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Luciano Pires -

Sabe quem ajuda este programa chegar até você?

É a Terra Desenvolvimento Agropecuário, que é especializada em inteligência no agro.

Utilizando diversas técnicas, pesquisas, tecnologia e uma equipe realizadora, a Terra levanta todos os números de sua fazenda em tempo real e auxilia você a traçar estratégias, fazer previsões e, principalmente, agir para tornar a fazenda eficiente e mais lucrativa.

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Pronto. Chegou o dia de conversar com duas referências da música brasileira quando se fala em bateria. João Barone e Aquiles Priester. Desculpe aí cara, mas o trocadilho é inevitável: os dois estavam terminando uma bateria de eventos em escolas de música e passaram por nossos estúdios para falar de carreira, de música e de muito mais.

Vamos nessa?

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você está no Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Posso entrar?

Olha, quando criei o Café Brasil Premium, imaginei um ambiente onde eu publicaria conteúdos que os interessados consumiriam. Algo parecido com uma Netflix do conhecimento. E fivou um barato cara! Expandiu, está uma loucura, mas muita gente que está lá dentro, não sabe das interações. Toda terça-feira a gente tem uma “terça Premium”, quando alguém, algum dos assinantes ganha um brinde e, o que é o mais legal, porque eu ligo pro assinante pra falar do brinde e ter um bate-papo muito legal. Todo mês, tem um Podsumário, tem uma “podlive”, uma live onde eu apresento o sumário de um livro e a gente discute, né? Tem uma conversa muito legal no zoom… Olha: tem um monte de coisas acontecendo ali nesses canais. Então, quem vem pro Premium, tem contato pessoal pra tirar dúvidas, trocar ideias, consome os conteúdos de um jeito assim muito livre. Não é aquela história de coisas enlatadas sabe. Professor da escola internacional de não sei aonde que manda um material em inglês, aqui não é enlatado não. Aqui é o dia a dia, somos nós, você vai lidar com pessoas, com seres homanos.

O Premium não é sobre passivamente receber informações, mas é sobre construir ativamente seu repertório junto com pessoas com formações diversas e genuinamente interessadas em crescer.

Se você acessar, presta atenção agora, confraria.cafe, vai conhecer todos os planos. Vem com a gente!

Então…a esta altura acho que você já conhece a minha história com o Aquiles Priester, não é? Se não conhece, ouça o LíderCast que eu gravei com ele em 2015. Bem, fiquei sabendo que o Aquiles estava no Brasil fazendo uma série de workshops sobre bateria, acompanhado de ninguém menos que João Barone, o baterista do Paralamas do Sucesso. Eu já sabia que Barone foi um dos responsáveis por inspirar Aquiles a seguir carreira como baterista, e achei que um papo com ambos seria assim… nutritivo. Os dois chegaram no estúdio a bordo do micro ônibus do Aquiles, por volta de dez horas da noite, depois de um dia de aulas. Todo mundo cansado, usando máscaras por precaução… mas mesmo assim o papo foi excelente. Vamos a ele? Mas antes….

“Olá Luciano. Tudo bem contigo? Quero passar aqui pra dar um testemunho e ao mesmo tempo te agradecer.

Você lembra aquele evento nosso em Uberaba em fevereiro de 2020? Pois é. Naquele dia nós estabelecemos um novo padrão de comprometimento mútuo nas nossas empresas contratadas e o nosso time interno. Garantir segurança de todas as pessoas dos nossos projetos, naquele momento, deixou de ser um propósito só meu. Exatamente como na sua preparação para a escalada do Everest, eu jamais desisti da ideia de transformar sonhos em metas e aprendi com você que as ações tinham que ter acabativas, viu Luciano?

E veja que, ao final de 2020, mesmo diante de uma pandemia inédita, nós chegamos também numa marca até então impensada. O zero acidente na área de projetos. E como sonhos, eles não tem limites, nós continuamos trabalhando e agora, dia 12 de julho, atingimos um novo recorde mundial de horas trabalhadas sem nenhum acidente com perda de tempo. 

Então, eu quero te dizer obrigado pelos exemplos e os ensinamentos. Eu estou certo que na sua trajetória de vida e os seus relatos, você nos ajudou a mostrar pra tantas pessoas que é possível fazer sim tudo aquilo que almejamos.

Em 2022, eu estou confiante Luciano, que dentro desse novo normal será possível a gente conversar e idealizar um novo encontro pra novas inspirações.

Fica aqui meu muito obrigado e um grande abraço pra você”.

Grande Clayton! O Clayton fala de um evento da empresa Mosaic, que eu fechei com minha palestra Meu Everest. Veja só como uma palestra bem encaixada, consegue marcar positivamente as pessoas. Parabéns,caro Clayton! Recorde mundial de segurança é pra poucos, viu? E estou pronto aqui para os novos encontros, tá? Ah, e você que está ouvindo aí, leve uma palestra minha até sua empresa também. Se não pode ser presencial, a gente faz online e a experiência é sempre nutritiva. Pergunta pro Clayton!

Você já sabe que a Perfetto patrocina o Café Brasil fazendo sorvetes, não é!

No site perfetto.com.br – lembre-se sempre que perfetto tem dois “tês”, a gente enlouquece. Entre as delícias que eles produzem está o incrível Variatta Leite Trufado da Perfetto, que oferece um sorvete cremoso de leite com cobertura especial de chocolate trufado. Meu, e não vem num potinho, não, cara… vem num balde! Só a Perfetto tem!

Você tá se aguentando aí, cara? É difícil, né?  Vai lá no blog! Dá uma olhada, cara: é enlouquecedor!

Luciano – ô Lálá, o que você aprendeu?

Lalá – hummmmm, com sorvete #TudoéPerfetto

Muito bem. Mais um LíderCast. Esse aqui aconteceu um pouco assim, na… no nosso esquema. Falar: vamos fazer? Vamos fazer?

Aquiles Priester: Foi.

Luciano Pires: Eu aproveitei. Eu vi os caras agitando aí, fazendo uma série de eventos. Conversei com o Aquiles. E lá está o Aquiles. O Aquiles é um dos raros participantes duplos do LíderCast. A segunda vez que vem aqui. Seja bem-vindo viu meu caro?

Aquiles Priester: Muito obrigado. É um prazer estar aqui. A nossa história estará ligada para sempre. Já estava antes, por causa do nosso aniversário. Mas toda a galera do metal sabe quem é Luciano Pires. Você deve ter muitos seguidores, que você não entende por que eles te seguem. Mas…

Luciano Pires: Eles avisam: estou aqui por causa do Aquiles. E ao lado do Aquiles – eu estou apresentando de um jeito diferente hoje, porque nós vamos fazer um programa mais diferente, um pouco mais… – eu tenho na minha frente aqui, sentado, João Barone. Um cara que eu escuto desde o começo dos anos 80, quando ele sai de Brasília e vem tocar na capital.

João Barone: Pois cara. Satisfação estar aqui também. É muito surpreendente. O Aquiles falou que ia ser bacana a gente estar aqui. E estamos aqui.

Luciano Pires: Maravilha. Sejam bem-vindos. Por que eu chamei os dois aqui? Porque o Aquiles participou recentemente lá do Flow. Ele mostrou o disco novo saindo e tudo mais. E aí nessa: eu estou no Brasil. Mandou para mim um link, dizendo que ele estava fazendo uma série de… como é que você chama? Clínicas? O que é?

Aquiles Priester: São aulas particulares.

Luciano Pires: Aulas particulares de bateria. Ele com o João Barone. Eu falei: mas como assim? Em várias cidades do Brasil. Mandou para mim a relação. Eu falei: esses caras estão viajando? Eles estão de ônibus para lá e para cá? Que loucura é essa? Eu falei: ah não, eu vou ter que conversar com os dois. Até porque, tem uma parte da história do Aquiles que está conectada no Barone. Ele já contou isso aqui mais ou menos. Quem estiver interessado, escute – se já não escutou – o LíderCast com o Aquiles. E vamos ver como que o papo anda aqui. Então sejam muito bem-vindos.

João Barone: Maravilha.

Aquiles Priester: Um prazer estar aqui.

João Barone: E, diga-se de passagem, não é um ônibus qualquer. É o ônibus do Aquiles.

Luciano Pires: Escrito Aquiles Priester. Eu estava aqui esperando os caras chegarem. E foi pelo ouvido. A hora que eu escutei lá fora.

João Barone: É a máquina do metal. Eu já estou totalmente contaminado pela máquina do metal.

Aquiles Priester: Hoje eu vi uma coisa, que eu nunca imaginei que eu fosse ver na minha vida. O João Barone jantando com uma camiseta do Iron Maiden. As coisas estão mudando.

Luciano Pires: Eu ainda vou ver você tocando jazz. Isso é uma profecia.

Aquiles Priester: Eu já estou escutando bastante jazz.

Luciano Pires: É uma profecia que vai acontecer. Vai acontecer. Então, eu chamei vocês dois aqui, porque eu fiquei fascinado com o lance que é o seguinte: como eu conheço muito bem a história do Aquiles desde o começo. E quando o Aquiles fez o LíderCast comigo aqui, ele foi contando das referências e tudo mais. Aí tem algum momento em que ele fala do Barone e fala dos bateristas que influenciaram. E um deles era o João Barone. E aí eu me lembro do Aquiles em 82, começando aquela loucura toda, olhando para o Barone, falando: esse cara toca demais. E, de repente, ele está com o Barone, dando aulas de bateria. E o Aquiles vem de Los Angeles para cá. Ou seja, ele subiu na carreira, cresceu. E ele está do lado do ídolo dele.

Aquiles Priester: É.

Luciano Pires: Posso chamar de seu ídolo?

Aquiles Priester: Eu sempre falo o seguinte, o João Barone, ele é uma entidade da bateria brasileira, entendeu? Porque se a gente for pensar assim, todos os bateras, de todos os estilos, sabem da referência que ele é. Entendeu? O cara que toca samba conhece o Barone, o cara que toca forró, o cara que toca música brasileira, o cara que toca jazz, o cara que toca fusion. O cara que toca qualquer instrumento, ligado a qualquer estilo, o cara já ouviu falar e sabe da importância do Barone. Então é impressionante. Porque a gente está viajando aqui há mais ou menos uns 10 dias agora. E, às vezes, a gente vai jantar em restaurantes em cidades pequenas. Daqui a pouco a gente está escutando. Tocam duas, três músicas do Paralamas do Sucesso. E para o Barone é uma coisa assim: olha só que legal. A nossa…

João Barone: Eu dei uma grana para o DJ.

Aquiles Priester: Eu falei: caralho meu, eu estou com o Barone. Toca a música dele. Então bicho, a importância que esse cara tem para a música brasileira. Eu sempre falo o seguinte: que ele foi o primeiro baterista brasileiro que chamou a atenção da grande mídia para falar: o baterista é uma pessoa importante na banda né cara?

Luciano Pires: Sim.

Aquiles Priester: E eu me lembro que eu era completamente leigo no Rock in Rio de 1995. Eu tinha 14 anos. E foi ali que eu montei uma batera de lata no fundo de casa, lá em Foz do Iguaçu. E comecei a dublar as músicas. E me identifiquei com o Barone. Eu falei: esse cara tocando. Olha só. Ele usava aquela batera meio flat, uns tons baixos, os pratos mais altos. E tocava forte pra caralho. E eu comecei – na minha ignorância naquela época – eu falei assim: meu; esse batera aí, ele tem a bateria maior do que as dos Paralamas, cara, do João Barone. Mas o som não é tão bonito. Não é tão claro. E aquilo era uma transmissão por televisão em 1985.

Luciano Pires: Sim.

Aquiles Priester: Eu não estou falando de Rock in Rio 2015, 30 anos depois. Então bicho, é uma época que os músicos eram de verdade. O cara tinha que tocar um take inteiro. Hoje em dia – a gente conhece – é muita falcatrua na música como um todo. Então quando você ouve um disco o como O Passo do Lui, que foi gravado em 84 né?

João Barone: 84. É

Aquiles Priester: E você ouve ele até hoje e ele tem aquele negócio, parece que ele foi gravado essa semana.

Luciano Pires: Você arranca os cabelos. Você fala: imagina esses caras com a tecnologia de hoje.

Aquiles Priester: Exatamente. Então eram pessoas que eram diferenciadas né cara? E o Barone nessas aulas aqui, tipo assim, quando eu escuto ele, quando ele começa a tocar as coisas para o aluno, eu peço para o meu aluno: para de estudar. E escuta isso aqui. O som do cara vem do cara. É impressionante.

Luciano Pires: É isso aí.

Aquiles Priester: É impressionante.

Luciano Pires: É meu caro, você viu que… o Aquiles é muito generoso. Ele tem isso aí. Ele é bem generoso…

João Barone: Pra caramba.

