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Podcast Café Brasil com Luciano Pires
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Café Brasil 171 – O Caos Ordenado

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Luciano Pires -

Bom dia, boa tarde, boa noite. O Brasil é uma zona, né? Mas como assim… Zona. Na verdade eu quero dizer : O Brasil é um caos! E sabe de uma coisa? Sob certo ponto de vista, ainda bem! É sobre o caos que vamos tratar aqui, no Café Brasil, um programinha que é um caos ordenado. Pra começar, uma frase do filósofo Friedrich Nietzsche

É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.

[tec] melo do pocoto [/tec]

Um dia parei pra refletir sobre o trabalho que faço, usando a cultura brasileira pra chacoalhar as pessoas que estão inertes, simplesmente existindo em vez de viver. Pensei, pensei… e cheguei à conclusão que sou o resultado de tudo o que pratiquei desde que decidi seguir a carreira de executivo de uma multinacional. Sendo um cartunista,  adotei um estilo de administração brasileiro, que chamo de “Oportunismo Disciplinado”. Sempre trabalhei com a equação “sessenta por quarenta”. Meus planos têm 60% das variáveis sob controle. As outras 40% eu guardo para as oportunidades. Não sei o que vai acontecer, mas aconteça o que acontecer, to pronto pra tirar um proveito. De repente aparece algo que não estava no plano ou no orçamento, mas é tão bom que tem que ser aproveitado. Pois encaixe-se no plano. Meu plano de vida é flexível, aberto às oportunidades. E como essa atitude não faz “parte do plano”, mas “É” o plano, as oportunidades surgem naturalmente.  Mais que isso: conto com elas. O preço disso é manter-se antenado todo o tempo. Esse é meu plano: o oportunismo disciplinado.

[tec] ngiculela [/tec]

Bem, se é pra falar de caos, vamos com o caos. Você ouve Mariana Ramos, lá de Cabo verde, cantando Stevie Wonder – Ngiculela – I am singing. Bagunça total, né/ Mas uma delícia….

Foi assim que, no ano 2000 quando eu já era Diretor de Comunicação de uma multinacional, decidi que poderia fazer muito mais. Tirei um mês de férias e fiz uma caminhada ao Campo Base do monte Everest, no Nepal. Quinze dias de reflexão sobre minha carreira, meus objetivos, meu futuro. Quando voltei, tinha decidido que abriria outras frentes de ação. E dessa decisão surgiu meu livro Brasileiros Pocotó. Minhas palestras. O meu site www.lucianopires.com.br . A Melô do Pocotó. O meu programa de rádio… E centenas e centenas de coisas que fiz.

Se meu plano fosse 100% focado na questão do “ser um executivo de sucesso”, ao qual eu estivesse amarrado como um estadunidense, japonês ou alemão, duvido que eu estivesse aqui, falando pra você.

Talvez eu fosse hoje um alto executivo de multinacional, trabalhando nos EUA e cuidando de atividades globais. Bem colocado na vida, respeitado, celebrado e… Infeliz. Foi o “oportunismo disciplinado” que me transformou num executivo / escritor / radialista / montanhista / cartunista / conferencista / provocador e o que mais aparecer pela frente…

Mais que resultado dos 60% de organização e controle, sou os 40% flexibilizados, improvisados e irreverentes. Mas disciplinados.

[tec] sobe ou vinheta café brasil [/tec]

E foi do Oportunismo Disciplinado que nasceu este Café Brasil, com a intenção de marcar aquele momento especial do cafezinho, quando paramos a correria do dia a dia para falar das pequenas coisas importantes que deixamos de lado. O Café Brasil é uma fertilizadora cultural. Pratico nela o que chamo de “fitness intelectual”, exercícios para a mente. Pego fragmentos de conhecimento daqui e dali, junto algumas idéias próprias, cozinho em fogo baixo e sirvo sob forma de Iscas Intelectuais.

