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Café Brasil 789 – LíderCast Osvaldo Pimentel – Monetizze

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Luciano Pires -

Sabe quem ajuda este programa chegar até você?

É a Terra Desenvolvimento Agropecuário, que é especializada em inteligência no agro.

Utilizando diversas técnicas, pesquisas, tecnologia e uma equipe realizadora, a Terra levanta todos os números de sua fazenda em tempo real e auxilia você a traçar estratégias, fazer previsões e, principalmente, agir para tornar a fazenda eficiente e mais lucrativa.

E para você que acredita no agro e está interessado em investir em um seguimento lucrativo e promissor, a Terra oferece orientação e serviços, para tornar esse empreendimento uma realidade.

terradesenvolvimento.com.br – razão para produzir, emoção para transformar. A inteligência a serviço do agro.

Hoje bato um papo com Osvaldo Pimentel, CEO da plataforma de gestão e venda de produtos digitais Monetizze. Uma história fascinante de intra empreendedorismo, que mostra que, não importa sua origem, com obstinação é possível construir uma carreira admirável.

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você está no Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Posso entrar?

Quando criamos o Café Brasil Premium, uma ideia era ter uma Netflix do Conhecimento, que acabou se revelando muito mais que isso. É conteúdo pra dar com pau, e acabamos de lançar um plano de assinatura novo: a Academia Premium. Todo conteúdo que você precisa, mais nossos cursos online. Não perca esse é um lançamento e está em promoção: academiacafebrasil.com.br.

“Oi Luciano. Meu nome é Carla Braga, eu sou brasileira mas moro aqui em Portugal. Eu faço parte da Confraria Café Brasil e eu sou sua fã há muito tempo. Escuto seus podcasts há muitoa anos já e sou super fã do seu trabalho.

Eu estava escutando agora um dos episódios, um dos últimos episódios em que você coloca várias opiniões de ouvintes a respeito daquele probleminha que deu, aquela polêmica que deu em relação à opinião do colega e que te chamou de cuzão e tal.

E eu vi você comentando que tinha pouco feedback das mulheres, então vim aqui representar as mulheres que também são suas fãs e eu vim aqui dar meus dois minutos de opinião, né?

Em relação à crítica que foi feita, eu concordo, em parte, com algumas coisas que o colega falou, eu acho um pouco chato esse negócio de ter que depois ir lá pra escutar o comentário, ter que voltar , eu não sei se isso necessariamente vai trazer ouvintes ou não.

Mas eu também entendo seu lado, porque eu acho que nesse mundo digital a gente tem que tentar e ver se dá certo, depois tenta de outro jeito e vê se dá certo e assim vai, né? Até porque o resultado depende de como as pessoas vão perceber aquela ação, né?

Então, eu entendo que você fez duas tentativas distintas, né? Uma, pedindo pras pessoas ouvirem o comentário no site e outra dizendo que era só pra assinantes e eu entendo sua estratégia. Não sei se surtiu resultado ou não, mas eu quero te dizer que você, pra mim, é um… é quase que um ídolo mesmo, sabe? Assim, eu tenho muita admiração pelo seu trabalho, então, mesmo quando eu não concordo com você eu continuo te admirando e mesmo quando eu não concordo com algumas estratégias de marketing, eu também continuo valorizando e honrando o seu trabalho. Sou assinante do Premium, embora não consiga, como várias colegas disseram. Nâo consiga consumir o conteúdo. Não estou conseguindo mesmo.

Eu costumo dizer que quem fala que não tem tempo é porque não priorizou, mas é porque realmente o meu dia tinha que ter trinta horas. Tá realmente bem difícil. Então eu priorizo ouvir os podcasts, acabo não consumindo o conteúdo do Premium.

Mas estou super satisfeita com o seu trabalho e eu faço questão de colaborar pra que você possa continuar produzindo o seu conteúdo. E pra mim, é muito importante esse seu trabalho porque como eu estou morando fora do Brasil, eu não consigo ter uma percepção realista do que está acontecendo no Brasil, até porque, dos meus relacionamentos, da minha família e muitos dos meus amigos mais próximos, são mais vinculados à esquerda, então acabo recebendo opiniões muito enviesadas e que vão contra ao que eu acredito, né? E eu consigo a partir dos seus comentários ter uma outra percepção daquilo que eu vejo na mídia e que vejo através desses meus amigos e parentes.

Então, eu queria te agradecer muito pelo seu conteúdo. Um grande beijo.”

Essa foi a Carla Braga preenchendo a cota de mulheres ouvintes do Café Brasil.Muito obrigado pelo carinho e por entender qual é a pegada do nosso lado aqui, viu, Carla? Que é continuar produzindo conteúdo equilibrado. Sem histeria e com os pés no chão. Do seu lado aí também: dar valor ao que tem valor na sua vida. Muito obrigado pelas palavras tão gentís.

Você já sabe que a Perfetto patrocina o Café Brasil fazendo sorvetes, não é? Essa semana eu fui palestrar em Araçatuba e no hotel tinha um freezer da Perfetto. Adivinha o que aconteceu, cara? Pois é. Até o café da manhã foi lá. Tem uns picolés deles que é uma coisa de louco.

Lalá, você tá se aguentando aí, cara? É difícil, né?  Vai lá no perfetto.com.br, Perfetto sempre com dois ts ! No Instagram é @sorvetesperfettoPerfetto sempre com dois ts.

Luciano – Hein, Lalá, que é que é?

Lalá – Ah! Com sorvete #TudoéPerfetto, né?

Luciano Pires: Muito bem, mais um LíderCast. O pessoal sempre me pergunta, como é que você faz, qual é o critério para convidar as pessoas para vir para o LíderCast? Bom, critério número 1, é que vem no LíderCast gente que faz acontecer. Critério número 2, não tem critério. Aqui foi assim. Eu estou lá abrindo o meu Linkedin, e entrou no feed do Linkedin uma mensagem. “Cara, que legal, acabei de assumir uma nova posição como CEO da empresa”. Eu bati o olho, falei, “pô, aqui tem um case, tem uma história legal”. Mandei um convite, e cá estamos nós. Diretamente de Belo Horizonte, para São Paulo. São 3 perguntas fundamentais, que são as únicas que você tem que responder direitinho. Dali para frente pode chutar à vontade, que aí está entre nós aqui. Seu nome, sua idade, e o que é que você faz?

Osvaldo Pimentel: Meu nome é Osvaldo Pimentel. Eu tenho 32 anos, e atualmente sou CEO da Monetizze.

Luciano Pires: CEO da Monetizze. Isso chamou a minha atenção, CEO, que legal. Vou começar a fuçar nas suas raízes. Você nasceu onde?

Osvaldo Pimentel: Nasci em Belo Horizonte.

Luciano Pires: Belo Horizonte.

Osvaldo Pimentel: Zona Leste de Belo Horizonte.

Luciano Pires: Que legal. Tem irmãos?

Osvaldo Pimentel: Sim, tenho 5 irmãos.

Luciano Pires: 5?

Osvaldo Pimentel: É.

Luciano Pires: Família grande.

Osvaldo Pimentel: Dividido. Tenho irmão por parte de pai, irmão por parte de mãe.

Luciano Pires: O que que seu pai e sua mãe fazem, faziam?

Osvaldo Pimentel: Minha mãe é empregada doméstica, ainda é, ainda tem que trabalhar, infelizmente. Gostaria muito, no meu sonho, se fosse pensar assim, o que que você quer? Gostaria de aposentar minha mãe, cuidar dela, deixar ela quietinha.

Luciano Pires: Sim.

Osvaldo Pimentel: E meu pai é comerciante.

Luciano Pires: Seu pai é comerciante?

Osvaldo Pimentel: Meu pai tinha um Sebo de livros e discos, que ele herdou do meu avô.

Luciano Pires: Sebo de discos em Belo Horizonte. Que ano que era isso? Anos 70/80?

Osvaldo Pimentel: Ah, ele começou no final dos anos 60.

Luciano Pires: Sebo de discos, em Belo Horizonte, nos anos 60.

Osvaldo Pimentel: Isso.

Luciano Pires: Se bobear, Milton Nascimento esteve lá, fazendo compras.

Osvaldo Pimentel: Era bem perto. Era zona leste, era ali no bairro Horto, né. Para quem gosta de futebol, é onde fica o estádio do Independência. É bem pertinho, do lado de Santa Tereza. Santa Tereza, onde é o museu do Clube da Esquina. Onde tem a famosa esquina, onde tem todas as referências ali do clube, Milton, Fernando, enfim.

Luciano Pires: Eu não fui lá ainda, nesse pedaço. Mas, cada vez que eu vou a Belo Horizonte, eu invento uma moda. Então, há um tempo atrás, eu fiz um PodCast chamado Rua Ramalhete. Quando morreu Tavito, e cara, morreu Tavito, cara, essa música, na minha época, para mim ela fez parte da trilha da minha juventude. E aí eu fiz um programa em homenagem a ele. Ficou lindo o programa, ficou muito legal. Sobre a música Ramalhete, e a história do Tavito. E recentemente eu fui lá para gravar. Fui fazer uma gravação, fui fazer uma palestra para um evento, e na hora que eu saí do evento, estava meio longe do horário de embarque. Eu falei para o cara, “bicho, está longe do Ramalhete?”. Ele falou, “olha, está fora do caminho, se você quiser eu passo lá”. “Pô, vai lá cara”. E aí ele passou, eu desci, bati uma foto lá, e publiquei para a turma toda. O pessoal fica louco, né. São os lugares icônicos da música. Eu sou de uma geração que bebeu na fonte. Eu bebi muito onde Milton, Beto, Lo Borges, aquela turma toda.

Osvaldo Pimentel: Nós conversamos 3 minutos, e já trouxe 3 ideias assim. Ele deve ter aproximadamente a idade do meu pai. E tem 3 músicas, que eu ouço e lembro. “Opa, isso aqui eu ouvi com ele, conheci com ele”. A Rua Ramalhete é uma. “No muro…”, eu não vou cantar, isso é uma heresia, mas tudo bem.

Luciano Pires: “Eu vou falar no seu ouvido…”.

Osvaldo Pimentel: “Rua e seus ramalhetes…”.

Luciano Pires: Exatamente cara.

Osvaldo Pimentel: É sensacional. E marca para ele também isso, a geração. Então, é ramalhete, é uma do Odair José, Eu, Você e a Praça. “Encostei o meu carro na praça, e você um tanto sem graça, sorriu para mim”. Isso ele ouvia várias e várias vezes, ainda ouve. E o Noriel Vilela, que é Só o Ôme.

Luciano Pires: Sim.

Osvaldo Pimentel: “Só o ôme é que pode ti ajudá ah mô fio do jeito que suncê tá”. E aí quando você falou da Ramalhete, eu lembrei de tudo isso. E você ainda falou uma coisa, ali nos bastidores, sobre quase ter virado mineiro. Que me remeteu à outra história. Conta esse pedacinho para a gente.

Luciano Pires: Meu aqui? Ah não cara.

Osvaldo Pimentel: De quase ter virado mineiro. Que me interessa muito a cidade.

Luciano Pires: É, então, anos… foi 1977, que eu estava no Mackenzie, eu estava para me formar. E quando eu me formei, aliás, eu me formei em 77, eu fiz último ano de comunicação. Me formei, peguei meu certificado, e aí antes de eu mergulhar na vida, sair da vida acadêmica para trabalhar, etc. e tal, eu peguei dois amigos, falei, “cara, vamos fazer uma viagem”. Eu tenho essa característica. Sempre que eu faço uma virada na minha vida grande, eu boto uma viagem para marcar. E a viagem foi pegar um carro aqui em São Paulo, e ir para Fortaleza de carro, sem ter um caminho definido. Não é que a gente ia pegar a estrada tal, e chagar lá dia tal. Não cara, a gente vai subir. Ah, vamos pela 116, vamos pela 101. Vamos subir. E a gente ia andando, ia subindo. E quando chegamos em Minas, estava cruzando Minas Gerais de baixo para cima, a gente estava chegando no norte de Minas, mais ou menos na hora do almoço, a gente passa em uma entradinha que tem lá, e tinha um posto, um restaurantezinho bem simples ali. Eu me lembro perfeitamente que a gente passa pelo restaurante, os caras “pô, estamos com fome, para aí”. Ele breca lá na frente, a gente vem de ré, e entra nesse restaurante. Esse restaurante, era um restaurante na beira de uma estrada, entroncamento de uma estradinha que saía e ia para uma cidadezinha chamada Pedra Azul. E ali nesse restaurante, ele estava dentro da propriedade de um fazendeiro, que o cara pegou e fez um restaurante na estrada ali. A gente chega lá, estava ele e a mulher dele, e a hora que eles entram, um desses meus amigos reconhece, um deles foi professor dele cara. E aí começa uma história muito louca. A gente senta, começa a conversar, almoçamos lá, foi uma beleza. O cara falou, “cara, vocês têm que conhecer Pedra Azul”. “Tá fora do nosso caminho”. “Vocês têm que ir lá, vamos lá”. E aí ele leva a gente na cidade, chega lá e pega a garotada da cidade, as meninas da cidade, e apresenta nós 3. Três moleques de 20 anos de idade. Cara, nós ficamos 15 dias na cidade na ida, e no carnaval nós voltamos, quando a gente chegou em Porto Seguro, a gente entrou de novo em Pedra Azul. A gente veio por dentro em Pedra Azul, e passou o restante do carnaval em Pedra Azul. E ali cara, sai namorico, sai um monte de conversa, a gente conhece. Cara, quase que eu acabei ficando por lá. E foram duas passagens por Pedra Azul. Depois eu fui em uma outra vez para lá de ônibus, aquelas coisas de moleque, da juventude. E ali foi fantástico, cara. Foi assim, aquela hospitalidade mineira, que abraçou a gente como se nós fossemos filhos deles. Cara, vem para a minha casa, você vai ficar hospedado aqui, você vai sentar nessa mesa, vai comer com a gente. E éramos três garotos de São Paulo, que ninguém conhecia ninguém lá cara. A gente foi abraçado por aquela turma, puta, como eu me lembro daquilo. Foi fantástico, foi muito legal.