Luciano Pires: Nos elogios. E deixa eu usar um lance aqui. Eu ouvi uma vez uma história. Eu não me lembro quem foi que contou. Se eu ouvi a história de vocês. Se era sobre vocês. Se era sobre o Lulu Santos. Se era sobre o Lobão. Eu não me lembro quem era. Era uma banda brasileira que subiu no palco do Rock in Rio. Eu não sei se foi que teve a treta depois, que tentaram tirar os caras. Se era o Roger. Era uma coisa assim. Mas o cara falou um negócio lá que foi sensacional, ele falou o seguinte: os gringos vêm aqui tocar com a gente. E antes do gringo entrar, entra uma banda brasileira e emenda oito petardos, um atrás do outro. Que era tudo número um. Ele falou: o cara entra lá e faz oito, um atrás do outro. Essa banda vem de lá, ela não consegue botar oito. Ele emenda dois ou três que são foda. E é coisa que… os brasileiros entram lá e botam cinco, seis, sete, oito petardos, um atrás do outro. Isso era anos 80. O que tinha na água de Brasília nos anos 80?

João Barone: Cara é até bom a gente explicar que os Paralamas se formaram mesmo no Rio. Porque o Bi e o Herbert falavam muito de Brasília, porque eles moravam lá, aquela patota toda do que veio a ser o rock brasiliense. O pessoal lá da Legião, o pessoal do Capital, o pessoal da Plebe Rude. Então, eu acho que o que aconteceu foi uma sinergia ali, uma coisa muito especial naquele momento histórico, da abertura política. Das gravadoras procurando outras bandas de sucesso, que tivessem aquela pegada do rock. E da maneira como estava sendo apresentada. Tem um sucesso da Blitz. Porque a Blitz foi quem abriu essa porteira para a nova levada do rock brasileiro, dessa nova geração que estava ali com aquele rock mais urbano mesmo. Um negócio com uma linguagem mais coloquial, que a Blitz capitaneou isso tudo, com aquela coisa meio teatralizada e tudo. E aí, neste rastro, veio um monte de gente, como era ali o caso do Ultraje, que também veio enfim, com essa linguagem mais direta e tudo. E os Paralamas acabaram meio que oportunamente, entrando nesse bonde também, de todas aquelas bandas que surgiram ali nos anos 80, com esses nomes esdrúxulos, ridículos. Kid Abelha. João Penca.

Luciano Pires: O que eu já ouvi dizer que os anos 80 foi uma porcaria. Que a música brasileira… e a turma se redimindo agora. Porque começa a tocar aquilo e o pessoal fica alucinado.

João Barone: É verdade.

Luciano Pires: E você vai uma atrás da outra. E você fala: cara, como tinha coisa boa nessa época.

Aquiles Priester: E têm até muitas bandas que são lado B, que você ouve a música e fala: olha que maravilha que é isso daqui. De uma certa forma, as pessoas estavam chegando numa época, começando a criar uma cena. Tinha uma certa inocência. E tinha uma carência daqueles festivais. Eu me lembro de ter ido ao Rock Foz antes do Rock in Rio. Ou foi logo depois, alguma coisa assim. Eu vi Magazine, eu vi Lobão, Doutor Silvana. Então tem um monte de bandas tipo, Eletrodomésticos. Omar e Os Ceanos. Magazine. Tem um monte de banda, que talvez você não conheça o nome, mas se tocar a música você vai lembrar. Porque tocou de norte a sul.

João Barone: E isso teve um valor, da gente criar a nossa própria cena. E você deve lembrar muito bem disso. Nessa época tocava-se mais música estrangeira no rádio.

Luciano Pires: Sim.

João Barone: Então começou a virar um pouco isso aí. Um paradigma aí de a gente ter uma produção a ponto de alterar até isso. As rádios começaram a tocar mais música brasileira, mais música feita aqui. E as gravadoras estavam atrás dessas coisas aí, que pudessem mexer com o mercado fonográfico e tudo. Estava todo mundo querendo descobrir outra Blitz. E veio um monte de gente nessa levada. Um monte de gente se deu bem comercialmente falando e tudo. E a gente teve esse momento ali, realmente muito especial, que foi essa abertura da porteira para essa geração dos anos 80.

Luciano Pires: É marcante. Ela marcou a vida de todo mundo. Eu naquela época, eu já não era um garotinho. A minha época é anterior a isso. Eu tenha uma tese que é o seguinte: tudo que marca você para o resto da sua vida, acontece nos seus 20 e alguma coisa.

João Barone: É. Pois é.

Luciano Pires: O filme da sua vida você assistiu aos 20 e poucos. A viagem da sua vida você fez aos 20 e poucos. A pessoa da sua vida você conheceu aos 20 e poucos. Tudo aos 20 e poucos. Parece que a gente é um buraco negro. E nós estamos assimilando tudo. E tudo que entra fica cara. Depois que você pega experiência, o filme já não bate tanto. Acontece ali. Eu já não estava mais. Nos anos 80 eu já estava véio. Mas cara, hoje quando toca eu pego aquilo tudo. Eu lembro daquilo tudo. E curto de montão. Mas fala uma coisa para mim, meu caro. O Aquiles cresceu. Foi parar em Los Angeles. Virou batera desse treco que ele chama de música aí. E chegou num nível legal e tudo. E, de repente, ele volta para o Brasil aqui. E você não é metal. A tua pegada é outra. Esse cara aqui, eu sei, que se quiser toca jazz agora aqui. Ele faz o que interessa. E de repente, chegam dois mundos completamente distintos. Você junta os dois. Eu brinquei com o Aquiles. Eu falei: Aquiles, um dia, essa tua energia e potência vai estar no jazz. Você vai tocar pianinho jazz. Mas vai tocar com uma qualidade foda. Porque vai ter que canalizar tudo isso. Não é para a porrada. Mas é para a jogadinha. Como que é essa união de vocês dois aí? O que é? Vocês estão mostrando dois lados da bateria para as pessoas? O que é isso? Um cara desses falando com você?

João Barone: Independente do gênero musical. Independente do estilo musical. Se você vê alguém tocando bem, seja lá qual for o instrumento, é sempre uma coisa inspiradora. E eu acho que o Aquiles, ele tem esse caráter de conseguir convencer qualquer pessoa que não gosta de metal a prestar atenção no que ele faz. Porque o que ele faz é muito inspirador. É muito sério. É muito bem feito. É muito profissional. É muito com sangue mesmo na parada, com empenho. E isso é o tipo da qualidade que você vê, seja lá qual for o estilo musical que apareça na sua frente. Se você vê alguém fazendo isso bem, você valoriza. Você dá o valor. Para nós tem muito…

Luciano Pires: Tem um algo mais vindo dali cara.

João Barone: Tem um algo mais. É a coisa da alma mesmo. E quando a gente vê isso a gente fica inspirado. Nós músicos temos essa percepção de ver quando uma pessoa está tocando bem. Aquilo te inspira. Aquilo te bota num outro patamar de energia, de percepção, de entendimento do que está acontecendo. A música é uma mensagem. Então o Aquiles é um desses caras. Eu costumo falar que ele é uma espécie de uber drummer. Tem as uber models, que são as supermodelos. Esse cara é o uber drummer.

Luciano Pires: O uber que você está falando é aquele que está lá em cima.

João Barone: Exatamente. Não é o Uber táxi. É o cara que está acima num patamar, que elevou a bateria brasileira do estilo do metal, para uma outra órbita.

Luciano Pires: Quando é que ele chamou a tua atenção?

João Barone: Eu sempre vi o Aquiles ganhando espaço na mídia. Quando eu falei: quem é esse cara? Aquiles. É brasileiro e tal. Esse cara apareceu em tudo quanto é capa da moda. E aí começou essa coisa das mídias sociais. Ele sempre lá no Facebook, depois no Instagram. Então a gente via a maneira como ele estava expandindo os tentáculos dele, dessa maneira. E foi chamando a atenção da galera toda, da comunidade de bateristas. A gente é uma comunidade muito unida. Então sempre alguém está falando do trabalho de alguém que está se destacando e tudo mais. E ele foi ganhando essa notoriedade toda. Até que um dia a gente finalmente se encontrou num festival em Fortaleza, no Ceará Music, foi em 2004, se não me engano.

Aquiles Priester: Em 2004.

João Barone: Eu fiquei sabendo que ele ia tocar lá com o Hagar e tudo.

Aquiles Priester: Era o Angra.

João Barone: Era o Angra. Desculpe.

Aquiles Priester: Quase a mesma coisa

João Barone: É. Pois é.

Aquiles Priester: Só o sucesso que é diferente.

Luciano Pires: Bota o H na frente.

João Barone: E aí a gente se conheceu finalmente no backstage. Batemos uma bola rápida e tudo. Foi um negócio muito bacana. A maneira muito respeitosa como ele chegou. Tipo: levou um tempo para ele ir contando essa história toda, essa regressão toda que ele fez aí.

Luciano Pires: Deu um frio na barriga?

João Barone: A maneira como ele…

Aquiles Priester: Ele conta essa história como se fosse só um encontrinho de shopping. Mas na verdade foi foda cara.

João Barone: Foi muito legal.

Aquiles Priester: Todas as bandas que eu toco os caras sempre sabem. Tipo assim: tem uma parte da tarde que eu vou para o hotel. Eu durmo. E pode estar acabando o mundo. Eu não quero que ninguém me ligue. Você resolve o teu problema. Não me chama, a não ser que seja um caso de vida ou morte. Então a galera sabe que para o cara me ligar para o quarto, o cara tem que estar sabendo que ele vai se foder. Eu vou gritar com ele. Eu vou tratar ele mal e tudo. E aí o Edu me liga. Edu, vocalista do Angra. E o Edu foi um cara que sempre foi muito legal. E só falei assim: porra alemão, me ligando no meio da tarde? Daqui a pouco vai ter que estar pedalando que nem um imbecil lá. Eu tenho que descansar. Cara, o João Barone está aqui no saguão, me perguntou de você. Quando ele acabou de falar João Barone, eu já estava em pé, arrumando o cabelo e descendo. Eu ainda fui atrás do cara. Cara, eu fui procurando ele assim. Eu levei um DVD meu, que eu tinha recém lançado para entregar ali para ele. Para mim foi o mesmo impacto assim, que mais tarde, em 2006, eu vi o Nicko McBrain do Iron Maiden. Para mim foi pau a pau. Foram os dois caras assim, que mudaram o meu conceito na música.

Luciano Pires: Que legal.

Aquiles Priester: Ele foi o cara que falou assim: você vai ser baterista. Olha para mim, se inspira em mim. Começa a tocar nessa batera de lata, que daqui a pouco o mundo vai ser seu. E em 2006 eu tive a chance de tocar num festival com o Nicko. Então assim, é impactante da mesma forma. Porque o Nicko me levou para o metal. E o Barone me fez tocar batera, cara. E até hoje, até hoje eu escuto o Barone. E eu simplesmente acho o cara… eu nunca tinha passado tanto tempo perto dele né?

Luciano Pires: Sim.

Aquiles Priester: E, além disso, é um cara superagradável, estradeiro pra caralho. Está sempre tudo bom. Sabe? Não tem reclamação. Não tem estrelismo. Então, eu costumo falar: graças a Deus, que eu sempre escolhi os meus ídolos muito bem. Nunca me decepcionei com nenhum ídolo, cara.

Luciano Pires: Como se a gente escolhesse. É o ídolo que escolhe a gente, cara. Não é nós que escolhemos ele não. Não é? Que legal. Tem dinheiro que pague isso, cara?

João Barone: Não, não. Realmente, está sendo uma coisa muito… está reafirmando muito essas nossas sensações assim, do que o nosso empenho devolve para a gente.

Luciano Pires: Sim. Isso aí.

João Barone: Porque quando ele me viu no Rock in Rio eu estava ali, no momento culminante da nossa trajetória ali, os Paralamas foram a última atração a ser contratada no Rock in Rio. E a gente deu o sangue ali. Foi um negócio assim, tipo: quando acabou o Rock in Rio a gente foi elevado a uma categoria de revelação e tudo. A gente vivia aqui no eixo Rio/São Paulo. E o Rock in Rio botou a gente numa vitrine mega né? Uma superexposição. E a gente passou o ano de 85 fazendo dois shows por noite aqui pelo interior de São Paulo, o Brasil afora. Enchia um ginásio, a gente tocava, esvaziava, enchia de novo, a gente tocava novamente. Com 23 anos você está querendo matar no peito e emendar de três dedos.

Aquiles Priester: Vocês bateram o recorde do Roberto Carlos né?

João Barone: É. Chegamos em Porto Alegre, enchemos o Gigantinho duas vezes numa noite. Quebramos o recorde do rei Roberto.

Luciano Pires: Cacetada cara.

