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Luciano Pires -

Você sabe o que é cultura do cancelamento? Na explicação bonitinha é a remoção de apoio a indivíduos por conta de alguma opinião ou ação censurável que eles tenham omitido. Entendeu? Remoção de apoio. Essa é a explicação bonitinha. Na explicação real cara, é o linchamento público de reputações com base numa onda que pode nascer de uma indignação legítima com alguma opinião ou ato, mas que ganha vida própria e é impossível de ser interrompida, atingindo o indivíduo acusado, seus familiares, a empresa onde trabalha, os amigos e todos que tentarem de alguma forma retornar à racionalidade. Cara: isso é perigoso…

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você está no Café Brasil e eu sou o Luciano Pires.

Posso entrar?

Hummmm… abro o programa com Antonio Adolfo e sua banda tocando sua clássica composição, Sá Marina, um dos maiores sucessos de um dos maiores cancelados da história da música popular brasileira: Wilson Simonal.

Em 2020, na Universidade do Sul da Califórnia, a USC, um professor da escola de negócios, chamado Greg Patton, que viveu na China por 20 anos, explicava para os alunos numa aula de comunicação pelo Zoom, que palavras de preenchimento, como “hum” ou “errrr”, sabe quando você está falando e de repente você entre uma palavra e outra você bota um “errr”, “hum”, distraem porque interrompem o fluxo de ideias ao fazer apresentações. Para ilustrar o seu ponto, ele introduziu uma palavra em mandarim que significa literalmente “isso”, e é mais comumente usada para significar “hum”.

Ele diz em um vídeo da aula que circulou amplamente nas mídias sociais: “Isso é culturalmente específico . . . Como na China, a palavra comum é isso, isso, isso, isso. Então, na China, pode ser nèige — nèige, nèige, nèige. Portanto, há palavras diferentes que você ouvirá em diferentes países, mas são disfluências vocais”. Ouça aqui o trecho da aula:

Para Patton, que usa o mesmo exemplo há anos, a aula foi totalmente normal.

Quando o professor disse as palavras em voz alta, imediatamente alguns alunos acharam que ele estava dizendo “nigga”, corruptela do termo “nigger” que é um insulto étnico usado contra os negros e considerado extremamente ofensivo nos EUA. Lá eles chamam de the N-word, palavra que não se fala, né?

Recebendo mensagens dos alunos, Patton viu que havia dado aquele exemplo em pelo menos três outras aulas. Mandou um pedido de desculpas, explicando que o uso da palavra jamais teve intenção de ofender alguém.

Um grupo anônimo de alunos negros então, escreveu uma carta denúncia à direção da escola, acusando o professor de racismo.

O incidente escalou, gerando um gigantesco debate que chegou à mídia internacional. Após uma reunião com os alunos que se sentiram prejudicados, a universidade iniciou uma profunda revisão da carreira de décadas do professor na escola de negócios, examinando milhares de avaliações de alunos em busca de sinais de sua insensibilidade racial ou cultural. Nenhum sinal foi encontrado. Algumas das alegações mencionadas na carta de reclamação – que Patton teria ignorado reclamações anteriores e apagado gravações de aulas que envolviam o incidente – também provaram ser falsas. Uma investigação da universidade não encontrou evidências de que os alunos tentaram se comunicar com Patton antes de apresentar a sua reclamação.

Para a USC, onde mais de 22% dos estudantes são da China, a controvérsia teve uma consequência inesperada. Dias depois que a história foi divulgada, a mídia chinesa debruçou-se no incidente, ofendida pelo que eles viram como depreciação da língua chinesa pela USC. No Weibo, que é o Twitter da China, hashtags sobre a polêmica foram compartilhadas mais de 9 milhões de vezes.

Noventa e quatro recém-formados do programa de MBA, a maioria deles chineses, compararam a resposta da universidade ao incidente às “acusações espúrias contra pessoas inocentes” que sombrearam a Revolução Cultural de Mao.

