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Chiquinho Rodrigues -

Não tem nada pior do que alguém da escola do seu filho descobrir que você é músico. Mais cedo ou mais tarde você sabe que vão te meter em uma fria!

E foi assim que eu recebi o telefonema da diretora me convidando (intimando) a participar do – Dia da Arte.

Minha missão era simples!

Reunir umas quinze crianças entre oito e nove anos e ensaiá-las para apresentarem durante o festival da escola um número de música folclórica.

Eu ODEIO música folclórica!

Bom… uns dez dias antes da apresentação fui lá conhecer os alunos da terceira série D do Instituto de Ensino Capelão Eustáquio Mazzola.

Antes passei pelo escritório da diretora, Dona Alfênia, e ambos fomos até a sala da professora Martha.

(Eu descobri mais tarde que o apelido da Alfênia era “Dona Mosca” por causa de uma verruga horrorosa que ela tinha instalada em cima do lábio superior e que provocava em todo mundo uma ânsia terrível de espantar aquela coisa dali).

Entramos na classe.

– Gente, atenção! – rugiu Dona Alfênia – este é o tio Chiquinho, pai do Thiago da terceira C. Ele é um maestro muito famoso (?) e vai ensaiar com vocês a música do “Sapo Comilão”.

Setenta e oito olhinhos em cima de mim…

– Vamos todos cooperar com ele para fazermos um grande show não é, classe? – continuou ela – e agora… uma salva de palmas para o nosso querido maestro!

Fiquei parado ali por um tempo que me pareceu uma eternidade com aquela cara de cu ouvindo palmas, assovios, urros e alguns “dá-lhe careca!” entre outros elogios.

Comecei a perceber então onde eu estava sentado.

Marquei uma audição com os alunos para o dia seguinte.

Peguei a partitura e fui ter o meu primeiro contacto com a obra.

O “Sapo comilão” é uma performance em que um bando de pivetes ensandecidos e munidos de instrumentos de percussão tipo: chocalhos, pandeiros, apitos. agogôs, ganzás, berimbaus, caxixis, triângulos, pratos zabumbas e o cacete; que toca e canta a letra de uma música pra lá de curiosa!

A música começa assim:

(Alguns perguntam) Quem é o sapo na lagoa?
(Outros respondem) É o Aderbal!
(Alguns perguntam) O que faz ali sentado?
(Outros respondem) Come mingau!
(Alguns ainda perguntam) O que mais que o sapo come?
(Aí todo mundo junto e tocando todos os instrumentos ao mesmo tempo começa a berrar bem alto:)
Ele come melancia!
Na casa da sua tia
Come chucrute!
Sem levar um chute!
Come mangaba!
Come até jiló!
Come goiabada!
Come tudo sem ter dó!

(nesta altura já estão todos ensandecidos de pé batendo bem forte nos seus instrumentos e gritando insanos a pleno pulmões)

Ele COME, COME, COME, COME, INCHA, INCHA, INCHA, INCHA!

De repente um breque.

Silêncio.

Um garoto se adianta do grupo e solta um tremendo arroto! (isto também está na partitura)

Fim e bis desde o início.

Conversando com a professora Martha fiquei sabendo que quase todo mundo já conhecia essa música, pois já tinha sido apresentada em outros anos por outras turmas. Eu só precisava ensaiá-los direitinho com os instrumentos e definir quem arrotaria no final.

Em vez do ensaio, marquei então um pré teste para avaliação e escolha do melhor arrotante da classe.

Dia seguinte.

Sala de aula da terceira série D.

Sentados em frente a uma mesa, eu, tia Martha, a Mosca e uma coca litro.

Do lado de fora os alunos esperando para serem chamados.

Bom, vou te poupar desta experiência em sua totalidade e te contar só os “melhores momentos”.

Teve de tudo.

Moleques que só vieram para zoar, alguns que nem sabiam o que era um arroto, outros que demoraram uma eternidade para o refrigerante fazer efeito, meninas que só conseguiam soluçar, e a grande maioria que só queria mesmo tomar coca cola e arrotar na nossa cara.

Para todos os alunos que se apresentavam tia Martha e dona Alfênia faziam anotações. Os destaques ficaram mesmo para o Rubinho “bom de boca” e o baixinho Zé Luís.

Impressionante o arroto do Rubinho!

Começava pelos sons mais graves como a formação de um trovão ou o início da erupção de um vulcão adormecido!

Em forma de portamento o som passava pela região média onde a gente podia distinguir os gritos de algumas hienas no cio e acabava desaguando nos agudos como uma turba enraivecida de torcedores do Corinthians ao verem a bola passar rente à trave do gol adversário e não entrar!

Tudo isso muito alto! E ele nem precisava tomar coca!