João Barone: Foi um negócio. E aí o tempo vai passando. Você vai tentando ter essa inspiração, para manter esses mecanismos funcionando assim, da maneira mais bacana. De não deixar o teu trabalho virar uma coisa burocrática, uma coisa previsível. O Herbert foi um cara que sempre teve essa percepção, essa tentativa de surpreender a coisa, de um ponto de vista artístico legal. E a gente foi fazendo isso com esse ímpeto, de manter essa coisa do grande barato que é a gente tocar. A gente fazer som mesmo. A gente sempre esteve aí para isso. Não foi para ficar famoso. Não foi para ficar rico. Foi para manter isso funcionando sabe? A gente não sabia se a gente conseguiria alguma coisa além do show que a gente conseguiu fazer no Circo Voador em fevereiro de 83, a gente abrindo o Lulu Santos. Que a Rádio Fluminense começou a tocar a nossa fita demo. Aí a musiquinha foi bem. Aí botaram a gente para abrir o Lulu Santos lá no Circo Voador, que tinha uma conexão entre a Rádio e o Circo e tal. E aí a gente foi bem pra caramba. E depois desse show as gravadoras começaram a procurar os Paralamas para oferecer um contrato e tudo. E essa parada, desde o início, essa chama, desde o início, a gente tenta manter ela acesa, assim, que é exatamente esse barato de tocar.

Luciano Pires: Isso dá pano para manga. Essa curiosidade. Eu não sabia na época. Se a banda chamava Vital e Sua Moto, cantando Paralamas do Sucesso. Ou se era o Paralamas cantando Vital e Sua Moto.

João Barone: Era uma coisa muito comum naquela época.

Luciano Pires: São 40 anos.

João Barone: Vamos fazer agora em 2023.

Luciano Pires: 40 anos.

João Barone: Porque tem a pré-história dos Paralamas. A gente coloca o marco zero da banda em 83, quando a gente gravou o primeiro disco e tal. Na época inclusive era um compacto. Foi um compacto do Vital e Sua Moto. E aí a música foi bem no rádio. Daí eles falaram: vamos gravar um LP? Aí a gente arriscou tudo lá. O Herbert se virou nos 30 para fazer música para a gente ter um material para um LP. Porque a gente tocava música dos outros. A gente tocava música do Lulu, do Lobão, do Magazine. A gente não tinha um repertório ainda montado, para fazer uma hora de show.

Luciano Pires: Você que está ouvindo a gente aí, que chegou de Marte anteontem. Vital e Sua Moto é essa aqui. Mas cara, eu estava falando para você, 40 anos. Duas coisas que pintam para mim na minha cabeça. Eu queria entender um pouco aqui. Agora eu vou explorar mais ele que você.

Aquiles Priester: Claro.

Luciano Pires: Cara, 40 anos subindo num palco e tocando as mesmas músicas. Chega uma hora que enche o saco? Eu me lembro de um case interessante, que foi o pessoal lá do Los Hermanos, se recusando a tocar Ana Júlia, porque não aguentava mais. O cara falou: eu não toco mais isso. O que é uma puta sacanagem com os fãs né? Como que é isso cara, de subir num palco por 40 anos e tocar a mesma música, bicho? Ou não é a mesma música?

João Barone: É. Como eu estava falando. A gente tenta manter esses canais de motivação e de inspiração acesos. Então…

Luciano Pires: Como é que você faz isso, cara? O que é?

João Barone: A gente descobriu ao longo dessa jornada toda, os dois habitats totalmente diferentes, que é o estúdio e o palco.

Luciano Pires: Sim.

João Barone: Então, o estúdio você chega lá, é um lugar mais intimista. É um lugar que qualquer coisa que você faz aparece. E aí você tem que fazer aquela coisa bem arrumada, bem-feita, bem agulhada. E o palco é uma hora onde você pode expandir um pouco mais a sua capacidade performática.  Então é uma hora de jogar um pouco mais de água fora da bacia, espalhar brasa ali e tal. E é o que a gente sempre fez. Na hora do show o Herbert joga muito com a plateia. Às vezes, ele improvisava alguma coisa. E, às vezes, esse improviso dava tão certo que virava parte integrante daquela música e tal. Então a gente ia buscando maneiras de manipular a nossa música e essa expressão da melhor forma possível, performaticamente.

Luciano Pires: Sim.

João Barone: E aí as coisas foram acontecendo ao longo desse tempo todo. A gente foi achando meios de tornar esse momento tão legal. Uma coisa que ficasse longe de uma coisa burocrática, aburrida.

Luciano Pires: Ainda é para você? Tem show hoje à noite. Você fala: que legal.

João Barone: É legal pra caramba.

Luciano Pires: Que legal.

João Barone: A gente chama a banda de estrada. A gente foi com o tempo deixando isso claro, de como é importante. Naquela época a gente fazia muito show. Mais show do que a gente faz hoje. É claro que a gente está com a pandemia. A gente está esperando a hora de poder voltar aí para estrada. Mas hoje em dia a gente faz seis shows por mês. Sabe? Então é administrável. Não dá para você ficar de saco cheio. É legal. Você mantém isso num nível aceitável de trabalho.

Luciano Pires: Não tem aquela história de dormir em aeroporto né cara? Não precisa mais dormir em aeroporto.

Aquiles Priester: É. Isso é coisa do metal.

João Barone: Antigamente tinha essa coisa do produtor local. E as condições técnicas. Antigamente a gente viajava com um caminhão com PA antigamente, uma firma aqui de São Paulo, R4, muito boa. A gente começou a trabalhar com eles depois do Rock in Rio, porque a gente já tinha budget para poder levar o nosso PA. Então a gente levava o palco e o PA numa carreta enorme. E aí isso era assim, tipo, você tinha que ir para o sul. Aí passava 15 dias viajando no sul. Porque o produtor local fechava todas as cidades, capitais e cidades onde ia comportar o show. Aí depois você ia para o nordeste, passava 15 dias viajando no Nordeste. Aí ia para o centro-oeste, passava 10, 15 dias viajando. Isso aí com o tempo foi melhorando, porque houve um grande input na parte de infraestrutura. Então você não precisava mais levar o teu PA. Com o tempo, já no final dos anos 90, isso ficou muito mais fácil operacionalmente. Então já no final dos anos 90, você fazia um show em Fortaleza e no dia seguinte, você ia para Florianópolis. Porque a mesa já tem lá, você só tem que levar o teu equipamento.

Luciano Pires: Mais uma razão para a gente sacar como aquelas bandas dos anos 60 eram foda né cara?

João Barone: É.

Luciano Pires: Os caras eram brabos. Porque isso tudo que você está falando aí, esquece né cara? Naquela época é o PA que tinha. Era o som que tinha. E vamos detonar. E você vê aqueles caras fazendo aquilo tudo que fizeram com nada da condição técnica. Os Beatles no estádio lá. Ninguém ouvia nada do que os caras estavam tocando.

João Barone: Eles pararam de fazer show por isso. Era mais barulho vindo da plateia do que palco.

Luciano Pires: Do que deles. É isso aí.

Aquiles Priester: Outra coisa que acontecia com os Paralamas, que eu sempre ficava ligado nessas coisas assim. É que muitas vezes, quando eles estavam fazendo o disco, eles não paravam de tocar ao vivo.

João Barone: É. É.

Aquiles Priester: Eles continuavam.

Luciano Pires: Ah, vocês não terminavam…

Aquiles Priester: Não terminavam de gravar.

João Barone: Chegava fim de semana, a gente ia para a estrada.

Luciano Pires: Você sabe que eu gravei aqui o César Menotti? Eu fiz com o César Menotti. Os irmãos. E o lance deles é o sertanejo e tudo mais. E ele contando. Como é que vocês explodiram? Ele falou: cara, a gente botou na cabeça que nós íamos fazer o disco. E a gente perguntou: quem é o maior produtor? Qual é o maior estúdio? Fizemos tudo como tinha que ser feito, de cabo a rabo. Fizemos um disco impecável. E não aconteceu nada. Lançamos o disco e não aconteceu nada. E aí a gente fazendo um show lá em Minas Gerais, alguma coisa assim, um amigo do meu pai que estava lá falou: é isso que vocês têm que levar para o disco. Esquece estúdio cara. Tem que levar isso aqui. Aí eles se convenceram. O cara foi lá e gravaram o Ao Vivo deles, com a plateia berrando junto. E aí o negócio explodiu. E aí que eu tive uma sacada, que eu falei para ele, eu falei: cara, então espera um pouquinho. Então não é César Menotti a banda. A banda é César Menotti e a plateia.

João Barone: E a plateia.

Luciano Pires: Quando vocês conseguem capturar isso aqui e botar no CD, vendeu um milhão. E o cara explodiu com o Ao Vivo, fazendo o Ao Vivo ali. Que tem esse lance que você fala aí. Cara, eu não quero ouvir você um reloginho. Eu quero ouvir você dar uma gemida na hora, falar alguma coisa errada.

João Barone: É a energia.

Luciano Pires: Aquele é o grande lance né cara? Eu fiz agora uma publicação. Eu peguei um case da Ella Fitzgerald. Uma história maravilhosa. A Ella Fitzgerald vai para a Alemanha fazer uma excursão, em 1960, com a banda dela. Um trio, daqueles trios que você sabia como que era né? Os caras eram o demônio. E ela chega lá, ela vai brincar com a plateia e fala: eu vim aqui, eu vou cantar uma música que é de um compositor alemão, Kurt Weill. E ela vai cantar [inint 00:33:42]. E ela até fala na abertura: eu vou cantar. Eu não sei se eu vou lembrar da letra. Mas vamos embora. E aí começa: ta-ra-na-na… que depois, o Chico usou aqui na Ópera do Malandro. E ela vai cantando legal lá. E, de repente, ela esquece a letra. E você saca na gravação que ela esqueceu a letra. Porque ela começa a rir e começa a brincar. E aí começa: e o João Barone está na bateria. E o Aquiles está me olhando. E vai brincando. E faz a sequência da música até lembrar da letra na frente. Isso foi tudo registrado. Ela ganhou um Grammy com essa gravação, cara. Essa gravação rendeu para ela o Grammy de melhor intérprete vocal feminina em 1960. Se ela não tivesse errado, ela não ganhava o Grammy cara. Então é esse o grande lance sabe? Dessa coisa da plateia. Mas a segunda pergunta dos 40 anos é a seguinte: banda não dura 40 anos. A banda, no sucesso, ela termina. Ela para. Ela não dura 40 anos.

Aquiles Priester: Eu fui no show deles em backstage e eu vi ele e o Bi conversando. Foi em 2018. Os dois olhando um para o outro com brilho nos olhos, tipo namorada nova, sabe? Aí eu cheguei para ele e falei assim: vocês não brigam não? Vocês não mandam um tomar no cu? Vai pra puta que te pariu? Não acontece isso? Olharam um para o outro assim: não né? Não né João? Não. Tem uma magia nesses quatro. Porque tem o Zé Fortes que é o que…

Luciano Pires: É o 5º Beatle ali. O Menotti é os dois irmãos.

João Barone: O Zé é o nosso cafetão.

Luciano Pires: Eu falei: como é que os dois irmãos não quebram o pau? Ele falou: tem um 3º irmão. Esse é o cara que está no meio. Ele é que apazigua. Ele que resolve. Tem esse elemento. Como que é a receita aí, cara? Fala para mim.

João Barone: Eu acho que esse encontro realmente foi muito especial. A maneira como a gente foi interagindo ao longo desse convívio.

Luciano Pires: Vocês se conheceram como? Já eram músicos?

João Barone: O Bi e o Herbert já se conheciam de Brasília.

Luciano Pires: Sim. Mas já havia a intenção de: vou viver de música?

João Barone: A história dos Paralamas não existia antes da gente gravar um disco. Era um negócio totalmente amador. Era uma coisa totalmente [inint 00:35:59]. O nome da banda já existia. O Bi e o Herbert tinham um amigo do cursinho, que era o Vital da moto, que batucava na carteira. Ele falava: compra uma bateria. Ele comprou uma bateria velha. E aí eles já… a única apresentação que eles fizeram foi no sítio de um amigo lá perto de… eu acho que era Cabo Frio, alguma coisa assim. Eles não tinham a menor experiência profissional. Era uma coisa totalmente amadorística. Era uma brincadeira entre amigos. E quando eu conheci os dois é que eles ficaram com mais ganas de fazer alguma coisa assim, tipo: cara, que legal, o João tocou. Ficou legal pra caramba. Vamos insistir, de repente, alguma coisa acontece. E foi naquela hora que estava a Rádio Fluminense, no Rio, capitaneando essas bandas que não tinham disco. Porque gravar um disco era um negócio proibitivo. Ninguém conseguia gravar um disco. As gravadoras que tinham esse monopólio. E aí a gente gravou aquela fitinha demo, que um monte de banda mandou para a Rádio Fluminense. E a aí a fita demo com o Vital e Sua Moto começou a tocar. E a gente foi ganhando uma certa notoriedade ali. E as coisas foram acontecendo. As portas foram se abrindo.