Um mês depois do incidente, a USC encerrou as investigações concluindo que não houve má intenção do professor, mas que a carta de reclamação dos alunos foi “genuína e séria”. O professor Greg Patton, profundamente abalado pelo episódio, se afastou do programa de MBA da escola indefinidamente.

E a calma voltou a reinar na Universidade. Até que surja um próximo incidente.

“Oi Luciano. Bom dia, boa tarde, boa noite. Me chamo Claiton, sou ouvinte aí já há algum tempo do Café Brasil. Hoje eu tive uma experiência maravilhosa que pude compartilhar com meu filho através do Café com Leite. E gostaria de compartilhar isso com você, a sua equipe, pra mostrar como que esse trabalho que vocês estão desenvolvendo tem impactado nas nossas vidas.

Meu filho se chama Benjamim, ele tem cinco anos de idade. Há umas duas ou três semanas atrás, nós fomos num bar perto da minha residência aqui, comprar carvão, domingo, tudo fechado, fui nesse bar com ele comprar o carvão e não é um ambiente que eu frequento, mas como não tinha nada aberto eu fui com ele lá pra comprar o carvão pra fazer um almoço no domingo.

Chegando lá, um senhor de idade, 70, 60 anos de idade, ofereceu pra ele bala. E eu estava do lado assim, fiquei olhando, o senhor nem perguntou pra mim se podia oferecer não, deu a ele a bala lá, abraçou ele e eu fiquei olhando a cena de perto com cautela. E o senhor ali deu umas dez balas pra ele, eu achei estranho, um senhor com dez balas no bolso, mas meu filho pegou.

Quando chegou em casa, eu conversei com ele, falei com ele que ele não deveria ter pegado a bala, que ele não deveria ter aceitado de estranhos, devia ter falado comigo, que eu não gostei da atitude dele e ele entendeu, falou que não ia fazer mais isso e que da próxima vez ele ia perguntar se podia pegar ou não.

Hoje, estava vindo do trabalho e trouxe ele pra escola e quando chegou no caminho, é um caminho de um dez, quinze minutos, aproveitei pra colocar o Café com Leite pra ele. Depois de ouvir o Café Brasil 816, antes eu estava achando que ele é muito novo, cinco anos, e coloquei pra ele ouvir.

Quando acabou o episódio, eu perguntei se ele gostou do episódio Chicken Little. Ele falou não. Como assim? Mas filho, porque você  não gostou? Eu não gostei porque a raposa come todo mundo. Aí eu falei com ele, eu falei assim: mas filho, tem pessoas boas que elas são boas de verdade, são pessoas que papai conhece, pessoas que conhecem a gente, mas tem pessoas que falam que são boas mas elas são ruins. Como foi o caso da raposa. Você viu que ela falou que ela era boazinha, mas levou pra casa. Na mesma hora ele lembrou da situação do bar. Foi três semanas atrás, ele lembrou. Pai, igual o senhor que deu bala pra mim, né? Ele poderia ser ruim. Eu não devia ter aceitado porque eu não sei se ele era bom, né? Vai que ele queria me comer.

E eu achei assim maravilhosa assim… como que ele conseguiu captar e trazer pra realidade dele, com o intuito ali era de fake news. Mas ele trouxe pra dentro da vivência dele. Eu falei assim: rapaz, é muito bom você ter pessoas que tem essa preocupação, que tem essa visão de educar, trazer coisas boas pros nossos filhos.

Ó, sucesso aí, pra esse novo empreendimento, esse novo podcast, tudo de bom, e saiba que agora você tem, não só um ouvinte, mas você tem dois, meu filho agora vai assistir e escutar todos os episódios e pode contar com a nossa audiência e a nossa colaboração aí”.