Osvaldo Pimentel: Eu te perguntei, porque eu cursei o pré-escolar, ali antes de entrar no ensino fundamental, em um colégio lá em BH chamado Delfin Moreira. É um colégio no formato de um castelinho. Aí na época tinha o Castelo Rá-Tim-Bum, então tinha até uma conexão. Eu via lá o Castelo-Rá-Tim-Bum, e estudava, “nossa, estudo quase no castelo Rá-Tim-Bum”. Era algo mágico. Aí eu lembro de duas coisas muito claramente até hoje. Uma delas, quando era verão, muito muito calor, o Corpo de Bombeiros ia até a escola. Aí todos nós íamos de sunga, as meninas de maio, biquininho, tudo criança. Isso aí é 4, 5 anos de idade. E tinha o banho de mangueira, com o Corpo de Bombeiros, na escola.

Luciano Pires: Na escola.

Osvaldo Pimentel: Na escola. Todas as sextas-feiras, na época de calor, tinha isso. E teve um outro fato assim, esse me marcou ainda mais. Esse aí, é aquelas memorias afetivas, que ficam ali quase que vira tatuagem, né? Quero ficar no seu corpo feito tatuagem. E como a gente gosta muito de música, eu vi que você gosta de música, eu vou ficar falando muito de música. E essa experiência que eu lembro até hoje, aquele tanto de criança, todo mundo pequenininho, nos colocaram sentados. Todos assim, a gente fala no judô, posição de agura. Aqui no Brasil, a gente fala perninha de índio. “Olha, silencio, vai vir alguém tocar para vocês”. E aí apareceu um senhor, um banquinho e um violão. Era simplesmente o Paulinho Pedra Azul. E até hoje, quando eu ouço “bem-te-vi, bem-te-vi, andar por um jardim em flor”. Quando você falou Pedra Azul, eu opa, fui lá na minha infância, lá nos meus 4/5 anos de idade. A primeira vez que eu ouvi o Paulinho Pedra Azul. E aquilo me marcou muito assim. E as coisas se conectam. Se conecta ao fato de estar em Sebo, em volta de livros, discos, de começar a gostar de música. Isso é uma coisa que marca a minha vida até hoje. E eu não vivo sem música, ouço música todos os dias. É impossível não ouvir música, eu não consigo imaginar o mundo sem música.

E quando você falou de Pedra Azul, eu já fui nisso. Nossa, que conexão, Pedra Azul.

Luciano Pires: Eu conheci o Paulinho Pedra Azul lá em Pedra Azul, cara. Ele estava por lá. Eu estava lá, ele estava por lá, o pessoal me apresentou para ele. E era uma época, saíram de Pedra Azul Saulo Laranjeira, Paulinho Pedra Azul, são caras, artistas de um nível espetacular. O Paulinho nunca foi um cara de grande sucesso musical. Mas, são aqueles núcleos de música regional, que você vê que o cara tem um conteúdo, é muito legal. Aliás, quem não conhece, escuta um pouquinho aqui.

Como é que era teu apelido quando você era criança?

Osvaldo Pimentel: Nossa, tive vários. Inclusive alguns que se a gente olhar com o olhar de hoje, até preconceituosos. Negrinho do Pastoreio, Pelé, Tizil. Aí tem um que até hoje eu não lembro bem porque que surgiu, que foi chucrute.

Luciano Pires: Chucrute é coisa alemã.

Osvaldo Pimentel: É alemão. Aí não sei, aí virou uma brincadeira. Algumas pessoas que me conhecem desde a infância, ali 8/9 anos, quando eu fui de um bairro para outro. Eu cheguei em um bairro novo, e aí, chucrute. Aí ficou chucrute.

Luciano Pires: O que que o chucrute queria ser quando crescesse cara?

Osvaldo Pimentel: Ah, advogado. Advogado, e principalmente magistrado. Eu queria muito ser juiz federal. Eu tinha isso na minha cabeça.

Luciano Pires: Como é que uma criança é influenciada para ser advogado ou juiz? O que que era? O que que chamava atenção?

Osvaldo Pimentel: Bom, lá no Horto, lá no bairro que eu cresci, na rua onde eu morava, eu morava no fundo da loja do meu pai. Então, quando chovia, tinha enchente, tinha alagamento, porque o bairro em si, era construído em volta de um ribeirão, não sei explicar. Um rio, um ribeirão. A gente fala que é o ribeirão arrudas. E nisso chovia, e alagava tudo. Então por duas vezes, deu uma enchente lá em casa, nas duas eu quase morri, mas teve uma que realmente eu quase morri mesmo. Foi muito grave. Eu contei com a ajuda do Reginaldo, um vizinho nosso que pulou na água, e me tirou, porque a correnteza ia me levar. Uma criança, isso aí eu tinha, mesma época do colégio, da história do colégio. Eu tinha 5/6 anos, quando aconteceu isso. Uma das enchentes foi essa. Na outra, eu já era um pouquinho mais velho, já estava no ensino fundamental ali, segunda série, já sabia escrever. Eu fiz uma redação no colégio sobre isso, a professora chorou com a redação que eu escrevi sobre isso. Olha, entrou água na minha casa, aconteceu isso, aconteceu aquilo outro, estragou tudo. E a minha irmã, ela trabalhava no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, como terceirizada. E quando isso aconteceu, a minha mãe, a gente teve que comprar uma geladeira nova. E aí viva o crediário, viva aqueles carnezinhos, que você vai pagando todo mês. Foi assim que a gente conseguiu comprar. E essa geladeira dava, vinha com um brinde, que era uma bolsa térmica, da mesma marca da geladeira. E a forma de reconstruir, de comprar as coisas, de até mudar para uma casa que não tinha o risco do seu filho morrer afogado pela água da enchente, foi a milha mãe fazer sanduíche, sanduíche natural. E a minha irmã vendia sanduíche junto com a mãe aonde?  Lá no Tribunal de Justiça. Então aquele ambiente para mim, era um ambiente completamente oposto, ao ambiente onde eu vivia. Opa, espera aí, aqui as pessoas são gentis, são cordiais. Bom dia, com licença, por favor, por obsequio.

Luciano Pires: Todo mundo engravatado.

Osvaldo Pimentel: Todo mundo engravatado. Então, era ali, opa, é isso que eu quero para mim. Eu quero uma outra realidade. Para eu ter isso, eu tenho que ser advogado, juiz? Entendi. Então, eu tenho que estudar, formar, para estar nesse ambiente aqui. Então, para deixar o ambiente de lá e estar aqui, eu tenho que fazer isso, tendo que estudar, tenho que formar. Ok, legal, entendi o jogo. Obrigado. Ah, mas com 7 anos você tinha essa consciência? Claro que não era dessa forma. Mas ali, eu estou falando de um sonho. De opa, eu quero viver essa realidade. Quero crescer. Tem até um samba, lindo, lindo, que é do Zeca Pagodinho, que o Zeca canta. Eu não vou lembrar se foi ele que compôs, mas acho que foi. Que ele fala, “quero estudar, me formar, ter um lar para viver, e afastar essa má impressão que de mim você tem”. Esse samba, ele é lindo. Então esse sentimento, já existiu ali. Cara, eu preciso, eu quero mudar, eu quero… isso aqui é o que eu quero para mim. Eu não quero… Ah, mas de novo Osvaldo. Com 7 anos, você tinha essa consciência? Tinha. Por que? Porque eu quase morri bebendo água de fezes de uma enchente. Então assim, é difícil falar sobre isso, mas, o que motivou todo esse sonho, foi isso. Foi toda essa motivação.

Luciano Pires: Mas isso é parte do que te construiu cara. Deixa eu te explorar uma coisa aqui. Eu, com 7 anos, eu morava em Bauru, e vivia uma realidade que me parece que é muito diferente do que hoje em dia. E eu vou eixar de lado o fato de estar na rua jogando bola até 7 horas da noite, não ter videogame, nada. Era um outro tipo de infância, né. Mas tinha uma coisa que me chama sempre a atenção, que é o seguinte. Eu estudava na escola que ficava na frente da minha casa. E aquela escola tinha todas as classes sociais, dentro da mesma sala de aula. E em volta, na minha rua, tinha todas as classes sociais. Então, tinha o cara que tinha um pouco mais de dinheiro, o cara que tinha pouco dinheiro. E na hora que a molecada estava junto, não tinha diferença nenhuma. Ninguém tratava ninguém como se fosse, eu sou o rico, eu sou o pobre. Cara, a molecada estava curtindo. Então havia ali uma, não havia uma divisão tão clara, como existe hoje em dia. Que hoje a sociedade se quebrou em guetos. O pessoal pobre, foi morar em um lugar. Eu vou usar um… você vai para o Rio de Janeiro, os pobres subiram o morro e estão lá. O pessoal mais rico está aqui embaixo, em uma outra área. A sociedade ao longo do tempo, ela foi se quebrando, e foi fazendo uma separação muito visível. Quando eu era moleque, não tinha isso. E eu nunca cresci com a percepção de que o fulano é rico, o fulano é pobre. Cara, é tudo moleque, tudo amigo. Meu melhor amigo, é um vizinho, que o pai dele tinha uma oficina mecânica, um japonesinho, a gente se divertia. Então, não tinha nada de diferença, né? E isso, foi construído ao longo do tempo. Você tinha essa percepção, quando você tinha os seus 7 anos de idade, de diferença de classe, etc. e tal. Eu entendi o que você explicou, essa história de olha, eu entrar em um lugar, que era completamente diferente de onde eu vivia. Onde eu vivia, a água entrava, e era um horror. E ali não, tem um pessoal diferente. Mas ali no teu entrono, na escola, naquela molecada que tomava banho com água do bombeiro, tinha uma percepção de que cara, eu sou pobre, e esse pessoal tem mais grana do que eu. Você viveu isso, de alguma forma?

Osvaldo Pimentel: Foi interessante, porque quando eu mudo, quando eu saio de um bairro para outro, aí eu começo a ter essa experiência que você acabou de falar, de ir para a rua, de ralar o pé no chão, perder a tampa do dedo. Então ali começa a… eu começo a ter uma interação maior. Às vezes, surgir esse sentimento, mas um exemplo, eu comecei a andar de patins. Então você compra um patins que você tem condição. Aí vem o amiguinho da rua, compra o outro que é duas vezes mais caro, três vezes mais caro. Só que existia essa parceria, de me empresta, deixa eu dar uma volta, vem cá. Você tem um videogame que é cartucho, e outro comprou um videogame que é de tecnologia nova na época, CD. “Ah, vem jogar aqui em casa”. Então, havia sim essa diferença, de fui a praia, fui ao Beto Carreiro World. Aquilo ali para a gente era incrível. E você ficava assim, pô, legal. Mas, havia essa camaradagem que você fala, essa amizade. Essa coisa do, ok, eu tenho, mas vamos compartilhar, vamos jogar juntos, eu te empresto o meu patins. Vamos, enfim, vamos para o clube. Eu tenho uma cota no clube, vamos para o clube. Então, havia essa amizade assim. Não era algo, nós contra eles. Não tinha essa narrativa, que eu acho que é o que você está falando, que existe um pouco hoje, muitas vezes, de aqui somos nós, lá somos eles. Isso não havia tão claro.

Luciano Pires: Você, ao tomar essa ideia de que quando crescer, eu quero ser aquilo, né, quero ser o juiz, tudo. Você fez alguma coisa a respeito, ou aquilo foi só a história do, quando eu crescer, eu quero ser astronauta. Você fez alguma coisa a respeito? Tipo, vou seguir esse caminho, quero me interessar, quero procurar isso aí.

Osvaldo Pimentel: No colégio, eu tive uma dificuldade na transição do pré-escolar, para o fundamental, de aprender a ler. De realmente ter uma leitura boa, de escrever. E eu lembro, eu morava com a minha mãe, minha irmã. E as minhas tias de Goiânia vinham para cá, para me ajudar. Então, era ditado, era… tinha ali uma cobrança, `de olha, estuda, aprende isso. E aí moleque, menino, você quer ir para a rua brincar. Então, foi justamente no mesmo momento, no momento em que eu mudo de colégio, mudo de bairro, eu começo a brincar na rua, começo a ter outras amizades. E aí você fica largado, eu não quero isso, eu quero me divertir.

