto. Então você vai notar que tem palavrão que não acaba mais. Tem um jeito livre de falar. A gente estava totalmente tranquilo na conversa. E isso é muito legal, quando acontece sabe? Porque significa que houve uma conexão entre as duas pessoas. E a gente pode então, se abrir e trazer ali algumas ideias. Muita gente vai ficar enlouquecida, porque, de novo: a gente fala de comportamento. A gente fala de política. A gente fala de posições políticas. Nesse momento que o Brasil está absolutamente histérico, evidentemente vai ter muita gente que vai ficar incomodada. Mais a verdade está ali. Isso aqui é um papo entre duas pessoas que querem um país melhor, querem um futuro melhor. E eu espero que você entenda que o que a gente busca ali é a construção. Não é a destruição. É fazer como pensa um bom conservador. Eu quero gastar o meu tempo com as coisas que constroem. E não perder meu tempo com as coisas que destroem. E acho que a gente conseguiu um bate-papo legal. Então venha conosco aí. Eu espero que você curta.

Muito bem, mais um LíderCast, esse aqui eu namoro faz um tempão. Eu ficava olhando a vida dele. Eu falei: uma hora eu vou trazer essa figura para cá. E um monte de ouvinte disse: cara, traz ele aí. Traz ele aí. Eu falei: não, quando chegar a hora ele vem. A gente vai entrar em contato. E foi rapidinho. Porque na hora que eu estabeleci o contato. Vem cá, meu, eu sou o Luciano. Já é. Demorou. Já estou aí. Vamos lá e vamos conversar, trocar uma ideia. Vai ser muito legal esse papo aqui. Porque quando eu trago alguém aqui que eu admiro, fica mais legal ainda. São três perguntas que a gente usa no começo do programa. E são as únicas que você não pode chutar. O resto você pode ficar à vontade. Essas três não. Eu quero saber seu nome, sua idade e o que você faz?

Alessandro Santana: Meu nome é Alessandro Santana, mais conhecido como Negão. Eu tenho 41 anos. Sou de 79. E hoje em dia, eu posso dizer que eu sou youtuber. Por muito tempo eu fui só sucateiro e youtuber. Hoje eu vivo de internet. Eu vivo de youtuber. Eu vivo de criação de conteúdo.

Luciano Pires: Nasceu aonde?

Alessandro Santana: Eu nasci em São Caetano, mas cresci entre a Vila Prudente e a Mooca. Na Vila Prudente, mais específico ali.

Luciano Pires: Você é paulistano da gema. Você tem irmãos?

Alessandro Santana: Tenho duas irmãs.

Luciano Pires: O seu pai e a sua mãe faziam; fazem o quê?

Alessandro Santana: Minha mãe era cabeleireira, na Vila Prudente. Por isso que eu fui criado na Vila Prudente. A gente morava na Vila Ema, mas do lado ali. E o meu pai sempre teve ferro velho. Ele começou quando ele chegou aqui em São Paulo – ele veio de Alagoas – começou mexendo com garrafa. Depois a garrafa foi saindo de mercado, por causa da entrada do plástico. A garrafa quase que morreu. E aí meu pai virou dono de ferro velho. Eu tinha pai e mãe empreendedor.

Luciano Pires: Quando você fala de garrafa, o teu pai tinha aquele esquema, que ele tinha um piscinão, que ele pegava as garrafas, jogava e virava caco?

Alessandro Santana: Não. Também. Tinha isso. Mas isso era a minoria. No tempo do meu pai… hoje em dia, o caco é mais assim, tipo, quase toda garrafa hoje vira caco. É o que a gente chama de caco. Caco branco, caco preto, que é o caso da cerveja. Caco verde que é o caso de outras bebidas alcoólicas. Mas o meu pai ainda é do tempo em que você trocava o vasilhame mesmo. Tipo, as pessoas passavam muito mais procurando garrafa do que ferro ou papelão. Ferro e papelão era a minoria, que trabalhava com ferro e papelão.

Luciano Pires: Você acabou seguindo o caminho do teu pai?

Alessandro Santana: Isso.

Luciano Pires: Ficava claro que…

Alessandro Santana: Não foi assim, querendo. A minha mãe não queria. O sonho da minha mãe era ou eu ser militar ou eu ser professor. Esse também era o sonho do meu pai. Mas mais porque o meu pai passou pelo tempo de 64. Para o meu pai foi show. Eu sempre falo: depende de como você estava financeiramente para você avaliar um tempo da história. Como meu pai estava bem naquele tempo, para ele foi show, para a minha mãe também, e a gente tem militares na família. Então minha mãe sempre quis que eu fosse militar ou professor. Era o sonho da minha mãe. Entendeu? E ela não gostava que eu fizesse o trampo do meu pai, porque era um trampo mais sujo e tal, não sei o quê. Mãe dos anos 80. Ou quer que você faça faculdade ou concurso público. A minha é mãe dos anos 80.

Luciano Pires: Mãe – não importa de quando – ela quer estabilidade para o filho.

Alessandro Santana: É. Ela quer estabilidade para o filho.

Luciano Pires: Me fala uma coisa: como era teu apelido quando você era pequenininho?

Alessandro Santana: Crioulo.

Luciano Pires: Crioulo?

Alessandro Santana: Eu odiava.

Luciano Pires: Crioulo?

Alessandro Santana: Crioulo. Eu conheço uns mano que ama ser chamado de crioulo. Eu odiava. Anos 80 você é chamado daquilo que você não gosta.

Luciano Pires: Mas cara, essa é a grande jogada. Hoje o pessoal fala do bullying, porra do bullying e tudo mais. Eu falo: cara, o bullying tem uma jogada que é a seguinte, ele só funciona se…

Alessandro Santana: Se você não gosta.

Luciano Pires: Se o cara que sofre o bullying se incomodar.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: O cara te bota um apelido. Se você ficar puto, aí funciona.

Alessandro Santana: Exato.

Luciano Pires: Aí o apelido pega. Se você passa por isso, passa por cima. E aí tem uma jogada interessante. Ontem apareceu um lance, que eu rachei o bico de dar risada. Eu não sei se você viu. O Bolsonaro saiu, estava lá com o povo lá na frente. Aí ele vê uma placa. E aí ele pede para um auxiliar. O cara vai no meio do povo e traz a placa. A hora que ele levanta a placa, está um logotipo da Globo. Globo lixo.

Alessandro Santana: Quando eu vi, eu pensei que era meme. Eu falei: não cara, fizeram no photoshop aquilo ali.

Luciano Pires: Aí eu peguei o vídeo para ver, eu falei: cara, não cola nele. Porque os caras botam nele um puta monte de rótulo e ele tira um sarro. Ele dá uma puta lição. Ele pega uma lata de leite condensado. Isso aqui é para botar no rabo da imprensa.

Alessandro Santana: Exato.

Luciano Pires: E ele desmonta o bullying. Entendeu? Porque ele não assimila o bullying.

Alessandro Santana: Pois é.

Luciano Pires: Sabe o que é isso?

Alessandro Santana: Ele se aproveita, na verdade. Entendeu?

Luciano Pires: Sabe o que é isso, cara? Isso é formação em quartel.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: Os caras enchendo o saco a vida inteira. Um pentelhando o outro. E o nego cria essa casca grossa. E aí não gruda, cara. Não gruda. Não adianta você vim para cima. Quanto mais baterem, mais o cara vai…

Alessandro Santana: Eu vou te dar um exemplo. Esses dias, a gente fez uma resenha de pai e filho. E assim, eu sempre brinco que o bullying começa em casa.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então o meu filho mais velho tem 20. Aí ele estava zoando o de 12. Falou assim: aí Jamal, eu vi um filme e lembrei de você. Aí ele: qual? Planeta dos Macacos. Aí o Jamal falou: é mesmo? E eu vi um filme e lembrei de você. Aí ele: qual? Vila Sésamo. Você é igualzinho o Garibaldo. Na lata. Sabe quando você nem… bateu, ele já jogou de volta.

Luciano Pires: Sim. Aí não rola.

Alessandro Santana: Não rola mano.

Luciano Pires: Fala uma coisa para mim: o que o Crioulo queria ser quando crescesse?

Alessandro Santana: Cara… grande. Grande de musculoso. Era meu sonho.

Luciano Pires: Grande de?

Alessandro Santana: Grande de forte. Eu nunca tive tipo: eu quero… às vezes o pessoal fala assim: o que você quer ser quando crescer? Eu não sei. Eu, sinceramente, não sabia. A única coisa que eu queria era ser grande. Eu queria ser o Sagat. Lembra do Sagat? Street Fighter 2?

Luciano Pires: Lembro. Lembro.

Alessandro Santana: Eu não queria ser o Balrog. Porque eu achava o Balrog muito esquisito. Mas eu queria ser o Sagat, o tailandês.

Luciano Pires: Não era o Zangief? Lembra?

Alessandro Santana: Isso. Tinha o Zangief, que era russo.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu gostava do Sagat. O Sagat era negro, mas ele era tailandês. Mas ele era alto. O pessoal pagava o maior pau. O cara é alto, musculosão. E o Balrog já era todo troncudinho assim, tá ligado? Que era boxeador. Boxeador não fica de peito aberto. Ele fica encolhido.

Luciano Pires: Tudo bem, cara. Esse era o seu sonho. Aí dá para você trabalhar. Mas assim: você tinha alguma visão profissional?

Alessandro Santana: Nenhuma.

Luciano Pires: É para esse lugar que eu vou.

Alessandro Santana: Nenhuma. Nenhuma. Nada. Minha mãe queria porque queria que eu fizesse uma faculdade. E eu estava naquela: faculdade do quê? Ela falou: então presta um concurso. Faz isso, faz aquilo. Eu me interessava por informática. Mas também naquela época era fácil se interessar por informática. Porque era uma novidade.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu comecei a estudar informática, eu era muito novo. Mas não tinha nada que me falasse assim: cara, eu quero ser isso. Eu tinha amigos que falavam assim: cara, eu quero ser engenheiro. Cara, eu quero ser advogado. Cara, eu quero ser médico. Cara, eu quero ser não sei o quê? Eu quero ser jogador de futebol. Eu quero ser músico. Eu não tinha. Eu era músico, tocava bem, mas… tipo assim: fiz aula de música por causa da minha mãe. Ela não queria que eu ficasse na rua. Então tipo assim: quer ir para a rua? Fechou. Tem que fazer um curso. E assim, do salão de cabeleireiro até o curso. Do curso até o salão de cabeleireiro.

Luciano Pires: Essa era a rua?

Alessandro Santana: Essa era a rua. Quer ver a rua? É isso. Mas aí ganhei um Atari e caguei para a rua.

Luciano Pires: Cara, essa é uma história muito comum dos anos 80, cara. Aí até o dia que caiu na minha mão um videogame. E aí mudou tudo.

Alessandro Santana: Eu ganhei um Atari e dane-se a rua.

Luciano Pires: Cara, eu tenho 64 anos de idade cara. A minha infância foi rua pra caralho, cara. E é Bauru. Muita rua. Porque eu não tinha nem televisão em casa. Então era rua mesmo. Até chegar sete horas da noite, a mãe na janela gritando: Lucianinho venha para casa. Aí tinha que tomar um banho, porque eu chegava em casa encardido. E era uma infância fabulosa, cara. Não tinha divisão de classe. Não tinha porra nenhuma, cara. Era rico e pobre. E toda a molecada na rua se empesteando de jogar bola até… até o sol…

Alessandro Santana: Eu tive essa infância na escola. Eu estudei no República do Paraguai, na Vila Prudente. E eu sempre brincava com o seguinte: ali do lado você tinha o República do Paraguai. Ao lado dele você tinha o João XXIII. Aliás, desculpa, o Anchieta, que era particular. Você descia duas ruas, você tinha o João XXIII, outro colégio particular. Então tipo assim, no República do Paraguai, você tinha playboy e você tinha pobre. Normalmente os boys que estavam no República do Paraguai é aquele que foi ruim no Anchieta e no João XXIII. E o pai falou: não. Eu não vou pagar escola particular para você. E ele estava no República do Paraguai.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Era uma excelente escola. Não era só boa. Ela era excelente. Eu tive amigos que saíram do 3º colegial direto para a faculdade. Hoje em dia você sai, mesmo da particular, é um ano de você estudando para cair, para tentar uma faculdade.

Luciano Pires: Você chegou a caminhar para alguma faculdade? Você fez alguma faculdade, alguma coisa assim?

Alessandro Santana: Não. E saí…

Luciano Pires: Me elabora um pouco o momento em que você decide que: deu a educação que eu tenho. Agora eu vou partir para ganhar a vida. Como é que foi isso?

Alessandro Santana: Foi assim: eu comecei trabalhando na Drogaria São Paulo. Porque minha mãe queria porque queria que eu arrumasse um trampo. É muito louco, porque hoje eu tenho 41 anos e dou lição de moral na molecada. Mas eu sempre dou a lição de moral mostrando como era o Alessandro de 16 anos.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Que aí o pessoal fala: ah, mas você está sendo hipócrita. Eu falo: eu não. Eu cresci. Se eu cresci, eu tenho que mostrar os caminhos que eu trilhei para crescer.

Luciano Pires: Cara, e não tem problema nenhum mudar de ideia.

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: Especialmente se for para eu evoluir.

Alessandro Santana: Exatamente.

Luciano Pires: Eu era um mané lá atrás. Cara, em algum momento eu amadureci. Aliás, isso chama-se amadurecimento.

Alessandro Santana: Exatamente.

Luciano Pires: Eu encho o saco da molecada. Eu falo para a molecada: fique frio, porque a juventude tem cura.

Alessandro Santana: Exato.

Luciano Pires: Você vai curar a tua juventude uma hora dessas.

Alessandro Santana: Eu falo sempre assim, eu falo: quando você é jovem, você pode fazer merda. O que você não pode é continuar fazendo merda. Você faz a merda. Aprende que fez merda. Bola pra frente. Então tipo assim: eu acho que eu entro com 15 na Drogaria São Paulo. Odiava o serviço. Porque era basicamente eu ficar parado o dia inteiro e usando calça social. O sistema sempre quis me colocar numa calça social e numa camisa social. Eu tinha ódio. Eu não gostava de usar calça jeans. Eu estou aqui de bermuda. Eu não sei se o pessoal vai conseguir ver. Eu estou aqui de bermuda. O meu sonho era viver de bermuda.

Luciano Pires: Eu só não estou de bermuda aqui, porque eu, durante 20 e tantos anos, eu usei gravata e tudo mais. Porque eu era executivo e tudo mais. E aí no momento que eu vim para cá e mudei para isso que você está vendo aqui hoje. Eu estou aqui do lado. Cara, é bermuda todo dia. Agora eu estranho. Cada vez que eu tenho que fazer uma palestra em algum lugar, que eu fico becado, aí eu fico estranhando. Eu só botei calça para te receber, porque senão ia ser de bermuda.

Alessandro Santana: Se tivesse falado, eu ia falar: bota uma bermuda. Então eu entro na Drogaria São Paulo. Odiava. Eu sempre brinco também, que, tipo assim: eu entrei no meu primeiro emprego de verdade – que eu tive uns outros, mas foram ridículos – o meu primeiro emprego de verdade, o meu gerente era negro. Então, de cara, eu quebrei o estereótipo. Era estranho para mim. Eu não vou mentir. Foi estranho para mim.

Luciano Pires: Um negro.

Alessandro Santana: Um negão. Tipo negão, negão. Alto, voz grossa, tá ligado? Chefão mesmo. Chefão. Gerente da loja. E entrou eu e um moleque branco. Eu não queria trabalhar lá. Eu não precisava trabalhar. Eu tenho um pai e uma mãe que ganha bem. Tipo, empreendedores. Mas minha mãe, sempre firme, falou: não. Você vai trampar. E dane-se. E eu ainda vou ficar com o seu salário. Você mora aqui de graça.

Luciano Pires: Que idade? 15 anos?

Alessandro Santana: 15 anos. Entrou eu e o moleque. E o moleque, ele precisava dar o trampo. Ele precisava mesmo. Porque só morava ele e a avó. Então tipo assim, quando a gente conversava ele falava: não, eu preciso. Não é que eu quero. Então tipo assim: eu não fazia questão nenhuma de passar na experiência. Só que o meu gerente, ele viveu um tempo que eu não vivi. De repente, para ele chegar a gerente foi um caminho tortuoso. Tipo minha mãe. A minha mãe chegou com uma mão na frente e outra atrás aqui em São Paulo. Para ela chegar a ter o próprio salão de cabeleireiro dela, com uma porrada de cliente foi um caminho tortuoso. O meu pai chegou de caminhão de Alagoas. Para ele chegar a ter o ferro velho dele… eu não tive esse caminho tortuoso. Então tipo assim, o cara me olhava e ele era aquele cara que queria: porra negão, você precisa fazer não sei o que e tal. Porque você é negro. Você não sei o quê. E eu achava ele chato pra caralho. Claro. Que cara chato da porra.

Luciano Pires: O teu pai e tua mãe são negros?

Alessandro Santana: São.

Luciano Pires: São negros. Evidentemente, eles cresceram num outro Brasil.

Alessandro Santana: Cresceram num outro Brasil.

Luciano Pires: Você também cresceu num outro Brasil. Quando a gente compara com o Brasil de hoje, você cresceu num outro Brasil. Você está me dando uma visão interessante aí sobre esse teu gerente olhar você e falar: cara… moleque, eu vou te dar…

Alessandro Santana: É. Não. Claramente ele falou assim: eu escolhi esse. Eu escolhi esse e vou ajudar ele. Caguei para o outro.

Luciano Pires: Mas você não tinha essa percepção?

Alessandro Santana: Não. A minha percepção é de que ele era chato. Que cara chato, mano. Eu não quero trampar aqui. Eu não quero viver de calça social. Eu não quero usar sapato social. Mas o que você quer? Não sei. Às vezes, a gente olha assim e fala – o dilema dos playboys – eu não sei. Mas tipo assim, eu sabia que eu não queria aquilo. Então eu acho que quando ele percebeu, ele obviamente se decepcionou. Porque na cabeça dele: eu vou ajudar esse moleque, porque no passado não me ajudaram. Sabe esse pensamento? Então tipo assim, eu até brinco sobre isso quando eu falo de meritocracia. Eu falo: tá vendo? O moleque merecia bem mais que eu. Mas o cara, por ter olhado para mim e ter visto – sei lá – ele mais novo, ele quis muito mais me ajudar. E hoje eu bato nessa tecla com os moleques e tal. Porque hoje eu sou outro. Depois disso, eu entro no McDonald’s. Eu passei dois meses e meio. E quando eu saí de lá – eu fui mandado embora – eu dei graças a Deus. Aí entrei no McDonald’s. E no McDonald’s eu gostei. Porque o McDonald’s me desafiava constantemente. Eu acho o McDonald’s uma puta empresa. Porque você entra serviçal. Você faz tudo. Você está no caixa. Você, às vezes, está fazendo hambúrguer. Você está limpando chão. Você está fazendo recebimento, que é quando chegam as mercadorias. Você está atendendo cliente. E o seu sorriso tem que estar no rosto. Sua vida, às vezes, está uma merda. Mas a regra do negócio é que você esteja com um sorriso no rosto. Daqui a pouco ele pega e traz você para um cargo de liderança. Sem você ser líder. Chega em você e diz assim: fulano, beltrano e ciclano é tua responsabilidade. Bota três vidas na sua mão. Sem você ter um cargo. E isso me desafiava. Isso era interessante para mim.

Luciano Pires: 17 anos, 18 anos?