[tec] beleza [/tec]

Olha só que beleza! Você ouve BELEZA, de Marcello Ferreira, com o próprio. E daí? Já tinha ouvido falar em Marcello Ferreira? Aposto que não…

Pois então. Uso músicas que ninguém usa. Integro as músicas ao tema do programa. Trato de assuntos que pouca gente trata, misturando reflexões com críticas, falando de nossa história, das referências, do Brasil que dá certo e do que dá errado. Junto política com cidadania. Este cafezinho é um caos ordenado, se é que consigo me explicar. E é exatamente aí que está sua diferença. Não é um programa sobre política, mas é sobre política. Não é sobre comportamento, mas é sobre comportamento. Quero que você venha tomar um cafezinho comigo. Esse é o espírito da coisa.

[tec] sobe [/tec]

E então recebo uns recados de ouvintes. Como o da Izabel da Rocha, que diz: Luciano adoro seus comentários sou sua fã de carteirinha, acho você um excelente crítico e comentarista também sempre que posso não deixo de ler seus artigos. Mas como ninguém é perfeito eu simplesmente odeio a suas músicas. Você poderia modernizar a suas músicas. Eu gosto de mpb, neste exato momento eu estou ouvindo a rádio (Nova Brasil FM),afinal estamos no século 21 e eu só tenho 29 anos dá para ouvir essas músicas.”

E  teve também o comentário curto e grosso do ouvinte José Modesto: “Texto: nota dez. Trilha sonora, nota ZERO!”

[tec] eu quero ver você dizer que eu sou ruim [/tec]

Dá-lhe Alceu Valença, com EU QUERO VER VOCÊ DIZER QUE EU SOU RUIM… Eu quero ouvir você dizer que bem me quer, pô!

[tec] sobe [/tec]

Pois é, nunca dá pra agradar todo mundo, não é? Mas um coisa tenho que deixar claro: minha missão não é tocar musicas “modernas”, ou “músicas legais de ouvir”. Tampouco vou me especializar em MPB, rock, samba ou o ritmo que seja. O Café Brasil tem como missão tocar músicas que representem a diversidade de ritmos, estilos e épocas brasileiras. A cultura brasileira é um caos. A culinária, as danças regionais, as vestimentas, as músicas. A riqueza desse caos é nossa grande oportunidade de causar uma diferença no mundo, se soubermos explorar as diferenças. Mas para isso precisamos conhecer – e principalmente – respeitar as culturas diversas deste brasilzão. Por isso toco de tudo, novo e antigo. Amo imaginar a surpresa de quem está me ouvindo e se depara com uma mudança de Maria Bethania para Elizer Setton. De Luiz Gonzaga para MV Bill. De Clara Sverner para o Gaúcho da Fronteira. De Tim Maia para Cascatinha e Inhana… Deve ser um susto, não é? Pois é. Eu quero é o espanto!

[tec] flor do cafezal [/tec]

Opa! Ficou espantado com Cascatinha e Inhana cantando FLOR DO CAFEZAL de Luiz Carlos Paraná? Rararraa… to só começando!

Foi Rubem Alves quem escreveu que: “Rotinas e repetições paralisam o pensamento. Inteligência se alimenta de desafios. Sem desafios ela murcha, encolhe. O conhecimento só se inicia quando o familiar deixa de ser familiar, quando nos espantamos diante de um enigma. É no espanto que o pensamento começa”

[tec] vinheta [/tec]

[tec] rock do ratinho [/tec]

Epa! E agora, hein? Carequinha, com o Rock do Ratinho, de Cyro de Souza, morou? Se você tem 50 anos de idade sabe bem quem foi George Savalla Gomes, o palhaço Carequinha, que comandou o Circo do Carequinha na TV Tupi nas décadas de 50 e 60. Era programa obrigatório para a garotada. Carequinha morreu aos noventa anos em 2006, e foi enterrado vestido com suas roupas de palhaço. Carequinha! No café Brasil!

[tec] sobe ou vinheta [/tec]

[tec] carinhoso – caixinha de música [/tec]

Se está dando certo?  Olha, logo que tentei entender como é medida a audiência deste programa, não consegui. E quando entendi, não acreditei. Mas deve ser boa, pois recebo ligações e e-mails de vários ouvintes. O programa hoje já está sendo retransmitido por 29 rádios pelo Brasil. O podcast está com mais de um milhão de downloads por ano. Considerando que cada download tem cerca de 17 mega, dá pra fazer a conta do tamanho da bronca.