Só que por outro lado, quando no colégio já havia aquela separação, olha, essa sala é a sala um, é para os alunos inteligentes. A sala dois, é para os alunos mais ou menos. A três, para os alunos que já não querem nada. A quatro, é para aquele que pelo amor de Deus, a professora não quer nem entrar ali dentro. E eu fui parar na sala que os professores não queriam nem entrar. Parei na sala quaro, parei na pior sala. E espera aí, por que? Não gostei disso não, estou me sentindo excluído. E casa vez que surgia um desafio, “ah, não sabe fazer isso”. Ou vinha as brincadeiras, você é burro, você está na sala quatro, porque você é burro. E aquilo me incomodava. Eu liguei as coisas. Falei, “espera aí, eu estou entendendo que educação é o caminho, mas eu não estou estudando?”. Eu quero ser inteligente, inteligente para mim, é chique. Tem até um slogan, que se a gente não falar a fonte, dá várias interpretações. Chique, é ser inteligente, dependendo da fonte que você colocar ali, opa, de onde surgiu esse slogan, você tem várias interpretações. Chique, é ser inteligente. Espera aí, comecei a estudar. Comecei a estudar muito. E aí a questão do desafio. O professor passava um exercício, vocês vão fazer aqui, um, dois e três. Aí você tinha lá do um ao dez, mas faça o um, dois e três, que é o que vocês sabem, o que vocês vão dar conta. Eu fazia do um ao dez, e ficava lá quieto, calado. Aí quando chegava na sala, “olha aqui eu corrijo do um ao três, vamos fazer até o cinco”. Eu estava lá sentado, parado. “Não vai fazer não?”. “Já fiz”. “É, já fez? Então faz no quadro”. “Beleza”. E aí eu fui passando de uma sala para a outra, até chegar na sala um. Aí na sala um, era a sala dos inteligentes. Eu lembro muito até hoje, quarta série, prova de matemática. A prova de… a famosa prova da tabuada, de multiplicação. E daí as meninas eram sempre que tiravam as maiores notas, e tinha lá um ou dois meninos que tiravam as maiores notas. O que que eu faço? Eu, mais umas duas, três meninas, a gente fecha a prova da tabuada. Coisa boba. 5 X 4 = 20. 5 X 5 = 25. Mas aquilo, na quarta série, para a gente saber fazer aquilo, nossa, eu sou um gênio, sou Albert Einstein. E aí a professora fez questão de falar, dos meninos, a maior nota foi a dele. Então assim, um intruso, né, porque é o cara que estava lá no começo do ano na pior sala, chegou a melhor sala, e ao chegar na melhor sala, em matemática, tirou a melhor nota. Aí as pessoas começaram, oi, como assim? É a mesma coisa de você repetir no ensino médio. Você repetir não, foi o contrário no ensino médio. Tem essa divisão, 301, 302, 303. 301 a melhor sala, 302 mais ou menos, 303 a pior. E aí me colocaram na 1. Era engraçado, porque meus amigos mesmo que a gente estudou juntos a vida inteira, estavam na 3. E aí todo intervalo, eu ia lá, conversava, brincava. E eles ficavam me zoando, “vai lá, você estuda com os meninos brancos”.

Luciano Pires: A 3 era a pior?

Osvaldo Pimentel: Considerada a pior.

Luciano Pires: Tá. E disseram que você vai estudar com os meninos brancos?

Osvaldo Pimentel: Não, não. Os outros amigos de…

Luciano Pires: Os teus amigos.

Osvaldo Pimentel: Faziam essas brincadeiras. “Vai lá para a 301, lá é a sala dos meninos brancos”. Porque de negros, éramos 2, 3. E aí lá na 303, era a maioria. Quando você via um aluno branco, era minoria. Então tinha essa brincadeira, quando a gente olha para aquele contexto, mas, que tinha assim…

Luciano Pires: É um retrato social, cara.

Osvaldo Pimentel: Sim.

Luciano Pires: Se você está dizendo que a sala dos inteligentes, a maioria era branca. E a sala dos que ficavam para trás, a maioria era negra, tem um retrato social aí, cara. Tem alguma coisa acontecendo no meio do caminho.

Osvaldo Pimentel: Uma escola pública.

Luciano Pires: Quer dizer, hoje em dia, quando você olha para uma situação dessa aí, isso é revoltante, né? Porque eu fico imaginando o seguinte cara. Eu aqui, moleque, 7 anos de idade, e me botaram na sala dos ruins. Qual é o impacto disso, na cabeça de uma criança, né? E aí é legal, porque em alguns isso pode bater e o cara ficar, ir para baixo para o resto da vida. E outros podem fazer como você, acionar o orgulho, né cara, acionar aquele gatilho, espera um pouquinho cara, aqui que eu não vou ficar. Eu vou sair, e vou buscar. E você se prepara para ir buscar um caminho lá. O que, de certa forma, pode desenhar o seu jeito de encarar a vida. Se você respondeu dessa forma lá, imagino que daqui para frente, cada vez que você trombou com um obstáculo, devia ser uma coisa parecida. “Ah é? Deixa eu mostrar para eles”. E aí eu vou partir, fazer acontecer, né.

Osvaldo Pimentel: Na faculdade. Na faculdade a mesma coisa. Você olha para o lado, tem 2, 3 alunos negros. Eu estudei com uma bolsa integral, em uma faculdade privada, e aí você olha, tem mais 1, 2 alunos, 1 tem bolsa igual a você, e o outro tem uma condição mínima. Está ali pagando, mas, com muito esforço. Então, como que olhando para a infância, como que é cruel. Eu vou usar essa palavra. Nós, enquanto adultos, rotularmos, criarmos esses grupos, e meio que já direcionar. “Olha, você é bom, você vem para cá. Você é mais ou menos, vem parar cá”. Não. Será que não é o caso, será não, é o caso de repensar isso. É o caso de repensar esses rótulos, repensar como a gente pensa, e conduz a educação. Educação, ela é o caminho. Não existe outro caminho. Não existe. Se a gente pensar em uma sociedade, como todos queremos, realmente com desenvolvimento, com civilidade, com urbanidade, a educação é o caminho. E educação que eu falo, não é uma educação formal, não é levar várias pessoas a escola. É uma educação sobre civilidade, sobre ser cidadão, sobre o que é direito, o que é liberdade. Coisas básicas. Uma educação sobre cultura, sobre música, sobre valores. Essa tem que ser.

Luciano Pires: Sobre integração.

Osvaldo Pimentel: Sim.

Luciano Pires: E a gente tem que ter consciência o seguinte cara. Alguns, terão mais dificuldades que outros. Alguns, tem um privilegio intelectual, nasceram com a capacidade maior. Isso sempre vai existir. Tem gente que vai aprender com mais facilidade que os outros. Isso não pode ser elemento de segregação. Tem que ser um elemento, que o grupo tem que entender, eu corro mais rápida que você. Dane-se, fica para trás que eu vou resolver minha vida. Ou, vamos dar um jeito de a gente melhorar o seu desempenho, para a gente correr todo mundo junto. E eu acho que isso aí meio que se perdeu no meio do caminho. Hoje em dia, nós estamos muito fragmentados. Está muito dividido. Virou uma competição bastante… O que que eu li essa semana? Cara, foi um texto, eu não vou me lembrar de quem foi o texto, cara. Eu li essa semana aqui. Que ele fala, acho que foi de Albert Einstein. Que ele fala sobre o lado soft, e o lado hard, que a sociedade aprendeu a dar valor para o lado hard, e deixou o lado soft de fora. Isso acaba levando a gente para um momento em que só vale o resultado que você tiver na planilha. Se a sua planilha der 5, 10. Se der 4,5, você está segregado, e você não me interessa mais. E tudo aquilo que você pode trazer. Até tem uma experiência interessante, que eu fiz alguns encontros depois de formado, com a molecada, e fiz um encontro de 40 anos de formado, lá no colégio, muito tempo depois. E o colégio tinha um esquema interessante. A nossa sala de aula, tinha os bons estavam na carteira da frente, e tinha a turma do fundão, que era uma zona. Isso era natural.

Osvaldo Pimentel: Onde eu sempre estive.

Luciano Pires: Não era o professor que punha a turma lá. A turma se juntava no fundão, no fundão que eu posso bagunçar. E 40 anos depois a gente se encontra, e os caras que estão melhor na vida, era a turma do fundão. A turma do fundão estava em condições… porque os caras do fundão, aprende a viver, aprende a loucura da vida. Podem não aprender, “olha, eu não sou tão bom em matemática, em geografia, quanto o cara da primeira carteira. Mas aqui eu sou da putaria, cara. Eu sei o rolo. Eu viro negociante, né?”. E esses caras acabam se dando bem, porque a vida exige uma serie de atributos, que não são necessariamente educação formal, né? E quando a gente bota o seu certificado, o seu diploma que vale, você está perdendo todas as cores do ser humano. A vida fica em preto e branco, não tem cor.

Mas, me conta uma coisa aqui. Eu tinha te perguntado então, você tomou alguma providencia, para seguir no caminho, sabe, eu vou apontar para me tornar um advogado, e logo vou por esse caminho. Ou, mudou a sua visão no meio do caminho? De repente, vou jogar bola, quero ser músico, quero ser astronauta, quero ser… Como que foi?

Osvaldo Pimentel: eu queria muito, formar em Direito, ser doutor. Isso para mim, ser chamado de professor, é um orgulho. Isso para mim, “professor”. Isso para mim, é tudo assim. Esse título é importante. Então quando eu falo de doutorado, não é pelo título. Mas, é olha, você chegou no ponto, olhando para a educação formal, que é o ápice. É pegar esse conhecimento agora, e multiplicar, e levar. E outra, você é exemplo, você mostrou que é possível. Sempre que eu penso em seguir a carreira acadêmica, é para isso. É para lecionar, e para mostrar que é possível para as outras pessoas. A minha irmã, ela vai estudar Direito, então ela já tinha ali alguns livros. Eu sempre peguei o material para ler, alguma coisa, estudar, aprender. Então assim, tendo essa ideia de quero essa formação, quero essa profissão, a ação seguinte foi estudar mesmo. Não tinha outro caminho. E estudar assim, com muita incerteza, porque eu estou estudando. Mas, será mesmo que eu vou passar em uma universidade Federal? Será mesmo que eu vou ter recurso para pagar uma universidade privada, se eu não conseguir passar em uma Federal?

Luciano Pires: E você tinha definido, é Direito que eu vou querer?

Osvaldo Pimentel: Direito, nunca pensei em outro curso. Nunca. Nunca tinha pensado em outro curso. Tinha pensado assim, até hoje penso, em cursos que vão agregar mais conhecimento. Mas, o principal é Direito, sempre foi. Pela ideia de justiça, de liberdade, de realmente falar sobre direitos, de levar os direitos a sério. Quando eu estudei história, lá no ensino médio, ensino fundamental, as revoluções burguesas elas marcaram muito. Essa ideia de cortar a cabeça do rei em praça pública. Uma ideia que até hoje eu penso uau, esse povo realmente tem, merece respeito. Então assim, e você fala em liberdade, fraternidade, igualdade. Claro, ali, quando a gente olha para esses direitos, estavam na mão de um determinado grupo. Mas, o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade, desses valores democráticos, isso é muito forte. Isso é universal. A gente pode questionar como as coisas aconteceram, questionar fatos históricos, tudo bem. Mas, para mim, esses valores eles são maiores que tudo isso. Esses valores realmente são o norte, o que pode conduzir a gente para ter uma sociedade melhor. Que quando você falou do Einstein, de hard e soft, o Japão, o trem-bala japonês, famoso pela qualidade, agilidade. E ele viveu no começo um problema de projeto, porque ele fazia muito barulho. Então, os prédios trepidavam, poderia causar ali o desabamento, alguma coisa. E nesse momento, o lado técnico apenas não resolvia o problema. E aí tinha um dos engenheiros, que o hobby dele era olhar, observar passarinhos. Eu não sei o nome especifico, substantivo que define isso, quem gosta de observar passarinhos. E ele conhecia um passarinho que ele mergulha, para pescar. Eu acho que é um pescador.

Luciano Pires: Mergulhão, deve ser.

Osvaldo Pimentel: Mergulhão, pescador, um negócio assim, que ele mergulha, e pesca. E aí ele sugeriu, que os trens tivessem aerodinâmica lá do bico desse passarinho, para justamente não ter esse problema de barulho. Então, como que um hobby, trouxe uma solução técnica para um problema. O lado soft da coisa, da criatividade.

Luciano Pires: Claro. Deixa eu dar uma voltinha aqui, que você falou uma coisa aqui que passou batido lá atrás, eu gosto de voltar. Vem cá cara, como é que se cria e se alimenta 5 filhos? Quando eu penso isso hoje, espera aí, 5 filhos. Eu vou ter que dar comida para 5, eu vou ter que pagar escola para 5. Eu vou ter que vestir os 5. Hoje em dia é um absurdo, não tem dinheiro suficiente para pagar uma coisa dessa. Com o seu pai tendo um sebo, sua mãe empregada doméstica, como é que você cria 5 crianças? Ou não foram 5 em um tempo, naquela época eram menos? Como que era? Houve algum tempo que tinham 5 crianças dentro de casa?