Alessandro Santana: Isso. Com 16 e meio para 17. Lá eu passei cinco anos da minha vida. Cinco anos maravilhosos. Adorava. Todos os dias em que eu fiquei puto. Os dias em que eu estava feliz. Eu agradeço a Deus por todos os dias que eu passei no McDonald’s. Porque ele me deu uma visão de mundo diferente.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu cheguei a pensar em crescer lá dentro. Mas mudei de ideia quando eu fiz o meu primeiro filho. E eu ainda lá dentro, conversando com o meu pai e tal. A mãe do meu filho estava grávida. E aí meu pai falou assim: quanto é que você está ganhando? Eu falei: tanto. Ele falou assim: o meu pior carroceiro ganha mais do que você. O pior. Não era um carroceiro bom. O meu pior carroceiro ganha mais do que você. Ele falou: não está na hora de você sair daí não? Naquela época, o McDonald’s não mandava embora. Era uma regra. Tipo assim: cozinhava o cara até ele desistir. Aí eu cheguei no gerente que já era parça meu. E dei sorte dele também estar querendo ir embora, que ele queria montar um negócio. Então tipo assim: dane-se. Vou mandar. E que se dane. Aí ele falou: você vai trabalhar o mês de outubro. Mas você vai trabalhar que nem um camelo. Os meses que mais vendia era Natal, Dia das Mães e Dia da Criança. Então o mês de outubro vendia o mês inteiro. Mesmo depois do dia 12, era um mês estourado. E aí eu trabalhei que nem um louco. Eu falei: e aí? Fechei o mês e tal. Ele falou assim, seguinte: você trabalhou tão bem, mas tão bem – eu era treinador – que o pessoal quer te subir para coordenador. Isso era basicamente triplicar o meu salário. Era você pular de funcionário para ter um cargo de gerência, de liderança, vamos dizer assim. Gerencia era um pouco mais alto. Mas de liderança.

Luciano Pires: Aí você ia ganhar igual ao carroceiro do seu pai?

Alessandro Santana: Aí eu ia ganhar igual ao carroceiro bom. Aí eu peguei e falei assim: não, não quero. Senti naquele momento que eu tinha que sair. Eu lembro até hoje, eu saí com cinco mil reais, de FGTS, essas coisas. Isso há 22, 23 anos atrás.

Luciano Pires: Uma boa graninha.

Alessandro Santana: É. Cinco anos. Aí paguei dois contos de dívida e tal, para ficar tranquilo. E investi os três. Perdi em um mês.

Luciano Pires: Investiu em quê?

Alessandro Santana: Investi no ferro velho. Eu montei um ferro velho.

Luciano Pires: Eu achei que você ia entrar com o teu pai e ia herdar a empresa do seu pai e tudo mais.

Alessandro Santana: Não, não. Eu queria a minha.

Luciano Pires: Você partiu para montar o teu próprio negócio?

Alessandro Santana: Eu queria. Primeiro: porque eu era muito arrogante. Eu era muito idiota. Eu achei que o trampo do meu pai era simplesmente: compra coisa, vende coisa. Não é assim. Aí o que aconteceu? Eu perdi. Tipo assim: o Mc me ensinou a liderar pessoas.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: O Mc me ensinou a falar com vários tipos de pessoas. O Mc me ensinou a falar com gay, me ensinou a falar com hétero, me ensinou a falar com gordo, me ensinou a falar com a mulher que está de TPM, me ensinou a falar com o homem que está com frescura, me ensinou tudo. O Mc me deu isso; falou: está aqui. É o curso. O Mc esqueceu de me ensinar que, às vezes, você tem o carroceiro, e ele bota um rato gigante dentro de um saco de latinha para pesar mais. E, às vezes, esse filha da puta é o cara que consegue tirar 500, 600 reais num dia. E ele não tem remorso nenhum de extrair mais uns três contos, botando…

Luciano Pires: Entendi.

Alessandro Santana: Entendeu? Então eu montei um ferro velho. Tinha um cara que dormia no meu ferro velho. Cuidava. Dia de semana, ele cuidava. Então o que ele fazia? Ele vendia material para mim de manhã, o papelão. Ele vendia uma carroçada de papelão. Ele ia lá, pesava, jogava, pagava. De noite, ele tirava o papelão de dentro da caçamba, botava de volta na carroça e vendia.

Luciano Pires: Ele, vendia de novo.

Alessandro Santana: Você entendeu? Então tipo assim, eu descobri com as porradas, que o ser humano pode ser muito ruim, tá ligado? E normal.

Luciano Pires: Tem canalha em todas as classes sociais.

Alessandro Santana: Em todas as classes sociais. E o bom de você ter usado a palavra canalha é que assim: é o cara que não precisa. Esse é o cara que me deixava mais puto. Porque, às vezes, eu pegava o cara que, sei lá, estava fodido. Ou pegou um dia em que ele não fez quase nada. Não. Às vezes, era o cara que estourava. Entendeu? Então, perdi. Perdi os três contos. E falei: e agora? Voltar para o Mc? E tipo assim: um mês – um mês e meio – de ferro velho, eu não queria mais voltar para carteira assinada. Porque é uma sensação de liberdade absurda.

Luciano Pires: Você virou empreendedor.

Alessandro Santana: É. Eu sempre falo isso: o pessoal que está na CLT, eles não percebem. Porque você só recebe duas vezes no mês. Então você não percebe o quanto você deixando de ganhar. Porque o governo pega um teco, o imposto isso, aquilo. Ou você não pode fazer hora extra porque o seu sindicato embaçou. E você não consegue perceber. Só que quando você é empreendedor… empreendedor que eu digo não é: eu montei um negócio. Não. É um cara que tem um fardo de 10 garrafas de água e vai vender. Esse cara já sabe a diferença. Então, eu percebi essa diferença. Eu vi o poder que era você ir almoçar na hora que você estava com fome. E não na hora que era a hora de você almoçar, tá ligado? Isso é muito louco. Daí eu falei: Deus… eu procuro só pedir as coisas para Deus quando o bicho pega. Então, eu procuro economizar, que é para ter um milagre grande.

Luciano Pires: Tem uma continha lá.

Alessandro Santana: Eu procuro economizar tá ligado? E aí foi quando eu dobrei o joelho. Eu falei: Deus, por favor, me ajuda. Eu não quero voltar para o Mc. Entendeu?

Luciano Pires: Você já estava com filho?

Alessandro Santana: Já. Já estava com um e alguma coisa.

Luciano Pires: Você estava casado?

Alessandro Santana: Não. Eu estava só morando com a mãe dele. Eu falei: eu não quero. Eu não quero voltar para o privado.

Luciano Pires: Casado, que eu quero dizer é o seguinte: você estava junto com ela?

Alessandro Santana: Estava junto com ela.

Luciano Pires: Você não estava mais na tua casa? Não morava com pai e mãe?

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: Você já estava…

Alessandro Santana: Com 20 anos eu já estava fora.

Luciano Pires: Então você tinha aquela coisa que muda a vida das pessoas, que é o boleto.

Alessandro Santana: Ah, nossa…

Luciano Pires: Chegava o boleto para você?

Alessandro Santana: Não. Aí eu entendi porque a minha mãe falou assim: vai trabalhar e dane-se. Eu não estou aqui para ter filho vagabundo. Eu entendi isso. Eu entendi o que é o boleto no dia 05 e no dia 20 chegando. E não é um dia feliz. Para quem está na CLT é um dia feliz. É o dia de chegar. É um dia triste para quem está do outro lado. E aí dobrei os joelhos. E aí Deus… passou um carroceiro na frente do meu ferro velho. Ele passou direto, com um carga cheia de plástico. E eu comprava plástico. Por que ele não parou? Aí, tipo, sabe quando te dá aquele estalo?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu vou seguir esse cara. Não tinha ferro velho perto de mim. Eu estava num ponto em que… não, assim, quando eu digo: não tinha ferro velho perto. Não tinha ferro velho perto, ao ponto do cara ir de carroça. Mas sei lá, você está de carro, são 10 minutos. Mas de carroça, está carregando peso. Você vai onde está mais próximo. Eu fiquei com aquilo na cabeça: onde esse maluco está indo? E ele passou direto. Na Rua Cadiriri – não sei se você conhece – ali na Vila Prudente.

Luciano Pires: Não. Eu não conheço.

Alessandro Santana: Hoje fizeram até um shopping, na antiga Ford. E está lá o cara indo, indo. Aí eu peguei e fechei o ferro velho. Eu vou atrás desse maluco. Aí fui atrás, fui atrás. Ele entrou num galpão. Eu fiquei esperando, eu falei: eu acho que ele vai carregar mais no galpão. Ele saiu do galpão vazio.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Ele vendeu os plásticos nesse galpão. Eu falei: caraca, tem um ferro velho aqui. Do nada, um cara foi tirar um carro do galpão, eu vi só plástico. Eu falei: caraca, meu. Na minha rua. Você vê a loucura? Na minha rua. Tipo 300 metros da onde eu estava. E aí, o que aconteceu? Eu comecei… eu descobri que dava para você vender o plástico sem ser misturado. Você separava ele e vendia mais caro. Olha o tamanho da minha arrogância. Eu não sabia nem disso. Eu fui estupido. O certo era eu ter ido trabalhar com o meu pai, aprendido todas as coisas. Mas não.

Luciano Pires: Eu achei que você ia contar para mim essa história.

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: Encostei no véio. Peguei as dicas. Assumi a empresa dele e continuei. Não. Você achou que…

Alessandro Santana: Não. Eu achei que eu era fodão. Então: eu saí do McDonald’s, trabalhei numa multinacional e manjo de comandar pessoas. Eu sou foda. Não. Eu não era. Descobri do pior jeito, que eu não era. E aí eu comecei a vender para esse cara. Só que assim: o cara estava a 300 metros. Então você imagina aqui: está aqui o copo. Está aqui eu. Eu estou aqui. O cara está aqui. Eu não posso ir até ele levar o material. Porque se eu for, um dia um carroceiro vai fazer comigo o que eu fiz com o outro carroceiro.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então, o que eu fazia? Eu dava a volta no quarteirão, de carroça. Porque naquela época não tinha perua. Eu dava a volta. Eu peguei uma carroça emprestada e comecei a vender. Então eu pegava plástico a 10 centavos e vendia a um real. Entendeu? Ele limpo. Eu limpava, tirava durex e tudo. Separava plástico branco, plástico preto. Mano, se eu vendia para ele a um real, você pode crer que ele vendia o granulado a 30.

Luciano Pires: É.

Alessandro Santana: Tá ligado? Então tipo assim…

Luciano Pires: Mas ele tinha um…

Alessandro Santana: Ele tinha tesoura, acho que é o nome.

Luciano Pires: Sim, sim.

Alessandro Santana: Tipo uns macarrão assim, depois vai numa máquina que faz… parece uns feijõezinhos. E aí eu comecei a vender para ele. E aí foi quando eu comecei a estourar. Eu comecei a subir. Aí depois, eu fiquei mais ou menos um mês com a carroça. Até o dia em que eu estava indo com a carroça e a carroça virou. Saiu o cubo da roda, a carroça virou. Quase que ela cai em cima de mim. Eu disse: não. Está na hora de eu comprar uma perua. Eu não sabia dirigir. Tá ligado? Eu não sabia dirigir.

Luciano Pires: Cara, você não foi nem tirar uma habilitação?

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: Você estava na…

Alessandro Santana: Eu estava na raça mesmo.

Luciano Pires: O que vier veio.

Alessandro Santana: O que vier veio. E meus dias eram assim.

Luciano Pires: Quando precisar eu me viro?

Alessandro Santana: Isso aí.

Luciano Pires: Eu me viro na hora que precisar?

Alessandro Santana: Eu me viro na hora que precisar. E assim fui subindo. E aí, tipo, apareceu um cara querendo se desfazer da perua dele. Me vendeu a perua por 700 reais.

Luciano Pires: Uma Kombi?

Alessandro Santana: Uma Kombi. Eu tinha os 700 reais. Mas falei para ele que eu ia pagando ele de 200 em 200 até… 200, 200, 200, depois mais 100. Ele falou: demorou. Porque ele queria se livrar. Ali eu já estava aprendendo a negociar. Numa outra época, eu teria dado os 700. Entendeu? E aí eu comecei a levar de perua. Eu só comprei a perua, porque o menino que trabalhava para mim, o Isaac – tomara que ele esteja assistindo isso – disse que sabia dirigir. Eu falei: mano, eu não sei dirigir. Eu não posso comprar uma perua do cara e pagar alguém para dirigir. Aí ele falou: não. Pode comprar que eu dirijo. Eu falei: Isaac, você não dirige. Ele falou: eu dirijo. Lá na Bahia eu dirigia. Eu falei: então tá bom. Mas como a gente só vai rodar por aqui, habilitação que se dane. Proteção divina.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Proteção só divina. Não. Vai vendo. Aí um dia, um cara falou assim para mim: ô negão, eu precisava que você buscasse uns ferro para mim lá na Vila Prudente. Um lugar na Vila Prudente mais longe. Eu tinha muito medo de ir mais longe. Porque eu tinha medo de pegar um Comando e tal. Eu falei: mas vou. Porque é o viaduto da Vila Prudente. A gente está subindo o viaduto da Vila Prudente, você está vendo a favela da Vila Prudente aqui embaixo. O Isaac olha para a minha cara e diz assim: cara, é muito louco subir um viaduto hein mano? Aí eu falei assim…

Luciano Pires: O teu motorista nunca tinha…

Alessandro Santana: Mas que porra é essa? E eu andava tranquilão com ele.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Mas você imagina. É a mesma coisa que alguém falar assim: vou desmaiar. Aí o cara está… aí você gela. E eu de cima do viaduto. E ele assim: olhando para baixo. Ele: cara, é muito louco subir um viaduto, mano. Nunca tinha subido. Eu falei: cara, não tem viaduto lá na Bahia? Ele falou: lógico que tem. Eu falei: então, como que você dirigia lá e não subia? Não, quando eu te falei que eu dirigia, eu pegava o Opala do meu avô na fazenda e ia na entrada da fazenda, para casa. Eu falei: você nunca andou nem numa rodovia? Ele falou: não. É a primeira vez que eu estou andando numa pista asfaltada. Eu falei: agora vamos embora. Tipo assim: já chegamos aqui. E assim foi. Assim eu fui subindo. Depois que eu saí desse ferro velho, aí eu comecei a trabalhar junto com o meu pai. Aí descobri um outro mundo. Descobri a limpeza de motores, que é tipo, você tirar o cobre e tal. Depois…

Luciano Pires: Você então, desfez teu negócio?

Alessandro Santana: Isso.

Luciano Pires: E foi trabalhar na empresa do seu pai?

Alessandro Santana: Exato. Fui trabalhar com o meu pai.

Luciano Pires: E aí o teu pai te recebeu lá como o cara que vai dar continuidade?

Alessandro Santana: Exatamente.

Luciano Pires: E o teu pai tinha um negócio organizado? Era uma empresa organizada? Com bastante gente trabalhando lá?

Alessandro Santana: Não. Nenhum ferro velho é organizado.

Luciano Pires: Não, não. Deixa eu ver se eu elaboro melhor. Ele tinha o negócio dele funcionando há bastante tempo. Tinha – como você falou – os carroceiros…

Alessandro Santana: Tinha.

Luciano Pires: Tinha vários carroceiros que…

Alessandro Santana: O meu pai tinha uns 20…

Luciano Pires: Que trabalhavam com ele, que estavam com ele lá. E, por exemplo, você sai do teu negocinho, que era você e mais um…

Alessandro Santana: Isso. Exato.

Luciano Pires: Para uma estrutura onde tem cadeia de comando. Onde tem tudo funcionando lá?

Alessandro Santana: Exato.

Luciano Pires: E aí? Como é que isso bateu para você?

Alessandro Santana: Primeiro lugar, eu tive que botar ordem nos carroceiros. Porque assim, o meu pai, ele tinha mania de trabalhar sozinho. Então o meu pai queria ser o cara que fazia a conta, o cara que pegava por cima da balança, o cara que jogava em cima. Era o jeito dele. Ele gostava de ver o dinheiro ali e acontecer ali. E tipo assim, isso te dava margem para deixar os carroceiros muito folgados. Então essa foi a minha primeira missão: foi levar um papo com os carroceiros e dizer o seguinte: agora eu estou trabalhando com o meu pai aqui. Não tem o negócio de pesar a hora que eu quero. Agora vai ter fila. Agora tem horário. Das oito ao meio dia. Depois da uma até as seis. Se chegar aqui quatro e meia, você bota a carroça aí e faz amanhã. Antigamente não. Antigamente o cara ficava enrolando o dia inteiro. E faltando cinco minutos para as cinco, o cara encostava. Com uma carroça, onde ele nem preparou a mercadoria. Ia praticamente escolher antes de pôr na caçamba. E tomava tempo. Então eu meio que acelerei o pique. E outra, eu vim com uma bagagem de começar a mexer com plástico. Porque eu comecei a ganhar muito dinheiro com plástico. E meu pai não. Meu pai é da época do papelão, ferro e garrafa. Pia de banheiro antiga, deixava de canto. Privada deixava de canto. Porque tinha o pessoal do interior, que vinha buscar. Então tipo assim: muitos donos de ferro velho tinham essa cabeça. Isso já começa a entrar muito devagar, a internet. Muito. Não tinha…

Luciano Pires: Que ano você estava? Que ano era isso?

Alessandro Santana: 2005. 2004, 2005.

Luciano Pires: Foi antes de chegar a internet aqui. Você tinha consciência que vocês eram empreendedores. Essa palavra, empreendedor ainda não estava na moda…

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: Mas você…

Alessandro Santana: Eu tinha consciência que eu não era empregado. Tipo assim: eu não sou empregado.

Luciano Pires: Você estava tocando o teu próprio negócio?

Alessandro Santana: Eu estava tocando o meu próprio negócio.

Luciano Pires: Toda essa história do empreendedor. Essa história, que depois, se começou a colocar o empreendedor num outro nível. Porque até então, até lá, você era o chefe da firma. Era o dono da firma.

Alessandro Santana: É…

Luciano Pires: O teu pai era o dono da firma…

Alessandro Santana: E ao mesmo tempo, eu era o empregado, eu era o balanceiro, eu era tudo.

Luciano Pires: Sim. Isso é um nível de empreendedorismo que é rústico, é raiz. É raiz. É o cara que se tiver que… eu vou descarregar essa carroça aí cara. E sou eu que vou fazer.

Alessandro Santana: Um dos dias mais felizes da minha vida foi quando nós jogamos meia Brasília dentro da caçamba. Eu e meu pai. Tá ligado? Eu e meu pai. Meia Brasília. Eu cortei uma Brasília no meio. E nós deixamos ela em pé. Botamos assim, metade da Brasília. Quando eu digo no meio, é no meio. Passei a lixadeira no meio da Brasília inteira.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Aí colocamos ela em pé. Aí eu falei para o meu pai assim: agora vamos esperar chegar pelo menos uns dois carroceiros, aí a gente joga para dentro da caçamba. Ele falou: não. Vamos jogar nós dois. Como é que vai jogar nós dois? Ele falou, é o seguinte: a gente bota um latão aqui. Primeiro a gente encosta ela no latão. Depois ela dá a cambalhota do latão. Do latão, a gente dá a cambalhota para lá. E nós jogamos, os dois. Foi tipo um dia feliz pra caralho, para mim.

Luciano Pires: Que maravilha.

Alessandro Santana: De eu estar jogando. De eu estar fazendo essa força. Tipo: fazer força era legal. Fazer força. Eu vou descarregar um… fazer força era muito bom para mim. E fazer isso com o meu pai era maravilhoso. Só que o meu pai tinha um pensamento mais antigo. Tá ligado?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: O pensamento do dono de ferro velho antigo, ele é muito simples: eu compro papelão a 30, eu vendo a 35. Eu compro ferro a 30, eu vendo a 35. Para mim era muito foda. Eu falava: mano, o carroceiro está ganhando mais que eu. Sou eu que estou pagando aluguel. Sou eu que estou pagando água. Sou eu que estou pagando luz. Sou eu que estou pagando café. E o cara está ganhando mais. Está errado isso. Então, tipo assim: não vou tentar diminuir o dinheiro do cara. Porque tem a margem de lucro. Todo mundo tem sua margem. Eu tenho a minha. O carroceiro tem a dele. Eu vou cortar o intermediário. Primeiro, eu queria entender como é que o carroceiro trazia a mercadoria. Isso para mim era um mistério. Porque eu perguntava para o meu pai, ele não sabia responder. O cara sai na rua e traz. Eu falei: sai na rua? Não existe sai na rua e as mercadorias aparecem. Tem que ter um propósito. Tem que ter uma regra ali, que a gente não sabe. Fiz o mesmo esquema com os carroceiros do meu pai. Comecei a seguir os bons. Porque tem os carroceiros merda também, que a mercadoria pula na carroça dele. E tem os caras que correm atrás. São os caras que tipo, num mês fazem cinco contos. Eu conheci carroceiro que faz cinco contos.