No entanto, não existem anunciantes. Quando se trata de internet, mergulhamos num poço de ignorância. Ninguém parece perceber – ou não quer perceber – que para fazer um download de 17 megas o sujeito tem que ter banda larga. Precisa saber como lidar com mp3, com iTunes, com iPod. Além disso, pelo meu conteúdo, o sujeito tem que estar muito disposto a sair atrás. Este cafezinho não é um programa que as pessoas ouvem “sem querer”. Isso significa que você faz parte de uma audiência extremamente qualificada. Mas vá explicar isso para um mídia ou gerente de marketing de um anunciante… Essa turma só entende de pocotó.

[tec] vinheta pocotó  [/tec]

[tec] mistura e manda [/tec]

Olha só… você ouve MISTURA E MANDA, de Altamiro Carrilho. Não é ótimo?

Pois é, eu tento abusar da liberdade que a internet nos dá. Quando eu era garoto, meu pai me deu uma lanterna. Fascinado, eu andava com ela de noite ou de dia, firme no volante. Meu pai então começou a me chamar de Diógenes, referindo-se a Diógenes de Sínope, um filósofo grego que viveu em torno de 350 antes de cristo em Sinop, onde hoje é a Turquia. Dizem que Diógenes vagava pelas ruas com uma lanterna procurando “a verdade” ou “um homem honesto”. Diógenes era completamente desligado de bens materiais, vivendo como mendigo dentro de um barril. Diógenes era um anarquista. Quando Alexandre o Grande perguntou o que poderia fazer por ele, ouviu como resposta:

– Sai da frente que você está tampando o sol…

[tec] sai da frente – índio cachoeira [/tec]

Olha só… SAI DA FRENTE, com a viola do Índio Cachoeira

Pois então, com sua liberdade, Diógenes incomodava. Afinal, a vida em sociedade apóia-se na supressão das liberdades. Em nome do bem comum, leis e regras nos obrigam a renunciar a nossos desejos. Caso contrário seria o caos.

Diógenes hoje não seria respeitado. Seria um pária, insuportável.

Muito bem. Com o desenvolvimento da sociedade tornamo-nos cada vez mais dependentes de pessoas e sistemas. Dependemos para comer, para morar, para brincar, para amar, para pensar. Ainda pagaremos um imposto para respirar, pode ter certeza.

E então surge a internet. Uma rede de pessoas, a maior fonte de conhecimento da história da humanidade. Nela podemos navegar para onde quisermos. Podemos escrever nossa opinião e ler a opinião dos outros. Por ser livre, a internet é nossa lanterna de Diógenes: através dela podemos buscar a verdade.

[tec] vinheta [/tec]

Mas como aconteceu com Diógenes, a liberdade da internet incomoda. É perigosa. Enche a cabeça das pessoas de idéias… É preciso, portanto, criar regras. Primeiro as econômicas: para acessar isto ou aquilo, você tem que pagar. Depois as jurídicas: se fizer isto ou aquilo, você incorre em alguma contravenção. E as regras policiais: estamos te vigiando. Sabemos onde você esteve, o que você fez e o que você pensa…

Mas o pior são as regras sociais. As do “politicamente correto”. Isto não se fala, aquilo não se toca… Siga as regras, faça como todo mundo faz, não incomode com essas loucuras. Bote ordem no caos!

Eu não!

[tec] golden slumbers [/tec]

Rotinas e repetições paralisam o pensamento. Inteligência se alimenta de desafios. Sem desafios ela murcha, encolhe. O conhecimento só se inicia quando o familiar deixa de ser familiar, quando nos espantamos diante de um enigma. É no espanto que o pensamento começa.

E é assim ,ao som de Cássia Eller com Golden Slumbers/Carry that weight de Paul McCartney, que o Café Brasil do caos ordenado vai tirando o time de campo.

Estiveram conosco hoje – segura essa – Mariana Ramos, lá do Cabo verde, Marcello Ferreira, Alceu Valença, Carequinha, Cascatinha e Inhana, Índio Cachoeira, a Caixinha de Música Brasileira e Cássia Eller…

Gostou? Quer Mais? Que tal ouvir a rádio Café Brasil? É em WWW.lucianopires.com.br

E pra terminar, a frase do poeta inglês Alexander Pope:

“No caos do homem, mesclam-se luz e treva.”