Caramba, Cleiton, fiquei arrepiado aqui! Nós pensamos o Café Com Leite para crianças entre 9 a 15 anos. O Benjamim tem cinco! A forma como o conhecimento é processado na cabeça das crianças é fascinante. Ali é uma terra fértil, ainda sem as censuras que vamos assumindo com o tempo… Por isso é tão importante esse “conversar com eles”, como você fez. E foi exatamente pra isso que fizemos o Café Com Leite, para promover essas conversas entre pais e filhos sobre assuntos imprescindíveis para a vida em sociedade. Seu depoimento nos dá certeza que estamos no caminho certo, meu caro. Olha, um abraço pra você e um beijão pro Benjamim.

E você aí que está nos ouvuindo, se você acha que um projeto como o Café Com Leite merece evoluir, nós criamos um financiamento coletivo, que você pode acessar no podcastcafecomleite.com.br . Nós precisamos da colaboração de quem acha que nossas crianças e jovens precisam de conteúdos nutritivos em suas vidas. Dê uma pausa aqui no podcast, vá até o podcastcafecomleite.com.br, clique no link para contribuir, cara, faça sua parte.

Você já sabe que a Perfetto patrocina o Café Brasil fazendo sorvetes, não é?

No site perfetto.com.br – lembre-se sempre que perfetto tem dois “tês”, a gente enlouquece.

Você já conhece o incrível Chocolatudo Speciale Trio Cioccolato da Perfetto? Cara: éÉ a sobremesa ideal para o seu domingo, segunda, terça, quarta, quinta, sexta ou sábado… É um cremosíssimo sorvete de chocolate Meio Amargo com flocos de Chocolate Branco e calda de Chocolate Trufado. Eu vou parar parar de fazer o programa só pra buscar um.

Você tá se aguentando aí? É difícil, né?  Vai lá no @perfettosorvetes no Instagram! Lembre-se, Perfetto tem dois tts. Dá uma olhada, cara: é enlouquecedor!

Luciano – Como é que é mesmo, Lalá?

Lalá – Ah! Com sorvete #TudoéPerfetto, né?

Olha, essa história do cancelamento do professor Greg Patton é um exemplo de como se perdeu completamente o senso de proporção na sociedade. O professor, com 53 anos de idade, viveu por pelo menos um mês um inferno astral, vendo seu nome sendo exposto em todo o mundo acusado de racista. Porque uma palavra em mandarim se parece com uma ofensa em inglês…

O que você acha dessa história, hein? Maluca? Bem, como essa, existem outras milhares acontecendo diariamente por todos os lados. Palavras, frases, gestos, peças de roupas, atitudes, têm sido interpretadas como ofensivas e levado seus autores à desgraça. Sem nenhuma lógica.

É a cultura do cancelamento que tomou conta do planeta.

Há quem defenda que a cultura do cancelamento não existe porque sempre existiu. Muito antes das redes sociais, em rumores, fofocas e campanhas de difamação, pessoas foram canceladas pelos mais diversos motivos. A velocidade, o desleixo e o relativo anonimato das mídias sociais, portanto, não criaram uma linha radicalmente nova de bullying.  Eles apenas facilitaram e exacerbaram um procedimento antigo. E algumas pessoas argumentam que o cancelamento não é bullying, mas é o oposto: um meio legítimo de combater o comportamento abusivo e a exploração do poder e um corretivo necessário para o fracasso do Estado em proteger seus cidadãos.

Você sacou? O cancelamento é uma arma legítima usada por aqueles que querem o seu bem.

E não adianta criticar, alertar, pedir comedimento. A cultura do cancelamento mobiliza uma multidão enlouquecida que não ouve argumentos, a não ser os gritos de “cortem-lhe a cabeça”.

Costumávamos aplicar o termo “cancelar” a questões consumistas. Cancelamos a assinatura de um jornal, a compra de um produto, a assinatura da academia. Mas aos poucos esse termo foi sendo incorporado a nosso repertório com outro significado.

Olha: sempre que me perguntam sobre esse ato de cancelar, lembro de Jesus Cristo crucificado. Ou de Tirandentes, enforcado e depois esquartejado. Em ambos os casos, seus corpos ficaram em locais visíveis, exibidos como um macabro espetáculo que embutia uma lição: veja o que acontece com quem não age de acordo com as regras.