Osvaldo Pimentel: Não, nunca houve 5 dentro de casa.

Luciano Pires: Ah ok, tá.

Osvaldo Pimentel: Porque a minha mãe tinha, tem, 3 filhos, e meu pai 3 filhos. E aí criações diferentes, momentos diferentes. Então, meu pai teve a primeira filha com outra mulher, depois eu vim. Depois meu pai teve mais 2 filhos. Minha mãe teve minha irmã muito nova, foi expulsa de casa pela minha avó aos 17 anos. E aí é uma história linda, que minha avó anos, agora recentemente, uns 4/5 anos atrás, desculpa. Desculpa por ter feito isso com você. Minha mãe, “calma mãe, passou”.

Luciano Pires: Depois de uma vida.

Osvaldo Pimentel: Depois de uma vida inteira. Mas, é o contexto, a sociedade. Você ser mãe, de uma jovem de 17 anos, que vai ser mãe. E o comentário dessa sociedade envolta, isso no interior de Goiás. Então, uma sociedade conservadora. E aí a reação dela foi essa, de ah, vou expulsar minha filha de casa. Não sei se na visão dela isso iria retomar a dignidade, falar olha, a filha dela fez isso, mas, ela foi digna, expulsou a filha de casa. Fez o certo. Não sei qual era a visão. Mas, foi o que aconteceu. E é bonito, anos depois, ver esse pedido de desculpa. E aí tem essa diferença. Então, eu cresci basicamente com a minha mãe, a minha irmã, e meu irmão. E meu pai, com os outros 2 filhos, enfim. Aí tinha a primeira filha dele, que era de outro relacionamento. Enfim, é uma história, é uma composição familiar.

Luciano Pires: É um caldeirão.

Osvaldo Pimentel: É uma composição familiar bonita. Por que? Quando o meu pai teve o primeiro filho depois de mim, que é meu irmão Luiz, estava com outra mulher, o Luiz, havia um ciúmes muito grande. E ela… hoje eu chamo ela de tia, peço benção quando eu vejo, a mãe dos meus dois irmãos, Luiz e Gabriel, a Vera. E ela não deixava a gente se ver, enfim, existia ali um ciúmes. E meu irmão fica doente, meu irmão contrai pneumonia. Ele quase morre, muito magro, muito novo. Meu irmão tinha 3/4 anos de idade. Eu sou 1 ano mais velho. Hoje, é aniversário do Luiz, estou contando essa história hoje, no dia do aniversário dele.

Luciano Pires: Legal, parabéns.

Osvaldo Pimentel: E ele fica sem querer comer no hospital, aquela comida de hospital, ele não quer comer, e sem comer o quadro só piora, só se agrava. E todo mundo, o que você quer? Você quer um sanduíche, você quer um brinquedo, o que você quer? O que vai te fazer feliz, te fazer querer recuperar? “Quero ver meu irmão”, que era eu. E aí eu fui até o hospital, entrei na UTI, até hoje não pode, criança não pode entrar na UTI, mas, não tinha muito o que fazer. Ou você entra lá, ou ele vai morrer. Então, que seja. E a única comida que ele aceita comer, é da minha mãe. E ele se recupera.

Luciano Pires: Da sua mãe?

Osvaldo Pimentel: Da minha mãe. A comida da minha mãe, ele comeu. Não comeu comida do hospital, não comeu a comida da mãe dele. Não queria ver ninguém, queria ver o irmão dele. E se recupera. Então assim, é um caldeirão, igual você falou. São vários sentimentos. E olhar, esse olhar em retrospectiva, ele deixa isso muito claro assim. Só que, quando você está no turbilhão, até quem sou eu para dar conselho para alguém, mas, quando nós estamos vivendo o momento, no turbilhão de emoções, a gente não tem a tranquilidade, a maturidade de compreender. A gente não consegue ligar os pontos. Então hoje é muito fácil olhar a retrospectiva, e ligar esses pontos, e falar, nossa, pareci que era um caldeirão sem fim, que não ia terminar. E olha como que a história foi conduzida. Então, é ter essa tranquilidade para esses momentos de, olha, calma. O tempo, o maior alquimista de todos, ele ajuda a resolver essas coisas.

Luciano Pires: É, você não pode entrar na histeria, né cara. É aquela história, estou dentro do campo no meio do jogo, apanhando de 7 X 1, e no meio do jogo eu não consigo enxergar. Vai para a arquibancada, dá uma olhada de longe, sabe, acalma. Não é fácil fazer, mas acho que faz parte do processo. Você, teu pai e tua mãe, em algum momento, teu pai é negro, e sua mãe também é negra?

Osvaldo Pimentel: Não. Meu pai é branco, minha mãe é negra.

Luciano Pires: Sua mãe negra. Em algum momento…

Osvaldo Pimentel: Meu avô branco, e minha avó negra.

Luciano Pires: Seu avô é branco, sua avó negra. Em algum momento, a questão da negritude, enquanto vocês eram crianças, né. Vocês foram orientados por ele de alguma forma de que sabe, o mundo lá fora é meio complicado. Vocês vão sofrer um tipo de pressão, que o seu amiguinho branco não tem. Você teve esse tipo de conversa, alguém trouxe esse assunto para você, para vocês como criança. Para você falar, tem alguma coisa, vai acontecer alguma coisa lá fora, que pode nos ferir, pela forma como a sociedade funciona. Você teve algum tipo de aviso deles, se prepara, porque aquela história que a gente sempre escuta. Você, pela sua cor, vai ter que fazer o dobro. Vai ter que provar que você é muito melhor que os outros, porque além da dificuldade natural, tem a outra de um preconceito, etc. e tal. Você teve algum tipo de input assim?

Osvaldo Pimentel: Esse tipo de discussão, até na própria sociedade, há 20, 25 anos atrás, não era algo tão forte. E hoje, tendo uma filha com 1 ano e 6 meses, eu me considero preparado para levar isso para ela, para falar sobre isso. Mas, na época, isso a gente aprendeu na rua. A gente aprendeu na rua. O comentário, quando eu mudei para um bairro diferente, cadê o pai? Mae solteira, você sabe. Então, era o tipo de coisa, esse menino… te falei várias vezes sobre música, sobre gostar muito de música. No começo da adolescência, até por causa do Smells Like Teen Spirit, a gente começava a gostar do rock and roll. Ouvir metal. A minha banda favorita era o Nirvana, andava com camisa do Nirvana, Black Sabbath, Jimmy Hendrix, Led Zappelin. Adorava, até hoje ouço música. E o Hendrix falou isso em uma entrevista. Existe música boa, e música ruim. Ponto. Não existe estilo musical, ritmo musical. Tem música do jazz, que é ruim. Tem jazz que é maravilhoso. Tem música lá que você vai ouvir de determinado estilo, que é boa, que é ruim, enfim. E aí nessa fase, “maconheiro, porque anda de camisa de banda”.

Luciano Pires: Os rótulos.

Osvaldo Pimentel: Rótulos. Daí você começa a entender um pouco sobre isso, por causa desses rótulos. Negrinho do Pastoreio. Quando você namora, começa a namorar ali com 13 anos uma menina, e ela não vai te mostrar a mãe dela, família dela. Primeiro, porque você é pretinho. Mae dela é evangélica. E aí pô, que história é essa? Você frequenta centro? Já foi em centro de umbanda? Que história é essa? Isso é macumba, isso é bruxaria. E aí vem o fator principal de tudo isso, a ignorância. A ignorância de não conseguir olhar para o outro, de não conseguir perceber o outro. O que ativou em mim, sendo bem objetivo nessa pergunta, na minha resposta, é, a música. De novo, e principalmente o rap. Então você falou aí, quando perguntou, duas coisas que por exemplo, o Djonga, que é um rapper lá de Belo Horizonte, ele tem uma rima que ele fala. É como se a avó dele, falando para ele. “Filho, você já é preto, não sai desse jeito, que eles já te olham torto”. E aí quem foi o grande motor, a grande figura que trouxe isso bem claro, não só para mim, mas, para vários amigos. Isso a gente conversava no ensino médio, cantava as músicas, Racionais MCs. “A vida é um desafio, você citou sem saber. Você tem que ser duas vezes melhor. Não basta você estar ali, você ter qualidade. Você tem que ser duas vezes melhor. Que a vida é um desafio”.

Quando a gente ouvia isso, preto e dinheiro são palavras rivais. Então mostra, aí tem um palavrão na letra, como é que faz. Eu ficava ouvindo aquilo, falando pô cara, é isso. E aí junta a questão do orgulho. Lembra do orgulho do menino que está na sala dos piores. Que pô eu não sou pior, eu vou mostrar para você que eu não sou. Quando você tem isso, ouve essas músicas, já tem isso dentro de você, a coisa explode. E aí quando a coisa explode, você é rebelde, você é revoltado, você está no lugar errado.

Luciano Pires: O sistema vai sempre tentar botar você em uma caixinha, né.

Osvaldo Pimentel: E a caixinha da educação formal, da professora do primeiro ano do ensino médio, mandando a gente ler. Não que não seja importante, não é isso, não é essa a discussão. Mas, ela querendo trazer para a gente a fase dos românticos, Lord Biron. Cara, e é legal, não estou questionado isso. Mas, quando você ouvir Racionais, pô, a realidade é essa. E aí caiu na minha mão, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Cara, eu quero ser esse cara. Esse cara falou tudo, ele não tem rabo preso com ninguém, ele chega ali e fala quem ele é. E eu quero ser isso. E opa, como Brás Cubas, quando eu boto a camisa de uma banda de rock, ando com a camisa do Black Sabbath, com um crucifixo, todo de preto, com coturno, eu estou mostrando quem eu sou, naquele momento. E aí vem a ideia idiota do rótulo, de achar que aquele momento vai ser eterno. E não é. É aquele momento, a minha adolescência foi aquilo. E me ajudou a ser esse adulto hoje. Mas, as pessoas têm essa necessidade de falar e rotular, olha, você é isso, e acabou. E não é assim.

Luciano Pires: É um maconheiro para o resto da vida, né.

Osvaldo Pimentel: E aí essa construção da identidade negra, é um projeto realmente de construção, e de entendimento. E hoje, eu vejo isso muito mais fácil. A minha filha, de novo, com 1 ano e 6 meses, ela adora músicas da Xuxa. Adora. Fica ouvindo aquele Xuxa só para baixinhos. E aí opa, a gente não tinha uma paquita negra. A paquita tinha que ser loura, branca, no Brasil. Ah, não estou entendendo o que você quer dizer Osvaldo. Não está entendendo? Olha os dados do IBGE, olha os dados históricos do IBGE. Se a nossa população é aquilo ali.

Luciano Pires: Não precisa nem olhar. Você lembrar. Você lembra da Xuxa com as meninas, era tudo… aquilo não era brasileiro aquilo. Era um estereótipo anglo-saxão, que a sociedade impôs para a gente de alguma forma. E uma coisa interessante que você está falando. A tua filha tem que idade?

Osvaldo Pimentel: 1 ano e 6 meses.

Luciano Pires: Cara, ela tem hoje um conjunto de referências que você não teve. Se ela ligar a televisão hoje, ela vai ver a Iza em todos os canais, com aquela exuberância de beleza, tomando conta, cara. Ela vai ligar a televisão, e vai ter gente, negros, em posições que nunca… Teve um presidente dos Estados Unidos. Então, há hoje uma série de modelos, que você fala, pô cara, olha aqui, os caras estão arrebentando. Você vai para a música, os caras dominaram, né. Então, ela está em uma sociedade que é diferente. Ainda existem uma porrada de problemas, mas, ela já tem onde se agarrar. Outro dia eu estava conversando com alguém, não lembro se foi no LíderCast aqui. Mas, estava falando exatamente isso, e ele dizia o seguinte. “Cara, na minha época, o que eu tinha na televisão? Eu tinha o Mussum, e eu tinha mais dois caras na televisão. Não tinha mais nada”. Não havia referência nenhuma, né? Hoje em dia, a sociedade mudou completamente. Então, ela vai olhar, ela vai encontrar as heroínas que vão ter o tom de pele parecido com o dela. E acho que isso faz uma diferença, na hora de você construir tua identidade. Você foi buscar, né? Não sei se na sua época tinha tanta referência assim. Hoje, você vai no esporte, os caras dominaram o esporte, os caras dominaram a música. Estão dominando várias áreas. Você chega CEO da empresa. Então, passa a ser uma referência para uma molecada que está em volta, olha aqui cara, ele chegou, eu posso chegar também. Mas, vamos voltar ali atrás. Você fez Direito então?

Osvaldo Pimentel: Fiz.

Luciano Pires: Foi cursar Direito?