Luciano Pires: Você está falando um negócio interessante, porque é toda uma cadeia. A gente chama de capilaridade. Ela vai descendo, ela vai descendo. Eu estou fazendo uma reforminha aqui. Ontem à noite parou uma carroça e tinha um garoto lá na frente. Aí eu cheguei, abri o portão: pois não? Ele falou: tem papelão ou ferro? E ele estava recolhendo, cara. Ele é um cara que vai. Bato ali, recolho um pouquinho, recolho um pouquinho. Quando você multiplica isso por dois mil três mil, cinco mil caras fazendo, você tem um sistema implantado na sociedade.

Alessandro Santana: Exatamente.

Luciano Pires: Tem até um papel social. Que não é o papel social dele ganhar só o dele. Ele está recolhendo. Ele está pegando esse material de lugares que esse material não ia ser reciclado.

Alessandro Santana: Têm lugares que a reciclagem só acontece por causa do carroceiro. São Paulo já foi assim. São Paulo hoje dá para dizer que está dividido. Porque a prefeitura hoje tem um programa de reciclagem e tal. Mas teve uma época que era só os carroceiros. Tipo assim: só existia reciclagem porque tinha gente ganhando dinheiro. Senão, o planeta que se dane. Outra coisa que eu sempre deixava claro… muita gente falava para mim: negão, o trabalho que você faz, você está salvando o mundo. Eu falei: não. Eu estou pagando as contas de casa. Se o mundo está sendo salvo nesse meio tempo, só alegria. Mas o objetivo aqui é pagar conta e botar comida na boca dos meus filhos.

Luciano Pires: Então, essa característica tua, essa tua praticidade. Vamos agora falar… fazer as nossas… o programa aqui é assim. Está andando. De repente a gente vira, vai para lá…

Alessandro Santana: Mas assim que é bom.

Luciano Pires: Volta para cá. Então agora, eu vou começar a fazer umas provocações com você, porque tem umas coisas muito legais. Eu tenho uma história contigo tá? Eu acompanho você desde a época da Kombi. Depois nós vamos contar essa história. Quando você começou, trabalhava na Kombi. Que legal. Que simplicidade a dele, cara. Que coisa simples. O cara bota o negócio lá e sai. Está trabalhando. E enquanto está dirigindo, está dando uma ideia e uma visão muito prática, muito prática, das coisas. Então é aquela história. Agora vem essa provocação.

Da onde vem essa tua… essa tua sacada quando você fala: eu tenho uma visão tão prática, que eu acho que eu tenho que dizer? Eu tenho algo a dizer?

Alessandro Santana: Da onde é que eu falo isso? Do Mc. Eu cansei de ouvir o seguinte: eu só quero ok e obrigado, Alessandro. Sabe o que significa isso? É basicamente: cala a boca e resolve. Só que de um jeito mais educado.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Alessandro, é só ok e obrigado. Eu tenho um problema e eu quero resolvido. Aí me botava na produção. Produção – para você ter uma ideia – é o seguinte: imagina você ganhar metade de um salário mínimo. E, de repente, o cara que fala assim para você: Alessandro, limpa esse chão. Do nada, ele olha para você diz assim: você vai ficar nessa parte da cozinha. Você é responsável pelo cara da tostadeira, o cara que está fritando. O cara que frita a tortinha. Você é responsável pelo cara que frita a batata. Você é responsável pelo backroom – que é a parte de trás – que é o cara que traz os condimentos para as coisas. Você é responsável por tudo isso. Aí você olha para a cara do cara e fala: irmão, eu não sou gerente.

Luciano Pires: Ele fala: se vira.

Alessandro Santana: Se vira. É só ok e obrigado. Só ok e obrigado é exatamente isso.

Luciano Pires: Como é?

Alessandro Santana: É só ok e obrigado.

Luciano Pires: É só ok e obrigado.

Alessandro Santana: Eu ouvi um ok e obrigado, Alessandro? Quem estiver no McDonald’s agora sentiu até arrepio. Quem já trabalhou no McDonald’s. Ok e obrigado é uma espécie de: cala a boca e resolve.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: E você tem que resolver.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Porque do nada, uma loja inteira depende de você. Do nada, o cliente – que nem sabe o que está acontecendo – você acha que ele está olhando para você, porque ele quer o lanche dele. Você entendeu? E aí você tem um cara que está na tostadeira, que está puto – sabe Deus por que motivo – você tem outro que está na chapa, que virou a noite, que está com os olhos vermelhos. Você tem uma menina que brigou com o namorado e está triste. Você não pode nem gritar com ela. Porque com o moleque da tostadeira e da chapa você grita. São seus amigos. Eles vão entender o seu grito. Mas a menina não. Ela é mais… entendeu? Então você é obrigado a resolver, você é obrigado a fazer a conta de quantos lanches vão entrar, quantos lanches vão sair. Isso não te dá tempo de usar a teoria como se você fosse o pica da teoria.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Você tem…

Luciano Pires: Vou refletir, vou ficar aqui…

Alessandro Santana: Vou refletir…

Luciano Pires: Refletindo a respeito…

Alessandro Santana: Enquanto você está refletindo, o gerente está no balcão falando assim: Alessandro… batendo na estufa. Batendo na estufa e dizendo assim: cadê o lanche? Porque na época que eu trabalhava no McDonald’s o cliente tinha que entrar e sair em um minuto e meio. Ele não ficava 10, 15 minutos, como é hoje em dia. A prioridade era o cliente. E era prioridade de verdade. O cliente tinha que sair feliz. Certo?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Ai do cliente que voltasse reclamando. Ai do funcionário que acontecesse isso. E o cara gritando com você pedindo lanche. E a menina chorando, porque brigou com o namorado. E o outro está puto porque não sei o quê. E você tinha que fazer todo mundo trabalhar. Você acha que você tinha tempo para ficar assim: deixa eu ver no manual se tem a página que diz o que eu faço quando a menina estiver de TPM?

Luciano Pires: Então? Isso explica a tua visão. Essa visão prática.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: O que eu quero saber é o seguinte, quando é que estala um negocinho na tua cabeça que diz assim: cara, eu acho que eu tenho algo a dizer? Além de fazer. Eu já entendi a jogada, cara. É: sai da frente, que eu vou resolver isso.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: Quando é que estala o negócio que você fala: além de fazer, eu acho que eu tenho algo a dizer? Eu tenho algo a contar para as pessoas. Que é quando, um belo dia, pinta uma ideia de: vou botar uma câmera…

Alessandro Santana: Vou botar a minha opinião sobre isso.

Luciano Pires: Exatamente. E aí eu vou arrumar um jeito de falar a respeito. Me conta como é que nasce isso. De onde vem isso?

Alessandro Santana: O meu canal começa, porque eu queria mostrar o meu rolê de skate. Certo? Tanto, que quando eu comecei o meu canal, os meus primeiros vídeos foram feitos com uma câmera VHS. Que eu editei com dois vídeo cassetes. Tá ligado? E subi com uma placa captura. Eu comprei aqui do (FEBRAN 00:50:44) essa placa. Só que assim, eu mostrava o moleque dando rolê de skate. Eu mostrava um outro amigo meu dando rolê de skate. Eu não tinha ideia, tipo assim, eu não criava um roteiro. Eu via um moleque dando uma manobra, eu filmava, colocava e dane-se. Depois eu aprendi a fazer shape.

Luciano Pires: Esse já era o Canal do Negão?

Alessandro Santana: Já.

Luciano Pires: Começou como Canal do Negão?

Alessandro Santana: Não. Começou como Negro Lindo 69.

Luciano Pires: Negro Lindo 69?

Alessandro Santana: É. Um brother meu que falou: porra de nome escroto, eu não posso compartilhar você, porque o nome do seu canal é Negro Lindo 69. É tipo assim, o Youtube fala para você: eu preciso de um nome.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Aí você: ah, mano Negro Lindo 69. Eu sou negro, sou lindo e gosto de 69. Precisa de um número. Já tinha Negro Lindo. Precisou de um número. 69. E nasce assim. Tanto que até hoje, eu não consegui tirar o Negro Lindo 69. Às vezes, eu vou compartilhar e ainda está lá.

Luciano Pires: Está lá?

Alessandro Santana: Mesmo depois de eu ter mudado para Canal do Negão, de vez em quando dá um bug.

Luciano Pires: Que ano foi?

Alessandro Santana: 2007.

Luciano Pires: Foi no comecinho…

Alessandro Santana: Vídeo de um minuto. Vídeo com 144 P e no máximo cinco minutos. Era nessa época. Aí aprendi a fazer shape. Comecei a ensinar o pessoal.

Luciano Pires: Shape é?

Alessandro Santana: A madeira do skate. Eu aprendi a fazer. Como não quiseram me ensinar, eu falei: agora eu vou mostrar para todo mundo. Ensinei tudo.

Luciano Pires: Para aí: o skate o que era para você?

Alessandro Santana: Era o meu lazer.

Luciano Pires: Era a tua curtição? Era o teu lazer?

Alessandro Santana: Era para curtição.

Luciano Pires: Você andava de skate?

Alessandro Santana: É. E gravar vídeo era muito louco. Entendeu? E quase ninguém tinha câmera. Aí continuo nessa toada.

Luciano Pires: Mas como é que você sai dessa? De andar de skate, para construir um shape?

Alessandro Santana: Para construir?

Luciano Pires: É.

Alessandro Santana: Porque ficou caro. Eu comecei a andar de semi long. E as marcas nacionais eu não me adaptei. E ganhei um shape gringo uma vez. Naquela época custava 300 reais. Seria hoje gastar mil. Cara, como é que essa porra pode custar tão caro? Sete folhas. Sete folhas coladas. Se fosse o truck, que é alumínio, fundição, se é uma rodinha, que você precisa de uma máquina, aí tudo bem. Porra, sete folhas? Eu vou atrás de fazer e vou aprender. Aí um brother falou assim para mim: você não vai conseguir fazer. Porque precisa disso e daquilo. Porque ele tinha a visão. Ele tinha um primo que tinha uma fábrica. E ele tinha uma visão grandiosa. É a mesma coisa que eu chegar aqui. Você tem um puta estúdio aqui. Tá ligado? E eu falar assim: cara, aí mano, você não vai conseguir montar um PodCast, porque eu fui lá no Luciano Pires. Ele tem um microfone foda, uma câmera foda, um ar condicionado, um estúdio, o caralho a quatro. Só que eu quando vi tudo isso daqui. Eu falei: eu também vou fazer essa porra.

Luciano Pires: Eu vou começar com a camerazinha VHS e…

Alessandro Santana: Eu vou começar com a camerazinha e vamo que vamo. Tá ligado? Depois eu vejo. Eu falo sempre para os meus inscritos mais novos, do canal, eu falo o seguinte: irmão, você é homem. O maior poder que você tem de ser homem é de construir. E também de destruir. Se você não gostou, você destrói e faz de novo. E vida que segue.

Luciano Pires: Eu tenho uma coisa que eu bato sempre na tecla. Eu sempre falo para a turma, que é o seguinte: faça simples, publica. Deixa o povo começar a usar. E aí você sofistica.

Alessandro Santana: Exato.

Luciano Pires: Cara, isso aqui não foi assim. Não era assim, cara. Eu, antes de estar aqui, eu estava gravando no estúdio de um outro cara. Era lá que eu comecei. Era com uma camerazinha. E as coisas, conforme elas vão andando, você fala: porra, eu acho que agora eu preciso dar um passo a mais. Isso que você está vendo aqui é porque eu sou fresco. Entendeu? Porque eu falo: cara, eu quero um negócio do caralho. Porque eu não quero ter que me preocupar se a qualidade do material que eu estou fazendo vai dar BO. Cara, eu não quero avião passando lá fora. Eu não quero ter ele entrando. Então para isso, eu tenho que ter um estúdio legal. E eu consegui com o trabalho que eu estava fazendo, produzir e não ter dor de cabeça com o estúdio. Você está vendo? Eu estou com você aqui, eu aperto um botão aqui e muda a câmera lá, aperta outro botão. Então, tudo isso aqui vai surgindo da necessidade. Mas porque eu não quero ter preocupação com isso. Mas dava para, perfeitamente… aliás, dava para perfeitamente… tem uma porrada de cara…

Alessandro Santana: Eu queria que você visse o meu.

Luciano Pires: Tem uma porrada de cara…

Alessandro Santana: Eu queria que você visse o meu estúdio.

Luciano Pires: Eu vou te contar uma história com relação ao teu. Tem uma porrada de cara fazendo a gravação com um celular. E com 100 mil seguidores a mais do que eu, cara.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: Entendeu? Então não é preciso isso tudo aqui. Isso é porque para mim, eu funciono assim. Eu preciso ter esse conforto aqui.

Alessandro Santana: Mas tem cara que acha que o outro não vai conseguir. Porque ele viu isso daqui primeiro. Quando o cara vê a fábrica do primo dele primeiro, é estranho para ele um cara que ele só conhece da pista. Eu falei: irmão, eu soldo. Eu vou construir a prensa. Eu vou construir o molde. E eu vou atrás do resto. E na época, o pessoal não queria me ensinar. Eu e o Alemão. Não queria ensinar a gente. Por quê? O brasileiro tem uma cabeça retardada, de achar que se você ensinar o outro, você criou uma concorrência para você.

Luciano Pires: Sim. Sim.

Alessandro Santana: Você cria uma concorrência para você, quando o seu produto é uma merda.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Entendeu? Então, o que eu fiz? Eu e o Alemão, a gente correu atrás. E conseguimos. E todo mundo contra e tal. A gente conseguiu fabricar o shape. Aí o Alemão falou para mim assim: e agora? Quando alguém perguntar, a gente responde, lógico. Eu falei: não. Eu vou gravar um vídeo. Eu vou botar em vídeo. O mundo vai saber como é que se faz isso. Que foi quando o meu canal começou a crescer. Nisso nasce o Jamal, o meu filho mais novo. O Jamal com um aninho, eu já botava ele em cima do skate e tal. Então a internet viu o Jamal crescer. Eu tenho seguidores de 10 anos que estão comigo.

Luciano Pires: Quer dizer, o teu foco no canal – inicial – era um foco voltado para o mundo do skate…

Alessandro Santana: Para o mundo do skate.

Luciano Pires: Ensinando o pessoal a fazer shape.

Alessandro Santana: Isso.

Luciano Pires: E tratando aqui…

Alessandro Santana: E mostrando as manobras dos meus amigos.

Luciano Pires: Você não estava falando de política, de porra nenhuma lá?

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: O teu negócio era o foco ali?

Alessandro Santana: Nasce… eu não dava opinião. Quando eu aparecia era para dizer assim: oi. E aí pessoal? Beleza? Hoje eu estou aqui com o Luciano Pires e ele vai mandar uma manobra show aqui. Porque eu não andava tão bem. O skate é uma coisa que eu amo. Mas que eu não sou bom. Graças a Deus. Porque qualquer coisinha que eu faço, me deixa superfeliz. Se eu fosse bom, eu teria que estar sempre me matando para ficar feliz. Porque eu vejo que é assim os caras profi. Então tipo assim: eu acerto uma manobra, eu ganhei o dia. Entendeu? E eu gostava de mostrar o pessoal que andava bem. Porque eu era amigo desses caras. E mostrava e tal. E eles depois compartilhavam. Muitos entravam em marca, por causa dos vídeos que eu fazia. E aí nasce o Jamal. A internet começa a ver o Jamal. Só que assim, eu dou para os meus filhos a mesma criação que eu tive dos meus pais. Filho meu não me chama de você. Filho meu me vê, acorda, é: bença pai. Você entendeu? Um filho meu nunca vai chamar de você de você, Luciano. Você é mais velho que ele.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Ele vai te chamar de senhor.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Às vezes, ele não vai nem te chamar de Luciano. Ele vai te chamar de tio.

Luciano Pires: Dá uma pausa aqui.

Alessandro Santana: Oi?

Luciano Pires: Vamos dar uma pausa aqui, que eu quero fazer uma… você está levantando um ponto para mim, cara, que é absolutamente fundamental. Para mim, uma coisa que me dói cara, que me dói, que eu fico puto. Quando eu estou vendo as coletivas da imprensa e está lá o ministro e está lá o presidente e está lá o caralho. E a jornalistinha de merda, de 22 anos de idade, pega o microfone: ministro, você vai fazer tal coisa?

Alessandro Santana: Nossa, mano…

Luciano Pires: Presidente, você vai… quer dizer, isso…

Alessandro Santana: Quando chama de presidente. Porque o Bolsonaro nunca é chamado de presidente.

Luciano Pires: Não.

Alessandro Santana: O Bolsonaro é o Bolsonaro.

Luciano Pires: Você isso… e eu… aquilo me choca, cara. Porque a minha educação foi igual a sua, cara…

Alessandro Santana: Em mim dói.

Luciano Pires: E o meu pai está vivo. Eu tenho um pai com 96 anos de idade. E cara, eu estou com 64. E eu resisto a não chamá-lo de senhor. A não chamar minha mãe de senhora. Eu não consigo falar para a minha mãe: você. Cara, e eu estou com 64. A minha mãe tem 89.

Alessandro Santana: Eu não consigo acordar, ver minha mãe e não falar um: bença mãe. Eu não consigo.

Luciano Pires: Então? E as pessoas olham hoje em dia para isso e tratam como se eu fosse um oprimido. Eu fui oprimido.

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: O meu pai me oprimiu. Eu falo assim: cara, espera um pouquinho. Por outro lado, eu não me sinto bem com um filho meu me chamando de senhor.

Alessandro Santana: Sério?

Luciano Pires: Sério. Porque eu não os eduquei assim. E não porque eu sou contra. Absolutamente nada. É por que…

Alessandro Santana: Quando você viu já estava acontecendo.

Luciano Pires: Então? Mas a minha relação com eles, cara, eu digo para os meus dois filhos – o meu filho e a minha filha – eu digo: eu te amo. E eles me dizem: eu te amo. Com uma naturalidade que eu não tenho com o meu pai e com a minha mãe. Nunca tive com o meu pai e com a minha mãe. Eu não digo para o meu pai: pai eu te amo. E meu pai não diz: filho, eu te amo. Isso não acontece. E eu faço isso com os meus dois filhos com uma naturalidade.

Alessandro Santana: Mas eu acho que aí são épocas diferentes.

Luciano Pires: Mas é isso que eu quero dizer.

Alessandro Santana: Eu também não falo eu te amo para o meu pai.

Luciano Pires: Então? Mas você fala para o teu filho?

Alessandro Santana: Falo.

Luciano Pires: Então? Mas eu acho que essa mudança acontece…

Alessandro Santana: Eu ainda falo: eu te amo moleque do caralho. Eu te amo moleque do caralho.

Luciano Pires: Tem uma pequena mudança aí. Mas tem uma coisa que não se perde. Por exemplo, os meus dois filhos me respeitam. Não precisa me chamar de senhor para dizer que eles estão me respeitando. Entendeu? E isso meio que se perdeu. Não vou dizer que se perdeu. Muita gente faz isso, chama de senhor, de senhora. Mas alguma coisa tem acontecido na sociedade, em que há uma batalha para que isso seja meio que desmontado.

Alessandro Santana: Isso aí chama-se televisão. Todas as novelas da Globo, você já reparou que todo mundo que trata o pai ou a mãe assim, ele é sempre o chato. Ele é o conservador chato. Ele é um retrógrado. Ele é isso ou aquilo. Entendeu? As relações de pai e mãe são sempre horríveis. As relações de casado são sempre horríveis. Por algum motivo, o cara ou a mulher vão trair. Entendeu? E o bom é o cara que está indo nessa contramão. Esse que é o cara legal. Ele é o fumante de hoje. Ele é o cara que está indo nessa contramão.