Ao longo da história, aconteceram os açoites, os pelourinhos, os linchamentos públicos. Ainda existem em alguns países o corte da mão do ladrão ou o apedrejamento da mulher em pecado. A exibição pública da punição como instrumento pedagógico. Cê viu?

– Não faça o que ele fez, ou seu destino será o mesmo.

Cara, como isso funciona bem…

Ah, sim, também tem a vergonha que, para existir em sua plenitude, precisa de audiência. Uma rede social, por exemplo, para também servir como instrumento pedagógico.  O ato de envergonhar traça uma linha clara entre o bem o mal. Entre o nós e o eles.

– Não faça o que ela fez, ou você passará uma vergonha igual.

E para lembrar como isso é antigo, os gregos, cerca de três mil anos atrás,  praticavam um ritual usando um sacrifício humano, o pharmakos, para expulsar o mal. “Pharmakos” vem de “pharmakon”, que é tanto ele mesmo quanto seu oposto: remédio e veneno ao mesmo tempo, curandeiro e assassino. Um indivíduo era espancado e exibido nas ruas antes de ser exilado, o que era considerado uma espécie de morte.

Isso foi ao mesmo tempo diversão e expiação, uma maneira de um grupo dominante rotular um “outro” como mau e expulsar esse mal, que não mais habitaria dentro deles.

No chamado Dia da Expiação, encontrado no livro bíblico de Levítico, os hebreus organizavam uma série de rituais que pretendiam purificar a sua nação. Para isso, organizavam um ato religioso que contava com a participação de dois bodes. Em sorteio, um deles era sacrificado junto com um touro e seu sangue marcava as paredes do templo. O outro bode era transformado em “bode expiatório”. Tinha a função ritual de carregar todos os pecados da comunidade. Um sacerdote, então, levava as mãos até a cabeça do animal inocente para que ele carregasse simbolicamente os pecados da população. Depois disso, era abandonado no deserto para que os males e a influência dos demônios ficassem bem distantes.

Após a segunda guerra mundial, mulheres de diversos países que foram acusadas de colaborar ou dormir com os alemães, tiveram seus cabelos raspados em público, servindo como símbolos da vergonha. Enquanto muitos que colaboraram de forma até mais profunda com o regime nazista, saíram impunes. Aquelas mulheres foram bodes expiatórios. Essa arbitrariedade é outra característica da cultura do cancelamento. Ela não está interessada em justiça, em equalidade.

No filme New Jack City, de 1991, talvez esteja o primeiro registro popular do termo cancelar, na cena em que o chefão do crime, Nino Brown, interpretado por Wesley Snipes, joga sobre a mesa a sua namorada, que estava protestando pelos assassinatos que ele promovia, despejando champanhe sobre sua cabeça e dizendo para um comparsa:

– Cancele essa puta. Vou comprar outra.

Na internet, o primeiro registro do termo “cancelar” parece ser de 2014, quando a conta oficial do programa The Colbert Report, do Comedy Central, publicou uma piada considerada ofensiva aos asiáticos. A ativista Suey Park respondeu com a hashtag #CancelColbert e levantou uma grande celeuma. Stephen Colbert então excluiu a conta do programa no Twitter ao vivo em um episódio do show, dizendo “eu nunca mais quero que isso aconteça novamente”.

Mas o cancelamento deu para trás e Suey Park passou a ser perseguida, recebendo diversas ameaças e tendo de raspar o cabelo e se mudar de cidade, para não ser reconhecida.

O monstro já nascia incontrolável…

O bode expiatório moderno, representado pelas figuras que são canceladas pelos tribunais da internet, desempenha uma função equivalente. Ele une grupos que de outra forma estariam brigando entre si, contra um suposto transgressor que alivia os condenadores do fardo de lutar com seus próprios erros.