Luciano Pires: Não teve um plano do tipo: vamos fazer uma banda para viver de música para o resto da vida?

João Barone: Não, não.

Luciano Pires: A tua origem como que é? Você chega de onde, como baterista? Dele eu já sei. Eu quero saber a tua.

João Barone: A minha história com a bateria é a de todo baterista, que nem o Aquiles. Começou tocando em lata. Eu não tinha bateria. Eu tocava em travesseiro, ouvindo disco.

Luciano Pires: Tem um João Barone na tua vida?

João Barone: Eu tive. Eu tive. Mas…

Aquiles Priester: Cara, ele entrou nos Paralamas assim, de supetão.  O batera, o Vital, ele não podia…

João Barone: É um acidente. É um encontro…

Aquiles Priester: Ele não podia fazer o show. E aí o cara falou: mas eu tenho um amigo meu aqui que… só que era tipo, sei lá, era no mesmo dia o show. Aí foram até a casa dele. Conta a história aí João. Essa história é boa, cara.

João Barone: É. Eu comecei a ter esse encantamento pela bateria, que todo baterista tem, como o Aquiles, como todo mundo. A gente tem uma associação muito forte com essas origens, é a primeira vez que você vê um instrumento. É a primeira vez que você quer tocar bateria. Você lembra disso tudo como se fosse uma foto. E comigo não foi diferente. Eu gostava muito de bateria, porque na minha casa, o meu pai ouvia muito jazz, os meus irmãos mais velhos ouviam rock de todas as vertentes. Beatles, rock progressivo, Jimi Hendrix.

Luciano Pires: Nenhum é músico?

João Barone: O meu segundo irmão mais velho tocava guitarra. Inclusive um dia, ele tinha uma banda que foi participar de um festival estudantil na zona oeste do Rio. E eles ensaiaram na garagem lá de casa. Então foi a primeira vez que eu vi uma bateria mesmo. E aí quando eles foram tomar o café, eu sentei na bateria e comecei a tocar Ticket to Ride, dos Beatles. Aí os caras vieram: o teu irmão toca? Ele falou: não, ele só brinca de forte apache. Eu nunca vi ele tocando bateria. E aí foi um negócio assim, muito espontâneo. E na minha rua começaram a me chamar de Baterista. Mas eu nem tinha uma bateria. Foi um negócio muito engraçado. E levou um tempo, até o pai de um amigo nosso, que tinha começado a aprende a tocar guitarra e tudo, ele sabia que tinha uma bateria abandonada num almoxarifado lá na universidade e tal. Aí ele pegou essa bateria para gente reformá-la. Era um caco de uma bateria. Mas aí eu restaurei a bateria do jeito que deu para a gente começar a tocar. Aí tirava música de disco dos Beatles, do Creedence. E aí uma vez, o máximo que a gente conseguiu fazer foi dar uma canja num baile lá do clube social da nossa localidade ali e tudo. E foi a única experiência que eu tive. E aí tudo começou a acontecer quando eu conheci o Bi e o Herbert, acidentalmente, como foi essa história aí meio maluca. A gente levou um ano ainda para se reencontrar. E aí o Bi, o baixista, arranjou da gente tocar num bar que tinha lá na universidade.

Luciano Pires: Cara, você não veio de uma banda?

João Barone: Não.

Luciano Pires: Você não veio de palco, de experiência…

João Barone: Não.

Luciano Pires: Nada?

João Barone: Tudo que eu consegui foi com os Paralamas. Tudo que os Paralamas conseguiram musicalmente foi a partir desse marco zero aí da Rádio Fluminense ali, aquele momentinho ali. E de 1983, quando a gente gravou o nosso primeiro disco. Então a gente foi ganhando essa experiência junto. O Herbert era o cara musicalmente mais preparado da gente. Porque ele estudou em conservatório, tocava violão clássico. Ele tinha essa noção musical. Ele foi desenvolvendo essa capacidade dele, incrível, de composição, de fazer essas letras incríveis, dessas músicas que todo mundo lembra até hoje. E aí a gente foi ganhando essa cancha. Eu e o Bi, a gente sempre foi músico intuitivo assim né? Eu nunca tive aula de bateria. O Bi também. Ele foi aprendendo a tocar baixo lá. O pouco que o Herbert ensinou para ele. E depois ele foi se esmerando no que ele fazia.

Vozes sobrepostas [00:41:02]

Aquiles Priester: Mas isso que é o mais incrível cara. Tipo assim, o Bi é um dos caras, que tipo assim, ele me chama a atenção, às vezes, de baixo, até hoje. A gente, de baixo, meio que se complementa. Porque quando é o power trio, os três têm que ser cobra criada. Não tem mais gente para tapar buraco. Entendeu?

João Barone: Exatamente. É um espaço legal.

Aquiles Priester: E quando você vê um alienígena tipo esse, que falou que nunca estudou bateria formalmente. E aí você ouve o disco Passo do Lui, tudo aquilo que ele fez e depois.

Luciano Pires: A bateria escolheu ele.

Aquiles Priester: É surreal.

Luciano Pires: A bateria escolheu ele.

Aquiles Priester: E fora assim, têm muitos músicos que são bons pra caralho e tal, tecnicamente, você fala assim: mas esse cara não sabe nem afinar a batera. E esse cara em 84 até hoje, o som que ele gravou, o disco que ele gravou em 84 é referência em som de bumbo, tom e caixa.

João Barone: É.

Aquiles Priester: E aí você fala assim: o cara não teve nem uma pessoa para ensinar o cara a afinar. Entendeu? Nunca teve um professor. Então cara, isso é surreal. É por isso que o cara é gênio né?

Luciano Pires: É. Tem algo a mais.

João Barone: Eu fico muito lisonjeado com isso tudo. O problema é que assim, a gente não sabe se conseguiria repetir tudo isso. Eu estava falando aqui. Quando a gente tocou no Circo Voador ia ser, possivelmente, a última grande coisa que a gente ia fazer. A gente não tinha essa percepção. Caralho, o que vai acontecer depois que a gente tocar no Circo Voador? Porque era o ápice.

Luciano Pires: Foi o pontapé inicial aquilo lá.

João Barone: E dali a gente começou essa trajetória toda. E foi fazendo essa jornada até onde a gente está; 40 anos depois. Isso que eu estou falando, de manter esses canais de autopreservação, de estímulo.

Luciano Pires: Você falou uma coisa que é fundamental aí cara. Se você pegar três moleques com a idade de vocês e tentar percorrer o mesmo caminho é provável que não vá dar em nada.

João Barone: Pois é.

Luciano Pires: Tem algo além aí.

Aquiles Priester: As bandas quando não têm sucesso, todo mundo é brother, todo mundo é amigo. A mulher do cara, do namorado, vai na casa, faz churrasco. Mas depois, quando tem sucesso cara, alguma coisa mística acontece e acaba. As pessoas começam a mudar. E as pessoas começam a se separar. E isso é o que afeta a banda. Entendeu?

Luciano Pires: Sim, sim.

Aquiles Priester: Eu te falo cara, eu vi eles em camarim. Eu acho que eu vi em 2004. Depois, eu me lembro que eu estava mixando o disco [inint 00:43:29] do Hangar na Alemanha, em 2009. Na semana que eu voltei eu fui no show, eu vi. Eu vi. O que eu vi em 2004, eu vi em 2009. Depois eu vi em 2012, depois em 2015, 2018. Você fala: é a mesma coisa. Entendeu? Então, não sei. Parece que os caras se escolheram. E deu muito certo.

João Barone: É. E a situação foi assim, também, de ganhar essa experiência com a mão na massa. A gente foi tentando fazer coisas que fossem inspiradoras do ponto de vista artístico para a gente. Não buscar o sucesso em si. O sucesso é uma decorrência do que a gente fazia internamente. Depois que a gente ia ver qual era o efeito que aquilo tudo estava causando, em termos da música tocar no rádio. De ter uma aceitação. De ter um sucesso comercial. Que era uma outra órbita. O Herbert sempre manteve essa coisa da coesão interna ali, da gente fazer alguma coisa que fosse artisticamente importante para a gente, para depois ver o que ia acontecer. E aí, com o tempo passando, ainda teve o acidente dele, que já fez 20 anos que teve o acidente do Herbert.

Aquiles Priester: É.

Luciano Pires: 20 anos já.

João Barone: A gente já está há mais tempo junto depois do acidente, do que antes. Então assim, a realidade para a gente já é um negócio que está cristalizado ali. A maneira como o Herbert hoje está conseguindo se inspirar. Está conseguindo fazer o que ele preza tanto, que é poder tocar, poder cantar, poder compor. Ele está produtivo e tudo mais. A gente, enfim se reinventou depois de toda aquela tragédia e tudo mais. E a gente funciona maravilhosamente bem. A gente tem ainda esse gás todo. Se dependesse do Herbert, a gente fazia um show por dia. Porque ele é o cara mais inspirado ali, mais com vontade mesmo de estar na estrada e tocando.

Luciano Pires: Da onde veio essa ideia de sair para dar aulas de bateria.

Aquiles Priester: Foi o acaso. Porque assim, quando eu vim gravar o disco do Edu Falaschi, esse disco que a gente lançou recentemente, há 20 dias. O Vera Cruz. Está sendo um sucesso. A gente está em primeiro lugar no Japão e tudo. A gente meio que se reinventou. Lançamos um disco de power metal, superatual, que as pessoas receberam superbem. E aconteceu uma coisa engraçada. Através do João Barone, que me conseguiu uma entrevista com o Liminha, o maior produtor da história aqui do Brasil.

Luciano Pires: Sim. Me ajuda a trazer ele aqui, cara. Vai dar um LíderCast de oito horas.

João Barone: Chama que ele vem na boa, cara.

Luciano Pires: Me ajuda a trazer o Liminha.

Aquiles Priester: E ele foi o cara que produziu todos os discos que eu escutei. Então assim, eu falei para ele. E ele viu que na entrevista da TV Maldita, que eu e o Gilson, que a gente fez com ele, que a gente sabia de tudo que ele tinha feito. Desde Os Mutantes, de toda aquela loucura e tal. E aí quando estava no ar assim, acabando a entrevista né cara? Vou até fazer um meio de campo aqui, que eu preciso falar. Eu falei assim: você não sente diferença assim, quando você está produzindo, os bateras? Porque ele é muito ligado em batera. E aí eu falei: você não sente diferença tipo assim, puta, agora acabei de gravar o Barone. E agora vai entrar o Zé ruela, que vai tocar. Vai fazer uma diferença grande. Mas é um trabalho né? Aí ele falou assim: porra Aquiles. O Barone deixa a gente mal-acostumado né? Então por aí você vê o nível do cara né? Aí acabando a entrevista, ele pegou e falou: quando é que você vem para o Brasil e tal? Eu falei: cara, eu estou indo gravar um disco agora, o disco novo do Edu Falaschi. Aí ele falou assim: vem gravar aqui no meu estúdio. Eu falei: o quê? No Nas Nuvens? Ele falou: é. Vem aqui gravar. Eu falei: a gente não tem budget para gravar isso aí não, cara. É um amigo nosso que vai emprestar o estúdio para a gente gravar. É tudo muito contato. Ele falou: não. Vem aqui. O estúdio é meu. Vocês são meus convidados. Através dele, que botou eu em contato. Então eu fui para lá…

João Barone: Não. O mérito é de vocês e do Liminha. Eu não tenho nada a ver com isso.

Aquiles Priester: Cara, eu fui para lá. E eu gravei o disco onde eu sempre quis estar. Entendeu? Onde os meus ídolos todos, os discos das bandas que eu sempre escutei e que eu escuto até hoje, entendeu? Às vezes, a gente está ali no ônibus, o Barone escuta uma música. Eu: olha aí, 83, 78 e por aí vai.

Luciano Pires: Legal.

João Barone: E lá no Nas Nuvens é uma super vibe né?

Aquiles Priester: Nossa… cara.

João Barone: Porra, genial.

Aquiles Priester: Eu até falei isso num documentário assim: que nesses últimos 20 anos que eu vou ao Rio, o ano passado, quando eu fui gravar o disco foi a primeira vez que eu curti o Rio de Janeiro. Porque eu sempre tive aquele negócio de tiro, Linha Vermelha; não sei o quê. Linha Amarela. E roubo e tal. Eu sempre ia cagado. E voltava. Eu queria sair o mais rápido.