Luciano Pires: É nesse ponto que eu quero chegar. Você vem conversar comigo aqui e você está deixando para mim muito claro esses princípios. Estão claros. Foi assim com meu pai. Eu sou assim com meus filhos. O meu filho acorda de manhã. Se bobear, o moleque vai tomar um peteleco. Porque não é assim que tem que ser. E os moleques me respeitam, porque eu acredito nesses princípios. Isso tudo constrói o Negão. O Negão é feito disso. Por isso que você consegue abrir uma câmera e dar uma opinião sobre um tema que não tem nada a ver com a tua vida. Mas ele está calcado em princípios que tem a ver com família. Eu nem te perguntei se você tem religião ou não. Mas tem a ver com a tua família. E essa coisa foi meio que desmontada. Aquele exemplo que eu te dei lá, da jornalista pegar e falar: ministro, você… aquilo para mim é uma demonstração do tempo que nós estamos vivendo.

Alessandro Santana: Para você ter uma ideia. Eu entrevistei o Abraham Weintraub duas vezes já. E ele briga comigo porque eu chamo ele de senhor. Mas eu não consigo. E no caso dele, não é porque ele é mais velho. É porque ele passa…

Luciano Pires: Uma autoridade.

Alessandro Santana: Uma autoridade. Ele passa uma… não é nem autoridade. É uma coisa de experiência. Eu olho para o Abraham Weintraub e vejo um cara bem mais inteligente que eu. Isso é automático meu. Eu vejo alguém mais inteligente do que eu. Eu quero muito que essa pessoa abra a boca e comece a falar. Entendeu?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu não quero eu ficar trocando ideia com ela por quê? Porque eu quero absorver o que ela tem.

Luciano Pires: E o chamar de senhor não é uma posição de… você não está se colocando de uma forma inferior a ele?

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: Você está demonstrando respeito a ele?

Alessandro Santana: Eu estou mostrando respeito a ele. Ele fica puto comigo. Porque ele: você tem que me chamar de você. Porque nós estamos trocando ideia. Porque ele troca ideia. Ele foi ministro. Ele é um cara foda. Mas ele é como a gente está trocando ideia agora. Tá ligado? É muito louco isso. Você conversar com um cara que nem o Abraham Weintraub, porque você… ele é muito inteligente. Mas quando você troca ideia com ele, parece que você está trocando ideia com qualquer pessoa que você trombou na rua. Mas é difícil ao mesmo tempo, porque ele… o nível de inteligência, de conhecimento dele transpassa aquilo. E o respeito que eu tenho por ele me obriga a estar trocando ideia com ele: não, o senhor não sei o quê. É igual o Zé Maria Trindade.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu entrevistei… porra… puta jornalista do caralho. Então, quando eu entrevistei ele, eu não conseguia chamar ele de você. Eu chamava ele de senhor. Mas por quê? É como se… é igual a Leda Nagle. Entendeu? Eu entrevistei a Leda Nagle. Eu dei entrevista para ela. Eu entrevistei a Leda Nagle e ela tem uma aura em volta dela, escrito assim: sou jornalista pra caralho. E não é porque ela é arrogante, nem nada. É porque está ali.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: É a Leda Nagle. É o Zé Maria Trindade.

Luciano Pires: Deixa eu reforçar essa história toda. Você não está, em momento algum, se colocando numa posição de inferioridade?

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: Cara, porque é um pitaco para falarem isso de você.

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: O cara é negro…

Alessandro Santana: Logo chama o cara de senhor…

Luciano Pires: O cara é da perifa, já ficou de joelho.

Alessandro Santana: Não. Os meus inscritos me pedem: bença pai. Bença pai. No canal Eu Sou Seu Pai.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: O nome do meu canal é Eu Sou Seu Pai. Todos os meus inscritos pedem bença. Eu começo o Pergunte ao Pai com: bença pai. Bença pai. O inscrito me tromba na rua. Quer pegar na minha mão, Luciano. Ele quer pegar na minha mão com força. Ele quer mostrar para mim o que ele aprendeu comigo. Que se aperta a mão de outro homem com força.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Não é para você estraçalhar a mão do outro. Eu sempre digo isso: você aperta com firmeza, para mostrar ao homem que está do outro lado, que aí tem um homem. Você entendeu?

Luciano Pires: Mas eu acho que é mais que isso. Se eu der a mão para você e apertar a mão com firmeza, eu estou dando um sinal para você, muito mais do que o meu poder, é da minha intenção de interagir com você com essa intensidade. Entendeu?

Alessandro Santana: Exato.

Luciano Pires: É isso que eu quero cara. Se eu te der um abraço, cara, eu quero te apertar no abraço. Sabe? E não é para mostrar que eu sou fodão. É para mostrar: cara, essa é a intensidade com que eu quero interagir com você. Quando você dá a mão para um cara e ele dá aquela mão morta. Meu…

Alessandro Santana: Nossa, mano…

Luciano Pires: Aquilo é uma ofensa. Eu não vou pensar que o cara é um merda. Eu falo: esse cara está achando que eu sou um merda. Ao ponto de não dar energia para mim.

Alessandro Santana: Eu falo isso também. E os meus inscritos querem me passar isso. Os meus inscritos mais jovens… por isso que eu falo que no canal Eu Sou Seu Pai é proibido falar de política. Porque lá a gente vai falar de vida. Certo? A gente vai falar… tanto que eu tenho o quadro Pergunte ao Pai, que vem de tudo. Vem de: como Negão, que é ser pai de menina a Negão, você já foi numa balada gay? Então tipo, vem de tudo. Eu respondo de tudo e vamos embora. Entendeu?

Luciano Pires: Vamos voltar ali. Demos a nossa voltinha. Vamos voltar ali. Aquele momento em que dá o estalo e você fala: eu tenho algo a dizer?

Alessandro Santana: Eu tenho algo a dizer.

Luciano Pires: Você já me contou que você queria contar para as pessoas como construía shape e montou teu canal…

Alessandro Santana: Isso. Só ensinei.

Luciano Pires: Exatamente.

Alessandro Santana: Não foi tipo, a minha opinião sobre shapes.

Luciano Pires: Quando é que essa coisa aparece? Que você fala…

Alessandro Santana: Quando…

Luciano Pires: Cara, eu tenho uma opinião para ser dada.

Alessandro Santana: Foi quando o Jamal tinha, mais ou menos, uns quatro, cinco anos. Eu acho que até menos. Porque eu filmei ele… quando o Jamal começa a falar. O Jamal começa a falar e eu falo: quando você for falar com o seu pai é senhor. Sim senhor. Não senhor. Se eu te fizer uma pergunta, não é: não. É: não senhor. Certo? E isso passa nos vídeos. Então eu falo assim para ele: Jamal, desce essa rampa aqui, entendeu? Mas toma cuidado para você não bater lá do outro lado e tal. Sim senhor. Jamal, não sei o quê, não sei o que lá. Sim senhor. Não senhor. Pai, o senhor acha que dá para fazer isso, isso e isso? Entendeu? A gente trocando ideia. Isso mostra na câmera. E aí os comentários começam a vir assim: nossa… o filho do Negão é supereducado. Nossa… que lindo. O filho do Negão chama ele de senhor. Nossa… que não sei o quê. Ele é tão educadinho. O Negão fala para ele ficar ali, ele fica. Não sei o quê. Aí eu fiz um vídeo, que eu falei assim, eu falei: mano, esse povo acha que o Jamal nasceu assim. O Jamal é um ser iluminado que me veio entregue por um anjo. Aí eu fiz um vídeo falando assim: gente, vocês tem que entender uma coisa. Tipo, foi o primeiro vídeo em que eu dei a minha opinião. Eu falei assim: gente, vocês têm que entender uma coisa, o Jamal é uma criança normal, como qualquer outra criança. Se depender dele, ele come e não escova os dentes. Ele levanta e não fala com ninguém. Ele levanta e não arruma a cama dele. E é normal. Ele é uma criança. Eu sou o pai dele. Eu sou o mestre desse moleque. Eu sou o professor dele. Eu tenho que ensinar para ele como se comportar no planeta Terra. Eu tenho que ensinar para ele que quando ele vai comprar um biscoito, ele tem que dar a bolacha que vai passar. Ele tem que dar o dinheiro. Ele tem que sair e dizer: obrigado.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: E não interessa se é ele que está pagando. Isso é como se comportar no planeta. E aí tipo assim: caraca Negão, que da hora que você educa seu filho assim. Qual que é a sua opinião sobre não sei o quê? E assim começa o Alessandro a dar a opinião dele. E também porque tipo assim, eu comecei a dar muito vídeo de opinião, porque o pessoal começou a pedir muito mais do que os vídeos de skate. Começou a fazer tipo um paralelo do meu canal. E eu, tipo assim, eu não sou um cara, Luciano, eu não sou um cara que leu vários livros. Pode contar nos dedos da mão – de uma mão só – quantos livros eu li. A maioria, porque a minha professora obrigou, a Cláudia. Tá ligado? A Cláudia obrigou. Mas eu conto para os moleques a minha experiência de vida. E eu deixo isso muito claro.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu falo: gente, o seguinte, você quer uma opinião mais completa, mais teórica, sobre esse assunto, tem um milhão de canais aqui que vão te ensinar sobre isso. O Negão só dá a opinião das coisas que ele viveu. Das coisas que ele viu. Não quer dizer que isso é uma verdade absoluta.

Luciano Pires: Com você é assim. Essa é tua realidade.

Alessandro Santana: Foi o que eu vi. Foi a minha realidade. Exemplos reais. Eu dou exemplos reais. Isso significa que você não precisa estudar? É só você viver? Não, seu idiota. Eu ainda falo assim com os meus inscritos: não. Você tem que estudar e muito. Estudar e ler é o corta caminho.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: O Negão precisou de muitos anos para ter a experiência que ele tem. Se você ler, você vai encurtar isso em 10 anos.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Aí você só vai pegar a experiência e vai incorporar àquilo que você leu. E assim eu vou dando a minha opinião. Assim eu começo a dar a minha opinião em cima de tudo.

Luciano Pires: É meio que… essa foi a coisa que me moveu a criar um programa como esse aqui. Eu falei: cara… eu não vou contar para você a história do Negão, para você achar que se você seguir o que o Negão fez, vai acontecer com você o que aconteceu com ele. Não.

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: Eu quero que você entenda como é que as pessoas reagem diante da vida.

Alessandro Santana: Claro.

Luciano Pires: Dizer: eu tive um puta de um problema. Eu resolvi o problema assim. E quebrei a cara. E aí é o insight que a pessoa tem. Fala: opa. Se eu for fazer a mesma coisa, pode ser que eu quebre a cara igual. Aí outro teve uma saída. Opa, essa aconteceu comigo. Talvez… nada disso quer dizer que se repetir o que você fez… tem uma porrada de canal assim.

Alessandro Santana: Ah, não. Vários.

Luciano Pires: Esse aqui é o Negão. O Negão nasceu na perifa. O Negão é pobre pra caralho. Se fodeu. A polícia prendeu. Ele apanhou da polícia.

Alessandro Santana: Ele é um exemplo…

Luciano Pires: E um dia ele deu certo. Ficou milionário. E ele é foda. Então, se ele fez, você vai fazer também.

Alessandro Santana: Não. Você é louco, mano?

Luciano Pires: Puta que pariu cara. Não é assim que funciona. Eu posso mostrar o exemplo dele para me inspirar. É como você falou logo no começo: cara, eu sou homem e eu construo. Eu faço coisas.

Alessandro Santana: E se der errado eu destruo.

Luciano Pires: Exatamente. Mas tem alguém que fez. Porra, esse negócio me inspira. E eu vou encontrar o meu caminho para fazer. Que não é necessariamente igual ao dele. E tem gente que monta canal para dizer: eu estou te dando a fórmula.

Alessandro Santana: Eu gosto de dar o exemplo do Alemão. Você sabe o Alemão que eu falei que começou a fazer shape comigo?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: O Alemão já era um cara mais metódico. Então tipo assim, quando ele foi construir a prensa dele, ele levou trena. Eu levei palmo. Então o Alemão: não Negão, eu vou construir a minha prensa assim e na hora o molde… eu falei: cara… ele descobriu… eu não lembro se foi ele ou se fui eu. Descobrimos um site gringo que ensinava tudo. Não tinha vídeo. A prensa, o molde. Como fabricar. Como passar os bagulhos. Era um site. Mano, estava ali. Presente de Deus ali, para a gente. Então o Alemão pegou aquilo e ele falou: meu, eu vou fazer medidinho aqui. Eu vou fazer ela parafusadinha aqui. Eu comprei a porca não sei das quantas. Eu vou fazer não sei o quê. E eu falei assim: sabe o que eu vou fazer Alemão? Eu vou pegar quatro pedaços de ferro e vou soldar. Tá ligado? Eu peguei um trilho de trem, botei em cima. Peguei uma outra viga, mais grossa, e botei embaixo. Duas vigas grossas no meio. E falei: está pronta a minha prensa. Soldei. Um abraço. E tipo assim, o Alemão acertou no terceiro shape. Eu demorei uns oito. Eu fiz uns oito. Eu perdi oito. Mas tipo assim, nós dois acertamos. Ele só demorou um pouco mais. Mas é que nem eu falo: ah, então o Alemão é bem melhor que o Negão? Não. O Alemão é o cara que só pensou um pouco mais. Eu sou um cara mais explosivo. O Alemão, quando os dois primeiros shapes dele errado, ele ficou puto. Ele falou: caralho, onde eu errei. Ele se preocupou. Eu falei: Alemão para de frescura e anda com essa porra, que ficou da hora. Ele falou: não ficou. Porque eu quero que fique igual ao da fábrica. E não sei o quê. E eu tenho que cortar alinhadinho e tal. O meu parecia um S. Eu falei: Alemão, mano, o que importa é que nós estamos fazendo um shape. É o nosso. Alemão, você entende o que é isso? Você entende onde a gente chegou? A gente chegou aonde esses pangarés que a gente está andando por aqui, não chegaram. E não vão chegar nunca. Porque a gente meteu a cara. Tudo bem, você mete a cara com mais cuidado. Eu não. Eu meto a cara e depois eu vejo. Se eu tropeçar, eu levanto e vou de novo.

Luciano Pires: Você ficou, de alguma forma, espantado, com o retorno que essa tua mudança, de começar a dar opinião… eu entendo que você reagiu a um público que pediu opinião. Mas aí você sentiu que: meu, espera um pouquinho. Tem um caminho aqui que é muito mais abrangente. Ele é muito mais envolvente. Ele demanda muito mais ou me dá mais satisfação até, do que falar sobre skate. Que é dar opinião sobre determinadas coisas. Porque dá para ver nitidamente como o teu canal vem mudando e como, de repente, ele dá um salto e vira uma outra coisa.

Alessandro Santana: Vira.

Luciano Pires: Você se preocupa, monta o teu cenário ali. Bota a Neguinha do teu lado lá e começa. Cara, virei um canal de comunicação.

Alessandro Santana: Virei um comunicador.

Luciano Pires: Virei um comunicador. Mas como essa coisa aparece para você? Você falou: cara, espera um pouquinho. Esses caras estão dando um valor para um negócio, que para mim é tão natural.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: E muita gente quer ouvir. Como é que isso bateu?

Alessandro Santana: O pior é que era assim mesmo.

Luciano Pires: Deixa eu só completar aqui. Eu estou interessado em entender qual é o momento em que vira a chave e você fala: cara, o meu negócio passa a ser esse. O meu negócio não é mais…

Alessandro Santana: Sucata.

Luciano Pires: Sucata. O meu negócio é ganhar a minha vida com esse tipo de coisa, completamente nova. Eu acho que se você pensar seis anos atrás, 10 anos atrás…

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: Você jamais imaginaria.

Alessandro Santana: Eu falo isso direto. Você imagina você chegar há cinco anos atrás e falar: eu vou viver disso. Eu acho que acontece o seguinte: eu relutei a monetizar com o Youtube. Porque é o seguinte: a partir do momento que você monetiza, você tem que cumprir uma série de regras. Que eu achava uma merda. Então a Cleide começa a vir trabalhar comigo. Mas ela entra, porque a gente montou um site de venda de peça de skate. Porque ela trabalhava no privado. Ela ganhava bem. Ela era gerente num call center. Mas é aquilo, tipo, é hospício. E ela sai de férias e tal e vem trabalhar comigo. Aí ela pega e pede demissão. E sai.

Luciano Pires: Ela é a mãe dos seus filhos?

Alessandro Santana: É a mãe do Jamal e da Lana. Aí ela vem trabalhar comigo.

Luciano Pires: Pausa. Da onde vem Jamal?

Alessandro Santana: Jamal? Jamal é porque é legal. Não. Brincadeira.

Luciano Pires: É o jogador de basquete? De onde vem?

Alessandro Santana: Não, não. Eu vi – se não me engano – no Eu, a Patroa e as Crianças. Tinha um amigo do Júnior que se chamava Jamal. E eu achava Jamal bonito. E do nada, começou a aparecer e pipocar em vários filmes. Lu já tinha e eu não tinha prestado atenção. Mas o que eu prestei atenção foi ele. Eu achei Jamal muito louco. E aí acontece o seguinte: ela veio trabalhar comigo. E ela falou assim: por que você não monetiza os seus vídeos? Eu falei: porque eu não preciso. Ela falou: como assim, você não precisa? Você está criando conteúdo e você está fazendo isso de graça? Eu falei: é claro que não. Eu ganho muito dinheiro com Pérolas da Sucata. Por isso que quando eu entrei aqui, eu falei: cara, eu teria vendido muita coisa para você. Porque o seu estúdio é o Pérolas da Sucata. Aparecia uma coisa, eu vendia. E, às vezes, ao vivo. Teve gente que veio pegar ao vivo. Eu fiz um Pérolas ao vivo e a pessoa veio buscar ao vivo. E aí o que acontece? Para mim, eu estava feliz. As minhas contas estavam todas pagas. Para mim Luciano é o seguinte: eu estou com minhas contas pagas. Não estou tendo dor de cabeça, eu durmo que nem uma pedra. Se sobrar um dinheiro para fazer um rolê com os meus filhos, de final de semana, tá show. E se não sobrar, não tem problema. A gente vai só com o dinheiro da condução. Faz um rolê de skate, volta. E estamos felizes pra caramba. Desde que eu abra o congelador e tenha o meu sorvete lá, já era. Eu falo…

Luciano Pires: Perfetto. O sorvete é Perfetto, que é o meu patrocinador.

Alessandro Santana: O meu eu chamo de sorvete “nuveado”.

Luciano Pires: “Nuveado”?

Alessandro Santana: É. Sorvete “nuveado” porque ele é o sorvete nevado. Aí um dia eu esqueci e falei: dá um sorvete “nuveado” aí, que eu tomo. E pronto. E pegou no meu canal. Só que aí ela falou: não, vamos monetizar. E aí a gente começa a monetizar. E aí tipo assim, eu tinha uma missão que era a seguinte…

Luciano Pires: Que ano é isso?

Alessandro Santana: Isso tem três anos. A minha missão Luciano era a seguinte: a Cleide saiu do trampo dela.

Luciano Pires: Aí vai ter que ganhar uma grana.

Alessandro Santana: E ela ganhava bem. Ela ganhava mais que eu. Eu falei: mano, no mínimo eu tenho que empatar com ela. Eu tenho que fazer ela ganhar o que ela ganhava antes. Só que aí a gente começou a trabalhar junto. E aí eu comecei a construir o meu mini ramp. O nosso programa jornalístico nasce no meu mini ramp.

Luciano Pires: O que é mini ramp?

Alessandro Santana: Mini ramp é uma pista de skate. O meu ferro velho alagou – rapidinho – o meu ferro velho alagou. Alagou um metro. Tá ligado? Tipo: motor, perua, tudo debaixo d’água. Eu perdi muita coisa. Eu tomei um prejuzinho ali de uns sete paus. Só que assim, quando eu comecei a construir tudo e falei. Fiz vídeo mostrando o alagamento. Eu ria do alagamento. Enquanto tinha gente chorando, eu estava rindo.

Luciano Pires: Eu me lembro de um vídeo teu, de você construindo um portão. Você fazendo um portão.