Uma coisa era a cultura do cancelamento promovida pelo Estado, como milhares de exemplos mostrados pela história. Outra é a cultura do cancelamento promovida por nós mesmos, indivíduos, sem um aparato do estado para impor políticas ou crenças.

Reprimir crimes menores, evita crimes maiores. Essa é a desculpa. Cale imediatamente a boca do Youtuber que falou uma bobagem, antes que alguém coloque essa bobagem em prática.

Hummmmmm…. agora vamos com outro cancelado famoso, vai. O fabuloso Eric Clapton, com Blues em A.

Eric viu sua carreira entrar em desgraça quando se atreveu a criticar as vacinas experimentais contra a Covid, que paralisaram uma de suas mãos. Teve shows cancelados e passou a ser atacado nas redes. Bem, se depender de mim, ele vai continuar fazendo shows sim e vendendo suas músicas. Sobe aí, Lalá!

Muito bem. Agora bote uma pitada do pânico moral, definido nas palavras da cientista de dados Ashley Crossman:

“Pânico moral é um medo espalhado pela sociedade, geralmente um medo irracional, de que alguém ou alguma coisa é uma ameaça aos valores, à segurança e aos interesses de uma comunidade ou sociedade. Tipicamente, o pânico moral é perpetuado pela mídia, alimentado por políticos e geralmente resulta na aprovação de novas leis e políticas que têm como alvo a fonte do pânico. Dessa forma, o pânico moral pode ampliar o controle social.”

Ampliar o controle social. Tá entendendo, hein?

Eu tratei dessa loucura na Jornada Psicose de Massa, que tem umas cinco horas de conteúdo mostrando como somos manipulados para permanecer em pânico moral, angústia e histeria. Você encontra gratuitamente a Jornada na home do cafebrasilpremium.com.br.

Os pânicos morais foram tradicionalmente planejados por aqueles no poder para reafirmar a necessidade de modos de controle, ou por interesses comerciais para lucrar com a atenção que vem através do escândalo. É uma forma de manipulação, desviando a ira pública da injustiça estrutural para um grupo específico, que vai para o ostracismo como uma personificação do mal. Ou então, para um indivíduo.

Sacou então? Temos a receita para o cancelamento:

– Percepção real ou forjada de que o Estado não pode nos proteger.

– Pânico moral.

– Imputação de nossas culpas e vergonhas em outra pessoa.

– Total ausência de critérios como senso de proporção, de prioridade, de urgência.

– Distância segura do alvo. Não sentimos sua dor, não ouvimos seus gemidos, não precisamos nos condoer com sua dor. Não precisamos praticar a empatia.

– Sensação de impunidade pela aparente invisibilidade.

– Facilidade para punir. É só digitar uma bobagem e apertar o enter.

– Sensação de segurança por fazer parte de uma horda. Se é assim que todos pensam e agem, então estou certo.

Você sacou, hein? É quase irresistível se você for moralmente, digamos, flexível, fazer parte da turba que vai linchar o alvo da hora. Depois, lá na frente, quando a razão for recuperada, tá tudo certo. Mesmo que fique provado que a vítima cancelada não tinha culpa, não haverá a quem culpar por sua desgraça. Esqueça o desgraçado, vamos tocar a vida, cara. Tem outro pra cancelar, hein?

Qual é o risco aí? Como nos linchamentos e justiçamentos históricos, há o perigo de se cancelar inocentes. De se manipular o processo para se livrar de quem não gostamos. De virar massa de manobra de políticos ou ideólogos, para atacar seus inimigos.

Mas o pior de tudo, é a construção de uma percepção de medo na sociedade.

Cara, tenho gravado meus vídeos para o Cafezinho, revoltado. Se antes eu tinha de prestar atenção ao uso do bom português, com o tempo eu tive de prestar atenção ao politicamente correto. E hoje, preciso prestar atenção para não usar palavras proibidas, não interessa o contexto. Se a palavra é proibida, por simplesmente falar o termo, você pode ser cancelado.