Luciano Pires: Pendurar a bandeirola [inint 00:48:19]

Aquiles Priester: É. É verdade. E aí cara, eu cheguei lá. A gente foi no estúdio. Foi o Barone, foi o Sérgio Melo, foi o Guilherme Isnard, foi o Gláucio Ayala. A gente foi na casa do Juba, da Blitz, fazer uma festa lá. Foi incrível. Tipo assim, eu senti uma vibe diferente, que eu nunca tinha sentido. Então, quando eu estava ali gravando o disco, eu via a energia. Eu falei: aqui foi produzido discos assim, da história da música brasileira. Aí você entra numa sala de cima lá do estúdio, que é tipo um santuário de disco de ouro e de platina, cara. Então você vê: porra, isso aqui é tudo música brasileira. Que foi feito aqui dentro. E aí, conversando aqui, conversando ali, o disco foi um sucesso. E antes de vim gravar o disco, eu falei: bom, eu vou… como fazia sete meses que eu não viajava. Foi a primeira vez que eu fiquei sete meses em casa, em 20 anos. Eu falei: porra, eu vou aproveitar pelo menos para fazer umas aulas aí né? Porque você faz uma aula individual, usa máscara, é uma pessoa só. Fica longe. Vamos ver o que dá. E por causa das lives que eu tinha feito na TV Maldita cara, que a gente ajudou um monte de músicos que estavam numa situação um pouco pior. A gente arrecadou quase 50 mil reais. Ajudamos uma sociedade que tomava conta de outros músicos e equipe técnica. Eu e o Gilson, a gente acabou sendo o link de ligação de todos os bateras do Brasil, em estilos diferentes. Então a gente pegou gente do samba, da música brasileira, do pop, do metal, todo mundo. E virou uma comunidade assim, uma união. E aí quando eu comecei a fazer essas aulas, eu percebi queriam me agradecer por tudo aquilo que a comunidade da bateria fez. Então essas lives estão salvas. E as pessoas vão ter acesso a isso para sempre né?

Luciano Pires: Que legal.

Aquiles Priester: Para sempre. E aí as pessoas iam para as minhas aulas. E a média que eu fazia de merchandising e tal, para as aulas, simplesmente eu tinha 11 dias de aula. No terceiro dia acabou todo o merchandising. Porque vinha um monte de gente de fora para comprar as coisas. E não só os alunos, porque geralmente quem comprava as coisas eram só os alunos.

Luciano Pires: Sim.

Aquiles Priester: Começou a vim muita gente de fora para agradecer. Entendeu?

Luciano Pires: Que legal.

Aquiles Priester: Vim aqui para agradecer o que você fez e tal. E aí eu tive uma ideia de fazer uma turnê de aulas com o Kiko Freitas, que foi meu grande mestre, que me ensinou muito. Eu estava no meio daquela primeira turnê que eu estava fazendo sozinho. Eu fui à Porto Alegre tomar um café com ele. Ele entrou lá no meu ônibus. Eu falei: vamos dar uma passeada. Ele entrou e falou: nossa… que animal esse ônibus. Deve ser foda fazer uma turnê aqui. Eu falei: vamos fazer uma turnê junto. Ele falou: como assim? É. Vamos fazer uma turnê de aulas eu e você? Mas será que vai virar? Eu falei assim: cara, já virou. Aí eu fiz um anúncio, choveu de cidade. Eu fiz 32 datas. E aí eu queria repetir isso em maio e junho. Mas quando a gente fez não estava tão crítico quando está…

Luciano Pires: Sei.

Aquiles Priester: Tipo maio. E aí o Kiko falou: por causa da minha mãe e tal. E algumas coisas que aconteceram, eu não vou poder fazer agora. E aí a gente falou: mas quem que a gente pode chamar? Aí o Festinha, o Apolo Moreira, que trampa comigo há 12 anos falou: chama o Barone.

Luciano Pires: O Barone?

Aquiles Priester: Eu falei assim: caralho. O Barone? Você acha que ele ia se meter com a gente cara? Um bando de metaleiro burro? Aí eu falei assim: não. Aí ele falou assim: o não a gente já tem. Eu falei: beleza. Não custa nada. Aí escrevi para ele, eu falei: cara, o que você acha e tal? Ele falou: porra, que legal. Me dá uma ligada. Daí a gente conversou um pouco e formatou a ideia. Eu expliquei como que ia ser. E essa pergunta, eu nem fiz para ele: e aí? Está sendo mais ou menos como eu te menti que seria? Ou está tudo errado essa porra? Você só quer que acabe e você vai embora? Mas cara, o que foi o mais legal disso é que a gente está aproximando uma pessoa que nunca fez. O Barone nunca deu aula. Entendeu? Então está sendo uma experiência nova para ele. E eu tenho certeza que ele está surpreso com a importância que ele tem. Claro que todo mundo sempre falou. Desde que eu me conheço por gente, ele vencia todas as votações, desde Capricho, Manchete, Som Três, Biz. Tudo né cara? Então as pessoas sabem da importância. Mas ele nunca esteve em contato com o estudante de batera. Entendeu?

Luciano Pires: Fora de um ambiente de show…

Aquiles Priester: De show. Exatamente.

Luciano Pires: O cara em cima do palco. Agora é o tête-à-tête. Eu estou ali.

Aquiles Priester: O cara comprou um horário para ele. Ele quer ver o cara tocar. Quer ver o cara contar história. Ele quer se aproximar.

Luciano Pires: Hoje de manhã eu estou fazendo uma seleção para contratar um gestor de tráfego digital. E a gente estava entrevistando. Então hoje de manhã teve cinco entrevistas por Zoom. A gente marcou a cada meia hora um. Quando chegou uma hora da tarde era a última entrevista. E aí eu estava com tudo conectado lá. Estou eu, a Bárbara – que está no Rio de Janeiro – e o cara que eu ia entrevistar. E aí eu abri o Zoom. Quando eu abri o Zoom e eu apareci, o cara que era o último entrevistado, o cara olhou…

João Barone: Ficou branco…

Luciano Pires: Ele ficou branco. Meu, eu não esperava o Luciano Pires aí. Cara que é fã de PodCast, que ouve há 400 anos. Ele perdeu completamente… ele saiu do eixo. Ele ficou olhando assim. E aí eu já vou para cima né? Bom dia, boa tarde, boa noite. Você está aqui no Café Brasil. Aí o cara fica enlouquecido. Então, esse tipo de reação…

João Barone: Quer dizer que você é o Aquiles Priester do PodCast.

Luciano Pires: Não. Ainda não cara. Eu sou fã dele há muito tempo. O diabo não é o diabo porque é ruim. É porque é velho. Mas esse tipo de reação, que eu imagino que é essa que acontece.

Aquiles Priester: Exatamente.

Luciano Pires: No embalo do show é natural. Mas quando você está sozinho, que vem um garotão lá falar com você…

João Barone: E treme…

Luciano Pires: Você sente que ele está tremendo, que ele fala: o que é isso? O cara está ali…

João Barone: Não. Eu queria deixar aqui o meu depoimento sobre isso. Porque o que aconteceu foi o seguinte: o Aquiles me xavecou. Ele me convenceu: vai ser demais. Vai todo mundo querer ver a tua aula. Eu falei: meu, que aula? Quem tem didática é você. Você é o professor. Eu não sou professor de bateria porra nenhuma. Aí ele: não, mas sabe o que vai acontecer? Você vai chegar lá e vai falar. Vai contar a tua experiência. Isso daí já tem um valor incrível. Aí ele me convenceu de que eu poderia fazer uma espécie de um máster class individual, um [inint 00:54:53], alguma coisa assim, que eu não ia enganar ninguém. Eu digo: eu não vou ensinar ninguém a tocar bateria. Eu vou lá dizer: eu toco bateria assim. A minha experiência é essa. Você quer aprender a tocar? Tu vai fazer aula com o Aquiles.

Aquiles Priester: As aulas dele, todas esgotaram antes das minhas. Então por aí você já vê.

João Barone: O que eu estou super surpreso e super feliz de estar constatando é o seguinte: essa turma toda que o Aquiles me falou que fez questão lá de encontrar comigo. E fazer – vamos dizer – aula né? Todo mundo chega lá com um respeito incrível. Com um apreço incrível pelo meu trabalho. Pelo meu lance dentro dos Paralamas. Porque, de qualquer forma eu atribuo isso à minha banda. Porque se não fosse a minha banda, eu não ia estar aqui porra nenhuma.

Luciano Pires: Sim.

João Barone: Eu podia estar roubando banco. Eu podia estar fazendo qualquer outra coisa, criando galinha. Mas eu só sou baterista por causa dos Paralamas.

Luciano Pires: Sim.

João Barone: Eu comecei a minha trajetória com a minha banda e tudo. Então eu estou ali, dando aquela entrevista individual, contando a minha história, contando a minha trajetória, a minha jornada incrível nesses quase 40 anos. E aí eu aproveito para explicar um pouco como é que são as batidas das músicas conhecidas. Como é que eu me influenciei na bateria. Como é que eu comecei a tocar. Qual é essa parada do lance de gravar, de fazer show. E como que a gente foi se virando nos 30, ao longo desse tempo todo. E é muito legal. É muito sensível. É tudo muito emocionante da maneira como as pessoas chegam para você, esse apreço.

Luciano Pires: Sim.

João Barone: Eu tenho certeza que o Aquiles também tem isso com todos os alunos que chegam lá, na certeza de que eles vão aprender a tocar bateria de uma maneira bem-feita, didaticamente falando e tudo mais. Do ponto de vista do educador. Então eu chego lá, eu vendo o meu borogodó para esse pessoal. Eu entrego o meu borogodó para o pessoal ali. Eu falo: isso é assim, eu faço assim. O meu ponto de vista musical é esse. Aí eu vou falando do ponto de vista mais pragmático, do que você precisa para aprender a tocar qualquer instrumento, não só a bateria. Mas aquela coisa do tempo que você tem que gastar ali, se dedicando e focando para você poder dominar o teu instrumento. E aí depois passar para outro patamar, que é a parte mais emocional da coisa musical, de você interagir com outras pessoas. De você fazer a comunhão. A coisa da música do ponto de vista coletivo, que é juntar essas partes todas; para poder contar uma história legal. Música é isso: é contar uma história.

Luciano Pires: Sim, sim.

João Barone: Então você tem vários pontos de vista para se inspirar nisso daí para poder buscar essa inspiração, essa entrega da música e tudo. Então está sendo uma experiência sensacional, que o Aquiles está me proporcionando.

Luciano Pires: Que legal.

João Barone: Porque a gente está aqui chegando na… nós estamos na metade né? Sexta-feira termina né? Agora, sexta-feira, dia 18. A gente termina aqui, nessas cidades aqui em São Paulo. E a gente já está no pique para fazer outra. De repente no sul, aonde der. De repente, a gente vai coordenar direitinho para poder fazer isso com esse protocolo todo que a gente está fazendo. As aulas individuais e tudo. O Aquiles tem esse networking de todas essas escolas de música que ele fecha. Esse roteiro todo.

Luciano Pires: É um aluno por aula?

Aquiles Priester: É um aluno por aula.

Luciano Pires: E o cara senta contigo e tem uma aula contigo?

João Barone: É. Exatamente.

Aquiles Priester: O cara pode perguntar o que ele quiser.

João Barone: 50 minutos ali e 10 minutos no shopping do tio Aquiles.

Aquiles Priester: No shopping ali com o João Barone vendendo camisetinha.

João Barone: É. Que eu estou aprendendo esse negócio de merchand. Eu estou aprendendo com o Aquiles aqui.

Aquiles Priester: A gente aprendeu com ele. Esse cara aqui.

Luciano Pires: Quantos anos você faz agora, dia 25?

Aquiles Priester: 50.

Luciano Pires: 50. 50 e 58.

João Barone: É um garoto.

Luciano Pires: Mas com 50 e 58 já são senhores né?

Aquiles Priester: É o que eu sempre falo: um senhor de 50 anos.

Luciano Pires: Você eu já conheço de montão. Eu não vou perguntar isso para ele, porque eu seria indelicado. Para você eu posso. Como é o nome desse projeto de vocês aí? Como é que chama o projeto?

Aquiles Priester: Turnê de aulas particulares João Barone e Aquiles Priester.

Luciano Pires: Ok. Eu conheço bem você. Você deve ter planejado esse negócio do começo ao fim.

João Barone: Pra caramba. Muito bem planejado.

Luciano Pires: Quanto desse negócio é grana? E quanto é aquela história do legado? De deixar? De passar para a molecada? De achar os Aquiles Priester, de achar os Baroninho por aí? E deixar para essa molecada. Como que é isso?