Alessandro Santana: O portão Mad Max. Aí eu construí. Aí um dia eu estava lá. Eu ainda trabalhava muito com reciclagem. Reciclagem era 80% da minha renda. E eu estou lá separando material e olhei a casa do meu vizinho. E meu vizinho tinha feito uma casa que o telhado dele parecia uma 45. 45 graus é o nome de um obstáculo que tem na pista. Aí eu olhei para aquilo e falei assim: cara, eu vou construir um mini ramp. E olhei para a Cleide. Cara, que eu digo é a Cleide. Cara, eu vou construir um mini ramp. Aí ela olhou para a minha cara e falou assim: por que você vai construir um mini ramp? Da onde você tirou isso? Eu falei: não, olha ali o telhado do meu vizinho. Parece uma 45. E na minha cabeça veio um mini ramp. Aí ela falou: mas você vai construir isso aonde? Eu falei: bem aqui onde a gente está. Mas Alessandro, esse terreno é alugado. Eu falei: eu sei. Mas caguei. Eu quero construir um mini ramp. Eu quero andar de skate com o meu filho. Eu quase não estou tendo tempo de andar de skate. Eu estou trabalhando que nem um maluco. Por causa que eu estava nessa pegada de pelo menos empatar o que a Cleide fazia como gerente. E falei: eu vou construir. E aí no mesmo dia, Luciano, eu abri uma live e falei assim: seguinte, resolvi fazer um mini ramp bem ali onde vocês estão vendo aquele papelão. Era até onde ficavam os papelões. Bem onde vocês estão vendo que ficavam os papelões. Eu vou limpar tudo isso aí e vou construir um mini ramp. Quem quiser me ajudar manda um superchat. Porque aí eu vou… eu tinha acabado também de abrir o recurso superchat. Abri no dia do alagamento. Tomei até um susto quando vi os primeiros dois reais.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu falei: caraca, dois reais. Ao vivo. Eu fiz o alagamento ao vivo. Teve isso também.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: E tipo assim, Toshiro foi o primeiro que ajudou. O Toshiro Kuzuki. Ele mandou o primeiro superchat. E quando eu vi tinha mais de 300 nomes, de gente mandando. E aí o que acontece? Eu trabalhava de manhã. E às duas horas, duas e meia, eu mexia no mini ramp. Então eu tinha o quê? Uma hora e meia para mexer no mini ramp todo dia. Aí aluguei uma betoneira. Porque eu comecei a fazer o negócio na mão. Eu falei: mano, eu não vou fazer isso aqui na mão, nem fodendo. Não nasci para ficar movendo. O pedreiro que me ajudou rachava o bico. Me ajudou porque assim, ele só olhava e dizia o que eu tinha que fazer. Porque eu ia dar uma Akita para ele. Eu queria só… e filmando tudo, todo dia. E a Cleide começou a brigar comigo. Ela falou: o pessoal está te assistindo e você não está dando atenção. Eu falei: Cleide, como é que eu vou dar atenção para o povo e mexer cimento ao mesmo tempo? Tipo: não tem como eu ficar entretendo as pessoas assim. Eu falei: você que devia conversar com o povo. E aí um dia ela botou a câmera assim, parada, no tripé, tipo o seu aqui e falou assim: gente é o seguinte, o Alessandro não pode parar agora. Porque teve um dia que eu quase queimei a betoneira. Graças aos meus inscritos eu não queimei mano. Senão eram três paus de preju, mano. E está no contrato. Se você zoar a betoneira são três contos. Tipo: eu não sabia mexer. Arrogante é foda. E faz. E vai jogando. Aí a Cleide entra na frente da câmera e fala assim: é o seguinte, o Alessandro está fazendo os negócios ali. Ele não vai poder dar atenção toda hora. Mas vira e mexe, ele vem aqui. Enquanto isso, eu separei aqui umas coisas que aconteceram no dia aí. Vamos ficar conversando sobre isso. E assim começou.

Luciano Pires: E aí isso…

Alessandro Santana: Porque a mini ramp durou dois meses. Depois de dois meses eu fiz um churrasco para os meus inscritos. Eles que patrocinaram.

Luciano Pires: Eles foram lá?

Alessandro Santana: Foram lá.

Luciano Pires: Que legal.

Alessandro Santana: Tem imagem da festa e tudo. E aí, o que aconteceu? Eu fiz o churrasco. Transmiti o churrasco. Veio um parça meu, tocou. Que foi o Felps, que eu conheci por causa que estava assistindo os meus vídeos e falou assim: alguém vai tocar aí? Vai fazer um som aí? Eu falei: não. Ele falou: posso trazer minha banda? Eu falei: você toca porra nenhuma, branquelo. Ele falou: não cara. Eu toco. Eu tenho banda de rock. Não sei o quê. Eu falei: então vem aí. Aí ele tocou. Eu falei: se você vier mesmo, eu vou limpar aquela perua ali. Você vai tocar em cima daquela perua. Ele falou: pode. Vamos. E ele toca em cima da minha perua, a banda dele. Dois churrascos eu fiz assim.

Luciano Pires: Legal.

Alessandro Santana: E aí fica aquela coisa: porra, e agora Negão? Porque o pessoal acostumou. Dois meses, às duas e meia, tinha o programa lá do Negão, fazendo a mini ramp, da Cleide dando as notícias e a gente debatendo em cima das notícias. Pegava uma notícia aqui, uma notícia ali. Notícia de política. Notícia de variedade. E a gente começou. E eu falei: porra, e agora? Aí eu falei assim: vamos para dentro da perua. Aí eu pedi um wifi melhor. Botei o wifi. O wifi ficava do lado de fora. Eu encostava a perua do lado do wifi. Só que assim, eu comecei a falar para a Cleide assim, eu falei: mano, isso aqui não tá legal, véio. Isso começou a me incomodar. Me incomodou mais quando eu entrevistei o Vinicius Poit, que ele é deputado federal. Eu falei: mano, não está certo eu entrevistar o Vinicius no…no…

Luciano Pires: Dentro da…

Alessandro Santana: Mas o Vinicius é porra louca.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: O Vinicius que queria. Ele falou. Eu tinha construído. Eu já estava com o projeto de construir estúdio. Ele falou: cara, você está construindo um estúdio? Eu falei: estou. Aí ele falou assim: mas eu quero ser entrevistado na perua. Eu falei: mas porra, tem uma porra de um estúdio. O primeiro, que era muito simples. Era uma caixa de madeira o primeiro estúdio.

Luciano Pires: Eu me lembro dele. Você botou um compensado na parede.

Alessandro Santana: É. E ele falou assim: não mano, mas eu quero ser entrevistado raiz. E ele foi entrevistado dentro da perua. Mas aquilo me incomodava tá ligado?

Luciano Pires: Eu falei para você logo no comecinho, que eu tenho uma história contigo. Porque foi uma época, que eu estava acompanhando o teu canal, mas não tinha contato nenhum. Nem sabia onde você estava direito. E uma vez eu fiz mudança, onde eu tirei a iluminação que eu tinha. Eu tinha uma iluminação, uma coisa meio maluca lá, com uns tripés. Dava um puta trabalho. Cada vez que eu ia gravar, tinha que levantar a iluminação. Um merda. E um dia, eu baixei aquilo tudo e falei: não. Aí eu botei um negócio mais fixo. Aí eu olhei para aquela iluminação e falei: cara, o que eu vou fazer com isso aqui? Meu, eu acho que eu vou dar para o Negão. Vou dar para o Negão essa coisa. E aí fiquei naquela: eu preciso encontrar ele. E passou. Sei lá o que eu fiz com aquilo lá. Mas ficou na minha cabeça aquilo. Eu falei: porra, eu acho que ele daria… eu daria para ele. Eu vou passar para ele lá, porque, devagarzinho, esse cara vai montando um negócio lá. E acabou que eu não te dei a iluminação de presente, porque eu não consegui continuar…

Alessandro Santana: Não conseguiu me achar.

Luciano Pires: E achar. E fazer contato.

Alessandro Santana: Eu ganhei uma Shoman de um fotógrafo.

Luciano Pires: Aí. Você está vendo?

Alessandro Santana: Eu ganhei uma foda de um fotógrafo.

Luciano Pires: Sim. É assim que a coisa vai acontecendo. Mas vem cá, cara, no momento em que você estabelece que… você falou um negócio que é muito legal, cara. Alguém veio trabalhar com você e você tem responsabilidade sobre esse alguém.

Alessandro Santana: Foi.

Luciano Pires: Eu preciso pagar esse alguém. Isso muda tudo na vida da gente. Enquanto é comigo cara, foda-se. Vai. Se eu não tiver o que comer…

Alessandro Santana: Mas é…

Luciano Pires: Mas, puta, apareceu alguém…

Alessandro Santana: Tanto que eu não monetizava.

Luciano Pires: Então, mas aí…

Alessandro Santana: Tipo assim: eu quero monetizar.

Luciano Pires: Que vem a pergunta. Aí você fala: cara, esse negócio vai ter que gerar dinheiro. E as impressões que a gente tem sobre monetização em Facebook e tudo mais, é que o dinheiro é muito pequenininho. É nada. É um centavinho. Uma porcariazinha. Para remunerar alguém tem que vim um dinheiro maior. Então quando você monta o superchat, eu até entendo. O superchat vem ali, vem uma quantidade um pouco maior de dinheiro. Mas não sendo do superchat, sendo de audiência. Cara, a audiência tem que crescer.

Alessandro Santana: Tem.

Luciano Pires: Crescer inscritos no canal. O teu canal está com quase meio milhão de pessoas lá.

Alessandro Santana: Isso.

Luciano Pires: E isso aqui tem que ser uma coisa com produção para valer. Porque eu tenho que começar a atrair e tenho que ter views ali.

Alessandro Santana: E no meu caso é pior, porque eu falo de política. Então o Youtube me freia.

Luciano Pires: Então? Mas você começou a trabalhar. Você chegou a botar no papel, fazer: bom, quanto eu preciso faturar através do Youtube para poder cobrir a Cleide, que está aqui comigo? E o que significa? O que eu tenho que fazer para conseguir esse volume de grana? Você se planejou, de alguma forma?

Alessandro Santana: Não. Nada. No depósito, eu fazia uma média de sete paus. Tá ligado? Sete paus por mês.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então eu tinha que, pelo menos, fazer 10.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Porque eu fazia sete paus sozinho.

Luciano Pires: Você precisava de mais três vindo dessa outra fonte nova?

Alessandro Santana: Isso. Porque a Cleide, ela tirava uma média de três e meio, quatro paus, no serviço dela. Então eu precisava empatar isso daí. E daí eu tirava sete sozinho. Eu saía para a rua e voltava com mercadoria, eu fazia sete. Mas porque eu peguei a manha. Sempre vamos deixar isso claro? Porque dá a impressão que você sai e volta com papelão e tal. E não. Quem conhece os meus vídeos antigos sabe muito bem como eu fazia dinheiro. Certo? Então, que nem eu falei para você, quando eu entrei aqui, que eu falei: caraca, você seria um ótimo cliente meu. Por quê? Porque muitas coisas do que eu estou vendo aqui no seu estúdio, eu venderia num Pérolas da Sucata.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então eu saía com 10 reais. Botava de gasolina 10 contos. E, no mínimo, eu voltaria com 100. E 100 seria o quê? Vamos supor que foi um dia de coleta, aonde só veio reciclagem. Veio papelão. Veio latinha. Veio papel branco. Veio revista. Veio jornal. Cada uma dessas coisas, a gente tem que pôr separado. Então ali eu fiz 100 contos. Mas e se eu tirei um entulho, Luciano? 10 saquinhos de entulho já vêm mais 80. Ontem mesmo eu mostrei. Eu fiz 150 paus em meia horinha. Você entendeu? Então essas coisas vão aumentando. Tem um quadro aqui. O Luciano… eu já vi que o Luciano gosta de quadro. Então eu separo um quadro aqui para o Luciano. Já tem mais cinquentinha. Certo? Na verdade, eu ia pedir 100 no primeiro. Mas depois você ia virar meu cliente. Para te agradar, eu ia chamar uns oitentinha, cinquenta. E aí vai. E eu só botei 10 contos de gasolina. Teve uma coleta que eu fiz uma vez, que eu fiz no Pérolas. Eu fiz 1.500 reais. Eu fiz uma limpeza de garagem uma vez. No Pérolas. Que veio coisa de academia. Veio uma esteira. Só uma esteira, eu vendi por 500. Depois veio uma outra bike. Eu vendi por mais um tanto. A regra também na sucata é: não se apegue a nada.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Não existe apego. Não existe amor. O quadro chegou. Para você, Luciano, o quadro é lindo. Você ama o quadro. Nossa… que pintura, que moldura. Para mim é um pedaço de porcaria que eu vou vender para o Luciano. E que, se Deus quiser, ele vai me pagar caro, porque eu vi que ele sorriu. Se ele sorriu, ele vai me pagar um pouco mais. Você entendeu?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então, tipo assim, então isso me fazia com que eu conseguisse fazer uma grana boa por mês. Internet. Saber os clientes. Vamos, de novo, citar o Luciano. O Luciano veio porque ele viu um anúncio meu no Mercado Livre, de um quadro. Mas o Luciano não gosta só de quadro. O Luciano gosta de um bonequinho. O Luciano gosta de um livro. O Luciano gosta de outras coisas. Como que eu sei disso? Porque na hora que Luciano veio pegar o quadro, eu não simplesmente disse: toma aqui o quadro e me dá o dinheiro. Forte abraço. Não. Eu quis conhecer o Luciano.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu quis saber sobre o Luciano. O Luciano é casado? Se o Luciano é casado, o que gosta a esposa de Luciano? Quantos anos têm os filhos de Luciano? O filho de Luciano tem mais de 30 anos? Então significa que lá no passado, de repente, o Luciano não teve dinheiro para comprar um brinquedo para ele. Então ele é aquele cara que, com 30, queria ter o brinquedinho, nem que seja para deixar na parede. Você entende?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então nisso, você vai vendendo muito mais. Mesmo que eu não tivesse uma coisa que interessasse para o Luciano, eu deixava claro para o Luciano: Luciano, o dia que você estiver procurando alguma coisa, me dá um toque? De repente, eu não tenho, eu desenrolo para você.

Luciano Pires: Eu estou procurando o Brasilino. O boneco do Brasilino. Uma hora eu vou te mostrar o que é. Eu estou atrás dele, cara.

Alessandro Santana: Você entendeu? Então tipo assim, eu tinha muitos clientes. Eu tinha clientes em diversos setores. Eu tinha um cliente que me procurava para ver se eu tinha pia para restaurante. Uma pia de restaurante, Luciano, é dois mil reais. Eu vendia para o cara por 200. Eu tinha pago 20. Você entendeu? Porque eu queria dispensar rápido.

Luciano Pires: Mas então? Você tinha domínio sobre essa tua área, estava lá?

Alessandro Santana: Tinha domínio.

Luciano Pires: E você estava diante de um momento…

Alessandro Santana: E eu ensinava.

Luciano Pires: Eu vou usar um termo agora, fantástico tá, maravilhoso. Você estava num momento em que você ia pivotar o teu negócio. Guarda esse termo. Quando você fala, impressiona pra caralho. Os caras de startup. A turma de startup adora falar.

Alessandro Santana: Adora esse termo.

Luciano Pires: É. Você ia pivotar. Você ia caminhar de trabalhar com a sucata, para ser um comunicador e etc. Tinha que vir dinheiro de um lugar que você não dominava. Dominava a linguagem. Você já estava lá na frente, já falava na câmera. Tudo bem. Mas o produzir dinheiro não.

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: E aquilo chegou diante de você. O que você foi fazer, cara? Você foi procurar com quem sabia?

Alessandro Santana: Claro que não.

Luciano Pires: Você foi se aconselhar? Você foi lá no canal do Zé Bodão saber como era? O que você fez, cara?

Alessandro Santana: Não. Nesse ponto a gente já estava monetizando. Já estava fazendo metade/metade. Metade sucata… quanto mais eu fazia no Youtube, menos eu fazia na sucata.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então eu comecei a dispensar alguns prédios, para que eu pudesse criar mais no Youtube.

Luciano Pires: Mas quanto você tinha de seguidores e de views, para conseguir gerar uma grana que…

Alessandro Santana: Nessa época eu acho que eu já estava com quase 300 mil inscritos. Porque quando eu fui no Pânico, eu ainda estava meio sucata, meio entretenimento. Então eu devia ter uns 280 mil inscritos.

Luciano Pires: E isso te dava quantos views no mês? Você tem ideia? Um milhão de views?

Alessandro Santana: Mais. Uns dois milhões. A média sempre foi essa. Não. Minto. A minha média sempre foi um milhão, um milhão e meio. Ela cresce no momento em que eu só trabalho. Porque eu criei outras ferramentas. Tá ligado? Então, por exemplo, para você ver como foi a guinada.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu estava fazendo ali metade/metade. Metade sucata – dos 10 que eu estou te falando – metade era sucata, metade era Youtube. Certo? Quanto mais o Youtube crescia, eu diminuía a sucata. De certa forma, eu estava desagradando um público. Que tinha um público que curtia as paradas de sucata. E outro que curtia mais as paradas de Youtube. Obviamente, esse de Youtube era maior, por isso que eu estava diminuindo a sucata. Só que aí, o que acontece? Veio a pandemia. Na pandemia, o que aconteceu? Quando começou aquela coisa do fecha tudo, as empresas para quem eu vendia fecharam. E as empresas e os lugares de onde eu retirava mercadoria cresceram. Lembra aquela fase do pessoal indo para o mercado e comprar 200 rolos de papel higiênico?

Luciano Pires: Sim, sim.

Alessandro Santana: Tanque de álcool gel? E estoca arroz, estoca isso, estoca aquilo? Tudo bem. Você não conhecia a pandemia. Você não conhecia a doença. Todo mundo te vendeu como se fosse um cenário de fim de mundo. Eu entendo você ir lá e comprar tudo. O que eu não entendo é por que você quis consumir tudo. Então, prédio Luciano, que eu carregava uma vez por semana, às vezes, uma vez a cada uma semana e meia, o cara me ligava dia sim, dia não.

Luciano Pires: É. Eu vi isso no meu prédio. O volume de lixo aumentou.

Alessandro Santana: Eu falei: mano, o que aconteceu com esse povo? Tipo assim, o povo começou a comprar. Mas não guardou. A ideia não é você… então, para que você comprou tanto, se você queria comer que nem um maluco? Tá ligado?

Luciano Pires: É muito louco isso.

Alessandro Santana: É muito doido.

Luciano Pires: Eu comprei o triplo do papel higiênico que eu costumava comprar. Eu não vou consumir o triplo do papel higiênico. Não dá.

Alessandro Santana: É. Você entendeu? Então tipo assim, o que aconteceu? Dia sim, dia não. O meu ferro velho lotou. E eu não tinha para onde dispensar. E eu comecei a ligar para o pessoal. Eu falei: gente, eu não tenho como ir carregar. Eu não tenho para quem vender. Porque o pessoal ficou com medo de abrir.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Alguns ainda abriam naquele esquema, tipo: porta fechada e tal. Mas a maioria…

Luciano Pires: Você mandou um vídeo. Tem um vídeo teu que eu achei uma delícia, cara. Que é um dia que você vai. Eu não me lembro o que era. Onde você foi. Você foi comprar alguma coisa e a loja estava fechada, com a portinha meio aberta. E lá dentro estava todo mundo comprando as coisas. Mas era tudo escondido. Aí você chegou e falou: olha aqui. Porra, parece que eu estou comprando droga, cara.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: Parece que eu vim comprar droga aqui. Todo mundo escondido.

Alessandro Santana: Parece que eu vim comprar droga.

Luciano Pires: Aí você mostrou. Abriu a porta e estava todo mundo lá dentro, fazendo compra. Era uma farmácia? Eu não lembro o que era. E você mostrou aquilo e falou: cara, eu estou me sentindo aqui como um comprador de droga.

Alessandro Santana: Aí depois, eu falei que esse termo está errado. Porque biqueira não parou. Tá ligado?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu falei: está errado usar esse termo de, eu me sinto como se eu tivesse ido comprar droga. Porque a galera que compra droga, está comprando tranquila.

