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O Plano

O Plano

Luciano Pires -


O PLANO


Li o documento oficial que o governo publicou sobre um plano para alavancar o crescimento do Brasil. Gostei muito de um trecho:
 
“Nada mais equivocado do que pensar que […] para promover o desenvolvimento teríamos de aumentar o déficit fiscal. Não o estamos aumentando, porque mobilizamos recursos da sociedade. […] que o controle da inflação e a execução de projetos seriam feitos em detrimento do social, quando, na verdade, está ocorrendo o oposto. Isso é visível, por exemplo, na área de saúde. Basta olhar os índices de queda da mortalidade infantil. Na área de educação, estamos nos preparando para tirar todas as crianças da rua e para lhes garantir acesso às escolas. Enfim, estamos redesenhando o País.
[…]Enfrentar os problemas estruturais e sociais do País com ações gerenciadas, em parceria com a iniciativa privada e com garantia efetiva de investimento. Esse é o princípio básico do Programa…”.

Propostas que causam impacto nas áreas da saúde, habitação, saneamento, emprego, água, turismo, agricultura, educação, comunicações, transportes e energia! Tudo que queríamos ouvir! E – detalhe – assisti junto com um pequeno grupo a apresentação do plano em alto estilo, pelo Vice Presidente da República, em seu gabinete! Eu estava em Brasília coordenando o lançamento de um projeto cultural da empresa em que trabalho – a Dana. Aproveitei a presença no Brasil de dirigentes da empresa e organizei as agendas combinando a inauguração do evento com uma visita de cortesia ao Vice Presidente da República. Ao final da reunião, ele nos levou para um canto onde havia um mapa do Brasil, cheio de indicações relacionadas ao tal plano. E foi nos explicando, entusiasmado, cada um dos projetos para reduzir custos na economia, propiciar o aumento da competitividade do setor produtivo e melhorar a qualidade de vida da população. Bem impressionados, concluímos que, se executado, o plano proporcionaria um salto imenso em direção ao futuro. Parabenizamos o Vice Presidente. Embora a oposição sustentasse que tudo não passava de jogada eleitoreira para a reeleição, era a primeira vez que eu via uma proposta tão ambiciosa, envolvendo vários ministérios, o núcleo do governo e a iniciativa privada. E havia uma sincera vontade de fazer acontecer. Saí de lá contente, esperançoso.
– Agora o Brasil vai!
Mas também saí com uma preocupação: temos capacidade para pôr em prática? Nada acontece, como magia, só porque o Presidente diz que vai acontecer, a imprensa publica e todo mundo fica na expectativa. Planejamento, reuniões e relatórios não podem ser confundidos com ação. E não me refiro a dinheiro, mas à capacidade de execução. Não existe milagre. Sem acompanhamento para assegurar que o que é dito é feito, e sem a eliminação dos que remam contra, por interesses e ignorância, tudo se transforma num caldo de conchavos políticos. Fico tenso…
Um plano dessa magnitude não pode ser realizado por gente pequena. Gente concentrada nas picuinhas. Gente contaminada por ideologias. Um plano como esse exige grandes homens e mulheres. Grandes demonstrações de generosidade. Fui dormir feliz com o plano, mas apreensivo.
Pois bem… Tudo que escrevi acima aconteceu em 1997, quando lancei em Brasília o projeto “Lampião – Uma Viagem pelo Cangaço”. O trecho que mencionei faz parte de um documento oficial do Planalto, que você encontra em
www.planalto.gov.br. O Vice Presidente era Marco Maciel e o plano que nos foi apresentado era o “Brasil em Ação”, que agrupava 42 ações: 16 na área social e 26 na área de infra-estrutura. Muito do que estava no plano foi feito, mas no caminho teve reeleição, crise asiática e russa, desvalorização da moeda e mais um monte de problemas. E o plano simplesmente desapareceu. Ou foi esquecido.
Dez anos se passaram. E agora é a vez do PAC – Plano de Aceleração do Crescimento. Tô com uma sensação de “já vi esse filme”… E medo de que a discussão fique restrita ao conteúdo, enquanto continuamos sem capacidade de execução.
Tomara que a história não se repita em ciclos.