Aquiles Priester: O que eu senti mais falta, cara. Porque assim, quando eu comecei a fazer essas lives. E as pessoas perceberam que eu estava ajudando um monte de outros músicos, que estavam numa condição um pouco pior. Eles perceberam: mas espera aí, o Aquiles também é músico. E ele também não está tocando. Ele está ocupando o tempo dele, livre, que ele podia estar fazendo qualquer outra coisa, ele está ajudando as pessoas. Então eu faço questão de comprar uma camiseta dele, um DVD dele. A minha loja me falou: você foi o único artista que a gente tem que nessa pandemia cresceu as vendas 30%. Então o próprio fã falou assim: cara, o Aquiles está fazendo uma coisa que ele está ajudando um monte de gente. E a gente não pode esquecer que ele também é uma dessas pessoas que está sem trabalho, em casa. Cara, o que eu mais senti falta – como eu te falei – eu fiquei sete meses em casa. E eu nunca tinha ficado em 20 anos. Então, isso afeta a vida de todas aquelas pessoas que estão naquela casa, da minha mulher e dos meus dois filhos. Então, a gente conviveu mais nesse último ano do que em 20 anos, cara. Então eu aprendi um monte de coisa sobre as necessidades da minha mulher, dos meus filhos. E de quantas coisas que eu não sabia. Então, a gente meio que reorganizou a vida. Mas, ao mesmo tempo me… eu sempre fui um cara estradeiro pra caralho. Na época que não existia como fazer workshop, eu ligava para as escolas e falava assim: eu sou o Aquiles Priester, baterista do Angra. Eles falavam assim: ah tá, vai tomar no cu. E desligavam na minha cara. Porque eles não acreditaram. Não acreditavam. Como que o Aquiles Priester está me ligando para fazer workshop aqui? Então, eu comecei a fazer esse tipo de coisa há 20 anos atrás. Então é parte da minha vida. Se eu não estou fazendo show, se eu não estou gravando, eu estou ensinando pessoas. E cara, eu adoro quando um cara vem e me fala assim, tipo hoje, teve um aluno, o Diego, que foi meu último aluno. Ele chegou e falou assim: você lembra aquele dia que eu vim aqui no teu workshop? E você estava aqui e você falou assim: essa batera é novinha em folha. Eu vou deixar uma pessoa tocar. Era a primeira vez que eu estava montando a minha batera. E eu fazia essas máster class dentro da minha sala de prática para 25 pessoas. E aí ele foi lá e tocou na batera. E falou assim: cara, eu preciso registrar isso aqui. Porque eu não permito que ninguém filme nada. Porque aquele momento é do cara. Então você guarda para você isso. Eu não quero isso na internet, para que outras pessoas tenham acesso a uma experiência que é tua. Então você vende dessa forma e o cara se sente melhor. Aí o cara falou assim: cara, eu saí daqui. No dia seguinte eu fui e fiz isso aqui. Me mostrou uma tatuagem do meu povo, aqui na perna dele. Então é isso que vale. A importância que você tem. Foi um ato assim, que eu falo: eu quero agradar uma dessas 25 pessoas. Eu vou deixar um cara tocar aqui na minha batera. E aquilo ali para o cara mudou a vida dele. Ele falou: a partir dali, eu voltei a fazer aula. Eu estou muito mais empenhado. Então, eu percebo que o nosso papel… eu sempre tive certeza da importância que eu tenho na vida das pessoas. E o Barone não tinha essa experiência. Mas ele sabia da importância dele. Mas só que agora ele está vivenciando isso. O cara chega na frente dele, ele pega e treme e fala as coisas. Ele fala: cara, eu não acredito que eu estou com você. Meu, teve gente que a gente teve que acalmar o cara. Chamar o cara dentro de uma sala e falar: você está bem? Só um pouquinho. Calma. Ele é de carne e osso.

Luciano Pires: Eu sei o que se passa na sua cabeça. Quer que eu diga o que se passa na sua cabeça?

João Barone: Hã?

Luciano Pires: Você olha e fala o seguinte: porra meu, mas eu só toco bateria. Como é isso cara? Eu estou mexendo na vida das pessoas. Eu só toco bateria.

João Barone: É. A gente tem uma maneira de tratar muito bem os nossos fãs. Os fãs mais empolgados, que depois do show ficam lá esperando a gente assinar um disco, dar um autógrafo, tirar uma foto. A gente faz esse tipo de prestação de conta para os fãs mais entusiasmados. Então a gente já tem esse know-how.  A gente desinfla ali. Fica tranquilo. Não precisa chorar. Está tudo certo. E isso daí é uma coisa que a gente foi ganhando com esse nosso convívio com as pessoas que têm esse apreço pelo nosso trabalho. Mas essa situação das aulas, ela passa por um outro eixo, porque quem vai lá pela paixão pela bateria e tudo. Eu percebo esse encantamento. Aí tem horas que eu me sinto, como se eu fosse um terapeuta. E aí como é que você está? Você toca há muito tempo? Vou tentando dar uma descontraída.

Luciano Pires: Quebrar o gelo.

João Barone: Aí a pessoa vai se acalmando. Eu digo: respira. Respira. Cachorrinho.

Aquiles Priester: É bem isso, cara.

João Barone: Conta até 10. Toma um pouco d’água. Então eu vou fazendo um trabalho assim meio de tentar deixar a pessoa à vontade para a gente poder bater uma bola, conversar. Tocar. Mostrar alguma coisa. É uma experiência sensacional do ponto de vista humano. Essa abordagem de você…

Luciano Pires: Muda nós. Muda nós.

João Barone: Porque você encontrar com o teu grande ídolo e começar a conversar. As pessoas têm essa coisa meio idealizada. E quando eles se deparam com isso, a reação pode ser inusitada. É um negócio muito louco.

Aquiles Priester: Cara, e tem histórias de pessoas que viajaram tipo 800 quilômetros para fazer aula com o Barone, entendeu? Porque assim, hoje a gente teve o Gabriel Coelho que é um cara canhoto, que ele monta a batera igual a dele, com banzo e tudo e toca muito bem. Uma pessoa incrível. E o cara viajou de Vitória para cá, para passar um dia, para fazer aula com ele.

Luciano Pires: E foi dia da vida dele.

Aquiles Priester: É. Tipo assim, a gente – quer dizer – o Barone permitiu que a gente organizasse uma forma desses fãs, que nunca iriam ter chance de falar de bateria com ele. É diferente de você ir num show meet and greet, que você tem dois minutos para bater uma foto. Mas esses caras têm uma hora para falar o que eles quiserem com o Barone. Sobre bateria, sobre: da onde que veio aquela ideia de Óculos? Como que você veio com aquela ideia de Óculos? Isso não tem preço. Para o cara que é fã. Teve aquele teu aluno de Pouso Alegre. Que o cara viajou 800 Km de carro bicho, para chegar lá. Trouxe tudo, de disco, de coisa assim. Estava super ansioso para ver o Barone. E ele já tinha encontrado você numa promoção da…

João Barone: Da Evans. Foi aqui em São Paulo, em 2010.

Aquiles Priester: Ele falou que o cara não parava de chorar quando viu ele. Umas coisas que a gente não sabe.

Luciano Pires: Eu sei. A gente não sabe como que atinge as pessoas. Põe no ar o trabalho da gente e fala: cara, eu só toquei bateria. Eu só gravei um PodCast. Eu só falei um texto aqui. O que é isso? E, de repente vem uma reação. A Gabi, a Gabriela está começando a empresinha dela. E está fazendo o trabalho dela, de designer de interiores. Semana passada ela apresentou um projeto para uma compradora. Uma garota também, uma menina. E a menina sentou ali e ela filmou a reação da menina quando viu o projeto. Ela foi projetando. Quando você entrar no teu apartamento vai ser assim. E a menina: caraca. Aí ela começou a ficar emocionada. Aí ela mostrou o vídeo para mim. Quando ela terminou, eu falei: você sacou que você está mudando a vida de uma pessoa?

Aquiles Priester: É isso aí.

Luciano Pires: Ela não tinha pensado nisso. Ela só está fazendo um projeto de um apartamento. Não cara. Ela está mudando a vida de alguém.

João Barone: Ela está mexendo com o sensorial.

Luciano Pires: Isso muda gente.

Aquiles Priester: Cara, o legal, mesmo a gente… vou dar o exemplo de hoje. Hoje a gente teve que acordar mais cedo do que a gente precisava. As aulas eram na Freguesia do Ó, na Bag. Só que eu tive que acordar mais cedo, porque a gente fez manutenção no ônibus. A gente trocou o motor do ônibus todo. Muito obrigado à Iveco por ter feito isso, sem me cobrar nada.

Luciano Pires: Iveco?

Aquiles Priester: É.

Luciano Pires: Isso aí cara.

Aquiles Priester: E aí o Barone teve que acordar mais cedo. Aí eu tive que deixar ele na escola. Ele ficou tipo uma hora e meia ali. A gente sempre chega meia hora antes da aula para tomar um cafezinho. Bater um papo com os caras e pau. A gente dá oito horas de aula por dia. A gente tem contato com uma média de 40, 50 pessoas por dia, que vão lá para comprar merch, bater foto. E isso é uma coisa legal, tipo, eu falei para o Barone: possivelmente a gente vai vender oito horas/aula. Mas vai passar umas 40 pessoas lá. Porque os caras vão querer te ver. E a gente permite isso. Você pode ir lá. E a pessoa não tem a menor obrigação de comprar nada. Ela compra se ela quer. Mas ela pode bater uma foto, autografar as coisas sem pagar nada.

Luciano Pires: Isso acontece nas escolas. É isso?

Aquiles Priester: Nas escolas.

Luciano Pires: Sempre escola?

Aquiles Priester: Exatamente. Aí a galera está lá, medindo se está com febre. Organiza para não aglomerar. Entra de dois em dois. Em três.

Luciano Pires: Vocês estão vendo aqui. Esse é o primeiro LíderCast mascarado da história do LíderCast. Os veinho aqui estão se cuidando.

João Barone: Bacana.

Aquiles Priester: E aí tipo assim, o Barone no final do dia fala… sabe? Não está cansado. Podia falar: puta, fora… hoje a gente acabou as aulas às oito e quinze, oito e meia. A gente jantou lá na Bag. A gente veio para cá. Estamos aqui, já são onze horas. E a gente está com uma energia boa. Porque a gente recebe isso do público.

Luciano Pires: Claro, cara. Essa é a grande… eu tenho uma carreira grande como palestrante. Então eu já… eu tenho mais de mil palestras na minha mochila. E perder o palco foi um negócio pavoroso cara.

Aquiles Priester: É isso aí.

Luciano Pires: Porque foi assim. Em março do ano passado, não tem mais palestra. Acabou. E eu perdi o palco. E aí vim fazer aqui. Então eu estou fazendo live e tudo mais. Mas cara, esse alimento. Meu, é um desespero cara. Eu chego no final do dia, eu falo: eu estou cansado. E eu ia para a puta que pariu fazer uma palestra. Eu voltava novo. Porque a plateia me deu aquilo tudo. E a gente perdeu isso. É complicado. Isso é um impacto da pandemia que ainda nós vamos entender…

Aquiles Priester: Nós vamos entender mais para frente. Quando voltar tudo.

Luciano Pires: O que vai acontecer. Mas deu 23 horas. Nós já estamos chegando no final aqui.

Aquiles Priester: Não. Beleza.

Luciano Pires: Vamos pular para chegar no final aqui. Vocês dois são, dá para dizer que são old school. Vocês vêm de uma época, que começaram lá atrás. Era outra… você tinha que desbravar tudo. Não tinha Auto-Tune.

Aquiles Priester: É verdade.

Luciano Pires: É isso aí. Como é que vocês estão vendo esse cenário da música? Eu vou falar o meu ponto de vista de fora tá? Eu como consumidor musical. Eu chego na minha casa, eu sento no meu home theatre. Eu tenho uma prateleira de CD até o teto, que eu não abro nenhum deles há cinco anos. Não compro. Nunca mais comprei CD. Eu passei a consumir música de uma forma totalmente diferente. Que a tecnologia trouxe isso para a gente. Mas isso é eu como consumidor. Então eu ganhei uma puta liberdade. Eu posso agora comprar a música que eu gostei do teu disco, sem ter que comprar o disco. Então para mim foi muito legal isso aí. Eu fiquei feliz da vida. Mas da parte da produção, aquilo tudo que surgiu que teoricamente, tornaria muito mais fácil você produzir música. Porque cara, você não precisa mais daquele estúdio com equipamento de 100 mil dólares. Você faz no quintal da tua casa, cara. Você monta um negócio arrumadinho e você faz e bota no ar. Não precisa de um canal de distribuição. Você vai no teu canal do Youtube, põe tudo ali. Então a princípio, isso chegou para facilitar. Mas não é isso que a gente viu acontecer. Eu não tenho medo de dizer que nunca se fez tanta música boa, quanto se faz hoje no Brasil. Mas ela não aparece. Não surge. Você não vê. Se você vai nos grandes canais, essa música não está lá. Ela não chega lá. Então, continua havendo alguém decidindo o que vai fazer sucesso. E se esse cara definir que vai ser pop/funk/sertanejo. Sai da frente, porque vai ser isso. E vai ter 12 bandas pop/funk/sertanejo. Daqui a seis anos, ninguém lembra mais delas lá. Como é que vocês enxergam esse momento? E o que vocês fizeram para… bom, o Aquiles eu sei que se vira. O Aquiles se der tudo errado, ele sai vendendo camiseta né? Mas assim, uma banda como vocês. Eu estou entendendo que os shows voltaram a acontecer. Mas ficaram parados um bom tempo. Agora, independente disso, eu ia fazer uma pergunta: vem vindo outro disco aí? Mas eu não sei se tem cabimento mais perguntar para artista se está fazendo um disco novo. Você está fazendo um álbum novo? Eu nem sei se isso existe mais. Ou se agora você está preocupado em produzir algo que renda live. Que da live vai vender o show. E o show vai dar o livro e o disco. É um composto; que não é mais um álbum vendido né? Eu estou muito errado nessa leitura que eu estou fazendo aqui?