Osvaldo Pimentel: Cursei Direito entre 2007 a 2012. Formei em 2012. Aí é engraçado. Qual que é sua profissão? Sou advogado. Importante, esse diálogo é real. Qual sua profissão? Sou advogado. Mas você formou? Sou advogado, não tem como ser advogado, sem ser formado. Não, mas você passou na OAB? Não, eu sou advogado. Eu formei, passei na OAB, tenho carteira, tenho inscrição, pago anuidade. Não é barato, está lá. Não, mas onde é que você estudou? Estudei em uma escola particular. Era caro? Não, eu tinha bolsa. Bolsa por que? Assim, como que são as coisas. Isso é uma conversa real. Oi, prazer, tudo bem, sou eu. E a pessoa ir por esse caminho, de não acreditar que é possível. Não, eu fiz tudo certinho.

Luciano Pires: Ou então ela está absolutamente curiosa de ver que dá. Você conseguiu? Como conseguiu, bolsa? Como é uma bolsa? Onde você se formou? Ela deve estar curiosa, como é que esse cara fez, que caminho que ele seguiu, né? Para tentar descobrir.

Osvaldo Pimentel: Pelo tom, era uma curiosidade meio incrédula. Acho que ele esperava, sou advogado. E aí tipo, ah, mas você formou, você passou na OAB? Não, sou bacharel. Então você não é advogado. Acho que ele queria construir algo do tipo. A pergunta estava muito mais voltada para esse lado. Mas aí eu levo na esportiva, apenas ok, eu entendi o que você quer construir, tudo bem. Mas mostrar que é possível, é o ser exemplo. E aí tem aquela fala, o exemplo é a melhor forma de ensinar.

Luciano Pires: É pelo exemplo.

Osvaldo Pimentel: Se ensina pelo exemplo, né. Tem um alemão, até ouvi isso de um kodansha, no judô, alguém que tem ali uma graduação após a facha preta. Há a faixa preta, faixa vermelha e branca, ele vira kodansha. E ele falando que ele ouviu isso de um alemão. Não é que o exemplo é a melhor forma de ensinar. Se ensina pelo exemplo. O exemplo é a única forma de ensinar. É quando você mostra que é possível, e chega no Linkedin mensagens, “obrigado”. “Te vendo aí, sinto orgulho”, aumenta a responsabilidade, mas dá mais energia. De falar, estou sendo exemplo.

Luciano Pires: Você passa a ser referência. E isso abre uma dimensão na vida da gente, que é um negócio impressionante. Pô, eu só estou trabalhando, e só estou…

Osvaldo Pimentel: …fazendo a minha parte.

Luciano Pires: Como assim referência? Nunca foi essa a intenção. E de repente, você descobre que é, e vem essa carga que você está falando. Preciso pensar, porque tem um monte de gente olhando minhas ações. E o que eu fizer, está ensinando essa turma, né.

Osvaldo Pimentel: E sobre ser referência, acho muito importante falar sobre isso, deixar isso bem claro. A exceção não pode ser entendida como regra. O que eu quero dizer? Se lá no passado você citou Mussum na televisão, Grande Otelo, Pelé, sempre quando a gente olha esse tipo de exemplo, e recentemente na nossa política, foi a figura do Joaquim Barbosa, e olhando para a minha área, olhando para o Direito, “nossa, olha lá o Joaquim Barbosa”. São exceções. Isso não pode ser entendido como regra. O que a gente quer construir, é que isso seja regra. E não regra imposta, mas, que as condições sejam igualitárias.

Luciano Pires: Sim.

Osvaldo Pimentel: Quando eu falo disso, não quero ser… “nossa, se o Osvaldo conseguiu, todos conseguem”. Não. Não, de jeito nenhum, não quero, não vou assumir esse tipo de postura, e de papel. Não foi fácil, foi muito difícil, e tem que ser mais fácil. Tem que ser mais fácil, por que? Porque as condições são iguais. É uma coisa, para muita gente, boba, básica, mas que não é. Fazer 6 refeições ao dia, ordinariamente, todos os dias, você conseguir fazer 6 refeições. Você ir ao dentista 1 vez por mês, 1 vez há cada 3, 6 meses. Coisas que para muita gente é banal, mas, que para o outro lado da população, são conquistas. E quando a gente fala dessa estrutura, é igualdade de condições. Como que você vai pensar em estudar, em ler um livro, se você não tem o que comer. Você vai lutar para sobreviver.

Luciano Pires: Isso é Maslow.

Osvaldo Pimentel: Sim, a pirâmide das necessidades.

Luciano Pires: E aí que a gente vê a grande diferença. Você vai para uma Bélgica, a Bélgica resolveu a parte debaixo da pirâmide, há muito tempo atrás. Ela está preocupada com outras coisas. Ela não vai discutir se metade da população não tem esgoto. Lá não se discute isso. É claro que tem. Agora, vamos discutir outro assunto. Eu estou preocupado com outra coisa, gerar emprego, porque esgoto já tem. E nós estamos aqui discutindo ainda que 100 milhões, não tem água tratada. Quer dizer, é uma disparidade tão grande, que tem a ver com essa coisa. O Brasil, é um caldeirão gigantesco. Nele, é tudo muito grande. Você vê agora nessa coisa com a pandemia, essa discussão idiota da vacinação. Porque, somos o quinto, somos o sexto, somos o décimo segundo. Cara, nós temos 200 milhões de habitantes bicho. Qualquer coisa que acontecer no Brasil, é gigantesca. Não dá para comparar com as Ilhas Fiji, né. E qualquer ação que você tomar aqui, quando você tentar fazer a escala dessa ação, não é uma escala de… “olha, eu já fiz para 5 milhões, agora vou fazer para 10”. Não cara, eu tenho que fazer para 200 milhões, eu tenho que entregar para 200 milhões. Eu tenho uma logística desgraciada. É tudo grande, é tudo complexo aqui no Brasil. E, mas deixa eu voltar no assunto lá. Você se forma, pega o seu diploma de advogado, e vai advogar?

Osvaldo Pimentel: Advogo, advogo por um tempo, mas…

Luciano Pires: Você vai trabalhar em uma empresa?

Osvaldo Pimentel: Um escritório. Escritório de advocacia, principalmente com Direito Eleitoral. Então, participei de 3 eleições seguidas.

Luciano Pires: Eleitoral, cara?

Osvaldo Pimentel: Eleitoral. É, Direito, acho que qualquer profissão, mas, eu posso falar da minha. Tudo que a gente não gosta de estudar, tudo o que a gente fala, “não quero”, é o que traz o dinheiro para o bolso no começo da brincadeira. Não sei, um exemplo, sou dentista, mas, quero trabalhar por exemplo, com a parte estética da coisa. Só que no começo eu vou fazer obturação, alguma coisa do tipo. E no Direito, no meu caso, foi, “não gosto de direito de Família, não sou fã de Previdenciário, minha pegada é muito mais Direito Constitucional, Direito Internacional dos Direitos Humanos, que é falar sobre a parte filosófica do Direito. E, o que que paga conta no início da brincadeira? O eleitoral, que era uma coisa que eu não olhada. É pegar uma ação maior, de previdenciário. Família, né, divórcio, guarda, pensão, alimentos. E aí fui parar no escritório para advogar eleitoral. Advoguei eleitoral por quase 3 anos. Nesse período, no ano que eu entrei, já era ano eleitoral, eu peguei uma eleição, e eleição é, para quem trabalha nessa área, é realmente o caos. Porque os prazos são curtinhos, 48 horas. Na época, eu ia para o escritório domingo mandar fax, receber fax, porque assim que chega notificação. Chegava na época, 2012. Hoje, já tem outros modos. Mas, dependendo da comarca, dependendo de onde é ali a zona eleitoral, é fax ainda. Então, foi uma…

Luciano Pires: Teu cliente era um político, era alguém tentando se eleger? É isso?

Osvaldo Pimentel: é, eu advogava para um escritório que prestava serviço para políticos, e para partido. Para partidos. E aí eu não tinha contato direto com partidos, ou com candidatos. O escritório que fazia essa intermediação, eu era li o operacional. Era o advogado que ia fazer a defesa, o recurso, as peças processuais ali, acompanhar o andamento do processo. E olhando que ok, não é para mim, quero seguir minha carreira acadêmica, quero concurso para magistratura, preciso parar e estudar. Então, eu saio do escritório, e começo a trabalhar sozinho, a tentar já fazer um mestrado. Curso algumas disciplinas do mestrado no Direito, só que vem o convite. Eu conheço dois empreendedores, e eles, “olha, temos essa ideia de negócio”. Tá, essa ideia de negócio chama Monetizze. E em 2016, começo a trabalhar com eles, ainda terceirizado. Eles mandavam as demandas por e-mail, ou me ligavam, e eu fazia de casa. Ainda não tinha necessidade de ir a empresa todos os dias. Mas, com o crescimento do negócio, eu começo a ir todos os dias, eu começo a me aproximar mais, a penetrar em outras áreas. Então, olha, RH vem cá.

Luciano Pires: Você entra lá, cuidando da área de Direito?

Osvaldo Pimentel: Do jurídico.

Luciano Pires: Era jurídico.

Osvaldo Pimentel: Isso. E como nosso negócio, ele envolve o consumidor final, as ações, todo esse tipo de negócio tem reclamações nos órgãos de proteção, PROCON, juizado especial. Então, a preocupação inicial era isso. Era defender a empresa nesses processos, celebrar acordos. Só que com o crescimento da empresa, eu começo a entender, e participar de outros processos. Então olha, a gente hoje tem uma equipe com 20 e poucos funcionários. Queremos contratar mais 15 pessoas. O contrato de trabalho, é aquele modelo padrão, que a contabilidade envia. Que é um documento que está no Google, na internet. Você pega e baixa. Opa, vamos fazer um contrato estruturado, bonitinho. Chama o Osvaldo, faz aí. Termos de uso, vamos atualizar os termos de uso. Vamos fazer. Direito de imagem, porque a gente está gravando vídeo com cliente. Então, eu começo a ter uma atuação muito mais presente. E aí passo a ser empregado da empresa, isso 1 ano depois, em 2017. E desde então, a chave vira. Muda um pouco o entendimento. Olha, empreender, produzir riqueza, produzir bens, produzir serviços, é também um caminho na busca dessa igualdade, na busca de transformar a vida das pessoas. Por que? Estou contratando pessoas, ajudando a desenvolver um negócio com meus clientes, estou gerando riqueza. E essa riqueza está sendo distribuída. Hoje, nós temos 200 funcionários. Então, são 200 famílias que precisam do nosso negócio. O nosso negócio que leva, é o trabalho deles dentro do negócio Monetizze, que leva o pão para a mesa, que paga o aluguel, a prestação do apartamento, prestação da faculdade. Então, ali minha chave muda, e eu começo a pensar, olha, acho que o caminho é outro. Acho que o caminho é realmente o empreendedorismo. E no meu caso, ser um executivo, entender do negócio, conseguir trazer valor para o negócio. E eu começo a estudar então aspectos de gestão. Então, já começo a direcionar meus estudos, meus esforços, para isso. Para me tornar um gestor. Compreendendo que olha, no futuro inclusive quero empreender, quero ter meu negócio. Então, meu caminho é esse aqui. Já muda a mentalidade, já deixa…

Luciano Pires: Esse caminho que você encontrou, esse caminho tinha como objetivo lá na frente a Monetizze? Era a Monetizze, ou era…

Osvaldo Pimentel: Não, foi dentro da Monetizze.

Luciano Pires: Eu entendo. Dentro da Monetizze, mas, vou me tornar um gestor, porque uma hora eu vou chegar, eu vou dirigir essa empresa aqui. Já havia uma visão desse tipo para você? Ou era o seguinte, vou me tornar gestor, para o que a vida trouxer para mim. Outra coisa é o seguinte. Eu quero ser o CEO da Monetizze.

Osvaldo Pimentel: Foi pensando na vida, não foi pensando ser CEO da Monetizze. Não é algo que estava no meu radar assim. Não era, nossa, quero. As coisas aconteceram. Eu acho que isso é uma crença, algo que eu acredito muito. Esteja preparado, as coisas vão acontecer. Às vezes…

Luciano Pires: As pessoas vão dizer que você tem sorte, né. Ô cara sortudo. Quando precisaram de um, estava ele lá. Que sorte a dele. Como se fosse sorte, né cara. Aquela história, pô, eu estou preparado. Estão procurando alguém que fala inglês, e eu falo inglês, eu estou presente.

Osvaldo Pimentel: Isso é sorte?

Luciano Pires: É sorte? Não, acho que não, né cara.

Osvaldo Pimentel: Você estar lá estudando modal verbs. Ninguém estava lá olhando para você. Na dificuldade ali, como que é isso aqui? De repente, está lá porque é sorte.

Luciano Pires: Sim, que interessante cara. Esse modelo da… você está falando 2016, foi ontem. É tudo muito novo, é tudo muito gora. A Monetizze é uma plataforma de… como é que vocês definem ela? Como é que é a definição que você, para o teu negócio? O que faz a Monetizze? Como é que vocês traduzem isso?

