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Podcast Café Brasil com Luciano Pires
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Trivium: Capítulo 4 – Definição dos Termos (parte 4)
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Café Brasil 179 – Os filtros

Café Brasil 179 – Os filtros

Luciano Pires -

filtros

Bom dia, boa tarde, boa noite. Você já deve estar de saco cheio de tanto ouvir que “vivemos na era da informação”, não é? Mas o que é que isso quer dizer realmente? Ou melhor, que cuidados nós temos que ter para viver nesse mar de informações? Um deles é desenvolver alguns filtros. É disso que vamos tratar hoje!

Pra começar, a frase de um anônimo:

Um homem com um relógio sabe que horas são. Um homem com dois relógios, nunca tem certeza.

[tec] meo do pocoto [/tec]

Eu tinha 12 anos quando a professora de ciências pediu um trabalho escolar sobre queirópteros: a ordem dos morcegos. Comprei cartolina. Pincel atômico. Cola Tenaz (a grande novidade que substituía a goma arábica). E mergulhei na minha enciclopédia Conhecer.

Para encontrar os queirópteros passei pela Grécia antiga, a Grande Muralha da China, os dinossauros e os satélites artificiais, viajando pelas páginas coloridas dos livros durante horas. Até encontrar os tais morcegos. Aí copiei o texto (escrevendo à mão), recortei revistas, colei na cartolina, e na segunda-feira levei aquela coisa amassada à escola para a professora examinar e dar a nota. Era assim o processo. E nunca mais esqueci o que são queirópteros. Ou como funciona um navio. Ou como morreram os dinossauros…

Mas o tempo passou e…

[tec] vinheta de internet [/tec]

E hoje, hein? A garotada acessa o Google ou a Wikipédia, digita o assunto que interessa e pronto! Copia, cola e imprime seu trabalho, entrega no dia seguinte e nunca vai se lembrar daquilo que copiou. E nem teve a chance de navegar pela enciclopédia.

Mas é esse o novo processo da tal sociedade da informação: tudo está à mão, vindo de qualquer fonte, em qualquer idioma, com imagens, vídeos e sons. Imediatamente. E a cada dia mais tecnologia é desenvolvida para facilitar mais acesso a mais dados e informações.

No entanto, pouca gente percebeu que o DNA da “sociedade da informação” não é a informação. É a logística.

[tec] leva eu sodade [/tec]

Ah, cara, essa eu queria tocar aqui faz tempo… É LEVA EU SODADE, de Tito Guimarães e Alberto Cavalcanti. Essa toada fez um baita sucesso em 1962, ao ser gravada por Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano. Esta gravação é de 1980, com a voz grave do cantor Geraldo, que substituiu Noriel Arantes, o vozeirão original que marcava o som gospel desse grupo brasileiro. Cantores de Ébano, sabe onde? No Café Brasil, oras…

Logística! A maioria absoluta da informação à qual temos acesso hoje, sempre esteve por aí, disponível. A “sociedade da informação” apenas popularizou as ferramentas de acesso às idéias e obras de Platão, Einstein, Picasso, Sinatra ou Cecilia Meireles.

Mas de que vale tanto acesso à informação para quem não tem repertório para interpretá-la?

Filtrar tudo a que temos acesso para escolher a informação relevante é o maior desafio para quem quer não apenas sobreviver, mas vencer na sociedade da informação.

Estamos na era dos filtros.

[tec] final da música [/tec]

[tec] vinheta café brasil [/tec]

[tec] mmmmmm [/tec]

É possível comprar ou emprestar filtros. É assim que fazemos quando escolhemos aquilo que todo mundo está usando, a música que todo mundo está ouvindo, o livro que todo mundo está lendo: usamos os filtros dos outros.

Quando escolhemos um jornal ou revista para ler, escolhemos um filtro. É através dos olhos dos editores que veremos o mundo.

E a maioria das pessoas, com preguiça ou por pura ignorância, passa a vida vendo o mundo pelos filtros dos outros.