Arrotava com espontaneidade a qualquer hora, era só pedir (ou não).

Já tínhamos escolhido o Rubinho bom de boca como “o arroto”, mas faltava ouvir ainda um último garoto. O baixinho Zé Luís.

Entrou, sentou-se e eu perguntei como fazia a todos:

– Então Zé, você arrota?

– Não seu Chico, eu peido.

– Ah… legal Zé, mas não estamos precisando para o momento dos seus serviços. Talvez em uma outra oportu…

– Mas é alto o som! – interrompeu ele – e não tem cheiro! Quer ver?

– Acho que não precisa se incomo…

–PUMMMMVRRRRUMMMMBOARDUMMMMMORMMM – intercedeu o Zé.

Cara! Era muito alto o som e não tinha mesmo cheiro algum. Mas fazia um vento filho da puta! (O capelão Eustáquio Mazzola deve ter se revirado na tumba nessa hora).

Bom… aplaudimos, demos os parabéns e tal e encerramos os trabalhos.

Dia da apresentação.

Tem mãe de aluno que é foda, né?

Não sei qual delas teve a ideia de fantasiar as crianças!

Tinha criança fantasiada de melancias, outras de goiabas, mangabas, jilós, chucrutes (?) e o Rubinho do arroto todo paramentado de sapo comilão.

O palco ainda com a cortina fechada.

Imagine a confusão atrás da cortina!

Por estarem fantasiadas eu já não reconhecia mais nenhuma das crianças e tinha que ficar gritando com elas coisas estranhas e absurdas como:

– Você aí melancia, tire o ganzá de cima do jiló que toca chocalho e coloque atrás da mangaba…

– Qual mangada tio? A que está perto do berimbau verde, ou a que toca zabumba cinza e fica ao lado da goiaba que tem o pandeiro amarelo? – perguntou a melancia.

– Eu não sou goiaba – disse a mangaba zangada e jogando o pandeiro na cabeça do chucrute que tocava bumbo e estava enchendo o saco da goiaba com agogô que era irmã da melancia de berimbau rosa!

No meio de tudo isso o Rubinho vestido de sapo não parava de arrotar e o baixinho Zé Luís me perguntando o tempo todo:

– Posso peidar, tio?

Sem contar os gêmeos que estavam vestidos de jiló e que queriam a todo custo espantar com a vareta do berimbau a verruga em forma de mosca do bigode da Alfênia.

Terminada a confusão eu consegui colocar todo mundo em seu lugar e dei o ok para o início.

Abrem-se as cortinas.

Começa a música e tudo vai bem até a hora do breque.

Pois é. Quantas pessoas você conhece que são desinibidas, extrovertidas, articuladas e engraçadas, mas que na hora que ouvem a expressão “gravando” borram-se todas e transformam-se em estátua diante da câmera?

Foi o que aconteceu com o Rubinho.

Aquele merdinha arrotou o ensaio inteiro nos ouvidos das meninas, arrotou nos bastidores, no camarim, no palco antes da apresentação e na puta que pariu! Mas na hora em que ele deveria se manifestar… deu branco! O safado amarelou diante do público! Esqueceu a porra da parte dele.

Aquele suspense, cara! Constrangimento total! Todo mundo olhando para o moleque, ele engolindo saliva, se esforçando e nada do arroto sair!

Eu desesperado já estava prestes a fazer nova contagem e continuar com música sem o arroto mesmo, quando de repente surge um vulto vindo correndo dos bastidores e invade o palco!

Era o baixinho Zé Luis!

É na hora do aperto que surge o gênio!

O Zé chegou na beirada do palco, virou-se de bunda para o público e soltou aquele rojão!

PUMMMMVRRRRUMMMMBOARDUMMMMMERMMM!

(Confesso que até vi esvoaçarem os cabelos de algumas pessoas que estavam sentadas na primeira fila).

Muita gente perdeu o ar. Mas todos riram, aplaudiram e a apresentação foi um sucesso!

No final tive que atender uma fila para cumprimentos e recebi até elogios pela “inovação” introduzida naquele ano.

Os anos se passaram.

Recentemente o telefone tocou e era a Alfênia (a Dona Mosca) me convidando pra reger novamente um coro da escola.

Eu disse que ia pensar e desliguei.

Perguntei ao meu filho Thiago o que ele achava da ideia e ouvi:

– Sai fora pai! Mó cu de foca esse lance!

– O que é cu de foca? – perguntei

– Uma fria, pai! Ou você conhece alguma coisa mais fria que a bunda de uma foca que fica sentada a vida toda em cima do gelo?

Tentei achar uma fria maior que essa como resposta, mas só consegui pensar no Brasil sendo conduzido por mais quatro anos pelo Lula…

Mas não comentei não.

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