Osvaldo Pimentel: A Monetizze, ela é um sistema de vendas online. Porque você pode olhar para o nosso negócio, sobre diversos aspectos. Então, você pode olhar para o check-out, que é um meio de pagamento, para quando você… Eu faço uma analogia, desde quando eu entrei na Monetizze, eu faço uma analogia, até para explicar no processo judicial, o que que a gente faz. Quando você está na padaria, quando você foi comprar o pãozinho na padaria, vai pagar no cartão de crédito, cartão de débito. Você tem ali uma maquininha na sua frente, que vai processar a transação. Eu faço a mesma coisa, quando eu olho para o check-out Monetizze, você está em uma página de vendas, clicou em comprar, eu faço esse mesmo papel. Eu vou processar esse pagamento, eu vou receber essas informações, conectar com outras empresas que participam do processamento do pagamento. E vou confirmar a transação. Então, eu vou habilitar um negócio, um empreendedor, seja de um produto físico, de um produto digital, um curso, a receber pagamentos online. Então, esse é um aspecto do nosso negócio, essa parte do meio de pagamento.

Um outro aspecto, é o afiliado. Então, é a presença de pessoas que vão se afiliar ao seu produto, e divulgá-los para receber comissão. Então, eles vão investir em campanha, eles vão investir em trafego, e vão impulsionar as suas vendas. Só que eu tenho toda uma base em que, eu produtor, um produto físico, eu preciso emitir uma nota fiscal. Então, eu tenho que ter uma solução, integrar com alguém, para garantir que essa nota seja enviada. Quando eu olho de novo produto físico, eu preciso integrar com o sistema, pra `mandar as informações, para ir para o estoque, para ir para a logística. Então, eu também tenho que ter essa parte, a gente fala de background, para que o meu cliente tenha a atividade dele.

Então, o meu papel aqui é, o que eu posso fazer para auxiliar, tornar mais fácil, a vinda desse negócio para o digital. Então, meu negócio ele é físico. Eu quero trazer meu negócio para o digital. Monetizze, o que que você tem para mim? Eu tenho solução de pagamento, solução de afiliados, solução para emissão de nota, seja comigo, seja com parceiro. A integração com esses parceiros, para facilitar esse trabalho. Então, quando eu olho para a Monetizze, é essa conexão, entre essas pessoas, entre esses vários participantes. Eu tenho a fábrica que vai ali fazer a preparação do seu produto. Vai fazer a logística, embalagem, marca, rótulo, tudo.

Luciano Pires: Sim. O que aconteceu com vocês durante a pandemia? O digital explodiu, né, foi uma explosão gigantesca. Todo mundo correu para ele. Eu estou até fazendo agora um lançamento, nós tivemos uma reunião para discutir lançamento, falei cara, como está difícil competir, porque está todo mundo lá. Todo mundo foi para o digital. Todo mundo faz live as 8 horas da noite. Todo mundo tem curso. Então, para o público alvo, que até pouco tempo tinha uma demanda grande, né, agora é demais, está demais. Tem tanta coisa, que está muito difícil. Virou uma guerra sem tamanho. E eu imagino que durante a pandemia, o negócio deve ter explodido.

Osvaldo Pimentel: É que nós temos dois fatores. O primeiro, quem está no ambiente físico, e vê o seu negócio fechar, vê o faturamento cair, receita cair, quer ir para o digital. Como que brica disso? Quero ir para aí. É o que você falou, olha, todo mundo está aqui. E um outro fator, isso é um fator importante, mas na minha visão, o que mais contribuiu para o crescimento do negócio, não só do nosso negócio, mas de quem atua nesse mercado, seja no mercado dos afiliados, ou do e-commerce em geral, é a mudança de comportamento do consumidor. O consumidor, ele passa a acreditar mais, a confiar no pagamento online. Por que? Porque ele usa isso mais no seu dia a dia. A minha mãe usa o aplicativo de mobilidade urbana, usa o aplicativo de delivery de comida. E gera uma confiança. As pessoas passam a acreditar.

Luciano Pires: Você lembra o horror que as pessoas tinham de botar o cartão de crédito na… Como era difícil. Eu não vou botar cartão aí de jeito nenhum, né.

Osvaldo Pimentel: Tinha a figura do chupa cabra, né? Tinha o chupa cabra nos caixas eletrônicos, havia um medo muito grande de olha, coloquei meu cartão aí, vão roubar os dados do meu cartão. Imagina se no ambiente físico, a gente chama isso tecnicamente de transação com cartão presente. Se com cartão presente, chip, senha ou assinatura, já havia um medo de fraude, imagina o online? Esse medo ainda era muito grande. Quando a gente fala de perfil de consumidor mais jovem, esse medo era menor. Mas, um perfil mais velho, tinha ainda muito receio.

Então, a pandemia, na minha visão, ela acelera isso. As pessoas passam a confiar mais. Olha, se eu fizer uma compra em tal loja, tal site, eu consigo ligar, cancelar? Consigo ligar para a operadora do meu cartão de crédito, e falar, “olha, não reconheço essa transação”. E passam a utilizar mais esse canal. E isso é bom, porque ajuda a movimentar o mercado como um todo.

Luciano Pires: Mas impactou o negócio de vocês, a pandemia?

Osvaldo Pimentel: Sim.

Luciano Pires: Jogou para cima?

Osvaldo Pimentel: Impactou negativamente no início da pandemia. Como todo, economia, a gente olhar a última quinzena de março de 2020, houve ali… É o início.

Luciano Pires: Pé no frio. Todo mundo com pé no frio.

Osvaldo Pimentel: Todo mundo com pé no freio, “opa, deixa eu ver aí o que está acontecendo”. Para em seguida, já experimentarmos ali um crescimento. Então foi, sobre esse ponto de vista, das pessoas irem para o online, cadastrarem mais produtos, comprarem mais, foi muito bom. Mas, representa também desafios de gestão. Você fazer a gestão em home office, você ter, perder esse contato físico, esse olho no olho, o dia a dia com as pessoas. Para os gestores, para os líderes, é um grande desafio. Porque ok, você sabia ser líder, um bom gestor dentro daquela realidade. Estamos aqui todos os dias, tomamos café, almoçamos juntos. Mas, e agora? Agora que você vai entrar em uma sala, fazer uma reunião virtual com alguém, perdeu-se esse olho no olho. Muitas vezes a câmera vai estar desligada, e se estiver ligada, as vezes não tem como perceber sentimentos. Só que o desafio posto é esse. A realidade é essa.

Luciano Pires: Eu tenho um fornecedor meu, que cresceu 400% cara. Você não cresce impunemente desse jeito. Porque, é de uma hora para a outra. Então, além desse problema de estar todo mundo distante, o cara lidava com 100, agora ele lida com 500, 400. Ele estava… ele tinha uma expansão, a gente vai ampliar. De repente, o escritório dele está vazio, não tem ninguém lá dentro, e ele tem 500 carinhas, alguns dos quais ele nunca viu na vida dele. Nunca se encontrou com a pessoa. E ele tem que gerenciar essa equipe. É um outro perfil, até a liderança muda. Como é que você motiva gente, a distância. Como é que você faz a harmonia de um time, que não se encontra, que está todo mundo só com uma telinha ali na frente. Como é que você gerencia os horários de trabalho, o stress dessa turma? Cara, eu não estou sentindo, eu não estou vendo energia. Não estou… Eu consigo ver, mas, eu não sinto mais. Não sinto mais, entrei para trabalhar, o clima está bom. Não tem mais clima. O clima está esparramado. Então, isso vai mudar até o jeito de gerir o negócio.

Osvaldo Pimentel: Isso. Adaptamos as nossas ações, passamos a fazer pesquisas frequentes, para entender como que é o grupo familiar. Como que olha, existem pessoas que são no grupo de risco, qual eu nível de ansiedade? Como está sendo a experiência do home office? E com essas pesquisas, como a gente começou lá atrás, no ano passado, hoje, a gente tem uma visão clara de que a maioria prefere trabalhar assim, trabalhar no home office. Não pensa em voltar para a estrutura física. Mas, se voltar, deseja que seja modelo híbrido, onde a pessoa tenha que ir na empresa uma, duas vezes por semana. As principais queixas, são o deslocamento. Olha, para ir e voltar para a empresa, tinha dia que eu gastava 3 horas. Eu gastava 1 hora para ir, 2 horas para voltar, porque tinha transito, véspera de feriado.

Luciano Pires: Passa a não fazer mais sentido, né cara? Até então, era algo, era necessário. Não tinha como não fazer. Hoje em dia você olha, espera um pouquinho. Surgiu uma oportunidade de não precisar gastar essas 3 horas. Isso passou a ser um absurdo, né, você ficar 3 horas ali. Você assistiu uma série chamada Billions?

Osvaldo Pimentel: Não.

Luciano Pires: É fantástica cara, muito legal. Essa série, está na Netflix, e ela conta a história de 2 caras. Tem um cara que é um grande investidor, desses caras de startup, é um bilionário, supermacho alpha, que monta uma equipe de macho alpha, e os caras vão para cima, faca no dente, para fazer dinheiro, né. E o outro é um procurador norte-americano, que está na cola desse cara, quer pegar esse cara. Então a série é muito legal. Um dos personagens principais da série, é uma mulher, Wendy Rhoades. Que por acaso, é esposa desse procurador, e trabalha para o bilionário. É legal. E o mais legal, é que ela é uma figura, cara, ela é o braço direito do bilionário na empresa de machos alpha, né. E a função dela, era uma psicóloga. Ela está ali para cuidar do ambiente, cuidar das relações dos caras. Então, vira e mexe, entra um cara, senta na sala dela, senta no divã, e conversa com ela, como se fosse uma sessão de psicologia. E o que chama a atenção ali, é a influência que a posição dela tem, no meio daquele monte de brucutu. E ela vai lá, e dá nó em todo mundo. Isso foi muito interessante, porque mostra uma posição que até então, nem sequer existia nas empresas, passa a ser essencial para aquela máquina funcionar. Senão, os caras comem um ao outro, se devoram ali. Então, você está comentando isso tudo, eu fico imaginando o que que teve que acontecer com seu RH. Como é que a sua equipe do RH passa a funcionar, gerenciando um grupo que não se vê mais, tentando pegar essas coisas, o cara não vai ficar mais três horas no trabalho. Ele está na casa dele. Mas, será que ele tem condições de trabalhar lá? Será que o ambiente que ele está serve? Outra, ele vai estar conectado 24 horas por dia? Será que se eu mandar um WhatsApp para ele as 11 e meia da noite, isso não vai dar um problema legal amanhã de manhã? Será que eu tenho que fazer ele parar as 8 horas, hora extra. Tem um caminhão de problemas que estão surgindo aí, que vão exigir que o seu RH tenha um outro papel, né? Ele passa a ter uma outra posição, que não é… É gestão de um ambiente de mudança, né? Como é que vocês trataram isso aí? Só que você fala assim, eu estou preocupado se o cara… Quem está preocupado? É você que é o CEO, ou seu RH teve que estabelecer rotinas novas, teve que estabelecer novas formas de comunicação, teve que criar soluções diferentes, para poder atuar com uma equipe descentralizada, e outro tipo de demanda?

Osvaldo Pimentel: O nosso entendimento, de que o RH, a gente chama de área de gente, é estratégico, ele é anterior a pandemia. Então, o Peter Drucker, ele tem uma frase que é clássica, todos os manuais vão falar disso. “A cultura devora a estratégia no café da manhã”. Então, a valorização da cultura, um exemplo. Você tem uma empresa, aquela empresa que faz um celular aí, que é todo fechado. Não precisa ficar fazendo propaganda de marca aqui. Mas, aquele sistema que é fechado, que é deles, que conversa muito bem com o universo dele, mas que não conversa com outro universo, essa empresa ela tem uma estratégia muito bem definida, de diferencial de produto. Então, o que ela defendia, era o diferencial de produto.

Enquanto você pega uma construtora, por exemplo, que trabalha com imóveis voltados para baixa renda, primeiro imóvel imóveis que vão ter subsidio do governo, ela tem uma estratégia baseada na liderança em custo. E aí quando, se você coloca, por exemplo, dentro lá da área de produto, um profissional que tem uma cultura, uma mentalidade, que não compreende essa estratégia baseada em diferencial de produto, você pega esse cara, que o raciocínio dele é mentalidade, a cultura que ele traz é muito mais voltada para a estratégia de liderança em custo, ele não vai funcionar nessa outra empresa. Não vai dar certo. É isso que quer dizer que a cultura como estratégia, é a cultura individual, cultura dos valores das pessoas, e da organização. Então eu organização tenho que entender a minha estratégia, com a minha estratégia é baseada no produto. Ou seja, o produto, a qualidade do produto, tem que ser sempre meu foco. A minha cultura então tem que ser empreendedora, criativa. Eu não posso ter aqui pessoas que vão pensar muito no processo, que vão pensar apenas no controle, e não vão ter essa liberdade, para criar o novo. Eu vou ter pessoas que vão falar o seguinte, olha, telefone celular, para o perfil executivo, tem que ser esse aqui, que tem o tecladozinho qwerty, que as pessoas vão usar isso. Eu não vejo executivo usando um telefone que é só uma tela, que você fica ali clicando. As pessoas com controle muito alto, muito confiantes dessa questão do processo, elas não vão ter essa visão. Não vão chegar e falar para você. Ford tem uma frase, é atribuída a ele, fica difícil a gente conferir as fontes desse tipo de frase, mas, ele diz que se ele perguntasse para os clientes, o que eles queriam, eles diriam que, queremos cavalos mais fortes. Eles não diriam, queremos carros. E aí a cultura, se você tiver dentro da sua organização, pessoas que tenham uma mentalidade, uma cultura de olha, olhar para os cavalos mais fortes, eles nunca vão te entregar automóveis. Então, a estratégia do negócio…

Luciano Pires: O professor Marins tem uma frase boa. Ele diz que se o Mc Donald’s tivesse feito uma pesquisa de mercado no Brasil, seria a maior franquia de arroz e feijão do mudo.