Luciano Pires: Está normal.

Alessandro Santana: Ninguém está passando por debaixo de porta para comprar droga. Tá ligado? E aí eu cheguei na Cleide e falei assim: Cleide, a gente tem um problema aqui. Desculpe. E ao mesmo tempo, eu fazia live Luciano, para 700, 800 pessoas. Quando começou esse negócio do fecha tudo, minha live pulou para duas mil, três mil, quatro mil. Teve dia que eu bati cinco mil pessoas.

Luciano Pires: Por quê?

Alessandro Santana: Porque tinha muita gente em casa. Tipo assim, ninguém sabia o que estava acontecendo. Eu passei tipo três meses fazendo live estourada assim. Aí eu falei para a Cleide: está na hora da gente virar a chave. Eu estou enxergando aqui uma oportunidade. Porque tem uma frase que eu sempre falo, que é o seguinte: você tem que sentir o cheiro da chuva. Tá ligado? Porque existem pessoas, Luciano, aqui está sol. Acima da gente aqui, céu azul, bonito. Lá no horizonte, o céu está pretaço. E o vento está de lá para cá. E você sente o cheiro. A chuva tem cheiro. Tá ligado?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Têm pessoas que não sentem o cheiro da chuva.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Têm pessoas que só sabem que está chovendo quando elas olham para a roupa e a roupa está molhada. Não é porque elas olham para o céu. Elas olham para a roupa. A roupa molhou. Nossa… está chovendo. E eu senti o cheiro da chuva. E falei para a Cleide: vamos fazer agora. Agora, a partir de hoje, é o seguinte, nossa live começa às duas e meia em ponto. Entendemos que o Youtube não vai nos passar para a frente? Não vai. O Youtube quer que eu fale de Big Brother.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu fiz um vídeo da Karol Conká no canal Eu Sou Seu Pai, o vídeo bombou. Eu não quero falar de Big Brother, Luciano. E mesmo naquele vídeo, eu falei. Eu pego um tema Big Brother. E dentro do tema Big Brother, eu ensino o moleque a não assistir Big Brother.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Você entendeu? Mas tipo assim, o Youtube entendeu o seguinte, o Canal do Negão é um canal de política. É um canal que fala de notícia. Vou ganhar dinheiro em cima dele? Vou. Mas não vou passar ele para frente, como eu passaria o do cara que faz banheira de Nutella.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu vou ganhar dinheiro em cima dos dois. O Google é assim. Eu vou ganhar dinheiro em cima dos dois. Show. Do Negão, eu vou ganhar um pouco menos. Então, vira e mexe, eu vou amarelar um vídeo do Negão. E eu sou malandro. Vídeo meu amarela, eu excluo. Dane-se aquele vídeo. Então, vídeo meu é tudo verde. E aí eu comecei a ganhar.

Luciano Pires: Quando você fala amarelo e verde é o volume de…

Alessandro Santana: Isso. Se ele está… não…

Luciano Pires: Tem uma média do canal. O que dá abaixo da média. O que dá acima da média?

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: O que é?

Alessandro Santana: Amarelo e verde é o seguinte: o vídeo verde é aquele que tem monetização 100%.

Luciano Pires: Ah, entendi. Entendi.

Alessandro Santana: O vídeo amarelo tem monetização restrita. E o vídeo vermelho, nenhuma. Eu não tenho nenhum vermelho e nenhum amarelo. Eu limpo todos. Eu estou sempre de olho nas diretrizes do Youtube. Eu sigo as regras à risca. Eu gosto de falar de política. É uma coisa que a gente curte. E a gente está ganhando dinheiro com isso. Então é só alegria. Podia estar milionário falando do Big Brother? Podia.

Luciano Pires: Olha a dica que você está me dando. O insight que você está me dando agora, aqui, que é uma coisa que a gente não… a gente nem pensa a respeito, cara. Com essa posição que você assume aí, de falar: cara, eu estou de olho na coloração. Eu vou eliminar os amarelos. Significa que você não pode enumerar os teus vídeos, cara.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: Você não pode ter vídeo número 100, 101, 102, 103.

Alessandro Santana: Não. Não. Porque a qualquer momento, eu tenho que excluir.

Luciano Pires: Você tem que excluir algum. E eu enumero todos os meus. Agora você fala: eu vou excluir. Como que eu vou tirar o 101. E vai ficar um buraco entre um e outro?

Alessandro Santana: Esses dias eu excluí um mês de live. Um mês. Porque eu tive um problema com…

Luciano Pires: Ah, eu vi a tua…

Alessandro Santana: Eu tive um problema com o Youtube. E um dos nossos patrocinadores antigos, a gente não estava conseguindo contato com eles. Eu tive que excluir todas as lives. Porque agora eu tenho que colocar que os meus vídeos são patrocinados. O que eu faço, Luciano, é levar as ferramentas que eu peguei no McDonald’s, na sucata, eu trago para a internet. Então, por exemplo, eu peguei a manha do seguinte: eu vou fazer uma live hoje de notícia, eu divido essa live em quatro assuntos. Certo? Em quatro assuntos. Em quatro assuntos eu vou ter quatro pílulas, da mesma live. E eu nem edito. Por quê? Porque no OBS, eu boto para gravar. E aviso o meu público.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Lá no passado, lembra? Eu falo sempre de plantar a semente. Lá no passado eu plantei a semente. Eu falei: a partir de hoje gente, é o seguinte, o meu trampo está corrido pra caramba. Eu não vou conseguir editar vídeo. Então eu peço desculpas se, de repente, eu vou estar dirigindo e não vou estar olhando para… eu gosto de olhar para a câmera. Por isso que eu falei, quando a gente sentou aqui, eu falei: posso olhar para você?

Luciano Pires: Você falou.

Alessandro Santana: Ao invés de olhar para a câmera? Tá ligado? Porque senão ia ficar estranho. Eu ia ficar conversando com você assim.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então, eu gosto de olhar para a câmera, porque quando eu olho para a câmera, eu estou olhando para a outra pessoa. É uma dica que eu sempre dou de vídeo. É essa: olhe para a lente da câmera, como você olha para a lente do seu melhor amigo. Aquele que conhece você. E você vai conseguir desenrolar de boa. Porque você tem intimidade. É assim que eu olho. Muita gente fala assim para mim: caraca Negão, eu gosto dos seus vídeos, porque parece que tu está olhando para a minha cara. Tá ligado? Parece que tu está olhando para a minha cara. E quando o cara não consegue, o vídeo dele está assim. Os olhos estão para cima. Tá ligado? E eu cheguei e falei para a galera. Eu falei: gente, eu não vou mais editar meus vídeos. Ah, mas… sempre tem um ou outro. Esse vídeo é uma bagunça. Você podia ter editado. Podia ter limpado. Podia não sei o quê. Esse vídeo você estava sem cinto e no outro você estava com cinto. E no outro você estava com cinto fake. Eu falo assim: tem gente enchendo o saco. Eu vou meter um cinto fake.

Luciano Pires: Aí você fala: a vida é assim. A vida é exatamente assim.

Alessandro Santana: Que não sei o quê. Não sei o que lá. Eu falo: mano, é isso. E é isso. Da mesma forma, eu falei: gente, eu não tenho tempo de editar os vídeos. Certo? Então, para eu não ter que pegar a minha live, dividir minha live. Ter que renderizar. Quem edita sabe. Mesmo que você não faça nada, Luciano.

Luciano Pires: Sim, sim.

Alessandro Santana: Bota para renderizar. São 15, 20 minutos que você perdeu. Tá ligado?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então, o que eu fiz? Eu falei: a partir de hoje vai ser assim. Eu vou gravar essa pílula aqui, que é o pessoal da noite. Tem a galera que me assiste à noite. É o inscrito da noite. E aí eu fiz a pílula. E na pílula, do nada, eu começo: para você que não me conhece, o meu nome Alessandro, mais conhecido… e ainda fico assim: pode gravar? Pode. 1, 2, 3 e…

Luciano Pires: E vai. E a gente quando assiste a live vê isso tudo na live.

Alessandro Santana: Exatamente. O cara que me assiste hoje, ele curte isso. Ele acha foda. Ele fala: caralho, o Negão faz… o Negão está falando comigo aqui, agora, e, ao mesmo tempo ele está falando com o cara…

Luciano Pires: Sim. Quem sabe faz ao vivo.

Alessandro Santana: E, ao mesmo tempo ele está falando com o cara que vai assistir ele à noite. Se ligou?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então, tipo assim, mas por quê? Porque eu trabalhei. E não cheguei do nada. Eu falei: a partir de hoje eu vou. E é o seguinte: por que eu faço isso? Porque isso aqui me dá mais quatro vídeos. A live me dá o quê? 20, 30 mil acessos? Cada pílula vai me dar uns 10 mil acessos?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Ou seja, eu fiz mais 40 mil acessos.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então eu entendi que o Youtube não vai me botar em alta. Eu entendi que o Youtube não vai me passar lá para a frente. Eu entendi que eu tenho outros influenciadores que falam a mesma coisa que eu estou falando, que vão ter seus vídeos mais bombados. Eu tenho inveja deles? Não. Eu dou graças a Deus. Daqui a pouco o inscrito desses cara está me assistindo. Às vezes, eu boto o nome dele na tag. Entendeu? Eu quero mais é que ele vá para um milhão.

Luciano Pires: Você tem que arrumar uma treta com esses caras aí.

Alessandro Santana: Não.

Luciano Pires: Porque tem cara que cresceu barbaramente assim.

Alessandro Santana: Por causa de treta.

Luciano Pires: Arruma uma treta. Já falaram para mim isso aí.

Alessandro Santana: Tá louco.

Luciano Pires: Eu falei: cara, eu não tenho nem idade para arrumar treta com neguinho para poder crescer na treta do cara. Não dá.

Alessandro Santana: Não dá. Isso daí Luciano, é para quem não tem… eu sempre digo assim: o cara que não tem visão. É igual ao cara que usa máscara. Máscara, não proteção e tal. Eu estou falando a máscara de… muita gente entra no Youtube e diz assim: Negão, eu não consigo ser que nem você. Então eu vou ser assim.

Luciano Pires: E cria um personagem.

Alessandro Santana: E cria um personagem. Aí eu falo assim: gente, é a pior merda que você pode fazer no Youtube. É criar um personagem. Quando um inscrito meu me tromba na rua e diz que eu sou igualzinho no Youtube, eu fico muito feliz. Tá ligado? Por quê? Porque quando você cria um personagem, você está preso a ele. Porque se você der o azar do seu inscrito gostar daquilo, aquilo vai te prender. Porque é aquilo que vai começar a pagar as tuas contas. E muito mais. Começar a pagar os seus sonhos. Mas aquilo vai te corroer por dentro. Você entendeu? Eu brinco sempre que é tipo uma droga. O Jamal uma vez falou para mim assim: ah pai será que se eu fizesse uns desafios – para o canal dele – será que se eu fizesse uns desafios os meus inscritos iam gostar? Eu falei: provavelmente. Só tem um problema. Você não é um moleque de fazer isso. Você é um moleque de jogar um videogame. Você é um moleque de andar de skate. Você é um moleque que mostra a sua brincadeira. Você está pronto para viver só de desafio? Inventando um desafio mais idiota que o outro? Você está pronto para ser o moleque que vai ter dinheiro, mas vai ser zoado? Você está pronto para as pessoas ficarem rindo da sua cara, porque você está se portando como um idiota?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então, o que você prefere?

Luciano Pires: É uma mecânica que tem a ver com… o ser humano adora ver o outro em situação constrangedora.

Alessandro Santana: Exato.

Luciano Pires: Ou numa situação de perigo. O cara fala: puta, ainda bem que não foi comigo. Não é à toa que o quadro de maior sucesso do Faustão é Vídeo Cassetada.

Alessandro Santana: É Vídeo Cassetada.

Luciano Pires: Eu quero ver os caras se arrebentando. Eu vou dar risada pra cacete. Ainda bem que não fui eu. Então é muito fácil, cara. Eu vou arrumar uma treta. Eu vou arrumar uma briga. Eu vou ridicularizar alguém. Eu vou xingar. Eu vou na banheira de Nutella.

Alessandro Santana: A maioria das tretas de internet são combinadas. Os caras combinam. É o jeito deles de fazer… como é o nome? Tem uma palavra para isso. Como é que se chama? Dois youtubers… não é complience. Complience é outra coisa. Eu esqueci a palavra. Mas é uma palavra que você usa para quando dois youtubers, tá ligado, vão se encontrar para trocar inscrito.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: A briga é mais ou menos isso. O cara entra: ah, eu não gostei do que aquele Negão lá falou, não sei o quê. Eu vou lá entrar no canal dele e vou xingar ele. Esse cara te segue mais dos que os caras que gostam de você. É louco isso. Tá ligado?

Luciano Pires: Sim, sim.

Alessandro Santana: E daí, quando você vê, daqui a pouco você fala uma parada que é da hora, aquele cara ficou. Você entendeu?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então o cara acaba com esse pensamento: o cara ficou e tal. Ele estava errado. Têm vários vídeos que eu faço, que o moleque fala: nada a ver aquilo que você falou, não sei o quê. Pela primeira vez não concordo com você. Eu falei: da hora. No próximo vídeo o cara está gostando do que eu falei.

Luciano Pires: Você não concordou e daí?

Alessandro Santana: Esses dias eu recebi um superchat maravilhoso no Pergunte ao Pai. O cara falou assim: Negão, eu não concordo com quase nada do que você fala sobre política. Quase nada. Sabe por que eu estou aqui? Ele mandou um superchat para falar isso. Eu estou aqui porque eu assisto você junto com a minha filha. Porque eu quero ensinar para ela como é você assistir e lidar com alguém que é diferente de você. E na questão de comportamento, essas coisas, ele concorda comigo. Mas na questão de política, ele é totalmente contrário. É por isso que eu falo, que tipo assim, eu brinco com isso direto no canal: eu sou um cara de direita. Eu não sou um cara de direita porque eu acho a direita maravilhosa. E tudo está certo e tal, não sei o quê. Mas eu sou um cara de direita, principalmente, porque eu vi as atitudes da galera de esquerda. E pensei: não, ali eu não estou. Tá ligado? Ali eu não… eu tenho certeza que eu não estou ali. Entendeu?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então, o que acontece? Mas muita gente de esquerda me acompanha. Porque eu tenho…

Luciano Pires: Deixa eu dar… deixa eu explorar um pouquinho isso aqui. Porque isso seria uma das perguntas que eu faria na sequência. Que é essa forma como você se posicionou politicamente e tudo mais. Que a gente sabia que o Brasil foi dividido.

Alessandro Santana: Foi.

Luciano Pires: No momento em que eu me posicionei. Cara, eu tenho um gráfico comigo lá, que é um negócio fantástico, cara. Eu tenho os meus PodCasts e tudo mais. Então eu tinha um gráfico que ia mostrando mensal. Então estava lá meu PodCast dando 850 mil downloads/mês no PodCast. Porra. Maravilha. Quando eu cheguei em outubro de 2018 e eu faço um programa anunciando o que eu tinha escolhido fazer. Por que eu ia votar no Bolsonaro, cara, aquilo caiu de 850 para 500, imediatamente.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: Eu perdi 300 e tantos mil. E nunca mais voltou para o que era anteriormente.

Alessandro Santana: Mas é porque o cara não te entende.

Luciano Pires: Mas então? Mas aí houve uma reação brutal de muita gente que: ah, eu te seguia. Os caras mandam. Escrevem para mim. Eu mandava teu programa para os professores. Eu mostrava para todo mundo. Agora você é um bolsonarista, nojento, o cacete. Como se eu tivesse…

Alessandro Santana: Pelo menos você não era um capitão do mato.

Luciano Pires: Você tem esse agravante ainda.

Alessandro Santana: Eu tenho um agravante.

Luciano Pires: Como se eu tivesse mudado, cara. Você mudou. Eu não mudei porra nenhuma, cara. Eu sempre fui assim. Eu apenas achei que eu estava num caminho. E que aquele para mim era o caminho. Você explicou muito bem, cara. Eu não estou daquele lado. Eu não estou com aqueles caras.

Alessandro Santana: É. Eu tenho certeza que eu não estou daquele lado.

Luciano Pires: Bom. Não estando ali, o que existe para eu… ah tem mil caminhos… não. Não tem mil caminhos. Quando chegou na hora H tinham dois caminhos para eu seguir.

Alessandro Santana: Exatamente.

Luciano Pires: Ou era um, ou era o outro. E vamos no outro. O outro é o melhor do mundo? Não. Não é cara. Está longe de ser o melhor do mundo. Mas é o que havia para a hora. E aqui eu não estou justificando porra nenhuma. O pessoal vem falar para mim: porra, por que eu não vejo você… você não bate no Bolsonaro. Eu falo: precisa mais alguém bater? Outra: tudo que eu tinha para dizer para ele, eu disse no meu programa de 2018. Eu contei tudo que ia acontecer. A minha opinião está dada lá. Eu não preciso voltar a dar opinião, porque eu já dei. Eu já falei lá atrás.

Alessandro Santana: Mas isso aí dá dinheiro.

Luciano Pires: O quê?

Alessandro Santana: Isso aí. Ficar toda hora alimentando esse monstro.

Luciano Pires: Isso. Então?

Alessandro Santana: Isso aí dá dinheiro.

Luciano Pires: Mas aí vem um tipo de público que te desgasta.

Alessandro Santana: É mano.

Luciano Pires: Porque eu não quero na minha área de comentários esse puta quebra pau. Fica insuportável.

Alessandro Santana: Não. Você quer um exemplo disso aí que você está falando? Eu lembro até hoje. Tem um vídeo meu chamado Por que Negros Votam em Bolsonaro? Eu tinha 40 mil inscritos em 2018, 40 mil. Eu fiz o vídeo, Por que Negros Votam em Bolsonaro? Mas basicamente era dizendo: por que negros não vão votar no PT?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Porque a regra era a seguinte: o Bolsonaro era racista, machista, misógino e prosógino. Tudo. Eu não conhecia o Bolsonaro. Eu sou sincero. Eu não conhecia. Eu conhecia o PT. E eu não conhecia o PT pelo que saiu no Jornal Nacional. Eu conhecia pessoalmente. Todo mundo da sucata conhece pessoalmente. Todo mundo do Centro conhece pessoalmente. Eu sei o que é um fiscal bater na minha porta. Eu sei o que é ir na prefeitura, o cara apontar o dedo na minha cara e falar como se ele fosse um quadrilheiro. Eu já contei essa história um milhão de vezes no meu canal. Eu, Luciano, já fui assaltado seis vezes. Eu sei o que é ter uma arma apontada na minha cabeça. Eu sei muito bem. Em seis vezes eu não me senti humilhado, como eu me senti dentro da prefeitura de São Paulo. Ali eu me senti humilhado. Você entendeu? Ali eu me senti humilhado de verdade. Ali eu saí quase chorando. Então tipo assim, eu sei um lado. Ponto. Eu sei o que é a máquina. Porque todo mundo quando fala do PT, dessas coisas, sempre pensa no Mensalão, no sítio em Atibaia, não sei o quê. E tudo grande. Quando tudo é grande, aquilo não tem a ver com você Luciano. Você não tem dinheiro para ter um monte de coisa. Então você sabe que existe. Mas está longe de você.

Luciano Pires: Sim. Quando alguém fala que o cara roubou 50 bilhões…

Alessandro Santana: É. Você não sabe se cabe aqui.

Luciano Pires: É.

Alessandro Santana: Tá ligado? Você não sabe. Quantas caixas precisa? Quanto pesa 50 bilhões? Entendeu? Então, tipo assim, está muito distante.