João Barone: Não. De certa forma é isso. Eu acho que hoje está tudo muito diluído. Eu acho que o tão sonhado meio de você fazer uma linha direta entre o artista e o seu público, ele tem o ônus e tem o bônus. Você tem as ferramentas de mídias sociais que te dão esse canal diretíssimo com o público, que muitas vezes é muito grande né e tal. E isso está abrindo algumas aberrações, como essa busca pelas coisas… como é que se diz? Pelas unanimidades. E a necessidade de estar associado com esse sucesso. Nunca foi tão imediato né? A busca por esse sucesso garantido, das pessoas que ganham like pra caramba. E que vira um negócio opressivo. Eu me lembro que na nossa época – falando em disco – as gravadoras investiam na carreira de artistas, de bandas novas ali, como uma coisa que era promissora. Então os Paralamas são um sintoma disso. Porque a gente começou um primeiro disco incipiente, que a gente não gostou. Mas a gente foi apostando no que a gente queria fazer. No segundo, melhorou. Aí no terceiro, a gente já… foi super legal o nosso terceiro álbum. E era uma época em que se você chegasse ao terceiro álbum com uma perspectiva de que você ainda podia fazer mais coisas interessantes e tal, como se você tivesse ganhado um carimbo de qualidade…

Luciano Pires: Atração. Uma atração ali…

João Barone: Você ia em frente. E os Paralamas, depois do terceiro disco foram explorando as suas várias faces musicais. A gente não é só uma banda de rock. Não é só uma banda de reggae, não é só uma banda de afro. A gente é tudo isso. Vai misturando. Aí tem a baladona lá, bacana. E tem o rock mais pesado que a gente faz e tal. Então, naquela época a gente via como as gravadoras – como você falou – tinham um filtro muito forte na produção musical. As gravadoras tinham seus próprios estúdios. E tinham os seus próprios diretores. E cada uma tinha um cast. E investiam de alguma maneira, nessa coisa toda da promoção, dos canais para expor a música. E o controle na produção e no lucro desse cast de artistas. E aí quando isso tudo abriu a porteira, com a internet, com o estágio que a gente está agora, com o streaming. Agora a gente está vendo como fica tudo muito solto por aí. Porque a gente sabe – como você bem falou – que tem muita gente boa, tem muita coisa boa sendo feita. Mas eles não entregam mais no [inint 01:14:56] da tua casa de manhã. Você tem que ir à luta. Você tem que procurar onde é que está acontecendo uma coisa legal nos segmentos de música que você gosta, no metal, no jazz, seja lá onde for. Então você tem que ir buscar onde é que está a música. E esse que é o grande dilema de hoje em dia: onde é que está acontecendo alguma coisa legal? Você tem que estar dentro de um universo ali da tua tribo. Os meus filhos estão me mostrando coisas. Têm coisas que eu gosto. Têm coisas que eu não gosto. Então tem essa verdadeira… é um mar…

Luciano Pires: É uma miscelânea…

João Barone: É um oceano de informação. Você agarra o que você conseguir. Basicamente isso. Então, ao mesmo tempo em que democratizou pra caramba a produção musical, os meios, não ficou mais fácil. Você tem que fazer uma coisa muito bem-feita. Como o Aquiles, por exemplo, fazer essa coisa do marketing dele, de se colocar e de ir atrás.

Luciano Pires: É uma plantaçãozinha cara…

João Barone: Você vai lá…

Luciano Pires: Lembra quando eu lancei o Brasileiro Pocotó? Eu lancei um livro Brasileiro Pocotó. Foi um livro que eu lancei em 2003. E aí para lançar esse livro, que era o meu primeiro livro. Primeiro foi o Everest, que foi por uma editora. A editora fez o trabalho dela do jeito que ela quis. Depois eu lancei independente o Brasileiro Pocotó. E aí eu fiz a receita do bolo, cara. Eu peguei o livro debaixo do braço e lá vou eu. Fazendo palestra em universidade, indo visitar. Dando entrevista na TV do bispo não sei o que, lá no fim do mundo. Cara, um trabalho insano de plantação. E o livro foi um puta sucesso. Quando saiu o próximo livro eu falei: cara, eu não vou fazer aquela loucura toda outra vez. E aí eu não fiz nada daquilo. E não aconteceu nada com o livro. E aí eu tinha grana para investir. Eu botei anúncio. E não aconteceu nada com o livro. E a impressão que eu tenho é que eu não trabalhei para ele. Entendeu?

Aquiles Priester: Eu me lembro do que você me falou lá atrás. Possivelmente você não vá se lembrar. Porque eu não falei disso na outra vez. Mas você falou assim: cara, eu descobri que têm muitos artistas que vivem muito bem com aquele fã que é mais especial, de 300 a 500 pessoas, que você vai alimentando o cara, você vai… esse cara começa a ser teu fã. Ele fala para o amigo dele, que vai falando para o amigo dele. E você começa a ter um público cativo teu. Foi exatamente isso que eu fiz, através dos meus workshops. Então assim, antigamente o cara ser bom músico bastava, porque as pessoas iam atrás dele. Hoje em dia, todos os músicos, eles são bons. Porque na época do Barone não existia vídeoaula, não existia professor. Na época que eu comecei não tinha professor de dois bumbos. Hoje o Brasil é repleto de bateras incríveis; de dois bumbos. Mas uma época atrás não tinha. Então, o fato de você ser bom músico, porque você descobriu uma coisa chamava a atenção das pessoas que procuravam músico. Hoje em dia, você vai no Instagram, tem todo mundo ali. Só que então, tem esse esquema de você ser bom, fazer a tua parte que você tem que fazer dentro do teu quartinho, a pesquisa. Ser um músico diferenciado. E você tem que saber se vender. Você tem que aprender. Tipo assim: têm muitas pessoas que falam assim: puta, eu sou um zero à esquerda. Eu odeio Instagram. Mas cara, você está se limitando. Porque está todo mundo usando isso e as pessoas…

João Barone: Como uma ferramenta…

Aquiles Priester: Como uma ferramenta. E todo mundo tem voz ativa. Então, no momento que você vê uma coisa diferente. Tem muita merda. Mas quando você vê uma coisa diferente, você fala: opa, isso aqui é um approach diferente, que eu não vi ainda. Então é isso que o público busca.

Luciano Pires: Você conhece o Murilo Gun? O Murilo, eu bati um papo com ele. Eu liguei para ele, eu falei: Murilo, eu estou aí com o negócio aqui do digital. E o digital tem fórmulas. Tem mil fórmulas. Então tem que fazer não sei quantas lives. Aí eu liguei para o Murilo e falei: Murilo, eu não tenho saco para ficar usando esses ganchos. Esses modelo mental aí: fecha o carrinho hoje às 23h49min. Custa cinco mil. Eu vou te vender por 100 só hoje. Compre agora. Eu falei: cara, eu não tenho saco para fazer essas coisas, essas lives. Eu não tenho saco. Ele virou para mim e falou assim: você quer vender?

Aquiles Priester: É isso aí.

Luciano Pires: Eu falei: eu quero. Então tem que fazer cara.

Aquiles Priester: É isso aí.

João Barone: Eu me lembro de um livro que ficou muito famoso no começo dos anos 2000 ali, que era A Cauda…

Luciano Pires: A Cauda Longa, do Chris Anderson. Sim.

João Barone: Eu não sei o que ele está fazendo hoje. Mas quando eu li esse livro, eu falei: o futuro é isso. Vai todo mundo fazer um grande downside e trabalhar nessa coisa do nicho. O mercado do nicho.

Luciano Pires: Eu desenvolvi um negócio. Eu tenho uma palestra que eu fiz, que eu falo exatamente isso, eu falo: você tem um Mainstream, que é o lugar onde vive a Lady Gaga, vive o Pablo Vittar. Vive esse povo. Vive a Anitta. Esse povo está lá. E eles se entupiram de ganhar dinheiro. Só que eles não podem ir no shopping fazer uma compra. Ele não pode ir no shopping comprar. Ele não pode sair na rua. Então eles têm a vida deles lá. Aí você tem o underground, que é o motorista do Uber, tentando ganhar uma graninha para fazer gravaçãozinha do negocinho dele, que é um fodido. O cara não consegue pagar as contas dele. E aí você tem um treco no meio que eu chamei de meio stream. Que é onde estou eu. Eu nunca vou ganhar dinheiro para comprar um avião, para ter um apartamento em Paris, o cacete. Mas eu estou levando a minha vida. Qual é a diferença cara? Eu consigo ir no shopping fazer uma compra. E ninguém me enche o saco. Eu saio na rua e não tem ninguém me pentelhando. E eu não tenho ninguém…

Aquiles Priester: Eventualmente, você encontra alguém que fala: Luciano Pires.

Luciano Pires: Eventualmente isso acontece. Mas o que é isso? É o Mainstream. Então eu falei: qual é o grande lance que nós temos que fazer? Qual é o equilíbrio hoje? É entender como é que eu posso manter o controle da minha vida, ganhar o dinheiro que eu preciso para viver? E viver dignamente no meio stream? Resistir à tentação de querer pular para o Mainstream e perder toda a minha liberdade, porque eu estou lá naquele ponto né? E as bandas souberam muito fazer isso cara. Têm bandas aí que vivem do grupo deles. Ele fala: aonde eu vou essa moçada está lá. É os micro nichos. Eu acho que é por aí que vai o caminho cara. Vem cá, outro Paralamas do Sucesso tem chance de surgir?

João Barone: Não. Porque a gente jogou a forma fora. Não tem. Não tem outra.

Luciano Pires: Um cara tocando baixo, um cara tocando guitarra e um cara tocando bateria. Qual é o segredo disso?

João Barone: É a liga. É a liga. É o espiritual mesmo que aconteceu ali. Eu acho meio que a gente dificilmente vai ver alguma coisa igual. Pode ser alguma coisa que seja tão peculiar, tão impar como foi o nosso encontro, a nossa junção. Mas não vejo isso como uma coisa que possa acontecer igual aos Paralamas. Não.

Aquiles Priester: Jamais. Vocês percebem isso? Tipo assim, quando foi o momento que vocês perceberam: isso aqui, a gente tem uma coisa meio especial, que a gente não vê nas outras bandas?

João Barone: A nossa trajetória foi dando uma dessas poucas garantias que a gente tem sobre as coisas. Assim, tipo, a gente faz tudo que a gente quer, da maneira que a gente quer. Eu acho que isso é um privilégio. A gente não está enfim, abrindo mão da nossa integridade, da nossa ética. Da nossa ética artística. Para fazer o nosso trabalho. Então quando a gente tem assunto, a gente grava um disco. Eu não sei o que vai acontecer realmente, se a gente ainda vai ter essa disposição de gravar um disco old school. Porque o nosso último disco saiu em 2017, Os Sinais do Sim. E foi um disco que a gente ficou na dúvida se a gente lançaria meio parcialmente as músicas. Mas aí a gente optou por fazer como se fosse um disco antigo mesmo, de botar as 10, 11 músicas lá, disponíveis. Gravamos um CD e botar nas plataformas. E ainda vamos entender o que vai acontecer agora. Quando o mundo voltar ao normal.

Luciano Pires: Ninguém sabe de porra nenhuma.

João Barone: Exatamente. A tua camisa. É muito boa. Ninguém sabe de nada. A gente tem que agora esperar e construir tudo para ver como é que vai ser essa retomada pós-pandêmica. Mas é. A gente tem esse ímpeto, esse lado mais otimista de ao menos saber que se tudo correr bem, a gente vai continuar fazendo o que a gente gosta. Que é tocar, ir para a estrada, fazer show. E fazer o que a gente mais gosta que é encontrar com o público. Esse negócio que você falou é realmente uma coisa espetacular. Quando você está fazendo show, quando você está em contato com o público é um negócio assim, que lava a alma. É um negócio especial. A interface mesmo com o público. Aquela interação direta que eles têm com o teu trabalho, com a tua obra, com a coisa performática. É uma coisa que volta para você, que pega forte. Então a gente está esperando continuar com esse privilégio de poder fazer isso dessa forma tão intensa.