Osvaldo Pimentel: É isso.

Luciano Pires: Eles vão pedir o que, né?

Osvaldo Pimentel: Quando você entende a estratégia da negociação, isso tem que refletir na cultura, nos valores da organização, e também na cultura, no perfil profissional das pessoas que estão nela. Então, se você quer uma organização altamente criativa, inovadora, você tem que motivar, você tem que criar um ambiente que proporciona essas condições. Então, o nosso olhar sempre foi para isso. Área de gente para nós, sempre teve um papel estratégico. Isso facilitou quando veio a pandemia, por que? Uma autonomia, uma liberdade de ouvir, obvio, problemas existem, a gente tem muito trabalho a fazer, como todos, porque é uma nova realidade. Mas, o caminho e autonomia que a área de gente teve para trabalhar, e principalmente para ouvir, isso foi o que a gente definiu como principal. Vamos ouvir. A gente fala, tripulação. Com a Monetizze, tudo é, decole suas vendas, é tudo voltado para o ambiente da aviação, a gente chama ali internamento de tripulação. Vamos ouvir as pessoas, para entender o que que elas precisam, o que que elas querem. Quais são as dificuldades nesse momento, saber o que a gente enquanto empresa, consegue fazer. Porque enquanto empresa, enquanto organização, a gente também tem as nossas limitações. Tem questão que são do aspecto pessoal, que a terapia vai resolver. Mas, eu empresa, eu posso ter esse olhar, esse carinho. Um exemplo, implantamos o dia sem reuniões. Então, as quartas-feiras, é um dia sem reunião. Para que? Para ter um descanso nas agendas. Porque a gente fica de segunda, terça, quinta e sexta, uma reunião atrás da outra, não tem intervalo. Quando você olha, nossa, já anoiteceu, e eu nem vi. Olha, vamos implantar um dia, pensando no bem-estar das pessoas, pensando em dar a elas um descanso das reuniões virtuais, quarta-feira não tem reunião. Então, a gente vai procurando ter esse tipo de ação, olhando para as pessoas.

Luciano Pires: Quantas pessoas são lá?

Osvaldo Pimentel: Hoje, aproximadamente 200. A gente está ali, 196, praticamente 200 pessoas.

Luciano Pires: E esse grupo estava centralizado em um local? Tinha um local, né?

Osvaldo Pimentel: Sim. Um local com 2 andares, todo mundo junto. Já pensando em nossa, vamos pegar mais uma partezinha desse andar.

Luciano Pires: Sim. Isso não está no seu escopo agora? Essa coisa de volta todo mundo, e vamos continuar o projeto de ter o terceiro lugar. Isso está fora de escopo, nesse momento?

Osvaldo Pimentel: Entregamos o segundo andar. Ficamos só com 1. Aí o escopo hoje é muito mais, vamos criar um ambiente que a gente consiga receber de forma confortável, segura, adotando protocolos, prender 50, entre 50 a 80 pessoas, e em rodízio. É rodízio. Então, a equipe A, vai segunda-feira. A equipe B, vai terça. A outra equipe vai só na sexta. A nossa visão é essa. E ah, vamos confraternizar? Vamos. A gente aluga um local, ou usa a nossa área externa, para fazer isso, em ocasiões específicas. Quando tudo passar, quando todos tiverem vacinados. Agora, depois de tudo isso, não há na nossa visão, ambiente para voltar ao que era antes. Não existe, na nossa visão, esse ambiente.

Luciano Pires: Cara isso tem um impacto na nossa sociedade, que é um negócio brutal. Como nós estamos no meio do jogo, não deu para ver ainda. Não deu tempo de ver ainda.

Osvaldo Pimentel: Não teve distanciamento histórico, né.

Luciano Pires: Cara, você imagina o tamanho da crise imobiliária que vem por aí, com imóveis comerciais. Porque, se está todo mundo devolvendo o segundo andar cara, o que que vai acontecer com os segundos andares, né? Ou, vai ter que mudar alguma coisa. Eu já vi alguma leitura, dizendo que existem cidades que já estão repensando essa história de pegar o distrito comercial, e transformar em habitacional. Pegar, vamos transformar isso aqui, esses prédios aqui de escritório, e transformar em pequenos apartamentos, para a turma vir morar de outra forma, não tão longe, e tudo mais. Mas, ao mesmo tempo, o cara que trabalha com você, pode morar em um sítio no interior do Piauí, se tiver uma boa internet, acabou. Ele está conectado. Então, vem um nó na história aí, sabe, a maldição da Faria Lima. O que que vai acontecer com a avenida Faria Lima, cara?

Osvaldo Pimentel: Eu ouvi um comentário do tipo sobre Nova Iorque, em relação a ocupação empresarial de Nova Iorque estar sendo esvaziada, porque não tem mais sentido.

Luciano Pires: É caríssimo aquilo, e os caras de repente, espera um pouquinho, eu consigo economizar tudo isso?

Osvaldo Pimentel: É uma questão de valor. Quando a gente fala de escritório, em uma sede física, é muito aquela ideia de pressionar os clientes, os fornecedores. Então ter esse ambiente físico, que nossa, uau, olha que escritório. Imagina, como advogado, nossa meu escritório é na Faria Lima. Gera um status. Hoje, nesse ambiente atual, é valor para nossos clientes isso? Deixou de ser, deixou de ser valor. Ele não está mais preocupado com isso. Ele entendeu que olha, eu achava que era bom ir lá no escritório, conversar, apertar a mão, a gente está resolvendo tudo online, eu tenho tempo de ir ali cuidar da minha filha, cuidar de hobbys pessoais. O tempo que eu deslocava para ir para o trabalho, para ir até lá, estou fazendo uma aula online, aprendendo alguma coisa. Se isso deixa de ser valor para o cliente, não tem sentido para a organização fazer isso mais. Vai representar apenas um custo, um custo muito alto.

E aí entendido isso, o caminho é muito matemático, muito pragmático. De falar, olha, não faz sentido, não é proposta de valor para o cliente, é um custo alto para a gente, vamos embora, vamos sair daqui. Não tem muito o que fazer. A gente percebe grandes empresas fazendo esse movimento. Um efeito colateral, que a gente já observa, é a ampliação da concorrência, por mão de obra qualificada. Então, essa…

Luciano Pires: A parte da TI.

Osvaldo Pimentel: E principalmente com essa quebra de fronteiras, você vai ter empresas de outros países, assediando funcionários. Olha, vem cá, você vai receber em moeda estrangeira, então imagina, olhe a cotação do dólar e pense. Quando se oferece para um profissional um salário em dólar, é muito atrativo.

Então, a pandemia ela trouxe essa ampliação da concorrência. Hoje, a gente compete com empresas do mundo inteiro, quando a gente fala de mão de obra qualificada, principalmente na área de tecnologia.

Luciano Pires: E vai mudar o fluxo migratório, né. Essa história de que estou aqui no Maranhão, e tenho que ir para São Paulo, porque é lá que as coisas acontecem, isso cai por terra, né cara. Eu consigo ter um hub no Maranhão, de TI, sabe, ter um hub no Rio Grande do Norte, tenho um hub em Porto Velho, e os caras não tem que sair de lá, para trabalhar para as outras grandes empresas.

Teve uma empresa que eu conversei outro dia, que o cara falou para mim. Nós tínhamos aqui uma tese, a nossa é a seguinte, um dos elementos para contratar as pessoas para trabalhar aqui, era a distância que a pessoa morava da gente. Nunca tinha ninguém muito longe daqui. Agora, eu estou contratando caras de outros estados. Nunca pensei nisso, e hoje eu estou gerenciando uma turma que está esparramada no Brasil inteirinho, e não tem problema. Quer dizer, não tenho problema? Vão existir outros problemas, que é o que nós estamos falando aqui agora. Mas, olha o tamanho dessa abertura, olha o que acontece, de novo voltando para aquela história da diversidade, etc. e tal. Como isso estabelece, cara, está abeto para qualquer pessoa que tenha uma conexão, trabalhar para qualquer pessoa. Qualquer empresa.

Osvaldo Pimentel: E como que é difícil a vida, isso é repetido várias vezes, como é difícil a vida do empresário no Brasil. Por que? Havia uma discussão, principalmente em relação ao recolhimento do ISS. Que é imposto sobre serviços. Então, imagina uma empresa que faz vigilância, ela tem o servidor, ela tem uma parte física em uma cidade, um município. Mas, ela presta serviços de vigilância, de forma remota, em uma residência que está em outro município. Para quem que eu pago ISS no final do dia? Porque essas duas prefeituras vão cobrar de mim. Ué, espera aí, você monitora a casa que está ali, mas a assessora de TI está aqui, como que eu vou te cobrar? E aí havia ações de prefeituras, para trazer grandes empresas, dando benefícios em relação ao ISS, principalmente, para se tornarem atrativos. Olha, eu quero uma empresa grande na minha cidade, vou conceder benefícios aqui, para essa empresa vir. Por exemplo, uma grande montadora em Betim, historicamente teve benefícios para ficar ali. Quando para ela deixou de ser vantagem, ela foi para o Nordeste. Então aí tem até uma discussão sobre isso. E quando a gente fala que a guerra fiscal, que seja um município ou outro oferecendo melhores vantagens, um estado oferecendo melhores vantagens que o outro. Quando você pensa nessa estrutura, eu poso ter gente trabalhando para mim no mundo inteiro. E consequentemente, no Brasil todo. Como que vai ser, e aí uma vez que culturalmente a sociedade aceita o trabalho remoto, como que vai ser o tratamento dado pela legislação, em relação a isso? Seja a legislação trabalhista, seja, quando a gente pensar no Direito Tributário, eu posso abrir o meu CNPJ, a minha empresa, em um município, em que eu tenho um incentivo. Mas, eu não tenho sede física ali. Por que? Porque eu tenho funcionário trabalhando em tudo quanto é lugar, eu não preciso de ter uma sede física ali. Hoje, o Direito Tributário vai olhar para isso, e vai falar que isso é fraude. Vai falar que isso é simulação. Que você está simulando. Que você tem um CNPJ no interior de Minas, interior de São Paulo, interior da Bahia, para ter incentivo ou não pagar o imposto. Mas, a sua operação em si, você tem 10 funcionários que trabalham em São Paulo. Você deveria recolher ISS para São Paulo, está errado.

Um exemplo, as locadoras de automóveis. Ela tem o carro emplacado em um estado, mas o carro está rodando aqui em São Paulo. O Estado de São Paulo vai falar, opa, pague IPVA para mim. Por que? Porque seu carro fica rodando aqui, fica destruindo a minha via. Mas, espera aí, o IPVA é um imposto sobre propriedade. E a prioridade é minha, eu estou lá emplacada em Minas, por queque eu tenho que pagar para você em São Paulo?

Luciano Pires: Você vai ter que ter um CNPJ virtual, sabe? Onde que ele está localizado? Ele não está localizado em lugar algum, o endereço dele é na internet. E aí como que eu vou gerenciar? Nós fizemos uma live ontem, e estávamos discutindo exatamente esse tipo de problema, porque um dos caras da live apresentou um projeto que eles montaram, uma empresa de TI, e eles criaram um sistema, que é um sistema que liga e desliga o acesso da pessoa aos computadores da empresa, no horário de trabalho. Então, é das 8 às 18. 18 horas, um pouquinho antes, começa a avisar. Atenção, salve tudo, porque vai fechar. Fechou, o cara não entra mais. Para ele continuar trabalhando, ele tem que ligar para o chefe dele, “chefe, está russo, eu preciso de uma hora extra aí”. O cara dá uma hora, ele continua uma hora a mais. Então, é um sistema que impede a pessoa de entrar. Porque eles estão tentando adaptar esse mundo novo de 24/7, né, onde eu tenho, eu compro pela internet a hora que eu quero, e o Mercado Livre me entrega a hora que ele quiser. 9 horas da noite, está batendo em casa uma entrega.

Osvaldo Pimentel: Domingo.

Luciano Pires: Domingo.

Osvaldo Pimentel: É uma coisa que não acontecia.

Luciano Pires: Não tem nada a ver com esquema de banco, fechamos as 16 horas. Para com isso cara, o mundo mudou. Só que ao mesmo tempo, tem essa, a legislação que a gente conhece aqui, como é que se adapta uma coisa à outra. Você estava falando, eu me lembrei de uma coisa que tem a ver com a sua área da advocacia, da justiça. Cara, o STF prendeu um deputado em flagrante, por causa de um vídeo que ele gravou. Porque os caras entenderam que enquanto o vídeo estiver no ar, o crime está sendo cometido. Logo, é um flagrante. Como assim? Um mês depois, continua sendo flagrante, porque é um vídeo que está no ar. Então, vai ter que ser adaptada, a legislação vai ter que ser adaptada.