Dá para viver assim? Dá. Dá até para ter algum sucesso. Mas seremos sempre nada mais que previsíveis.

Bem, minha recomendação é que você invista no desenvolvimento de seus próprios filtros.

Como? Olha, dá trabalho, pois exige estudo e – sobretudo – atenção. É necessário estar permanentemente atento para refletir sobre nossas experiências, sobre o que passamos e quais as conseqüências. Estar atentos para diversificar nossas leituras, usar a multiplicidade de idéias da internet, encontrar mentores que nos orientem e sempre lançar aquela perguntinha marota:

– Por quê?

[tec] e porque não? [/tec]

Que tal esse som, hein? Você ouve  E PORQUE NÃO? De xxxxxx, com a banda gaúcha Bidê ou Balde. É sim! Bidê ou Balde é o nome da banda formada em 1998 em Porto Alegre. Após a gravação do Acústico MTV Bandas Gaúchas, essa música rendeu à banda processos com acusações de incentivo ao incesto e pedofilia. Ouça a letra e tire suas conclusões…

“A melhor maneira de ocultar a verdade é usar um português obscuro, ambíguo”, diz minha amiga Jussara Simões.

Quer ver?

[tec] sopapo [/tec]

Bom isso, né? É SOPAPO, de João Donato e Paulo Moura… Olha que delícia…

Pois então…o Portal Imprensa publicou que os Portais UOL, Terra e Globo decidiram notificar a Rede Record por supostamente distorcer os dados do Ibope para classificar seu portal R7 como o segundo maior Portal do Brasil. No final do texto, os jornalistas escreveram: “Procurada pela reportagem, a Rede Record afirmou, por meio de sua assessoria, não ter recebido qualquer notificação.”.

Hummm… a Record não recebeu “qualquer” notificação, mas talvez tenha recebido uma notificação “específica”, não é? E se ela recebeu a notificação específica, não mentiu aos jornalistas quando disse que não recebeu uma notificação “qualquer”, compreendeu?

Eles disseram “recebemos” escrevendo “não recebemos”.

[tec] sobe [/tec]

O escritor inglês George Orwell descreveu em sua obra prima “1984” um mundo dividido em três grandes blocos: a Oceania, a Lestásia e a Eurásia. Na Oceania, composta pelas Américas, Inglaterra, Sul da África e Austrália, o idioma falado pelos cidadãos era o inglês. Mas todos os documentos eram escritos em “novilíngua”, o idioma oficial do Partido.

O conceito da novilíngua baseia-se na noção de que, no processo de pensar,  traduzimos os pensamentos em palavras, manipulando-as num diálogo interno. Quando surge um tema complexo e novo, inventamos novas palavras ou adaptamos antigas, de forma a enriquecer nossa capacidade de dialogar mentalmente. Portanto, quanto mais rico nosso vocabulário, maior a capacidade de fazer comparações mentais sutis.

Para os criadores da novilíngua, se alguma coisa não pode ser expressada numa palavra, fica mais difícil de pensá-la. Portanto, a proposta era reduzir o vocabulário para diminuir a capacidade dos indivíduos de desenvolver pensamentos que conflitassem com os interesses do governo. E a cada nova edição do dicionário da novilíngua, menos vocábulos estavam presentes. O Partido esperava que até 2050 a novilíngua substituísse o inglês como idioma corrente. A novilingua promovia o “duplipensar”, um estado mental em que dois pensamentos excludentes entre si conseguem coexistir.

[tec]  sim e não [/tec]

Hoje o Café Brasil ta cheio de sons novos… Essa é SIM E NÃO,  com a banda Caboclada. A Caboclada é de São Paulo, composta pelos irmãos Marcio e Téo Werneck, o baixista TC e o bateirista Carneiro Sândalo. O Caboclada faz um som pop rock com contribuições da cultura popular que Marcio Werneck captura em suas viagens pelo Brasil. Caboclada, no Café Brasil!