Vejam o exemplo do Monark e do Adrilles Jorge: fizeram um discurso muito claro de condenação do nazismo e no final  por uma frase ou um gesto, foram acusados de apologia. Entendeu? Apologia ao assunto eles acabaram de condenar veementemente. Bastou uma frase ou um gesto para que seus inimigos acordassem o monstro cancelador e a irracionalidade tomasse conta da sociedade. O resultado foi pressão nos patrocinadores dos programas, que normalmente é uma gente covarde, apavorad, com medo de perder clientes, que exigiram que cabeças fossem cortadas. E deu no que deu.

Algumas semanas depois do escândalo, Adrilles foi recontratado pela mesma Jovem Pan que o demitira. E Monark está retornando ao jogo, com seu próprio canal num concorrente do Youtube. E a mesma sociedade que os cancelou, agora finge que está tudo bem.

Cara, isso não pode ser normal.

No more lockdown
Van Morrison

No more lockdown
No more government overreach
No more fascist police
Disturbing our peace

No more taking our freedom
And our God-given rights
Pretending it’s for our safety
When it’s really to enslave

Who’s running our country?
Who’s running our world?
Examine it closely
And watch it unfurl

No more lockdown
No more threats
No more Imperial College scientists makin’ up crooked facts

No more lockdown
No more pulling the wool over our eyes
No more celebrities tellin’ us
Tellin’ us what wе’re supposed to feel
No more status quo
Put your shouldеr to the wind

No more lockdown
No more lockdown
No more lockdown
No more lockdown

No more lockdown
No more government overreach
No more fascist police
Disturbing our peace

No more taking our freedom
And our God-given rights
Pretending it’s for our safety
When it’s really to enslave

Who’s running our country?
Who’s running our world?
Examine it closely
And watch it unfurl

No more lockdown
No more threats
No more Imperial College scientists makin’ up crooked facts

No more lockdown
No more pulling the wool over our eyes
No more celebrities tellin’ us
How we’re supposed to feel
No more status quo
Gotta put your shoulder to the wind

No more lockdown
No more lockdown
No more lockdown

É assim então, ao som de No more lockdown, a canção que Van Morrison lançou como protesto contra o lockdown que jogou milhares de artistas numa situação complicada, sem trabalho e apoio, que vamos saindo pensativos.

A letra diz “chega de lockdown. chega de limitar nossa liberdade, e nossos direitos dados por Deus. Fingindo que é para nossa segurança, quando é para nos escravizar…”

Tanto Eric Clapton como Van Morrison entraram na mira dos canceladores por conta de canções que contestaram as medidas abusivas contra a Covid. Eu não sei você. Olha, se depender de mim, eles vão continuar fazendo sua música, vão fazer seus shows, vão dar suas opiniões livremente. Eu não entrei nessa do cacelamento!

Olha: se você se preocupa com a educação de seus filhos, ajude a gente a levar adiante o projeto do Café Com leite. Os primeiros seis episódios estão sendo publicados toda terça feira, e lançamos um financiamento coletivo para financiar a produção de mais 24 episódios que serão distribuídos até o final de 2022. Você pode participar acessando podcastcafecomleite.com.br. Vem com a gente!

O Café Brasil é produzido por quatro pessoas. Eu, Luciano Pires, na direção e apresentação, Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e, é claro, você aí, que completa o ciclo, enquanto não cancelarem a gente.

O conteúdo do Café Brasil pode chegar ao vivo em sua empresa através de minhas palestras. Acesse lucianopires.com.br e vamos com um cafezinho ao vivo.

Mande um comentário de voz pelo WhatSapp no 11 96429 4746. E também estamos no Telegram, com o grupo Café Brasil.

Para terminar, inspirado pelo período no qual estou escrevendo este episódio, a Páscoa, uma citação de um famoso cancelado:

Perdoai-os, Pai. Eles não sabem o que fazem.