Luciano Pires: 20 mil reais eu sei o que é. 20 paus eu sei o que é. Porra. Mas bilhões…

Alessandro Santana: Está muito distante de você. No meu caso é diferente de você, Luciano. Porque no meu caso, foi pessoal. Entendeu? No meu caso, eu vi o poder do Estado. E vi que também o Estado não é feito só de PT, porra. A gente tem o PSDB agora. O PSDB é tão ruim que me faz pensar assim: cara, eu devia ter votado no Boulos. Tá ligado? Tipo, de tão horrível que está sendo. Então tipo assim, eu sabia disso. Então, quando eu faço o vídeo Por que Negros Votam em Bolsonaro? Eu basicamente no vídeo não estou falando do Bolsonaro. Eu não conheço porra nenhuma dele. A única coisa que eu sei dele é que os militares votam nele. Certo? Só isso.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu sei que militares votam nele. Policiais votam nele. Para mim, no meu caso, é firmeza ele ter esse aval desses dois grupos. Para muita gente é exatamente o problema do Bolsonaro. Então no vídeo eu falo exatamente por que negros não vão votar no PT. Sabe o que aconteceu, Luciano? Eu pulei de 40 mil inscritos para 80, em uma semana. Em uma semana. E ali eu vi uma janela aberta.

Luciano Pires: Ao se posicionar, você…

Alessandro Santana: Ao me posicionar. Tá ligado? Ao me posicionar contra o PT. Em nenhum momento eu falo: cara, o Bolsonaro é foda. O Bolsonaro tem isso, tem aquilo.

Luciano Pires: Não, mas…

Alessandro Santana: Porra, eu não conhecia o Bolsonaro, Luciano.

Luciano Pires: Mas esse é o ponto. Se pedirem para você desenhar o candidato ideal para o Brasil, evidentemente não vai ser o Bolsonaro.

Alessandro Santana: Exato.

Luciano Pires: Você não vai desenhar o Bolsonaro.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: Você não vai botar um cara que tem… não, espera um pouquinho. Ele não é o cara ideal. Mas escuta, para um momento de transição e de mudança que o Brasil tinha que fazer era o único cara.

Alessandro Santana: Era o único…

Luciano Pires: Tanto que o que está acontecendo agora, passaram com uma moto niveladora em cima do cara. O cara levantou e saiu andando, porra. Entendeu? E qualquer outro teria sido destruído ali.

Alessandro Santana: Então eu olhei aquilo Luciano e falei assim. Eu olhei para a Cleide e falei assim: Cleide do céu, olha isso. Eu falei: mano, aqui eu tenho uma janela aberta. Aqui eu posso virar o Hélio Negão. E do nada… mas eu não quis…

Luciano Pires: Então? Mas deixa eu te perguntar uma coisa, que isso aqui é fundamental. O salto que você teve com esse teu vídeo foi porque você falou: negros. Ou porque você falou…

Alessandro Santana: Do Bolsonaro.

Luciano Pires: O que foi?

Alessandro Santana: Não. Porque eu falei do Bolsonaro. Minha madrinha. Minha madrinha é bolsonarista mesmo. Bolsonarista raiz. Tá ligado? Camiseta do Bolsonaro e o caralho. E ela me ligou e falou: nossa… eu estou tão feliz. Minha madrinha é meio italiana. Estou tão feliz com você. Não sei o quê. Nossa… belo. Que maravilhoso que você está apoiando o Bolsonaro. E eu, tipo assim, eu não quis desanimar ela. Porque eu não estava apoiando o Bolsonaro. Eu estava contra o PT. Eu disse isso várias vezes. Luciano do céu, ninguém me ouvia.

Luciano Pires: Não adianta.

Alessandro Santana: Não adianta. Eu disse: gente, eu conheço. Vocês só conhecem o PT por causa do Sérgio Moro. É isso que vocês sabem. Ah, o Petrolão, o dinheiro na cueca. Gente, isso é ruim? Isso é ruim, Luciano? Muito pior Luciano, é você falar assim… muito pior é um fiscal olhar para a tua cara e dizer assim: você não pode pegar reciclagem na rua, porque o lixo de São Paulo é nosso. Cara, você é quem? O Marcola? Tá ligado? Você entendeu, Luciano?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: O cara sem arma, nem nada, só com uma gravata…

Luciano Pires: Eu vou te dar uma dica aqui, para você usar depois lá. Eu criei um termo. Eu emprestei, na verdade, esse termo, do MMA. Logo que começaram as lutas de MMA, que eu estava assistindo, me chamou a atenção, que o locutor… o cara tomava um direto e desmontava. Aí o cara falava: desligou o disjuntor. Eu falei: puta cara… eu peguei essa jogada e comecei a usar no meu dia a dia. Têm palavras que derrubam o disjuntor. Bolsonaro, atualmente, não existe outra palavra, com a força que ela tem, de derrubar o disjuntor. Você está falando: nhe, nhe, nhe. Bolsonaro. Quando você diz essa palavra, ela derruba o disjuntor. Tudo que você falou antes, não vale mais.

Alessandro Santana: Não vale mais.

Luciano Pires: A partir do momento que você falou Bolsonaro. Eu tenho uma análise, cara, falou bem ou falou mal. Dali para frente, você está rotulado. E aí, cara, aí os caras vão…

Alessandro Santana: Luciano, vamos ser sinceros. Ninguém sabia quem era ele. Ninguém sabia.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Só os militares do Rio. Ah, mas tem um discurso dele… cara, todo mundo faz discurso na porra do Congresso.

Luciano Pires: Mas me fala dessa tua opção de…

Alessandro Santana: Todo mundo…

Luciano Pires: Fala dessa tua opção de falar: cara, eu não quis seguir nessa linha.

Alessandro Santana: Aconteceu comigo, Luciano. É pessoal.

Luciano Pires: Não, não. Eu entendo. Quando você falou o seguinte, que você olhou que deu aquele salto. Falou: cara, subiu. E eu não quero virar um Hélio Negão.

Alessandro Santana: Não. Eu não quero.

Luciano Pires: O que foi isso?

Alessandro Santana: Mas porque as pessoas não me ouviam. Luciano, eu estava falando mal do PT.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu não estava falando mal da esquerda.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Uma coisa é você falar mal da esquerda, onde você joga o PSOL, você joga o PCO, você joga o PDT, você joga todo mundo.

Luciano Pires: Não. O PCO não. O PCO está indo muito bem.

Alessandro Santana: Mas eu estava falando mal do PT. Não esquerda e direita. Era o PT.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Se o Bolsonaro tivesse dito assim: irmão, eu sou um esquerda, quase centro. É você, irmão. Porque eu sei que o PT… você entendeu? O meu ódio… o meu ódio estava em cima do PT. Eu sei o que é passar um ódio com esses caras. Eu passei. O meu ódio estava em cima do PT. Mas ninguém me ouvia. Todo mundo via o quê? Olha ali o capitão do mato. O bolsonarista. O cara que apoia racista. Eu falei: irmão, pelo amor de Deus. Os caras me foderam. Desculpa. Os caras me foderam. É inconcebível para mim…

Luciano Pires: Defender…

Alessandro Santana: Defender quem me ferrou.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Quem me ameaçou. Luciano, quem me ameaçou. Mas ninguém me ouvia. E o mais engraçado, Luciano é o seguinte: por causa do skate, por causa dos meus valores, por causa da minha vida, eu era seguido por direita e esquerda.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: E, de repente…

Luciano Pires: Você virou inimigo, virou… cara, você quer um exemplo?

Alessandro Santana: De repente era: eu não me conformo com você.

Luciano Pires: Você quer um exemplo que não dá para entender? Médicos cara, médicos, que têm 40 anos de medicina. Que são ultra reconhecidos, cara. Que todo mundo sabe que os caras são papas, são destruídos, cara. Porque o cara falou: use cloroquina. E o cara é julgado. Imediatamente ele virou um idiota.

Alessandro Santana: Você entendeu?

Luciano Pires: Ele não sabe nada. Ele é um negacionista. Então, cara a sociedade está…

Alessandro Santana: Por um cara que não sabe…

Luciano Pires: A sociedade…

Alessandro Santana: Não sabe quantas gotas de dipirona vai quando ele está com febre.

Luciano Pires: A sociedade está histérica, cara. A sociedade está histérica. E na hora da histeria, você tem que fazer… sabe aqueles filmes antigos, que a mocinha começa a gritar, aí o mocinho vem e dá um tapa nela, para ela voltar?

Alessandro Santana: Mas eu sentei com a Cleide e falei assim, Luciano, eu falei: Cleide, aqui tem dinheiro. Eu sei onde tem dinheiro, Luciano. Por isso que quando eu entrei aqui, eu falei assim: Luciano, você ia ser um puta cliente meu. Porque eu, por ter essa coisa de empreendedor. A gente fala assim, às vezes, do empreendedor: parece que o cara nasceu com o dom de ganhar dinheiro. Não, meu irmão. A gente só sentiu dificuldade. Quando você sentir dificuldade, o seu instinto fica rápido.

Luciano Pires: Se cria. Sim.

Alessandro Santana: O seu instinto fica rápido. Então você vê dinheiro em tudo. Tudo. Uma ideia. Tudo. Por isso que eu te falei: quando eu vejo alguém mais inteligente do que eu, eu calo a boca. Eu quero ouvir esse cara. Tá ligado? Porque esse cara vai me trazer dinheiro na ideia. Então tipo assim: eu vi dinheiro ali, Luciano. Eu vi o desespero. Muita gente viu. Não fui só eu que vi.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Muita gente, do nada, uma hora estava apoiando Marina Silva e do nada ele falou: porra. Assim como muita gente hoje pegou o lado da esquerda que estava carente.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu vejo em alguns canais de esquerda, falando mal. Você não pensa isso. Você não pensa. Mas tu tem que pagar conta. Então tipo assim, eu tenho a sorte de poder emitir a minha opinião e pagar conta. Ali eu tive que olhar para a Cleide e falar assim: e agora? Se eu for por esse caminho aqui, olha isso. 40 mil inscritos. Se eu for por esse caminho aqui, do amor ao Bolsonaro e não sei o quê. Eu vou estourar. Mas porra, ao mesmo tempo, não sou mais eu.

Luciano Pires: Não sou eu.

Alessandro Santana: Luciano, eu vim falar assim: o Bolsonaro é foda, no final de 2019. Um ano de governo. Mano, vamos sentar aqui e vamos avaliar o bagulho. Certo?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Agora, primeiro mês, segundo mês, terceiro mês, quarto mês. Luciano, eu tenho 41 anos. Eu não sou um moleque de 16 que acha que as coisas se resolvem em três, quatro meses.

Luciano Pires: Sim, sim.

Alessandro Santana: Tá ligado? Eu tenho 41.

Luciano Pires: Cara, você não resolve o teu ferro velho, os teus probleminhas, naquele teu mundinho minúsculo. Você leva dois anos para conseguir.

Alessandro Santana: Exato. Cara, você imagina…

Luciano Pires: Você pegar uma máquina que, primeiro…

Alessandro Santana: Viciada…

Luciano Pires: É. Quer dizer, ela é absolutamente complexa. Ela está dominada. Ela já tem sistemas implementados lá dentro, que ganham muito dinheiro, há muito tempo. E você vai chegar e falar: eu vou desmontar isso aqui? Você vai se foder, cara. O sistema vai passar por cima de você. Vai te atropelar. E se não conseguir que você pare, ele te mata. É assim que funciona.

Alessandro Santana: Mas as pessoas não veem assim. As pessoas ainda gostam. Nós estamos em 2022 e as pessoas querem o ódio ou o amor cego. Eu vou te contar uma coisa: uma vez… eu sou um cara que defende – defende assim – a discussão era assim… lembra de um assassinato que teve? Duas lésbicas fizeram… tipo, torturaram um menino. Lembra desse bagulho?

Luciano Pires: Lembro. Lembro.

Alessandro Santana: Certo. Aí o pessoal: está vendo? Por isso que duas lésbicas não devem ter filhos. Tá ligado? Aí eu falei assim: gente, não foram duas lésbicas. Foram dois monstros.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Certo? O casal Nardoni – apesar de você chamar de casal – não era um casal. Eram dois monstros. Ponto. Não era um casal hétero. Então não dá para o gay falar assim: olha ali, está vendo o que acontece quando um casal hétero tem filhos?

Luciano Pires: Não. Você tem canalha em todos os extratos…

Alessandro Santana: Você entendeu?

Luciano Pires: É claro.

Alessandro Santana: Sabe o que foram falar para mim?

Luciano Pires: Não.

Alessandro Santana: Você é doido. Você está com as ideias muito progressistas. Luciano, isso é o cara que chegou ontem no meu canal.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Porque o cara que está a mil e anos, ele sabe que eu tenho essas ideias.

Luciano Pires: Tem a tua história.

Alessandro Santana: Ele já entende a minha história. Então tipo assim, ele entende o meu posicionamento, quando eu falo, eu digo: irmão, eu moro na Cidade Tiradentes. O que não falta lá é casal de lésbica. Ah, Negão, mas dois iguais não fazem um par. Eu ouço muito. Eu falo: quando é parafuso é mesmo. Nisso eu concordo. Tá ligado? Quando é parafuso e porca. Dois parafusos não fazem um casal. Eu falo assim: irmão, é uma situação de respeito. Você acha que não é um casal? Fechou. É a sua opinião. Show. Tá ligado? Eu acredito que é um casal por quê? Porque eu vejo, Luciano. Está vendo? De novo: eu não estudei. Eu vi. Eu vi na minha frente duas lésbicas com duas crianças felizes. Eu vi na minha frente ali, Luciano, dois gays com duas crianças felizes. E sabe o que eu vi mais também, na Cidade Tiradentes? Todo mundo em volta estava cagando para aquilo. Eu era o besta que estava olhando. Porque eu vim do Centro. Onde tem: ai, nossa… os gays da Paulista. Eu gosto de zoar eles. Os gays da Paulista. Vamos andar de mãos dadas. Somos gays. Olha para mim. Olha para mim, Luciano.

Luciano Pires: Aquilo é um manifesto. Eles estão o tempo todo…

Alessandro Santana: Mas na Cidade Tiradentes não. São dois gays e dane-se.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: São dois gays fazendo compras. São dois gays no açougue. São dois gays na loja de roupa. São dois gays no Boticário. São dois gays botando dinheiro no bilhete único. Caguei se vocês são dois gays. Você entendeu? Tem um gay no baile funk. É um gay no baile funk.

Luciano Pires: E?

Alessandro Santana: E dane-se. Eu era o besta que ficava olhando, impressionado, porque as outras pessoas não estavam olhando. E, de repente, eu percebi assim: cara, eu sou um idiota. Só eu sou o idiota. Porque só sobrou eu de idiota.

Luciano Pires: Deixa eu aproveitar o teu embalo aqui e provocar mais um assunto. O papo aqui, se deixar, a gente vai embora. Mas vou caminhar para o final aqui, com um tema que está desde o começo. Ele está na tua camiseta. O Brasil é um país racista?

Alessandro Santana: Não. Eu afirmo. Eu afirmo. Não é: eu acho. O Brasil não é um país racista. Mas…

Luciano Pires: A tua mulher diz isso, igual?

Alessandro Santana: Mas o Brasil é um país que tem racistas.

Luciano Pires: Os teus filhos dizem igual?

Alessandro Santana: Igual. O Brasil é um país que tem racistas. Isso é bem diferente.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Sabe qual um país que é racista? Argentina. Quantos negros têm na Argentina? É difícil ver um negro. Nem na música.

Luciano Pires: É que historicamente eles não tiveram. E aí cara, têm histórias maravilhosas, do Brasil ir jogar. O time brasileiro ir jogar e o grande acontecimento é que entram negros em campo…

Alessandro Santana: Entendeu?

Luciano Pires: O meu pai conta umas histórias assim para mim. Que os caras entravam para jogar e os caras: mira, mira, mira. E estão vendo pela primeira vez. Não pela primeira vez. Mas estão vendo um negro…

Alessandro Santana: De frente…

Luciano Pires: Desempenhando o papel que os brancos desempenham.

Alessandro Santana: Esse aqui é um país onde japonesa tem bunda. Tá ligado? Esse aqui é um país onde o alemão pode tomar sol. Alemão que eu digo, descendente. Não o que vem da Alemanha.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: O primo dele não. O descendente aqui, pode. Esse é o Brasil. Esse é o país que tem racistas. Mas esse é um país que: vai ser racista com alguém aqui na rua? Tenta. Tenta a sorte de ser racista com alguém aqui na rua.

Luciano Pires: Isso que você está levantando, cara. Eu tive uma discussão aqui outro dia com um pessoal. Que vieram com aquela história de… como é que é? Que eles falavam do… da cultura do estupro. Vem cá, cara, imagina uma coisa: você está num vagão de metrô lotado. E um cara vai e começa a bolinar uma menina.

Alessandro Santana: Nossa… ele sai de lá arrebentado.

Luciano Pires: O que acontece com esse cara?

Alessandro Santana: Ele sai de lá arrebentado. Então, esse não é um país de cultura de estupro. Mas existem países assim. Existem. Existem países onde… a Índia mesmo é um exemplo. Onde tem que ter o vagão da mulher. Onde é perigoso a mulher andar sozinha. Você entendeu? Certos lugares é perigoso. A própria França está osso a mulher andar sozinha. Mas tipo assim, o Brasil não faz parte disso. Têm países em que você só tem a galera de lá. Outro dia, eu levantei essa questão no meu canal. Eu falei assim: o Japão, por exemplo. Você faz um rolê no Japão, tem o quê? Japonês. Você faz um rolê no Brasil tem o quê? Tudo. Você entendeu?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Não estou dizendo que o japonês é um povo racista. Ele não é um racista. Ele não é um racista de discriminar: eu não quero andar com negros. Não.

Luciano Pires: Você está falando da miscigenação.

Alessandro Santana: Exatamente.

Luciano Pires: O Brasil abraçou isso. E agora vem alguém e bota o dedo na tua cara e fala e quer dividir. Quer dividir as classes.

Alessandro Santana: Exatamente.

Luciano Pires: Quer fazer divisões. E estão forçando a barra.

Alessandro Santana: E outra: o pessoal aqui no Brasil tem mania de importar as coisas. A coisa nos Estados Unidos é diferente. De um lado eles têm uma coisa que eu acho que a gente deveria ter, que é a liberdade. O cara lá, ele tem liberdade de dizer assim: irmão, eu não gosto de negro. Que se foda. Eu acho que eles são inferiores e já era. Por incrível que pareça, eu acho isso bom. Porque o meu medo, por exemplo, no Brasil, o cara não pode abrir a boca para falar isso. Se esse cara abre a boca e diz isso, Luciano, eu sei que eu não tenho que andar com esse cara.

Luciano Pires: Você consegue localizar.

Alessandro Santana: Eu consigo localizar e falo: meu irmão, eu não quero andar com você. E não quero os meus perto de você. Eu não preciso fazer um escândalo quanto a isso. Porque lá a liberdade…

Luciano Pires: E nem matá-lo…

Alessandro Santana: A liberdade…

Luciano Pires: Você não precisa nem matá-lo.

Alessandro Santana: Exatamente. A liberdade dele dá esse direito a ele de poder se expressar e falar: cara, eu não gosto de gay. Não quero vender o meu pãozinho, o meu bolo para um gay. A liberdade dele dá isso para ele. Certo? Talvez as leis, no caso, não sei. Cada lugar lá é uma lei. Mas o que eu quero dizer é o seguinte: se eu sou gay, eu não ponho os meus pés ali. Esse cara não vai ver o meu dinheiro.

Luciano Pires: A comunidade gay todinha não vai…

Alessandro Santana: Eu vou falar: gente, não cola ali não, cara. Não cola ali. Fechou? Parabéns para ele. Toda porta que se fecha é um cara que vai falar: que otário mano. Os gays tem dinheiro pra caralho. Vou abrir um negócio e vou vender para esses caras. Se ligou?

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Então tipo assim, já no Brasil você não tem isso. Então, o que acontece aqui no Brasil? O que eu acho que é o grande problema do brasileiro. Aqui você não tem a liberdade. Você… lógico, aqui racismo é crime. Você não poder ser racista comigo. Mas há uma diferença entre eu ser racista e eu me expressar. Você entendeu? Porque se eu me expresso, eu sei onde o cara está. E eu falo: mano, eu não quero estar perto desse maluco. Só do jeito do cara falar. Eu não quero estar perto desse maluco. Agora, quando o cara não tem esse poder. E quando você é racista você não é só um cara que não gosta de negros. É muito pior. Você é quase um nazista. O nazista, não é que ele não gostava de judeus. Ele nem enxergava os judeus. Para ele, judeus não eram humanos. É igual como eu vejo quando era na época da escravidão. Posso ser sincero? Para você escravizar alguém, você não pode ver essa pessoa como humano.