Osvaldo Pimentel: É uma tese, da tese do crime continuado, do flagrante continuado.

Luciano Pires: Porque tem um vídeo publicado no ar. É muito louco isso, né?

Osvaldo Pimentel: E pensando na questão empresarial, olha o esforço, o recurso que a empresa tem que gastar, para se adequar a uma legislação da década de 30. A CLT, a legislação do trabalho ela é importante, ela via coibir abusos que historicamente aconteceram. A gente olha para o paradigma do estado liberal, a evolução industrial realmente aconteceu, onde crianças, mulheres trabalharem 16, 18, 20 horas. Homens também. Então, você ter uma proteção ao trabalho, é fundamental. O que a gente tem que discutir, é a forma com que a gente protege o trabalho lá, olhando para trás, que iniciou na década de 30, com a CLT, hoje, para o mundo atual, faz sentido? E aí vai ser ônus de quem? Vai ser ônus das empresas, de pessoas privadas, se adaptarem a isso, tendo um esforço gigante, desenvolvendo um sistema, uma tecnologia para cortar acesso? Ou, a gente vai ter uma discussão séria, e aí tem, você citou o STF, tem um livro do Jeremy Waldron, que fala sobre o poder, a dignidade da legislação. Ou a gente vai dar esse ônus para as empresas se adaptarem, se virem. Ou, a gente vai usar o parlamento, que tem um poder sim muito importante, a dignidade da legislação, para compreender esse tema, elaborar estudos, e refazer, reformular, revisar a nossa legislação. Então, a minha confiança…

Luciano Pires: …olha o nível da nossa discussão aqui. Nós não conseguimos nem fazer uma reforma tributária, para corrigir problemas de impostos em cima de impostos, cascata de imposto, nós não conseguimos isso. E a gente já está discutindo, bota criptomoeda no jogo. E vai explodir a cabeça do mundo. Nós estamos vivendo um momento de transição aí, que é absurdo.

Osvaldo Pimentel: Perfeito. Quando a gente fala sobre isso, temas que a gente não está conseguindo discutir, trazer respostas assertivas, qual que é a consequência disso? A consequência prática de tudo isso? Sermos menos competitivos, quando a gente olha para o cenário internacional. Quando a gente olha para outras economias, a pandemia ela trouxe vários problemas, mas, tem economia se recuperando, e a gente poderia estar nesse ritmo também. E gera 14.8 milhões de desempregados. Então, o que a gente tem que imaginar, é isso. O fato de não estar olhando com a seriedade devida para esses temas, é que gera, piora, agrava essa crise econômica. Agrava a crise sanitária que o mundo interior está vivendo. Então, é difícil? É. Não estou aqui para falar que olha, simplesmente vamos discutir, vamos resolver. Não é. Mas, o mínimo que se espera, e a gente tem condição de fazer isso, a gente tem pessoas técnicas capacitadas para isso, é discutirmos isso de uma forma madura. E não discutirmos esses assuntos, apenas sob pontos de vista pessoais. O Weber fala disso, na ética da convicção, ética da responsabilidade. A minha convicção pessoal, ela é minha, está aqui guardadinha, quietinha. Enquanto CEO de uma companhia, o que deve prevalecer na minha ativação, é ética da responsabilidade. A responsabilidade que o cargo exige que eu tenha.

Luciano Pires: Quando você botar a camiseta da Monetizze com o logotipo, você não é mais Osvaldo, você não é o indivíduo Osvaldo, fazendo as suas escolhas pessoais. Você é aquela organização. E o que você tiver que escolher ali, você tem que considerar o impacto, que aquilo, uma coisa que você disser aqui mal dita, vai impactar…

Osvaldo Pimentel: Sim, tem uma repercussão negativa. E os homens públicos, eles têm que agir pela ética da reponsabilidade de seus cargos. Isso é fundamental. Isso sim, é ser um estadista, isso sim é o papel dos homens públicos, das figuras públicas. Agir pela ética da reponsabilidade. Então, acredito que a gente tem sim condição de fazer isso. O momento, ele é muito grave, um momento de polarização, realmente um momento em que as discussões são muito mais emotivas do que racionais.

Luciano Pires: Eu vou voltar para uma coisa que você falou no começo. Nós estamos histéricos cara. Nós estamos em um cenário de histeria. E pedir para a discussão ser… não dá cara. Nesse momento de histeria aqui, é rótulo para cá, rótulo para lá. Dedo na cara, não goto de você, e nada do que você disser, eu levarei em consideração. Não pelo mérito do que você disse. É porque eu não gosto de você. Você está em outro partido.

Osvaldo Pimentel: Ética da convicção.

Luciano Pires: Meu caro, vamos lá para terminar então nosso papo aqui, que dá para ir embora, dá para a gente ficar horas aqui. Se eu quiser entrar em contato lá, se eu quiser conhecer. Eu sou produtor de conteúdo, eu comentei com você. Sou produtor de conteúdo, a tua plataforma me interessa como produtor de conteúdo, e como eu, tem muita gente que está disposta a fazer alguma coisa, e nem percebeu ainda que ela não precisa chamar o sobrinho que conhece site, para montar seu próprio site. Tem toda uma complexidade entre eu produzir meu material, e colocá-lo na mão de um cliente meu. No meio do caminho, tem um sistema complexo, que vem desde, onde é que eu vou subir o vídeo, onde é que eu vou guardar essas coisas, como é que eu vou distribuir? Como é que eu vou fazer com que o cara pague, e ele tenha acesso? Como é que eu vou proibir que quem não pagou, tenha acesso também? Como que eu vou emitir uma nota fiscal? Tem todo um rolo, que você já resolveu. A tua plataforma resolve, né? Se eu tiver interessado em saber como é que é, o que que eu faço? Eu boto Monetizze e vou ver, tem algum truque, tem algum lugar que eu vou? Vocês têm um blog que me dá uma aula, que me ensina o bê-á-bá, como fazer dinheiro com o meu conhecimento?

Osvaldo Pimentel: Por isso que eu falei que somos um ecossistema. Por ter essa solução, em um mesmo ambiente. Por ter essa facilidade, de auxiliar o produtor do conteúdo, ou a pessoa que quer se afiliar para vender, a preocupar com o que interessa, a preocupar com o produto, a preocupar com a geração de trafego, com a análise do funil. Então, o nosso papel aqui é, mediar essa relação que eu estou, entre filiados, entre fábricas, entre consumidor. E criar oportunidade para que essas pessoas atuem naquilo que elas sabem fazer. Então você sabe fazer muito bem a produção de um conteúdo. Você faz isso há anos. Vou virar para você e falar, “olha, configura agora a emissão da nota fiscal aqui, com a integração com outra empresa, via webhook”. Nem eu sei o que eu estou falando. Eu sei o básico, porque eu não sou técnico, não é a minha área. Você vai chorar, e vai desistir. Falar nossa, isso é difícil, isso não é para mim. O que a gente quer mostrar, é que há condições. Não é falar de falsas promessas, de fique rico rápido, ganhe dinheiro rápido pela internet.

Luciano Pires: Como que é? Faça 6 em 7.

Osvaldo Pimentel: 6 dígitos em 7 semanas, 7 dias. Não é isso que a gente quer propor para o mercado. O que a gente quer propor, a gente faz até isso por meio da escola Monetizze, é, olhando para um ambiente de 14,8 milhões de desempregados, que vão procurar uma renda extra, uma renda complementar, ou até uma renda principal, em um aplicativo de mobilidade, aplicativo de entrega, esse mercado existe, você pode se tornar um produtor de conteúdo, você pode se tornar um afiliado, você pode gerar a receita que vai pagar o seu aluguel, vai colocar comida na sua mesa, a partir desse mercado. A escola Monetizze, é conteúdo gratuito, ensinando ali o básico para se tornar afiliado, ensinando o básico sobre técnicas de marketing digital, sobre nosso mercado. A gente vai impulsionar esse projeto, trazer parceiros, clientes, para também ajudar a produzir conteúdo, a ensinar as pessoas a entrar nesse mercado. Então, a gente tem o blog Monetizze, lá a gente fala da escola. Tem o nosso site, onde você consegue se cadastrar, consegue conhecer nossos produtos. Redes sociais, Linkedin, Instagram, Facebook, que você vai conhecer mais sobre a Monetizze. E o que a gente quer deixar claro é, aqui é uma oportunidade sim, para as pessoas mudarem, transformarem as suas vidas através do conhecimento, através do seu próprio trabalho. Então, aqui não é falar, olha, você vai ganhar dinheiro rápido. Não. Aqui você tem uma oportunidade. Como que eu faço? Dedicação, estudo, profissionalismo. Temos muitos profissionais sérios nesse mercado, que saíram de carreira, em serviço público, e hoje realizam seus sonhos, conseguem viajar, conhecer alguns lugares do mundo, sustentar família, comprar uma casa. Mas, é muito trabalho, não é da noite para o dia. exige-se muita dedicação.

Luciano Pires: O segredo é que Monetizze é com dois Z. Monetizze.com.br?

Osvaldo Pimentel: .com.br.

Luciano Pires: Mergulhou nesse universo aí. Meu caro, muito obrigado pela sua visita, sucesso nesse seu desafio aí. Não é bolinho assumir, virar a rédea de uma empresa, nesse momento que nós estamos vivendo aqui, para o mal e para o bem. Ao mesmo tempo que está tudo acontecendo ao mesmo tempo agora, tem desafios muitos complicados, mas, também tem oportunidades aí excelentes. E nós estamos vendo cases de gente que está explodindo de fazer acontecer, porque encontrou… Ao invés de ficar chorando, tá tudo mudando, eu vou surfar na mudança. Mas você tem uma característica que eu já entendi que funciona bem. Eu vou mostrar para eles. Manda vir, que eu vou mostrar para eles. É isso aí cara, muito obrigado.

Osvaldo Pimentel: Eu que agradeço o convite, e oportunidade de falar, contar um pouco da minha história, falar um pouco sobre algumas coisas que eu acredito. É muito importante esse tipo de espaço. E saber que outras pessoas vão ouvir, vão se inspirar, se motivar. Isso é o que dá força, para nesse momento tão difícil, assumir como rédea de uma empresa. Mas, principalmente buscar exercer um papel ativo na condição de cidadão. De realmente fazer valer a função social dessa empresa, que é produzir serviço, produzir riqueza, contratar pessoas, ajudar nossos clientes. É movimentar esse ecossistema, movimentar a economia. Não vai existir uma melhora, melhora que a gente espera, se a gente não produzir. A gente tem que produzir. Então, quando eu olho para o empreendedorismo, Monetizze me ensinou isso muito forte, junto da educação é o caminho. É o caminho, para a gente mudar a nossa realidade. O ensino, a educação, e o empreendedorismo.

Luciano Pires: Maravilha. A gente começou musicalmente, e vamos terminar musicalmente. Qual é a música que eu uso para terminar esse programa aqui?

Osvaldo Pimentel: Olha, me ajuda, escolhe o ritmo.

Luciano Pires: Vamos de clube da esquia. A gente começou com ele, vamos de clube da esquina.

Osvaldo Pimentel: Nossa.

Luciano Pires: O que que você quer que venha lá? Vevecos, panelas e canelas?

Osvaldo Pimentel: Fazenda, por causa de Minas, eu escolho Fazenda, por causa que tem uma montadora que poderia inclusive usar essa música, é sensacional para fazer propaganda de seus veículos, porque tem um finalzinho, ele é lindo. Pensando em Minas, pensando até no seu carinho, seu respeito pelo meu Estado, Fazenda, porque ele remonta as montanhas, remonta aquele clima gostoso que a gente tem lá.

Luciano Pires: Legal, vamos terminar com Fazenda então. Grande abraço.

Osvaldo Pimentel: Valeu.

Fazenda
Nelson Angelo

Água de beber
Bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
E a meninada respirava o vento
Até vir a noite e os velhos falavam coisas dessa vida
Eu era criança, hoje é você, e no amanhã, nós(2x)
Água de beber
Bica no quintal, sede de viver tudo
E o esquecer
Era tão normal que o tempo parava
Tinha sabiá, tinha laranjeira, tinha manga rosa
Tinha o sol da manhã
E na despedida,
tios na varanda, jipe na estrada
E o coração lá

É assim então, ao som de Fazenda, o clássico de Nelson Angelo que Milton Nascimento imortalizou no elepê Geraes, de 1976, que vamos saindo assim, inspirados. 

Gostou do programa, é? De onde veio esse aqui tem muito mais.

O Café Brasil é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, você aí, completando o ciclo.

Olha: a busca pelo saber é fundamental. Mas quanta gente valoriza isso, hein? Os mil e setecentos assinantes do Café Brasil Premium valorizam, mas eles representam menos de 1% da nossa audiência. Será que a gente não consegue chegar no 1,5%? Vem, vem, vem. mundocafebrasil.com.

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Para terminar, uma versinho do Nelson Angelo:

Eu era criança
Hoje é você
E no amanhã, nós