Muito bem. Vivemos numa sociedade onde nenhum valor moral é mais importante que a troca de nosso dinheiro (ou poder) por um produto. Nesse ambiente competitivo, se os argumentos dos “vendedores” são verdadeiros ou não, não tem importância, contanto que sejamos persuadidos. E uma das armas principais para nos convencer é exatamente a novilíngua e o duplipensar, que saltaram da ficção de Orwell para a realidade.

Hoje em dia, como nunca antes neste país, malabarismos lingüísticos fazem com que um sim signifique não. E pouca gente percebe. É assim que se abre caminho para um programa de proteção aos direitos humanos que cassa direitos humanos. Ou um chamado “Comitê da verdade” que só quer a verdade de um lado. Ou o caixa dois transformado em “recursos não contabilizados”. Ou uma “promoção” que custa mais caro. Ou o corrupto que é apresentado como grande político. E assim por diante.

[tec] fim do caboclada [/tec]

O próprio George Orwell escreveu: “Se as idéias corrompem a língua, a língua também corrompe as idéias”.

Por isso enriquecer o vocabulário não serve só para falar bonito.

Serve para pensar direito.

[tec] bonitinho [/tec]

Ao fundo você está ouvindo BONITINHO, de Yamandu Costa e Dominguinhos, com os dois…

Algum tempo atrás usei num dos programas um texto delicioso chamado OBESIDADE MENTAL, escrito por João César das Neves, professor português. Vale lembrar um trecho dele:

“…nossa sociedade está mais atulhada de preconceitos que de gorduras, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas se viciaram em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo mas não conhecem nada a fundo. Os cozinheiros desta magna fast-food intelectual são os jornalistas comentadores, os editores da informação filósofos, os romancistas e realizadores de cinema. Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação. (…) O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve. Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto.

(…) Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia. Floresce a pornografia, o cabotinismo a imitação, a sensaboria, o egoísmo.

Não se trata de uma decadência, uma idade das trevas ou o fim da civilização, como tantos apregoam. É só uma questão de obesidade. O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos. O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa sobretudo de uma melhor dieta mental.

[tec] desafio [/tec]

Olha só quem chega agora no Café Brasil: Tom Zé com sua música insitgante. Aqui você ouve DESAFIO… Fala a verdade… quem mais toca Tom Zé?

Melhor dieta mental… Quem me acompanha neste Café Brasil já sabe qual é meu objetivo: tento estimular as pessoas a praticar o velho hábito do pensar. Do raciocinar. Da reflexão. Pra mim essa tem sido a grande perda da humanidade: o exercício do pensamento, da reflexão, das comparações, do julgamento e da tomada de decisão. Essa falta de exercício engorda, sabe? Mas engorda o cérebro, como diz o texto do Prof. João Cesar das Neves… O problema é que não se trata daquela gordura que chamamos de lipídeos e que é responsável por essa sua barriguinha, esse seu culote, esse papo. A gordura do cérebro é outra. Ele engorda não com gordura, mas com informações inúteis. Ocupamos o cérebro com besteiras, com informações que não vamos usar, com porcarias trazidas pela mídia…

[tec] baixe as arma comedor [/tec]

Muito bem, viu como é a coisa? Se comida saudável ajuda a manter o corpo saudável, informação saudável ajuda a manter a mente saudável. Simples, não é? E adivinha quem escolhe que informações vai deixar entrar em seu cérebro. Pois é… E é assim ao som de Jessier Quirino com seu BAIXA AS ARMA COMEDOR, que o Café Brasil de hoje vai embora…

Com Lalá Moreira na técnica, Ciça Camargo na produção e eu: Luciano Pires na direção e apresentação.

Estiveram conosco Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano, Bidê ou Balde, João Donato e Paulo Moura, Jessier Quirino, Caboclada, Yamandu Costa e Dominguinhos e Tom Zé… Pode isso?

Gostou? Pois dê uma olhada no WWW.lucianopires.com.br . Tem muito mais conteúdo por lá. E conteúdo saudável, que não engorda…

Pra terminar, vamos com uma frase de um anônimo:

Todos tem o direito de ser estúpidos. Alguns apenas abusam desse privilégio.