Luciano Pires: Não.

Alessandro Santana: Não tem como. A sua religião – não interessa qual seja a sua religião – não pode… ela te ensina que todos são iguais e tal e o caramba a quatro. Quando você olha para uma pessoa que você vai escravizar, naquele momento ela não é humana para você. Ou seja, é um grau de preconceito muito alto. Não é a coisa do: eu não gosto de negros, porque me contaram que lá onde eles moram… entendeu? Então, o cara não vai deixar de ser racista. Mas ele vai ser perverso. Ele vai encontrar outras formas…

Luciano Pires: De agir a respeito. Ele vai agir a respeito.

Alessandro Santana: Você entendeu? Esses dias, eu falei da expressão: problema de gente branca. Você já ouviu essa expressão?

Luciano Pires: Não.

Alessandro Santana: Problema de gente branca. Na verdade, a expressão original é: problema de gente rica. Problema de gente rica. Na minha opinião, quem criou o problema de gente branca foi um cara muito racista. Porque ele pegou numa lapada só. Ele conseguiu fazer com que eu negro não possa ter os problemas que aquele cara… porque é sempre um problema muito besta e corriqueiro, do dia a dia. Tipo: o Luciano Pires me trouxe aqui uma Minalba. Você não acha ruim quando não tem Minalba? Eu falo: Luciano, eu tomo água da torneira. Então tipo assim: eu sou foda por que eu tomei água da torneira? Ou você é fresco porque você queria tomar Minalba? Não. Que legal que você tem dinheiro para comprar Minalba. E também que legal que eu tomo água da torneira e foda-se. Mas tipo assim, no momento em que eu coloco problema de gente branca, eu não posso tomar Minalba. Por que senão, eu serei o quê? Fresco.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: E a Minalba fica para quem? Para o Luciano. Você entendeu? Eu estava até brincando. Eu falei: mano, o cara que criou isso, ele era muito racista. E ele era muito inteligente. Porque ele conseguiu fazer os negros serem racistas consigo mesmos sem perceber. Segregar as coisas sem perceber. Eu quero ter os problemas de gente rica, Luciano. Eu quero chegar e ficar puto porque a fila do Outback está longa. Tá ligado? Porque eu tenho dinheiro para ir no Outback. Eu quero ter esse tipo de problema. Mas… ah, mas isso aí é problema de gente branca. Então aquilo já vai me dar uma trava.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Não vou ir. Puta, no Outback. O Outback é bem coisa de gente branca. Mas faz uma comida do caralho. Eu já comi lá no Outback. É foda o Outback. Mas se você fica tipo: puta, mas é… ah, eu não vou jogar xadrez. Quando eu comecei a jogar xadrez lá atrás. Mas xadrez é um jogo de gente branca. Puta, mano. Xadrez. Não vou jogar xadrez. Porque eu sou negro.

Luciano Pires: Aí você não se permite…

Alessandro Santana: Você não se permite…

Luciano Pires: Usufruir das coisas, porque alguém rotulou que aquilo…

Alessandro Santana: Porque alguém rotulou. Uma coisa é tipo, você dizer assim: é problema de gente rica. Quando é um problema de gente rica, Luciano, se você, Luciano, é pobre igual eu, tá ligado, é diferente. Mas é tipo foda-se. Eu quero ser rico.

Luciano Pires: Mas você viu? Nós estamos indo por esse caminho, cara. Eu não posso botar um turbante hoje, porque é capaz de acusarem de apropriação cultural.

Alessandro Santana: Não. Você como homem pode. Você como mulher é capaz de embaçar.

Luciano Pires: Não. Se eu botar um turbante. Eu, branco. Botar um turbante.

Alessandro Santana: Aí vão falar que você é árabe.

Luciano Pires: É. Vão falar que eu estou fazendo apropriação cultural e tudo mais. Mas para onde está indo isso? Vai chegar um momento, cara, em que eu não posso ouvir as músicas que eu gostava de ouvir.

Alessandro Santana: Mas sabe qual que eu acho que é o problema? O povo tem mania de querer as coisas muito rápidas. E essas soluções, você já reparou que são sempre soluções rápidas? Vamos resolver o problema do racismo? Vamos. A partir de hoje, a gente não fala mais quadro negro. Aí você fala: cara, o que tem a ver?

Luciano Pires: E o que mudou?

Alessandro Santana: E o pior, que isso bate dos dois lados, Luciano. Porque direto eu ouço uma pergunta. No Eu Sou Seu Pai acontece muito. Que são os mais jovens, que são os mais impactados. Cara, eu sempre falo que o véio está estragado. Tanto para o cara tentar fazer ele de esquerda ou tentar fazer ele de direita. O véio está estragado.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Mas o jovem não. O jovem está muito suscetível a qualquer coisa. Aí fala assim: ah Negão, eu posso te chamar – Canal do Negão – eu posso te chamar de Negão? Eu falo assim, tipo: é Canal do Negão o nome. Eu sou o Negão. Para você que não me conhece, o meu nome é Alessandro, mais conhecido como Negão. Ali eu já te dei a permissão. Ah, mas é que tipo, dizem que negão… tem o cara que gosta de ser chamado de preto. Eu odeio ser chamado de preto, pretão. Eu acho muito zoado. Agora, negão eu acho muito louco. Para mim, negão é um título. Tá ligado? Você tem que merecer ser chamado de negão. Eu sempre falo isso para os moleques. Tá ligado? Não é qualquer um que pode ser chamado de negão. Mas aí acontece o seguinte: fica o cara de um lado, achando que ele tem o poder em cima da palavra. Fica um cara do outro, achando que ele tem que ter a permissão. E eu, no meio, estou falando assim: irmão, é o seguinte, o que interessa aqui não é a palavra.

Luciano Pires: É a intenção.

Alessandro Santana: É a intenção que você coloca em cima da palavra. Eu brinco com o seguinte, eu falo que toda mulher gosta de ser chamada de neguinha. Independente de quem está chamando. Por quê? Porque é a intenção com que você chama ela de neguinha.

Luciano Pires: É carinhosa. Tem um carinho ali.

Alessandro Santana: Exato. É o carinho com que você chama. Eu até brinco. Eu tinha uma cadela chamada Nina. Ela adorava ser chamada de neguinha. E qualquer mulher que eu conheci até hoje, gosta de ser chamada de neguinha. Mas não porque eu sou negro. Eu tinha um brother que era branco e ele chamava a mina dele de neguinha. Mas porque ele tinha a manha de chamar ela de neguinha. A intenção dele no neguinha. Então vamos tirar a palavra neguinha. E vamos colocar a palavra copinho. Copinho é a mesma coisa. Você ofende o cara chamando o cara de copinho. Porque o que interessa é a sua intenção.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Que nem outro dia. Ah, mas o cara chamou o cara de preto. Mas você não é preto? Não, não é assim não, irmão. Tá ligado?

Luciano Pires: O problema todo é que a palavra você ouve. O rótulo você enxerga. E a intenção não.

Alessandro Santana: Exato.

Luciano Pires: Você nunca consegue ver a intenção. Então, para entender, aí eu tenho que te conhecer. Nós temos que aqui, vamos falar, vamos conversar, vamos ser amigos. Entendeu?

Alessandro Santana: Mas só do jeito do cara falar você já sente o preconceito na voz dele.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Tipo assim. Você não tem certeza. Porque ele não foi explícito. Como eu te disse: o Brasil não dá essa liberdade do cara ser explícito. O que para mim seria uma coisa boa. Então eu já falo: eita porra. Olha com quem eu estou falando. Tá bom. Valeu. Essa conversa acabou aqui. Quantas vezes eu já não ouvi, Luciano, nos condomínios de luxo: nossa… você está salvando os jovens com aquele seu canal, com aquele seu quadro: Jovens Vencedores da Periferia. Eu abro a porra do quadro, dizendo que o moleque é um vencedor e ele é o normal dali. É mato. É essa a intenção do quadro. Não é mostrar um jovem que foi foda. É mostrar que todos…

Luciano Pires: Tem a oportunidade…

Alessandro Santana: Todos são foda. A nossa maioria é essa. A nossa maioria sai de manhã, com livro na mão, a pé. As nossas mulheres saem de manhã, se maquiando dentro de busão e trem. Entendeu? Esse é o nosso normal. Isso não são tipo: nossa… os que se destacaram e estão agora no ônibus. Não. É o nosso normal. Mas o cara olha e diz assim: nossa… você está salvando aqueles jovens. Aí você sente na voz da pessoa. Mas eu não tenho certeza, Luciano. Eu continuo conversando, porque eu quero ter certeza. Mas se no começo da conversa ela soltasse, ela tivesse a liberdade de destilar o veneno logo…

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Para eu ter certeza se é veneno ou se não é.

Luciano Pires: Você já nem gastava tempo ali.

Alessandro Santana: Eu nem gastava tempo. Eu falava: é, é isso mesmo. E virava as costas e um abraço. Mas por não ter essa liberdade, eu tenho que ficar mais tempo. Porque eu também não posso julgar. Tem cara que tipo assim, Luciano, você falou uma coisinha. Pronto. O Luciano é racista. Calma caralho. O Luciano está no Brasil. O Brasil não é um país racista. Porque se fosse, Luciano, se fosse racista, despejava na lata.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Na lata. Tá ligado? Mas não. É nessa hora que eu acho que os Estados Unidos são mais evoluídos que a gente. Mas é aquilo também: a gente é um país moleque, Luciano. Olha o que aqueles malucos passaram. Você entendeu? A gente aqui… eu brinco com o seguinte: nós temos quase a mesma idade, Estados Unidos e Brasil. Mas é o seguinte: nós só fomos trabalhar porque a mãe encheu o saco. Nos Estados Unidos não. Com 12 anos, nego está botando dinheiro dentro de casa.

Luciano Pires: Cara, faltaram guerras aqui. O Brasil precisava de guerra sabe?

Alessandro Santana: Lá eles tiveram bastante.

Luciano Pires: É muito ruim dizer isso. Mas é aquela coisa sabe, de você sentir a falta. De você sentir o que é não ter liberdade. O que é não poder dizer. O que é não ter água. O que é não ter comida. É não ter. Aí você passa a valorizar.

Alessandro Santana: Um amigo meu fala assim: os caras têm mania de vender para nós. Os americanos, eles só são patriotas para aqueles caras brancos, do sul. Não sei o quê. Ele falou: lá mano, todo mundo é. Porque lá você vai no bairro chinês, o bairro chinês é patriota. Você vai no bairro dos negão, o bairro dos negão é patriota. Nego com bandeira dos Estados Unidos. É normal. Ele falou que aqui bandeira do Brasil é Copa do Mundo.

Luciano Pires: E hoje virou rótulo. Você botou a bandeira…

Alessandro Santana: É. Entendeu? Lá não. Ele falou: mano, lá é normal. E não interessa se você é democrata ou republicano. É normal. O amor que esses caras têm pelo país deles é louco.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eles podem ter as brigas internas deles. Tá ligado? Eles têm. Tem muita briga interna. Mas ele falou assim: deixa esse país entrar numa guerra para você ver se todo mundo não dá as mãos. Acaba com o outro e depois volta a brigar.

Luciano Pires: Meu caro dá para ficar aqui até amanhã de manhã. Mas a gente precisa dar uma encerrada aí. Olha, eu estava ouvindo você falar. Eu estava pensando aqui. Eu falei: puta, quanta gente vai ficar puta da vida. Esses caras… olha bicho, é o seguinte: essa liberdade de poder dizer o que a gente está dizendo aqui, de poder conduzir a conversa da forma como nós estamos conduzindo, na boa cara, assim. Cara, eu estou preocupado com o seguinte cara: como é que a gente constrói um país que seja melhor do que aquilo que nós temos até aqui, cara. Como é que nós construímos esse país? Se eu tiver que abrir mão de algumas coisas, cara, eu vou abrir mão. Desde que eu não abra mão de certos princípios. E eu estou sentindo que tem gente obrigando a gente a abrir mão de princípios. Quer que a gente abra mão. Me dá um pouquinho da tua liberdade, para eu te dar um pouquinho de segurança.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: Aí o bicho começa a pegar. As pessoas ainda não entenderam isso muito bem. De qualquer forma o seguinte, cara: obrigado pela tua visita. O teu canal é foda. E eu espero que ele cresça bastante. Vocês estão prestando um serviço. Que uma coisa é aquilo que você falou logo no início: cara, eu pagando as minhas contas, eu estou bem. Ótimo. Que legal que está bem. Mas o impacto social daquilo que você está fazendo não dá para medir cara. E eu acho que você tem sentido. Você deve receber e-mail, mensagem…

Alessandro Santana: Recebo.

Luciano Pires: Do cara que: meu, você falou um treco que me abriu. Cara, não tem dinheiro no mundo que pague isso.

Alessandro Santana: O mais louco é o das mães.

Luciano Pires: Mães falando de parte dos filhos?

Alessandro Santana: Você receber mensagens de mães é muito 10. Tipo, você receber mensagens dos moleques, é o que eu sempre falo: o véio está estragado. Agora, você receber dos moleques, já recebi várias, ao vivo. Fala assim: cara, tu mudou minha vida. Tá ligado? Hoje em dia eu dou valor aos meus pais. Uma coisa que eu cobro muito. Eu chamo meu pai de senhor e de senhora. Puta, eu não vejo a hora de ser pai. Eu quero casar. Que é uma coisa que eu pego muito, no casamento. Que casar é firmeza. Eu vendo exatamente o contrário da TV. A TV vende que o casamento é uma merda. Eu vendo que o casamento é da hora. Mas o que mexe com o coração é quando vem uma mãe. Quando uma mãe fala assim… às vezes tem pai. Mas o pai está longe e tal. Ela fala assim: eu sou muito grata pelos vídeos que você faz. Porque o meu filho estava indo por um lado que estava errado. Eu não estava conseguindo trazer ele de volta. E hoje a gente assiste os vídeos juntos. Eu nem ligo que você fala palavrão. Algumas falam: eu ligo que você fala palavrão. Mas vamo que vamo. Entendeu? Mas quando uma mãe agradece velho, aí mexe, velho.

Luciano Pires: É outra dimensão. Isso é outra dimensão.

Alessandro Santana: É outra dimensão.

Luciano Pires: Isso é muito mais.

Alessandro Santana: É.

Luciano Pires: Isso é muito mais do que vender papelão. Do que processar plástico. E aqui eu não tenho nada contra. Mas quando você descobre, que você começa a tocar no coração das pessoas. E alguém pode, de alguma forma, mudar as suas escolhas por algo que você colocou. Cara, isso transforma a gente. É transformador.

Alessandro Santana: Eu acho que eu estou pedindo o básico. O que eu peço é o básico.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Eu peço só hierarquia e peso em cima dos moleques. Porque eu sempre falo que todo moleque, ele pede por hierarquia. E quando ele não acha em casa, o crime dá hierarquia para ele.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Entendeu? Então, hierarquia e disciplina. Tipo assim, o que eu estou dando é o que eu sei que a criança gosta. É o que eu sei que o moleque gosta. O moleque quer hierarquia. O moleque quer fazer parte. O moleque quer estar junto.

Luciano Pires: Sim.

Alessandro Santana: Entendeu?

Luciano Pires: Cara, grande papo, cara. Muito legal.

Alessandro Santana: Valeu. Eu que agradeço.

Luciano Pires: Eu quero estar mais perto de você, bicho.

Alessandro Santana: Chama eu de novo, que eu venho. Aqui não tem frescura não.

Luciano Pires: Nós vamos fazer uma bagunça aí.

Alessandro Santana: Aqui não tem frescura não.

Luciano Pires: Boa sorte para você. Dá um beijo na moçada lá em casa.

Alessandro Santana: Demorou.

Luciano Pires: E continua cara. Vai. Não para não, de incomodar os outros sabe? De falar o que pensa e de levar adiante. Que a gente precisa disso. Precisa de você. Tá bom?

Alessandro Santana: Valeu. Como eu falo para o Jamal: é difícil comprar quem vive bem com pouco.

Luciano Pires: Grande. Valeu.

Alessandro Santana: Valeu irmão. Obrigado aí, pessoal.

E está no ar a Escola Itaú Cultural, plataforma que nasce com o objetivo de desenvolver ações de formação nas diversas áreas de atuação da organização; promover acesso ao conhecimento nos campos da arte e da cultura e trocar conhecimento e multiplicá-lo. São cursos gratuitos nas modalidades pós-graduação, cursos de extensão e cursos livres. Para se inscrever em um curso mediado, basta entrar no site da Escola Itaú Cultural, criar um usuário, escolher o curso e preencher a ficha de inscrição.

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Muito bem. Gostou do papo com o Alessandro, hein? Você precisa entrar no canal dele. É conhecido. Entra no YouTube lá, procura Canal do Negão, ele produz lives como um alucinado, acho que são três por dia, sem contar os cortes que ele faz ali. Então ele está fazendo muito conteúdo. Vale a pena conhecer, viu cara? Porque ele tem aquela coisa que… a tal da transparência. Ele é aquilo lá. Ele é igualzinho na live, ele é igualzinho ao vivo, ele é igualzinho aqui. Isso hoje em dia vale ouro. As pessoas que mantem a sua transparência.

Dias de luta, dias de glória
Chorão
Thiago Castanho

Não encontrámos nada.
Canto minha vida com orgulho

Na minha vida nem tudo acontece
Mas quanto mais a gente rala, mais a gente cresce
Hoje estou feliz porque eu sonhei com você
E amanhã posso chorar por não poder te ver mais

O seu sorriso vale mais que um diamante
Se você vier comigo, aí nóis vamo adiante
Com a cabeça erguida e mantendo a fé em Deus
O seu dia mais feliz vai ser o mesmo que o meu

A vida me ensinou a nunca desistir
Nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir
Podem me tirar tudo que tenho
Só não podem me tirar as coisas boas
Que eu já fiz pra quem eu amo
E eu sou feliz e canto
O universo é uma canção
E eu vou que vou

História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória

Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória

Oh, minha gata, morada dos meus sonhos
Todo dia, se eu pudesse, eu ia estar com você
Eu já te via muito antes nos meus sonhos
Eu procurei a vida inteira por alguém como você

Por isso eu canto minha vida com orgulho
Com melodia, alegria e barulho
Eu sou feliz e rodo pelo mundo
Sou correria, mas também sou vagabundo

Mas hoje dou valor de verdade
Pra minha saúde e pra minha liberdade
Que bom te encontrar nessa cidade
Esse brilho intenso me lembra você

História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória

Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória

Hoje estou feliz
Acordei com o pé direito
E eu vou fazer de novo
E vou fazer muito bem feito

Sintonia
Telepatia
Comunicação pelo córtex
Boom
Bye, bye

Muito bem. É assim então, ao som de Dias de luta, dias de glória, com o Charlie Brown Jr, que vamos saindo, doidos pra fazer acontecer. Que nem o Negão, cara!

O Café Brasil é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, completando o ciclo.

O conteúdo do Café Brasil pode chegar ao vivo em sua empresa através de minhas palestras. Agora tudo online. Tá uma delícia, viu? Acesse lucianopires.com.br e vamos com um cafezinho ao vivo.

De onde veio este programa tem muito mais, especialmente para quem assina o cafebrasilpremium.com.br, a nossa “Netflix do Conhecimento”. Cara! O bicho tá pegando. Tem muito material sendo consumido pelos assinantes, tem  grupo no Telegram, tem bate papos, tem lives acontecendo. Tá ficando cada dia melhor, cara! Você tem que ir lá. Se você acessar confraria.cafe, escolha um plano. Se você fizer o plano da assinatura anual,  sai mais barato que uma cerveja quente na balada.

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Para terminar, uma frase de ninguém menos que Keanu Reeves:

Nós vivemos numa geração de pessoas emocionalmente fracas. Tudo tem que ser abafado, porque é ofensivo. Inclusive a verdade.