Luciano Pires: Vamos ver qual vai ser? Eu não acredito em novo normal. Eu acredito no normal possível. Alguma coisa vai rolar aí e eu acho que vai vim melhor do que era. Meus caros, eu não consigo descrever a satisfação de tê-los aqui. Sou teu fã cara.

João Barone: Porra, obrigado.

Luciano Pires: Eu sou teu fã bicho. Espera. Antes de ir embora. Espera um pouquinho. Agora o impacto meu tá? Na época de vocês era um power trio no Brasil foda e o Police na Inglaterra, foda. Outro power trio. Que eu ouvi o som dos caras e eu falei: não é possível que os caras fazem isso com três instrumentos. Vocês chegaram a abrir show deles né? Você tocou depois com o Andy Summers. Ele fez uma banda, Call the Police?

João Barone: Exatamente. Eu fui chamado para um projeto aí que é um negócio louco, fazer um tributo ao Police, com um dos integrantes. Surreal. Eu me belisco até hoje.

Luciano Pires: Eu me lembro que foi maluco lá. Eles influenciaram vocês?

João Barone: De montão. Os Paralamas eram uma espécie de Police brasileiro.

Luciano Pires: Eu não quis falar isso, porque eu achei que era muito óbvio né?

João Barone: Não, não. Pois é, mas foi óbvio. E foi a partir da nossa trajetória. A gente começou com essa influência, realmente, muito presente na nossa sonoridade, na nossa maneira de tocar. O Copeland é um cara que me fez reencontrar a bateria. Porque eu gostava muito do Ringo, dos Beatles. Como eu falei: eu cresci ouvindo muito rock dos anos 60 em casa e o caramba. E quando eu queria me atualizar ali no final dos anos 70, querendo descobrir o que estava acontecendo de novo, de recente, o Police apareceu com essa importância. Eles representaram àquela época ali do final dos anos 70, começo dos anos 80. E o Copeland foi o cara que me fez ter esse encantamento, esse reencontro com a bateria, de querer ser baterista. Era uma coisa ingênua. E só se tornou realidade a hora que eu conheci o Bi e o Herbert. Então a gente… e o Herbert também tinha o Andy Summers como uma grande influência na guitarra. E aí a gente tinha muito esse referencial do Police no começo. E a gente foi achando a nossa mão ali e tudo. Foi uma coisa que faz parte da nossa história. A gente se orgulha muito disso. Porque o Police foi uma das bandas mais importantes da história do rock. E a gente lida bem com isso, com essa referência.

Luciano Pires: Eu vou partir para o final. Cada vez que eu vou terminar aqui, eu lembro de uma coisa aqui. Que lance é esse de 2ª Guerra Mundial. Para quem não sabe, o Barone lançou um livro, contando…

João Barone: O meu velho era um pracinha da FEB. Para contar essa história resumidamente. Porque a gente podia ficar aqui horas falando sobre isso. Que é um assunto que me interessa muito. O meu velho, ele teve que ir para a guerra. Ele era um funcionário público. Não era militar nem nada. Ele teve que largar o violão, pegar um fuzil e ir para a guerra. Então eu era lá em casa o último a saber dessa história, que ele era um soldado na 2ª Guerra. Os meus irmãos falavam que ele tinha ido para a guerra. E aí, aquela imagem dele como um herói silencioso povoava a nossa imaginação e tudo. E ele era um cara muito normal, muito tranquilo. Quando ele falava da guerra, ele não falava com glamour nem nada. Ele falou que a gente teve que ir lá fazer uma missão. E nunca glamurizou o assunto. A guerra era horrível. Ele viu destruição, morte. E aí quando ele voltou da guerra, ele queria… todo mundo queria voltar para a sua vida normal. E foi o que ele fez. Ele nunca ficou falando que era herói, que era isso, que era aquilo. Mas aí eu tentei fazer um resgate do soldado Silva. É mais ou menos isso que a gente deveria fazer e não faz. Que é tipo respeitar e dar um valor para o sacrifício que esses caras fizeram lá naquela época, com seus 20 e poucos anos. Muitos morreram. E essa história do Brasil é um pouco menosprezada. Então a minha tentativa foi de resgatar o soldado Silva, que era o meu pai, que teve que ir para a guerra. E pessoas muito interessantes foram para a guerra, como o Joel Silveira, que é um grande cronista. E ele falou que ele foi para a guerra com 20 e poucos anos e voltou com 60, que ele passou nove meses lá. E o que ele viu transformou a vida dele numa pessoa mais velha, mais desgastada com aquela realidade terrível. Então era uma tentativa de… todo esse meu interesse pelo assunto e os livros que eu lancei, os documentários que eu fiz era para tentar pagar um respeito por essa turma toda que teve que ir para a guerra mesmo no Brasil. E tentar ajudar a entender um pouco o que era o Brasil da época para entender o que é o Brasil de hoje. A gente tirar as lições que a gente precisa para todo mundo entender. Eu acho saudável todo mundo discutir se valeu a pena ou não? Se a gente deveria ou não ter ido para a guerra? É saudável todo mundo fazer o seu próprio entendimento. Mas a verdade foi essa: a gente mandou 25 mil caras lá para lutar pelo lado certo.

Luciano Pires: O meu tio estava lá.

João Barone: E é uma geração que está sumindo. Eles já estão com mais de 90 anos, os que ainda estão aí, que foram testemunhas de tudo que aconteceu. Daqui a pouco não vai ter nenhum. A gente tem que contar essa história para quem não sabe. Então a minha ideia ingênua é essa. É contar essa história. Preservar. Perpetuar essa história de caras como o meu pai, eu tive que ir para a guerra.

Aquiles Priester: Tu vê: ontem chegou lá um amigo meu, o fotógrafo Gui, com um álbum do avô dele, que tinha ido para a guerra. Depois das aulas, eram oito e meia já, todo mundo cansado. O Barone cara, parou tudo. Deixa a pizza lá esfriando. Eu quero que se foda. Eu estou vendo essas coisas de guerra. Quer parar e chamar a atenção do Barone? Fala assim: o meu avô foi para a guerra. O meu pai esteve na guerra. Ele vai querer saber tua história, parceiro.

João Barone: Fala tudo. Puxa o freio de mão e conta.

Luciano Pires: O filho do Adoniran foi para a guerra, o filho do Matogrosso…

Aquiles Priester: Exatamente.

Luciano Pires: O filho do Matogrosso…

Aquiles Priester: O filho do Silva. É.

Luciano Pires: Você sabe essa história. O pai dele é o Matogrosso, que junto com o Joca, está na letra da música do Adoniran Barbosa. “Eu, Matogrosso e o Joca…” o Matogrosso é o pai dele.

João Barone: Caramba cara, que incrível.

Aquiles Priester: O Seu Bertoldo.

João Barone: Sensacional.

Luciano Pires: Legal, legal. Mas moçada, de novo cara: muito obrigado a vocês.

Aquiles Priester: Valeu véio, te cuida.

Luciano Pires: Dia 25 é dia de ligar para você.

João Barone: Conversa boa. Passou rápido o tempo. A gente nem viu.

Aquiles Priester: Quero te agradecer muito Luciano. Cara, todas vezes – eu sempre falo isso para as pessoas – de tempos em tempos a gente se encontra e bate um papo. Enquanto você falava das coisas, enquanto o Barone falava, eu já tive um monte de insights, de ideias. Agora eu já saquei: isso aqui eu vou fazer assim. Então isso que é o grande segredo. Eu acho que o grande segredo desses dias de hoje é você estar ligado em tudo que está acontecendo e falar assim: opa, isso aqui me serve. Isso aqui me serve. E não achar que você é o cara que é capaz de pensar e ter grandes ideias e fazer o negócio funcionar só através da sua experiência. A experiência das outras pessoas, que você admira, também são boas pra caralho. E essa galera que está vindo, que é mais nova, e que nunca teve garimpar e fazer realmente as coisas. Hoje em dia, um instrumento, você clica num botão, no outro dia ele está na tua casa. É diferente de quando o Barone foi montar uma batera. Ele teve que montar as peças, juntar e fazer. Então assim, tem muita gente nova, que esses caras aí, eles acham que eles são tipo: eu já consigo fazer isso. Eu acho que eu já sou autossuficiente. Mas um dia a casa a cai. E ele percebe assim, que todas essas pessoas que estão estabelecidas no mercado há muito tempo. Porque é diferente. Você faz uma coisa nova e você aparece e você está na crista da onda. Isso aí é difícil pra caralho. Mas você se manter 40 anos…

Luciano Pires: Se a raiz não descer, a árvore não fica em pé, cara.

Aquiles Priester: Mas você se manter 40 anos, uma banda tocando na rádio e enchendo show. Você tem que saber que tem coisa especial. Então você tem que estender o tapete vermelho. Tem que abrir a tua orelha. Escutar. Porque esses caras têm experiência. Então porra, para mim bicho esse encontro aqui é mágico. Porque você foi um cara superimportante assim, que viu meu potencial de vendedor. E aí você me deu a chance de ir para São Paulo. Eu fui para São Paulo, nove meses depois entrei no Angra. Ganhei o mundo e tal. E até hoje eu sou grato ao João Barone por ter me inspirado em 85, quando eu vi ele tocando. Então são essas coisas que você dá valor sabe? Eu estava certo. Quando eu vi ele, mesmo que ele não soubesse da importância que ele ia ter no futuro, ele já me impactou. E eu estou aqui com ele hoje.

João Barone: É. Pois é.

Aquiles Priester: Olha o valor disso, cara.

João Barone: Esse mundo é uma ervilha.

Luciano Pires: Vamos usar a nossa autoridade para dar um pescoção, um tapa nele. O mestre: vai aí Gafanhoto.

João Barone: Demais. Demais.

Luciano Pires: Legal. Bacana.

João Barone: Maravilhoso.

Luciano Pires: Obrigado por ter vindo aí. Aquiles: estamos juntos aí. E vamos fazer acontecer.

Aquiles Priester: É isso aí.

Luciano Pires: Mais um LíderCast delicioso aqui. Um abraço para vocês.

Aquiles Priester: Valeu.

E comemorando o dia do Cinema Brasileiro, nasce a Itaú Cultural Play, plataforma de streaming gratuita dedicada a produções nacionais. O catálogo oferece mais de cem títulos já na estreia e é composto de filmes, séries, programas de TV, festivais e mostras temáticas e competitivas, além de produções audiovisuais de instituições culturais parceiras. É só fazer um cadastro gratuito que você poderá acessar todo conteúdo e escolher se verá no desktop ou no celular.

Acesse itaucultural.org.br. Agora você tem cultura entrando por aqui, por aqui, pelos olhos e pelos ouvidos…

Vital e sua moto
Herbert Vianna

Vital andava a pé e achava que assim estava mal
De um ônibus pro outro aquilo para ele era o fim
Conselho de seu pai: Motocicleta é perigoso, Vital
É duro de negar, filho, mas isto dói bem mais em mim

Mas Vital comprou a moto e passou a se sentir total, sentir total
Vital e sua moto, mas que união feliz
Corria e viajava, era sensacional
A vida em duas rodas era tudo que ele sempre quis

Vital passou a se sentir total
Com seu sonho de metal

Vital passou a se sentir total
No seu sonho de metal

Vital passou a se sentir total
Com seu sonho de metal

Vital passou a se sentir total
No seu sonho de metal

Os Paralamas do Sucesso iam tentar tocar na capital, (na capital)
E a caravana do amor então pra lá também se encaminhou
Ele foi com sua moto, ir de carro era baixo astral
Minha prima já está lá e é por isso que eu também vou

É assim então, ao som de Vital e Sua Moto, na gravação original de 1983 com os Paralamas do Sucesso, que vamos saindo no embalo.

Espero que você tenha curtido a conversa com esses dois monstros, e eu prometo uma coisa: não será a última… ainda tem muita história pra ser contada…

O Café Brasil é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo.

Se você curte o conteúdo do Café Brasil, vai curtir ainda mais quando visitar nossa loja com as camisetas de vários programas musicais icônicos e com algumas frases muito espirituosas que serve ptra você deixar uns nervosos aí.  cafebrasilloja.com.br, tem dois ls aí, tá? cafebrasilloja.com.br.

O conteúdo do Café Brasil pode chegar ao vivo em sua empresa através de minhas palestras. Acesse lucianopires.com.br e vamos com um cafezinho ao vivo ou online.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Para terminar, uma frase de um dos grandes bateristas de jazz da história, Buddy Rich:

Uma banda mediana com um ótimo baterista parece ótima, uma banda ótima com um baterista mediano parece mediana.